Os Barbeiros

Cabelo é um negócio complicado…

E, no caso das mulheres, é uma complicação elevada à enésima potência! As que têm cabelos lisos, querem cacheados, as cacheadas alisam, as de cabelo longo vivem ensaiando cortar, enquanto as de cabelo curto não veem a hora de crescer, as morenas ficam loiras, as loiras ficam morenas, enquanto que as ruivas… Ah, as ruivas…

Desculpem aí. Se perdi.

Enfim, à parte desse complicado mundo feminino, não pensem que o mundo masculino é lá tão fácil. Não por toda uma eventual metrossexualidade implícita (ou explícita) deste ou daquele, mas porque cabelo de homem é foda. Ou, melhor dizendo, o MEU cabelo é foda. Apesar de, numa longínqua infância, já ter sido loiro e com cabelos lisos, meu cabelo hoje é meio que uma capina roçada pelo vento, onde cada haste resolve crescer para um lado. E se já não bastasse essa complicação, um rodamoinho perdido e um tufo do lado esquerdo teimam em sempre dar as caras. Por isso, no meu caso, não basta cortar: tem que saber cortar.

Durante muitos e muitos anos havia um cabeleireiro no centro da cidade que “acertou a mão” comigo. Mas o desinfeliz resolveu voltar pra terrinha dele e eu fiquei no vácuo. Daí, próximo ao trabalho, na cidade ao lado, fiz algumas tentativas num e noutro cabeleireiro somente para chegar à fatídica conclusão: não ia rolar. Ainda que espécime em extinção, decidi procurar um barbeiro. Barbeiro de verdade. Não iria novamente expor minhas madeixas ao alvedrio de quem achava que sabia o que fazer – só que não.

Mas a vida – a vida! – é uma caixinha de surpresas! E numa bela manhã de sol, passando distraidamente em frente a uma porta de vidro, algo me chamou a atenção. Uma cadeira de barbeiro. De barbeiro! Naquele momento não tinha ninguém naquele salãozinho de espartanas instalações. Dei uma filmada: na bancada um pincel de barba dentro de uma cumbuquinha, apenas duas tesouras num pote, uma navalha repousava ao lado dessas tesouras, um grande espelho em frente à cadeira, um pequeno pendurado a um canto e mais um armário de duas portas noutro. E só. Pensei comigo mesmo: “comigo mesmo, esse é o cara”.

Voltei noutra hora e conheci o dono do local, o grande Barbeiro (sim, Barbeiro com “bê” maiúsculo): “Seo” Titico. E, apesar do tamanhinho desse senhor, o nome dele é esse mesmo. Ou melhor, sobrenome. Pensando um pouco no assunto, creio que isso tudo aconteceu já tem uns dez anos. E, desde então, nunca mais deixei de frequentar a barbearia do único cara que conseguiu acertar o corte do meu cabelo, a um preço camarada e um proseio de primeira. Até recentemente…

É que o Seo Titico, por melhor pessoa que seja – e É -, também é daqueles senhorzinhos que adoram um proseio. Até aí, tudo bem, eu também. Mas, vejam bem, o proseio dele é daqueles que ao lembrar de um causo ou um fato curioso, simplesmente para o que está fazendo, dá um passinho pra trás e começa a contar a trama. O que eleva o tempo de corte de uns 20 minutos para pelo menos uma hora e meia. E, invariavelmente, meu tempo disponível para cortar o cabelo sempre foi o curto horário de almoço, sempre no meio de uma agenda pra lá de atribulada. Deixar o corte para os finais de semana também seria difícil, pois implicaria em ter que ir para outra cidade só pra isso. E o que era bucólico e até mesmo divertido, começou a ficar complicado. Tanto quanto meu cabelo.

Então, eis que há coisa de uns 4 ou 5 meses, li em algum lugar (jornal, tv, Twitter, Facebook, site de notícias, agregador de blogs – sei lá o quê!) acerca de dois sujeitos que teriam montado uma barbearia no estilo “das antigas”, até mesmo com um visual meio retrô – e, melhor ainda, perto de casa! De cara já me interessei, pois já há algum tempo eu vinha acompanhando esse movimento de “resgate” a esses locais destinados a um público masculino, tendo como exemplo a Barbearia Corleone, em Sampa. Resolvi descobrir um pouco mais e, fuçando daqui e dali, principalmente nos Facebooks da vida, consegui levantar algumas imagens do local: decoração de primeira, com esmero nos detalhes, ao fundo – vejam só! – uma mesa de bilhar e um freezer com cerveja gelada! Agora sim estávamos falando o mesmo idioma!

Com um pouco de custo encontrei o local (maldita reportagem que não deu o endereço!) e, lá chegando, conheci os dois desbravadores da Zona Sul: Fred e Nando. Proseamos um bocado – até porque, como fazia pouquíssimo tempo que tinham inaugurado, praticamente não tinham muita clientela – ambos passaram os primeiros dias de portas abertas, mas, sem trabalho, ficaram se aprimorando na bela arte do bilhar de boteco…

Mas, como era de se esperar, mesmo sem uma “propaganda formal”, graças ao excelente serviço (sim, eu também testei e aprovei) e, creio eu, às redes sociais, a fama foi crescendo de maneira diretamente proporcional à clientela. Cabeludos, estilosos, barbados e barbudos, bem como hipsters dos mais diferentes estilos começaram a frequentar essa barbearia com o sugestivo nome de “Sr. Barba“. Assim como eu.

E o mais interessante, além mesmo do estilo e da técnica, é que são eles é que dão o tom diferencial. Ambos também com suas esmeradas barbas, tatuagens das mais diversas, mas com um proseio leve e sempre bem humorado – mesmo quando estão reclamando de alguma coisa! Somente os dois é que cuidam de tudo, desde o abastecimento da geladeira, passando pela limpeza, compra de produtos, administração, etc. E ainda trabalham pra cacete! Já pensaram? Ficar nunca menos de oito horas ali, em pé, sem folga, dando o melhor de si e ainda mantendo o bom humor? É por isso mesmo que não tem como não ser um ambiente “do bem”, lugar onde é gostoso estar e participar. Mais que uma barbearia, aquilo é uma verdadeira comunidade, onde se encontram as mais diversas pessoas dos mais diversos locais, dos mais diversos níveis econômicos e/ou sociais. Ainda ontem estive lá e enquanto esperava minha vez matei as saudades dos velhos tempos e joguei algumas partidas de bilhar com alguns ilustres desconhecidos (de cinco, ganhei quatro…), tive ótimos proseios, dentre outros, com um sujeito que é instrutor para pilotos de motos de velocidade e um militar lá de Caçapava, daqueles em que a conversa flui leve e solta. Tudo isso, lógico, acompanhado de um ótimo rock ao fundo, bem como algumas boas e geladas brejas…

E levou apenas umas duas ou três horas para que eu fosse atendido! Como? Tudo isso? Não, vocês não estão entendendo… Foi isso… É que quando você está num ambiente desses as horas simplesmente passam voando, mal se percebe! É como diz aquele velho ditado: “Terapia pra quê? Vai pro bar!” Ou, no caso, pra barbearia… (Ai!)

Agora creio que vocês devam estar se perguntando o porquê deste texto… Propaganda? Publicidade? Jabaculê? Nada disso. Simplesmente, como sempre fiz, estou neste nosso cantinho virtual compartilhando aquilo que acho que é bom, aquilo que acho que é Legal. Se isso ajudar a arranjar mais um ou dois clientes para eles, zuzo bem. Fico feliz.

Mas mais do que isso, devo confessar que minha motivação foi outra… Acontece que um infeliz foi lá na página do Sr. Barba, no Facebook, e fez uma “avaliação” alegando uma “falta de respeito” com a clientela, que “esperou mais de uma hora” pra ser atendido e desistiu e que (isso não foi ao ar) estava com o pai no hospital e não poderia esperar. Por tudo que eu já escrevi aí em cima vocês já puderam notar que não é nada disso – o sujeito não compreendeu e sequer assimilou a boa energia que emana do lugar. Mas, disso tudo, dois pontos são gritantes na minha opinião. Primeiro: a “mais de uma hora” dele foram cravados 22 minutos e, sendo o primeiro da fila, não teve a mínima paciência de aguardar todo o procedimento que envolve abrir um comércio logo pela manhã, entre destravar portas, arrumar equipamentos, cuidar da limpeza básica. E, segundo: carái, véi, se seu pai tá no hospital, que é que você tá fazendo numa barbearia? Cuidando da aparência? Preparando-se para uma selfie com o velho no leito hospitalar? Pessoas normais estariam o tempo todo do lado da cama e não buscando sarna pra se coçar e botando defeito na casa dos outros!

Contudo é assim mesmo. Sempre tem que ter um pra aporrinhar. E até que é legal, pois imaginem se fosse sempre uma unanimidade? Que coisa chata! Não ia ter assunto nem pra falar mal, nem mesmo pra escrever um texto como este!

Então, caríssimos Fred e Nando, creiam-me: vocês estão, sim, fazendo um excelente serviço nessa excelente comunidade que criaram e que está singelamente disfarçada de uma barbearia com o nome de Sr. Barba

Continuem assim.

Sempre!

Emenda à Inicial: Já estava quase esquecendo daquele pouquinho de cultura inútil que teimo sempre em buscar… Até meados do século XIX, os barbeiros faziam não somente os serviços de corte de cabelo e barba, mas também tiravam dentes, cortavam calos, realizavam até mesmo pequenas cirurgias, dentre outras coisas. Por não serem profissionais, seus serviços não raro deixavam marcas insanáveis nos pacientes, quando não lhes tiravam a própria vida! A partir de então passou-se a denominar todo e qualquer “serviço ruim” através da nada gentil expressão “coisa de barbeiro”. Mas esse termo é original de Portugal, pois a associação de “motorista barbeiro”, ou seja, um mau motorista, é tipicamente brasileira…

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