Invenção perfeita?

Vocês têm NOÇÃO de que um dos “instrumentos” que vocês usam provavelmente diariamente (ao menos eu espero que sim) foi inventado há cerca de 135 anos e permanece praticamente inalterado até os dias de hoje?

Para vosso “conhecimento técnico”, segue abaixo o pedido de patente feito em 1891 (via Google Tradutor, pois eu estou com preguiça):

ESCRITÓRIO DE PATENTES DOS ESTADOS UNIDOS.

SETH WHEELERR, DE ALBANY, NOVA IORQUE.

ROLO DE PAPEL HIGIÊNICO

ESPECIFICAÇÃO que faz parte da Patente nº 465,588, datada de 22 de dezembro de 1891.
Pedido apresentado em 8 de junho de 1891 – Nº de Série 395.473. (Sem modelo.)

A quem possa interessar:

Saibam que eu, SETH WHEELER, da cidade e condado de Albany, Estado de Nova Iorque, inventei certas melhorias novas e úteis em rolos de papel higiênico; e declaro que a descrição a seguir é completa, clara e exata, com referência aos desenhos anexos, que fazem parte desta especificação.

Minha invenção consiste em um rolo de folhas de papel conectadas para uso higiênico, dito rolo tendo incisões em intervalos que se estendem da lateral da bobina em direção ao centro, mas sem se encontrarem, e terminando em um corte angular, permitindo que a leve conexão restante seja separada sem danificar as folhas conectadas. Uma dificuldade com bobinas desse tipo, fabricadas até então, devia-se à largura da ligação que unia as folhas, a qual precisava ser consideravelmente resistente para suportar a tensão do enrolamento, mas que era desejável ser o mais estreita possível quando a bobina fosse desenrolada; caso contrário, as folhas não se separavam com certeza e muitas delas rasgavam. Tentativas foram feitas para remediar isso por meio de incisões na ligação que não a enfraquecessem longitudinalmente; mas tais incisões são pouco eficazes, a menos que as folhas sejam puxadas em uma determinada direção – uma condição que o usuário raramente considera ou da qual está ciente. Em minha bobina aprimorada, supero isso completamente reduzindo a ligação e terminando as incisões laterais em um corte angular, eliminando qualquer possibilidade de danificar as folhas ao separá-las. Com essa construção, uma folha pode ser separada da seguinte sem o risco de as incisões girarem em uma direção paralela à teia e rasgando uma parte considerável da folha contígua. Ao mesmo tempo, enrolo rolos contendo qualquer número desejado de folhas.

Nos desenhos, a Figura 1 é uma vista do meu rolo de papel com incisões arqueadas e serrilhadas com uma folha pendurada nele. A Figura 2 representa uma folha de papel destacada.

O rolo é composto de muitas folhas conforme b, na Figura 2, de papel macio adequado para uso de higiene pessoal. Essas folhas são produzidas por incisões arqueadas e serrilhadas, como mostrado em c’ c” c”‘ na Figura 1, que se estendem da borda de cada folha quase até o centro, onde as incisões terminam em um corte angular na direção do rolo e da linha central da série de folhas, deixando uma leve conexão d, que serve para manter as folhas juntas. O corte angular serve para dar ao rasgo final, quando a folha é separada, uma direção para a linha central da série de folhas e evitar que ele siga um curso paralelo a ela. As incisões são feitas suficientemente espaçadas para dar uma folha de papel adequada para uso, conforme mostrado na Figura 2.

A conexão d, conforme mostrado na Figura 1, permite o fácil corte de uma folha de papel de um rolo, que permanecerá intacta e sem gerar resíduos. O modo curvo de dividir as folhas permite encontrar a extremidade de uma folha mais facilmente, e as serrilhas auxiliam materialmente pra prender a extremidade de uma folha quando esta não estiver pendurada em um rolo; porém, não me limito a esta construção, pois é óbvio que uma terminação angular pode ser dada a incisões que não sejam curvas nem serrilhadas.

Eu reivindico —

Um rolo de papel parcialmente dividido em folhas por incisões laterais que se estendem das laterais da bobina em direção ao centro das folhas, cada folha sendo conectada à seguinte por uma lingueta em forma de A, substancialmente como descrito.

SETH WHEELER.

Testemunhas:
E. J. WHEELER,
WM. A. WHEELER.

E para quem duvidar, eis aqui uma cópia do pedido original:

A advocacia na economia da atenção

Egon Bockmann Moreira
Professor Titular da Faculdade de Direito da UFPR.
Advogado.

Em meio ao excesso de informação e imediatismo, deafio profissional é preservar discernimento e ética

Ao longo de quase quatro décadas de advocacia, vivenciei mudanças profundas na profissão. Algumas foram ruidosas: uma nova Constituição, a expansão do sistema judicial, mais de um milhão de colegas, o surgimento das agências reguladoras, a multiplicação de leis e de meios de comunicação. Estas são mais fáceis de visualizar e manejar.

Outras, todavia, se impuseram de modo bastante mais discreto e, justamente por isso, talvez tenham sido mais determinantes. Entre estas últimas, nenhuma me parece tão significativa quanto a alteração da forma como lidamos com a informação e, sobretudo, com a atenção. Ou, mais exatamente, a passagem da atenção de condição do trabalho intelectual a objeto de apropriação econômica.

Durante muito tempo, a atenção era apenas o pressuposto silencioso da atividade intelectual. Hoje, ela passou a ser disputada, organizada e monetizada. Fala-se em economia da atenção quando o valor econômico se desloca da informação em si para a capacidade de capturar e manter a atenção dos indivíduos. Plataformas digitais, algoritmos e sistemas de inteligência artificial estruturam fluxos informacionais não com vistas à compreensão, mas para reter continuamente o tempo mental dos usuários. O critério dominante deixou de ser o esclarecimento e passou a ser o engajamento. A advocacia não é – e nem pode ser – indiferente a essa mutação estrutural.

Afinal, nunca foi tão simples acessar informações jurídicas. Leis, precedentes, votos, pareceres e textos doutrinários tornaram-se imediatamente disponíveis. Informações nacionais e estrangeiras, presentes e passadas, encontram-se a um clique de distância. Ferramentas de busca avançada, jurimetria e sistemas de IA ampliaram esse acesso de maneira inédita. O discurso que acompanha esse processo enfatiza eficiência e rapidez. O que raramente se examina é o fato de que tais instrumentos operam em um ambiente que recompensa a reação imediata e trata a demora reflexiva como ineficiência.

A prática profissional ensina, no entanto, que acesso não se confunde com compreensão. No Direito, a velocidade pode até ser útil, mas também instala o risco de comprometer o julgamento. Por isso que tenho que a tecnologia só fortalece a advocacia quando é manuseada com critério. Ela é valiosa para localizar informações, organizar dados e aliviar tarefas mecânicas. Não é capaz, porém, de substituir o núcleo duro da profissão: a capacidade humana de efetivamente compreender o caso, formular hipóteses atributivas de sentido aos materiais disponíveis, confrontar alternativas incompatíveis, avaliar consequências e responder pelas escolhas feitas.

É nesse ponto que a distinção entre informação e formação ganha relevância concreta. A informação é cumulativa e não decorre apenas da procura, mas também da oferta que a estrutura, a orienta e, muitas vezes, a induz. Em contrapartida, a formação é seletiva e consiste justamente na capacidade de dissociar, hierarquizar e recompor as informações disponíveis. No exercício da advocacia, essa distinção tem caráter operativo, eis que a identificação de normas, citações doutrinárias ou precedentes é apenas a antessala.

O trabalho jurídico propriamente dito começa quando o advogado raciocina e decide o que merece ser considerado, o que deve ser descartado, qual tese é defensável e qual, embora possível, não é aceitável; quando escolhe uma estratégia que atenda ao interesse do cliente sem corroer a coerência institucional do sistema jurídico. Quando, de posse das informações, protege ativamente a ética profissional.

O desafio contemporâneo, portanto, não é a escassez de informação, mas o seu excesso indiferenciado. Quando tudo parece igualmente relevante, o tudo equivale ao nada e o raciocínio perde direção. Hoje é trivial reunir, em poucos segundos, precedentes amplamente citados, acompanhados de ementas bem redigidas e até de peças processuais prontas. O verdadeiro trabalho começa quando se pergunta por que certo entendimento se consolidou, em que contexto institucional foi afirmado, se responde efetivamente ao caso concreto ou apenas o recobre formalmente. Essa capacidade de discernimento é o que permite que o excesso de informações deixe de ser tóxico e se converta em uma solução jurídica.

Mais ainda: a advocacia começa mesmo quando consegue identificar o bem jurídico que se busca preservar: dignidade?, legalidade?, segurança jurídica?, isonomia?, previsibilidade?, autoridade institucional? Dessas indagações – e de sua combinação – depende a qualidade do trabalho jurídico. Não há qualquer ferramenta tecnológica capaz de as responder por conta própria, porque nenhuma assume o encargo da decisão.

Esse deslocamento ajuda a compreender um aspecto central do momento atual. O problema não é a diminuição da capacidade intelectual, mas a efetiva alteração do regime de atenção. A leitura fragmentada, a confiança excessiva em resumos e ementas, a replicação automática de argumentos e a delegação acrítica do raciocínio não eliminam a inteligência, mas reduzem a densidade do pensamento. Tornam mais fácil – e bem mais tentador – obter resultados imediatos, ainda que acompanhados do risco de que eles tragam consigo alucinações digitais.

No Direito, essa redução é particularmente sensível. O raciocínio jurídico exige encadeamento lógico, memória institucional, atenção às exceções e sensibilidade às consequências. Quando a atenção se torna escassa (em vista do excesso de oferta do produto “informação”), o julgamento tende a ser substituído pela repetição acrítica. Esse é um problema que necessita ser levado à luz e enfrentado.

Depois de tantos anos de advocacia, parece-me que a profissão não enfrenta uma ameaça tecnológica propriamente dita. O risco está na incorporação impensada de um ambiente que transforma a atenção em mercadoria e relega o julgamento a um papel secundário. A tecnologia que realmente serve ao Direito é aquela que libera tempo e concentração para aquilo que permanece insubstituível: decidir com responsabilidade.

Lagartixada jurídica

Esta eu roubartilhei lá do Linkedin, do post da advogada Maria Francimar Neiva (Advogada. especialista em Direito Empresarial, Tributário e Família. Palestrante. Fundadora e CEO do Advogado Fora da Caixa):

Surreal, mas, na real, Oficial de Justiça desiste da citação após encontrar lagartixas. No Brasil Jurídico, até lagartixa pode virar obstáculo processual…

Entre o Medo e a Certidão: As Lagartixas que Impediram a Diligência.

O mais curioso é que, no processo civil brasileiro, a criatividade dos fatos às vezes supera até a imaginação das próprias partes.

Esse foi o dia em que duas lagartixas entraram para os Autos do Processo. O jurisdicionado esperando a citação, o advogado acompanhando prazo, o juiz cobrando andamento e o ato não aconteceu porque duas lagartixas estavam exercendo função intimidatória na campainha.

A poeira foi apenas o agravante ambiental.

Daqui a pouco o CPC vai precisar prever: Art. XY, suspende-se o ato citatório em caso de réptil hostil ou ambiente excessivamente empoeirado.

Brincadeiras à parte, é exatamente esse tipo de situação que faz muita gente achar que determinadas histórias jurídicas são fake. Mas quem vive a advocacia sabe, o Direito brasileiro tem episódios que nem o melhor roteirista teria coragem de escrever.

Emenda à Inicial: a ação, no caso, é de “Insanidade Mental do Acusado”. Perguntei aos meus curiosos botões se essa qualificação não poderia ser estendida ao próprio Oficial de Justiça. Eles simplesmente fizeram cara de paisagem…

O Mundo Neuro Explodiu

Eduardo Marcondes
É jornalista há mais 20 anos, com ênfase na atuação em rádio e televisão.
Foi repórter, editor e apresentador, com passagens por diversas emissoras
com sede na capital paulista, principalmente o Grupo Bandeirantes e o SBT.
Atualmente faz pós-graduação em Marketing Digital e Mídias Sociais

Crônica publicada no Blog do Eduardo Marcondes em 08/05/2026.

Hoje em dia tá puxado. Tudo começou discretamente, quase inocente. Apareceu o neurologista. Certo. Faz sentido. O cara cuida dos seus neurônios — essas pequenas maravilhas elétricas que ficam no seu cérebro mandando mensagens uns para os outros como se fossem vizinhos fofoqueiros numa lista de WhatsApp. Um neurônio recebe um sinal, passa para o próximo, que passa para o seguinte, e assim seu braço levanta, seu coração acelera, você lembra que esqueceu o aniversário da sua mãe. Tudo bem. Médico de neurônio. Aceitável.

Daí veio a neuropsicologia. Aí começou a bagunça. A neuropsicologia é a ciência que resolveu juntar o cérebro com o comportamento — como se não bastasse um ser complicado, precisavam complicar os dois ao mesmo tempo. O neuropsicólogo olha pro seu cérebro e diz: “interessante, a forma como você procrastina às 23h sugere uma disfunção no seu córtex pré-frontal.” Você responde: “ou então eu tô com preguiça.” Ele insiste. Você desiste. Afinal, ele tem diploma.

Logo depois surgiu a neuropedagogia e eu já comecei a ficar um pouco confuso. Neuropedagogia é quando a pedagogia olhou pra neurociência e falou: “posso entrar também?” É o estudo de como o cérebro aprende. O que, convenhamos, é uma ideia magnífica — exceto pelo fato de que toda criança de 6 anos já sabia que aprende melhor brincando, e não precisou de nenhum escâner para descobrir isso.


Mas aí a coisa foi escalando. Foram chegando, um a um, como convidados que ninguém chamou para a festa: a neurociência cognitiva, que estuda como você pensa. A neuroeducação, que estuda como você aprende a pensar. A neurolinguística, que estuda como você fala sobre o que pensa. A neuropolítica, que estuda por que você vota em quem você pensa que vai resolver o que você aprendeu que é problema. E a neuroeconomia, que descobriu que você gasta dinheiro de forma irracional — novidade que qualquer dono de mercadinho já sabia há cinquenta anos.


Daí virou bom humor total. Abriu-se o banquete.

Hoje tem comida neuro. Alimentos que ativam, estimulam, nutrem, potencializam e praticamente fazem seus neurônios dançar. A amêndoa agora não é mais amêndoa — é um neurocognitivo funcional de alta biodisponibilidade lipídica. O café é uma bebida de modulação dopaminérgica com efeito estimulante no sistema de recompensa. Tradução: amêndoa e café. Sempre foi amêndoa e café.

Tem neurovisagismo — que analisa o formato do seu rosto para entender sua personalidade. Espera. Isso não era frenologia? Não, não. É completamente diferente. A frenologia analisava o crânio. O neurovisagismo analisa o rosto. Completamente diferente. Totalmente.

Tem neurocabeleireiro. Juro. O profissional que, ao cortar seu cabelo, leva em conta sua neurologia, seu estado emocional, os hemisférios cerebrais e a harmonia energética do seu ser. O resultado é um corte que te faz sentir bem. O que, se você parar para pensar, é exatamente o que qualquer bom cabeleireiro sempre fez — mas agora com um nome mais caro.

E tem o neurofitness. Exercícios que não apenas malharam seu corpo, mas reprogramaram seus circuitos neurais. Você não faz agachamento. Você está estimulando a neuroplasticidade motora e o eixo hipocampal-cerebelar. Você não corre. Você modula sua resposta ao cortisol através de protocolos aeróbicos de ativação frontal. O resultado? Você cansa igual. Mas chega em casa achando que ficou mais inteligente.


Sério, agora: o estudo dos neurônios importa — e muito.

As descobertas sobre o funcionamento cerebral revolucionaram a medicina, a educação e a psicologia. Compreender como os neurônios se conectam, como se perdem nas doenças degenerativas, como se reorganizam após um acidente vascular — isso salva vidas e muda a qualidade delas.

Mas o estudo do cérebro humano é genuinamente difícil. Extraordinariamente difícil.

A ressonância magnética funcional consegue detectar pequenas alterações no fluxo sanguíneo e na oxigenação dos tecidos cerebrais onde ocorre ativação neuronal — mas ela mostra onde o sangue flui, não o neurônio em si disparando. É uma sombra da atividade, não a atividade. O desenvolvimento da ressonância magnética e da tomografia por emissão de pósitrons revolucionou a imagem cerebral, proporcionando uma visão detalhada da estrutura e função do cérebro vivo — mas há limites que a física impõe e a medicina ainda respeita. Dr. Erich Fonoff.

Quando não basta observar de fora, existe a craniotomia com paciente acordado — sim, abrem a cabeça e o paciente conversa com os médicos durante a cirurgia. A cirurgia com paciente acordado combinada com ressonância magnética intraoperatória permite identificar áreas residuais de tumor não visíveis ao neurocirurgião — e o paciente permanece consciente justamente porque o cérebro não tem receptores de dor. A cabeça dói. O cérebro, não. NIH.

E quando acontece o acidente que ninguém esperava — aí a ciência aprende com a tragédia.

Em 1848, Phineas Gage sofreu um acidente no qual uma barra de ferro de cerca de 1 metro foi lançada diretamente em seu crânio, atravessou seu cérebro e emergiu do outro lado, causando danos graves ao seu córtex pré-frontal. Ele sobreviveu. E foi aí que a neurologia aprendeu algo que não conseguia aprender de outra forma: antes considerado um trabalhador responsável e respeitado, Gage se tornou impulsivo, rude e incapaz de controlar suas emoções. O caso da barra de metal sinalizou as bases biológicas em que se apoiam processos psicológicos abstratos, como a gestão de emoções e a tomada de decisão. NeuroConhecimento.

Uma barra de ferro ensinou à humanidade que a personalidade mora no lobo frontal. Às vezes o conhecimento vem de onde menos se espera — e doendo muito, muito mais do que uma sessão de neurofitness.


Bem. Chegamos ao fim.

Este texto foi escrito por mim — um neurocronista —, que atingiu com precisão cirúrgica os circuitos de atenção do seu córtex pré-frontal, ativou sua amígdala com pitadas de humor, modulou seu sistema de recompensa com informação relevante e ancorou memórias afetivas com o uso estratégico da ironia.

Em outras palavras: apliquei neuromarketing em você.

Espero que tenha gostado.

Seu cérebro, com certeza, gostou.