Categoria "Martelando o Teclado"
29 abr 2013 - 5:42  

Aquilo que faz a diferença

E eis que neste final de semana comemorou-se os setenta anos do Doutor Fábio Cesnik.

Uma das pouquíssimas pessoas que faço questão de chamar por esse título. E, para quem me conhece um bocadinho (bem como à minha chatice), sabe o quanto isso significa…

Enfim, eu e Dona Patroa estivemos presentes à festa. Uma delícia! Ainda que não conhecêssemos a maioria das pessoas presentes, era nítido o clima de real alegria, de união familiar, de amizade, de verdadeiro respeito. E um detalhe que faz toda a diferença: aos sete-ponto-zero veio também a aposentadoria compulsória da corporação.

E foi ali, entre pessoas queridas que esse senhor, essa simpatia em pessoa, delegado, benfeitor, artesão, proseador de primeira – foi ali que se deu o causo e a mais singela e emocionante homenagem que já vi.

Que me perdoem todos os demais oradores da noite – e não foram poucos -, aos quais reconheço e credito discursos sinceros e comoventes, cada qual abrangendo uma pequenina faceta da vida do nosso mui digno aniversariante, seja como profissional, como amigo, como pai, como benemérito. Mas o que verdadeiramente me tocou foram as palavras dessa senhora, prima querida e mais velha do Doutor Fábio.

Reescrevo de memória – que nunca foi lá grande coisa (ainda mais depois de quatro ou doze uísques) – as palavras que ecoaram em nossos corações naquela noite:

“Eu sou prima, aqui, do Fábio. Aliás, como sou mais velha – tenho oitenta anos – na verdade ele é que é meu primo já há setenta anos! Apesar de morar em São Paulo e ele aqui, tão pertinho, nos vemos muito pouco. Mas essa frequência não corresponde ao tamanho do amor que sentimos um pelo outro – e há tanto tempo!

Então resolvi comprar alguma coisinha, uma lembrancinha, para esse meu tão amado primo. Fui numa loja que conheço e que adoro muito pela quantidade de badulaques e lembranças diferentes e originais que se pode encontrar. Tem de tudo por lá! Mas, ainda assim, não sabia o que lhe dar de presente. Então uma vendedora veio tentar me ajudar a escolher algo.

- A senhora sabe para qual time ele torce?

- Não, não sei não…

- Tudo bem. Então, que número ele calça?

- Também não sei.

- Talvez o número da camisa que ele usa a senhora saiba?

- Não, também não.

- Certo… E de vinho? A senhora sabe se ele gosta de vinho?

- Não, não sei…

E nessa conversa, quanto mais ela me perguntava parece que menos eu sabia. Fiquei impressionada e, confesso, assustada, ao descobrir que, apesar do amor gigantesco que sinto por esse homem, quão pouco verdadeiramente o conheço. Nos detalhes. Nos pequenos gostos. Naquilo que faz a diferença.”

Bem, de minha parte, confesso que não me recordo mais do final do discurso. Não tinha como. Depois dessa frase minha cabeça entrou numa espiral, reconhecendo a força e a importância dessas palavras, ao mesmo tempo que buscava saber o quanto verdadeiramente conheço quem amo.

E é impressionante a verdade disso tudo. Vivemos com nossas pessoas amadas por anos e anos a fio. Somos criados, criamos, compartilhamos, convivemos. E tão pouco sabemos sobre elas…

Pois, nesse caso, a riqueza – a verdadeira riqueza – está nos detalhes. Nas pequeninas coisas, às vezes do dia a dia, às quais conseguimos ter a delicadeza de perceber. O tipo de roupa que gosta de usar, os autores que gosta de ler, se suave o perfume, se delicada a jóia, se salto ou saltinho, se tinto ou branco, seco ou suave, margarina ou manteiga – até o quanto de leite vai no café. Podemos não perceber e mesmo automatizar um ou outro destes gestos. Mas, ainda assim, continuam tendo seu significado, demonstrando o quanto verdadeiramente conhecemos, respeitamos e queremos simplesmente agradar. De graça. Do nada. Porque amamos. Porque sabemos que faz a diferença.

Então, primeiramente tenho que agradecer sinceramente ao Doutor Fábio. Pois foi por participar dessa reunião de amor fraternal e familiar que tive a possibilidade e a honra de conhecer as palavras de tão profunda sabedoria daquela que é prima há mais de setenta anos. O aniversariante foi ele, mas o presenteado fui eu.

E, no mais, deixo uma pergunta para todo incauto leitor que por aqui passar: quão verdadeiramente você conhece a pessoa que ama?

Pense nisso.

Pense nos detalhes.

Busque, dentro do seu íntimo, a solução.

E, como muitos, perceba suas respostas mudarem.

Ao menos até que consiga enxergar o que verdadeiramente faz a diferença…


11 mar 2013 - 8:09  

A casa

Rubem Braga

Outro dia eu estava folheando uma revista de arquitetura. Como são bonitas essas casas modernas; o risco é ousado às vezes lindo, as salas são claras, parecem jardins com teto, o arquiteto faz escultura em cimento armado e a gente vive dentro da escultura e da paisagem.

Um amigo meu quis reformar seu apartamento e chamou um arquiteto novo.

O rapaz disse: “vamos tirar essa parede e também aquela; você ficará com uma sala ampla e cheia de luz. Esta porta podemos arrancar; para que porta aqui? Esta outra parede vamos substituir por vidro; a casa ficará mais clara e mais alegre.” E meu amigo tinha um ar feliz.

Eu estava bebendo a um canto, e fiquei em silêncio. Pensei nas casinhas que vira na revista e na reforma que meu amigo ia fazer em seu velho apartamento. E cheguei à conclusão de que estou velho mesmo.

Porque a casa que eu não tenho, eu a quero cercada de muros altos, e quero as paredes bem grossas e quero muitas paredes, e dentro da casa muitas portas com trincos e trancas; e um quarto bem escuro para esconder meus segredos e outro para esconder minha solidão.

Pode haver uma janela alta de onde eu veja o céu e o mar, mas deve haver um canto bem sossegado onde eu possa ficar sozinho, quieto, pensando minhas coisas, um canto sossegado onde um dia eu possa morrer.

A mocidade pode viver nessas alegres barracadas de cimento, nós precisamos de sólidas fortalezas; a casa deve ser antes de tudo o asilo inviolável do cidadão triste; onde ele possa bradar, sem medo nem vergonha, o nome de sua amada (…) – certo de que ninguém ouvirá; casa é o lugar de andar nu de corpo e de alma, e sítio para falar sozinho.

Onde eu, que não sei desenhar, possa levar dias tentando traçar na parede o perfil da minha amada, sem que ninguém veja e sorria; onde eu, que não sei fazer versos, possa improvisar canções em alta voz para o meu amor; onde eu, que não tenho crença, possa rezar a divindades ocultas, que são apenas minhas.

Casa deve ser a preparação para o segredo maior do túmulo.


27 jan 2013 - 12:52  

O banquete da tecnologia

( Matéria publicada no jornal O Vale, de 27/01/2013 )

Ticiana Schvarcz

Imagine um banquete repleto de pães, massas e das mais variadas bebidas. Se você comer tudo provavelmente passará mal, por isso, é preciso escolher o que de melhor tem ali antes de sair ingerindo tudo que aparece.

Foi essa analogia que o comunicólogo e professor de jornalismo da Universidade de Taubaté, professor mestre Robson Bastos, usou para explicar a forma com que a informação é difundida atualmente. Vivemos em uma sociedade com excesso de notícias, como no banquete. Se armazenarmos toda a nova informação que recebermos, nada será digerido. Mas nem sempre foi assim.

Os livros surgiram há milênios, mas na Idade Média eles já possuíam formato parecido com o que temos hoje. No entanto, a população não sabia e, mesmo que soubesse, era proibida de ler. Só homens do alto clero ou do topo da pirâmide hierárquica podiam.

Há registros de que monges morreram pelo simples fato de manusear livros. A explicação é a seguinte: para produzir a tinta vermelha e brilhante utilizada em algumas páginas, era adicionado mercúrio, um componente muito tóxico que, ao entrar em contato com o organismo, causava a morte.

Foi o alemão J. Gutenberg que causou a primeira revolução da informação. Ao criar a prensa em 1839, equipamento que permitia a reprodução em massa de material impresso, iniciou um processo lento de popularização da informação, oferecendo ferramentas para que fossem criados livros em grande quantidade e os primeiros jornais impressos.

Ainda assim, segundo Robson, o conhecimento não chegava a todos. “Existia carência de informação. Mesmo depois da criação de Gutenbert os livros eram raros e caros”.

Foi apenas no século 20 que o consumo e a produção de livros aumentou progressivamente. E quem viveu na década de 1980 vai se lembrar.

As pesquisas solicitadas na escola eram sinônimo de passar o dia na biblioteca revirando livros de história e Barsas, cheias de pó, que coçavam o nariz. Uma sensação que a nova geração não terá o prazer de conhecer.

Foi em 1990 que a segunda revolução começou a acontecer. O computador já havia se tornado o produto de desejo da população, as Barsas começaram a entrar em extinção porque já era possível comprar um CD-ROM onde todas as informações que ocupavam espaço na biblioteca poderiam ser facilmente encontradas. A internet começou a cair no gosto popular e os sites de busca surgiram. Se perguntar a alguém dessa década o que era o “Cadê?”, sem dúvida essa pessoa vai dizer: “era o Google da minha época”.

Mas o Google Search, site de pesquisa mais acessado do mundo, só seria fundado em 1998. Hoje, de A de “amor” a Z de “zebra”, é só digitar a palavra no www.google.com que o mundo perde as fronteiras e qualquer coisa – relevante ou não – que tenha sido escrita sobre o assunto é apresentada no computador.

“Enquanto antigamente faltava informação, hoje o problema é o contrário, temos um excesso dela. Houve uma perda da credibilidade. Nunca o homem teve tanta informação e esteve tão mal informado”, afirma Robson, que lembra que nem tudo que é postado na internet é verdadeiro. Um exemplo são as informações difundidas nas redes sociais. A maioria das pessoas não verifica a veracidade do conteúdo ao compartilhar.

Portanto, de acordo com o professor, a situação atingiu um novo patamar.

“A nova geração já é chamada de ‘nativos digitais’, pessoas que já nasceram online. Nós, que tivemos que aprender e nos adaptar a essa realidade, somos chamados de ‘imigrantes digitais’. Ou seja, nós nos esforçamos, mas nunca saberemos tanto quanto um nativo, somos estrangeiros em um outro país.”

Sentir saudades de folhear um livro e de buscar no índice de uma enciclopédia o que pretende estudar é permitido, mas voltar no tempo não é uma opção. Para o comunicólogo, o futuro exigirá um acordo entre as gerações em que caberá aos nativos ensinar aos imigrantes a lidar com as novas tecnologias e aos imigrantes ensinar aos nativos a ter critérios para qualificar a informação.

Somente dessa forma será possível evitar a indigestão que esse banquete tecnológico pode causar.


27 jan 2013 - 4:23  

Perdidos pelo caminho

A última semana foi um tanto corrida, não parei em casa um dia sequer! Estava na companhia dos meus queridos avós resolvendo uns assuntos e num desses dias fomos a uma clínica. Lá, diante de tantas pessoas, comecei a pensar sobre as estradas da vida (sim, questionamentos filosóficos em uma sala de espera – a pessoa aqui não é muito normal). Nossas escolhas e “não escolhas”.

- Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde queres ir – respondeu o gato.
- Preocupa-me pouco aonde ir – disse Alice.
- Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas – replicou o gato.

Esse é um dos meus trechos favoritos da obra de Carroll. Alice estava perdida e tudo o que queria era sair daquele lugar estranho. Ela apenas queria ir embora dali, não importa para onde fosse – qualquer coisa era melhor do que aquele lugar. Quantas vezes não nos sentimos como Alice? Perdidos pelo caminho…

A vida corre, a vida segue. Não importa se estamos atarefados entre as pilhas de papéis na empresa ou se estamos de pernas para o ar na praia.

Algumas coisas estão tão profundamente marcadas em nossa alma, que tentar apagá-las seria o mesmo que tentar arrancar um pedaço de nós. O tempo cura tudo – é o que dizem – e talvez cure mesmo. Mas acredito que “cura” não seria o termo adequado. Quando o nosso coração está partido é através do tempo que encontraremos uma solução. Não esqueceremos “aquele momento”, afinal, ele faz parte do que somos! Maturidade não vem necessariamente a cada aniversário; ela vem a cada experiência – seja boa ou ruim.

Conforme o tempo atravessa nossa face, as experiências vão se tornando cada vez mais desafiadoras, e isso nos torna mais “nós” – mais fortes, juntamente com a consciência da fragilidade. Aprendemos a perseguir os nossos sonhos, mesmo que todos à volta nos digam que não vale a pena. Aprendemos que às vezes, perder significa ganhar; e que o amanhã reserva um presente maravilhoso para aqueles que acreditam. Aprendemos a amar, a perdoar, a arriscar, a nos doar. Aprendemos a nos tornar mais humanos, e é exatamente aí que habita o segredo da grandeza – na simplicidade do ser.

Voltando para a solução, certamente não é esquecer. Não gosto muito da palavra que vou usar, mas creio que a solução seria aceitar. Isso mesmo, “a-cei-tar”. Pegar toda essa dor que estamos sentindo e vivê-la de maneira adequada – chorar, gritar, relembrar e então guardá-la numa caixinha. Com o tempo ela irá diminuir e acredite, é possível sobreviver! Depois de toda grande tempestade, por mais terrível que pareça, o sol – sempre o sol – volta a brilhar no céu. Ele vai nos iluminar, nos aquecer e embelezar o nosso dia. E quando no futuro os fios alvos fizerem morada entre nossos cabelos iremos relembrar de tudo com um sorriso nos lábios.

A foto que escolhi para essa crônica traz a seguinte mensagem: “Not all those who wander are lost” (Nem todos que andam por aí estão perdidos). Por mais que as adversidades façam com que nos sintamos perdidos, se escolhermos continuar a caminhar, mesmo que não saibamos exatamente para onde, estaremos no caminho certo. Se você conhece a história de Alice, sabe muito bem que isso é verdade.

Sté Spengler


15 dez 2012 - 23:38  

Casórios modernos

(Aviso aos Navegantes: os gnomos revisores/censores que vivem nas entranhas deste blog classificaram este post como altamente herege e sarcástico. Se você for do tipo que fica indignado com coisas desse tipo, então pare agora e aguarde algum próximo texto não tão carregado. Pode voltar à sua leitura de Pollyana Moça, aos seus afazeres normais ou seja lá o que for que pessoas como você costumam fazer. Não diga que não avisei.)

Resolveu continuar, hein? Além de herege, curioso…

Pois bem. Disaôje (como dizia minha Bisa) fomos a um casamento. A filha mais velha de um antigo amigo de uma outra vida. Literalmente, a vi nascer – o que comprova que eu estou mais pra curva de pra lá de Marrakesh, mas não ainda do Cabo da Boa Esperança.

Bem, enfim. Fomos ao casamento. Lugarzinho longe mas bem agradável: um clube, no campo, com muita mata, muito verde, muita estrada, muita chuva, etc. A noiva atrasou somente uma hora, o que está dentro dos padrões internacionais aceitos pela ABNT e homologado pela ONU para eventos de igual porte e estilo. Chegou, com a habitual pompa e circunstância (sempre adorei esse termo) que lhe é peculiar, foi adentrando o recinto, toda sorridente, até engatar no braço do noivo de uma maneira tal que, estou certo, nunca mais deve largar.

Até aí estava tudo indo muito bem.

Então ouvimos uma voz chamando a atenção de toda a congregação. Ou melhor, dos convidados. De imediato a Dona Patroa ressaltou que o pastor tinha uma voz muito feminina. “Será que talvez não seja porque ele é uma mulher?” Perguntei-lhe. Ela foi obrigada a concordar comigo. E olha que já é a segunda vez neste semestre! É sempre bom pro ego quando a gente usualmente tem razão…

Bem, os noivos posicionados, eis que ela começa a preleção. E de uma maneira inusitada! Agradeceu a presença de todos e ressaltou que ainda estava faltando alguém muito importante. Seriam os avós de algum deles, perguntei para mim mesmo. Mas não. Ela continuou: “Convido a adentrar este recinto aquele que está faltando nesta reunião, alguém muito importante e que não poderia faltar! Convido ao Todo Poderoso para que entre por este corredor, por este tapete, e venha nos abençoar a todos! Vamos, Senhor, pode vir! Venha, Senhor!” Automaticamente todos olharam pra trás, pelo tapete, pelo corredor, pela porta afora. Juro que quase fui. Já me imaginei ali, entrando, a passos largos, um falso sorriso constrangido, acenando para todos, piscadelas para as moçoilas, o escambau. Mas algo me disse que era melhor me conter. Talvez o olhar de fúria da Dona Patroa quando me propus a isso. E, assim, me contive.

Dali em diante ela passou a hora seguinte (eu disse “hora”? pareceu bem mais…) pregando, na minha opinião, toda e qualquer idéia relacionada a casamento que lhe viesse na cabeça. Nem pouco, nem menos. Professores de cursos de oratória de todo esse lado do estado devem ter passado mal com a energia emanada da tamanha falta de coesão, métrica e foco demonstrada em tão pouco tempo (eu disse “pouco”?).

Aliás, ela não estava sozinha, não! O gentil cavalheiro que pairava ao lado da distinta também era pastor! E ela, já nas primeiras palavras, ressaltou que estava ali presente juntamente com o pastor sei-lá-o-nome-do-caboclo. Ainda que ele não abrisse a boca um momento sequer. “Deve ser alguma espécie de pastor-estagiário”, pensei comigo mesmo.

Como se já não bastasse, após tudo isso, ela ainda me soltou a seguinte frase: “Tô percebendo, pela carinha de vocês, que já deve estar na hora de trocar as alianças!” Putz, eu também já estava percebendo! Juro! Eu e as demais 1.469 pessoas do salão. Mas esse ainda não foi o ponto. O ponto foi quando da surreal sequência:

- Vamos lá, então, gente, vamos ver o que ele responde! E daí, o que você responde?

- Siiiiiiiiiiimmm! (Brincadeira, não foi assim não, foi muito mais sério que isso. O que não altera em nada o desfecho.)

- Ele disse sim! ELE DISSE SIM! Gente, ai que chique!

“Ai que chique”? Em quantos missais vocês já ouviram isso, hein? Não contente, logo na sequência, quando da noiva, ela me soltou:

- Ah! Ela TAMBÉM disse sim! Gente, ai que ma-ra-vi-lha!

É sério. Olhei para os lados para dar uma conferida onde a gente estava. Em qual centro fomos parar. Não, somente a noiva estava de branco, então não podia ser algum outro onde a Hebe tivesse baixado ali e reencarnado para dar o ar de sua graça, presença e pieguice. Aquilo era DELA mesmo… Mas ainda teríamos mais! Logo após os votos dos noivos um para o outro – coisa bonita, que nem aqueles dos filmes (por mais curtos que tenham sidos) – ela deu uns dois passos para trás, quase caiu, olhou para os nubentes e com aquele sorriso puro e franco de um filme de terror, soltou mais essa, no melhor estilo Sazón:

- Ai, gente, olha como o amor é lindo!

Ok, sei que eu estava com o meu sarcasmo em mode on e carregado com a bateria até no talo, mas foi complicado estar ali, viu, gente? As sequências seguintes foram acompanhadas externamente por meu semblante sereno e dedicado a uma cerimônia do porte, mas internamente eu, irônico que sou, só aguardava a próxima tirada para soltar das minhas – ainda que somente em pensamento. Me sentia fazendo escárnio num programa de auditório. Cruel, eu sei, mas este sou eu, que fazer? Vamos lá:

“Agora vamos consagrar as alianças, mergulhando-as no no azeite.” Por quê? Senão não entra? Tudo bem que os noivos parecem estar meio gordinhos, mas não me parece que seja pra tanto…

“Olha, gente, como ela está tremendo de emoção!” Emoção? Com aqueles ombros de fora, o vento que está fazendo e a chuva que está caindo? Ela está é com frio, caramba!

“E vocês deverão lembrar que o homem é a cabeça do casal.” Hah! Piada pronta! Não conhecem? Então tá. De fato o homem é a cabeça do casal; mas a mulher é o pescoço: vira a cabeça pra onde quiser!

Bem, foram tantas tiradas que acho que não vai dar pra lembrar de todas. Dentre outras, vamos combinar que não é lá muito comum alguém, ainda que seja uma pastora em suas orações, referir-se ao Senhor ora pelo respeitoso termo “Deus Altíssimo Onipotente”, ora pelo intimista e quase infantil “Papai”. Ao menos não numa cerimônia de casamento…

Mas ainda teríamos a homenagem final. Uma dançarina. Não, cambada de hereges! Não ESSE tipo de dançarina! Não tinha nenhum dos costumeiros sete véus nela. Se bem que, dada a performance e a silhueta, talvez tenha sido até bom… Mas o que de fato aconteceu é que uma moçoila, vestida com o que eu achei ser uma espécie de túnica, desenvolveu toda uma performance ao som da mais apurada e decibelística música gospel que o momento pedia. Pedia? Bem, manjam aquelas pessoas que dançam “interpretando” a música? Então. Dava até para ver os lábios se movendo em conjunto… Ainda bem que Jennifer Beals (aquela, do filme Flashdance) não estava por ali pra ver aquilo…

Bem, finalmente fomos para as orações finais. E, é lógico, desta vez em conjunto com a platéia a congregação os convidados.

“Quem é a noiva de Jesus?” Nessa hora fui sumariamente aquietado com um bom chute na canela e não tive oportunidade de tecer nenhum comentário sobre Madalena, enquanto que os demais respondiam “é a Igreja!”

“Agora vamos pedir a Deus que nos dê direção!” Mais piada pronta, ao menos na minha cabeça. Não teve como não lembrar de uma tirinha do Laerte – esta aqui.

“E agora o beijo! O pessoal tá esperando o beijinho de vocês! Vamos lá! Não, não valeu! De novo! Ainda não valeu! De novo! Não vale-eu! De novo! Ai, geeeeente, que liiiiindo!!!”

Agora acho que já sei o porquê de o buffet não ter deixado talheres nas mesas. Facas, pulsos, pensamentos suicidas… Com tudo isso já deu pra imaginar, né?

Mas enfim, após os cumprimentos à noiva – que sim, estava linda – e ao noivo – que estava muito bem apessoado (jamais me ouvirão chamar um ser masculino de “lindo”) – o ponto alto de tudo isso ainda estava por vir e eu não tinha sequer me tocado.

Bem, não foi difícil para vocês perceberem que estávamos num casamento evangélico, certo?

AH – HA! Exatamente!

Isso mesmo.

Absolutamente nem uma gota de álcool!

De novo.


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