Conto urbano
terça-feira, 17 de agosto de 2010, às 10:00Esse “causo” aconteceu mesmo.
Isso se deu aproximadamente em agosto de 2000. Curiosamente encontrei-o hoje, exatos dez anos depois, nas catacumbas de meu computador, enquanto procurava outros textos antigos…
Será que ainda reflete nossa realidade?
Será que o mundo lá fora mudou?
Ou não?
Concluam por si mesmos…
Após a mais prosaica das atividades – compras de supermercado – estava eu dirigindo por uma larga e iluminada avenida rumo à casa, ouvindo uma música antiga no rádio que me levou a um ligeiro devaneio acerca da solidão do ser humano, quando um determinado movimento me chamou a atenção. Duas motos, uma mais potente e outra menor, estavam paradas, à minha direita. O condutor da de trás – uma “lambretinha” – deu um empurrão no rapaz que estava parado a seu lado, com um capacete na mão, e saíram em disparada.
Num desses arroubos em que a gente age primeiro e pensa depois, virei na primeira esquina, voltei, e parei numa rua próxima. Lá vinha o rapaz que havia caído, pálido, olhar triste, e capacete na mão.
- Está tudo bem?
- Tudo bem, fora a moto só levaram dinheiro e documentos.
- Eu vi mesmo que havia algo errado quando aquele rapaz te deu um empurrão e te deixou para trás, segurando o capacete. Que moto era?
- Uma Bis. O cara tinha uma arma, não teve jeito. Foram por ali…
- Opa, espere um pouco, eu não sou herói não. Só vim ver o que é que estava acontecendo. Vamos deixar esse trabalho a quem compete.
Ato contínuo, com o celular na mão, disquei 190. Chama, chama – será que liguei o número certo? – chama, chama – polícia é 190, mesmo não é? – chama, chama – acho que é feriado hoje e não estou sabendo… – chama, chama… desisto.
- Pois é rapaz, parece que está meio difícil. Você mora longe? Não? Vamos, eu te levo.
Deixei o jovem perto de sua casa, não sem antes dar uma verificada se havia alguma viatura próxima a um evento que estava tendo pelo caminho, com trânsito impedido, e tudo mais. Humpf. Somente o pessoal do trânsito (vulgos “marronzinhos”). Estes não resolveriam nada, a não ser que os assaltantes estivessem estacionados em local proibido.
Enquanto descarregava as compras, lamentei pela má sorte do rapaz. Provavelmente os assaltantes, em sua moto mais potente, ficaram lado a lado e apontaram a arma. Como diz o ditado, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Comeu. Depois disso, pelo sim, pelo não, chequei novamente os cadeados do portão, e se as portas da cozinha e da sala estavam bem fechadas.
Essa pequena história – que aconteceu mesmo, na última quinta-feira, não é apenas mais um conto do Pantaleão – corresponde a uma pequena faceta de nossa sociedade atual, faceta essa que podemos decompor nas mais variadas conclusões.
Uma delas diz respeito à inevitável conclusão de que, cada vez mais, estamos ficando aprisionados, levantando muros e reforçando grades, atrás das quais ficamos trancafiados, enquanto que as “feras” de nossa selva dominam as ruas, soltas, imbatíveis, impuníveis…
Já noutro aspecto desse prisma distorcido temos a patética constatação de que, quando ousamos colocar os pés fora de nossos “bunkers”, estamos entregues à própria sorte, sem poder contar com policiamento que nos proteja ou, ainda, que nos socorra mesmo após passado o perigo.
Por fim, mas não por último, quando esse jovem desconhecido, juntamente com seu capacete – que é o que lhe sobrou – fizer seu boletim de ocorrência (se é que já não saiu com parentes e amigos para uma perigosa caçada), passará a fazer parte das estatísticas policiais, políticas, administrativas e governamentais, onde vivem constatando o aumento da criminalidade, do índice de furtos, roubos e assaltos, ou outra coisa óbvia qualquer, e, certamente, concluirão que é necessário investir mais em viaturas (que não chegam), em aparelhos (que não funcionam), em armamento (retrógrado), ou coisa que o valha.
Portanto, parabéns rapaz, onde quer que você esteja!
A partir de agora, de mero jovem desconhecido, você conquistou seus 15 minutos de fama – provavelmente menos – e fez jus ao direito de integrar as grossas fileiras das estatísticas brasileiras.
E de capacete na mão.![]()






Tentei encontrar um cartaz de Kandinsky sobre o exército vermelho. Na obra, o pintor mostra uma cunha vermelha que penetra numa superfície branca (o exército branco combatido pelas forças revolucionárias). Poucas palavras. Algo assim: o vermelho derrota o branco. Nada mais. Bem diferente de certos cartazes nos quais os comunicadores querem colocar “todas” as informações. Excesso em cartazes acaba não chamando atenção das pessoas. Acaba nada comunicando. Como não encontrei o cartaz de Kandinsky, coloco aqui um outro exemplo mais recente: cartaz que mostra a força dos aliados no combate ao nazismo (nota: a imagem à qual o Jarbas se refere é aquela lá de cima, tirada 
