Volta ao Mundo em 80 Horas – VI

VI – Frustrado novamente

Ah, nada como uma hospitalizada noite de sono relativamente tranquila…

Bem, quase.

Após um bom banho quente (de verdade) – mas com cuidado para não ferrar com o tal do acesso que continuava espetado na minha mão esquerda – pude confortavelmente me deitar e ser reconectado a um frasco de soro para passar a noite. Se bem que “deitar” é um ponto de vista. Cama para hobbits, vocês se lembram? Como a noite estava agradável, o jeito foi enrolar o cobertor para usá-lo como almofada e suporte para os pés, bem em cima da… Quer dizer, do… Putz! Como é que se chama o oposto de cabeceira? Peseira? Zaga? Posterior? Ilharga? Retaguarda? Bem, acho que vocês entenderam, né?

Até me deixaram comer de novo! Uma sopinha – que era pra não pesar – mas que sorvi até a última gota do último bocado do caldinho. Podem falar o que for de comida de hospital – que, é óbvio, jamais vai ser como a comida de nossa própria casa -, mas, na minha opinião, estava uma delícia! Ou, talvez, por conta de fazer um dia e meio que não me alimentava de absolutamente nada, pode ser que qualquer coisa remotamente mastigável me pareceria estar extremamente saborosa…

Enfim, de fato, a noite foi tranquila, à exceção das poucas vezes que fui acordado para medir a pressão (cravados 12 x 8 em todas as amostras) e nada comparável à medição de 15 em 15 minutos da noite anterior.

Acordei no horário de praxe (cinco da matina, conforme previamente programado no meu maldito relógio biológico) e, ainda sem óculos, fiquei bestando até dar o horário de começar a aparecer gente.

E, logo cedo, antes do início do expediente, recebi a honorável visita de alguns amigos: Joseane, Marcela e Gil.

Curiosamente o período não estava favorável para pessoas saudáveis… Por aqueles dias minha amiga Dani, que também trabalha lá na instituição, estava com o maridóvski diarreico e a filhota do meio com muita dor (provavelmente pedra nos rins – tomara que não); fiquei sabendo que o sogro de meu cunhado passou mal e teve que ser internado; a própria irmã da Marcela também estava de molho, internada ali na Santa Casa, sob observação; e, bem na minha frente, o Gil havia recentemente feito uma cirurgia e também estava se recuperando.

Aliás, imaginem um caboclo sacana, rápido na resposta, muito bem humorado, carequinha, com um metro e sessenta e poucos de altura e aproximadamente (sei lá, tô chutando) uns 130 quilos. Se ficasse sentadinho, de pernas cruzadas e fosse pintado de dourado, passaria tranquilamente por uma estátua do Buda. Esse era o Gil.

Era.

Dentre outras intervenções que foi obrigado a fazer, decidiu melhorar a qualidade de vida e passou por uma bariátrica, a tal da gastroplastia ou cirurgia de redução de estômago. Somente o conheci após isso, mas eu diria que ele deve ter perdido em peso o equivalente a um saco de cimento. Dos grandes.

Já passados alguns anos e tendo conseguido se manter em torno de setenta e poucos quilos, resolveu que era hora de melhorar ainda mais um bocadinho a qualidade de vida e passou por uma nova cirurgia, desta vez para remover o excesso de pele flácida que restou de seus tempos rechonchudos. Durante a recuperação ele tem que usar uma espécie de “colete de contenção” – parece que, ao menos, até tirar os pontos.

Heh… Depois dessa acho que ele vai querer fazer uma cirurgia para não usar mais óculos. E, talvez, um implante capilar – por que não?…

Bem, apesar de ser eu o internado, estávamos todos curiosos sobre como ele estava. Conversamos um pouco e ele resolveu mostrar a tal da cirurgia. Tirou o colete, que deve ter uns quinhentos colchetes para abotoar e, bem nessa hora, me chega o Torquemada.

– Mas que zorra é essa???

Explica daqui, justifica dali, se envergonha dacolá e eu, sentado na cama, me matando de rir da cara do povo! Rapidinho, enquanto ainda explicava tudo, foi reabotoando os colchetes até que chegou no último. Errou de casa no primeiro e ficou tudo fora. Toca a desabotoar e abotoar tudo de novo. Roxo. E eu se rindo até me acabar!

Não demorou muito cada um tomou seu rumo, enxuguei as lágrimas do acesso de riso e começamos a conversar um tanto.

– É, parece que não tem jeito mesmo. Você não vai fazer a colonoscopia…

– Caceta, ainda essa história? Larga mão disso, cara! Será que hoje me liberam? Já deixei tudo arrumadinho e no esquema pra levantar voo…

– Provavelmente sim. Quem vai levar você embora?

– Ah, tô com o carro ali no estacionamento do trabalho e…

– NÃO, NÃO, NÃO! O senhor não vai dirigir. Hoje não.

– Mas, mas, mas…

– Sem “mas”. Arranje alguém para te levar e dê um jeito de pegar o carro depois.

Nisso chegou a Dona Patroa.

E – graças a Deus – com meus óculos!

Começamos a tabular uma conversa sobre como ir embora e ela já falou que nosso amigo Flávio se dispôs a levar o carro. E eu disse que também poderia contar com (quase) qualquer um lá do serviço que, tinha certeza, não se negaria a ajudar. O próprio Torquemada também se colocou à disposição. E o Ronaldo disse que não nos preocupássemos porque ele estava ali pra isso mesmo.

Oi?

Ronaldo?

Sim, Ronaldo, um amigo lá do serviço e que trabalha diretamente com a Chefa. Quando foi que ele chegou? Como foi que ele se materializou ali, do nada, e já foi entrando na conversa?

– Que é que você tá fazendo aqui, cara?

– Ah, é que a Chefinha pediu que, se fosse possível, eu te levasse pra casa, já que você vai ter alta hoje.

É como eu já disse antes: sendo quem é, já sabia de tudo que estava acontecendo, o que eu poderia ou não fazer, e, inclusive, quais seriam os próximos passos…

Pois bem, o negócio agora era aguardar o médico de plantão para um rápido proseio, me dar alta, enfiar a viola no saco e tomar o rumo de casa. Lá pela metade da manhã ele veio. Só que ele não era ele, era ela. Uma gordinha com cara de simpática que veio chegando, com a prancheta na mão, deu uma olhada pra mim e já foi tagarelando:

– Seu Adauto, né? Vi aqui o que lhe aconteceu e, na minha opinião, ainda faz muito pouco tempo do ocorrido. Isso porque situações como esta são definidas por um protocolo médico e, segundo esse protocolo, o senhor vai ter que passar mais um tempinho aqui em observação, ok?

Assifudê!!! Eu bem disse que eles devem ter cartões personalizados com essa fala decorada!

– Seu Adauto? Tudo bem?

– Não vou esconder a frustração de que vou ter que ficar mais um pouco por aqui, mas, paciência. Até amanhã, então?

– No mínimo, até sábado.

Mais dois dias! Caceta! Pelo menos eu teria tempo de sobra para ler os livros que estavam comigo, agora que eu já estava com meus óculos. A essa altura o Torquemada já tinha saído para rir longe da médica. Pedi mais uma muda de roupa para a Dona Patroa e, quando fui falar com o Ronaldo… Cadê? Puf! Sumiu! Como será que ele faz isso?…

Não demorou muito, ele ressurgiu e expliquei-lhe a situação. Não sem rir (da minha cara), ele ainda se colocou à disposição quando eu, de fato, saísse.

Novamente sozinho, resolvi que deveria esclarecer para a Chefa, de maneira adulta, coerente e salutar, o que havia ocorrido e o porquê não seria necessário que nosso amigo Ronaldo ficasse por ali. Como eu iria lhe mandar uma mensagem de texto, pensei um pouco, busquei no fundo do meu coração palavras conciliatórias, basicamente não ofensivas e que pudessem resumir a peculiar situação em que eu me encontrava. Saiu isso:

– A VACA DA MÉDICA NÃO ME DEU ALTA!!!

Ela riu, me recomendou que ficasse descansando, me cuidando, e que se assim não o fizesse ia pedir para a Dona Patroa tomar meus telefones. Como última “recomendação médica” me aconselhou a ficar quietinho no meu canto, só lendo coisa boa.

Melhor obedecer, né?

Antes de desligar os aparelhos (celulares, não os hospitalares – até porque já não estava mais conectado a nenhum), ainda troquei uns zaps com os amigos Nando e Fred, lá do Sr. Barba, atualizando-os do que aconteceu. Como são de uma sensibilidade ímpar me mandaram uma foto deles próprios tomando suas brejas e o Nando já antecipou que vai deixar lá na barbearia um estoque de Kronenbier (uma tradicional cerveja sem álcool). Fiadasputa.

Já entubado (não literalmente falando) pelo que me aguardava e pronto para me dedicar a horas de ócio somente na leitura, ainda recebi a visita de mais dois queridos amigos que estavam bem preocupados com minha situação: o caríssimo Casal Lux-Nerd… E que, inclusive me trouxeram mais alguns livros! Vejam só os títulos:

– “Três Dedos: um escândalo animado”;

– “Ser feliz”;

– “O oceano no fim do caminho”;

– “Andar do bêbado”; e

– “Obrigado por fumar”.

De fato é bem como diz o ditado: dá dinheiro, mas não dá intimidade. Tô cercado de humoristas. Ô bando de amigos tiradores de sarro que eu tenho!

Bem, novamente sozinho, agora era só questão de aguardar mais dois dias para a alta. Mas, lembrem-se: comigo nada é fácil! Até as expectativas quando dão certo, acabam dando errado. E essa era a lição que eu iria aprender no dia seguinte.

(Continua…)

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