Volta ao Mundo em 80 Horas – V

V – A alta #sqn

Rememorando os últimos eventos: nosso anti-herói, segurando temeroso o lençol que o cobria na altura do pescoço, fitava com um olhar atônito para as moçoilas que queriam desnudá-lo…

– Cumassim? Banho? Aqui na cama, mesmo? Mas não vai molhar tudo?

– O senhor já deve ter percebido que todos os colchões são revestidos de plástico. Com jeito e técnica, apenas duas bacias d’água já são suficientes para lhe dar um banho de leito completo.

Resignado, resignei-me.

Nada daquela história de “paninho”. O negócio foi mesmo na bucha (na realidade, uma esponja…), com bastante sabão e água para tudo quanto é lado. Sim. Inclusive lá. Bem, como sempre digo, trato é trato. Vim para me cuidar, não foi? Então vamo que vamo! Fui desplugado da fiação (sem remover os eletrodos), desconectado do soro, dos medidores de pressão arterial, etc.

– Eu sei que deve ser constrangedor para o senhor…

Constrangedor? Para mim? Imagina! Isso não é nada! Ainda semana passada duas morenas seminuas quase que fantasiadas de havaianas estavam me dando banho, massagem e até mesmo fazendo cafuné! Esse é meu dia-a-dia, querida: sempre estou rodeado de mulheres!

Adoraria poder dar uma resposta dessas, mas, ainda que somente a última parte seja verdadeira (e parte da minha sósifodência vem daí), limitei-me a concordar. Mas sem deixar de alfinetar:

– Verdade, verdade. Mas imagino que a primeira vez que você teve que dar banho em alguém também deve lhe ter sido constrangedor, não é?

Percebi um leve esgar de um sorriso e um momentâneo olhar perdido, como de quem acha graça em algo que, parece-me, já havia esquecido há muito no passado…

Antes de continuar, me permitam esclarecer uma coisa muito importante: como “funciona” o frio em nós, seres do sexo masculino. O melhor exemplo que tenho é a moto – ainda que eu não tenha mais a moto para dar o exemplo. Enfim. Sempre me perguntaram o porquê de andar de moto no inverno ou na chuva, pois seria muito desconfortável. Não, caríssimos, não é. Muitos podem pensar que o grande segredo é manter o peito aquecido (como Ra’s Al Ghul tentou ensinar para o jovem Bruce Waine); isso em parte até que é verdade, pois num dia frio e chuvoso, quando o capacete já não está mais cumprindo seu papel, os pés e pernas estão tão encharcados quanto as mãos e os braços, um peito bem agasalhado até que ajuda. Mas chega uma hora em que até mesmo ele se molha – e mesmo assim ainda é possível resistir. O problema é bem outro.

E, por mais que este seja um blog (quase) de família – e se você tem problemas com o palavreado chulo, pare de ler agora – preciso lhes contar o que é que realmente arrebenta o caboclo numa situação como essa, o que é que, uma vez encharcado, pode fazer com que o desinfeliz passe a tiritar tanto de frio que seja o suficiente até mesmo para cair da moto, o que é que, uma vez atingido pela chuva gelada, não tem mais salvação…

Continuou, né herege?

Mas é isso mesmo.

O saco.

Meu, vocês não têm ideia do que seja isso!

Bom, pelo menos parte de vocês, não…

Uma vez atingido esse órgão vital, o mundo parece desmoronar e se desmanchar ao seu redor. Uma vez afetado, não tem concentração, bebida, comida, carinho ou seja lá o que for que resolva o problema – a não ser, claro, devolver os ovos para um ninho quentinho (e, sim, isso foi uma metáfora…).

Pois bem.

Apesar de todo o constrangimento do banho não tão de paninho assim, até que tudo estava indo bem, comigo sendo ensaboado, literalmente, da cabeça aos pés. Ato contínuo, enxaguar. Uma água até que morninha, com muito jeito e técnica, sem fuzuê, sem encharcar foi sendo usada para tirar o sabão.

– Com licença.

Bem, até hoje nunca ninguém me “pediu licença”, assim formalmente, para mexer com o Little Dick, mas – que fazer? – que assim o seja. E ela simplesmente removeu todo o sabão dele com ÁGUA GELADA. Percebem a zica da coisa? Tudo bem que deve fazer parte do jeito e da técnica (até para evitar que algum abusado fique “confortável demais” com o banho), mas era ÁGUA GELADA, PORRA!

– Vamos lavar as costas agora.

Assim, de ladinho, comecei a tiritar de frio. Mesmo. Tremedeira, gente. E, apesar do clima quente e até da chuva que parecia derrubar o mundo lá fora, dentro da UTI o ar condicionado fica ligado 100% do tempo. Se antes estava fresquinho, agora parecia que tinham me jogado nu em um buraco na neve. E tapado. Vendo o quanto eu tremia, a moçoila ainda me soltou essa:

– Fique calmo, senhor!

– Calmo eu estou, o problema é QUE ESTOU COM FRIO, CARAMBA!!!

Foram mais alguns minutos daquela sessão tortura, secando e enxugando a mim e ao colchão com o que estava à mão até que minha temperatura começou a estabilizar eu a parar de tremer. Antes mesmo que eu perguntasse se já poderia ter de volta minha dignidade (ou seja, no mínimo, minha cueca), ela me veio com um forte jato de desodorante em aerossol pela axila esquerda, pela axila direita, pelo peito, pela boca, pelas narinas, pelos olhos, pela testa…

– Ai, meu Deus! Me desculpa!!!

Foi sem querer. De verdade. Ela ficou extremamente embaraçada, coitada. Mas ainda assim me senti Kafka reencarnado e até mesmo dei uma olhada para meus braços e pernas para ver se não estava me metamorfoseando. Juro que quase senti pena das baratas que já matei. Quase. Mas passou rapidinho.

Agora que estava limpinho, quentinho e reconectado a tudo que tinha que estar, restava-me a árdua tarefa de atravessar a noite de luzes acesas na UTI. Gente, na boa: o que para alguns poderia parecer uma solidão desesperadora, sem ninguém para conversar, nada para ler, nem TV para assistir, para mim foi simplesmente um exercício de tranquilidade. Mesmo o fato de estar sem comer absolutamente nada há mais de um dia sequer me incomodou. Quem me conhece sabe que sempre gostei de estar sozinho, de me perder nos meus pensamentos. E eu estava justamente no melhor lugar para fazer isso, onde somente seria abordado se chamasse alguém – o que, obviamente, não tinha motivo algum para fazê-lo.

Olhei para o medidor de pressão arterial. De quinze em quinze minutos o bendito inflava em meu braço e atualizava os números. Bem diferente dos 15 x 10 de quando dei entrada, estava em 12 x 8, que é o meu normal – e já vinha se mantendo assim em todo o decorrer do dia. Batimentos cardíacos em torno de 56 bpm (batimentos por minuto). Agora, vejam só, vocês podem até achar que é uma viagem minha, mas juro que é verdade: já falei por aqui antes acerca de meditação e técnicas de relaxamento. Como não tinha nada para fazer, resolvi colocar uma teoria à prova e comecei a fazer um relaxamento completo, inclusive reduzindo a respiração (que agora já estava muito bem, obrigado) ao mínimo indispensável. Fiquei olhando para aquele monitor e, plenamente relaxado, quase fora de mim, pude ver os números caírem para 10 x 6 e 44 bpm…

– O senhor está bem?

A enfermeira veio falar comigo no exato momento em que o medidor começou a inflar no meu braço novamente. Sorri e disse que sim, que estava tudo bem. Ela ficou me olhando com uma cara de preocupada, ficou aguardando os resultados do monitor e assim que os números se atualizaram (12 x 8 e 56 bpm novamente), fez uma cara de interrogação, deu uns tapinhas no aparelho e saiu de perto, meio que encafifada…

Pois bem.

Entre um cochilo e outro, atravessei a noite na UTI. Pouco antes da nova troca de turno, Torquemada veio fazer uma visitinha, perguntar se estava tudo bem e se eu realmente não queria fazer uma colonoscopia.

– Cara, essa sua insistência já tá virando ideia fixa! Deixa minhas intimidades em paz, pô! Que fique bem claro: exceto em caso de emergência hospitalar, ali é uma via de mão única!

– No hospital já estamos. Só falta criar uma emergência!

– Nem vem, cara!

– Tá bom, tá bom. Mas só pra você saber: já foi solicitado um ecocardiograma pra você. Assim que o médico fizer, você já deve ter alta, ok? Ele deve chegar aqui lá pelas dez da manhã.

– Beleza!

E realmente o sujeito veio, com sua maleta para fazer um ecocardiograma, que é um procedimento bem parecido com um ultrassom. A que horas? Oito da noite! Bem que eu disse que, comigo, nada é fácil.

Veio, viu, mediu, conversou com o médico de plantão, chegaram num acordo que os risquinhos do eletrocardiograma estavam de acordo com as imagens do ecocardiograma e concluíram que seria aconselhável primeiro fazer um teste de esforço numa esteira (devidamente monitorado, é lógico) e só então avaliar se seria necessária a realização de um cateterismo – que seria a introdução de um cateter (um tubo longo, fino e flexível) por alguma de minhas artérias para verificar a situação das veias. Particularmente eu preferiria a opção de “Viagem Fantástica”, de Asimov, mas creio que não teríamos isso à disposição…

– Pois é, seu Adauto. Como tudo está em ordem e o estado do senhor se apresenta estável, nada mais me resta senão lhe dar alta!

– Quer dizer que…

– Não, não, não. Até já sei o que o senhor vai perguntar. Acontece que vou lhe dar alta da UTI, mas situações como esta são definidas por um protocolo médico e, segundo esse protocolo, o senhor vai ter que passar mais um tempinho aqui em observação, ok?

Não é possível. Eles devem ter cartões personalizados com essa fala decorada. O que era uma visita em busca de um pouco de oxigênio se transformou num pernoite na UTI, a alta que era para de manhã ficou pra noite e agora fechamos em mais uma noite hospitalizado…

– Só que ainda vai demorar mais um pouquinho para que liberem um quarto. Pelo adiantado da hora o senhor gostaria de aguardar ou prefere que lhe deem banho aqui mesmo?

– QUARTO, QUARTO, NO QUARTO, POR FAVOR! Quer dizer… Tudo bem. Eu aguardo. Prefiro aguardar e tomar banho por mim mesmo…

Ele riu e se afastou para cuidar da papelada.

E assim, aproximadamente 36 horas depois, deixei a UTI para trás e retornei para o mesmo quarto em que estive antes. Mais uma vez fui desplugado dos aparelhos, foram removidos os medidores, fui desconectado do soro. Mas o acesso da mão esquerda permaneceu, aquela agulha pendurada ali na veia. Ah, sim, também retiraram os eletrodos. Todos eles. Juntamente com boa parte da pelagem peitoral deste que vos tecla… Nesse meio tempo Torquemada teve o cuidado de avisar a Dona Patroa que eu ainda precisaria passar a noite por ali – até que ele não é de todo sacana. Bem, médio.

Pouco mais de uma hora depois ela chegou com roupas (eu continuava sem lenço nem documento, lembram?), “objetos de higiene pessoal” (ou seja, shampoo, sabonete, escova de dentes, etc), celulares e – vejam só! – dois livros para eu passar o tempo! Tirinhas excelentes em “O livro de ouro de Hagar, o Horrível” e mais um tanto de política e história em “Uma ovelha negra no poder: confissões e intimidades de Pepe Mujica”.

– Caramba, que legal! Adorei! Depois do banho já vou mergulhar nesses livros! Cadê meus óculos?

– Oi?

– Óculos, darling, óculos, lembra? Aquela armação de plástico ou metal, com uma lente para cada olho e que, para pessoas como eu, que não já conseguem mais enxergar absolutamente nada de perto, permitem ao menos o prazer da leitura.

– Xiii…

Dois pares de óculos. Dois. Um multifocal e outro só pra perto. E ambos ficaram em casa, a quilômetros e quilômetros dali. Livros, celulares carregados, tudo à mão e nada ao meu alcance. Eu mereço…

Bem, o jeito seria curtir uma boa noite de sono, sem aparelhos, sem medidores e com a luz apagada – ainda que naquela cama para hobbits. E, segundo o Torquemada, eu já teria alta no dia seguinte, logo pela manhã.

Ao menos era o que eu pensava…

(Continua…)

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