Darwinismo Informático

Tudo muda.

Tudo sempre muda.

Mas nunca muda totalmente, pois muitas das experiências e situações pelas quais passamos são cíclicas. Vão acontecer de novo. E daí a beleza e a vantagem de todo o conhecimento adquirido e acumulado no decorrer de todas essas mudanças: com o inescapável passar do tempo e através da evolução natural de tudo ao nosso redor, estaremos assim preparados para enfrentar esses novos desafios, essas novas situações, prontos para enfrentar o que é novo – mas não necessariamente desconhecido, para explorar novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve!!!

NÃO!

Péra.

Desculpa aí, acho que me empolguei…

Mas creio que vocês pegaram o fio da meada, né? E neste nosso causinho de hoje vamos viajar um pouco em algumas relembranças de experiências de um passado não tão remoto, mas que contextualizados numa linha natural de evolução acabaram sendo cruciais para que eu me tornasse este sujeito tão extraordinariamente especial (e modesto!) que hoje vocês conhecem! E não, não estou falando de minha vida pessoal – que já foi contada em minúcias através dos meus livros – e nem tampouco da minha vida profissional – que já foi totalmente destrinchada em Veredas da Vida.

Hoje vamos tratar um tantinho da trajetória do mundo da informática pela minha vida – algo que já contei, em parte, aqui.

Tudo começou antes mesmo da consolidação da era dos computadores – ainda com a boa e velha máquina de escrever! Afinal de contas, para ter me tornado um exímio digitador antes de mais nada eu teria que ter sido um exímio datilógrafo. E isso somente veio depois de longos quatro meses através do bom e velho cursinho de datilografia! Bem, ao menos naquela época essa era uma realidade… Apesar de tudo vejo muita gente digitando através de avançadas técnicas de catamilhografia e que estão satisfeitas com isso. Paciência.


E ói que passei com a nota 8,5!

E lá pelos idos de 85 foi que se deu (ao menos que eu me lembre nesta já provecta idade) o meu primeiro contato com o mundo da microinformática. E a criatura tinha nome: CP-500.


Sim, esse troço era gigante!

Numa época em que as linguagens de programação que “importavam” para o mundo eram o COBOL (COmmon Business Oriented Language – Linguagem Comum Orientada para os Negócios – que era voltada ao processamento de bancos de dados comerciais) e o FORTRAN (IBM Mathematical FORmula TRANslation System, voltada ao campo da ciência da computação e análise numérica), era uma verdadeira inovação aquela molecada aprendendo BASIC (Beginner’s All-purpose Symbolic Instruction Code – Código de Instruções Simbólicas de Uso Geral para Principiantes – criada especificamente para fins didáticos).


Meu primeiro “diploma informático”!

Sim, BASIC, pois ainda não se falava em microcomputadores e Sistema Operacional era uma coisa que simplesmente não existia. Os dados eram carregados no computador e nossos programas eram gravados em fitas cassete (até porque ainda não existiam disquetes no mercado comum). E não, vocês não entenderam errado não: eram fitas K-7 mesmo – para que pudéssemos executar qualquer programa que tivéssemos escrito tínhamos que conectar no equipamento um gravador (um troço de antigamente, mais ou menos do tamanho de uma caixa de sabão em pó pequena) e carregar os dados. É LÓGICO que todo mundo que programava ao menos uma vez já havia tentado colocar aquela bendita fita com dados no aparelho de som de casa (os chamados três-em-um) pra ver que tipo de ruído saía na caixa de som. Parecia coisa do demo…


Tenho até hoje minha coleção de fitas K-7 com músicas daquela época…

E o tempo foi passando e eu fui acompanhando meio de longe a evolução da espécie… Mesmo assim, ainda que sequer computador tivesse em casa, em 1988 fiz um dos “cursinhos” que pipocavam na época – que serviam mais para arrancar dinheiro dos incautos do que necessariamente prepará-los para esse admirável mundo novo que nos batia à porta. E ali aprendi os mais rudimentares conceitos de programação, planilha de cálculos, banco de dados e editor de texto. Traduzindo: Basic, Lotus 1-2-3, DBase III Plus e Wordstar. Ah, sim, e eu GANHEI a piromba do cursinho…


Como dizem por aí: “de grátis, até ônibus pro lugar errado…”

Segue o andor, até que no decorrer do ano de 1991, mais por força da necessidade do que por minha natural curiosidade, voltei a ter contato direto com a vida virtual. Em parte porque meu irmão mais velho havia comprado um “Poderoso PC XT“, com sua romântica tela verde, dois drives para disquetes 5 1/4” e – A-HA ! – não precisava de disco rígido! A inicialização utilizava um dos drives de disquete enquanto você trabalhava com o outro.

Aliás, os disquetes eram um caso à parte. O único disquete que eu havia visto antes era um enorme, de 8 polegadas, quando ainda trabalhava num banco. Já na época do PC XT, os disquetes de 1,44Mb ainda eram um sonho distante e os que usávamos armazenavam somente 360Kb – que era o suficiente para carregar um Sistema Operacional DOS 3.30 completo, mais um Wordstar para textos e dBase III Plus para bancos de dados. Porém as planilhas precisavam de mais espaço, por isso o Lotus 1-2-3 ocupava um disquete inteiro. E desde então, sendo quem somos, já dávamos nó em pingo d’água, pois estava em voga um programinha italiano que enganava o computador, elevando a capacidade do disquete de 360 para inimagináveis 800Kb! Ainda devo ter uma cópia dele perdida nas catacumbas do meu computador…

E no início dos anos noventa vieram os 386 com suas telas coloridas e coprocessadores matemáticos (normalmente só pra quem rodava AutoCAD), bem como a coqueluche do momento: o Windows 3.11, uma nova forma de trabalhar com os computadores através de um ambiente gráfico que rodava muito bem sobre o Sistema Operacional DOS 5.0. Não muito tempo depois os sistemas “estáveis” rodavam com o Windows for Workgroups sobre o DOS 6.22.


Sim, estes disquetes fazem parte de minha coleção pessoal.

Já conhecendo um tanto de configuração de microcomputadores, e, na época, trabalhando na Telesp, eis que o pessoal da CPD (Central de Processamento de Dados) descobriu que havia um funcionário novo que entendia desse novo sistema operacional que estava tomando conta do mercado e para o qual teriam que migrar – enquanto que eles estavam acostumados com os grandes e parrudos computadores e servidores que rodavam sobre o Sistema Operacional Unix. Foi uma via de mão dupla, pois enquanto eu passava para eles meu conhecimento adquirido na prática e na lida, eles me passaram o deles através de cursos nos centros de treinamento da empresa.


Eis “O” Sistema Operacional antes que existissem os demais sistemas operacionais…

E em 1995 o que surgiu? O Windows 95, é claro, trazendo uma nova concepção para o mundo da informática. A multitarefa finalmente parecia que estava saindo dos livros e entrando na vida real. Nessa época eu montava, configurava e vendia computadores em casa, de modo que foi também quando montei meu primeiro computador. Impossível hoje dizer “o que” ele era, pois muitas vezes, a cada vez que chegava um novo computador para conserto ou para montagem, eu precisava abrir o meu próprio computador para testar placas e memórias e outros quetais, de modo que hoje já não tenho mais ideia de qual seria sua configuração.

Mas uma coisa é certa: ele tinha um nome.

Ou melhor, teve vários nomes. A cada vez que eu trocava uma placa-mãe ou instalava uma nova versão do sistema operacional, era como se ele assumisse uma nova identidade, motivo pelo qual eu lhe dava um novo nome.

Nomes são importantes.

Quando você atribui um nome a algo ou a alguém – ainda que seja um nome que somente sirva para você lembrar no seu íntimo – então esse objeto ou ser nomeado passou a ser um indivíduo, não dividual, indiviso. Passou a ter uma forma como um todo reconhecível. Ou seja, ganhou uma personalidade. E, para mim, sempre foi mais fácil lidar com minhas máquinas e equipamentos dessa maneira, atribuindo-lhes características únicas que as diferenciavam de todo o restante – meus computadores de então eram extremamente dedicados a mim, mas geniosos com estranhos; já tive o Brioso, um Fusca extremamente ciumento (deveria ter sido Briosa…); o Cruzador Imperial, um orgulhoso Opala Comodoro; a sempre elegante Madame Zafira; Bilbo, o Ford Ka, também conhecido como o pequeno notável; e, é lógico, Titanic – a Lenda.

Mas deixemos os carros de lado, pois estamos aqui para falar de informática!

No ano de 1996 eu me separei de minha primeira esposa e, de bom grado, saí com somente aquilo que me interessava: a roupa do corpo, minha coleção de gibis e meu bravo computador. Que, não demorou muito, sucumbiu ao mundo capitalista e teve que ser vendido para dar sustento àquele recém-separado estudante do último ano de direito…

Mas o mundo dá voltas e não demorou muito novas e duradouras amizades vieram fazer parte desta minha vida, já um tanto sofrida, inclusive abrindo-me portas para os primeiros passos na carreira profissional de Doutor Adêvogado de Direito Jurídico… Tudo bem que o fato de eu conhecer de informática e viver acertando e configurando todas as máquinas daquele povo também ajudava, né?

Pois bem, naqueles tempos a Internet para o povão era só um mito, uma coisa que acontecia lá fora, em terras estrangeiras, e sobre a qual líamos nas “revistas especializadas”. A solução caseira em terras tupiniquins se dava através dos BBS, uma espécie de rede local via linha discada. Alás, a primeira placa de fax-modem a gente nunca esquece: era uma Zoltrix de velocíssimos 28.800 Kbps!

E então, no final de 1996, finalmente conheci a Internet. Logo após eu ter me formado em Direito, o escritório no qual eu trabalhava resolveu assinar um pacote: míseros R$100,00 por uma hora de acesso no mês (fora a conta telefônica)! Uma verdadeira pechincha! #SQN

Mas os preços foram caindo e as possibilidades se ampliando e o tempo de conexão aumentando. Foi mais ou menos por aí, lá pelos idos de 97, que criei meu primeiro blog. O ano seguinte veio a nos coroar com o Sistema Operacional Windows 98, que durante os anos seguintes reinaria absoluto em termos de estabilidade e segurança – mesmo diante daqueles que tentaram ser seus sucessores dentro da própria Microsoft (Vista e Millennium, pra citar só dois). Também foi nesse período que tive meu primeiro contato com o Linux, mais especificamente um dos primeiros produtos da empresa Conectiva, baseado na Distribuição Red Hat. Mais tarde eu viria a “brincar” bastante também com outras distribuições, em especial o Slackware e mais recentemente com o Ubuntu.

E também foi no ano de 98 que eu viria a me casar pela segunda vez. E ao juntar nossas trouxinhas agora tínhamos dois computadores, o meu e o dela, para administrarmos numa pequena rede em casa – que foi ampliada, reduzida e destruída a cada uma das mudanças que fazíamos (ao todo foram sete). Para nomeá-los resolvi partir para o básico, então simplesmente adotei o Alfabeto Grego. Alfa e Beta.

Mas, ao menos nesse novo período, curta vida teve o caquético Alfa. Exaurido por tanto ser transportado e adaptado desde a época em que estava no escritório, já na nossa segunda mudança ele deu indícios de severa senilidade que o condenaram em definitivo.

As portas estavam abertas para Alfa-2, que foi montado com o que eu tinha à mão e ainda assim sobre os restos mortais de seu antecessor (o que, eu deveria ter previsto, demonstrou ser um erro trágico). Foi vítima de uma tempestade de raios que lhe fritou totalmente os cornos. E, de quebra, meus arquivos.

Estávamos em meados de 2001 quando montei minha primeira “máquina parruda”: ALPHA3 (só pra ser diferentão…). Tinha conexões para todo tipo de cartão de memória, placa de captura de vídeo, dois HDs de gaveta (ainda não existiam HDs externos), o escambau! Desta vez tendo por base o Sistema Operacional Windows XP foi o de mais longeva duração em minhas mãos, mesmo quando do advento do Windows 7 eu me mantive fiel ao sistema anterior – até porque não queria fazer parte daquela obsolescência programada, que nos faz aposentar nossas máquinas atuais sempre que um novo sistema é lançado.

“Mas acontece que tudo tem começo; se começa, um dia acaba…”, como dizia a letra da música… E no decorrer do ano de 2010, após anos de excelentes serviços prestados, inclusive sendo responsável pela maior parte da digitalização das fitas de vídeo que tenho em casa, silenciosamente sua essência partiu para a Grande Nuvem para nunca mais voltar.

E 2010 foi uma complicado. Muito. Alfa-4 se consolidou na figura nada carismática de um computador de loja (da marca Megaware) e sinceramente não me encantou. No final daquele ano, ainda que na época não soubesse, eu viria a passar um bom tempo fora de casa, de modo que depois de alguns meses reconfigurei-o para o uso da Dona Patroa e mandei pra garagem o antigo, mas ainda vigoroso, HP Pavillion que eu havia conseguido numa boa promoção (um leilão de ponta de estoque que merece um causo à parte!).

E então veio ALFA-5… Montei carinhosamente esse computador com tudo que encontrei de melhor à época. Não vou perder tempo aqui descarregando sobre vocês um monte de tecnicidades, velocidades, clocks, megabytes e terabytes que só chateiam a leitura para os “não iniciados”. Entendam que era uma EXCELENTE MÁQUINA. Assim, em caixa alta mesmo. Para usufruir melhor de sua capacidade até mesmo abri mão de minha teimosia (ói que difícil!) e instalei o Windows 7. Tive trabalho para reconfigurar um tanto de outros programas que utilizo desde o Windows 98 – mas que até hoje não encontrei melhores no mercado, em especial no que diz respeito à Genealogia e catálogos de peças do Opala.


Alfa-5, ainda em montagem e configuração, ladeado pelos restos mortais de ALPHA3…

Nesse meio tempo, com a criançada de casa já em plena adolescência, fui atrás de algumas máquinas também para eles. Também de prateleira, todas iguais que era para não dar briga. Um detalhe: o sistema embarcado era o Windows 8. Desde o início já deixei bem claro que não conhecia aquele sistema, não queria conhecer e qualquer problema que tivessem teriam que recorrer uns aos outros e se ajudar. Seguindo a ordem alfabética grega, as máquinas entraram na rede com os nomes de Gama, Delta e Zeta (na verdade esta última era para ser “Épsilon”, mas não gostei do nome…).

Porém, como muitos já sabem, há cerca de uma semana eu soltei a seguinte nota nas redes sociais:

NOTA DE FALECIMENTO: depois de sete anos de excelentes serviços prestados, comunico a passagem do meu aguerrido computador. Há tempos já vinha dando sinais de esgotamento nervoso, com eventuais lapsos de memória e desmaios repentinos. Passou por uma recente cirurgia de transplante, após uma súbita parada de fonte. Parecia estar bem, mas hoje, por volta de 06h10min, teve um colapso fulminante e não reagiu mais aos tratamentos de ressuscitação artificial. Deixará saudades e um grande vazio em minha mesa e outro maior ainda em meu bolso.

Péssimo momento.

Foram anos de intenso uso, com muita, muita digitação, edição de imagens, planilhas e mais planilhas, muitas vezes ficando ligado dias e dias para dar conta de uploads e downloads, bem como para renderização de filmes e vídeos dos mais variados tipos.

Mas nada mais havia a ser feito.

Muitos amigos se ofereceram para me emprestar computadores e notebooks, mas, com todo respeito e profundo agradecimento que devo a cada um deles, sou extremamente sistemático. Trabalho com um gama de programas instalados e uma metodologia que só funciona se eu zerar o computador e reconstruí-lo sob essas condições (eu ia escrever “à minha imagem”, mas fiquei com vergonha…), de modo que soluções de curto prazo não se demonstrariam producentes para meu dia a dia.

Até porque ainda tenho o meu notebook (ganhado), mas que, além de jurássico, é dado a surtos esquizofrênicos, de modo que não tenho como desenvolver um trabalho de peso em cima dele.

Assim, resgatei da aposentadoria (e das teias de aranha) aquele geriátrico HP Pavillion e comecei a reconfigurá-lo até que me sobrasse algum cascalho ($$$) para começar a montar um novo computador. Mas a surpresa viria logo a seguir, de uma maneira totalmente inesperada, pois eu jamais poderia prever que o apelo que lancei à procura de quem ainda tivesse algum disquete disponível (que, diga-se de passagem, foi mera brincadeira) acabasse por surtir efeito!

Mas não basta contar o milagre, tenho que dar nome ao santo. Se bem que, de “santo”, não sei não… Então. Eis que numa bela manhã de sol, me liga o meu amigo Renato Gil e me oferece um computador que estava encostado na casa dele. Argumentou que não tem mais a mínima intenção de trabalhar com desktops e que eu poderia usá-lo à vontade. Eu já estava começando com minha ladainha de que não, muito obrigado, que legal, mas eu sou sistemático e…

“Ô seu Zé Ruela, eu tô DANDO o computador pra você! Nem sei se está funcionando direito. Se você formatar e conseguir usar, tudo bem; se quiser só usar pra arrancar as peças, não tem problema, mas ele é SEU!”

GLUP.

Eu deveria conhecer melhor os amigos que tenho…

Enfim, combinamos o combinado e fui lá buscar o bichinho encostado.

Encontrei um simpático e bem conservado computador com placa Intel DG31PR, processador Pentium E2180 de 2 GHz e com 2 núcleos, 2 GB de RAM DDR2 800, fonte de 450 Watts e um modesto HD de 150 GB. Formatei-o e, mais uma vez dando a mão à palmatória, já sabendo que meu próximo computador vai ter que estar atualizado para os dias atuais, resolvi instalar o Windows 10 – na verdade foi por insistência do filhote mais velho, hoje técnico em informática e estudante de engenharia da computação, que preferia inclusive o sistema de 64 bits, mas que não foi suportado pelo computador.

Instalei em paralelo o HD de 1 TB do Alfa-5, onde estão todos os meus arquivos (fora os backups) e confesso que deu um tanto de trabalho para instalar (malditos pendrives de boot!) e outro tanto para configurar (nada está onde deveria estar – ah, que saudades do Windows 98!), mas enfim consegui. Estável. Leve. Rápido. Sem travamentos. Esse novo sistema impressionou-me de maneira extremamente positiva. Baixei e instalei os programas de uso diário devidamente atualizados (sempre freeware ou software livre) e desci às minúcias de configuração. Tudo bem. Tudo bom. Inclusive é nele que estou escrevendo e publicando essas tortas linhas de sempre. Assim nasceu Alfa-6.


Ladies & Gentlemen: conheçam Alfa-6!

Ainda falta configurar um tanto de cousas, mas estou bastante confiante e otimista, pois esse menino vai ficar comigo por um bom tempo. Ao menos até eu conseguir levantar fundos suficientes para nossa próxima grande aventura neste nosso evolucionário mundo do Darwinismo Informático. Aguardem, pois mais dia, menos dia, vocês virão a conhecer seu sucessor: ALPHA7! 😉

(E, mais uma vez, MUITO OBRIGADO, Renato, seu lindo! Valeu mesmo! 😀 )

Valorizando seu dinheiro – X

De volta ao Real

Real
(R$1,00 = CR$2.750,00 = US$1.00)

Com o dragão da inflação devidamente sob controle (e que, diferente dos anos anteriores, quando grassavam índices inflacionários usualmente de 4 dígitos, no decorrer dos vinte anos seguintes raramente extrapolariam a 1 dígito) e após quase quinhentos anos de história e de mudanças de moedas, meio que fechando um gigantesco ciclo, voltávamos às origens: tal qual o antigo Real Português da época da colonização, a moeda oficial do Brasil passaria a se chamar Real.

Em 1º de julho de 1994, ainda durante o governo de Itamar Franco, foi instituída como nova moeda brasileira o Real (R$), em conformidade com a Lei nº 8.880, de 27 de maio de 1994 (decorrente da MP nº 482/94), sendo que 1 Real equivalia a 2.750 Cruzeiros Reais (que foi também o último valor atribuído à URV, nessa mesma data), assim como a 1 Dólar Americano, ao qual ficou de início atrelado – ao menos até o começo de 1999, pois, em decorrência dos reflexos das crise financeira asiática de 97, a partir de então o Banco Central do Brasil abandonou esse modelo e passou a deixar o câmbio flutuar livremente.

Com a implantação do Real em 94 foi determinado o recolhimento de todas as cédulas do Cruzeiro Real, bem como quaisquer outras remanescentes dos padrões monetários anteriores, sendo que todas estas perderiam totalmente seu valor a partir de agosto daquele ano.

Ainda que tradicionalmente as cédulas costumassem homenagear personalidades da história nacional, cumpre lembrar que sempre era necessária a negociação e autorização das famílias do homenageado. Ora, uma vez que essas novas cédulas precisariam ser cunhadas muito rapidamente, sem tempo hábil para tal negociação, optou-se pela utilização de animais da fauna brasileira.

Isso mesmo: desta vez nada de carimbos, nada de reaproveitamento dos padrões anteriores. Tinha que ser pra valer!

A Primeira Família de notas de Real, todas com dimensões de 140 x 65mm e com a face contendo a efígie simbólica da República, interpretada sob a forma de escultura, era constituída pelas seguintes cédulas:

R$ 1,00. Lançada em 01/07/1994 e retirada de circulação em 2005, possui no verso a gravura de um Beija-Flor (Amazilia lactea), pássaro típico do continente americano e com mais de cem espécies no Brasil.

R$ 2,00. Lançada em 13/12/2001, possui no verso a gravura de uma Tartaruga Marinha (Eretmochelis imbricata ou tartaruga-de-pente), homenagem a uma espécie que estava em extinção e que, graças ao trabalho desenvolvido pelo Projeto Tamar, agora é preservada no litoral brasileiro.

R$ 5,00. Lançada em 01/07/1994, possui no verso a figura de uma Garça (Casmerodius albus), ave pernalta (família dos ardeídeos), espécie muito representativa da fauna encontrada no território brasileiro.

R$ 10,00. Lançada em 01/07/1994, possui no verso a gravura de uma Arara (Ara chloreptera), ave de grande porte da família dos psitacídeos, típica da fauna do Brasil e de outros países latino-americanos.

R$ 20,00. Lançada em 27/06/2002, possui no verso a figura de um Mico-leão-dourado (Leonthopitecus rosalia), primata de pêlo alaranjado e cauda longa nativo da Mata Atlântica, que é o símbolo da luta pela preservação das espécies brasileiras ameaçadas de extinção.

R$ 50,00. Lançada em 01/07/1994, possui no verso a figura de uma Onça Pintada (Panthera onca), conhecido e belo felídeo de grande porte, ameaçado de extinção, mas ainda encontrado principalmente na Amazônia e no Pantanal Matogrossense.

R$ 100,00. Lançada em 01/07/1994, possui no verso a gravura de uma Garoupa (Epinephelus marginatus), peixe marinho da família dos serranídeos e um dos mais conhecidos dentre os encontrados nas costas brasileiras

A Segunda Família de notas de Real foi lançada visando deixar as cédulas mais modernas e protegidas; ainda que com as mesmas estampas, passou a possuir um novo projeto gráfico e novos elementos de segurança capazes de dificultar as tentativas de falsificação, além de promover a acessibilidade aos portadores de deficiência visual. Outra característica marcante é que passaram a possuir tamanhos diferenciados. Em 13/12/2011 passaram a circular as notas de 50 e 100 Reais; em 27/07/2012, as de 10 e 20 Reais; e em 29/07/2013, as de 2 e 5 Reais. A cédula de 1 Real já havia deixado de ser produzida desde 2005.

121 x 65mm

128 x 65mm

135 x 65mm

142 x 65mm

149 x 65mm

156 x 65mm

E esta é a nossa atual moeda. Já vem se mantendo razoavelmente estável há quase 24 anos. Se não considerarmos o Real Imperial – uma moeda que nem era nossa e muito menos se manteve estável (ainda que tenha circulado por mais de 400 anos) – em termos de longevidade e estabilidade da moeda brasileira, o nosso Real somente perde para o Cruzeiro, criado em 1942 e que permaneceu circulando por aproximadamente 25 anos…


(Início da Saga)

(Continua…)

Livro da Família Andrade

O Livro da Família Andrade foi oficialmente publicado nesta data de 28/02/2018!

Mas, para que entendam melhor, permitam-me contar um pouco dessa “saga”…

Foi no ano de 2014 que descobri o Clube de Autores, um site que permite a elaboração e “autopublicação” de livros. Funciona assim: você prepara seu próprio livro, com todos os detalhes que quiser, utiliza as ferramentas do site para criar sua capa, envia o arquivo, define o preço e eles publicam o livro numa de suas páginas. Caso alguém se interesse por seu livro faz o pedido diretamente na página do Clube de Autores e eles confeccionam o exemplar. Isso mesmo: “o”. Trata-se da chamada impressão sob demanda, ou seja, o livro somente é impresso na medida em que for encomendado. Dessa maneira os mais ilustres e desconhecidos autores – como eu – têm a possibilidade de ver sua obra impressa e publicada, sem a necessidade de gastar uma pequena fortuna com a impressão de uma centena ou mais de livros, que podem ou não vir a ser vendidos.

Pois bem, já há muitos anos sou um curioso no que diz respeito à genealogia – “uma ciência auxiliar da história que estuda a origem, evolução e disseminação das famílias e respectivos sobrenomes ou apelidos” – sendo que comecei os primeiros levantamentos lá pelo início da década de noventa, mas somente a partir de 2002 é que realmente passei a sistematizar aquele mundo de informações no formato de uma árvore genealógica. Ou seja, quando descobri o Clube de Autores eu já tinha um livro da família praticamente pronto (ainda que incompleto, com poucas fotos e com alguns erros). No afã de saber se esse negócio de impressão sob demanda realmente funcionaria, preparei o livro como deu, tendo separado as informações referentes ao ramo Andrade de minha família que eu tinha naquele momento (que eram os registros da família até o ano de 2012), e mandei ver.

Alguns dias depois recebi o resultado. Ficou ótimo! A impressão, a qualidade do material, o acabamento, tudo estava nos conformes! E foi assim que se deu a origem da primeira edição do Livro da Família Andrade, contendo os descendentes de meus avós paternos organizados em ordem cronológica, de modo que que a cada novo nascimento na família, bastaria acrescentar uma nova página no final do livro. E, uma vez que atestada a qualidade e confiança do serviço, as portas se abriram para a publicação de meus outros livros da “série” Filosofices de um Velho Causídico (confiram aí na lateral do blog)…

E agora, cerca de quatro anos após esse primeiro lançamento, temos a segunda edição desse livro da família. Desta vez tive o tempo e o cuidado necessários para poder me esmerar nos detalhes, na organização, no acabamento. Perturbei bem mais de uma vez muitos dos membros da família, encontrando tanto uma excelente receptividade por parte de alguns, quanto uma certa desconfiança por parte de outros. Paciência. Faz parte.

E, desta vez, este livro é bem mais do que uma simples lista dos membros da família!

Em O Início eu conto um pouco da história da Família Andrade, a provável origem desse nome, bem como traço a linha direta entre o mais antigo membro da família que consegui encontrar até os meus avós, Antonio e Sebastianna. E essa história começa em 1629, ano do nascimento de Ângela do Vale e Andrade, na Freguesia de Santa Comba de Fornelos, Distrito de Braga, região norte de Portugal.

Com a Árvore de Descendentes vem o rol em ordem cronológica com cada um dos 137 descendentes diretos até o final do ano de 2017: 12 filhos, 39 netos, 75 bisnetos e 11 trinetos – e a grande maioria com fotos, de modo que dá pra todo mundo se conhecer melhor. Além de permitir dar rosto aos nomes, também dá pra saber quando e onde cada um nasceu, com quem se casou, se por um acaso se separou, quais foram seus filhos e até mesmo quando faleceu. Muitas vezes com uma ou outra curiosidade pra temperar…

Na sequência temos Nosso Presente, um capítulo curtinho, somente para apresentar alguns curiosos gráficos que levam em consideração as datas de nascimentos na família desde seu começo, lá em 1936, ano do casamento de Antonio e Sebastianna.

Em Nosso Passado eu apresento algumas curiosidades que rondaram nossa família, desde quando os primeiros Andrade vieram de Portugal, onde se estabeleceram, para onde foram, assim como trago também alguns genogramas – uma espécie de árvore genealógica simplificada, uma maneira de demonstrar visualmente “quem foi filho de quem”.

Já em Nossos Antepassados tracei uma Árvore de Ascendentes, pois não é só uma única família que dá origem a determinado indivíduo; para cada geração que se sobe, dobra-se o número de antepassados: dois pais, quatro avós, oito bisavós, dezesseis trisavós e assim por diante – na maior parte das vezes cada qual oriundo de uma família diferente. Dessa maneira, a partir de meus filhos, além dos ascendentes da família Andrade, temos ainda as famílias: Nunes, Miura, Mizoguti, Santos, Maia, Antunes, Kumaki, Casaes, Bem, Mello, Faria, Franco, Romana, Novaes, Guimarães e Teixeira – isso para relacionar somente até os trisavós, na sexta geração. Mas neste livro o levantamento segue até a 22ª geração, ali pelo final da Idade Média…

Quase finalizando temos outro capítulo curtinho: Efemérides – uma maneira rápida e prática de saber quando cada um dos descendentes comemora seu aniversário.

Também pra facilitar, no Índice Alfabético tem a relação de praticamente todos os nomes que são citados no livro, quer sejam descendentes ou não, com a respectiva página onde se encontram.

E como não podia deixar de ser, em Terminus eu falo um pouco dos outros livros que publiquei, bem como apresento uma pequena crônica que escrevi há alguns anos e com a qual ainda me emociono a cada vez que leio. É onde também se pode encontrar uma imagem da capa bem como as “orelhas” que foram escritas para cada um desses livros.

Enfim, é isso! Aqueles que já tiveram acesso à primeira edição vão ficar surpresos com a quantidade de informações que trago nesta segunda edição. E, melhor ainda, publiquei duas versões do Livro da Família Andrade: uma em preto e branco e outra em cores. É lógico que o preço desta segunda fica bem mais salgado, mas vai do gosto de cada um, né? Abaixo seguem os links para acesso aos livros, lá no Clube de Autores.

Livro da Família Andrade (P&B)

Livro da Família Andrade (CORES)

E aí? Ainda tá esperando o quê? 😉

Valorizando seu dinheiro – IX

A mais breve moeda do Brasil

Cruzeiro Real
(CR$1,00 = Cr$1.000,00)

Com o afastamento de Collor, assumiu seu vice: Itamar Franco – também conhecido como “presidente tampão”, já que assumiu o restante do mandato, até o final de 1995. Seu maior feito foi o relançamento do Fusca, que havia deixado de ser produzido no Brasil em 1986, mas voltou à linha de produção entre 1995 e 1996. Ah, sim. Ele também foi o responsável pela estabilização da a moeda brasileira.

Mas vamos com calma. Para não perder o costume, mais uma vez houve o corte de três zeros no sistema monetário nacional e foi instituída como nova moeda o Cruzeiro Real (CR$) – o que se deu através da Medida Provisória nº 336, de 28 de julho de 1993, mais tarde convertida na Lei nº 8.697, de 27 de agosto de 1993. Assim, nesse novo sistema, 1 Cruzeiro Real equivalia a 1.000 Cruzeiros.

E, para também não perder o costume, foi novamente implementada a estratégia de apor um carimbo identificador nas cédulas mais altas do sistema anterior e que desta vez (vejam só!) era redondo, mas sem bordas, com as próprias letras dando-lhe forma. Assim, as cédulas do sistema anterior de 50.000, 100.000 e 500.000 Cruzeiros, após serem devidamente carimbadas, passaram a ser respectivamente de 50, 100 e 500 Cruzeiros Reais.

Como a inflação continuava em plena debandada morro abaixo, já em outubro de 93 foram lançadas as notas de 1.000 e 5.000, sendo que a de 50.000 viria juntar-se a elas somente em agosto de 94.

CR$ 1.000,00. Na face possuía a efígie de Anísio Spínola Teixeira (1900-1971), tendo à esquerda vista parcial da Escola Parque, integrante do Centro Educacional Carneiro Ribeiro, projeto do arquiteto e engenheiro Diógenes Rebouças, sob orientação do próprio Anísio; no verso, cena alegórica referente à proposta de ensino levada a efeito pela Escola Parque, cujo fundamento e método defendem a educação como processo constante de reorganização e reconstrução de experiências.

CR$ 5.000,00. Na face possuía a efígie de um gaúcho, ladeada por painel que retrata, em visão simultânea, a fachada e o interior das ruínas da Igreja de São Miguel das Missões, RS, construída pelos jesuítas na primeira metade do século XVII; no verso, painel apresentando cena de um gaúcho manejando o laço, na captura do gado; e, ainda, sob as legendas da margem inferior, reproduções de acessórios típicos que o gaúcho usa em sua lida diária, tais como boleadeira, relho, guampa e esporas.

CR$ 50.000,00. Na face possuía a efígie de uma baiana, com torço e colares, tendo à esquerda painel onde figuram alguns de seus mais importantes balagandãs, os quais possuem diversos significados, tais como romã e cacho de uvas (fecundidade), figa de madeira e dentes de animais (proteção), caju (abundância), peixe, cordeiro e pombas do Espírito Santo (elementos resultantes do sincretismo com o catolicismo), no verso, cena com uma baiana trajada com o requinte dos dias de grande festa, com o clássico tabuleiro, preparando o acarajé; e, ainda, ao fundo vê-se perspectiva da Igreja do Bonfim, em Salvador, cenário de uma das mais famosas festas do sincretismo religiosos brasileiro, qual seja, a Lavagem do Bonfim.

A transformação do sistema monetário vigente à época para o Cruzeiro Real foi apenas uma das medidas adotadas pelo Governo Federal para conter a hiperinflação, que já havia fechado o ano de 1993 no patamar de 2.447,15%. Isso fazia parte de um plano maior engedrado por uma equipe de economistas montada pelo Ministério da Fazenda, que, desde maio de 93, era comandado por Fernando Henrique Cardoso.

Também fazia parte desse plano um conjunto de medidas voltadas para a redução e maior eficiência dos gastos da União. Graças a essas providências iniciais a inflação daquele ano de 1994 recuou para “somente” 916,46%. Mas ainda estava muito alta.

Assim, outra das medidas foi a criação da URV (Unidade Real de Valor), a qual foi instituída em 1º de março de 1994 através da Medida Provisória nº 482, de 28 de abril de 1994, mais tarde transformada na Lei nº 8.880, de 27 de maio de 1994. Sim, a legislação é posterior à criação da URV, mas já fixava em seu bojo que o valor inicial da mesma corresponderia a CR$647,50, retroagindo ao início de março daquele ano.

A URV funcionou principalmente como um indexador para o sistema monetário nacional, já que seu valor era diariamente fixado pelo Governo para aquela data, desta maneira corrigindo, estabilizando e unificando os preços praticados no mercado, já que que era obrigatória sua utilização para conversão dos valores. Mas a URV também acabou sendo meio que uma “moeda de transição” e sua vigência se deu até 30 de junho de 1994, quando então houve a implantação da medida final desse plano de estabilização da economia, que ficou mais conhecido como Plano Real.


(Início da Saga)

(Continua…)

Valorizando seu dinheiro – VIII

Collonoscopia econômica!

Cruzeiro
(Cr$1,00 = NCz$1,00)

Antes de mais nada, vamos nos situar. Em março de 1990 finalmente assumiu um presidente verdadeiramente eleito pelo povo (e que iria se demonstrar como uma bela de uma fraude – um verdadeiro estelionato eleitoral!): Fernando Collor de Mello

E desta vez, tal qual aquela outra vez durante a Ditadura, ainda em 1970, não houve corte de zeros. Apesar da desembestada inflação arredia e galopante do início dos anos noventa, e apenas pouco mais de um ano da última alteração da moeda, no dia seguinte ao de sua posse foi anunciado um novo “Plano Econômico” (o primeiro de muitos) no qual o Cruzado Novo voltaria a se chamar Cruzeiro. Aliás foi esse mesmo plano que decretou o confisco bloqueio das cadernetas de poupança e das contas correntes de todos os cidadãos brasileiros por 18 meses!

Mas sejamos técnicos.

Foi a Medida Provisória nº 168, de 15 de março de 1990 – mais tarde convertida na Lei nº 8.024, de 12 de abril de 1990 – que restabeleceu a denominação de Cruzeiro para a moeda brasileira, sendo que 1 Cruzeiro equivalia a 1 Cruzado Novo.

Este foi o primeiro ato da pantomina presidencial que viria a seguir, editando de uma só tacada 23 medidas provisórias visando combater a inflação que em abril de 90 atingiria inconcebíveis 6.238,57% acumulados nos últimos 12 meses – o mais alto pico da inflação já visto no país!

Em tese todo esse pacote tinha por pretensão combater a inflação, eliminar o déficit público e reduzir a máquina estatal. E, assim como os planos de estabilização econômica anteriores, o Plano Collor fracassou estrondosamente. A inflação não foi controlada, o fechamento de empresas estatais com a consequente demissão arbitrária de funcionários desorganizou ainda mais os serviços públicos e o confisco do dinheiro das contas bancárias desagradou absolutamente todos os setores da sociedade.

Também como já feito anteriormente em outras mudanças de moeda, mais uma vez usou-se a estratégia de apor um carimbo identificador nas cédulas e desta vez ele era – uau! – retangular… As primeiras emissões nesse padrão foram cédulas de 50, 100, 200 e 500 Cruzados Novos reaproveitadas com esse carimbo retangular com a nova denominação de de 50, 100, 200 e 500 Cruzeiros.

Com a inflação corroendo diariamente o valor do dinheiro, uma cédula provisória de 5.000 Cruzeiros com projeto simplificado entrou em circulação para atender o aumento da demanda antes da emissão das novas cédulas próprias da nova moeda.

Cr$5.000,00. Na face possuía a efígie da República, tendo, à esquerda, rosácea em guilhochê (desenhos contínuos e simétricos em que a ponta de trabalho retorna ao ponto inicial); no verso, uma representação das Armas Nacionais, ladeada por composição de rosáceas em guilhochê..

Tal qual Sarney no início de seu governo, ainda naquele ano de 90 entraram em circulação as novas cédulas no valor de 100, 200 e 500 Cruzeiros, “aproveitando” os elementos das cédulas lançadas anteriormente, apenas com a adaptação das legendas e do valor facial para o novo padrão.

Cr$100,00. Na face possuía o retrato de Cecília Meireles (1901-1964), tendo à esquerda a reprodução de desenho de sua autoria, ao qual se sobrepõem alguns versos manuscritos extraídos de seus “Cânticos”; no verso, uma gravura, à esquerda, representa o universo da criança, suas fantasias e o momento da aprendizagem e o painel é completado, à direita, com a reprodução de desenhos feitos pela escritora, representativos de seus estudos e pesquisas sobre folclore, músicas e danças populares.

Cr$200,00. Na face possuía a efígie simbólica da República, interpretada sob a forma de escultura e, à esquerda, gravura simbolizando a reunião de ideais republicanos, onde aparecem as personagens históricas de Silva Jardim, Benjamim Constant, Marechal Deodoro da Fonseca e Quintino Bocaiúva; no verso, detalhe do quadro “Pátria”, do pintor Pedro Bruno (1888-1949), onde aparece a bandeira do Brasil sendo bordada no seio de uma família.

Cr$500,00. Na face possuía a efígie do cientista Augusto Ruschi (1915-1986), ladeada por alegorias de flora e fauna, destacando-se uma representação da “Cattleya labiata warneri”, orquídea que, com dezenas de variedades, é a mais típica do Espírito Santo e a maior flor do gênero no Brasil; no verso, Ruschi examinando orquídeas, aparecendo em destaque a figura de um beija-flor.

E, juntamente com essas, também foram lançadas as novas cédulas de 1.000 e de 5.000 Cruzeiros.

Cr$1.000,00. Na face possuía a efígie de Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958), tendo à esquerda uma gravura em que aparece uma estação telegráfica pioneira, além da representação de uma floresta e de mapa com contornos do Brasil e da América do Sul; no verso, casal de índios carajás, ladeado pela representação de alimentos e de uma habitação nhambiquara.

Cr$5.000,00. Na face possuía a efígie de Antônio Carlos Gomes (1836-1896), tendo à esquerda três figuras que fazem parte do monumento existente junto ao Teatro Municipal de São Paulo, as quais representam “O Guarani”, “Salvador Rosa” e “O Escravo”, três de suas mais importantes óperas; no verso, à direita, parte do monumento já referido no anverso e, à esquerda, um piano que pertenceu ao homenageado.

Mas a escalada da inflação não dava trégua e o Governo foi obrigado a emitir novas cédulas: em 1991 no valor de 10.000 Cruzeiros e em 1992 no valor de 50.000 e 100.000 Cruzeiros em 1992. E, por fim, no início de 1993, entrou em circulação a cédula de 500.000 Cruzeiros, a última desse padrão monetário.

Cr$ 10.000,00. Na face possuía a Efígie do cientista Vital Brazil (1865-1950), tendo à esquerda uma gravura que representa cena clássica de extração do veneno, tarefa básica para a produção de soros; no verso, um painel calcográfico mostrando um antigo serpentário, com destaque para a cena de cobra muçurana devorando uma jararaca.

Cr$ 50.000,00. Na face possuía a efígie de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), tendo à esquerda cena de jangadeiros; no verso, cena do “Bumba-meu-boi”, bailado popular do folclore brasileiro.

Cr$ 100.000,00. Na face possuía a cena de um beija-flor (Amazilia lactea) alimentando filhotes no ninho; no verso, vista das Cataratas do Iguaçu, situada na fronteira com a Argentina.

Cr$ 500.000,00. Na face possuía a efígie de Mário Raul de Morais Andrade (1893-1945), tendo à esquerda desenho inspirado em fotografia de sua autoria, intitulada “Sombra Minha”, acompanhada pelo último verso do conhecido poema “Eu sou trezentos…”; no verso, cena representando Mário de Andrade conversando com crianças, ladeada por prédios que simbolizam o crescimento vertiginoso da cidade de São Paulo na época do escritor.

Mas o que começou mal certamente iria acabar mal. Já em meados de 91 o outrora “Caçador de Marajás” começou a ser denunciado por esquemas de corrupção, irregularidades e outras safadezas. A imprensa tupiniquim (aquela mesma que o colocou lá) pressionou tanto a população e o circuito político que em fins de 92 foi votado e aprovado o impeachment do Presidente, com seu consequente afastamento do cargo. Em dezembro de 92, poucas horas antes de ser condenado pelo Senado por crime de responsabilidade e ter seus direitos políticos suspensos por oito anos, Collor ainda tentou renunciar. Só que essa “renúncia” não foi reconhecida e ele ainda teve a petulância de procurar a imprensa para se fazer de vítima. Covarde.

E assim fechamos a oitava parte desta saga… O Cruzeiro, moeda que já havia sido sepultada em 67 e novamente em 86, mais uma vez caminhava para seu derradeiro fim. A boa notícia é que a inflação acumulada daquele ano de 92 fechou em “apenas” 1.129,45%


(Início da Saga)

(Continua…)

Vamo pra feira?

Quando eu era criança, um pouco antes de minha adolescência e das aborrecências que a acompanham, o tradicional “programa de domingo” invariavelmente era comparecer na igreja Matriz de Santana para a “Missa das Dez”, ou, melhor dizendo, a chamada “Missa das Crianças”.

Estávamos no final da década de setenta e começo dos anos oitenta. Quem celebrava a missa ainda era o Padre Luiz Gonzaga Alves Cavalheiro – conhecido pelos mais antigos como o “Xerife de Santana”… E ainda lembro-me bem da austeridade dele em diversas situações! Mas ali, naquela missa, ele meio que se divertia, pois cumpria com toda a liturgia e ainda arranjava um jeito de, com um ou outro gracejo, arrancar algumas risadas daquela criançada que preenchia a gigantesca nave da igreja: meninos sempre do lado esquerdo e meninas do lado direito. Ou será que era o contrário?

Enfim, ao final da missa e badalar dos sinos era o momento de enfrentar a fila do pipoqueiro, que sempre se posicionava estrategicamente na praça bem em frente da igreja, já tendo começado a estourar uma nova leva de pipocas fresquinhas momentos antes da saída da criançada.

“Tio, me dá um saquinho, fazfavor, mas com BASTANTE queijo, hein?”

Até hoje não consegui descobrir qual é o segredo místico que esses tiozinhos pipoqueiros passam de geração após geração e que faz com que o sabor daquele queijo de pipoca de carrinho seja único na face da Terra, jamais sendo possível de reproduzir em outros ambientes, não importa as condições ideais de temperatura e pressão que venham a ser aplicadas…

Ainda lá pelo meio do saquinho (tendo guardado uns dois ou três queijinhos para o final, porque não sou besta), virava para o eventual amigo/colega/parceiro que estivesse do lado e já soltava:

“Vamo pra feira?”

Compreendam que naquela época, longe das distrações digitais, televisivas e comerciais comuns nos dias de hoje, invariavelmente nós crianças tínhamos que inventar o que fazer. E a feira tal qual a conhecíamos – ao menos a de domingo – era um lugar divertido para se passear naquele espacinho de tempo que tínhamos antes de voltar pra casa para o tradicional almoço de domingo (feijão, arroz, macarrão e frango, bem como, muito de vez em quando, um tanto de batatas fritas também).

Em comparação às feiras dos dias de hoje, sinceramente não me lembro se existiam os trailers ou barracas de pastéis, já que quem quisesse comer um bom pastel que fosse numa das pastelarias nas esquinas próximas da igreja! Aliás, não percebíamos ainda à época, mas desde então já era também um lugar para os cachaceiros e cervejeiros de plantão darem início aos trabalhos de final de semana…

Aquele ambiente cheio de gente e o teor multicolorido daquelas frutas, legumes e sabe-se lá mais o quê, não importa para onde quer que se olhasse, sempre foi uma coisa que me atraiu. Ainda que, na época, não me importasse muito em chegar até o “final da feira”, onde se concentravam barracas desse tipo, era ali no comecinho, talvez até mais ou menos no meio da feira, que se encontravam os itens de maior interesse. Ao menos para a criançada.

Sabíamos que estávamos nos aproximando de um outro universo paralelo quando já ali, antes mesmo de chegar na rua da feira, começávamos a ouvir:

“Aguuuuuuuuulha di disintupifugão! Ólha a aguuuuuuuuulha di disintupifugão!”

E aquele tradicional pregoar dos feirantes era uma constante por toda a extensão da feira.

“Olha aqui, olha aqui, a promoção! Tudo mais barato! Somente hoje, somente hoje, hein?”

“Peixe, olha o peixe, peixe fresquinho, acabou de chegar, vem conferir madame!”

“Paga dez, leva doze! Pode vir, pode vir! Paga dez, leva doze!”

“Pamonha, pamonha, pamonha! Pamonha fresquinha! Pamonha de Piracicaba!”

Não. Péra. Deleta esse último, que não tem nada a ver. A memória às vezes dá um nó na cabeça da gente…

Isso sem nem contar aquela rapaziada mais “abusada”, que soltava algumas coisas do tipo:

“Olha aí, olha aí! Olha a formosura passando! Moça bonita, hoje, não paga! Só que também não leva!”

Tudo bem que era uma brincadeira – e que até fazia as meninas corarem e soltarem umas risadinhas. Mas as feiras de hoje me parecem muito mais silenciosas, tanto num sentido quanto noutro. Até porque um gracejo desses, nos dias politicamente chatos corretos em que vivemos, poderia ser encarado como assédio e dar todo aquele perrengue que costumamos ver por aí. Uma pena. Com isso um pouco da alma da feira parece que se perdeu através do tempo.

Seguíamos em frente e olhávamos com um olho comprido para aquelas tentadoras garrafinhas de sucos coloridos – não consigo nem de longe imaginar uma coisa com sabor mais artificial do que aquilo! Mas o que na realidade nos interessava eram as garrafas em si: nos formatos de trem, avião e outras bobagens mais que adoraríamos ter para uma ou outra brincadeira. Isso sem falar nos deliciosos sequilhos, como quase tudo na feira vendidos a granel (alguém aí ainda sabe o que é isso?) e, esses sim, “impossível de comer um só”.

Até que finalmente chegávamos na única barraca que realmente justificava nossa presença ali: a de “tranqueiras”. É que, diferente de hoje, em que você acha de um tudo na feira, desde roupas, calçados, produtos importados, CDs, DVDs (suuuuuper originais), brinquedos, etc (e tudo isso em barracas que já têm até mesmo as maquinetas que aceitam cartões de débito, de crédito, parcelam e o escambau), naqueles tempos não existia essa variedade de itens – quando muito uma, talvez duas barraquinhas, cheias de coisinhas que pareciam um baú do tesouro para os nossos infantis olhos ávidos por novidades.

Pentes, espelhinhos ovais, canivetes, baralhos, adornos, chaveiros, muitos chaveiros, lanternas, miniaturas, presilhas, enfeites, alguns tipos inimagináveis de ferramentas, isqueiros, cachimbos, coisas de então e de outrora que faziam ferver nossa imaginação e voltávamos comentando entre nós se tinha visto isso ou aquilo ou então para o que será que servia aqul’outro. Sim, é lógico, raramente comprávamos alguma coisa. Mas, também é lógico, tínhamos assunto para a semana toda, inclusive sonhar se conseguiríamos juntar um dinheirinho para na semana seguinte tentar comprar o objeto de desejo – se é que ainda iria estar por lá.

Ah, essas crianças…

E agora preciso de um favor: você que é vegetariano, vegano, amante dos animais ou outro tipo qualquer de ser com igual teor de pureza e grau de evolução, pare de ler. Isso mesmo. PARE. DE LER. AGORA. O que virá a seguir era uma coisa natural, ao menos pra época, mas tenho certeza que você não vai gostar. Com o que está escrito até agora até que já deu pra matar a saudade daqueles tempos, não deu não?

Continuou, né?

Não diga que não avisei…

As feiras de então não estavam cercadas por açougues, padarias, casas de carnes ou quaisquer outros tipos de estabelecimentos que tivessem dessas assadeiras de frango (“televisões de cachorro”), tão comuns hoje em dia. Você queria um frango para o almoço? Bastava comprar. Vivo. Escolhia um de bom peso e tamanho numa das gaiolas que ficavam por ali, logo na saída da feira, o tiozinho amarrava as pernas da ave, e, pendurada de ponta cabeça junto com a sacola de compras, você a levava para casa, a pé mesmo.

Era o normal. Há muito tempo perdi a conta de quantas e quantas vezes já acompanhei minha mãe nessa tarefa. Ao chegar em casa a operação era a de praxe. Não vou entrar aqui nos detalhes sórdidos sobre o como se sucediam as coisas, mas depois de abatido o frango, as penas eram arrancadas e ainda era necessário “sapecar” (ou seja, chamuscar) as pontinhas que haviam ficado pra trás. Ainda lembro-me do cheiro nada agradável que se espalhava pela casa… Depois disso, uma vez limpo e temperado, seu interior ainda era preenchido com uma deliciosa farofa antes de ir para o forno.

Sim, frango era “comida de domingo”. E, ainda, assado? Veja lá que raridade!

Bem, todo esse texto, todas essas lembranças, somente vieram à baila porque lembrei desse bendito “frango com farofa”. Um daqueles sabores inesquecíveis de infância. Mas me é difícil de recordar o fato isolado, sempre tem que haver um contexto – e a feira daqueles tempos é que fazia esse contexto.

Mesmo nos dias de hoje até que ainda gosto de ir na feira.

Mas, confesso, não é mais a mesma coisa.

Se procurarmos bem ainda encontraremos aquele olhar fraternal, aquela cumplicidade entre os feirantes, entre os clientes, entre ambos, aquela ajuda pronta a ser dada em qualquer oportunidade em que fosse necessária – como era comum antigamente. Mas há que se procurar. Bastante. Tá tudo muito mais comercial, muito mais o produto, o lucro, a venda do que o proseio, do que a curiosidade, do que o passeio. Pessoas vêm e vão, compram o que querem e tomam seu rumo. Feirantes vêm e vão, vendem seus produtos e tomam seu rumo.

Enfim, como sempre acabo fazendo com esses textos que me levam a reminiscências de outrora, só posso concluir de uma mesma maneira: ando com uma gigantesca saudade de não sei o quê…

O Sebastianismo

Vocês já ouviram falar do “Sebastianismo”? Então. Até há pouco tempo, nem eu. Mas dentre os 4 ou 12 livros que sempre tenho à cabeceira para leitura, dia desses retomei um que traz a história de Portugal desde antes de ser Portugal, passando por todos seus reis e, dentre eles, D. Sebastião.

D. Sebastião I foi o Rei de Portugal e Algarves de 1568 até 1578. Mas, na prática, já era o rei de fato desde 1557, quando faleceu D. Manuel I, seu avô e antecessor no trono. Entretanto, como tinha apenas quatro anos de idade, teve que esperar mais um bocadinho…

Nesse meio tempo, enquanto regentes cuidavam do trono, foi educado “para reinar”, isto é, foi criado dentro do culto do heroísmo militar e do caráter divino da realeza. Desse modo convenceu-se desde cedo que caberia a ele ser o instrumento de salvação da cristandade em tese ameaçada pela reforma protestante que vinha tomando um corpo cada vez maior desde a publicação das 95 teses de Martinho Lutero, em 1517 – uma obsessão que somente acentuou-se com o passar do tempo.

E no decorrer dos dez anos que reinou sonhava com a derradeira luta contra os “inimigos da fé”…

E a “oportunidade” surgiu em 1578, quando, do alto de seus meros 24 anos de idade, embarcou para a África com o firme propósito de tomar a cidade de Marrocos, a qual havia sido conquistada por um mouro apoiado pelos turcos (o que significaria que a Turquia iria dominar todo o Norte da África, ameaçando assim a Europa Cristã). Ainda que estivesse com um exército de 17 mil combatentes, o confronto com as forças do rei de Marrocos, que se deu nas proximidades de Álcácer Quibir, resultou num estrondoso fracasso. Metade dos soldados morreu e a outra metade foi aprisionada. E o próprio rei morreu. Porém seu corpo nunca foi encontrado.

Sem herdeiros diretos que pudessem se habilitar ao trono de português, após muito embate este acabou sendo entregue nas mãos de seu parente Filipe, rei da Espanha (Filipe I em Portugal). E assim permaneceu por mais duas gerações, com Filipe II e III.

E essa situação política de subordinação à Espanha foi se traduzindo numa inconformidade por parte do povo e gerando uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através de um esperado retorno triunfal de D. Sebastião, já que vários setores da população simplesmente não acreditavam na morte do rei. Estava criado o “Sebastianismo”, uma espécie de consciência coletiva popular que traduzia-se na firme convicção de que em épocas de sofrimento generalizado do povo, haveria de aparecer uma figura heroica, salvadora, não sendo possível dizer quem seria ou de onde viria, mas que haveria de salvar a todos!

Escritores de renome, tais com o Padre Antônio Vieira, Fernando Pessoa e mesmo Ariano Suassuna dedicaram-se a esse tema. Mas o mais interessante é que as origens do Sebastianismo são de fato anteriores à morte e até mesmo ao nascimento de D. Sebastião!

Vejam como isso se deu através das palavras de José Hermano Saraiva, em seu livro História Concisa de Portugal:

“Em 1530, o rei D. João III deu a Vila de Trancoso a um seu irmão mais novo, o infante D. Fernando, que por essa altura se casou. Os lavradores e artesãos de vários ofícios amotinaram-se e não permitiram que o infante tomasse conta da Vila. Isso porque preferiam a dependência direta da administração da Vila por parte dos funcionários reais, que eram mais ou menos indulgentes na cobrança de impostos, em vez de pertencerem a um grande senhor rigoroso e às vezes cruel em suas exigências. Essa situação de rebeldia manteve-se durante alguns anos e o rei entrou em negociações com um representante dos moradores, confiando em que o tempo acabaria por resolver a situação. Não se enganou, porque o infante morreu já em 1534 e a Vila de Trancoso voltou ao patrimônio da Coroa.”

E o que isso tem a ver com o Sebastianismo? Calma, calma… Veremos!

“Foi durante os anos da revolta anti-senhorial de Trancoso que um sapateiro que lá morava, Gonçalo Anes Bandarra, escreveu umas trovas que o tempo haveria de tornar célebres. Era um homem rude (“próprio para ovelheiro”, diz um auto do Santo Ofício), que se metera a ler a Bíblia em português e mantinha contatos com cristãos-novos [judeus forçados a se converterem à fé católica], a quem recorria para que lhe explicassem as passagens que não entendia. Misturando confusas citações da Bíblia, reminiscências da poesia popular tradicional, mitos espanhóis (o Encoberto, a que faz alusão, é um mito ligado à revolta das comunidades espanholas de 1520-1522), profecias que andavam de boca em boca, vestígios de lendas do ciclo arturiano [em especial as lendas britânicas de que Rei Arthur estaria vivo e algum dia iria retornar], críticas sociais à corrupção e à prepotência dos grandes, compôs uma espécie de auto pastoril profético, que era inicialmente um protesto conta a doação da Vila ao infante irmão do rei.

Mas acontecia que o sapateiro era mau escritor. Usava os termos que lhe pareciam bem soantes, mas que não sabia ao certo o que queriam dizer, reproduzia, embaladas na toada popular da redondilha, palavras, frases e símbolos ouvidos aqui e ali, mas era incapaz de lhes definir um sentido claro. O resultado foi que as trovas se podiam entender em tantos sentidos quanto se quisessem. Começaram a circular cópias de mão em mão e quando se iniciou a perseguição da Inquisição aos cristãos-novos estes julgaram ler o anúncio da vinda de um Messias salvador nos versos que, na realidade, eram um apelo a D. João III para que defendesse a Vila de Trancoso da ambição do infante. Nessa altura a Inquisição interveio e prendeu o sapateiro, que apareceu como suspeito de judaísmo. O Bandarra era porém tão alheio a esses entendimentos que os judeus lhe faziam das trovas que acabou por ser posto em liberdade e condenado apenas a não escrever mais versos e a não se meter em leituras profanas.

Os inquisidores julgaram que a sua sentença punha termo ao processo, mas na realidade este apenas estava por começar.

A morte de D. Sebastião em condições misteriosas [quase 50 anos depois do episódio da Vila de Trancoso e dos versos compostos por Bandarra] veio dar uma nova acepção às trovas do sapateiro. O rei morreu durante a batalha, mas ninguém afirmava tê-lo visto morrer, embora muitos o tivessem visto já depois de morto (segundo a ética cavaleiresca, confessar que se tinha visto morrer o rei, sem dar a vida por ele, seria uma infâmia – o que explica em grande parte o mistério). Entre o povo dizia-se que o rei conseguira escapar e ia regressar ao País. Há notícia de vários aventureiros que exploraram essa crença popular e procuraram fazer-se passar por D. Sebastião.

As profecias de Bandarra passaram então a ser lidas com olhos diferentes: o Messias cujo regresso anunciavam era D. Sebastião. O público leitor já não é mais formado só pelos cristãos-novos, mas por nobres saudosistas. Versões sucessivas foram adaptando a redação ao seu novo sentido, de tal modo que o movimento de Restauração que viria a ocorrer somente em 1640 pareceu trazer a confirmação das trovas. Considerado o profeta nacional, o sapateiro foi venerado como santo, e até mesmo o arcebispo de Lisboa autorizou a colocação de uma imagem de Bandarra num altar da cidade.”

O Sebastianismo, devidamente adaptado de tempos em tempos, deixou suas marcas que se estenderam em múltiplas variações até meados do século XVIII, cada qual com um novo rei como titular, tendo chegado ao Brasil já quando de sua colonização e mais tarde, no final do século XIX, foi o que inspirou Antônio Conselheiro quando do movimento que criou Canudos. E deu no que deu.

“Mas, mais funda do que o artifício literário, a consciência sebastianista permanece como estado instintivo e permanente. O mito do ‘rei que há de voltar numa manhã de nevoeiro’ ainda hoje é um lugar comum da linguagem popular portuguesa. Ninguém o diz a sério, mas a frase é muitas vezes usadas para aludir a um intraduzível estado de espírito que consiste em crer que aquilo que profundamente se deseja não deixará de acontecer, mas ao mesmo tempo em esperar que aconteça independentemente do nosso esforço e sem implicação da nossa responsabilidade.”