O Alfarrábio

Se você conheceu Paulo Bicarato, você conheceu O Alfarrábio. Se você conheceu O Alfarrábio, você conheceu Paulo Bicarato. No blog é que o Bica depositava seus pensamentos e opiniões, lá que ele compartilhou, discutiu, riu e se divertiu. Sempre. Este livro é uma pálida tentativa de fazer jus aos seus escritos – o livro que ele mesmo sempre quis publicar, mas o tempo não foi suficiente. Encantou-se. Este primeiro volume traz o período de 2001 a 2004 do blog e, conforme me foi dito pela nossa amiga Renata, nos faz “senti-lo por perto com textos atemporais, mesmo datados”. Ao passear pelas suas páginas é bem assim que nos sentimos… Esta obra não tem fins comerciais, pois o Bicarato jamais quis “monetizar” seus pensamentos. Qualquer mínima importância que vier a ser arrecadada com a venda deste livro será revertida para sua própria família. É isso. Agora já pode ir lá no Clube de Autores adquirir seu exemplar. Por nada.

Acabou!

Marco Aurélio

No começo, ficou todo mundo meio sem acreditar. Parecia um sonho. Depois de tanto tempo fechados em casa, finalmente chegava o final da quarentena.

— Acabou! — gritou um na rua. Outro, outro. Uma senhora da janela. — Acabou!

A humanidade podia enfim respirar. Melhor: respirar sem uma máscara na cara. A vacina demorou, mas saiu. Meses depois, o primeiro antiviral eficaz contra o novo coronavírus. Com uma esforço tremendo de governos, corporações e indivíduos de todo o globo, a doença foi erradicada do planeta.

Quando saiu a notícia, todos ficaram desconfiados. Ninguém sabia mais como sair à rua, como respirar sem duas camadas de algodão separando o rosto da atmosfera. Aos poucos foram saindo. Um, outro, outro. Acabou! Nas ruas e calçadas, começou um movimento espontâneo: pessoas jogavam suas máscaras de todos os tamanhos e formatos, com todas as estampas, despejavam álcool gel sobre elas e acendiam o fogo. Nunca mais isso.

— Vou ficar três meses sem lavar a mão!  —  disse um.

— Eu não preciso mais dar banho nas minhas compras!  —  se deu conta uma moça, maravilhada.

E a alegria quando se deram conta de que era possível novamente tocar outras pessoas? Estranhos se abraçavam e beijavam na rua. Divórcios de quarentena se desfaziam, reconstruindo casamentos. Casais de namorados separados pela pandemia tiravam o atraso de meses de desejo represado.

Foram duas semanas de glória e esperança no futuro da humanidade. A vida seria melhor, mais leve, mais solidária. Velhos rancores se amainaram. Armistícios foram declarados. Dívidas, perdoadas. O otimismo geral refletiu no mercado financeiro. Havia no ar uma promessa de prosperidade inédita na história humana.

E aí veio o asteroide.

Sete Dicas de Quarentena

Ao chegar da rua (e me dê um bom motivo para ter saído, hein?):

1. lave bem as mãos (no mínimo vinte segundos, no máximo quarenta minutos);

2. deixe seu calçado do lado de fora (certifique-se que também esteja fora do alcance de seu cachorro);

3. ponha para lavar as roupas que estava usando (incineração também é uma boa opção);

4. tome um bom banho (no mínimo cinco minutos, no máximo uma hora e quarenta);

5. lave bem seus cabelos e barba, se tiver (não é necessário creolina – mas se resolver usar, evite fazer gargarejo);

6. ponha roupas limpas e confortáveis de ficar em casa (vale camiseta furada, bermuda esgarçada e chinelo havaiana – daquele branco e encardido por cima, tira que vive soltando e solado azul claro liso que nem um quiabo); e

7. FIQUE EM CASA.

Dona Flor de Cerejeira e seus “dois maridos”

Estávamos no início do ano de 1997.

Ao apagar das luzes do ano anterior eu, por minha conta e risco, resolvi encerrar um relacionamento de mais de dez anos e acabei por me separar de minha primeira esposa, Evanilda. Ainda nos encontraríamos por mais algumas vezes, de modo nada satisfatório, até o dia da audiência de divórcio, quando, ao final, ela decidiu que eu jamais voltaria a fazer parte de seu futuro. E assim continuamos até hoje. Foi por essa época que juntei minhas poucas tralhas e fui morar por uns tempos num quarto vago da casa de meu irmão.

Mais ou menos à mesma época a Mieko, também conhecida como Dona Patroa, por motivos diversos aos meus, também havia decidido colocar um ponto final em seu segundo noivado que já se arrastava por uns quatro anos. Seu nome era Noboru. Depois de terem se conhecido enquanto ainda estavam no Japão, quando voltaram ela veio cá para o interior e ele tocava seus negócios na Capital. Viam-se nos finais de semana. Mas esse noivado distante, sabendo-se lá o que ocorria durante a semana (mas suspeitando bastante) também demonstrou-se nada satisfatório. E, também à distância, ela meio que rompeu com ele. Mas nada ficou explícito.

Mudemos de cenário.

Com toda a bagagem emocional que rompimentos de longos relacionamentos podem trazer, eis que naquele início de ano nos encontrávamos ambos recém-formados, ambos advogados sem clientes, ambos trabalhando no mesmo escritório de nosso amigo Luisinho e ambos – naturalmente – começando a se engraçar um com o outro…

Acabei conhecendo um pouco mais da família dela – e ela, coitada, da minha – inclusive sua irmã que morava no litoral, em Caraguatatuba, local onde seu marido, poucos meses depois, viria a sofrer um acidente de moto gravíssimo, tendo que ser transferido com urgência para a UTI do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

Pois bem.

Como ambos mal tínhamos clientes e limitávamo-nos a tocar as ações do Luisinho, não foi nada difícil deixar tudo pra trás e correr para São Paulo para ajudar sua irmã no que fosse possível naquele momento tão difícil. Ainda estávamos todos no hospital, meio que na expectativa, meio que na confusão, quando o inevitável aconteceu: de repente por lá surgiu o Noboru, eis que era também amigo da família de longos anos, para ajudar no que pudesse.

E eu lá.

E ele também.

Mas dado o momento e os acontecimentos, a saia nem ficou tão justa assim. O dia foi passando e como a parentada dela prontamente havia se colocado à disposição, acabaram combinando que ficaríamos no apartamento da Têro, sua prima enfermeira.

E como ir até lá?

De carona com o Noboru, claro, em seu novíssimo Gol GTi, um dos últimos modelos antes da reestilização da linha, e super equipado com um portentoso equipamento de som…

Ao chegarmos no apartamento ele disse que iria embora mas voltaria no dia seguinte para levar todo mundo para o hospital. Foi de senso racional e comum que aquilo seria bobagem, pois não fazia sentido ele atravessar a cidade àquela hora para ter que voltar no outro dia cedinho para buscar todo mundo, então o melhor seria que ele dormisse por ali também.

Então.

Estávamos todos ali, na lida, já lanchados e de banho tomado, arrumando colchões aqui, estendendo lençóis ali, ela ajeitando umas almofadas no meio da sala e eu e ele de costas um para o outro, defronte à porta de um dos quartos, cuidando de nossos cantos.

E eis que ela, sem levantar a cabeça, simplesmente chamou:

– Amor, faz um favor?

E eis que nós dois, exatamente ao mesmo tempo, olhamos para ela e respondemos em uníssono:

OI, AMOR?

E, percebendo a situação, simultaneamente olhamos um para o outro, nos encaramos, e ato contínuo olhamos para ela novamente com cara de interrogação: qual de nós, afinal?

Não tem como descrever aquele momento. Por poucos segundos o tempo simplesmente parou. Não havia nenhum som no ambiente. Até mesmo a luz tornou-se fugidia. Todos que estavam na sala foram pegos de surpresa e praticamente congelaram enquanto aguardavam, de respiração suspensa, qual seria o próximo ato daquela tragicômica peça nada teatral.

E naquele breve momento em que o planeta deixou de girar, ela, nos encarando com os olhos DESTE TAMANHO e lentamente foi percebendo o que estava acontecendo…

E no meio daquela saia justíssima, embaraçosíssima situação que sozinha conseguiu criar, ela simplesmente baixou a cabeça, cobriu os olhos com uma mão enquanto que estendeu a outra fazendo sinal para que se aproximasse:

ADAUTO. Adauto, faz favor. Você, Adauto, vem aqui um pouquinho pra me ajudar…

Com um pequeno solavanco o mundo recomeçou a girar, a sala novamente se iluminou, os sons voltaram a burburar, eu e ele ignoramo-nos mutuamente e cada qual foi cuidar de suas coisas.

Nos dias seguintes, apesar de toda a proximidade, foi difícil que se livrassem da minha sombra, sempre presente e próximo a ela. Mas eu também sabia que os dois precisavam de ao menos um momento a sós para concluir o que ficou inacabado, colocar os pingos nos “is”, terminar de vez um com o outro.

E foi com uma ciumenta fisgada no coração que este troglodita que vos tecla deixou o campo de batalha e voltou para o interior por algum tempo enquanto tudo se resolvia por lá – não sem, é lógico, tecer nas mais profundas catacumbas de minha mente as piores teorias da conspiração dos piores cenários possíveis…

Mas, enfim, terminaram.

E ainda foram necessários ainda mais vários dias de acompanhamento e monitoramento junto ao hospital, porém, infelizmente, no dia seguinte ao Dia das Mães daquele ano, o paciente veio a falecer.

E nos anos seguintes a história seguiu seu curso, nos casamos, tivemos nosso primeiro filho e ficamos bastante próximos da irmã dela e de suas três filhas adolescentes. Até que um dia tudo mudou, caiu sua vestimenta de ovelha e nunca mais voltamos a nos falar. Seguimos com nossas vidas e elas com as delas. Mas isso é uma outra história.

Mas, cá entre nós, desde então jamais deixei que a Dona Patroa pudesse esquecer aquele momento surreal de nossas vidas – mas hoje hilário – onde ela desenrolou seu nipônico papel de Dona Flor de Cerejeira e seus “dois maridos”! 😀

Volta ao Mundo em 80 Horas – VII

VII – Até quando tudo dá certo, ainda dá errado. Ou não.

(Para os desavisados de plantão: esta é a continuação da narrativa de uma de minhas desventuras que comecei a contar no final de 2016 – putz, já se vão quase quatro anos! – e que até agora ainda não tinha concluído. Nada demais, apenas um pré-infarto pelo qual passei. Se quiserem saber como tudo isso começou ou rememorar o causo desde o princípio, desçam direto lá para o final deste texto e cliquem no link “Início da Saga”.)

Quinta-feira. Dia três. Noite. Cerca de 60 horas de internação, sendo espetado, desespetado, medido, apalpado, remediado e outros tantos quetais. Porém já estava muito bem descansado e – até que enfim! – munido de óculos e muitos livros os quais poderia ficar lendo até bem tarde da noite de quinta para sexta (lembrem-se que eu havia dado entrada na Santa Casa por volta de dez da manhã de terça-feira).

Já era de madrugada e distraído como estava acabei levando um susto dos infernos quando ouvi batidas na janela, ao lado da minha cama. Alguém estava lá fora, no estacionamento.

– Mas que catzo…

Abri a janela, com cautela e armado de um livro volumoso o suficiente para causar o estrago na testa do primeiro desavisado.

Era o Torquemada. E a Marcela. E a Joseane.

Como obviamente já não era mais horário de visitação e já cientes que dentro em breve eu teria alta eles foram lá para me tripudiar consolar e não me deixar sozinho, ao menos por alguns momentos durante aquela longa noite. Tudo bem que eles já tinham acabado de chegar do Armazém, nosso boteco’s-bar predileto próximo do trabalho, onde deviam ter passado as últimas horas por lá. E pelo estrago estado geral da galera, eu tive absoluta certeza de que não estavam tomando suco de laranja…

Conversamos um tanto, rimos outro tanto (“Porra, não trouxeram nada pra mim? Sacanagem, hein?”), levei uma comida de rabo por essa frase e quando por fim perceberam que aquela janela não era um balcão de bar – e, em especial, que não tinha nenhuma bebida por lá – antes que fossem descobertos pela altura das risadas, resolveram ir embora. Despedimo-nos e, confesso, independentemente do estado geral que fisicamente meu coração poderia estar, espiritualmente ele estava bem mais leve e quentinho. Como é bom ter amigos! Mesmo um sádico como o Torquemada…

Depois dessa resolvi simplesmente deitar e dormir enquanto ainda estava com aquela sensação gostosa de aconchego.

No dia seguinte acordei tarde pra caramba (umas seis e meia), pois pelo visto meu relógio biológico havia resolvido tirar férias. Como eu já sabia que o café da manhã ainda iria demorar um pouco resolvi tomar um outro bom banho – ao menos para lembrar que ainda existia água quente no mundo. Carregando aquela parafernália de soros e acessos e camisola aberta no rego, com um pouco de trabalho – e quase pranchando no chão por umas duas vezes – finalmente consegui terminar a ducha. Bem na hora, pois o café havia acabado de chegar.

Apesar de nos últimos anos ter ostentado uma vetusta barba na maior parte do tempo, naquela época eu preferia ficar bem escanhoado. Mas como é cheia e cresce rápido, ao final de uns dias sem ver um barbeador eu já estava parecendo um indigente. Paciência. Só faltava mais um dia, segundo o “protocolo”, e no sábado eu iria para casa.

Passei o dia meio que bestando, cochilando um tanto e lendo outro tanto e no finalzinho da tarde me veio a médica para a visita de praxe.

– Parabéns, o senhor já vai ter alta.

– Sei, sei. Amanhã, né?

– Não, hoje mesmo. Só falta meu colega assinar comigo e o senhor já pode ir embora. Tem quem venha lhe buscar?

– Mas, mas… E o tal do protocolo? De que eu teria que ficar sei lá quanto tempo em observação?

– Ah, isso é mais uma orientação do que uma regra. Como o senhor está reagindo muito bem não há necessidade de mantê-lo por aqui.

“Mais uma orientação do que uma regra”? Caray! Não pude deixar de me lembrar do filme Piratas do Caribe onde, de acordo com o momento e a conveniência, a “parola” poderia ser considerada uma regra ou não. Sexta-feira, final de expediente, após cravadas oitenta horas longe da sociedade e eu sem uma muda de roupa sequer para ir embora. Liguei para a Dona Patroa – coitada… – e, não demorou muito, ela chegou com o que eu precisava. Separei todo o resto para já levar para o carro enquanto aguardaríamos a segunda assinatura e – enfim! – a alta.

E aguardamos.

E aguardamos.

Aguardamos.

Aguardamos mais um pouco.

E nada.

E já estava ficando muito tarde e ela precisava voltar para dar conta das crianças em casa.

E lá foi ela e lá fiquei eu.

De novo.

E ASSIM QUE ELA SAIU ME TROUXERAM O TAL DO PAPEL DA ALTA!!!

Que estava desde não sei que horas parado na mesa de não sei quem para levar não sei onde e depois entregar para mim.

E já não adiantava mais ligar para ela, pois era tarde e devia estar a meio caminho de casa.

Paciência.

No dia seguinte, cedinho, combinaríamos de ela vir me buscar.

Mas é lógico que não foi isso que aconteceu.

(Início da Saga)                        (Continua…)

O Decamerão

Muito bem, meu povo, em época de “confinamento” (êêêê, vida de gado…) nada melhor que ampliar um pouco os horizontes, largar do celular, das redes sociais e da informação fácil e mastigada, de modo a nos aprofundarmos um pouco em cultura e retomar bons e velhos hábitos – e não conheço nenhum hábito mais antigo que “ler um livro” (tá certo que existem profissões mais antigas talvez até mesmo que a escrita, mas este aqui é um blog de família e vou deixar pra falar disso noutra hora).

Quem aí já ouviu falar do Decamerão (ou Decameron), de autoria de Giovanni Boccacio?

Pois é, eu mesmo li esse livro lá pro início da década de oitenta e meio que já havia esquecido dele.

Até agora.

E vocês vão entender o porquê da lembrança.

Esse livro foi escrito por volta de 1.350, já quando começava o declínio da Idade Média. Tem por pano de fundo o encontro de dez jovens – 3 homens e 7 mulheres – que se isolaram em uma casa de campo em Florença, Itália, fugindo da pandemia que dizimava impiedosamente o continente europeu naquela época: a Peste Negra.

São cerca de cem contos divididos em dez jornadas (daí o nome “Deca”) narrados por esses personagens. São estórias de amor que vão do erótico ao trágico, contos de sagacidade, piadas e lições de vida – que rendeu ao livro a alcunha de “A Comédia do Sexo”. O livro retrata bem o ambiente daquele período em que viviam (sendo que alguns estudiosos dizem que muitos dos contos são meras transcrições de outros que já existiam na tradição oral da época), pois enquanto a Peste arrasava com cerca de 1/3 da população da Europa, a população reagia de duas formas distintas: ou se entregavam à luxúria desenfreada – bebedeira e busca irrestrita do prazer – ou se recolhiam a fim de orar e se voltar para a vida espiritual, mística, contemplativa – sendo que uma boa parte oscilava entre esses dois extremos… O próprio Bocaccio, para escrever sua obra, também isolou-se em fuga das mazelas da doença enquanto o mundo desabava lá fora.

Muitas pessoas, desorientadas e aparvalhadas, vagavam pelos campos e se ajuntavam nas igrejas em busca de uma ajuda que não viria, pois encontravam-se diante da perspectiva de uma morte horrenda face a uma ineficácia da religião católica (então dominante) e de uma medicina quase ou totalmente inexistente.

Bocaccio criticou a sociedade da época através de um retrato irônico e detalhista num mundo repleto de interpretações diferenciadas para as mesmas situações, desafiando a Igreja e os costumes da época com um tom debochado ao tratar de assuntos como religiosidade e a vida em coletividade. Ou seja, ele se desprendeu da até então reinante moral medieval e abriu rumo a um realismo no qual o centro das estórias estava voltado à conduta das próprias pessoas – o que ultrapassou seus antecedentes em complexidade, qualidade e capacidade narrativa. Essa obra foi tão relevante que chegou a inspirar diversos autores que vieram posteriormente, dentre eles Shakespeare, Cervantes, Lutero e outros.

“Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por iniciativa dos corpos superiores ou em razão de nossas iniquidades, a peste atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais, há alguns anos. Tal praga ceifara, naquelas plagas, uma enorme quantidade de pessoas vivas. Incansável, fora de um lugar para outro; e estendera-se, de forma miserável, para o Ocidente.

Os homens se evitavam […] parentes se distanciavam, irmão era esquecido por irmão, muitas vezes o marido pela mulher; ah, e o que é pior e difícil de acreditar, pais e mães houve que abandonaram os filhos à sua sorte, sem cuidar deles e visitá-los, como se fossem estranhos.” (BOCCACCIO. 1987, p. 35-36,38)

Entenderam agora?

O que estamos vivendo nos dias atuais reflete em parte algo que já aconteceu há mais de 700 anos!

É bem como aquela mais famosa frase da série Battlestar Galactica: “Tudo isso já aconteceu antes, e tudo vai acontecer novamente”.

Enfim, fica aí a dica do dia. E como se trata de uma obra que já está em domínio público, caso se interessem basta clicar neste link aqui para o download do livro em PDF.

Bem, por hoje acho que é só.

E lavem bem as mãos.

Sempre.

As duas portas

Existem duas portas para entrar em casa: a da sala e a da cozinha.

A primeira, de madeira, imponente, envernizada, com seu pomposo trinco e um suave girar nos gonzos.

A segunda, de segunda. Literalmente. É de lata e vidro, com uma portinhola que lhe ocupa a maior parte e que serve para arejar o ambiente e para o gato passar. Seu trinco quando não emperra, não tranca e o ruído dela abrindo ou fechando lembra muito o daquelas velhas portas dos antigos filmes de terror.

Quem eu não conheço muito bem recebo com a formalidade da porta da frente. A pessoa limpará seus pés num bonito capacho, com a sempre presente inscrição de boas-vindas. Poderá pendurar seu casaco ou bolsa no gancho que fica logo ao lado da porta e se estiver chovendo ainda terá um porta guarda-chuvas por perto. Ao entrar enxergará o espaço organizado do sofá e sua mesinha de centro, com uma bela televisão ao fundo ladeada de estantes de livros, de CDs e de DVDs. Provavelmente se perderá por ali por alguns momentos avaliando os títulos presentes. Eu a convidarei para se sentar, já me acomodando logo em frente e provavelmente devo até mesmo cruzar as pernas, isso depois de já ter aberto as cortinas para dar lugar à luz e à brisa. Ao som de uma suave música ambiente, deverei oferecer café em jogo completo de xícaras e bandeja de metal. Perguntarei se açúcar ou adoçante.

Apesar do extremo acolhimento, ainda assim não estarei à vontade. Pensarei com cautela cada palavra que direi e jamais correrei o risco de falar mal ou mesmo bem de alguém.

As visitas ganham o melhor da residência e o pior do anfitrião.

Já quem eu amo entra pela porta da cozinha, no meio da bagunça das panelas, da mesa ainda posta, do artesanato da Dona Patroa e dos jornais espalhados. É o umbral secreto do afeto, simples e despojado, sem tapete, com os saborosos perfumes vindos do fogão, dos temperos e dos alimentos descongelando. Se estiver chovendo, praguejando levarei o guarda-chuva pingando, correndo através da cozinha, para depositá-lo no tanque do lado de fora. Não haverá cerimônia nenhuma. Casacos e bolsas serão largados na cadeira mais próxima. Se quiser café já sabe onde estará e, à vontade, se servirá. O mesmo com as cervejas na geladeira e ainda vai soltar um palavrão porque não é da marca preferida dele.

Os amigos ganham a verdadeira face do lar e a sinceridade do anfitrião.

Ou seja, existirão duas versões de mim: aquele que abre a porta da frente e aquele que abre a porta dos fundos.

Na frente estarei de roupa social ou no mínimo formal, já tendo pensado nos detalhes e na cerimônia necessária para receber a visita. O cumprimento será, com olhos nos olhos, um firme aperto de mão. A conversa será em meio tom, moderada, circunspecta e voltada a assuntos que habilmente estarão direcionados ao motivo pelo qual a visita veio em minha casa.

Já nos fundos estarei de calção, camiseta regata e chinelo. Com um sorriso ou uma gargalhada, xingarei o amigo que entra já dizendo que está sumido e será recebido com um abraço de quebrar os ossos e com calorosos tapas nas costas. Aqui a alma também muda. Falo gritado e gesticulando, com a passionalidade de um bom filho de mineiro. Não importa o motivo pelo qual está ali – mas ainda bem que veio! – qualquer assunto será assunto, não meço as confissões e as fofocas e tampouco arrumo ou calculo as frases. Não me preocupo em absoluto com a expectativa de agradar, já que meus amigos fazem parte do meu lar.

Se tiver vindo para um almoço, a visita sentar-se-á à mesa e, enquanto conversa com os demais presentes, poderá se servir dos alimentos que já estão nos refratários postos à mesa enquanto aguarda chegar a carne preparada na churrasqueira lá nos fundos, a qual estará numa brilhante bandeja de metal, já assada e cortada no ponto certo.

Já os amigos estarão comigo na churrasqueira, aos quais ainda pedirei para pilotar enquanto vou ali na esquina buscar mais cerveja ou refrigerantes. Sentar-se-ão nas muretas do quintal e comerão na mesa que previamente foi levada lá pra fora. Se servirão diretamente das panelas que ainda estão no fogão, isso quando não tiverem eles próprios que botar a mão na massa e preparar uma salada, um arroz, um vinagrete que seja. A carne virá pingando diretamente da tábua para o prato ou para o pão, conforme se queira. Contaremos piadas, falaremos mal da vida alheia, de nós mesmos, comeremos, beberemos e brindaremos à vida!

A porta que mira a rua é a da sobriedade, da cerimônia, da conversa controlada e sentimentos ocultos.

A porta que beira o fogão e a geladeira é a da intimidade, dos risos e implicâncias, das gargalhadas e do choro apressado com um consolo sentido e sincero.

Só abrimos nosso coração e nos entregamos de alma para aqueles em que verdadeiramente confiamos…

(Copiado, colado, cortado, inserido, alterado e reformado de uma crônica do Fabrício Carpinejar.)

Sonhei com você!

Logo pelo raiar do dia acordei com o insistente chamado do maldito despertador.

Ainda assim não quis levantar, pois queria sorver um pouco mais da lembrança daquele sonho gostoso e suave, de como há muito não tinha, onde situações malucas, desconcertantes e nonsense se misturam e flertam com outras triviais e corriqueiras de nosso dia a dia…

Realmente foi um sonho bom…

Invariavelmente não costumo lembrar de meus sonhos, pois durmo apenas poucas horas por noite – costume há muito arraigado – e ainda que não adormeça rápido, durmo profundamente.

Só que desta vez foi diferente, lembrei de cada detalhe, de cada cheiro, de cada gesto, de cada toque, de cada tudo – e sabe por quê?

Sonhei com você!

Assim, do nada, ainda que há muito você sequer passasse próxima de meus pensamentos, tive esse sonho meio doido, onde eu estava num trabalho técnico, burocrático e enfadonho para uma cliente, mas estava feliz, pois você estava ali, presente, sentada do meu lado, conversando, proseando e rindo com esse seu sorriso com cheiro de luz do Sol a iluminar todo o ambiente.

Que bom poder matar essa saudade que eu nem sabia que ainda tinha, mesmo que dessa maneira surreal, lá no mundo onírico, onde tudo se mescla, onde passado, presente e futuro são uma só coisa, pois este meu coração – que ultimamente anda um tanto quanto árido – palpitou forte uma vez mais, com lembranças emocionais que estavam soterradas em algum canto perdido lá nas mais profundas catacumbas de meu ser.

Um tanto quanto exagerado, eu sei – mas fazer o que se sempre fui assim?…

Eu fiquei muito feliz em poder te encontrar novamente, pessoalmente, olhando bem fundo nesses seus olhos brilhantes, apesar de toda essa distância que nos separa, ainda mais porque estávamos daquele nosso jeito de sempre, meio que descontraídos, meio que se divertindo, meio que discutindo mas sempre se amando.

Sei que, para você, não é preciso explicar, mas para qualquer outra pessoa que venha a ler estas linhas é importante entender que quando eu digo clara e francamente que “eu te amo”, isso na realidade é muito mais profundo que um mero amor fraternal e absolutamente não quer dizer que seria daquele tipo de amor para vivermos como um casal.

Amar, nesse caso, é um querer bem de uma forma inenarrável, indescritível, é gostar de estar perto, de poder ajudar, é querer que a pessoa esteja bem, que esteja feliz, independentemente de com quem quer que seja ou onde quer que esteja, sabendo do fundo do coração que o sentimento que se tem por essa pessoa é tanto recíproco quanto de uma sinceridade à toda prova.

Um dia ainda haveremos de nos encontrar novamente – e dessa vez no mundo real – para conversarmos, rirmos, matarmos nossas saudades e lembrarmos com carinho de todas as bobagens que já fizemos enquanto vivíamos próximos um do outro.

Disso eu tenho certeza.

Até porque, como diria Richard Bach, “Se a nossa amizade depende de coisas como o espaço e o tempo, então quando finalmente ultrapassarmos o espaço e o tempo, teremos destruído a nossa fraternidade. Mas, ultrapassado o espaço, tudo o que nos resta é AQUI. Ultrapassado o tempo, tudo o que nos resta é AGORA. E entre AQUI e AGORA você não crê que poderemos ver-nos uma ou duas vezes?”

Devo agora me despedir, guardando com carinho essa sensação de proximidade e familiaridade que esse sonho me trouxe, ou melhor, que me resgatou lá de um passado que já estava começando a ficar pálido em minha memória, mas que, ao menos por enquanto, voltou a pulsar forte no meu peito.

E, por derradeiro, não posso me esquecer de quebrar o maldito despertador para que nunca mais volte a interromper um sonho como este que tive hoje!

😘

Ah, não!

E então eis que as duas amigas resolveram sair para tomar uns drinques. Ambas mulheres experientes, vividas, mesmo que não tivessem o assim chamado “frescor da juventude”, ainda contavam com uma nítida sexualidade e um charme todo próprio adquirido com o passar das estações…

Uma casada, a outra não.

E estavam elas instaladas numa confortável mesinha na calçada, naquele conversê de barzinho, bebericando seus drinques, falando de atualidades, do passado, do futuro, dos outros e – claro! – de homens.

Então, não mais que de repente, aparece aquela picape gigante, lentamente se movendo do outro lado da larga avenida, aguardando a liberação de uma vaga enquanto um outro sujeito desajeitadamente manobrava seu carro para ir embora. Não era possível ver com nitidez seu motorista, nem se estava com alguém, mas mesmo daquela distância era visível o bem delineado contorno de sua cabeça, o queixo proeminente bem como o nariz afilado. Enquanto espera ele dá uma olhadinha em direção a elas e discretamente sorri.

— Ai, amiga! Olha só! Aquele sujeito chegando ali, ele tá me paquerando!

— Hm? – perguntou a outra, lentamente levantando os olhos e perscrutando ao redor enquanto ruidosamente sorvia o final de sua caipirinha pelo canudinho.

— Ali, ó, naquela camionete estacionando…

— Ih, amiga, cuidado, hein? Normalmente gente que tem carrão grande assim é tudo baixinho.

— Credo, para de ser assim! Você tá aí, tranquilinha, bem casadinha e eu não. Se chega um sujeito bonitão querendo dar em cima de mim, deixa ele!

— Não é isso, minha linda! Olha pra você. Você tem bem mais de um metro e setenta – e só de pernas!

— Exagerada!

— Tô te falando. Você é alta, amiga, muito mais que a maioria. Sei que é difícil surgir um cara que combine com você, mas escreve o que eu tô dizendo: carro grande só vem com baixinho. Com certeza é um anão!

— Pelamordedeus, menina! Para! Deixa eu. Até porque ele já deu mais umas olhadinhas pra mim…

— Tá bom, tá bom. Mas nem deu pra ver se ele está com alguém. E se estiver? E se for um safado?

— Bom, daí azar dele, pois não vai poder usufruir da mamãe aqui! – disse enquanto descia as mãos pelo corpo, ressaltando as próprias curvas.

— Ai, você não presta mesmo! Mas ainda acho que o cara deve ser um baixinho, um anão. Você vai ver só.

Nisso finalmente o sujeito acabou de estacionar. Fechou o vidro semiaberto, entreabriu a porta ao mesmo tempo que virou-se de lado, parecendo que estava se debruçando sobre alguém.

— Ih, amiga, já vi tudo! Pode ir tirando esse sorrisinho besta do rosto que ele deve estar com alguém. De qualquer jeito sua noitada acaba aqui, pois pela maneira que deve estar desafivelando o cinto, o anão também está com uma criança.

— Além de despeitada, bocuda, hein? E daí que ele tenha uma criança com ele? Vai que dá certo, a gente se conhece e marca alguma coisa para um outro dia?

— Mas você não perde a esperança, né? Então deixa o baixinho vir, que agora até eu quero ver no que é que isso vai dar.

— Ai, para!

E então, pela porta, de fato desceu uma criança. Assim, de costas meio que escorregando pelo banco alto daquela picape mais alta ainda, até que seus pezinhos titubeantes tocaram o chão. E com um estrondo a porta se fechou.

— Nossa, será que ele vai deixar aquele menino ali na rua, assim sozinho?…

E então o garotinho se virou e sorriu.

Ativou o alarme enquanto começava a atravessar a rua com seus passinhos lépidos e gingados.

Era um anão.

Mussarelices

– Boa noite. Quero pedir uma pizza.

– Pois não, qual o sabor?

– Meia dois queijos e meia calabresa. Aqui diz que a calabresa vem com mussarela. Eu quero sem mussarela e com bastante cebola.

– Qual pizza o senhor quer?

– Meia Calabresa sem mussarela e meia dois queijos.

– O senhor não quer que coloque mussarela na calabresa?

– Por favor, não.

– Aqui colocamos mussarela, senhor.

– Vocês não podem tirar?

– Podemos sim, senhor. É que normalmente não fazemos isso.

– Minha querida, calabresa com mussarela se chama Sorrento. Pizza de Calabresa não vai mussarela.

– Sim senhor. Então o senhor não quer mussarela na calabresa?

– Não, querida, sem mussarela.

– E na dois queijos, vai querer a mussarela?

– Aqui no cardápio diz que a dois queijos de vocês é com provolone e catupiry.

– Ah. Mas como o senhor não quer mussarela na calabresa, pensei que queria na dois queijos.

– Ok, faz sentido, mas não, minha filha. Hoje não é um bom dia para mussarela, ok? Sem mussarela.

– Então sem mussarela na dois queijos, senhor?

– Isso! Sem mussarela na dois queijos e sem mussarela na calabresa! Entendeu?

– Sim senhor. O senhor então quer duas pizzas, uma meia calabresa sem mussarela e dois queijos e outra só de mussarela?

– …

– Senhor?

– Vamos lá… Eu quero UMA!!! UMA PIZZA METADE DOIS QUEIJOS E METADE CALABRESA SEM MUSSARELA!!!

– Ok, senhor. E a mussarela então não vai?

– Como?

– A pizza de mussarela, senhor.

– Sem mussarela, entendeu? Sem mussarela! Minha nossa!

– É que entendi o senhor dizer que não quer uma segunda pizza de mussarela.

– Vou repetir: quero uma pizza metade calabresa sem mussarela com bastante cebola. E outra dois queijos conforme está no cardápio.

– Entendi, senhor. Quarenta minutinhos.

– Tudo isso?

– É que estamos sem mussarela e vamos pegar na nossa outra unidade, senhor.

– Não. Peraí. Você tá me zoando?

– Não senhor, eu jamais faria isso.

– Eu pedi uma pizza dois queijos, catupiry e provolone e a outra metade calabresa SEM MUSSARELA!

– Eu entendi, senhor.

– Obrigado. Vou aguardar.

……………

Quarenta minutos depois a pizza chega. Abro a caixa. Era uma pizza de atum com mussarela.

Nota: Desconheço a autoria deste texto – mas adorei!!! 😀

Grogueadas oníricas

Situação recorrente que costuma acontecer comigo e a Dona Patroa é a de nos perdermos nos shoppings da vida. Isso porque eu só costumo entrar num shopping para comprar o que quero e já sair, enquanto que ela faz questão de entrar em cada uma das 1.469 lojinhas de promoções de dérreal que existirem por lá…

Pois bem.

Eis que hoje eu SONHEI que havíamos nos desencontrado num shopping. Procura daqui, procura dali, pergunta pra um, pergunta pra outro e nada.

Então decidi que já era hora de pegar meu celular e ligar para descobrir onde ela estava.

Ainda meio grogue, LEVANTEI DA CAMA, procurei meu celular pela casa e então liguei pra ela.

– Oi, amor! Onde é que você está? Já te procurei por tudo quanto é lugar!

E ela, também meio grogue, LEVANTOU DA CAMA e com o celular na mão veio até onde eu estava e me respondeu:

– Que é que você quer, seu louco?

Só então me caiu a ficha.

Só então eu percebi o que estava fazendo, o que já tinha feito e o quanto eu estou ferrado, pois ela vai fazer questão de me lembrar disso e tirar um sarro da minha cara – no mínimo – pela semana inteira!

Sósifôdo…

A Terra é plana!

Sim, é isso mesmo. A Terra é plana.

Isso é de uma obviedade que não tem tamanho, pois não importa se todos os demais planetas de nosso sistema solar (e do restante do Universo conhecido) possuem formato esférico, nem se a própria Lua vista a olho nu é nitidamente redonda e muito menos o formato da sombra que é projetada nos eclipses lunares – é incontestável que o Planeta Terra é uma gigantesca panqueca que viaja pelo espaço.

Aliás, perdoem-me pelo ato falho: é lógico que nosso planeta não viaja pelo espaço. Desde a Grécia Antiga já era sabido, pela Teoria do Geocentrismo, que o Planeta Terra permanece fixo no centro do Universo, com todos os demais corpos celestiais – inclusive o Sol – girando ao seu redor.

E é por isso mesmo que se faz necessário acabar com esse falso pensamento ideológico de que haveria necessidade de um “Horário de Verão” – uma mentira criada pelas classes outrora dominantes tão somente para tentar comprovar essa visão distorcida de que a Terra seria redonda e giraria em torno do Sol, com supostos solstícios de Inverno e de Verão. Eu nunca vi! Nunquinha! Então está claro que não existe absurdo maior!

Ah, mas existe sim. Eu falo dessa conspiração que já existe há décadas e que foi perfidamente elaborada pela NASA – a agência espacial do Governo Norte Americano – a qual, desde que pôs as mãos nos meios de comunicação em massa, vive de espalhar mentiras e de ditar regras para a indústria mundial de satélites. Não existe a mínima possibilidade de um ser humano já ter ido à Lua, pois é muito, muito longe! Ainda mais se fosse para contar com aquela tecnologia ultrapassada da década de sessenta. E não importa que mesmo outros países  hoje em dia lancem satélites no espaço, pois eles são obrigados a perpetrar as mentiras da NASA, tendo sido inventado um conceito delirante de “satélite em órbita geoestacionária” para dar a falsa impressão de que esses equipamentos girariam em torno do planeta acompanhando sua rotação – o que evidentemente é uma mentira! Uma vez que a Terra é plana e é o Centro do Universo, não existe esse negócio de “rotação”. O que eles fazem é jogar seus satélites para cima e eles ficam lá, parados, no vácuo do espaço. Simples assim.

Isso se torna tão evidente, ainda mais na medida em que o próprio Criador nos colocou nessa posição, pois somos a única forma de vida que existe no Universo e qualquer outra alegação diferente dessa deve ser guardada para os livros e filmes de ficção científica. Fomos criados à sua imagem e semelhança e foi através de Adão e Eva que tiveram origem todos os povos e etnias que povoam o mundo inteiro. E isso pode ser facilmente comprovado por qualquer pessoa que quiser, basta consultar a Bíblia – tá lá, bem no comecinho, eu mesmo já li! Essa coisa de “Teoria Evolucionista” é claramente uma obra de fariseus sofistas e comunistas, que ficam criando questões casuísticas para ocultar a verdade.

Basta lembrar uma outra passagem que tá lá na Bíblia (e essa eu não só li, como também assisti a um filme que comprova que foi verdade): a Arca de Noé. Os céticos até hoje teimam em negar essa história, usando das mais absurdas alegações. Ora, é lógico que com a ajuda do Senhor seria muito fácil para que os escolhidos, no caso a família de Noé, juntasse um casal de cada uma das bilhões de espécies de animais que ocupam todo o planeta em toda sua extensão e os conduzisse para aquela gigantesca pokebola de madeira que foi construída por apenas um homem e seus três filhos, inclusive com espaço para armazenar a comida que serviria de alimento a todos por quarenta dias! Vejam só que prodígio! Pessoas de visão curta, não compreendem que coube a essa família gerar uma descendência suficiente para repovoar todo o Planeta Terra, dando origem novamente a todos os povos e etnias que hoje existem – até porque, como todo mundo sabe, com prima não é pecado.

E é justamente por conta disso, dessa superpopulação que foi gerada e hoje existe ao redor de todo o planeta, quer dizer, sobre todo o planeta (pois a Terra é plana), que é indispensável que os militares estejam no poder. Isso porque uma guerrazinha de vez em quando serve justamente para ajustar a quantidade de gente existente. Basta ver o exemplo da Alemanha no século passado, povoada por aqueles nazifascistas de esquerda e que, apesar de tudo, ajudaram a efetuar esse necessário controle histórico populacional.

Um exemplo que, inclusive, foi seguido no Brasil, quando do advento da Revolução Redentora de 1964, quando teve início um governo militar democrático (e nada dessa falácia de “Golpe” ou de “Ditadura”) que contou com o apoio de toda a população, sem exceção – menos dos comunistas que queriam levar o país à bancarrota, através de suas falsas ideologias protecionistas, descendentes daqueles que foram derrotados pelo nazismo na Europa.

Mas… Esperem um pouco…

Se o nazismo é de esquerda – o que é óbvio, porque foi o que o Presidente disse – e eles lutavam contra o comunismo, então, por meio de um perfeito silogismo, isso significa que os comunistas eram de direita. Mas se os comunistas eram de direita, então isso quer dizer que o nosso governo militar era de esquerda? Mas e todos os partidos socialistas que foram criados depois? Seriam, então de direita? Não, péra, então tem que ver isso aí. Pois se for assim, esse próprio governo que está aí seria de…

Ôpa!

Estão batendo na porta. Acho que é um pessoal que vinha aqui para uma reunião. Gente que pensa como nós, a maioria correta da população. Vocês sabem, né? Volto assim que puder…

A Gargalhada de Sócrates

E eis que no último sábado, logo pela manhã, fui agraciado pelos serviços de entrega do Correio com a chegada do meu exemplar de A Gargalhada de Sócrates: como o maior filósofo do ocidente desvendou o intrigante caso do assassino em série ateniense, com a improvável ajuda de seu desafeto Aristófanes, de autoria de Nelson Moraes Alves.

Como sempre costumo fazer quando me chegam às mãos novos livros (não necessariamente livros novos), dei uma boa olhada na capa, li o conteúdo da contracapa, li atentamente ambas as orelhas do livro, fiquei feliz com o autógrafo, dei uma checada na dedicatória e… só. Mais tarde eu daria início à leitura, juntamente com os outros quatro ou doze livros que sempre estão me aguardando na cabeceira de minha cama.

Os prognósticos já eram bons, pois, da Internet, já conhecia o “jeitão” do Nelson escrever – desde os tempos do blog Ao Mirante, Nelson! (falarei disso mais adiante) e, mais recentemente, pelas redes sociais, com seus ferinos comentários ou pequenas e bem humoradas parábolas. Mesmo assim permanecia um certo “receio”, pois não se tratava de uma coletânea de seus escritos (como eu já havia feito com meu blog), mas sim de algo totalmente novo e desconhecido: um romance completo, com começo, meio e fim distribuídos por mais de 300 páginas! E esse meu sentimento somente se dá porque, para mim, existem basicamente dois tipos de livros: aqueles que você não consegue largar e aqueles que você não consegue voltar… E se ele fosse dessa segunda categoria? Bem, só mesmo lendo para saber.

Como os sábados sempre costumam ser um tanto quanto atribulados (aliás, não diferente dos demais dias úteis da semana), deixei para a noite de domingo para começar a me engraçar com o livro. Assisti alguns episódios de algumas séries junto com a Dona Patroa (dentre elas, a britânica Killing Eve – recomendo!) e lá pelas dez da noite, enquanto ela ainda assistia um filme que me causou mais sono que interesse, recolhi-me ao quarto, afofei os travesseiros, engatei a primeira e abri o livro.

E só o fechei às cinco horas da manhã!

Na última página.

Sem parar.

É bem como está lá no comentário de Janaína Jordão, na contracapa do livro: “Me diverti horrores. O livro prende do começo ao fim, é impecável. Não dei conta de largar. E do epílogo para frente fiquei lendo com um misto de curiosidade crescente e um medo de acabar logo”. Aconteceu o mesmo comigo, pois foi de uma só toada.

Os incautos podem até vir a se assustar um bocadinho num primeiro momento, pois o livro é composto quase que inteiramente de diálogos na segunda pessoa do singular (eu, tu, ele… lembram?) e com muitas palavras tanto complexas quanto “de época”, pois a estória se passa no século 4 a.C. – eu mesmo quase fui buscar um dicionário para deixar ali do ladinho. Mas é só uma primeira e equivocada impressão. Ao começar a entrar no fio da meada a gente acaba percebendo que mesmo aquelas palavras desconhecidas se encaixam perfeitamente no contexto das frases, sendo subliminarmente compreendidas e não atrapalhando em nada a dinâmica da leitura.

O que, aliás, me fez lembrar de uma antiga piada envolvendo estudantes de grego clássico, marinheiros e uma inusitada viagem à Grécia…

Mas deixemos isso para um outro momento.

Voltemos ao livro.

O Nelson conseguiu montar uma trama excelente e bem humorada, com diálogos totalmente permeados de trocadilhos e ironias. E, de quebra, podemos aprender e compreender o que era o método maiêutico utilizado por Sócrates, bem como a maneira pela qual funcionava a contemporânea Escola Sofística de pensamento. E não, não vou explicar. Se quiserem saber vão pesquisar – ou melhor, comprar o livro!

E se prestarmos um pouco mais de atenção a esses diálogos, veremos que também temos verdadeiras aulas sobre justiça, democracia e até mesmo sobre a forma e os limites do humor…

A base da estória (não se preocupem, sem spoilers) gira em torno de como Sócrates, aprisionado enquanto aguardava a execução da sentença que o condenou à morte, conseguiu, juntamente com Aristófanes, desvendar o caso do assassinatos que, um a um, estavam acontecendo em Atenas enquanto se desenrolava a trama. Trama essa muito bem construída para esconder a identidade do assassino até o último momento – se bem que, confesso, logo após o terceiro assassinato comecei a ter minhas desconfianças, as quais se confirmaram no final. Mas isso não é uma crítica e nem diminui a beleza da obra, pois talvez tenha se dado simplesmente porque já li muitos livros da Agatha Christie e todos do Sherlock Holmes, sendo que, neste caso em especial, me veio à mente Um Estudo em Vermelho.

Enfim, leiam. Leiam esse livro sem dó. Recomendo veementemente.

Mas ainda resta uma última pergunta: quem afinal de contas é esse tal de Nelson Moraes Alves?

Blogueiro das antigas, mas que há muito já aposentou seu blog Ao Mirante, Nelson!, tive que dar uma fuçada no Internet Archive para encontrar algumas de suas antigas referências… Parece que tudo começou por volta de outubro de 2002, no endereço www.aomirante.com, mais tarde tendo passado para o www.interney.net/blogs/aomirante, o que duraria até dezembro de 2009, quando foi para o www.aomirante.net e lá ficou até seus últimos posts, em dezembro de 2011. Ao menos é o que eu acho, mas posso estar errado…

Mas creio que quem possa melhor descrevê-lo seja o Idelber Avelar, conforme publicou lá em maio de 2009 no também finado blog Biscoito Fino e a Massa:

“Nelson Moraes talvez seja o único blogueiro brasileiro a ter inventado um gênero. O que você lê em Ao Mirante, Nelson! não é microconto, não é poema em prosa, não é fait divers. É um gênero próprio, burilado ali, algo para o qual ainda não há nome e que poderíamos chamar de post elevado à condição de arte.

No final de 2004, logo depois de abrir o Biscoito, ainda sem saber onde aterrizara, saturado de ler porcarias – ou uns poucos blogs bem escritos que, no entanto, não me diziam muito –, já meio rendido à tese de que tudo na blogosfera era ruim, eu cheguei a um post. Foi, ao mesmo tempo, lição de humildade e fonte de gargalhadas que insistiam em se repetir cada vez que eu revisitava o texto. Eu nunca havia visto aquilo: um diálogo de meia página que combinava uma erudição assombrosa com um domínio perfeito de todos os tiques da linguagem tecnológica daquele momento. Trata-se daquele que eu ainda considero o post mais perfeito já produzido em lusitana língua: Se os diálogos de Platão fossem pelo MSN. Se você nunca leu, siga o link e fique por lá. Volte aqui só no domingo.

A obra de Nelson Moraes – sim, de uma obra se trata – tem essa característica, a de agarrar um momento da tecnologia, da política ou do cotidiano, extrair-lhe a essência mais hilária e, ao mesmo tempo, confrontar-nos com o seu vazio. No caso da tecnologia, o mais recente exemplo é o emblemático Jornal x Blog x Twitter: a série, que diz mais que todas as nossas verborrágicas discussões sobre o futuro das mídias. Os próprios blogs são temas constantes, como nesta paródia aos comentaristas ou nesta sátira à republicação de posts. Não custa lembrar, Nelson é o responsável pela tese de que não existe ex-blogueiro.

Ninguém se lembra o que realmente foi roubado do MASP em 2007, mas para muitos de nós, aquele desimportante acontecimento jamais será esquecido. Foi, afinal de contas, quando Nelson escreveu Ladrões arrombam o MASP e se recusam a furtar inúmeras obras de arte. A criminalização da bebida para motoristas já vai caindo no olvido, como sói acontecer com as leis brasileiras, mas duvido que eu me esqueça de Lei seca ameaça piadas de bêbado. “Leem” e “voo” já me saem naturalmente sem acento (e eu não conheço tema de discussão mais chato que a Reforma Ortográfica). Mas muito depois que tenhamos nos esquecido que “heroi” “heroico”* um dia teve acento, lá estará um clássico: Após o acordo ortográfico, entra em vigor agora o acordo aritmético.

Nelson possui uma tremenda erudição literária, cinematográfica, musical e filosófica. No entanto, ao contrário de certo humor pseudoaristocrático que floresceu durante algum tempo em comarcas mais direitosas da blogosfera, a erudição de Nelson não exclui, mas inclui o leitor, mesmo aquele que não domine todo o intertexto do post. Eu, que possuo cultura cinematográfica tão vazia que nela não cabe mais nada, não deixei de gargalhar com Post Noir.

Uma vez vislumbrei uma antologia de posts de Nelson Moraes ilustrada por André Dahmer. Bem promovida, venderia mais que boa parte do catálogo de qualquer editora, mesmo que não se apagasse nada da internet. Talvez, algum dia, apareça um editor lúcido o suficiente para fazê-lo.

Vida longa e infinitas Bohemias para o Almirante.”

Por fim, uma última observaçãozinha pessoal… Desde sempre eu achava que, menos que o sujeito que derrotou Napoleão, o nome do blog dele era um trocadilho com o nome deste Almirante Nelson, da mesosóica série Viagem ao Fundo do Mar