Ah, não!

E então eis que as duas amigas resolveram sair para tomar uns drinques. Ambas mulheres experientes, vividas, mesmo que não tivessem o assim chamado “frescor da juventude”, ainda contavam com uma nítida sexualidade e um charme todo próprio adquirido com o passar das estações…

Uma casada, a outra não.

E estavam elas instaladas numa confortável mesinha na calçada, naquele conversê de barzinho, bebericando seus drinques, falando de atualidades, do passado, do futuro, dos outros e – claro! – de homens.

Então, não mais que de repente, aparece aquela picape gigante, lentamente se movendo do outro lado da larga avenida, aguardando a liberação de uma vaga enquanto um outro sujeito desajeitadamente manobrava seu carro para ir embora. Não era possível ver com nitidez seu motorista, nem se estava com alguém, mas mesmo daquela distância era visível o bem delineado contorno de sua cabeça, o queixo proeminente bem como o nariz afilado. Enquanto espera ele dá uma olhadinha em direção a elas e discretamente sorri.

— Ai, amiga! Olha só! Aquele sujeito chegando ali, ele tá me paquerando!

— Hm? – perguntou a outra, lentamente levantando os olhos e perscrutando ao redor enquanto ruidosamente sorvia o final de sua caipirinha pelo canudinho.

— Ali, ó, naquela camionete estacionando…

— Ih, amiga, cuidado, hein? Normalmente gente que tem carrão grande assim é tudo baixinho.

— Credo, para de ser assim! Você tá aí, tranquilinha, bem casadinha e eu não. Se chega um sujeito bonitão querendo dar em cima de mim, deixa ele!

— Não é isso, minha linda! Olha pra você. Você tem bem mais de um metro e setenta – e só de pernas!

— Exagerada!

— Tô te falando. Você é alta, amiga, muito mais que a maioria. Sei que é difícil surgir um cara que combine com você, mas escreve o que eu tô dizendo: carro grande só vem com baixinho. Com certeza é um anão!

— Pelamordedeus, menina! Para! Deixa eu. Até porque ele já deu mais umas olhadinhas pra mim…

— Tá bom, tá bom. Mas nem deu pra ver se ele está com alguém. E se estiver? E se for um safado?

— Bom, daí azar dele, pois não vai poder usufruir da mamãe aqui! – disse enquanto descia as mãos pelo corpo, ressaltando as próprias curvas.

— Ai, você não presta mesmo! Mas ainda acho que o cara deve ser um baixinho, um anão. Você vai ver só.

Nisso finalmente o sujeito acabou de estacionar. Fechou o vidro semiaberto, entreabriu a porta ao mesmo tempo que virou-se de lado, parecendo que estava se debruçando sobre alguém.

— Ih, amiga, já vi tudo! Pode ir tirando esse sorrisinho besta do rosto que ele deve estar com alguém. De qualquer jeito sua noitada acaba aqui, pois pela maneira que deve estar desafivelando o cinto, o anão também está com uma criança.

— Além de despeitada, bocuda, hein? E daí que ele tenha uma criança com ele? Vai que dá certo, a gente se conhece e marca alguma coisa para um outro dia?

— Mas você não perde a esperança, né? Então deixa o baixinho vir, que agora até eu quero ver no que é que isso vai dar.

— Ai, para!

E então, pela porta, de fato desceu uma criança. Assim, de costas meio que escorregando pelo banco alto daquela picape mais alta ainda, até que seus pezinhos titubeantes tocaram o chão. E com um estrondo a porta se fechou.

— Nossa, será que ele vai deixar aquele menino ali na rua, assim sozinho?…

E então o garotinho se virou e sorriu.

Ativou o alarme enquanto começava a atravessar a rua com seus passinhos lépidos e gingados.

Era um anão.

Mussarelices

– Boa noite. Quero pedir uma pizza.

– Pois não, qual o sabor?

– Meia dois queijos e meia calabresa. Aqui diz que a calabresa vem com mussarela. Eu quero sem mussarela e com bastante cebola.

– Qual pizza o senhor quer?

– Meia Calabresa sem mussarela e meia dois queijos.

– O senhor não quer que coloque mussarela na calabresa?

– Por favor, não.

– Aqui colocamos mussarela, senhor.

– Vocês não podem tirar?

– Podemos sim, senhor. É que normalmente não fazemos isso.

– Minha querida, calabresa com mussarela se chama Sorrento. Pizza de Calabresa não vai mussarela.

– Sim senhor. Então o senhor não quer mussarela na calabresa?

– Não, querida, sem mussarela.

– E na dois queijos, vai querer a mussarela?

– Aqui no cardápio diz que a dois queijos de vocês é com provolone e catupiry.

– Ah. Mas como o senhor não quer mussarela na calabresa, pensei que queria na dois queijos.

– Ok, faz sentido, mas não, minha filha. Hoje não é um bom dia para mussarela, ok? Sem mussarela.

– Então sem mussarela na dois queijos, senhor?

– Isso! Sem mussarela na dois queijos e sem mussarela na calabresa! Entendeu?

– Sim senhor. O senhor então quer duas pizzas, uma meia calabresa sem mussarela e dois queijos e outra só de mussarela?

– …

– Senhor?

– Vamos lá… Eu quero UMA!!! UMA PIZZA METADE DOIS QUEIJOS E METADE CALABRESA SEM MUSSARELA!!!

– Ok, senhor. E a mussarela então não vai?

– Como?

– A pizza de mussarela, senhor.

– Sem mussarela, entendeu? Sem mussarela! Minha nossa!

– É que entendi o senhor dizer que não quer uma segunda pizza de mussarela.

– Vou repetir: quero uma pizza metade calabresa sem mussarela com bastante cebola. E outra dois queijos conforme está no cardápio.

– Entendi, senhor. Quarenta minutinhos.

– Tudo isso?

– É que estamos sem mussarela e vamos pegar na nossa outra unidade, senhor.

– Não. Peraí. Você tá me zoando?

– Não senhor, eu jamais faria isso.

– Eu pedi uma pizza dois queijos, catupiry e provolone e a outra metade calabresa SEM MUSSARELA!

– Eu entendi, senhor.

– Obrigado. Vou aguardar.

……………

Quarenta minutos depois a pizza chega. Abro a caixa. Era uma pizza de atum com mussarela.

Nota: Desconheço a autoria deste texto – mas adorei!!! 😀

Grogueadas oníricas

Situação recorrente que costuma acontecer comigo e a Dona Patroa é a de nos perdermos nos shoppings da vida. Isso porque eu só costumo entrar num shopping para comprar o que quero e já sair, enquanto que ela faz questão de entrar em cada uma das 1.469 lojinhas de promoções de dérreal que existirem por lá…

Pois bem.

Eis que hoje eu SONHEI que havíamos nos desencontrado num shopping. Procura daqui, procura dali, pergunta pra um, pergunta pra outro e nada.

Então decidi que já era hora de pegar meu celular e ligar para descobrir onde ela estava.

Ainda meio grogue, LEVANTEI DA CAMA, procurei meu celular pela casa e então liguei pra ela.

– Oi, amor! Onde é que você está? Já te procurei por tudo quanto é lugar!

E ela, também meio grogue, LEVANTOU DA CAMA e com o celular na mão veio até onde eu estava e me respondeu:

– Que é que você quer, seu louco?

Só então me caiu a ficha.

Só então eu percebi o que estava fazendo, o que já tinha feito e o quanto eu estou ferrado, pois ela vai fazer questão de me lembrar disso e tirar um sarro da minha cara – no mínimo – pela semana inteira!

Sósifôdo…

A Terra é plana!

Sim, é isso mesmo. A Terra é plana.

Isso é de uma obviedade que não tem tamanho, pois não importa se todos os demais planetas de nosso sistema solar (e do restante do Universo conhecido) possuem formato esférico, nem se a própria Lua vista a olho nu é nitidamente redonda e muito menos o formato da sombra que é projetada nos eclipses lunares – é incontestável que o Planeta Terra é uma gigantesca panqueca que viaja pelo espaço.

Aliás, perdoem-me pelo ato falho: é lógico que nosso planeta não viaja pelo espaço. Desde a Grécia Antiga já era sabido, pela Teoria do Geocentrismo, que o Planeta Terra permanece fixo no centro do Universo, com todos os demais corpos celestiais – inclusive o Sol – girando ao seu redor.

E é por isso mesmo que se faz necessário acabar com esse falso pensamento ideológico de que haveria necessidade de um “Horário de Verão” – uma mentira criada pelas classes outrora dominantes tão somente para tentar comprovar essa visão distorcida de que a Terra seria redonda e giraria em torno do Sol, com supostos solstícios de Inverno e de Verão. Eu nunca vi! Nunquinha! Então está claro que não existe absurdo maior!

Ah, mas existe sim. Eu falo dessa conspiração que já existe há décadas e que foi perfidamente elaborada pela NASA – a agência espacial do Governo Norte Americano – a qual, desde que pôs as mãos nos meios de comunicação em massa, vive de espalhar mentiras e de ditar regras para a indústria mundial de satélites. Não existe a mínima possibilidade de um ser humano já ter ido à Lua, pois é muito, muito longe! Ainda mais se fosse para contar com aquela tecnologia ultrapassada da década de sessenta. E não importa que mesmo outros países  hoje em dia lancem satélites no espaço, pois eles são obrigados a perpetrar as mentiras da NASA, tendo sido inventado um conceito delirante de “satélite em órbita geoestacionária” para dar a falsa impressão de que esses equipamentos girariam em torno do planeta acompanhando sua rotação – o que evidentemente é uma mentira! Uma vez que a Terra é plana e é o Centro do Universo, não existe esse negócio de “rotação”. O que eles fazem é jogar seus satélites para cima e eles ficam lá, parados, no vácuo do espaço. Simples assim.

Isso se torna tão evidente, ainda mais na medida em que o próprio Criador nos colocou nessa posição, pois somos a única forma de vida que existe no Universo e qualquer outra alegação diferente dessa deve ser guardada para os livros e filmes de ficção científica. Fomos criados à sua imagem e semelhança e foi através de Adão e Eva que tiveram origem todos os povos e etnias que povoam o mundo inteiro. E isso pode ser facilmente comprovado por qualquer pessoa que quiser, basta consultar a Bíblia – tá lá, bem no comecinho, eu mesmo já li! Essa coisa de “Teoria Evolucionista” é claramente uma obra de fariseus sofistas e comunistas, que ficam criando questões casuísticas para ocultar a verdade.

Basta lembrar uma outra passagem que tá lá na Bíblia (e essa eu não só li, como também assisti a um filme que comprova que foi verdade): a Arca de Noé. Os céticos até hoje teimam em negar essa história, usando das mais absurdas alegações. Ora, é lógico que com a ajuda do Senhor seria muito fácil para que os escolhidos, no caso a família de Noé, juntasse um casal de cada uma das bilhões de espécies de animais que ocupam todo o planeta em toda sua extensão e os conduzisse para aquela gigantesca pokebola de madeira que foi construída por apenas um homem e seus três filhos, inclusive com espaço para armazenar a comida que serviria de alimento a todos por quarenta dias! Vejam só que prodígio! Pessoas de visão curta, não compreendem que coube a essa família gerar uma descendência suficiente para repovoar todo o Planeta Terra, dando origem novamente a todos os povos e etnias que hoje existem – até porque, como todo mundo sabe, com prima não é pecado.

E é justamente por conta disso, dessa superpopulação que foi gerada e hoje existe ao redor de todo o planeta, quer dizer, sobre todo o planeta (pois a Terra é plana), que é indispensável que os militares estejam no poder. Isso porque uma guerrazinha de vez em quando serve justamente para ajustar a quantidade de gente existente. Basta ver o exemplo da Alemanha no século passado, povoada por aqueles nazifascistas de esquerda e que, apesar de tudo, ajudaram a efetuar esse necessário controle histórico populacional.

Um exemplo que, inclusive, foi seguido no Brasil, quando do advento da Revolução Redentora de 1964, quando teve início um governo militar democrático (e nada dessa falácia de “Golpe” ou de “Ditadura”) que contou com o apoio de toda a população, sem exceção – menos dos comunistas que queriam levar o país à bancarrota, através de suas falsas ideologias protecionistas, descendentes daqueles que foram derrotados pelo nazismo na Europa.

Mas… Esperem um pouco…

Se o nazismo é de esquerda – o que é óbvio, porque foi o que o Presidente disse – e eles lutavam contra o comunismo, então, por meio de um perfeito silogismo, isso significa que os comunistas eram de direita. Mas se os comunistas eram de direita, então isso quer dizer que o nosso governo militar era de esquerda? Mas e todos os partidos socialistas que foram criados depois? Seriam, então de direita? Não, péra, então tem que ver isso aí. Pois se for assim, esse próprio governo que está aí seria de…

Ôpa!

Estão batendo na porta. Acho que é um pessoal que vinha aqui para uma reunião. Gente que pensa como nós, a maioria correta da população. Vocês sabem, né? Volto assim que puder…

A Gargalhada de Sócrates

E eis que no último sábado, logo pela manhã, fui agraciado pelos serviços de entrega do Correio com a chegada do meu exemplar de A Gargalhada de Sócrates: como o maior filósofo do ocidente desvendou o intrigante caso do assassino em série ateniense, com a improvável ajuda de seu desafeto Aristófanes, de autoria de Nelson Moraes Alves.

Como sempre costumo fazer quando me chegam às mãos novos livros (não necessariamente livros novos), dei uma boa olhada na capa, li o conteúdo da contracapa, li atentamente ambas as orelhas do livro, fiquei feliz com o autógrafo, dei uma checada na dedicatória e… só. Mais tarde eu daria início à leitura, juntamente com os outros quatro ou doze livros que sempre estão me aguardando na cabeceira de minha cama.

Os prognósticos já eram bons, pois, da Internet, já conhecia o “jeitão” do Nelson escrever – desde os tempos do blog Ao Mirante, Nelson! (falarei disso mais adiante) e, mais recentemente, pelas redes sociais, com seus ferinos comentários ou pequenas e bem humoradas parábolas. Mesmo assim permanecia um certo “receio”, pois não se tratava de uma coletânea de seus escritos (como eu já havia feito com meu blog), mas sim de algo totalmente novo e desconhecido: um romance completo, com começo, meio e fim distribuídos por mais de 300 páginas! E esse meu sentimento somente se dá porque, para mim, existem basicamente dois tipos de livros: aqueles que você não consegue largar e aqueles que você não consegue voltar… E se ele fosse dessa segunda categoria? Bem, só mesmo lendo para saber.

Como os sábados sempre costumam ser um tanto quanto atribulados (aliás, não diferente dos demais dias úteis da semana), deixei para a noite de domingo para começar a me engraçar com o livro. Assisti alguns episódios de algumas séries junto com a Dona Patroa (dentre elas, a britânica Killing Eve – recomendo!) e lá pelas dez da noite, enquanto ela ainda assistia um filme que me causou mais sono que interesse, recolhi-me ao quarto, afofei os travesseiros, engatei a primeira e abri o livro.

E só o fechei às cinco horas da manhã!

Na última página.

Sem parar.

É bem como está lá no comentário de Janaína Jordão, na contracapa do livro: “Me diverti horrores. O livro prende do começo ao fim, é impecável. Não dei conta de largar. E do epílogo para frente fiquei lendo com um misto de curiosidade crescente e um medo de acabar logo”. Aconteceu o mesmo comigo, pois foi de uma só toada.

Os incautos podem até vir a se assustar um bocadinho num primeiro momento, pois o livro é composto quase que inteiramente de diálogos na segunda pessoa do singular (eu, tu, ele… lembram?) e com muitas palavras tanto complexas quanto “de época”, pois a estória se passa no século 4 a.C. – eu mesmo quase fui buscar um dicionário para deixar ali do ladinho. Mas é só uma primeira e equivocada impressão. Ao começar a entrar no fio da meada a gente acaba percebendo que mesmo aquelas palavras desconhecidas se encaixam perfeitamente no contexto das frases, sendo subliminarmente compreendidas e não atrapalhando em nada a dinâmica da leitura.

O que, aliás, me fez lembrar de uma antiga piada envolvendo estudantes de grego clássico, marinheiros e uma inusitada viagem à Grécia…

Mas deixemos isso para um outro momento.

Voltemos ao livro.

O Nelson conseguiu montar uma trama excelente e bem humorada, com diálogos totalmente permeados de trocadilhos e ironias. E, de quebra, podemos aprender e compreender o que era o método maiêutico utilizado por Sócrates, bem como a maneira pela qual funcionava a contemporânea Escola Sofística de pensamento. E não, não vou explicar. Se quiserem saber vão pesquisar – ou melhor, comprar o livro!

E se prestarmos um pouco mais de atenção a esses diálogos, veremos que também temos verdadeiras aulas sobre justiça, democracia e até mesmo sobre a forma e os limites do humor…

A base da estória (não se preocupem, sem spoilers) gira em torno de como Sócrates, aprisionado enquanto aguardava a execução da sentença que o condenou à morte, conseguiu, juntamente com Aristófanes, desvendar o caso do assassinatos que, um a um, estavam acontecendo em Atenas enquanto se desenrolava a trama. Trama essa muito bem construída para esconder a identidade do assassino até o último momento – se bem que, confesso, logo após o terceiro assassinato comecei a ter minhas desconfianças, as quais se confirmaram no final. Mas isso não é uma crítica e nem diminui a beleza da obra, pois talvez tenha se dado simplesmente porque já li muitos livros da Agatha Christie e todos do Sherlock Holmes, sendo que, neste caso em especial, me veio à mente Um Estudo em Vermelho.

Enfim, leiam. Leiam esse livro sem dó. Recomendo veementemente.

Mas ainda resta uma última pergunta: quem afinal de contas é esse tal de Nelson Moraes Alves?

Blogueiro das antigas, mas que há muito já aposentou seu blog Ao Mirante, Nelson!, tive que dar uma fuçada no Internet Archive para encontrar algumas de suas antigas referências… Parece que tudo começou por volta de outubro de 2002, no endereço www.aomirante.com, mais tarde tendo passado para o www.interney.net/blogs/aomirante, o que duraria até dezembro de 2009, quando foi para o www.aomirante.net e lá ficou até seus últimos posts, em dezembro de 2011. Ao menos é o que eu acho, mas posso estar errado…

Mas creio que quem possa melhor descrevê-lo seja o Idelber Avelar, conforme publicou lá em maio de 2009 no também finado blog Biscoito Fino e a Massa:

“Nelson Moraes talvez seja o único blogueiro brasileiro a ter inventado um gênero. O que você lê em Ao Mirante, Nelson! não é microconto, não é poema em prosa, não é fait divers. É um gênero próprio, burilado ali, algo para o qual ainda não há nome e que poderíamos chamar de post elevado à condição de arte.

No final de 2004, logo depois de abrir o Biscoito, ainda sem saber onde aterrizara, saturado de ler porcarias – ou uns poucos blogs bem escritos que, no entanto, não me diziam muito –, já meio rendido à tese de que tudo na blogosfera era ruim, eu cheguei a um post. Foi, ao mesmo tempo, lição de humildade e fonte de gargalhadas que insistiam em se repetir cada vez que eu revisitava o texto. Eu nunca havia visto aquilo: um diálogo de meia página que combinava uma erudição assombrosa com um domínio perfeito de todos os tiques da linguagem tecnológica daquele momento. Trata-se daquele que eu ainda considero o post mais perfeito já produzido em lusitana língua: Se os diálogos de Platão fossem pelo MSN. Se você nunca leu, siga o link e fique por lá. Volte aqui só no domingo.

A obra de Nelson Moraes – sim, de uma obra se trata – tem essa característica, a de agarrar um momento da tecnologia, da política ou do cotidiano, extrair-lhe a essência mais hilária e, ao mesmo tempo, confrontar-nos com o seu vazio. No caso da tecnologia, o mais recente exemplo é o emblemático Jornal x Blog x Twitter: a série, que diz mais que todas as nossas verborrágicas discussões sobre o futuro das mídias. Os próprios blogs são temas constantes, como nesta paródia aos comentaristas ou nesta sátira à republicação de posts. Não custa lembrar, Nelson é o responsável pela tese de que não existe ex-blogueiro.

Ninguém se lembra o que realmente foi roubado do MASP em 2007, mas para muitos de nós, aquele desimportante acontecimento jamais será esquecido. Foi, afinal de contas, quando Nelson escreveu Ladrões arrombam o MASP e se recusam a furtar inúmeras obras de arte. A criminalização da bebida para motoristas já vai caindo no olvido, como sói acontecer com as leis brasileiras, mas duvido que eu me esqueça de Lei seca ameaça piadas de bêbado. “Leem” e “voo” já me saem naturalmente sem acento (e eu não conheço tema de discussão mais chato que a Reforma Ortográfica). Mas muito depois que tenhamos nos esquecido que “heroi” “heroico”* um dia teve acento, lá estará um clássico: Após o acordo ortográfico, entra em vigor agora o acordo aritmético.

Nelson possui uma tremenda erudição literária, cinematográfica, musical e filosófica. No entanto, ao contrário de certo humor pseudoaristocrático que floresceu durante algum tempo em comarcas mais direitosas da blogosfera, a erudição de Nelson não exclui, mas inclui o leitor, mesmo aquele que não domine todo o intertexto do post. Eu, que possuo cultura cinematográfica tão vazia que nela não cabe mais nada, não deixei de gargalhar com Post Noir.

Uma vez vislumbrei uma antologia de posts de Nelson Moraes ilustrada por André Dahmer. Bem promovida, venderia mais que boa parte do catálogo de qualquer editora, mesmo que não se apagasse nada da internet. Talvez, algum dia, apareça um editor lúcido o suficiente para fazê-lo.

Vida longa e infinitas Bohemias para o Almirante.”

Por fim, uma última observaçãozinha pessoal… Desde sempre eu achava que, menos que o sujeito que derrotou Napoleão, o nome do blog dele era um trocadilho com o nome deste Almirante Nelson, da mesosóica série Viagem ao Fundo do Mar

Qual deles?

No início do ano de 1997 eu comecei a advogar de fato e fazia parte, juntamente com outros amigos, de uma sociedade de advogados aqui da cidade. Nesse início éramos em dez ao todo: cinco advogados recém formados, os “agregados” (eu entre eles), e cinco advogados já com larga experiência no mercado, os “sócios” (Luís Henrique e Luiz Arnaldo entre eles).

E a secretária.

Se não me engano, a primeira dentre várias que ainda viriam.

Mocinha simpática, moreninha, bem magrinha, bonitinha até!

Mas que até hoje não sei dizer se se possuía um senso de humor único, uma perspicácia além da conta ou se era, digamos, “limitadinha” mesmo…

E este causo aconteceu pouquinho tempo após a inauguração do escritório.

Ela lá, impávida na recepção, sempre com um sorrisinho estampado no rosto e que raramente se apagava. Chegou um sujeito, assim meio que com cara de perdido, encarou-a, também sorriu e foi falando:

– Por gentileza, eu gostaria de falar com um advogado.

– Tudo bem. Qual deles?

– Ah, tá. Lógico. Tem um monte de advogados aqui… É com o Dr. Luiz.

– Tudo bem. Qual deles?

– Ué? Tem mais de um Luiz aqui? Tá certo. É um nome comum, né? É um assim alto, bem magrinho.

– Tudo bem. Qual deles?

– Tá, tá… Esse é um tipo até comum. É um bem clarinho, quase loiro.

– Tudo bem. Qual deles?

– Pôxa, é o que antes tinha escritório no edifício aqui pertinho, no Vip Center.

– Tudo bem. Qual deles?

– Menina, eu o vi entrando aqui agorinha há pouco. Ele está com uma camisa branca e terno preto.

– Tudo bem. Qual deles?

– Caramba! É o que tem um carro da Fiat… Qual mesmo? Ah, é: um Tempra preto.

– Tudo bem. Qual deles?

– Ô louco! Os dois têm Tempra, é? Pois bem, é um que tem uma criança pequena, não sei que idade.

– Tudo bem. Qual deles?

– Você não tá tirando uma com a minha cara não, né menina? A esposa dele se chama… Deixa eu ver… Ah é! Cíntia! É o que é casado com a Cíntia!

– Tudo bem. Qual deles?

– Ah, não! Agora você tá de gozação! Só pode estar! Não é possível! É o que tem bigode, tá bom? É o que tem bigode! Sabe o que é um bigode? Sabe? É o que tem bigode!!!

– Ah! Então é o Dr. Luiz Arnaldo! Por que o senhor não disse antes?…

Deixarei para que a profícua mente destes incautos leitores possa imaginar – somente imaginar – qual o rol de impropérios que, ainda que não tenha manifestado em alto e bom tom, certamente passou pela cabeça desse indivíduo enquanto se dirigia para a sala do advogado…

Um grito, um sapo e um barranco

Me é estranho, após tanto tempo, retomar da pena.

Ou melhor, do teclado.

As palavras que outrora fluíam tão naturalmente encontram-se escondidas, relutantes – recalcitrantes até.

Mas é necessário desenferrujar estes nervosos neuróticos neurônios que têm fugido de mim tal qual o tinhoso foge da luz, num bloqueio que há muito já ultrapassou o limite do que poderia pensar em ser considerado razoável.

Então, como Roger Waters já vaticinava, é o que me resta: “Tear down the wall”!

E para isso comecemos com um causo recente, algo bem leve, quase que corriqueiro.

Ou não.

Estava eu, numa dessas noites recentes, em casa desfrutando de minha usual breja na varanda enquanto pensava qual seria o tamanho da tal da Superlua por detrás das nuvens, quando ouvi um grito agudo. Vindo lá de dentro de casa. Da Dona Patroa.

Fiquei tranquilo, beberiquei mais um gole. Após tantos anos de convivência aprendi a identificar cada um dos faniquitos, ops, tipos de grito que ela tem. E esse, desse timbre, dessa altura, com essa duração, era inconfundível. Pensei comigo: “sapo”.

E eis que ela me surge na varanda.

– Vai AGORA lá no fundo. Tem um sapo gigante dentro da vasilha de ração da Leia!

– Mesmo? Será que ele é tão grande assim?…

– NÃO QUERO SABER. Só quero que tire ele de lá!

– Ah, tadinho, deixa ele curtir um pouquinho…

– De jeito nenhum! Quero mais é que jogue essa criatura gorda e nojenta lá no meio do mato!

– Ei, sem ofensas! Espero que você esteja se referindo ao sapo!

– VAI! LÁ! AGORA!!!

Ô coisinha estressada, credo…

Mas preciso contextualizá-los: moramos num local que é uma espécie de vale, bem em frente a uma larga avenida que, juntamente com um córrego que a margeia, dividem ambos os lados desse vale, sendo que de um lado ficam as casas e do outro uma Área de Preservação Permanente toda arborizada com uma mata nativa que segue por alguns quilômetros. Basta atravessar a rua e na beirada da calçada do outro lado está a mata, que já começa bem no barranco que desce até o córrego.

Fui até o fundo de casa e encontrei o bichinho bem onde ela disse que estava. “Gordo mesmo”, pensei na hora. Municiado com um saco plástico nas mãos (isso mesmo, não tenho a mínima vontade de pegar um sapo com as mãos nuas) peguei aquele pequeno filhote de hipopótamo anfíbio e fui devolvê-lo à mata de onde não deveria ter saído. Ainda fiz um pouco de graça enquanto o carregava só pra ver a Dona Patroa dar no pinote quando cheguei perto. Ah, essas pequenas maldades…

E justamente enquanto atravessava a rua eis que o fiudumaégua do sapo começou a… mijar! Mas soltou um jorro de longa distância que por um triz não me pega! Quase me deu vontade de dali mesmo arremessá-lo à distância lá pro meio do mato! Quase.

Acabei o trajeto, dei uma última olhada para aquela carinha rechonchuda e bem ali na beirada do barranco, com um ligeiro movimento joguei-o no meio da folhagem lá embaixo. E me virei para voltar pra casa. E pisei em falso. E me desequilibrei.

E caí.

E rolei.

Morro abaixo.

Uma cambalhota atrás da outra, atrás da outra, atrás da outra.

O céu no chão, o chão no céu, o mato na boca e tudo rodopiava pra tudo quanto é lado.

Parei numa aconchegante moita orvalhada que me deixou encharcado.

Fora a terra.

Fora o barro.

Fora a lama.

Puto. Eu estava PUTO da vida. Fiadaputa de sapo dos infernos! Fui subindo de volta à rua, patinando, escorregando e puto. E caí sentado. E fiquei ainda mais PUTO.

Mas era pior do que eu imaginava.

Foi só quando cheguei de volta à varanda – puto ainda, diga-se de passagem – é que me dei conta.

“Meu celular. Cadê o meu celular? Onde está a porra do meu celular???” Olhei pro outro lado da rua, pr’aquela escuridão molhada e enlameada. Olhei pro exato ponto em que eu havia sumido e cambalhotado metros barranco abaixo e então, com desalento, me veio a única conclusão óbvia. “Lá.”

Chamei novamente a Dona Patroa.

– Liga pra mim.

– Ué, por quê? Você já está aqui na minha frente. E por que você está todo sujo assim?

Respirei fundo.

– Celular. Mato. Lá.

– Você perdeu o celular lá embaixo? Mas por quê?

– Meu ANJINHO, só liga pra mim, faz favor!

Novamente atravessei a rua e enquanto perscrutava a escuridão do meio do mato vi o brilho da tela e o característico toque do meu celular. Ufa! Resgatei-o e ele estava inteirinho, sem um arranhão sequer. Duplo ufa!

E é lógico que enquanto eu voltava pro mundo dos vivos escorreguei mais umas duas vezes e quase cambalhotei de volta…

Após toda essa rocambolesca cena circense só me restava tomar um belo de um banho e dormir. Até porque no dia seguinte, bem cedinho, tinha que levar meus meninos para escola.

No dia seguinte, enquanto a criançada tomava seu café, fui até a varanda novamente. Ainda estava escuro. Dei uma olhada pro outro lado da rua e mentalmente xinguei o bendito do sapo.

E, apesar de tão cedo, ouvi um “blip-blop” do celular no meu bolso. Sinal de mensagem. Estranho. Fui pegar meus óculos para ver qual era a mensagem, pois depois dos quarenta o “braço ficou curto” e sem eles não consigo ler absolutamente nada.

Foi aí que me dei conta.

“Meus óculos. Cadê os meus óculos? Onde está a porra dos meus óculos???” Olhei pro outro lado da rua, pr’aquela escuridão molhada e enlameada. Olhei pro exato ponto em que eu havia sumido e cambalhotado metros barranco abaixo e então, com desalento, me veio a única conclusão óbvia. “Lá.”