Pais e Filhos

Você me diz que seus pais não entendem
Mas você não entende seus pais
(…)
São crianças como você
‘O que você vai ser quando você crescer?’
(Pais e Filhos, Legião Urbana)

        

O cartaz de meu primeiro Dia dos Pais com o Kevin, a tampa da caixinha porta-treco
(que uso até hoje) que ganhei do Erik e “arte” feita pelo Jean…

Dia dos Pais… Trata-se de uma data comemorativa para homenagear a paternidade, atualmente celebrada no segundo domingo de agosto – e que neste ano de 2020 cairá no próximo dia nove.

Ainda que em outros países seja celebrado em datas diversas, no Brasil somente foi comemorado pela primeira vez em 1953 – tendo sido “pensado” por um publicitário chamado Sylvio Bhering, à época diretor do jornal O Globo (do grupo empresarial de Roberto Marinho), um tanto com objetivos sociais – homenagear, de fato, os pais – quanto com nada nobres objetivos comerciais – movimentar a sociedade de consumo em busca de presentes para esse dia. Inicialmente a tentativa foi associar a data ao dia de São Joaquim, pai de Maria, mãe de Jesus Cristo (16 de agosto no calendário litúrgico da Igreja Católica), mas já nos anos seguintes a data também foi deslocada para um domingo, certamente por ser um dia mais fácil de se reunir a família, no caso o segundo domingo do mês de agosto – e assim permanece até hoje.

Apesar de seu apelo inicial ao consumismo, a comemoração do Dia dos Pais acabou ficando arraigada na sociedade brasileira, sendo uma data em que muitos filhos, ainda que distantes, se lembram de mandar ao menos um “oi” para seus pais – o que se torna muito mais relevante nestes tempos de pandemia e de forçado isolamento social. É, enfim, uma data em que um pai gostaria de se sentir amado e lembrado por seus filhos.

Mas, na minha livre interpretação da letra da música Pais e Filhos, do Legião Urbana, todo pai já foi também um filho. E mais: também teve por sua vez seu próprio pai. E suas diferenças. E discussões. E reconciliações. Aquele que hoje deveria ter todas as respostas também já foi ontem um garotinho cheio de perguntas. É um ciclo que se repete. Ou melhor, são ondas, tais como as ondas do mar, que vêm e vão. Explico.

Quem me conhece minimamente sabe que também é do conhecimento até do Reino Mineral o quanto gosto de história e genealogia. Então, para manter o foco genealógico do que tenho a dizer, vamos ficar somente na minha linha paterna – sem entretanto deslembrar os acontecimentos históricos, sociais e econômicos de cada época para que possamos compreender como veio se dando a relação de pais com filhos desde então. Somente assim a conclusão deste texto deverá ficar menos ininteligível…

Apesar de ter traçado minha ascendência nesse ramo até o ano de 1629, comecemos já com meu trisavô, Joaquim Theodoro de Andrade, que em fins do Século XIX foi um dos herdeiros das diversas fazendas deixadas por seus pais na região de Madre de Deus, MG. Ora, pela tradição familiar não é muito difícil cogitar que ele provavelmente também tenha se dedicado à vida no campo, nos tratos de lavoura e de gado. Estamos falando do ano de 1868 (quando da abertura do inventário), em pleno Brasil-Império ainda governado por Dom Pedro II, mas já em pleno declínio da cultura cafeeira, principalmente pela falta da mão de obra escrava – o que já vinha ocorrendo desde os anos seguintes à proibição do tráfico de escravos (1831) e que ainda iria se agravar com o advento da Lei do Ventre Livre (1871) e a própria Abolição da Escravatura (1888). Diante desse quadro cabe supor que, diferente de seu pai, e em conjunto com seus 11 irmãos, Joaquim deve ter vivido muito mais para tentar manter (e ver se desfazer) um patrimônio que não foi construído por ele.

“Pai rico, filho nobre, neto pobre”. Este é um antigo ditado que parece retratar bem o que aconteceu em diversas famílias não só pelo Brasil, mas também pelo mundo afora.

O filho de Joaquim, nascido em 1877 na cidade de Madre de Deus, MG, foi meu bisavô João Agnello de Andrade. Há notícias de que teria falecido cedo, com cerca de apenas 40 anos. Apesar de seus ancestrais terem sido fazendeiros na região de Sul de Minas – e diante da falta de documentação da época – num gigantesco exercício de suposições é plenamente possível imaginar que a fortuna amealhada nas gerações passadas não veio a agraciar essa nova geração. Ora, logo após a Proclamação da República (1889) e com as sucessivas crises do café, na virada do Século XIX para o XX tivemos o começo da Revolução Industrial no Brasil (com cerca de cem anos de atraso em relação à Inglaterra) bem como a Crise do Encilhamento, conjunto de fatores que veio a resultar no início da industrialização no Rio de Janeiro (então Capital do País). Assim, em que pese a cultura familiar de fazendeiros, é bem provável ter sido esse o motivo que fez com que meu bisavô tenha migrado ainda mais para o Sul, para a cidade de Santa Rita de Jacutinga, MG, onde em 1901 casou-se. Há registros de que não só ele como também parte de seus filhos, tenham trabalhado na cidade vizinha de Valença, no Rio de Janeiro. Ou seja, diferente de seu pai, quebrou uma tradição, saiu do campo e, talvez com um quê de esperança, para criar seus 10 filhos resolveu abraçar aquele novo mundo que se lhe surgia.

Mas ainda estamos falando da virada do século. Num curto período de tempo o mundo ainda seria flagelado pela Primeira Guerra Mundial (1914), pela Gripe Espanhola (1918), pela Grande Depressão (1929) e pela Segunda Guerra Mundial (1939). Como resultado direto desses acontecimentos, em cerca de apenas 30 anos, foram diretamente consumidas mais de 140 milhões de almas por todo o planeta. Restaram ainda outros tantos milhões de mutilados e com sequelas. Não deve ter sido um período nada fácil para aqueles que sobreviveram e só posso imaginar uma densa falta de esperança que pairava no ar por esses tempos. Algo como tudo isso que estamos vivendo especificamente neste ano de 2020 em virtude do Coronavírus.

E o filho de João Agnello, meu avô nascido em 1909 em Santa Rita de Jacutinga, MG, Antonio de Andrade passou por tudo isso. Não o conheci, pois faleceu em 1970, quando eu tinha apenas um ano de idade. Até onde pude descobrir, diferente de seu pai, foi um homem que tinha um pé na cidade e outro no campo (talvez mais para este último). Ao que tudo indica o que lhe interessava era tentar possuir seu próprio canto para poder criar os 12 filhos que viria a ter, de modo que abraçava as oportunidades que se lhe apresentassem. Tanto o é que montou e manteve um salão de barbeiro próximo à estação ferroviária local, o que lhe garantia tanto o sustento como o dinheiro para as cachaças que tanto gostava.

Mais tarde, no final da década de 40, veio de trem com toda a família para São José dos Campos, SP, após seu irmão já ter vindo e se certificado de que haveria trabalho para ele. Antes de ter sua própria terra, morou em diversos locais na zona rural, entre São José e Igaratá, sempre cultivando a terra (feijão, milho, arroz, etc) e criando um “gadinho”… Mas nem só da terra viveu, pois também empregou-se pelas fazendas da região, onde fazia serviços diversos, principalmente de marcenaria. E apesar da vida sofrida, era bem animado, adorava os arrasta-pés, foguetórios e tomar umas e outras sempre que podia.

A cidade de São José dos Campos (que agora em 2020 completou 253 anos) até então era classificada como estância climatérica, pois desde 1918, com a construção do Sanatório Vicentina Aranha (assim como de várias outras casas depois), foi o centro de migração de centenas de doentes vindos de várias regiões do país para tratamento da tuberculose. Aqui ficavam todos aqueles que não tinham posses suficientes para serem tratados na estância de Campos do Jordão, escolhidas à época pelo fato de ambas serem cidades afastadas dos grandes centros urbanos, o que minimizava o risco de contágio. Essa fase sanatorial durou até cerca de 1950, quando começou a transformação de São José dos Campos em um polo industrial e tecnológico, tendo início com a instalação do Centro Técnico de Aeronáutica – CTA (1950), do Parque Industrial da Johnson & Johnson (1954), do Complexo Industrial da General Motors do Brasil (1958), bem como de diversas outras empresas e indústrias dos mais diversos setores. Foi um período de prosperidade para a região e ainda levariam alguns anos para que se instalasse a Ditadura Militar no Brasil.

E foi por essa época que o filho mais velho de Antonio, nascido em Santa Rita de Jacutinga, MG, em 1937, José Bento de Andrade (também conhecido como meu pai), resolveu que já era hora de deixar o campo e seguir seu rumo para a cidade. Meu avô foi contra, pois queria que ele tivesse uma “profissão de sucesso”, o que no seu entender era ser tropeiro pela região e pelo Brasil afora. Mas esse “sonho” era dele e não de seu filho. Do alto de seus cerca de 20 e tantos anos ele lhe disse que não queria nada com isso não, que a vida ali era muito sofrida, que queria ir para a cidade tentar a sorte. E assim o fez. Apesar de ser um homem de estudos primários escassos, fez-se a si mesmo. Construiu-se. Com um inafastável esforço próprio no desejo de ser alguém, veio para cidade, arranjou emprego numa mecânica, casou-se, levantou sua casa no bairro de Santana (onde vive até hoje), teve três filhos, e por fim mudou-se para outro emprego numa indústria onde ficou até sua tranquila aposentadoria. Ele nunca foi de mudanças drásticas, de vida atribulada no campo, nem nada disso, e, ainda, apesar de à sua época até ter tomado suas cervejinhas, nunca gostou de bebida alcoólica em excesso – ou seja, ordenou toda sua vida de um modo bem diferente de seu pai

A assim chamada Geração X abrange aqueles que nasceram no início dos anos 60 até o final dos anos 70 (pegando, talvez, o comecinho dos anos 80). É considerada como um grupo de pessoas sem identidade aparente, mas que enfrentariam um mal incerto, sem definição, um futuro hostil de pós-guerra, num tempo de incertezas e de Guerra Fria (a longeva polarização entre Estados Unidos e União Soviética). Essa geração nasceu, cresceu, passou pela fase hippie, teve ideais, esqueceu-se dos mesmos e foi fazer carreira no mercado de trabalho. Atravessou todo o período de evolução tecnológica, tendo presenciado o surgimento e desenvolvimento dos modernos meios de comunicação, viu surgir o computador pessoal, a Internet, o celular, a impressora, o e-mail, etc. O mundo ao seu redor mudou muito e adaptação nunca foi uma opção, mas sim uma necessidade.

Eu, filho do Seo Zé Bento, pertenço a essa geração. Nasci em São José dos Campos, SP, em 1969. Tive uma boa infância, meio de nerd, meio de pé descalço. Minha família era da chamada “classe média” (quando essa ainda existia), de modo que vivi plenamente minha adolescência, viajei um tanto (normalmente de carona) e paquerei outro tanto – pois ainda não existia o termo “ficar” e aqueles relacionamentos esporádicos não podiam ser chamados de namoro. Desde o início da adolescência aprendi a beber, a fumar, a teimar e a ser dono do meu próprio nariz. Sempre adorei estar com os amigos, no meio de gente, de falar alto, de curtir a vida. Eu e meu pai tivemos discussões homéricas por conta disso, pois eu não concordava com o modo e opção de vida dele, assim como ele também não concordava com o meu. Foi somente alguns anos após meu primeiro casamento (casei aos 18) e depois de um tanto de lambadas existenciais que finalmente entendi que ambos estávamos errados: não fazia sentido nos compararmos. Ele, com todos seus defeitos, era ele, assim como eu, também com todos os meus, era eu. Apesar de aparentemente contraditório, foi somente com essa compreensão que veio a aceitação de que eu não precisava gostar de meu pai para amá-lo. Pois não adianta: eu sempre fui, sou e serei diferente de meu pai.

Do meu primeiro casamento, que durou cerca de dez anos, não tive filhos. Se os tivesse, provavelmente seriam da Geração Y, também conhecidos como Millenial: aqueles nascidos do começo dos anos 80 até meados da década de 90. Uma geração que desenvolveu-se em uma época de grandes avanços tecnológicos e prosperidade econômica, tendo crescido com muito do que seus pais não tiveram, como TV a cabo, videogames, computadores, vários tipos de jogos e muito mais. Internalizaram a tecnologia desde pequenos, acostumaram-se à multitarefa e a conseguir o que queriam, não gostando de se sujeitar às tarefas subalternas de início de carreira e por isso sempre trocando de emprego com frequência em busca de oportunidades que oferecessem maiores desafios e crescimento profissional.

Não, meus três filhos, todos de meu segundo (e último) casamento, pertencem à Geração Z, também chamada de Centenial. São aqueles nascidos a partir do final dos anos 90 até aproximadamente 2010 – o que é justamente o caso deles: Kevin em 1999, Erik em 2001 e Jean em 2004. Os que pertencem a essa geração são “nativos digitais”, pois nunca viram o mundo sem computador. São multitarefa, mas seu tempo de atenção é muito breve. Como informação não lhes falta, estão sempre um passo à frente dos mais velhos, concentrados em adaptar-se aos novos tempos. Seu conceito de mundo é desapegado de fronteiras geográficas, pois para eles a globalização não foi um valor adquirido no decorrer do tempo e a um custo elevado. Aprenderam a conviver com ela já na infância. Daí serem desapegados de conceitos históricos ou mesmo da história em si, pois o que interessa é que o presente é a estrada a ser pavimentada para o futuro. Seus maiores problemas são relacionados à interação social, pois, paradoxalmente, por estarem tão conectados virtualmente acabam por sofrer de falta de intimidade com a comunicação verbal.

Quando pequeninos e ainda cabiam em meu colo e eu em seus corações.

Acho que já perceberam onde essa história vai dar, né?

Sim, é isso mesmo: meus filhos são diferentes de mim. E principalmente com a chegada da adolescência essa diferença aumentou de forma exponencial. Tenho absoluta certeza de que a responsabilidade é só minha, pois no decorrer de sua infância até que fomos bastante parceiros, mas quando estavam crescendo e provavelmente mais precisavam de minha presença, eu estava ausente. Seria muito cômodo de minha parte alegar que foi em razão do trabalho, das responsabilidades, da política, ou do que quer que seja. Foi tudo isso, também. Mas na sua essência, não. Não mesmo. Eu estava muito ocupado (ainda) sendo e fazendo tudo aquilo que meu pai não gostava e não queria e não percebi que estava mais uma vez repetindo um ciclo de gerações. Ou sendo apenas o refluxo de mais uma onda na areia, afastando-me cada vez mais da margem. Não só o fosso que começou a nos distanciar acabou por se transformar num imenso vale, como eu ainda tive a capacidade – ainda que involuntária – de queimar todas as pontes pelas quais passei.

Kevin, Jean e Erik em 2020: Geração Z.

Talvez por sermos de gerações tão distintas – afinal “pulamos” toda a Geração Y – essa situação estivesse fadada a acontecer. Não sei. Não posso ter certeza. Mas sei que foi n’o ano que passei fora que tudo se consolidou pra pior, quando minha ausência começou a se fazer presente e nosso distanciamento de gostos e coisas se acentuou. Afinal, diferente de meus filhos, eu vivo com um pé nos dias de outrora pois acredito que a história, o passado, é que verdadeiramente nos ensina o caminho para o futuro para que não cometamos os mesmos erros – nem os nossos, nem os de nossos pais (ainda que, mesmo conscientes disso, acabemos por fazê-lo). Acredito também que a vida é feita de momentos (e mesmo assim, com eles, eu os estou perdendo um a um devido à minha própria negligência), por isso tenho uma profusão deles na minha memória: situações tanto corriqueiras quanto inusitadas que vivenciamos, momentos de carinho e de amor, circunstâncias de dor e de sofrimento, mas principalmente aqueles especiais, marcantes, o primeiro passo, a primeira palavra, a primeira conquista… Não os tenho todos de memória, mas esforço-me para guardá-los.

E é por isso que escrevo. Porque sei que a memória é curta e delével. Não conseguirei reter para sempre esses momentos, pois tudo é inconstante e passageiro. Até nós mesmos. Então é preciso deixar registrado. Porém a comunicação se torna tão mais difícil já que as poucas paixões que tenho (veículos antigos, motos, mecânica, história, genealogia, a família) sequer lhes interessam. E pela falta de interesses comuns até mesmo nosso diálogo restou comprometido. Ou praticamente inexistente. Quero ter a certeza de que meus filhos me amam, mas também sei que meramente me toleram. Então guardo tanto os meus quanto os nossos momentos em palavras impressas para que fique registrado que, de fato, existiram. Ainda que não se lembrem. Ainda que não se interessem. Ainda que não queiram. Mas essa foi a maneira que encontrei de conservá-los para mim, para eles e para quem mais queira apreender desse passado. Pois, independentemente de todos os meus erros, tenho um orgulho gigantesco de cada um de meus filhos, cada qual a sua maneira, e meu maior desejo é que algum dia eles venham também a ter orgulho de mim.

Essa é, hoje, a nossa realidade.

Talvez algum dia mude, não sei.

Como já havia dito, queimei as pontes pelas quais passei e não há retorno fácil, pois é preciso reconstruí-las. Sei que reconstruir pontes é uma tarefa árdua e difícil, mas também sei que tem que ser feito através de esforço mútuo a partir de ambas as margens que se encontram isoladas.

E é esse o desafio que devo me impor… É bem como diz a música: “É preciso amar as pessoas / Como se não houvesse amanhã / Por que se você parar pra pensar / Na verdade não há”. Estou desperdiçando tempo, idade, saúde e sanidade sem dar um passo sequer para consertar essa situação. É difícil. É doído. Mas é necessário ao menos tentar reconstruir o diálogo enquanto ainda há tempo. E mudanças drásticas serão necessárias. Rogo sinceramente para que eu tenha perseverança e que me seja concedida oportunidade para isso – bem como dizem as primeiras linhas da Oração da Serenidade:

“Deus,
Conceda-me a serenidade
Para aceitar aquilo que não posso mudar,
A coragem para mudar o que me for possível
E a sabedoria para saber discernir entre as duas.
Vivendo um dia de cada vez,
Apreciando um momento de cada vez (…)”

PS1: Tenho em casa muito bem guardada uma pasta que contém a maioria dos desenhos e recadinhos que meus filhotes costumavam me deixar antigamente, quando ainda tínhamos diálogo. Dentre eles tenho esta “planta da casa” – segue com a planta em escala (da época) para fins de comparação…

         

Legenda: no gramado do fundo nós jogando bola, à direita a churrasqueira soltando fumaça, no corredor à esquerda nossa cachorrinha Léa, no corredor à direita os latões de lixo, os quartos identificados com os móveis dispostos nos exatos lugares, o escritório com dois computadores, no banheiro alguém no chuveiro com sabonete na mão, a cozinha com sua bancada externa e na sala a mesa redonda que costumávamos ter.

PS2: A partir dessa música veio boa parte da inspiração para este texto. Ouçam a letra, com calma e atenção, do começo ao fim. Vale a pena.

Deixando a vida mais colorida…

Em tempos de confinamento há que se arranjar o que fazer… Então descobri o site http://www.myheritage.com.br/incolor para colorir aquelas fotos preto e branco (sim, elas ainda existem!) em apenas alguns segundos e com apenas um clique!

Confiram o resultado comparando as originais com as colorizadas:

       
Casamento de meus pais, Bernardete e José Bento.

       
Casamento de meus tios, Dionísia e Lélio.

       
Casamento de meus sogros, Satiko e Sussumu.

       
Meu avô paterno, Antônio de Andrade.

       
Meu avô materno, Bernardo Claudino Nunes.

       
Dona Bernardete.

       
Seo Zé Bento.

       
Los Tres Hermanos: Adauto, Adilson e Anselmo.

       
Outra de Los Tres Hermanos…

       
Outra de meus sogros.

       
E aquela famosa foto de meu pai em sua motoca!

A infância são lugares e ruídos

Marcelo Franco

Vocês todos aí preocupados com os rumos do país e eu aqui cumprindo um ritual de recordações que é um dos meus prazeres de domingo. Envolve álbuns antigos de fotografias, pesquisas na internet e até caminhadas pelas ruas e vielas da minha juventude. Sendo leitor de Proust, Pedro Nava e Eric Kandel, desde cedo eu estava destinado à sina de lembrar. Meu cérebro fervilha de passagens muito antigas, coisas que vi e imagens e sons há muito distantes do meu “eu presente”. “Les événements m’ennuient”, mas apenas os atuais, nunca os passados.

Vendo fotografias da minha infância, me veio uma dúvida estranhíssima: ainda há Melissas? Sim, aquelas sandálias de plástico que as garotas usavam na “minha infância querida que os anos não trazem mais” — o que foi feito delas? Toas as garotas que aparecem nas fotos antigas a estavam usando no momento do instantâneo que as imortalizaria em imagem para mim.

Há anos nem mesmo a palavra me vinha à memória, e eis que, de repente, Melissa! É todo um passado que renasce — ou que sempre esteve à minha volta sem que eu percebesse. A simples lembrança das tais sandálias também me joga numa espécie de túnel do tempo — como o carro de Marty McFly e Doc Brown em “De Volta Para o Futuro”, esse nome me leva diretamente ao passado.

Se as garotas usavam Melissa, nós meninos calçávamos tênis Montreal — que patrocinavam o programa “Domingo no Parque” (“Você troca uma bicicleta por uma chupeta velha?”, perguntava Silvio Santos; “Siiiimmm!!!”, respondia o incauto). Ou tênis Redley, com a parte de trás dobrada e os calcanhares de fora. Ou ainda, luxo dos luxos, All Star de cano longo — não o nacional, mas o made in USA, que tinha dois furinhos nas laterais.

Havia calças baggy e semi-baggy para as garotas. Calças e camisas em cores cítricas da Company, K&K ou Fiorucci para nós meninos (calças Zoomp eram um sonho distante: caras e usadas só pelos mais descolados). Carteiras emborrachadas da OP (com velcro). Chaveiros de fio de telefone da Pier. Relógios Champion que trocavam de pulseira. Era um mundo de horrores: garotos com cabelo mullet (é assim que se escreve?) usando tênis verdes e com os calcanhares à mostra, calças laranja, camisetas pink, relógios amarelos, carteiras azuis. Na hora do futebol, Kichute com cadarços amarrados nas canelas. Bocas abertas para mascar os enormes chicletes Bubbaloo. Como, como pudemos?

A atitude, por assim dizer, vinha com tudo o que era externo a nós mesmos. Usávamos essas roupas, mas também escrevíamos com Bic 4 Cores ou com caneta Kilométrica, a caneta simpática por um preço milimétrico. Perfume Azzaro (dizíamos, brincando, “arrasô”). Bebíamos Super Nescau, a energia que dá gosto. Danoninho valia por um bifinho. Queríamos ter barba para fazê-la com Prestobarba: a primeira faz tchan, a segunda faz tchun e… tchan-tchan-tchan! Mas não sei se as mulheres usavam Impulse — “Se algum desconhecido um dia lhe oferecer flores, isso é Impulse!”.

E víamos “Armação Ilimitada” e “TV Pirata”. MacGyver detendo um vazamento de ácido sulfúrico com uma barra de chocolate. Silvio Santos anunciando “Pássaros Feridos”: “É um filme muito bom, um filme a que eu já assisti várias vezes. Mas podem ver a novela da Globo. ‘Pássaros Feridos’ só começa depois que a novela acabar”. O baixinho da Kaiser. A menina do Tang. Fernandinho da camisa (“Bonita camisa, Fernandinho!”). Araquém, o showman. Tetê Espíndola cantando, esganiçada, “Escrito nas Estrelas” (primeiro lugar no “Festival dos Festivais”). Víamos repetidamente nossas séries favoritas: “Era uma vez três belas garotas que cursaram a Academia de Polícia. E todas cumpriam tarefas muito perigosas. Mas eu as tirei de tudo aquilo e agora elas trabalham para mim. Meu nome é Charlie”. E também: “Steve Austin, astronauta. Um homem semimorto. Senhores, nós podemos reconstruí-lo. Temos a capacidade técnica para fazer o primeiro homem biônico do mundo. Steve Austin será esse homem. Muito melhor do que era. Melhor, mais forte, mais rápido”. “A Gata Comeu”, com toda aquela turma perdida numa ilha. No cinema, “Top Gun” e “Karatê Kid”. Para que mogwais não se transformassem em gremlins, não deviam ser expostos a luz forte, não podiam ser molhados e tampouco deviam ser alimentados depois da meia-noite.

Cantávamos “Take My Breath Away”, “I Just Called to Say I Love You” ou, os mais moderninhos, “Reggae Night”. Em vez de cantar “Na madrugada, vitrola rolando um blues/ Tocando B.B. King sem parar”, dizíamos “Trocando de biquíni sem parar”. Também era preciso saber a longuíssima letra de “Faroeste Caboclo”. (Só para especialistas: quem se lembra das bandas “Afrodite se Quiser”, “Heróis da Resistência” e “Picassos Falsos”?). As músicas eram gravadas em K7 e, quando tínhamos idade para sair com o carro dos pais, o toca-fitas tinha de ser retirado e carregado nas mãos para que não fosse furtado (e não era um trambolho: era, antes, sinal de status). Como, como pudemos?

A tecnologia avançava: no colégio, fazíamos provas copiadas em mimeógrafo (todo mundo ficava meio aéreo com o cheiro de álcool). Achávamos que os primeiros microondas davam câncer. Decorávamos programações enormes para nossos computadores CP-500. Pernas e braços quebrados eram engessados — ah, o prazer de desenhar no gesso da garota por quem se era apaixonado… E, para sermos modernos, falávamos “numa nice” e “da lata” (o legal era saber explicar a origem da expressão…).

Havia as dificuldades, claro. Juntar moedas naqueles cofrinhos distribuídos pelos bancos. Conhecer alguém que pudesse trazer novidades da Zona Franca de Manaus. Ter medo, no colégio, de topar com a “loira do banheiro”. Rodar discos ao contrário para ouvir mensagens cifradas. Era comum jogar ovos e farinha nos aniversariantes. Tênis novos ganhavam pisões para ser batizados. Jogando “adedonha” e saindo a letra “D”, ninguém nunca decidiu se “dragão” e “dinossauro” valiam como animais e se “dourado” era cor. Nas locadoras, havia uma sala secreta com os melhores filmes, que precisavam ficar escondidos porque eram todos pirateados.

Essa era a nossa vida. (Teste rápido para saber se você foi adolescente nos anos 80: quais os nomes de todos os filhos de Pepeu Gomes e Baby Consuelo? Resposta: Sara Sheeva, Zabelê, Nanashara, Pedro Baby, Krishna Baby e Kriptus Rá.) Vimos tudo isso. Só não vimos o cometa Halley, que o mundo todo procurou em 1986 e não encontrou.

Como disse, era mesmo um festival de atrocidades. Mas as Melissas não entravam nessa lista: afinal, as garotas mais cobiçadas tinham as suas. É curioso: não consigo me lembrar das meninas sem também pensar nas Melissas que elas usavam. E elas, as garotas, eram um mundo à parte. Estavam sempre por ali, mas nunca muito perto, não havia a interação que existe hoje. Nas festinhas, meninos ficavam num canto, meninas se aglomeravam noutro. Contato, só quando se dançava uma lenta (“dançar a lenta”! Quando algum amigo dizia que devíamos nos aproximar da garota que queríamos, respondíamos que iríamos esperar para “dançar a lenta” — e, pergunto-me agora, por que diabos os amigos não se aproximavam das garotas que eles queriam?). Mas, sôfrega e desordenadamente, nós as vigiávamos, perseguíamos e irritávamos. Suas existências povoavam as nossas.

Nós, meninos, é claro, disputávamos. Estremeço de medo retrospectivo só de pensar que sou um sobrevivente (como todos os homens): corríamos velozmente em cima de muros e telhados, pulávamos grades com pontas, mergulhávamos em montes de areia pulando de cima de árvores, onde ficávamos com a cabeça perto de fios de alta tensão, descíamos a rua 102 em carrinhos de rolimã quase até a avenida 83, rezando para que os freios (uma trava das rodinhas) funcionassem (se não funcionavam, a solução era pular do carrinho ou virá-lo com o peso do corpo, deixando a pele no asfalto), voávamos com bicicletas, jogávamos pedras pontudas uns nos outros. Mas está tudo lá: ri, briguei, amei, odiei. Vi nascimentos, conheci a injustiça da morte. Descobri o amor e suas alegrias e dores. Conheci a amizade, com suas traições à espreita. Todas as experiências fundadoras, por assim dizer. Alguém já disse que se engana quem quer que a infância seja um tempo de inocência plácida: é preciso aprender a lidar com o mundo, com o mistério do amor e da morte e com os poderes da sexualidade, aquilo que Miguel de Unamuno chamaria de “sentimento trágico da vida” — eu, por exemplo, com 12 ou 13 anos sabia tudo, digamos, sobre o funcionamento de joguinhos eletrônicos, mas não sabia lidar com uma garota ou tomar um ônibus. Mas aos 15 ou 16 já havia aprendido minhas lições na rua.

Tudo, tudo ficou na memória, e essa obsessão já me fez escrever muitas vezes sobre a rua da minha juventude. A infância, alguém já escreveu e repito aqui, são lugares: a rua, a escola, a chácara, o clube. E também é um charivari contínuo, todo um ruído — risos, músicas soltas, berros, escapamentos de carros, barulhos de coisas que caem — ao redor desses lugares.

Esforçando-me um pouco, as imagens voltam-me nítidas. Fecho os olhos agora e me lembro de novo das meninas, daquilo que então já pressentíamos como um mistério. Elas — sempre um mundo à parte — cantavam a antiga cantiga de roda: “nestarua nestarua tem um bosque/ quesechama quesechama solidão/ dentrodele dentrodele mora um anjo/ queroubou queroubou meu coração”. Depois ladrilhavam a rua “compedrinhas compedrinhas de brilhante”. E sim, as meninas ainda cantavam cantigas de roda: o mundo mudou só na década de 90; na década de 80, durante minha infância e adolescência, Goiânia era como uma cidade do interior, havia cantigas, havia muros baixos, havia inocência, havia jardins. Havia jardins — essa frase explica tudo: nos anos 90, já não havia mais jardins.

É uma vigilância eterna pairava sobre nós, principalmente das mulheres — minha vida foi povoada por mãe, irmã, tias, primas, toda uma estrutura estabilizando seus pequenos homens em construção. Mas havia as garotas. E havia as Melissas que as garotas usavam.

Fecho os olhos novamente e as vejo agora individualmente e não em grupo. Lá vem a Mariana com suas pernas já longas (Melissa branca. Modelo “Aranha”, descubro agora no Google). Lá estávamos nós em cima de um muro esperando a tarde toda para ter um vislumbre da Letéia, dos seus assombrosos olhos verdes e dos seus dentes que de tão brancos brilhavam ao sol (outra Melissa branca). Certa vez eu a vi, de cima de um telhado, tomando banho — e essa imagem foi um cataclismo que me atormentou durante muitas semanas. Lá estão Alessandra e Geane (Melissas rosa iguais), que vieram de São Paulo e eram mais velhas do que nós, nos atiçando e nos deixando humilhados pelo que sentíamos e ainda não entendíamos. Patrícia, que colava figurinhas “Amar é…” e escrevia mensagens nos meus cadernos (Melissa verde, como seus olhos). A adolescência é uma sequência de oportunidade perdidas, não?

Sobretudo, não consigo deixar de pensar naquela moça, aquela, de pernas longas e pele clara e que, muitos anos depois, causaria um turbilhão na minha vida (a dor de querer e, depois, a dor de esquecer). O que me agonia é que não pude vê-la, com 12 ou 13 anos, usando Melissa Aranha e correndo pelas ruas do bairro (as garotas eram “sapecas” ou “levadas”, diziam os pais. Ela, com certeza, deve ter sido — ainda é. Mas ninguém mais diz isso). Essa nostalgia do que não vi dói, profunda e irreparavelmente, em algum lugar do meu peito.

Nosso destino inexorável é… Bem, é aquele. Por isso, relembrar é tão importante. E também viver o dia: “carpe diem” etc. etc. Assim, para que as obrigações chatas e cotidianas não me façam esquecer que a vida deve ser vivida, recito diariamente para mim mesmo estes versos de Manuel Bandeira:

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Todas aquelas garotas e Melissas vivem apenas em mim, e, recordando, posso fingir que um dia o mundo foi mais simples e divertido — como uma menina sapeca de Melissa correndo pelas ruas do bairro.

Pensando bem, não quero saber se ainda fazem Melissas.

Dona Flor de Cerejeira e seus “dois maridos”

Estávamos no início do ano de 1997.

Ao apagar das luzes do ano anterior eu, por minha conta e risco, resolvi encerrar um relacionamento de mais de dez anos e acabei por me separar de minha primeira esposa, Evanilda. Ainda nos encontraríamos por mais algumas vezes, de modo nada satisfatório, até o dia da audiência de divórcio, quando, ao final, ela decidiu que eu jamais voltaria a fazer parte de seu futuro. E assim continuamos até hoje. Foi por essa época que juntei minhas poucas tralhas e fui morar por uns tempos num quarto vago da casa de meu irmão.

Mais ou menos à mesma época a Mieko, também conhecida como Dona Patroa, por motivos diversos aos meus, também havia decidido colocar um ponto final em seu segundo noivado que já se arrastava por uns quatro anos. Seu nome era Noboru. Depois de terem se conhecido enquanto ainda estavam no Japão, quando voltaram ela veio cá para o interior e ele tocava seus negócios na Capital. Viam-se nos finais de semana. Mas esse noivado distante, sabendo-se lá o que ocorria durante a semana (mas suspeitando bastante) também demonstrou-se nada satisfatório. E, também à distância, ela meio que rompeu com ele. Mas nada ficou explícito.

Mudemos de cenário.

Com toda a bagagem emocional que rompimentos de longos relacionamentos podem trazer, eis que naquele início de ano nos encontrávamos ambos recém-formados, ambos advogados sem clientes, ambos trabalhando no mesmo escritório de nosso amigo Luisinho e ambos – naturalmente – começando a se engraçar um com o outro…

Acabei conhecendo um pouco mais da família dela – e ela, coitada, da minha – inclusive sua irmã que morava no litoral, em Caraguatatuba, local onde seu marido, poucos meses depois, viria a sofrer um acidente de moto gravíssimo, tendo que ser transferido com urgência para a UTI do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

Pois bem.

Como ambos mal tínhamos clientes e limitávamo-nos a tocar as ações do Luisinho, não foi nada difícil deixar tudo pra trás e correr para São Paulo para ajudar sua irmã no que fosse possível naquele momento tão difícil. Ainda estávamos todos no hospital, meio que na expectativa, meio que na confusão, quando o inevitável aconteceu: de repente por lá surgiu o Noboru, eis que era também amigo da família de longos anos, para ajudar no que pudesse.

E eu lá.

E ele também.

Mas dado o momento e os acontecimentos, a saia nem ficou tão justa assim. O dia foi passando e como a parentada dela prontamente havia se colocado à disposição, acabaram combinando que ficaríamos no apartamento da Têro, sua prima enfermeira.

E como ir até lá?

De carona com o Noboru, claro, em seu novíssimo Gol GTi, um dos últimos modelos antes da reestilização da linha, e super equipado com um portentoso equipamento de som…

Ao chegarmos no apartamento ele disse que iria embora mas voltaria no dia seguinte para levar todo mundo para o hospital. Foi de senso racional e comum que aquilo seria bobagem, pois não fazia sentido ele atravessar a cidade àquela hora para ter que voltar no outro dia cedinho para buscar todo mundo, então o melhor seria que ele dormisse por ali também.

Então.

Estávamos todos ali, na lida, já lanchados e de banho tomado, arrumando colchões aqui, estendendo lençóis ali, ela ajeitando umas almofadas no meio da sala e eu e ele de costas um para o outro, defronte à porta de um dos quartos, cuidando de nossos cantos.

E eis que ela, sem levantar a cabeça, simplesmente chamou:

– Amor, faz um favor?

E eis que nós dois, exatamente ao mesmo tempo, olhamos para ela e respondemos em uníssono:

OI, AMOR?

E, percebendo a situação, simultaneamente olhamos um para o outro, nos encaramos, e ato contínuo olhamos para ela novamente com cara de interrogação: qual de nós, afinal?

Não tem como descrever aquele momento. Por poucos segundos o tempo simplesmente parou. Não havia nenhum som no ambiente. Até mesmo a luz tornou-se fugidia. Todos que estavam na sala foram pegos de surpresa e praticamente congelaram enquanto aguardavam, de respiração suspensa, qual seria o próximo ato daquela tragicômica peça nada teatral.

E naquele breve momento em que o planeta deixou de girar, ela, nos encarando com os olhos DESTE TAMANHO e lentamente foi percebendo o que estava acontecendo…

E no meio daquela saia justíssima, embaraçosíssima situação que sozinha conseguiu criar, ela simplesmente baixou a cabeça, cobriu os olhos com uma mão enquanto que estendeu a outra fazendo sinal para que se aproximasse:

ADAUTO. Adauto, faz favor. Você, Adauto, vem aqui um pouquinho pra me ajudar…

Com um pequeno solavanco o mundo recomeçou a girar, a sala novamente se iluminou, os sons voltaram a burburar, eu e ele ignoramo-nos mutuamente e cada qual foi cuidar de suas coisas.

Nos dias seguintes, apesar de toda a proximidade, foi difícil que se livrassem da minha sombra, sempre presente e próximo a ela. Mas eu também sabia que os dois precisavam de ao menos um momento a sós para concluir o que ficou inacabado, colocar os pingos nos “is”, terminar de vez um com o outro.

E foi com uma ciumenta fisgada no coração que este troglodita que vos tecla deixou o campo de batalha e voltou para o interior por algum tempo enquanto tudo se resolvia por lá – não sem, é lógico, tecer nas mais profundas catacumbas de minha mente as piores teorias da conspiração dos piores cenários possíveis…

Mas, enfim, terminaram.

E ainda foram necessários ainda mais vários dias de acompanhamento e monitoramento junto ao hospital, porém, infelizmente, no dia seguinte ao Dia das Mães daquele ano, o paciente veio a falecer.

E nos anos seguintes a história seguiu seu curso, nos casamos, tivemos nosso primeiro filho e ficamos bastante próximos da irmã dela e de suas três filhas adolescentes. Até que um dia tudo mudou, caiu sua vestimenta de ovelha e nunca mais voltamos a nos falar. Seguimos com nossas vidas e elas com as delas. Mas isso é uma outra história.

Mas, cá entre nós, desde então jamais deixei que a Dona Patroa pudesse esquecer aquele momento surreal de nossas vidas – mas hoje hilário – onde ela desenrolou seu nipônico papel de Dona Flor de Cerejeira e seus “dois maridos”! 😀

Volta ao Mundo em 80 Horas – VII

VII – Até quando tudo dá certo, ainda dá errado. Ou não.

(Para os desavisados de plantão: esta é a continuação da narrativa de uma de minhas desventuras que comecei a contar no final de 2016 – putz, já se vão quase quatro anos! – e que até agora ainda não tinha concluído. Nada demais, apenas um pré-infarto pelo qual passei. Se quiserem saber como tudo isso começou ou rememorar o causo desde o princípio, desçam direto lá para o final deste texto e cliquem no link “Início da Saga”.)

Quinta-feira. Dia três. Noite. Cerca de 60 horas de internação, sendo espetado, desespetado, medido, apalpado, remediado e outros tantos quetais. Porém já estava muito bem descansado e – até que enfim! – munido de óculos e muitos livros os quais poderia ficar lendo até bem tarde da noite de quinta para sexta (lembrem-se que eu havia dado entrada na Santa Casa por volta de dez da manhã de terça-feira).

Já era de madrugada e distraído como estava acabei levando um susto dos infernos quando ouvi batidas na janela, ao lado da minha cama. Alguém estava lá fora, no estacionamento.

– Mas que catzo…

Abri a janela, com cautela e armado de um livro volumoso o suficiente para causar o estrago na testa do primeiro desavisado.

Era o Torquemada. E a Marcela. E a Joseane.

Como obviamente já não era mais horário de visitação e já cientes que dentro em breve eu teria alta eles foram lá para me tripudiar consolar e não me deixar sozinho, ao menos por alguns momentos durante aquela longa noite. Tudo bem que eles já tinham acabado de chegar do Armazém, nosso boteco’s-bar predileto próximo do trabalho, onde deviam ter passado as últimas horas por lá. E pelo estrago estado geral da galera, eu tive absoluta certeza de que não estavam tomando suco de laranja…

Conversamos um tanto, rimos outro tanto (“Porra, não trouxeram nada pra mim? Sacanagem, hein?”), levei uma comida de rabo por essa frase e quando por fim perceberam que aquela janela não era um balcão de bar – e, em especial, que não tinha nenhuma bebida por lá – antes que fossem descobertos pela altura das risadas, resolveram ir embora. Despedimo-nos e, confesso, independentemente do estado geral que fisicamente meu coração poderia estar, espiritualmente ele estava bem mais leve e quentinho. Como é bom ter amigos! Mesmo um sádico como o Torquemada…

Depois dessa resolvi simplesmente deitar e dormir enquanto ainda estava com aquela sensação gostosa de aconchego.

No dia seguinte acordei tarde pra caramba (umas seis e meia), pois pelo visto meu relógio biológico havia resolvido tirar férias. Como eu já sabia que o café da manhã ainda iria demorar um pouco resolvi tomar um outro bom banho – ao menos para lembrar que ainda existia água quente no mundo. Carregando aquela parafernália de soros e acessos e camisola aberta no rego, com um pouco de trabalho – e quase pranchando no chão por umas duas vezes – finalmente consegui terminar a ducha. Bem na hora, pois o café havia acabado de chegar.

Apesar de nos últimos anos ter ostentado uma vetusta barba na maior parte do tempo, naquela época eu preferia ficar bem escanhoado. Mas como é cheia e cresce rápido, ao final de uns dias sem ver um barbeador eu já estava parecendo um indigente. Paciência. Só faltava mais um dia, segundo o “protocolo”, e no sábado eu iria para casa.

Passei o dia meio que bestando, cochilando um tanto e lendo outro tanto e no finalzinho da tarde me veio a médica para a visita de praxe.

– Parabéns, o senhor já vai ter alta.

– Sei, sei. Amanhã, né?

– Não, hoje mesmo. Só falta meu colega assinar comigo e o senhor já pode ir embora. Tem quem venha lhe buscar?

– Mas, mas… E o tal do protocolo? De que eu teria que ficar sei lá quanto tempo em observação?

– Ah, isso é mais uma orientação do que uma regra. Como o senhor está reagindo muito bem não há necessidade de mantê-lo por aqui.

“Mais uma orientação do que uma regra”? Caray! Não pude deixar de me lembrar do filme Piratas do Caribe onde, de acordo com o momento e a conveniência, a “parola” poderia ser considerada uma regra ou não. Sexta-feira, final de expediente, após cravadas oitenta horas longe da sociedade e eu sem uma muda de roupa sequer para ir embora. Liguei para a Dona Patroa – coitada… – e, não demorou muito, ela chegou com o que eu precisava. Separei todo o resto para já levar para o carro enquanto aguardaríamos a segunda assinatura e – enfim! – a alta.

E aguardamos.

E aguardamos.

Aguardamos.

Aguardamos mais um pouco.

E nada.

E já estava ficando muito tarde e ela precisava voltar para dar conta das crianças em casa.

E lá foi ela e lá fiquei eu.

De novo.

E ASSIM QUE ELA SAIU ME TROUXERAM O TAL DO PAPEL DA ALTA!!!

Que estava desde não sei que horas parado na mesa de não sei quem para levar não sei onde e depois entregar para mim.

E já não adiantava mais ligar para ela, pois era tarde e devia estar a meio caminho de casa.

Paciência.

No dia seguinte, cedinho, combinaríamos de ela vir me buscar.

Mas é lógico que não foi isso que aconteceu.

(Início da Saga)                        (Continua…)

Qual deles?

No início do ano de 1997 eu comecei a advogar de fato e fazia parte, juntamente com outros amigos, de uma sociedade de advogados aqui da cidade. Nesse início éramos em dez ao todo: cinco advogados recém formados, os “agregados” (eu entre eles), e cinco advogados já com larga experiência no mercado, os “sócios” (Luís Henrique e Luiz Arnaldo entre eles).

E a secretária.

Se não me engano, a primeira dentre várias que ainda viriam.

Mocinha simpática, moreninha, bem magrinha, bonitinha até!

Mas que até hoje não sei dizer se se possuía um senso de humor único, uma perspicácia além da conta ou se era, digamos, “limitadinha” mesmo…

E este causo aconteceu pouquinho tempo após a inauguração do escritório.

Ela lá, impávida na recepção, sempre com um sorrisinho estampado no rosto e que raramente se apagava. Chegou um sujeito, assim meio que com cara de perdido, encarou-a, também sorriu e foi falando:

– Por gentileza, eu gostaria de falar com um advogado.

– Tudo bem. Qual deles?

– Ah, tá. Lógico. Tem um monte de advogados aqui… É com o Dr. Luiz.

– Tudo bem. Qual deles?

– Ué? Tem mais de um Luiz aqui? Tá certo. É um nome comum, né? É um assim alto, bem magrinho.

– Tudo bem. Qual deles?

– Tá, tá… Esse é um tipo até comum. É um bem clarinho, quase loiro.

– Tudo bem. Qual deles?

– Pôxa, é o que antes tinha escritório no edifício aqui pertinho, no Vip Center.

– Tudo bem. Qual deles?

– Menina, eu o vi entrando aqui agorinha há pouco. Ele está com uma camisa branca e terno preto.

– Tudo bem. Qual deles?

– Caramba! É o que tem um carro da Fiat… Qual mesmo? Ah, é: um Tempra preto.

– Tudo bem. Qual deles?

– Ô louco! Os dois têm Tempra, é? Pois bem, é um que tem uma criança pequena, não sei que idade.

– Tudo bem. Qual deles?

– Você não tá tirando uma com a minha cara não, né menina? A esposa dele se chama… Deixa eu ver… Ah é! Cíntia! É o que é casado com a Cíntia!

– Tudo bem. Qual deles?

– Ah, não! Agora você tá de gozação! Só pode estar! Não é possível! É o que tem bigode, tá bom? É o que tem bigode! Sabe o que é um bigode? Sabe? É o que tem bigode!!!

– Ah! Então é o Dr. Luiz Arnaldo! Por que o senhor não disse antes?…

Deixarei para que a profícua mente destes incautos leitores possa imaginar – somente imaginar – qual o rol de impropérios que, ainda que não tenha manifestado em alto e bom tom, certamente passou pela cabeça desse indivíduo enquanto se dirigia para a sala do advogado…

Darwinismo Informático

Tudo muda.

Tudo sempre muda.

Mas nunca muda totalmente, pois muitas das experiências e situações pelas quais passamos são cíclicas. Vão acontecer de novo. E daí a beleza e a vantagem de todo o conhecimento adquirido e acumulado no decorrer de todas essas mudanças: com o inescapável passar do tempo e através da evolução natural de tudo ao nosso redor, estaremos assim preparados para enfrentar esses novos desafios, essas novas situações, prontos para enfrentar o que é novo – mas não necessariamente desconhecido, para explorar novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve!!!

NÃO!

Péra.

Desculpa aí, acho que me empolguei…

Mas creio que vocês pegaram o fio da meada, né? E neste nosso causinho de hoje vamos viajar um pouco em algumas relembranças de experiências de um passado não tão remoto, mas que contextualizados numa linha natural de evolução acabaram sendo cruciais para que eu me tornasse este sujeito tão extraordinariamente especial (e modesto!) que hoje vocês conhecem! E não, não estou falando de minha vida pessoal – que já foi contada em minúcias através dos meus livros – e nem tampouco da minha vida profissional – que já foi totalmente destrinchada em Veredas da Vida.

Hoje vamos tratar um tantinho da trajetória do mundo da informática pela minha vida – algo que já contei, em parte, aqui.

Tudo começou antes mesmo da consolidação da era dos computadores – ainda com a boa e velha máquina de escrever! Afinal de contas, para ter me tornado um exímio digitador antes de mais nada eu teria que ter sido um exímio datilógrafo. E isso somente veio depois de longos quatro meses através do bom e velho cursinho de datilografia! Bem, ao menos naquela época essa era uma realidade… Apesar de tudo vejo muita gente digitando através de avançadas técnicas de catamilhografia e que estão satisfeitas com isso. Paciência.


E ói que passei com a nota 8,5!

E lá pelos idos de 85 foi que se deu (ao menos que eu me lembre nesta já provecta idade) o meu primeiro contato com o mundo da microinformática. E a criatura tinha nome: CP-500.


Sim, esse troço era gigante!

Numa época em que as linguagens de programação que “importavam” para o mundo eram o COBOL (COmmon Business Oriented Language – Linguagem Comum Orientada para os Negócios – que era voltada ao processamento de bancos de dados comerciais) e o FORTRAN (IBM Mathematical FORmula TRANslation System, voltada ao campo da ciência da computação e análise numérica), era uma verdadeira inovação aquela molecada aprendendo BASIC (Beginner’s All-purpose Symbolic Instruction Code – Código de Instruções Simbólicas de Uso Geral para Principiantes – criada especificamente para fins didáticos).


Meu primeiro “diploma informático”!

Sim, BASIC, pois ainda não se falava em microcomputadores e Sistema Operacional era uma coisa que simplesmente não existia. Os dados eram carregados no computador e nossos programas eram gravados em fitas cassete (até porque ainda não existiam disquetes no mercado comum). E não, vocês não entenderam errado não: eram fitas K-7 mesmo – para que pudéssemos executar qualquer programa que tivéssemos escrito tínhamos que conectar no equipamento um gravador (um troço de antigamente, mais ou menos do tamanho de uma caixa de sabão em pó pequena) e carregar os dados. É LÓGICO que todo mundo que programava ao menos uma vez já havia tentado colocar aquela bendita fita com dados no aparelho de som de casa (os chamados três-em-um) pra ver que tipo de ruído saía na caixa de som. Parecia coisa do demo…


Tenho até hoje minha coleção de fitas K-7 com músicas daquela época…

E o tempo foi passando e eu fui acompanhando meio de longe a evolução da espécie… Mesmo assim, ainda que sequer computador tivesse em casa, em 1988 fiz um dos “cursinhos” que pipocavam na época – que serviam mais para arrancar dinheiro dos incautos do que necessariamente prepará-los para esse admirável mundo novo que nos batia à porta. E ali aprendi os mais rudimentares conceitos de programação, planilha de cálculos, banco de dados e editor de texto. Traduzindo: Basic, Lotus 1-2-3, DBase III Plus e Wordstar. Ah, sim, e eu GANHEI a piromba do cursinho…


Como dizem por aí: “de grátis, até ônibus pro lugar errado…”

Segue o andor, até que no decorrer do ano de 1991, mais por força da necessidade do que por minha natural curiosidade, voltei a ter contato direto com a vida virtual. Em parte porque meu irmão mais velho havia comprado um “Poderoso PC XT“, com sua romântica tela verde, dois drives para disquetes 5 1/4” e – A-HA ! – não precisava de disco rígido! A inicialização utilizava um dos drives de disquete enquanto você trabalhava com o outro.

Aliás, os disquetes eram um caso à parte. O único disquete que eu havia visto antes era um enorme, de 8 polegadas, quando ainda trabalhava num banco. Já na época do PC XT, os disquetes de 1,44Mb ainda eram um sonho distante e os que usávamos armazenavam somente 360Kb – que era o suficiente para carregar um Sistema Operacional DOS 3.30 completo, mais um Wordstar para textos e dBase III Plus para bancos de dados. Porém as planilhas precisavam de mais espaço, por isso o Lotus 1-2-3 ocupava um disquete inteiro. E desde então, sendo quem somos, já dávamos nó em pingo d’água, pois estava em voga um programinha italiano que enganava o computador, elevando a capacidade do disquete de 360 para inimagináveis 800Kb! Ainda devo ter uma cópia dele perdida nas catacumbas do meu computador…

E no início dos anos noventa vieram os 386 com suas telas coloridas e coprocessadores matemáticos (normalmente só pra quem rodava AutoCAD), bem como a coqueluche do momento: o Windows 3.11, uma nova forma de trabalhar com os computadores através de um ambiente gráfico que rodava muito bem sobre o Sistema Operacional DOS 5.0. Não muito tempo depois os sistemas “estáveis” rodavam com o Windows for Workgroups sobre o DOS 6.22.


Sim, estes disquetes fazem parte de minha coleção pessoal.

Já conhecendo um tanto de configuração de microcomputadores, e, na época, trabalhando na Telesp, eis que o pessoal da CPD (Central de Processamento de Dados) descobriu que havia um funcionário novo que entendia desse novo sistema operacional que estava tomando conta do mercado e para o qual teriam que migrar – enquanto que eles estavam acostumados com os grandes e parrudos computadores e servidores que rodavam sobre o Sistema Operacional Unix. Foi uma via de mão dupla, pois enquanto eu passava para eles meu conhecimento adquirido na prática e na lida, eles me passaram o deles através de cursos nos centros de treinamento da empresa.


Eis “O” Sistema Operacional antes que existissem os demais sistemas operacionais…

E em 1995 o que surgiu? O Windows 95, é claro, trazendo uma nova concepção para o mundo da informática. A multitarefa finalmente parecia que estava saindo dos livros e entrando na vida real. Nessa época eu montava, configurava e vendia computadores em casa, de modo que foi também quando montei meu primeiro computador. Impossível hoje dizer “o que” ele era, pois muitas vezes, a cada vez que chegava um novo computador para conserto ou para montagem, eu precisava abrir o meu próprio computador para testar placas e memórias e outros quetais, de modo que hoje já não tenho mais ideia de qual seria sua configuração.

Mas uma coisa é certa: ele tinha um nome.

Ou melhor, teve vários nomes. A cada vez que eu trocava uma placa-mãe ou instalava uma nova versão do sistema operacional, era como se ele assumisse uma nova identidade, motivo pelo qual eu lhe dava um novo nome.

Nomes são importantes.

Quando você atribui um nome a algo ou a alguém – ainda que seja um nome que somente sirva para você lembrar no seu íntimo – então esse objeto ou ser nomeado passou a ser um indivíduo, não dividual, indiviso. Passou a ter uma forma como um todo reconhecível. Ou seja, ganhou uma personalidade. E, para mim, sempre foi mais fácil lidar com minhas máquinas e equipamentos dessa maneira, atribuindo-lhes características únicas que as diferenciavam de todo o restante – meus computadores de então eram extremamente dedicados a mim, mas geniosos com estranhos; já tive o Brioso, um Fusca extremamente ciumento (deveria ter sido Briosa…); o Cruzador Imperial, um orgulhoso Opala Comodoro; a sempre elegante Madame Zafira; Bilbo, o Ford Ka, também conhecido como o pequeno notável; e, é lógico, Titanic – a Lenda.

Mas deixemos os carros de lado, pois estamos aqui para falar de informática!

No ano de 1996 eu me separei de minha primeira esposa e, de bom grado, saí com somente aquilo que me interessava: a roupa do corpo, minha coleção de gibis e meu bravo computador. Que, não demorou muito, sucumbiu ao mundo capitalista e teve que ser vendido para dar sustento àquele recém-separado estudante do último ano de direito…

Mas o mundo dá voltas e não demorou muito novas e duradouras amizades vieram fazer parte desta minha vida, já um tanto sofrida, inclusive abrindo-me portas para os primeiros passos na carreira profissional de Doutor Adêvogado de Direito Jurídico… Tudo bem que o fato de eu conhecer de informática e viver acertando e configurando todas as máquinas daquele povo também ajudava, né?

Pois bem, naqueles tempos a Internet para o povão era só um mito, uma coisa que acontecia lá fora, em terras estrangeiras, e sobre a qual líamos nas “revistas especializadas”. A solução caseira em terras tupiniquins se dava através dos BBS, uma espécie de rede local via linha discada. Alás, a primeira placa de fax-modem a gente nunca esquece: era uma Zoltrix de velocíssimos 28.800 Kbps!

E então, no final de 1996, finalmente conheci a Internet. Logo após eu ter me formado em Direito, o escritório no qual eu trabalhava resolveu assinar um pacote: míseros R$100,00 por uma hora de acesso no mês (fora a conta telefônica)! Uma verdadeira pechincha! #SQN

Mas os preços foram caindo e as possibilidades se ampliando e o tempo de conexão aumentando. Foi mais ou menos por aí, lá pelos idos de 97, que criei meu primeiro blog. O ano seguinte veio a nos coroar com o Sistema Operacional Windows 98, que durante os anos seguintes reinaria absoluto em termos de estabilidade e segurança – mesmo diante daqueles que tentaram ser seus sucessores dentro da própria Microsoft (Vista e Millennium, pra citar só dois). Também foi nesse período que tive meu primeiro contato com o Linux, mais especificamente um dos primeiros produtos da empresa Conectiva, baseado na Distribuição Red Hat. Mais tarde eu viria a “brincar” bastante também com outras distribuições, em especial o Slackware e mais recentemente com o Ubuntu.

E também foi no ano de 98 que eu viria a me casar pela segunda vez. E ao juntar nossas trouxinhas agora tínhamos dois computadores, o meu e o dela, para administrarmos numa pequena rede em casa – que foi ampliada, reduzida e destruída a cada uma das mudanças que fazíamos (ao todo foram sete). Para nomeá-los resolvi partir para o básico, então simplesmente adotei o Alfabeto Grego. Alfa e Beta.

Mas, ao menos nesse novo período, curta vida teve o caquético Alfa. Exaurido por tanto ser transportado e adaptado desde a época em que estava no escritório, já na nossa segunda mudança ele deu indícios de severa senilidade que o condenaram em definitivo.

As portas estavam abertas para Alfa-2, que foi montado com o que eu tinha à mão e ainda assim sobre os restos mortais de seu antecessor (o que, eu deveria ter previsto, demonstrou ser um erro trágico). Foi vítima de uma tempestade de raios que lhe fritou totalmente os cornos. E, de quebra, meus arquivos.

Estávamos em meados de 2001 quando montei minha primeira “máquina parruda”: ALPHA3 (só pra ser diferentão…). Tinha conexões para todo tipo de cartão de memória, placa de captura de vídeo, dois HDs de gaveta (ainda não existiam HDs externos), o escambau! Desta vez tendo por base o Sistema Operacional Windows XP foi o de mais longeva duração em minhas mãos, mesmo quando do advento do Windows 7 eu me mantive fiel ao sistema anterior – até porque não queria fazer parte daquela obsolescência programada, que nos faz aposentar nossas máquinas atuais sempre que um novo sistema é lançado.

“Mas acontece que tudo tem começo; se começa, um dia acaba…”, como dizia a letra da música… E no decorrer do ano de 2010, após anos de excelentes serviços prestados, inclusive sendo responsável pela maior parte da digitalização das fitas de vídeo que tenho em casa, silenciosamente sua essência partiu para a Grande Nuvem para nunca mais voltar.

E 2010 foi uma complicado. Muito. Alfa-4 se consolidou na figura nada carismática de um computador de loja (da marca Megaware) e sinceramente não me encantou. No final daquele ano, ainda que na época não soubesse, eu viria a passar um bom tempo fora de casa, de modo que depois de alguns meses reconfigurei-o para o uso da Dona Patroa e mandei pra garagem o antigo, mas ainda vigoroso, HP Pavillion que eu havia conseguido numa boa promoção (um leilão de ponta de estoque que merece um causo à parte!).

E então veio ALFA-5… Montei carinhosamente esse computador com tudo que encontrei de melhor à época. Não vou perder tempo aqui descarregando sobre vocês um monte de tecnicidades, velocidades, clocks, megabytes e terabytes que só chateiam a leitura para os “não iniciados”. Entendam que era uma EXCELENTE MÁQUINA. Assim, em caixa alta mesmo. Para usufruir melhor de sua capacidade até mesmo abri mão de minha teimosia (ói que difícil!) e instalei o Windows 7. Tive trabalho para reconfigurar um tanto de outros programas que utilizo desde o Windows 98 – mas que até hoje não encontrei melhores no mercado, em especial no que diz respeito à Genealogia e catálogos de peças do Opala.


Alfa-5, ainda em montagem e configuração, ladeado pelos restos mortais de ALPHA3…

Nesse meio tempo, com a criançada de casa já em plena adolescência, fui atrás de algumas máquinas também para eles. Também de prateleira, todas iguais que era para não dar briga. Um detalhe: o sistema embarcado era o Windows 8. Desde o início já deixei bem claro que não conhecia aquele sistema, não queria conhecer e qualquer problema que tivessem teriam que recorrer uns aos outros e se ajudar. Seguindo a ordem alfabética grega, as máquinas entraram na rede com os nomes de Gama, Delta e Zeta (na verdade esta última era para ser “Épsilon”, mas não gostei do nome…).

Porém, como muitos já sabem, há cerca de uma semana eu soltei a seguinte nota nas redes sociais:

NOTA DE FALECIMENTO: depois de sete anos de excelentes serviços prestados, comunico a passagem do meu aguerrido computador. Há tempos já vinha dando sinais de esgotamento nervoso, com eventuais lapsos de memória e desmaios repentinos. Passou por uma recente cirurgia de transplante, após uma súbita parada de fonte. Parecia estar bem, mas hoje, por volta de 06h10min, teve um colapso fulminante e não reagiu mais aos tratamentos de ressuscitação artificial. Deixará saudades e um grande vazio em minha mesa e outro maior ainda em meu bolso.

Péssimo momento.

Foram anos de intenso uso, com muita, muita digitação, edição de imagens, planilhas e mais planilhas, muitas vezes ficando ligado dias e dias para dar conta de uploads e downloads, bem como para renderização de filmes e vídeos dos mais variados tipos.

Mas nada mais havia a ser feito.

Muitos amigos se ofereceram para me emprestar computadores e notebooks, mas, com todo respeito e profundo agradecimento que devo a cada um deles, sou extremamente sistemático. Trabalho com um gama de programas instalados e uma metodologia que só funciona se eu zerar o computador e reconstruí-lo sob essas condições (eu ia escrever “à minha imagem”, mas fiquei com vergonha…), de modo que soluções de curto prazo não se demonstrariam producentes para meu dia a dia.

Até porque ainda tenho o meu notebook (ganhado), mas que, além de jurássico, é dado a surtos esquizofrênicos, de modo que não tenho como desenvolver um trabalho de peso em cima dele.

Assim, resgatei da aposentadoria (e das teias de aranha) aquele geriátrico HP Pavillion e comecei a reconfigurá-lo até que me sobrasse algum cascalho ($$$) para começar a montar um novo computador. Mas a surpresa viria logo a seguir, de uma maneira totalmente inesperada, pois eu jamais poderia prever que o apelo que lancei à procura de quem ainda tivesse algum disquete disponível (que, diga-se de passagem, foi mera brincadeira) acabasse por surtir efeito!

Mas não basta contar o milagre, tenho que dar nome ao santo. Se bem que, de “santo”, não sei não… Então. Eis que numa bela manhã de sol, me liga o meu amigo Renato Gil e me oferece um computador que estava encostado na casa dele. Argumentou que não tem mais a mínima intenção de trabalhar com desktops e que eu poderia usá-lo à vontade. Eu já estava começando com minha ladainha de que não, muito obrigado, que legal, mas eu sou sistemático e…

“Ô seu Zé Ruela, eu tô DANDO o computador pra você! Nem sei se está funcionando direito. Se você formatar e conseguir usar, tudo bem; se quiser só usar pra arrancar as peças, não tem problema, mas ele é SEU!”

GLUP.

Eu deveria conhecer melhor os amigos que tenho…

Enfim, combinamos o combinado e fui lá buscar o bichinho encostado.

Encontrei um simpático e bem conservado computador com placa Intel DG31PR, processador Pentium E2180 de 2 GHz e com 2 núcleos, 2 GB de RAM DDR2 800, fonte de 450 Watts e um modesto HD de 150 GB. Formatei-o e, mais uma vez dando a mão à palmatória, já sabendo que meu próximo computador vai ter que estar atualizado para os dias atuais, resolvi instalar o Windows 10 – na verdade foi por insistência do filhote mais velho, hoje técnico em informática e estudante de engenharia da computação, que preferia inclusive o sistema de 64 bits, mas que não foi suportado pelo computador.

Instalei em paralelo o HD de 1 TB do Alfa-5, onde estão todos os meus arquivos (fora os backups) e confesso que deu um tanto de trabalho para instalar (malditos pendrives de boot!) e outro tanto para configurar (nada está onde deveria estar – ah, que saudades do Windows 98!), mas enfim consegui. Estável. Leve. Rápido. Sem travamentos. Esse novo sistema impressionou-me de maneira extremamente positiva. Baixei e instalei os programas de uso diário devidamente atualizados (sempre freeware ou software livre) e desci às minúcias de configuração. Tudo bem. Tudo bom. Inclusive é nele que estou escrevendo e publicando essas tortas linhas de sempre. Assim nasceu Alfa-6.


Ladies & Gentlemen: conheçam Alfa-6!

Ainda falta configurar um tanto de cousas, mas estou bastante confiante e otimista, pois esse menino vai ficar comigo por um bom tempo. Ao menos até eu conseguir levantar fundos suficientes para nossa próxima grande aventura neste nosso evolucionário mundo do Darwinismo Informático. Aguardem, pois mais dia, menos dia, vocês virão a conhecer seu sucessor: ALPHA7! 😉

(E, mais uma vez, MUITO OBRIGADO, Renato, seu lindo! Valeu mesmo! 😀 )

Valorizando seu dinheiro – X

De volta ao Real

Real
(R$1,00 = CR$2.750,00 = US$1.00)

Com o dragão da inflação devidamente sob controle (e que, diferente dos anos anteriores, quando grassavam índices inflacionários usualmente de 4 dígitos, no decorrer dos vinte anos seguintes raramente extrapolariam a 1 dígito) e após quase quinhentos anos de história e de mudanças de moedas, meio que fechando um gigantesco ciclo, voltávamos às origens: tal qual o antigo Real Português da época da colonização, a moeda oficial do Brasil passaria a se chamar Real.

Em 1º de julho de 1994, ainda durante o governo de Itamar Franco, foi instituída como nova moeda brasileira o Real (R$), em conformidade com a Lei nº 8.880, de 27 de maio de 1994 (decorrente da MP nº 482/94), sendo que 1 Real equivalia a 2.750 Cruzeiros Reais (que foi também o último valor atribuído à URV, nessa mesma data), assim como a 1 Dólar Americano, ao qual ficou de início atrelado – ao menos até o começo de 1999, pois, em decorrência dos reflexos das crise financeira asiática de 97, a partir de então o Banco Central do Brasil abandonou esse modelo e passou a deixar o câmbio flutuar livremente.

Com a implantação do Real em 94 foi determinado o recolhimento de todas as cédulas do Cruzeiro Real, bem como quaisquer outras remanescentes dos padrões monetários anteriores, sendo que todas estas perderiam totalmente seu valor a partir de agosto daquele ano.

Ainda que tradicionalmente as cédulas costumassem homenagear personalidades da história nacional, cumpre lembrar que sempre era necessária a negociação e autorização das famílias do homenageado. Ora, uma vez que essas novas cédulas precisariam ser cunhadas muito rapidamente, sem tempo hábil para tal negociação, optou-se pela utilização de animais da fauna brasileira.

Isso mesmo: desta vez nada de carimbos, nada de reaproveitamento dos padrões anteriores. Tinha que ser pra valer!

A Primeira Família de notas de Real, todas com dimensões de 140 x 65mm e com a face contendo a efígie simbólica da República, interpretada sob a forma de escultura, era constituída pelas seguintes cédulas:

R$ 1,00. Lançada em 01/07/1994 e retirada de circulação em 2005, possui no verso a gravura de um Beija-Flor (Amazilia lactea), pássaro típico do continente americano e com mais de cem espécies no Brasil.

R$ 2,00. Lançada em 13/12/2001, possui no verso a gravura de uma Tartaruga Marinha (Eretmochelis imbricata ou tartaruga-de-pente), homenagem a uma espécie que estava em extinção e que, graças ao trabalho desenvolvido pelo Projeto Tamar, agora é preservada no litoral brasileiro.

R$ 5,00. Lançada em 01/07/1994, possui no verso a figura de uma Garça (Casmerodius albus), ave pernalta (família dos ardeídeos), espécie muito representativa da fauna encontrada no território brasileiro.

R$ 10,00. Lançada em 01/07/1994, possui no verso a gravura de uma Arara (Ara chloreptera), ave de grande porte da família dos psitacídeos, típica da fauna do Brasil e de outros países latino-americanos.

R$ 20,00. Lançada em 27/06/2002, possui no verso a figura de um Mico-leão-dourado (Leonthopitecus rosalia), primata de pêlo alaranjado e cauda longa nativo da Mata Atlântica, que é o símbolo da luta pela preservação das espécies brasileiras ameaçadas de extinção.

R$ 50,00. Lançada em 01/07/1994, possui no verso a figura de uma Onça Pintada (Panthera onca), conhecido e belo felídeo de grande porte, ameaçado de extinção, mas ainda encontrado principalmente na Amazônia e no Pantanal Matogrossense.

R$ 100,00. Lançada em 01/07/1994, possui no verso a gravura de uma Garoupa (Epinephelus marginatus), peixe marinho da família dos serranídeos e um dos mais conhecidos dentre os encontrados nas costas brasileiras

A Segunda Família de notas de Real foi lançada visando deixar as cédulas mais modernas e protegidas; ainda que com as mesmas estampas, passou a possuir um novo projeto gráfico e novos elementos de segurança capazes de dificultar as tentativas de falsificação, além de promover a acessibilidade aos portadores de deficiência visual. Outra característica marcante é que passaram a possuir tamanhos diferenciados. Em 13/12/2011 passaram a circular as notas de 50 e 100 Reais; em 27/07/2012, as de 10 e 20 Reais; e em 29/07/2013, as de 2 e 5 Reais. A cédula de 1 Real já havia deixado de ser produzida desde 2005.

121 x 65mm

128 x 65mm

135 x 65mm

142 x 65mm

149 x 65mm

156 x 65mm

E esta é a nossa atual moeda. Já vem se mantendo razoavelmente estável há quase 24 anos. Se não considerarmos o Real Imperial – uma moeda que nem era nossa e muito menos se manteve estável (ainda que tenha circulado por mais de 400 anos) – em termos de longevidade e estabilidade da moeda brasileira, o nosso Real somente perde para o Cruzeiro, criado em 1942 e que permaneceu circulando por aproximadamente 25 anos…


(Início da Saga)

(Continua…)

Livro da Família Andrade

O Livro da Família Andrade foi oficialmente publicado nesta data de 28/02/2018!

Mas, para que entendam melhor, permitam-me contar um pouco dessa “saga”…

Foi no ano de 2014 que descobri o Clube de Autores, um site que permite a elaboração e “autopublicação” de livros. Funciona assim: você prepara seu próprio livro, com todos os detalhes que quiser, utiliza as ferramentas do site para criar sua capa, envia o arquivo, define o preço e eles publicam o livro numa de suas páginas. Caso alguém se interesse por seu livro faz o pedido diretamente na página do Clube de Autores e eles confeccionam o exemplar. Isso mesmo: “o”. Trata-se da chamada impressão sob demanda, ou seja, o livro somente é impresso na medida em que for encomendado. Dessa maneira os mais ilustres e desconhecidos autores – como eu – têm a possibilidade de ver sua obra impressa e publicada, sem a necessidade de gastar uma pequena fortuna com a impressão de uma centena ou mais de livros, que podem ou não vir a ser vendidos.

Pois bem, já há muitos anos sou um curioso no que diz respeito à genealogia – “uma ciência auxiliar da história que estuda a origem, evolução e disseminação das famílias e respectivos sobrenomes ou apelidos” – sendo que comecei os primeiros levantamentos lá pelo início da década de noventa, mas somente a partir de 2002 é que realmente passei a sistematizar aquele mundo de informações no formato de uma árvore genealógica. Ou seja, quando descobri o Clube de Autores eu já tinha um livro da família praticamente pronto (ainda que incompleto, com poucas fotos e com alguns erros). No afã de saber se esse negócio de impressão sob demanda realmente funcionaria, preparei o livro como deu, tendo separado as informações referentes ao ramo Andrade de minha família que eu tinha naquele momento (que eram os registros da família até o ano de 2012), e mandei ver.

Alguns dias depois recebi o resultado. Ficou ótimo! A impressão, a qualidade do material, o acabamento, tudo estava nos conformes! E foi assim que se deu a origem da primeira edição do Livro da Família Andrade, contendo os descendentes de meus avós paternos organizados em ordem cronológica, de modo que que a cada novo nascimento na família, bastaria acrescentar uma nova página no final do livro. E, uma vez que atestada a qualidade e confiança do serviço, as portas se abriram para a publicação de meus outros livros da “série” Filosofices de um Velho Causídico (confiram aí na lateral do blog)…

E agora, cerca de quatro anos após esse primeiro lançamento, temos a segunda edição desse livro da família. Desta vez tive o tempo e o cuidado necessários para poder me esmerar nos detalhes, na organização, no acabamento. Perturbei bem mais de uma vez muitos dos membros da família, encontrando tanto uma excelente receptividade por parte de alguns, quanto uma certa desconfiança por parte de outros. Paciência. Faz parte.

E, desta vez, este livro é bem mais do que uma simples lista dos membros da família!

Em O Início eu conto um pouco da história da Família Andrade, a provável origem desse nome, bem como traço a linha direta entre o mais antigo membro da família que consegui encontrar até os meus avós, Antonio e Sebastianna. E essa história começa em 1629, ano do nascimento de Ângela do Vale e Andrade, na Freguesia de Santa Comba de Fornelos, Distrito de Braga, região norte de Portugal.

Com a Árvore de Descendentes vem o rol em ordem cronológica com cada um dos 137 descendentes diretos até o final do ano de 2017: 12 filhos, 39 netos, 75 bisnetos e 11 trinetos – e a grande maioria com fotos, de modo que dá pra todo mundo se conhecer melhor. Além de permitir dar rosto aos nomes, também dá pra saber quando e onde cada um nasceu, com quem se casou, se por um acaso se separou, quais foram seus filhos e até mesmo quando faleceu. Muitas vezes com uma ou outra curiosidade pra temperar…

Na sequência temos Nosso Presente, um capítulo curtinho, somente para apresentar alguns curiosos gráficos que levam em consideração as datas de nascimentos na família desde seu começo, lá em 1936, ano do casamento de Antonio e Sebastianna.

Em Nosso Passado eu apresento algumas curiosidades que rondaram nossa família, desde quando os primeiros Andrade vieram de Portugal, onde se estabeleceram, para onde foram, assim como trago também alguns genogramas – uma espécie de árvore genealógica simplificada, uma maneira de demonstrar visualmente “quem foi filho de quem”.

Já em Nossos Antepassados tracei uma Árvore de Ascendentes, pois não é só uma única família que dá origem a determinado indivíduo; para cada geração que se sobe, dobra-se o número de antepassados: dois pais, quatro avós, oito bisavós, dezesseis trisavós e assim por diante – na maior parte das vezes cada qual oriundo de uma família diferente. Dessa maneira, a partir de meus filhos, além dos ascendentes da família Andrade, temos ainda as famílias: Nunes, Miura, Mizoguti, Santos, Maia, Antunes, Kumaki, Casaes, Bem, Mello, Faria, Franco, Romana, Novaes, Guimarães e Teixeira – isso para relacionar somente até os trisavós, na sexta geração. Mas neste livro o levantamento segue até a 22ª geração, ali pelo final da Idade Média…

Quase finalizando temos outro capítulo curtinho: Efemérides – uma maneira rápida e prática de saber quando cada um dos descendentes comemora seu aniversário.

Também pra facilitar, no Índice Alfabético tem a relação de praticamente todos os nomes que são citados no livro, quer sejam descendentes ou não, com a respectiva página onde se encontram.

E como não podia deixar de ser, em Terminus eu falo um pouco dos outros livros que publiquei, bem como apresento uma pequena crônica que escrevi há alguns anos e com a qual ainda me emociono a cada vez que leio. É onde também se pode encontrar uma imagem da capa bem como as “orelhas” que foram escritas para cada um desses livros.

Enfim, é isso! Aqueles que já tiveram acesso à primeira edição vão ficar surpresos com a quantidade de informações que trago nesta segunda edição. E, melhor ainda, publiquei duas versões do Livro da Família Andrade: uma em preto e branco e outra em cores. É lógico que o preço desta segunda fica bem mais salgado, mas vai do gosto de cada um, né? Abaixo seguem os links para acesso aos livros, lá no Clube de Autores.

Livro da Família Andrade (P&B)

Livro da Família Andrade (CORES)

E aí? Ainda tá esperando o quê? 😉

Valorizando seu dinheiro – IX

A mais breve moeda do Brasil

Cruzeiro Real
(CR$1,00 = Cr$1.000,00)

Com o afastamento de Collor, assumiu seu vice: Itamar Franco – também conhecido como “presidente tampão”, já que assumiu o restante do mandato, até o final de 1995. Seu maior feito foi o relançamento do Fusca, que havia deixado de ser produzido no Brasil em 1986, mas voltou à linha de produção entre 1995 e 1996. Ah, sim. Ele também foi o responsável pela estabilização da a moeda brasileira.

Mas vamos com calma. Para não perder o costume, mais uma vez houve o corte de três zeros no sistema monetário nacional e foi instituída como nova moeda o Cruzeiro Real (CR$) – o que se deu através da Medida Provisória nº 336, de 28 de julho de 1993, mais tarde convertida na Lei nº 8.697, de 27 de agosto de 1993. Assim, nesse novo sistema, 1 Cruzeiro Real equivalia a 1.000 Cruzeiros.

E, para também não perder o costume, foi novamente implementada a estratégia de apor um carimbo identificador nas cédulas mais altas do sistema anterior e que desta vez (vejam só!) era redondo, mas sem bordas, com as próprias letras dando-lhe forma. Assim, as cédulas do sistema anterior de 50.000, 100.000 e 500.000 Cruzeiros, após serem devidamente carimbadas, passaram a ser respectivamente de 50, 100 e 500 Cruzeiros Reais.

Como a inflação continuava em plena debandada morro abaixo, já em outubro de 93 foram lançadas as notas de 1.000 e 5.000, sendo que a de 50.000 viria juntar-se a elas somente em agosto de 94.

CR$ 1.000,00. Na face possuía a efígie de Anísio Spínola Teixeira (1900-1971), tendo à esquerda vista parcial da Escola Parque, integrante do Centro Educacional Carneiro Ribeiro, projeto do arquiteto e engenheiro Diógenes Rebouças, sob orientação do próprio Anísio; no verso, cena alegórica referente à proposta de ensino levada a efeito pela Escola Parque, cujo fundamento e método defendem a educação como processo constante de reorganização e reconstrução de experiências.

CR$ 5.000,00. Na face possuía a efígie de um gaúcho, ladeada por painel que retrata, em visão simultânea, a fachada e o interior das ruínas da Igreja de São Miguel das Missões, RS, construída pelos jesuítas na primeira metade do século XVII; no verso, painel apresentando cena de um gaúcho manejando o laço, na captura do gado; e, ainda, sob as legendas da margem inferior, reproduções de acessórios típicos que o gaúcho usa em sua lida diária, tais como boleadeira, relho, guampa e esporas.

CR$ 50.000,00. Na face possuía a efígie de uma baiana, com torço e colares, tendo à esquerda painel onde figuram alguns de seus mais importantes balagandãs, os quais possuem diversos significados, tais como romã e cacho de uvas (fecundidade), figa de madeira e dentes de animais (proteção), caju (abundância), peixe, cordeiro e pombas do Espírito Santo (elementos resultantes do sincretismo com o catolicismo), no verso, cena com uma baiana trajada com o requinte dos dias de grande festa, com o clássico tabuleiro, preparando o acarajé; e, ainda, ao fundo vê-se perspectiva da Igreja do Bonfim, em Salvador, cenário de uma das mais famosas festas do sincretismo religiosos brasileiro, qual seja, a Lavagem do Bonfim.

A transformação do sistema monetário vigente à época para o Cruzeiro Real foi apenas uma das medidas adotadas pelo Governo Federal para conter a hiperinflação, que já havia fechado o ano de 1993 no patamar de 2.447,15%. Isso fazia parte de um plano maior engedrado por uma equipe de economistas montada pelo Ministério da Fazenda, que, desde maio de 93, era comandado por Fernando Henrique Cardoso.

Também fazia parte desse plano um conjunto de medidas voltadas para a redução e maior eficiência dos gastos da União. Graças a essas providências iniciais a inflação daquele ano de 1994 recuou para “somente” 916,46%. Mas ainda estava muito alta.

Assim, outra das medidas foi a criação da URV (Unidade Real de Valor), a qual foi instituída em 1º de março de 1994 através da Medida Provisória nº 482, de 28 de abril de 1994, mais tarde transformada na Lei nº 8.880, de 27 de maio de 1994. Sim, a legislação é posterior à criação da URV, mas já fixava em seu bojo que o valor inicial da mesma corresponderia a CR$647,50, retroagindo ao início de março daquele ano.

A URV funcionou principalmente como um indexador para o sistema monetário nacional, já que seu valor era diariamente fixado pelo Governo para aquela data, desta maneira corrigindo, estabilizando e unificando os preços praticados no mercado, já que que era obrigatória sua utilização para conversão dos valores. Mas a URV também acabou sendo meio que uma “moeda de transição” e sua vigência se deu até 30 de junho de 1994, quando então houve a implantação da medida final desse plano de estabilização da economia, que ficou mais conhecido como Plano Real.


(Início da Saga)

(Continua…)

Valorizando seu dinheiro – VIII

Collonoscopia econômica!

Cruzeiro
(Cr$1,00 = NCz$1,00)

Antes de mais nada, vamos nos situar. Em março de 1990 finalmente assumiu um presidente verdadeiramente eleito pelo povo (e que iria se demonstrar como uma bela de uma fraude – um verdadeiro estelionato eleitoral!): Fernando Collor de Mello

E desta vez, tal qual aquela outra vez durante a Ditadura, ainda em 1970, não houve corte de zeros. Apesar da desembestada inflação arredia e galopante do início dos anos noventa, e apenas pouco mais de um ano da última alteração da moeda, no dia seguinte ao de sua posse foi anunciado um novo “Plano Econômico” (o primeiro de muitos) no qual o Cruzado Novo voltaria a se chamar Cruzeiro. Aliás foi esse mesmo plano que decretou o confisco bloqueio das cadernetas de poupança e das contas correntes de todos os cidadãos brasileiros por 18 meses!

Mas sejamos técnicos.

Foi a Medida Provisória nº 168, de 15 de março de 1990 – mais tarde convertida na Lei nº 8.024, de 12 de abril de 1990 – que restabeleceu a denominação de Cruzeiro para a moeda brasileira, sendo que 1 Cruzeiro equivalia a 1 Cruzado Novo.

Este foi o primeiro ato da pantomina presidencial que viria a seguir, editando de uma só tacada 23 medidas provisórias visando combater a inflação que em abril de 90 atingiria inconcebíveis 6.238,57% acumulados nos últimos 12 meses – o mais alto pico da inflação já visto no país!

Em tese todo esse pacote tinha por pretensão combater a inflação, eliminar o déficit público e reduzir a máquina estatal. E, assim como os planos de estabilização econômica anteriores, o Plano Collor fracassou estrondosamente. A inflação não foi controlada, o fechamento de empresas estatais com a consequente demissão arbitrária de funcionários desorganizou ainda mais os serviços públicos e o confisco do dinheiro das contas bancárias desagradou absolutamente todos os setores da sociedade.

Também como já feito anteriormente em outras mudanças de moeda, mais uma vez usou-se a estratégia de apor um carimbo identificador nas cédulas e desta vez ele era – uau! – retangular… As primeiras emissões nesse padrão foram cédulas de 50, 100, 200 e 500 Cruzados Novos reaproveitadas com esse carimbo retangular com a nova denominação de de 50, 100, 200 e 500 Cruzeiros.

Com a inflação corroendo diariamente o valor do dinheiro, uma cédula provisória de 5.000 Cruzeiros com projeto simplificado entrou em circulação para atender o aumento da demanda antes da emissão das novas cédulas próprias da nova moeda.

Cr$5.000,00. Na face possuía a efígie da República, tendo, à esquerda, rosácea em guilhochê (desenhos contínuos e simétricos em que a ponta de trabalho retorna ao ponto inicial); no verso, uma representação das Armas Nacionais, ladeada por composição de rosáceas em guilhochê..

Tal qual Sarney no início de seu governo, ainda naquele ano de 90 entraram em circulação as novas cédulas no valor de 100, 200 e 500 Cruzeiros, “aproveitando” os elementos das cédulas lançadas anteriormente, apenas com a adaptação das legendas e do valor facial para o novo padrão.

Cr$100,00. Na face possuía o retrato de Cecília Meireles (1901-1964), tendo à esquerda a reprodução de desenho de sua autoria, ao qual se sobrepõem alguns versos manuscritos extraídos de seus “Cânticos”; no verso, uma gravura, à esquerda, representa o universo da criança, suas fantasias e o momento da aprendizagem e o painel é completado, à direita, com a reprodução de desenhos feitos pela escritora, representativos de seus estudos e pesquisas sobre folclore, músicas e danças populares.

Cr$200,00. Na face possuía a efígie simbólica da República, interpretada sob a forma de escultura e, à esquerda, gravura simbolizando a reunião de ideais republicanos, onde aparecem as personagens históricas de Silva Jardim, Benjamim Constant, Marechal Deodoro da Fonseca e Quintino Bocaiúva; no verso, detalhe do quadro “Pátria”, do pintor Pedro Bruno (1888-1949), onde aparece a bandeira do Brasil sendo bordada no seio de uma família.

Cr$500,00. Na face possuía a efígie do cientista Augusto Ruschi (1915-1986), ladeada por alegorias de flora e fauna, destacando-se uma representação da “Cattleya labiata warneri”, orquídea que, com dezenas de variedades, é a mais típica do Espírito Santo e a maior flor do gênero no Brasil; no verso, Ruschi examinando orquídeas, aparecendo em destaque a figura de um beija-flor.

E, juntamente com essas, também foram lançadas as novas cédulas de 1.000 e de 5.000 Cruzeiros.

Cr$1.000,00. Na face possuía a efígie de Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958), tendo à esquerda uma gravura em que aparece uma estação telegráfica pioneira, além da representação de uma floresta e de mapa com contornos do Brasil e da América do Sul; no verso, casal de índios carajás, ladeado pela representação de alimentos e de uma habitação nhambiquara.

Cr$5.000,00. Na face possuía a efígie de Antônio Carlos Gomes (1836-1896), tendo à esquerda três figuras que fazem parte do monumento existente junto ao Teatro Municipal de São Paulo, as quais representam “O Guarani”, “Salvador Rosa” e “O Escravo”, três de suas mais importantes óperas; no verso, à direita, parte do monumento já referido no anverso e, à esquerda, um piano que pertenceu ao homenageado.

Mas a escalada da inflação não dava trégua e o Governo foi obrigado a emitir novas cédulas: em 1991 no valor de 10.000 Cruzeiros e em 1992 no valor de 50.000 e 100.000 Cruzeiros em 1992. E, por fim, no início de 1993, entrou em circulação a cédula de 500.000 Cruzeiros, a última desse padrão monetário.

Cr$ 10.000,00. Na face possuía a Efígie do cientista Vital Brazil (1865-1950), tendo à esquerda uma gravura que representa cena clássica de extração do veneno, tarefa básica para a produção de soros; no verso, um painel calcográfico mostrando um antigo serpentário, com destaque para a cena de cobra muçurana devorando uma jararaca.

Cr$ 50.000,00. Na face possuía a efígie de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), tendo à esquerda cena de jangadeiros; no verso, cena do “Bumba-meu-boi”, bailado popular do folclore brasileiro.

Cr$ 100.000,00. Na face possuía a cena de um beija-flor (Amazilia lactea) alimentando filhotes no ninho; no verso, vista das Cataratas do Iguaçu, situada na fronteira com a Argentina.

Cr$ 500.000,00. Na face possuía a efígie de Mário Raul de Morais Andrade (1893-1945), tendo à esquerda desenho inspirado em fotografia de sua autoria, intitulada “Sombra Minha”, acompanhada pelo último verso do conhecido poema “Eu sou trezentos…”; no verso, cena representando Mário de Andrade conversando com crianças, ladeada por prédios que simbolizam o crescimento vertiginoso da cidade de São Paulo na época do escritor.

Mas o que começou mal certamente iria acabar mal. Já em meados de 91 o outrora “Caçador de Marajás” começou a ser denunciado por esquemas de corrupção, irregularidades e outras safadezas. A imprensa tupiniquim (aquela mesma que o colocou lá) pressionou tanto a população e o circuito político que em fins de 92 foi votado e aprovado o impeachment do Presidente, com seu consequente afastamento do cargo. Em dezembro de 92, poucas horas antes de ser condenado pelo Senado por crime de responsabilidade e ter seus direitos políticos suspensos por oito anos, Collor ainda tentou renunciar. Só que essa “renúncia” não foi reconhecida e ele ainda teve a petulância de procurar a imprensa para se fazer de vítima. Covarde.

E assim fechamos a oitava parte desta saga… O Cruzeiro, moeda que já havia sido sepultada em 67 e novamente em 86, mais uma vez caminhava para seu derradeiro fim. A boa notícia é que a inflação acumulada daquele ano de 92 fechou em “apenas” 1.129,45%


(Início da Saga)

(Continua…)

Vamo pra feira?

Quando eu era criança, um pouco antes de minha adolescência e das aborrecências que a acompanham, o tradicional “programa de domingo” invariavelmente era comparecer na igreja Matriz de Santana para a “Missa das Dez”, ou, melhor dizendo, a chamada “Missa das Crianças”.

Estávamos no final da década de setenta e começo dos anos oitenta. Quem celebrava a missa ainda era o Padre Luiz Gonzaga Alves Cavalheiro – conhecido pelos mais antigos como o “Xerife de Santana”… E ainda lembro-me bem da austeridade dele em diversas situações! Mas ali, naquela missa, ele meio que se divertia, pois cumpria com toda a liturgia e ainda arranjava um jeito de, com um ou outro gracejo, arrancar algumas risadas daquela criançada que preenchia a gigantesca nave da igreja: meninos sempre do lado esquerdo e meninas do lado direito. Ou será que era o contrário?

Enfim, ao final da missa e badalar dos sinos era o momento de enfrentar a fila do pipoqueiro, que sempre se posicionava estrategicamente na praça bem em frente da igreja, já tendo começado a estourar uma nova leva de pipocas fresquinhas momentos antes da saída da criançada.

“Tio, me dá um saquinho, fazfavor, mas com BASTANTE queijo, hein?”

Até hoje não consegui descobrir qual é o segredo místico que esses tiozinhos pipoqueiros passam de geração após geração e que faz com que o sabor daquele queijo de pipoca de carrinho seja único na face da Terra, jamais sendo possível de reproduzir em outros ambientes, não importa as condições ideais de temperatura e pressão que venham a ser aplicadas…

Ainda lá pelo meio do saquinho (tendo guardado uns dois ou três queijinhos para o final, porque não sou besta), virava para o eventual amigo/colega/parceiro que estivesse do lado e já soltava:

“Vamo pra feira?”

Compreendam que naquela época, longe das distrações digitais, televisivas e comerciais comuns nos dias de hoje, invariavelmente nós crianças tínhamos que inventar o que fazer. E a feira tal qual a conhecíamos – ao menos a de domingo – era um lugar divertido para se passear naquele espacinho de tempo que tínhamos antes de voltar pra casa para o tradicional almoço de domingo (feijão, arroz, macarrão e frango, bem como, muito de vez em quando, um tanto de batatas fritas também).

Em comparação às feiras dos dias de hoje, sinceramente não me lembro se existiam os trailers ou barracas de pastéis, já que quem quisesse comer um bom pastel que fosse numa das pastelarias nas esquinas próximas da igreja! Aliás, não percebíamos ainda à época, mas desde então já era também um lugar para os cachaceiros e cervejeiros de plantão darem início aos trabalhos de final de semana…

Aquele ambiente cheio de gente e o teor multicolorido daquelas frutas, legumes e sabe-se lá mais o quê, não importa para onde quer que se olhasse, sempre foi uma coisa que me atraiu. Ainda que, na época, não me importasse muito em chegar até o “final da feira”, onde se concentravam barracas desse tipo, era ali no comecinho, talvez até mais ou menos no meio da feira, que se encontravam os itens de maior interesse. Ao menos para a criançada.

Sabíamos que estávamos nos aproximando de um outro universo paralelo quando já ali, antes mesmo de chegar na rua da feira, começávamos a ouvir:

“Aguuuuuuuuulha di disintupifugão! Ólha a aguuuuuuuuulha di disintupifugão!”

E aquele tradicional pregoar dos feirantes era uma constante por toda a extensão da feira.

“Olha aqui, olha aqui, a promoção! Tudo mais barato! Somente hoje, somente hoje, hein?”

“Peixe, olha o peixe, peixe fresquinho, acabou de chegar, vem conferir madame!”

“Paga dez, leva doze! Pode vir, pode vir! Paga dez, leva doze!”

“Pamonha, pamonha, pamonha! Pamonha fresquinha! Pamonha de Piracicaba!”

Não. Péra. Deleta esse último, que não tem nada a ver. A memória às vezes dá um nó na cabeça da gente…

Isso sem nem contar aquela rapaziada mais “abusada”, que soltava algumas coisas do tipo:

“Olha aí, olha aí! Olha a formosura passando! Moça bonita, hoje, não paga! Só que também não leva!”

Tudo bem que era uma brincadeira – e que até fazia as meninas corarem e soltarem umas risadinhas. Mas as feiras de hoje me parecem muito mais silenciosas, tanto num sentido quanto noutro. Até porque um gracejo desses, nos dias politicamente chatos corretos em que vivemos, poderia ser encarado como assédio e dar todo aquele perrengue que costumamos ver por aí. Uma pena. Com isso um pouco da alma da feira parece que se perdeu através do tempo.

Seguíamos em frente e olhávamos com um olho comprido para aquelas tentadoras garrafinhas de sucos coloridos – não consigo nem de longe imaginar uma coisa com sabor mais artificial do que aquilo! Mas o que na realidade nos interessava eram as garrafas em si: nos formatos de trem, avião e outras bobagens mais que adoraríamos ter para uma ou outra brincadeira. Isso sem falar nos deliciosos sequilhos, como quase tudo na feira vendidos a granel (alguém aí ainda sabe o que é isso?) e, esses sim, “impossível de comer um só”.

Até que finalmente chegávamos na única barraca que realmente justificava nossa presença ali: a de “tranqueiras”. É que, diferente de hoje, em que você acha de um tudo na feira, desde roupas, calçados, produtos importados, CDs, DVDs (suuuuuper originais), brinquedos, etc (e tudo isso em barracas que já têm até mesmo as maquinetas que aceitam cartões de débito, de crédito, parcelam e o escambau), naqueles tempos não existia essa variedade de itens – quando muito uma, talvez duas barraquinhas, cheias de coisinhas que pareciam um baú do tesouro para os nossos infantis olhos ávidos por novidades.

Pentes, espelhinhos ovais, canivetes, baralhos, adornos, chaveiros, muitos chaveiros, lanternas, miniaturas, presilhas, enfeites, alguns tipos inimagináveis de ferramentas, isqueiros, cachimbos, coisas de então e de outrora que faziam ferver nossa imaginação e voltávamos comentando entre nós se tinha visto isso ou aquilo ou então para o que será que servia aqul’outro. Sim, é lógico, raramente comprávamos alguma coisa. Mas, também é lógico, tínhamos assunto para a semana toda, inclusive sonhar se conseguiríamos juntar um dinheirinho para na semana seguinte tentar comprar o objeto de desejo – se é que ainda iria estar por lá.

Ah, essas crianças…

E agora preciso de um favor: você que é vegetariano, vegano, amante dos animais ou outro tipo qualquer de ser com igual teor de pureza e grau de evolução, pare de ler. Isso mesmo. PARE. DE LER. AGORA. O que virá a seguir era uma coisa natural, ao menos pra época, mas tenho certeza que você não vai gostar. Com o que está escrito até agora até que já deu pra matar a saudade daqueles tempos, não deu não?

Continuou, né?

Não diga que não avisei…

As feiras de então não estavam cercadas por açougues, padarias, casas de carnes ou quaisquer outros tipos de estabelecimentos que tivessem dessas assadeiras de frango (“televisões de cachorro”), tão comuns hoje em dia. Você queria um frango para o almoço? Bastava comprar. Vivo. Escolhia um de bom peso e tamanho numa das gaiolas que ficavam por ali, logo na saída da feira, o tiozinho amarrava as pernas da ave, e, pendurada de ponta cabeça junto com a sacola de compras, você a levava para casa, a pé mesmo.

Era o normal. Há muito tempo perdi a conta de quantas e quantas vezes já acompanhei minha mãe nessa tarefa. Ao chegar em casa a operação era a de praxe. Não vou entrar aqui nos detalhes sórdidos sobre o como se sucediam as coisas, mas depois de abatido o frango, as penas eram arrancadas e ainda era necessário “sapecar” (ou seja, chamuscar) as pontinhas que haviam ficado pra trás. Ainda lembro-me do cheiro nada agradável que se espalhava pela casa… Depois disso, uma vez limpo e temperado, seu interior ainda era preenchido com uma deliciosa farofa antes de ir para o forno.

Sim, frango era “comida de domingo”. E, ainda, assado? Veja lá que raridade!

Bem, todo esse texto, todas essas lembranças, somente vieram à baila porque lembrei desse bendito “frango com farofa”. Um daqueles sabores inesquecíveis de infância. Mas me é difícil de recordar o fato isolado, sempre tem que haver um contexto – e a feira daqueles tempos é que fazia esse contexto.

Mesmo nos dias de hoje até que ainda gosto de ir na feira.

Mas, confesso, não é mais a mesma coisa.

Se procurarmos bem ainda encontraremos aquele olhar fraternal, aquela cumplicidade entre os feirantes, entre os clientes, entre ambos, aquela ajuda pronta a ser dada em qualquer oportunidade em que fosse necessária – como era comum antigamente. Mas há que se procurar. Bastante. Tá tudo muito mais comercial, muito mais o produto, o lucro, a venda do que o proseio, do que a curiosidade, do que o passeio. Pessoas vêm e vão, compram o que querem e tomam seu rumo. Feirantes vêm e vão, vendem seus produtos e tomam seu rumo.

Enfim, como sempre acabo fazendo com esses textos que me levam a reminiscências de outrora, só posso concluir de uma mesma maneira: ando com uma gigantesca saudade de não sei o quê…