Perda de tempo (ou Panapaná)

[Não lembrava mais de ter escrito isso… Faz parte daquelas coisas que eu escrevinhava daqui e dali antes mesmo de começar a blogar “oficialmente”. Este foi um texto que enviei para alguns amigos, lá em meados de 2003, e foi encontrado nas sombrias catacumbas de meu computador durante uma faxina de e-mails decorrente desse modorrento ócio imputado pela pandemia.]

Buenas!

Hoje pela manhã, correndo até à padaria para compra de meus pãezinhos matinais, apressado para não perder tempo, quase fui atropelado por uma bicicleta.

Naquele milésimo de segundo de indecisão entre sair para um lado e a bicicleta para o outro, tudo que a ciclista pôde fazer foi sorrir.

E aí eu soube o que fazer.

Saí calmamente de lado e lhe sorri de volta.

Perdi segundos de minha vida sorrindo para uma completa estranha – e isso me fez bem!

Aí decidi perder meu tempo.

Perdi meu tempo no meio do caminho, olhando para uma árvore e ela sorriu pra mim, me revelando uma ninhada(1) – será mesmo esse o nome? – de borboletas que se abrigava sob suas folhas.

Perdi meu tempo espreguiçando e olhando para o céu, o qual sorriu pra mim através de sua limpidez azul.

Perdi meu tempo sorrindo para a balconista, que, sorrindo, escolheu os melhores e mais quentinhos pães.

Perdi meu tempo afagando a cabeça de um cachorro na rua, que, grato, me acompanhou por dois quarteirões, abanando seu rabinho – sorrindo.

Perdi meu tempo fazendo cócegas na barriga de meu filho caçula, que também sorriu – ou melhor, gargalhou – pra mim.

Perdi meu tempo ajudando meu filho mais velho a resolver o quebra-cabeça de uma revista, e, com o resultado, ganhei um iluminado sorriso.

Perdi meu tempo, quando saía para o trabalho, num longo beijo em minha esposa, recebendo de volta um sorriso apaixonado.

Perdi meu tempo, enquanto dirigia, pensando em coisas boas e soluções práticas para os problemas no trabalho, e sorri para mim mesmo.

E querem saber?

Não perdi nem um minuto de minha vida, chegando no mesmo horário de sempre, encontrando os mesmos problemas de sempre, e as mesmas pessoas de sempre. Mas, como o sorriso é um vírus contagioso, tudo está um pouco melhor hoje.

Portanto, ladies and gentleman, melhorem sua qualidade de vida:

Percam tempo.

Sorriam.

E comam morangos(2) !

Notas:

(1) Comentário do brother-san Adilson:

Verbete: borboleta (ê) [De *belbellita, calcado em belo.] S. f.
1. Designação comum aos insetos lepidópteros diurnos, cujas antenas são clavadas. [As larvas das borboletas não tecem casulos, passando o período ninfal sob forma de crisálidas. Sin.: panapaná, panapanã. Cf. mariposa (1).]

Verbete: panapaná [Do tupi panapa’ná.] S. m. Bras.
1. Migração de borboletas em certas épocas, que chega a formar verdadeiras nuvens.
2. Bando de borboletas.
3. V. borboleta (1).

Ou seja, panapaná, que é sinônimo de borboleta, também é a palavra para o coletivo…

(2) Não tenho nem ideia do porquê dos morangos!

O Alfarrábio de Paulo Bicarato

[Este é o prefácio que escrevi para o 1º Volume do livro “O Alfarrábio”, de Paulo Bicarato.]

“O Alfarrábio” é o nome do blog escrito pelo jornalista Paulo Henrique de Almeida Bicarato para expor suas elucubrações (quase) diárias desde sua criação, em 2001, até o presente ano de 2020.

Alfarrábio. [Do antr. ár. al-Färäbi, lat. Alfarabius, filósofo muçulmano estabelecido em Bagdá (c.870-950).] S. m. 1. Livro antigo ou velho e de pouco préstimo, ou valioso por ser antigo.

Blog. [Acrônimo de weblog] S.m. Página pessoal da web (rede) em que o log de dados (registro de eventos) tem atualizações periódicas, como num diário, mas organizadas cronologicamente de forma inversa, permitindo aos usuários trocar experiências e comentários, geralmente relacionada a uma determinada área de interesse.

Parece meio redundante ter que lembrar isso, mas realmente ainda existe nos dias de hoje gente que não sabe o que é uma coisa nem outra…

Sujeito sempre antenado com jornais, blogs e outros veículos de comunicação, era através do próprio blog que compartilhava tudo aquilo de interessante que vinha a cair em seu eclético radar.

Tinha por costume fazer a linkania entre os mais diversos blogs com os mais variados temas, postava notícias de política, cultura, arte, encontros e, lá no início, a grande discussão que era a disseminação dos blogs em contraponto ao meio jornalístico, sempre sob a premissa de que não deveriam “monetizar” suas atividades. Mais tarde começou a se aproximar de outros movimentos que cultuavam a utilização do software livre, a reciclagem de computadores e produtos de informática, tudo sempre voltado ao social e sua utilização em comunidades carentes. Sobretudo prezava o coletivo.

Também era de seu feitio pinçar pequenos trechos de músicas, de livros ou de poesias, bem como exprimir suas opiniões acerca do mundo que o cercava através de suas frases preferidas, tolices encontradas na Rede e seus inúmeros pensamentos aleatórios, os quais serviam para demonstrar como sua cabeça não linear pensava, inclusive com seu estilo de humor por muitas vezes nonsense… Seus pensamentos, relatos e principalmente suas críticas compõem uma foto do mosaico daquele início da Internet no Brasil.

A gênese d’O Alfarrábio se deu no Blogspot em junho de 2001 com um visual que, como ele mesmo definia, parecia mais o de uma cantina italiana… Aos poucos e sempre com a ajuda dos amigos mais ligados nas traquitanas tecnológicas de formatação de sites foi se arrumando, turbinando seu blog com livros de visitas, sistemas de comentários (que volta e meia perdia), e outros quetais. Sei que nos dias de hoje pode parecer meio óbvio ter todas essas ferramentas disponíveis, mas naquela romântica era pré-diluviana da Internet, quando seu caldo cósmico era formado de sites, e-zines e HTML puro, tudo era mais complicado e invariavelmente tínhamos que escrever nossos próprios códigos na unha.

Mais tarde, no decorrer de dezembro de 2004 – e sempre com a ajuda dos amigos –, migrou para um novo endereço .ORG, adotou um sistema específico para gestão blogs, o Nucleus, e mudou a cara do blog, a qual permaneceria praticamente inalterada até meados de 2017. Como o Nucleus há muito havia sido descontinuado acabou transferindo os arquivos do blog para o sistema do WordPress – e mais uma vez perdeu um tanto daquilo que já havia publicado, praticamente tudo entre 2001 e 2004 (coincidência ou não, os arquivos do tempo do Blogspot).

Cada um conheceu o Paulo Bicarato de uma maneira peculiar: o jornalista, o blogueiro, o viajante, o leitor, o copoanheiro… De minha parte somente posso descrever como foi que EU o conheci, o que por si só já é de uma ótica bem restrita.

Olhando pra trás, por tantos anos que trabalhamos juntos parece que eu já o conhecia pela minha vida toda – ou ao menos desde que comecei a trabalhar na Prefeitura de Jacareí, em 2001. Mas não. Apesar de termos convivido no mesmo período quando estávamos na Prefeitura de São José dos Campos (entre 93 e 96), eu como estagiário de direito e ele no setor de comunicação – e talvez já termos cruzado nossos caminhos entre uma ou outra viagem de elevador – não foi ali que nos conhecemos.

Toda quinta-feira era dia de fechamento do Boletim Oficial do Município na Prefeitura de Jacareí, quando invariavelmente eu ficava até um pouco mais tarde e, antes de tomar o rumo de casa, passava ali no Armazém da esquina para tomar uma breja gelada. Se não me falha minha escassa memória, estávamos em março de 2006 e eu nessa rotina de sempre. Quando cheguei para o solilóquio etílico de costume, me deparei com aquele sujeito de rabo de cavalo, numa atenta leitura, com seus óculos de perna quebrada, de um dos inúmeros recortes de páginas de jornal que sempre carregava em seu embornal, sem nem contar a mochila-casa que sempre levava consigo encostada ali do lado…

Sabíamos que trabalhávamos no mesmo lugar, mas não sei bem o porquê de ter batido na nossa veneta de repartimos a mesa, a breja, a companhia e o proseio. O que simplesmente continuou se dando por anos a fio.

Entretanto, agora em 2 de junho de 2020, como já devem saber, o Bicarato partiu de vez para outras veredas do grande sertão celeste…

Mas o Alfarrábio ficou. Desde sempre eu o instigava a publicar um livro com todo esse material do blog, mas acabou que não deu tempo. Então eis que decidi fazer isso por mim mesmo.

Eu já sabia que compilar tudo que já foi publicado seria uma tarefa gigantesca e, apesar de tanta coisa interessante que já foi noticiada, talvez um tanto inócua. Isso porque estamos falando de publicações inclusive de quase 20 anos atrás. Naqueles tempos, além do e-mail e suas listas de discussão (equiparáveis aos grupos de WhatsApp dos dias de hoje), a comunicação se dava principalmente através dos programas de mensagens instantâneas, primeiramente o ICQ e mais tarde o MSN, sendo que o advento dos blogs meio que revolucionou tudo isso. Mas o mundo virtual é extremamente dinâmico e a grande maioria dos blogs citados naquela época dos desbravadores da Rede – “era tudo mato aqui” – já nem sequer existe mais. Mesmo as redes sociais abertas ao grande público ainda demorariam alguns anos para surgir: Orkut em 2004, o Twitter e o Facebook em 2006.

Por isso neste livro limitei-me a trazer aquilo que mais dizia respeito ao Bicarato: seus textos, seus artigos, seus recadinhos, suas impressões, suas citações. Quem o conheceu pessoalmente (ou mesmo virtualmente) há de sorrir ao ler determinados trechos, citações ou elucubrações e provavelmente pensará consigo mesmo: “de fato, esse é o Bica”.

Este livro abrange o conteúdo do Alfarrábio no período que vai de junho de 2001 até dezembro de 2004, ou seja, praticamente todo o tempo em que ficou hospedado no Blogspot. E foi somente lá pelo final de novembro de 2004 que o Bica começou a classificar seus posts em “categorias”, de modo que para acomodar o que foi publicado nessa época resolvi dividir o livro em alguns tópicos específicos.

Difícil divisão, pois de acordo com seu “modus scribentes” seus textos invariavelmente tratavam de tudo ao mesmo tempo aqui e agora. Ainda assim consegui encaixá-los da seguinte forma: Preto no Branco, que trata da vida de jornalista, política e análises; Blogosfera, redes sociais, informática, blogs; Biblios, crônicas, escritos e referências a livros; Escrevinhações, textos esparsos que não consegui encaixar em lugar nenhum; e Pensatas, meu preferido, textos médios, curtos ou curtíssimos, citações, impressões, recadinhos, etc. Era através desse último que, pelo blog, ele usualmente escrevia diretamente aos seus leitores, como se simplesmente estivesse proseando ao vivo e a cores com eles. Saborosíssimo.

Mas, afinal de contas, quem foi Paulo Bicarato? Ele foi um jornalista, fã incondicional da obra de Guimarães Rosa, riponga, palmeirense, ativista, canhoto, blogueiro das antigas, viajandão, mochileiro, cachaceiro, amante da língua portuguesa, agitador de movimentos sociais, dono de um texto impecável, apaixonado pelo Brasil, de uma inteligência fora de série, um cara sincero, poeta de guardanapo de boteco, humilde, teimoso, com um coração de ouro, o senhor das crases, extremamente confiável, excelente copoanheiro, desapegado, de fina verve humorística e o melhor escritor que já conheci. Foi tudo isso e muito mais. Porém, sobretudo – ao menos para mim – o mais importante: Paulo Bicarato foi meu amigo.

Adauto de Andrade,
na hercúlea tentativa
de organizar essas
elucubrações do Bica.

Comer, rezar, amar

Já tem uns dez anos que eu li esse livro de Elizabeth Gilbert, inclusive já citei alguns bons trechos aqui no blog (aqui, aqui e aqui). Mas dando uma geral no escritório em casa encontrei uma folha com algumas anotações interessantes que fiz e para não perdê-las transcrevo-as cá neste nosso cantinho virtual…

“A ideia e passarmos uma hora sentados em silêncio, mas fico contando os minutos como se fossem quilômetros – 60 cruciantes quilômetros que preciso aguentar.”

“Isso (o ego) não te ajuda. A função do seu ego não é te ajudar. A única função dele é se manter no poder. E, nesse momento, o seu ego está morrendo de medo, porque as asas dele estão prestes a serem cortadas. Se você continuar neste caminho espiritual, baby, os dias desse menino mau estão contados. Muito em breve o seu ego vai estar desempregado, e o seu coração vai estar tomando todas as decisões. Então o seu ego está lutando pela própria sobrevivência, jogando com a sua mente, tentando mostrar a autoridade dele, tentando te manter encurralada em um cubículo, afastada do resto do universo. Não dê ouvidos a ele.”

“As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma lama gêmea para sempre? não. Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora.”

“A gente precisa ter o coração partido algumas vezes. Isso é um bom sinal, ter o coração partido. Quer dizer que a gente tentou  alguma coisa.”

“Reconheço que você ainda não me ama do jeito que eu amo você, mas a verdade é que não ligo muito para isso. (…) Você pode sentir o que quiser, mas eu te amo e vou te amar sempre. mesmo que a gente nunca mais se veja, você já me trouxe de volta à vida, e isso é muita coisa. E é claro que eu gostaria de compartilhar minha vida com você.”

A tênue linha que separa o gênio do louco

Aquele que se perdeu no meio do caminho, mais pela pluralidade de caminhos que por sua própria indecisão. Não havendo caminho a seguir, seguiu o seu próprio. Assim o fazendo, criou um novo caminho. E aqueles que o viram criar um caminho, enxergaram-no como único, como aquele capaz de fazer o impossível – isso porque incapazes de suplantar suas próprias limitações.

A volta dos que não foram

Nos últimos anos tenho feito mais bricolagem do que escrito propriamente dito. Quem me acompanha por aqui sabe que este blog não nasceu com cara de blog – até porque naquele longínquo ano de 1998 os blogs sequer existiam! Eu comecei compartilhando notícias e artigos que achava interessante, links úteis para quem quisesse acessar, mas, apesar de já me aventurar editando uma e-zine desde 1999, escrever, escrever mesmo, foi só lá pelo ano de 2004. Somente a partir daí comecei a dar cara e forma às minhas opiniões, sentimentos e paixões. Além de compartilhar o que acontecia pela Internet passei também a compartilhar o que me instigava o cérebro, tocava a alma e mexia com meu coração.

Escrevi muito. Muita coisa boa e também muita coisa ruim – se bem que nossos próprios textos, assim como nossos próprios filhos, sempre serão lindos, ainda que não. Mas os meus, são. Filhos e textos. Bem, no caso deste último, quase. Mas os últimos anos não foram tão graciosos assim em termos de produção. Acho que muito se deu por conta das chamadas redes sociais – Facebook, Twitter, Instagram, o escambau! – que com seu imediatismo e anonímia trouxe um ambiente mais “agradável” para todos aqueles que decidiram tirar seus monstros dos armários. Ou, ao menos, deixar à vista suas verdadeiras personalidades.

O blog, para mim, sempre foi uma grande “brincadeira”. É minha penseira virtual, onde de quando em quando compartilho minhas elucubrações, relembro de coisas que não quero esquecer e ainda utilizo como um quartinho de badulaques, acumulando pensamentos dos quais não quero me desfazer.  Nunca quis ganhar dinheiro com isso, ou, como diria meu amigo Bicarato, “monetizar” este nosso cantinho virtual. Sei que não é muito para os profissionais do ramo, mas tenho uma média de aproximadamente 100 visitas diárias, dando mais de 2,5k de visualizações por mês. E isso sem escrever absolutamente nada. Nem que preste, nem que não preste.

Diante desses números é fácil entender o encanto das Redes Sociais. Coloque uma foto bonitinha ou faça algum comentário ferino sobre algum tema relevante ou polêmico e em pouquíssimo tempo já poderá ter centenas de “likes” – sendo este o verdadeiro combustível que movimenta essas redes. Conheço pessoas que postam alguma coisa como se fosse a mais trivial do mundo, mas ato contínuo fica monitorando a própria conta para verificar não só quantos vão curtir como também quem são as pessoas que curtiram e/ou comentaram.

Cansei de ver usuários que já começam escrevendo “desculpe pelo textão”, como se estivesse escrevendo um tratado, mas que na realidade trata-se de um mero textinho de três ou quatro parágrafos – que já é muito mais do que os parágrafos de duas linhas normalmente publicados. Só este texto aqui já ultrapassou – e muito! – essa métrica torta que procura prevenir os leitores de que seus cérebros deverão ser utilizados. Um verdadeiro desserviço à inteligência e à capacidade de raciocínio estruturado.

É lógico que existem exceções, mas mesmo essas me causam um certo desânimo. Mestres do jornalismo, literatura, pensamento filosófico e de tantas outras áreas que outrora tiveram seus próprios blogs com postagens interessantíssimas, cujas caixas de comentários traziam discussões excelentes que somente abrilhantavam ainda mais a postagem original, hoje permanecem somente nas redes sociais, ainda com textos interessantes (mas não mais com tanta profundidade), tendo em sua grande maioria se rendido ao encanto das curtidas e dos comentários vazios ou meramente bajulatórios…

Sei lá, ando meio cansado de tudo isso. Deve ser por esse motivo que faz tanto tempo que não escrevo, pois eu mesmo caí nessa armadilha por tempo demais. Faltou-me a sobriedade tanto física quanto espiritual para conseguir dar um passo para trás e compreender que, como disse o personagem, temos que escolher entre o que é certo e o que é fácil. E cada vez mais, para mim, escrever aqui no blog é que é o certo. Ainda que venha a cair no mais absoluto ostracismo.

Mas somente assim serei fiel às minhas origens.

Não tem como voltar no tempo. Não há um capacitor de fluxo à disposição para que eu possa selecionar o momento exato em que as coisas começaram a descambar (em todos os sentidos) e tentar consertar tudo aquilo que deu errado. O tempo é uma via de mão única e já passou da hora de eu colocar esse trem descarrilado de volta aos trilhos.

Já tentei fazer isso antes.

Por mais de uma vez.

Mas atualmente, em tempos de pandemia e destempero social, tendo um Coronavírus que pode estar me aguardando em alguma esquina e que poderá decidir meu futuro imediato a curto prazo e de forma definitiva, acho que é melhor tentar, novamente, tomar as rédeas da situação.

Vamos ver no que dá…

O Alfarrábio

Se você conheceu Paulo Bicarato, você conheceu O Alfarrábio. Se você conheceu O Alfarrábio, você conheceu Paulo Bicarato. No blog é que o Bica depositava seus pensamentos e opiniões, lá que ele compartilhou, discutiu, riu e se divertiu. Sempre. Este livro é uma pálida tentativa de fazer jus aos seus escritos – o livro que ele mesmo sempre quis publicar, mas o tempo não foi suficiente. Encantou-se. Este primeiro volume traz o período de 2001 a 2004 do blog e, conforme me foi dito pela nossa amiga Renata, nos faz “senti-lo por perto com textos atemporais, mesmo datados”. Ao passear pelas suas páginas é bem assim que nos sentimos… Esta obra não tem fins comerciais, pois o Bicarato jamais quis “monetizar” seus pensamentos. Qualquer mínima importância que vier a ser arrecadada com a venda deste livro será revertida para sua própria família. É isso. Agora já pode ir lá no Clube de Autores adquirir seu exemplar. Por nada.

Acabou!

Marco Aurélio

No começo, ficou todo mundo meio sem acreditar. Parecia um sonho. Depois de tanto tempo fechados em casa, finalmente chegava o final da quarentena.

— Acabou! — gritou um na rua. Outro, outro. Uma senhora da janela. — Acabou!

A humanidade podia enfim respirar. Melhor: respirar sem uma máscara na cara. A vacina demorou, mas saiu. Meses depois, o primeiro antiviral eficaz contra o novo coronavírus. Com uma esforço tremendo de governos, corporações e indivíduos de todo o globo, a doença foi erradicada do planeta.

Quando saiu a notícia, todos ficaram desconfiados. Ninguém sabia mais como sair à rua, como respirar sem duas camadas de algodão separando o rosto da atmosfera. Aos poucos foram saindo. Um, outro, outro. Acabou! Nas ruas e calçadas, começou um movimento espontâneo: pessoas jogavam suas máscaras de todos os tamanhos e formatos, com todas as estampas, despejavam álcool gel sobre elas e acendiam o fogo. Nunca mais isso.

— Vou ficar três meses sem lavar a mão!  —  disse um.

— Eu não preciso mais dar banho nas minhas compras!  —  se deu conta uma moça, maravilhada.

E a alegria quando se deram conta de que era possível novamente tocar outras pessoas? Estranhos se abraçavam e beijavam na rua. Divórcios de quarentena se desfaziam, reconstruindo casamentos. Casais de namorados separados pela pandemia tiravam o atraso de meses de desejo represado.

Foram duas semanas de glória e esperança no futuro da humanidade. A vida seria melhor, mais leve, mais solidária. Velhos rancores se amainaram. Armistícios foram declarados. Dívidas, perdoadas. O otimismo geral refletiu no mercado financeiro. Havia no ar uma promessa de prosperidade inédita na história humana.

E aí veio o asteroide.

Sete Dicas de Quarentena

Ao chegar da rua (e me dê um bom motivo para ter saído, hein?):

1. lave bem as mãos (no mínimo vinte segundos, no máximo quarenta minutos);

2. deixe seu calçado do lado de fora (certifique-se que também esteja fora do alcance de seu cachorro);

3. ponha para lavar as roupas que estava usando (incineração também é uma boa opção);

4. tome um bom banho (no mínimo cinco minutos, no máximo uma hora e quarenta);

5. lave bem seus cabelos e barba, se tiver (não é necessário creolina – mas se resolver usar, evite fazer gargarejo);

6. ponha roupas limpas e confortáveis de ficar em casa (vale camiseta furada, bermuda esgarçada e chinelo havaiana – daquele branco e encardido por cima, tira que vive soltando e solado azul claro liso que nem um quiabo); e

7. FIQUE EM CASA.

Dona Flor de Cerejeira e seus “dois maridos”

Estávamos no início do ano de 1997.

Ao apagar das luzes do ano anterior eu, por minha conta e risco, resolvi encerrar um relacionamento de mais de dez anos e acabei por me separar de minha primeira esposa, Evanilda. Ainda nos encontraríamos por mais algumas vezes, de modo nada satisfatório, até o dia da audiência de divórcio, quando, ao final, ela decidiu que eu jamais voltaria a fazer parte de seu futuro. E assim continuamos até hoje. Foi por essa época que juntei minhas poucas tralhas e fui morar por uns tempos num quarto vago da casa de meu irmão.

Mais ou menos à mesma época a Mieko, também conhecida como Dona Patroa, por motivos diversos aos meus, também havia decidido colocar um ponto final em seu segundo noivado que já se arrastava por uns quatro anos. Seu nome era Noboru. Depois de terem se conhecido enquanto ainda estavam no Japão, quando voltaram ela veio cá para o interior e ele tocava seus negócios na Capital. Viam-se nos finais de semana. Mas esse noivado distante, sabendo-se lá o que ocorria durante a semana (mas suspeitando bastante) também demonstrou-se nada satisfatório. E, também à distância, ela meio que rompeu com ele. Mas nada ficou explícito.

Mudemos de cenário.

Com toda a bagagem emocional que rompimentos de longos relacionamentos podem trazer, eis que naquele início de ano nos encontrávamos ambos recém-formados, ambos advogados sem clientes, ambos trabalhando no mesmo escritório de nosso amigo Luisinho e ambos – naturalmente – começando a se engraçar um com o outro…

Acabei conhecendo um pouco mais da família dela – e ela, coitada, da minha – inclusive sua irmã que morava no litoral, em Caraguatatuba, local onde seu marido, poucos meses depois, viria a sofrer um acidente de moto gravíssimo, tendo que ser transferido com urgência para a UTI do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

Pois bem.

Como ambos mal tínhamos clientes e limitávamo-nos a tocar as ações do Luisinho, não foi nada difícil deixar tudo pra trás e correr para São Paulo para ajudar sua irmã no que fosse possível naquele momento tão difícil. Ainda estávamos todos no hospital, meio que na expectativa, meio que na confusão, quando o inevitável aconteceu: de repente por lá surgiu o Noboru, eis que era também amigo da família de longos anos, para ajudar no que pudesse.

E eu lá.

E ele também.

Mas dado o momento e os acontecimentos, a saia nem ficou tão justa assim. O dia foi passando e como a parentada dela prontamente havia se colocado à disposição, acabaram combinando que ficaríamos no apartamento da Têro, sua prima enfermeira.

E como ir até lá?

De carona com o Noboru, claro, em seu novíssimo Gol GTi, um dos últimos modelos antes da reestilização da linha, e super equipado com um portentoso equipamento de som…

Ao chegarmos no apartamento ele disse que iria embora mas voltaria no dia seguinte para levar todo mundo para o hospital. Foi de senso racional e comum que aquilo seria bobagem, pois não fazia sentido ele atravessar a cidade àquela hora para ter que voltar no outro dia cedinho para buscar todo mundo, então o melhor seria que ele dormisse por ali também.

Então.

Estávamos todos ali, na lida, já lanchados e de banho tomado, arrumando colchões aqui, estendendo lençóis ali, ela ajeitando umas almofadas no meio da sala e eu e ele de costas um para o outro, defronte à porta de um dos quartos, cuidando de nossos cantos.

E eis que ela, sem levantar a cabeça, simplesmente chamou:

– Amor, faz um favor?

E eis que nós dois, exatamente ao mesmo tempo, olhamos para ela e respondemos em uníssono:

OI, AMOR?

E, percebendo a situação, simultaneamente olhamos um para o outro, nos encaramos, e ato contínuo olhamos para ela novamente com cara de interrogação: qual de nós, afinal?

Não tem como descrever aquele momento. Por poucos segundos o tempo simplesmente parou. Não havia nenhum som no ambiente. Até mesmo a luz tornou-se fugidia. Todos que estavam na sala foram pegos de surpresa e praticamente congelaram enquanto aguardavam, de respiração suspensa, qual seria o próximo ato daquela tragicômica peça nada teatral.

E naquele breve momento em que o planeta deixou de girar, ela, nos encarando com os olhos DESTE TAMANHO e lentamente foi percebendo o que estava acontecendo…

E no meio daquela saia justíssima, embaraçosíssima situação que sozinha conseguiu criar, ela simplesmente baixou a cabeça, cobriu os olhos com uma mão enquanto que estendeu a outra fazendo sinal para que se aproximasse:

ADAUTO. Adauto, faz favor. Você, Adauto, vem aqui um pouquinho pra me ajudar…

Com um pequeno solavanco o mundo recomeçou a girar, a sala novamente se iluminou, os sons voltaram a burburar, eu e ele ignoramo-nos mutuamente e cada qual foi cuidar de suas coisas.

Nos dias seguintes, apesar de toda a proximidade, foi difícil que se livrassem da minha sombra, sempre presente e próximo a ela. Mas eu também sabia que os dois precisavam de ao menos um momento a sós para concluir o que ficou inacabado, colocar os pingos nos “is”, terminar de vez um com o outro.

E foi com uma ciumenta fisgada no coração que este troglodita que vos tecla deixou o campo de batalha e voltou para o interior por algum tempo enquanto tudo se resolvia por lá – não sem, é lógico, tecer nas mais profundas catacumbas de minha mente as piores teorias da conspiração dos piores cenários possíveis…

Mas, enfim, terminaram.

E ainda foram necessários ainda mais vários dias de acompanhamento e monitoramento junto ao hospital, porém, infelizmente, no dia seguinte ao Dia das Mães daquele ano, o paciente veio a falecer.

E nos anos seguintes a história seguiu seu curso, nos casamos, tivemos nosso primeiro filho e ficamos bastante próximos da irmã dela e de suas três filhas adolescentes. Até que um dia tudo mudou, caiu sua vestimenta de ovelha e nunca mais voltamos a nos falar. Seguimos com nossas vidas e elas com as delas. Mas isso é uma outra história.

Mas, cá entre nós, desde então jamais deixei que a Dona Patroa pudesse esquecer aquele momento surreal de nossas vidas – mas hoje hilário – onde ela desenrolou seu nipônico papel de Dona Flor de Cerejeira e seus “dois maridos”! 😀

Volta ao Mundo em 80 Horas – VII

VII – Até quando tudo dá certo, ainda dá errado. Ou não.

(Para os desavisados de plantão: esta é a continuação da narrativa de uma de minhas desventuras que comecei a contar no final de 2016 – putz, já se vão quase quatro anos! – e que até agora ainda não tinha concluído. Nada demais, apenas um pré-infarto pelo qual passei. Se quiserem saber como tudo isso começou ou rememorar o causo desde o princípio, desçam direto lá para o final deste texto e cliquem no link “Início da Saga”.)

Quinta-feira. Dia três. Noite. Cerca de 60 horas de internação, sendo espetado, desespetado, medido, apalpado, remediado e outros tantos quetais. Porém já estava muito bem descansado e – até que enfim! – munido de óculos e muitos livros os quais poderia ficar lendo até bem tarde da noite de quinta para sexta (lembrem-se que eu havia dado entrada na Santa Casa por volta de dez da manhã de terça-feira).

Já era de madrugada e distraído como estava acabei levando um susto dos infernos quando ouvi batidas na janela, ao lado da minha cama. Alguém estava lá fora, no estacionamento.

– Mas que catzo…

Abri a janela, com cautela e armado de um livro volumoso o suficiente para causar o estrago na testa do primeiro desavisado.

Era o Torquemada. E a Marcela. E a Joseane.

Como obviamente já não era mais horário de visitação e já cientes que dentro em breve eu teria alta eles foram lá para me tripudiar consolar e não me deixar sozinho, ao menos por alguns momentos durante aquela longa noite. Tudo bem que eles já tinham acabado de chegar do Armazém, nosso boteco’s-bar predileto próximo do trabalho, onde deviam ter passado as últimas horas por lá. E pelo estrago estado geral da galera, eu tive absoluta certeza de que não estavam tomando suco de laranja…

Conversamos um tanto, rimos outro tanto (“Porra, não trouxeram nada pra mim? Sacanagem, hein?”), levei uma comida de rabo por essa frase e quando por fim perceberam que aquela janela não era um balcão de bar – e, em especial, que não tinha nenhuma bebida por lá – antes que fossem descobertos pela altura das risadas, resolveram ir embora. Despedimo-nos e, confesso, independentemente do estado geral que fisicamente meu coração poderia estar, espiritualmente ele estava bem mais leve e quentinho. Como é bom ter amigos! Mesmo um sádico como o Torquemada…

Depois dessa resolvi simplesmente deitar e dormir enquanto ainda estava com aquela sensação gostosa de aconchego.

No dia seguinte acordei tarde pra caramba (umas seis e meia), pois pelo visto meu relógio biológico havia resolvido tirar férias. Como eu já sabia que o café da manhã ainda iria demorar um pouco resolvi tomar um outro bom banho – ao menos para lembrar que ainda existia água quente no mundo. Carregando aquela parafernália de soros e acessos e camisola aberta no rego, com um pouco de trabalho – e quase pranchando no chão por umas duas vezes – finalmente consegui terminar a ducha. Bem na hora, pois o café havia acabado de chegar.

Apesar de nos últimos anos ter ostentado uma vetusta barba na maior parte do tempo, naquela época eu preferia ficar bem escanhoado. Mas como é cheia e cresce rápido, ao final de uns dias sem ver um barbeador eu já estava parecendo um indigente. Paciência. Só faltava mais um dia, segundo o “protocolo”, e no sábado eu iria para casa.

Passei o dia meio que bestando, cochilando um tanto e lendo outro tanto e no finalzinho da tarde me veio a médica para a visita de praxe.

– Parabéns, o senhor já vai ter alta.

– Sei, sei. Amanhã, né?

– Não, hoje mesmo. Só falta meu colega assinar comigo e o senhor já pode ir embora. Tem quem venha lhe buscar?

– Mas, mas… E o tal do protocolo? De que eu teria que ficar sei lá quanto tempo em observação?

– Ah, isso é mais uma orientação do que uma regra. Como o senhor está reagindo muito bem não há necessidade de mantê-lo por aqui.

“Mais uma orientação do que uma regra”? Caray! Não pude deixar de me lembrar do filme Piratas do Caribe onde, de acordo com o momento e a conveniência, a “parola” poderia ser considerada uma regra ou não. Sexta-feira, final de expediente, após cravadas oitenta horas longe da sociedade e eu sem uma muda de roupa sequer para ir embora. Liguei para a Dona Patroa – coitada… – e, não demorou muito, ela chegou com o que eu precisava. Separei todo o resto para já levar para o carro enquanto aguardaríamos a segunda assinatura e – enfim! – a alta.

E aguardamos.

E aguardamos.

Aguardamos.

Aguardamos mais um pouco.

E nada.

E já estava ficando muito tarde e ela precisava voltar para dar conta das crianças em casa.

E lá foi ela e lá fiquei eu.

De novo.

E ASSIM QUE ELA SAIU ME TROUXERAM O TAL DO PAPEL DA ALTA!!!

Que estava desde não sei que horas parado na mesa de não sei quem para levar não sei onde e depois entregar para mim.

E já não adiantava mais ligar para ela, pois era tarde e devia estar a meio caminho de casa.

Paciência.

No dia seguinte, cedinho, combinaríamos de ela vir me buscar.

Mas é lógico que não foi isso que aconteceu.

(Início da Saga)                        (Continua…)

O Decamerão

Muito bem, meu povo, em época de “confinamento” (êêêê, vida de gado…) nada melhor que ampliar um pouco os horizontes, largar do celular, das redes sociais e da informação fácil e mastigada, de modo a nos aprofundarmos um pouco em cultura e retomar bons e velhos hábitos – e não conheço nenhum hábito mais antigo que “ler um livro” (tá certo que existem profissões mais antigas talvez até mesmo que a escrita, mas este aqui é um blog de família e vou deixar pra falar disso noutra hora).

Quem aí já ouviu falar do Decamerão (ou Decameron), de autoria de Giovanni Boccacio?

Pois é, eu mesmo li esse livro lá pro início da década de oitenta e meio que já havia esquecido dele.

Até agora.

E vocês vão entender o porquê da lembrança.

Esse livro foi escrito por volta de 1.350, já quando começava o declínio da Idade Média. Tem por pano de fundo o encontro de dez jovens – 3 homens e 7 mulheres – que se isolaram em uma casa de campo em Florença, Itália, fugindo da pandemia que dizimava impiedosamente o continente europeu naquela época: a Peste Negra.

São cerca de cem contos divididos em dez jornadas (daí o nome “Deca”) narrados por esses personagens. São estórias de amor que vão do erótico ao trágico, contos de sagacidade, piadas e lições de vida – que rendeu ao livro a alcunha de “A Comédia do Sexo”. O livro retrata bem o ambiente daquele período em que viviam (sendo que alguns estudiosos dizem que muitos dos contos são meras transcrições de outros que já existiam na tradição oral da época), pois enquanto a Peste arrasava com cerca de 1/3 da população da Europa, a população reagia de duas formas distintas: ou se entregavam à luxúria desenfreada – bebedeira e busca irrestrita do prazer – ou se recolhiam a fim de orar e se voltar para a vida espiritual, mística, contemplativa – sendo que uma boa parte oscilava entre esses dois extremos… O próprio Bocaccio, para escrever sua obra, também isolou-se em fuga das mazelas da doença enquanto o mundo desabava lá fora.

Muitas pessoas, desorientadas e aparvalhadas, vagavam pelos campos e se ajuntavam nas igrejas em busca de uma ajuda que não viria, pois encontravam-se diante da perspectiva de uma morte horrenda face a uma ineficácia da religião católica (então dominante) e de uma medicina quase ou totalmente inexistente.

Bocaccio criticou a sociedade da época através de um retrato irônico e detalhista num mundo repleto de interpretações diferenciadas para as mesmas situações, desafiando a Igreja e os costumes da época com um tom debochado ao tratar de assuntos como religiosidade e a vida em coletividade. Ou seja, ele se desprendeu da até então reinante moral medieval e abriu rumo a um realismo no qual o centro das estórias estava voltado à conduta das próprias pessoas – o que ultrapassou seus antecedentes em complexidade, qualidade e capacidade narrativa. Essa obra foi tão relevante que chegou a inspirar diversos autores que vieram posteriormente, dentre eles Shakespeare, Cervantes, Lutero e outros.

“Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por iniciativa dos corpos superiores ou em razão de nossas iniquidades, a peste atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais, há alguns anos. Tal praga ceifara, naquelas plagas, uma enorme quantidade de pessoas vivas. Incansável, fora de um lugar para outro; e estendera-se, de forma miserável, para o Ocidente.

Os homens se evitavam […] parentes se distanciavam, irmão era esquecido por irmão, muitas vezes o marido pela mulher; ah, e o que é pior e difícil de acreditar, pais e mães houve que abandonaram os filhos à sua sorte, sem cuidar deles e visitá-los, como se fossem estranhos.” (BOCCACCIO. 1987, p. 35-36,38)

Entenderam agora?

O que estamos vivendo nos dias atuais reflete em parte algo que já aconteceu há mais de 700 anos!

É bem como aquela mais famosa frase da série Battlestar Galactica: “Tudo isso já aconteceu antes, e tudo vai acontecer novamente”.

Enfim, fica aí a dica do dia. E como se trata de uma obra que já está em domínio público, caso se interessem basta clicar neste link aqui para o download do livro em PDF.

Bem, por hoje acho que é só.

E lavem bem as mãos.

Sempre.

As duas portas

Existem duas portas para entrar em casa: a da sala e a da cozinha.

A primeira, de madeira, imponente, envernizada, com seu pomposo trinco e um suave girar nos gonzos.

A segunda, de segunda. Literalmente. É de lata e vidro, com uma portinhola que lhe ocupa a maior parte e que serve para arejar o ambiente e para o gato passar. Seu trinco quando não emperra, não tranca e o ruído dela abrindo ou fechando lembra muito o daquelas velhas portas dos antigos filmes de terror.

Quem eu não conheço muito bem recebo com a formalidade da porta da frente. A pessoa limpará seus pés num bonito capacho, com a sempre presente inscrição de boas-vindas. Poderá pendurar seu casaco ou bolsa no gancho que fica logo ao lado da porta e se estiver chovendo ainda terá um porta guarda-chuvas por perto. Ao entrar enxergará o espaço organizado do sofá e sua mesinha de centro, com uma bela televisão ao fundo ladeada de estantes de livros, de CDs e de DVDs. Provavelmente se perderá por ali por alguns momentos avaliando os títulos presentes. Eu a convidarei para se sentar, já me acomodando logo em frente e provavelmente devo até mesmo cruzar as pernas, isso depois de já ter aberto as cortinas para dar lugar à luz e à brisa. Ao som de uma suave música ambiente, deverei oferecer café em jogo completo de xícaras e bandeja de metal. Perguntarei se açúcar ou adoçante.

Apesar do extremo acolhimento, ainda assim não estarei à vontade. Pensarei com cautela cada palavra que direi e jamais correrei o risco de falar mal ou mesmo bem de alguém.

As visitas ganham o melhor da residência e o pior do anfitrião.

Já quem eu amo entra pela porta da cozinha, no meio da bagunça das panelas, da mesa ainda posta, do artesanato da Dona Patroa e dos jornais espalhados. É o umbral secreto do afeto, simples e despojado, sem tapete, com os saborosos perfumes vindos do fogão, dos temperos e dos alimentos descongelando. Se estiver chovendo, praguejando levarei o guarda-chuva pingando, correndo através da cozinha, para depositá-lo no tanque do lado de fora. Não haverá cerimônia nenhuma. Casacos e bolsas serão largados na cadeira mais próxima. Se quiser café já sabe onde estará e, à vontade, se servirá. O mesmo com as cervejas na geladeira e ainda vai soltar um palavrão porque não é da marca preferida dele.

Os amigos ganham a verdadeira face do lar e a sinceridade do anfitrião.

Ou seja, existirão duas versões de mim: aquele que abre a porta da frente e aquele que abre a porta dos fundos.

Na frente estarei de roupa social ou no mínimo formal, já tendo pensado nos detalhes e na cerimônia necessária para receber a visita. O cumprimento será, com olhos nos olhos, um firme aperto de mão. A conversa será em meio tom, moderada, circunspecta e voltada a assuntos que habilmente estarão direcionados ao motivo pelo qual a visita veio em minha casa.

Já nos fundos estarei de calção, camiseta regata e chinelo. Com um sorriso ou uma gargalhada, xingarei o amigo que entra já dizendo que está sumido e será recebido com um abraço de quebrar os ossos e com calorosos tapas nas costas. Aqui a alma também muda. Falo gritado e gesticulando, com a passionalidade de um bom filho de mineiro. Não importa o motivo pelo qual está ali – mas ainda bem que veio! – qualquer assunto será assunto, não meço as confissões e as fofocas e tampouco arrumo ou calculo as frases. Não me preocupo em absoluto com a expectativa de agradar, já que meus amigos fazem parte do meu lar.

Se tiver vindo para um almoço, a visita sentar-se-á à mesa e, enquanto conversa com os demais presentes, poderá se servir dos alimentos que já estão nos refratários postos à mesa enquanto aguarda chegar a carne preparada na churrasqueira lá nos fundos, a qual estará numa brilhante bandeja de metal, já assada e cortada no ponto certo.

Já os amigos estarão comigo na churrasqueira, aos quais ainda pedirei para pilotar enquanto vou ali na esquina buscar mais cerveja ou refrigerantes. Sentar-se-ão nas muretas do quintal e comerão na mesa que previamente foi levada lá pra fora. Se servirão diretamente das panelas que ainda estão no fogão, isso quando não tiverem eles próprios que botar a mão na massa e preparar uma salada, um arroz, um vinagrete que seja. A carne virá pingando diretamente da tábua para o prato ou para o pão, conforme se queira. Contaremos piadas, falaremos mal da vida alheia, de nós mesmos, comeremos, beberemos e brindaremos à vida!

A porta que mira a rua é a da sobriedade, da cerimônia, da conversa controlada e sentimentos ocultos.

A porta que beira o fogão e a geladeira é a da intimidade, dos risos e implicâncias, das gargalhadas e do choro apressado com um consolo sentido e sincero.

Só abrimos nosso coração e nos entregamos de alma para aqueles em que verdadeiramente confiamos…

(Copiado, colado, cortado, inserido, alterado e reformado de uma crônica do Fabrício Carpinejar.)

Sonhei com você!

Logo pelo raiar do dia acordei com o insistente chamado do maldito despertador.

Ainda assim não quis levantar, pois queria sorver um pouco mais da lembrança daquele sonho gostoso e suave, de como há muito não tinha, onde situações malucas, desconcertantes e nonsense se misturam e flertam com outras triviais e corriqueiras de nosso dia a dia…

Realmente foi um sonho bom…

Invariavelmente não costumo lembrar de meus sonhos, pois durmo apenas poucas horas por noite – costume há muito arraigado – e ainda que não adormeça rápido, durmo profundamente.

Só que desta vez foi diferente, lembrei de cada detalhe, de cada cheiro, de cada gesto, de cada toque, de cada tudo – e sabe por quê?

Sonhei com você!

Assim, do nada, ainda que há muito você sequer passasse próxima de meus pensamentos, tive esse sonho meio doido, onde eu estava num trabalho técnico, burocrático e enfadonho para uma cliente, mas estava feliz, pois você estava ali, presente, sentada do meu lado, conversando, proseando e rindo com esse seu sorriso com cheiro de luz do Sol a iluminar todo o ambiente.

Que bom poder matar essa saudade que eu nem sabia que ainda tinha, mesmo que dessa maneira surreal, lá no mundo onírico, onde tudo se mescla, onde passado, presente e futuro são uma só coisa, pois este meu coração – que ultimamente anda um tanto quanto árido – palpitou forte uma vez mais, com lembranças emocionais que estavam soterradas em algum canto perdido lá nas mais profundas catacumbas de meu ser.

Um tanto quanto exagerado, eu sei – mas fazer o que se sempre fui assim?…

Eu fiquei muito feliz em poder te encontrar novamente, pessoalmente, olhando bem fundo nesses seus olhos brilhantes, apesar de toda essa distância que nos separa, ainda mais porque estávamos daquele nosso jeito de sempre, meio que descontraídos, meio que se divertindo, meio que discutindo mas sempre se amando.

Sei que, para você, não é preciso explicar, mas para qualquer outra pessoa que venha a ler estas linhas é importante entender que quando eu digo clara e francamente que “eu te amo”, isso na realidade é muito mais profundo que um mero amor fraternal e absolutamente não quer dizer que seria daquele tipo de amor para vivermos como um casal.

Amar, nesse caso, é um querer bem de uma forma inenarrável, indescritível, é gostar de estar perto, de poder ajudar, é querer que a pessoa esteja bem, que esteja feliz, independentemente de com quem quer que seja ou onde quer que esteja, sabendo do fundo do coração que o sentimento que se tem por essa pessoa é tanto recíproco quanto de uma sinceridade à toda prova.

Um dia ainda haveremos de nos encontrar novamente – e dessa vez no mundo real – para conversarmos, rirmos, matarmos nossas saudades e lembrarmos com carinho de todas as bobagens que já fizemos enquanto vivíamos próximos um do outro.

Disso eu tenho certeza.

Até porque, como diria Richard Bach, “Se a nossa amizade depende de coisas como o espaço e o tempo, então quando finalmente ultrapassarmos o espaço e o tempo, teremos destruído a nossa fraternidade. Mas, ultrapassado o espaço, tudo o que nos resta é AQUI. Ultrapassado o tempo, tudo o que nos resta é AGORA. E entre AQUI e AGORA você não crê que poderemos ver-nos uma ou duas vezes?”

Devo agora me despedir, guardando com carinho essa sensação de proximidade e familiaridade que esse sonho me trouxe, ou melhor, que me resgatou lá de um passado que já estava começando a ficar pálido em minha memória, mas que, ao menos por enquanto, voltou a pulsar forte no meu peito.

E, por derradeiro, não posso me esquecer de quebrar o maldito despertador para que nunca mais volte a interromper um sonho como este que tive hoje!

😘