Quarta Idade

Estive pensando cá com meus botões… Esse negócio tá todo errado, sabiam?

A começar que todo mundo fala da tal da “Terceira Idade” – mas quem já os ouviu tratar da Primeira e da Segunda? Aliás, alguém já definiu quais seriam essas?

E nem me venham com essa historinha de “Melhor Idade”, pois é uma das piores falácias das quais já tive conhecimento! Para quem gosta desse termo recomendo um excelente texto da Eliane Brum: “Me chamem de velha” (tá aqui no blog), que quando ela deliciosamente implicou com a palavra “idoso”. Particularmente gosto muito desta passagem específica: “Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada.”

Legal, né?

Mas, voltando ao assunto, caríssimos, tenho uma proposta interessante para vocês: que tal separar melhor essa bagaça?

Explico.

Vamos de década em década.

A Primeira Idade envolveria todo aquele período que vai desde o nascimento até o final da infância, ali pelos nove, quase dez anos. Usualmente começamos a adquirir nossa memória lá pelos cinco anos (sei que alguns conseguem ter recordações de antes disso, assim como outros sequer lembram o que almoçaram ontem, mas não é esse o caso) e todo essa fase antes da adolescência costuma ser um mundo mágico, de formação, em que o tempo demora pra passar e na qual diariamente vivenciamos novas e maravilhosas (e, também, às vezes frustrantes) descobertas!

Diferente do que poderiam pensar, nessa minha proposta a Adolescência seria a fase seguinte (achavam que seria a Segunda Idade, né?): dos dez aos dezenove. Sei que alguns acham que aos onze a pessoinha ainda é uma criança (particularmente meu primeiro beijo foi com essa idade), bem como outros, já com seus quarenta e poucos, ainda sequer saíram da adolescência – mas também não é este o caso. Penso que seria algo como os “teenagers” norte-americanos (mais do mesmo aqui). É um outro momento maravilhoso da vida, quando descobrimos tanto nossa sexualidade quanto nossa capacidade de contestação, é quando estamos dispostos a mudar o mundo e temos absoluta certeza de nossa imortalidade!

A Segunda Idade propriamente dita seria o começo da fase adulta: dos vinte aos vinte e nove. Também conhecida como a fase dos “inte”. Ainda nas baladas – por que não? – mas já começando a pensar no futuro, afinal ele chegou. É, para muita gente, o momento de começar a trabalhar, de namorar firme, de casar. É lógico que não é uma regra, pois muitos fazem tudo isso antes, outros depois e tem gente que nunca – mas precisamos ter algum parâmetro não é mesmo?

Enfim, acho que vocês já pegaram o jeitão da coisa, não é mesmo? A Terceira Idade seria dos trinta aos trinta e nove (fase dos “inta”); a Quarta Idade, dos quarenta aos quarenta e nove (“enta”) e assim sucessivamente.

Por exemplo, meu pai orgulhosamente já está na Oitava Idade! E, apesar de um perrengue ou outro, vai muito bem, obrigado!

Pode até ser que alguém anteriormente já tenha pensado em algo similar a esta proposta, mas juro que a ideia só me ocorreu agora. Talvez seja porque a febre baixou ou por algum surto de pensamentícies durante outro surto de insônia, mas, pra mim, o raciocínio até que faz sentido…

E eu, aqui, do alto da minha Quarta Idade – um sujeito que ainda fala com seus botões – fico pensando que ainda tenho muito a fazer e pelo que viver… Como já sabem, sempre fui dado a recomeços, mas todo recomeço envolve um certo período de “adaptação”. É como tentar fazer pegar no tranco um carro que tenha acabado a gasolina: no começo dá um pouco de trabalho, a gente cansa de empurrar aquele troço que parece não querer sair do lugar, mas depois que o motor dá o primeiro giro, depois que a primeira explosão põe todo o conjunto pra funcionar, já sabemos o que fazer: basta acelerar!

E é chegada a hora de arregaçar as mangas, pois há muito a ser feito!

Até porque, em respeito aos meus caninos afiados, sou, sim, um novo-velho que não sabe reconhecer o lugar em que gostariam que eu ficasse. Meus cabelos e barba branca contrastam com o vigor com que me atiro a um projeto e com o brilho de meus olhos pela satisfação de fazer o que entendo como certo.

Então, caríssimos, enquanto vocês continuam por aí temendo a chegada da terceira idade tal qual hoje ela é, com orgulho lhes digo que daqui, já da minha Quarta Idadee apesar de toda a bagunça que fizeram e continuam a fazer no mundo político e judiciário em âmbito nacional – ainda vejo o futuro com otimismo e como uma terra de oportunidades!

E que venham a Quinta, Sexta, Sétima e demais idades!

E vamo que vamo!
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Em tempo:

Aos interessados (e também aos que não o são), antes que eu me esqueça: dei uma boa de uma revisada no “FVC – Seletos 99 Causos”, reeditei a capa e, pasmem, esta é uma versão ampliada, com mais crônicas, mas ainda assim respeitando as mesmas 270 páginas do original e com o limite de apenas 99 causos… Como isso? Somente adquirindo seu próprio exemplar para descobrir… 😉

“Filosofices de um Velho Causídico – Seletos 99 Causos” é por si só uma seleta coleção dentre as mais de mil páginas de crônicas, contos, casos e causos de meus livros anteriores, bem como mais um tantinho que ainda está lá no blog. Apesar da luta que foi o processo de escolha, consegui me restringir a apenas 99 textos que são, resumidamente, os melhores, os de maior significância pessoal, os mais divertidos, os mais profundos, enfim, os mais relevantes que já publiquei (na minha nada humilde opinião, é claro). O que não desmerece em absolutamente nada todo o restante que ficou de fora desta seleção. Distribuídos pelos capítulos Coisas de Casal, Criança dá Trabalho, Juridicausos, A vida como ela é, Passado a Limpo, Martelando o Teclado e Filosofices, falo um pouquinho da vida conjugal, da difícil arte de ser pai, de causos jurídicos, dos perrengues do dia-a-dia, do passado que tanto me guia quanto persegue, bem como algumas crônicas, invencionices e elucubrações de praxe…

Volta ao Mundo em 80 Horas – VI

VI – Frustrado novamente

Ah, nada como uma hospitalizada noite de sono relativamente tranquila…

Bem, quase.

Após um bom banho quente (de verdade) – mas com cuidado para não ferrar com o tal do acesso que continuava espetado na minha mão esquerda – pude confortavelmente me deitar e ser reconectado a um frasco de soro para passar a noite. Se bem que “deitar” é um ponto de vista. Cama para hobbits, vocês se lembram? Como a noite estava agradável, o jeito foi enrolar o cobertor para usá-lo como almofada e suporte para os pés, bem em cima da… Quer dizer, do… Putz! Como é que se chama o oposto de cabeceira? Peseira? Zaga? Posterior? Ilharga? Retaguarda? Bem, acho que vocês entenderam, né?

Até me deixaram comer de novo! Uma sopinha – que era pra não pesar – mas que sorvi até a última gota do último bocado do caldinho. Podem falar o que for de comida de hospital – que, é óbvio, jamais vai ser como a comida de nossa própria casa -, mas, na minha opinião, estava uma delícia! Ou, talvez, por conta de fazer um dia e meio que não me alimentava de absolutamente nada, pode ser que qualquer coisa remotamente mastigável me pareceria estar extremamente saborosa…

Enfim, de fato, a noite foi tranquila, à exceção das poucas vezes que fui acordado para medir a pressão (cravados 12 x 8 em todas as amostras) e nada comparável à medição de 15 em 15 minutos da noite anterior.

Acordei no horário de praxe (cinco da matina, conforme previamente programado no meu maldito relógio biológico) e, ainda sem óculos, fiquei bestando até dar o horário de começar a aparecer gente.

E, logo cedo, antes do início do expediente, recebi a honorável visita de alguns amigos: Joseane, Marcela e Gil.

Curiosamente o período não estava favorável para pessoas saudáveis… Por aqueles dias minha amiga Dani, que também trabalha lá na instituição, estava com o maridóvski diarreico e a filhota do meio com muita dor (provavelmente pedra nos rins – tomara que não); fiquei sabendo que o sogro de meu cunhado passou mal e teve que ser internado; a própria irmã da Marcela também estava de molho, internada ali na Santa Casa, sob observação; e, bem na minha frente, o Gil havia recentemente feito uma cirurgia e também estava se recuperando.

Aliás, imaginem um caboclo sacana, rápido na resposta, muito bem humorado, carequinha, com um metro e sessenta e poucos de altura e aproximadamente (sei lá, tô chutando) uns 130 quilos. Se ficasse sentadinho, de pernas cruzadas e fosse pintado de dourado, passaria tranquilamente por uma estátua do Buda. Esse era o Gil.

Era.

Dentre outras intervenções que foi obrigado a fazer, decidiu melhorar a qualidade de vida e passou por uma bariátrica, a tal da gastroplastia ou cirurgia de redução de estômago. Somente o conheci após isso, mas eu diria que ele deve ter perdido em peso o equivalente a um saco de cimento. Dos grandes.

Já passados alguns anos e tendo conseguido se manter em torno de setenta e poucos quilos, resolveu que era hora de melhorar ainda mais um bocadinho a qualidade de vida e passou por uma nova cirurgia, desta vez para remover o excesso de pele flácida que restou de seus tempos rechonchudos. Durante a recuperação ele tem que usar uma espécie de “colete de contenção” – parece que, ao menos, até tirar os pontos.

Heh… Depois dessa acho que ele vai querer fazer uma cirurgia para não usar mais óculos. E, talvez, um implante capilar – por que não?…

Bem, apesar de ser eu o internado, estávamos todos curiosos sobre como ele estava. Conversamos um pouco e ele resolveu mostrar a tal da cirurgia. Tirou o colete, que deve ter uns quinhentos colchetes para abotoar e, bem nessa hora, me chega o Torquemada.

– Mas que zorra é essa???

Explica daqui, justifica dali, se envergonha dacolá e eu, sentado na cama, me matando de rir da cara do povo! Rapidinho, enquanto ainda explicava tudo, foi reabotoando os colchetes até que chegou no último. Errou de casa no primeiro e ficou tudo fora. Toca a desabotoar e abotoar tudo de novo. Roxo. E eu se rindo até me acabar!

Não demorou muito cada um tomou seu rumo, enxuguei as lágrimas do acesso de riso e começamos a conversar um tanto.

– É, parece que não tem jeito mesmo. Você não vai fazer a colonoscopia…

– Caceta, ainda essa história? Larga mão disso, cara! Será que hoje me liberam? Já deixei tudo arrumadinho e no esquema pra levantar voo…

– Provavelmente sim. Quem vai levar você embora?

– Ah, tô com o carro ali no estacionamento do trabalho e…

– NÃO, NÃO, NÃO! O senhor não vai dirigir. Hoje não.

– Mas, mas, mas…

– Sem “mas”. Arranje alguém para te levar e dê um jeito de pegar o carro depois.

Nisso chegou a Dona Patroa.

E – graças a Deus – com meus óculos!

Começamos a tabular uma conversa sobre como ir embora e ela já falou que nosso amigo Flávio se dispôs a levar o carro. E eu disse que também poderia contar com (quase) qualquer um lá do serviço que, tinha certeza, não se negaria a ajudar. O próprio Torquemada também se colocou à disposição. E o Ronaldo disse que não nos preocupássemos porque ele estava ali pra isso mesmo.

Oi?

Ronaldo?

Sim, Ronaldo, um amigo lá do serviço e que trabalha diretamente com a Chefa. Quando foi que ele chegou? Como foi que ele se materializou ali, do nada, e já foi entrando na conversa?

– Que é que você tá fazendo aqui, cara?

– Ah, é que a Chefinha pediu que, se fosse possível, eu te levasse pra casa, já que você vai ter alta hoje.

É como eu já disse antes: sendo quem é, já sabia de tudo que estava acontecendo, o que eu poderia ou não fazer, e, inclusive, quais seriam os próximos passos…

Pois bem, o negócio agora era aguardar o médico de plantão para um rápido proseio, me dar alta, enfiar a viola no saco e tomar o rumo de casa. Lá pela metade da manhã ele veio. Só que ele não era ele, era ela. Uma gordinha com cara de simpática que veio chegando, com a prancheta na mão, deu uma olhada pra mim e já foi tagarelando:

– Seu Adauto, né? Vi aqui o que lhe aconteceu e, na minha opinião, ainda faz muito pouco tempo do ocorrido. Isso porque situações como esta são definidas por um protocolo médico e, segundo esse protocolo, o senhor vai ter que passar mais um tempinho aqui em observação, ok?

Assifudê!!! Eu bem disse que eles devem ter cartões personalizados com essa fala decorada!

– Seu Adauto? Tudo bem?

– Não vou esconder a frustração de que vou ter que ficar mais um pouco por aqui, mas, paciência. Até amanhã, então?

– No mínimo, até sábado.

Mais dois dias! Caceta! Pelo menos eu teria tempo de sobra para ler os livros que estavam comigo, agora que eu já estava com meus óculos. A essa altura o Torquemada já tinha saído para rir longe da médica. Pedi mais uma muda de roupa para a Dona Patroa e, quando fui falar com o Ronaldo… Cadê? Puf! Sumiu! Como será que ele faz isso?…

Não demorou muito, ele ressurgiu e expliquei-lhe a situação. Não sem rir (da minha cara), ele ainda se colocou à disposição quando eu, de fato, saísse.

Novamente sozinho, resolvi que deveria esclarecer para a Chefa, de maneira adulta, coerente e salutar, o que havia ocorrido e o porquê não seria necessário que nosso amigo Ronaldo ficasse por ali. Como eu iria lhe mandar uma mensagem de texto, pensei um pouco, busquei no fundo do meu coração palavras conciliatórias, basicamente não ofensivas e que pudessem resumir a peculiar situação em que eu me encontrava. Saiu isso:

– A VACA DA MÉDICA NÃO ME DEU ALTA!!!

Ela riu, me recomendou que ficasse descansando, me cuidando, e que se assim não o fizesse ia pedir para a Dona Patroa tomar meus telefones. Como última “recomendação médica” me aconselhou a ficar quietinho no meu canto, só lendo coisa boa.

Melhor obedecer, né?

Antes de desligar os aparelhos (celulares, não os hospitalares – até porque já não estava mais conectado a nenhum), ainda troquei uns zaps com os amigos Nando e Fred, lá do Sr. Barba, atualizando-os do que aconteceu. Como são de uma sensibilidade ímpar me mandaram uma foto deles próprios tomando suas brejas e o Nando já antecipou que vai deixar lá na barbearia um estoque de Kronenbier (uma tradicional cerveja sem álcool). Fiadasputa.

Já entubado (não literalmente falando) pelo que me aguardava e pronto para me dedicar a horas de ócio somente na leitura, ainda recebi a visita de mais dois queridos amigos que estavam bem preocupados com minha situação: o caríssimo Casal Lux-Nerd… E que, inclusive me trouxeram mais alguns livros! Vejam só os títulos:

– “Três Dedos: um escândalo animado”;

– “Ser feliz”;

– “O oceano no fim do caminho”;

– “Andar do bêbado”; e

– “Obrigado por fumar”.

De fato é bem como diz o ditado: dá dinheiro, mas não dá intimidade. Tô cercado de humoristas. Ô bando de amigos tiradores de sarro que eu tenho!

Bem, novamente sozinho, agora era só questão de aguardar mais dois dias para a alta. Mas, lembrem-se: comigo nada é fácil! Até as expectativas quando dão certo, acabam dando errado. E essa era a lição que eu iria aprender no dia seguinte.

(Continua…)

Volta ao Mundo em 80 Horas – V

V – A alta #sqn

Rememorando os últimos eventos: nosso anti-herói, segurando temeroso o lençol que o cobria na altura do pescoço, fitava com um olhar atônito para as moçoilas que queriam desnudá-lo…

– Cumassim? Banho? Aqui na cama, mesmo? Mas não vai molhar tudo?

– O senhor já deve ter percebido que todos os colchões são revestidos de plástico. Com jeito e técnica, apenas duas bacias d’água já são suficientes para lhe dar um banho de leito completo.

Resignado, resignei-me.

Nada daquela história de “paninho”. O negócio foi mesmo na bucha (na realidade, uma esponja…), com bastante sabão e água para tudo quanto é lado. Sim. Inclusive lá. Bem, como sempre digo, trato é trato. Vim para me cuidar, não foi? Então vamo que vamo! Fui desplugado da fiação (sem remover os eletrodos), desconectado do soro, dos medidores de pressão arterial, etc.

– Eu sei que deve ser constrangedor para o senhor…

Constrangedor? Para mim? Imagina! Isso não é nada! Ainda semana passada duas morenas seminuas quase que fantasiadas de havaianas estavam me dando banho, massagem e até mesmo fazendo cafuné! Esse é meu dia-a-dia, querida: sempre estou rodeado de mulheres!

Adoraria poder dar uma resposta dessas, mas, ainda que somente a última parte seja verdadeira (e parte da minha sósifodência vem daí), limitei-me a concordar. Mas sem deixar de alfinetar:

– Verdade, verdade. Mas imagino que a primeira vez que você teve que dar banho em alguém também deve lhe ter sido constrangedor, não é?

Percebi um leve esgar de um sorriso e um momentâneo olhar perdido, como de quem acha graça em algo que, parece-me, já havia esquecido há muito no passado…

Antes de continuar, me permitam esclarecer uma coisa muito importante: como “funciona” o frio em nós, seres do sexo masculino. O melhor exemplo que tenho é a moto – ainda que eu não tenha mais a moto para dar o exemplo. Enfim. Sempre me perguntaram o porquê de andar de moto no inverno ou na chuva, pois seria muito desconfortável. Não, caríssimos, não é. Muitos podem pensar que o grande segredo é manter o peito aquecido (como Ra’s Al Ghul tentou ensinar para o jovem Bruce Waine); isso em parte até que é verdade, pois num dia frio e chuvoso, quando o capacete já não está mais cumprindo seu papel, os pés e pernas estão tão encharcados quanto as mãos e os braços, um peito bem agasalhado até que ajuda. Mas chega uma hora em que até mesmo ele se molha – e mesmo assim ainda é possível resistir. O problema é bem outro.

E, por mais que este seja um blog (quase) de família – e se você tem problemas com o palavreado chulo, pare de ler agora – preciso lhes contar o que é que realmente arrebenta o caboclo numa situação como essa, o que é que, uma vez encharcado, pode fazer com que o desinfeliz passe a tiritar tanto de frio que seja o suficiente até mesmo para cair da moto, o que é que, uma vez atingido pela chuva gelada, não tem mais salvação…

Continuou, né herege?

Mas é isso mesmo.

O saco.

Meu, vocês não têm ideia do que seja isso!

Bom, pelo menos parte de vocês, não…

Uma vez atingido esse órgão vital, o mundo parece desmoronar e se desmanchar ao seu redor. Uma vez afetado, não tem concentração, bebida, comida, carinho ou seja lá o que for que resolva o problema – a não ser, claro, devolver os ovos para um ninho quentinho (e, sim, isso foi uma metáfora…).

Pois bem.

Apesar de todo o constrangimento do banho não tão de paninho assim, até que tudo estava indo bem, comigo sendo ensaboado, literalmente, da cabeça aos pés. Ato contínuo, enxaguar. Uma água até que morninha, com muito jeito e técnica, sem fuzuê, sem encharcar foi sendo usada para tirar o sabão.

– Com licença.

Bem, até hoje nunca ninguém me “pediu licença”, assim formalmente, para mexer com o Little Dick, mas – que fazer? – que assim o seja. E ela simplesmente removeu todo o sabão dele com ÁGUA GELADA. Percebem a zica da coisa? Tudo bem que deve fazer parte do jeito e da técnica (até para evitar que algum abusado fique “confortável demais” com o banho), mas era ÁGUA GELADA, PORRA!

– Vamos lavar as costas agora.

Assim, de ladinho, comecei a tiritar de frio. Mesmo. Tremedeira, gente. E, apesar do clima quente e até da chuva que parecia derrubar o mundo lá fora, dentro da UTI o ar condicionado fica ligado 100% do tempo. Se antes estava fresquinho, agora parecia que tinham me jogado nu em um buraco na neve. E tapado. Vendo o quanto eu tremia, a moçoila ainda me soltou essa:

– Fique calmo, senhor!

– Calmo eu estou, o problema é QUE ESTOU COM FRIO, CARAMBA!!!

Foram mais alguns minutos daquela sessão tortura, secando e enxugando a mim e ao colchão com o que estava à mão até que minha temperatura começou a estabilizar eu a parar de tremer. Antes mesmo que eu perguntasse se já poderia ter de volta minha dignidade (ou seja, no mínimo, minha cueca), ela me veio com um forte jato de desodorante em aerossol pela axila esquerda, pela axila direita, pelo peito, pela boca, pelas narinas, pelos olhos, pela testa…

– Ai, meu Deus! Me desculpa!!!

Foi sem querer. De verdade. Ela ficou extremamente embaraçada, coitada. Mas ainda assim me senti Kafka reencarnado e até mesmo dei uma olhada para meus braços e pernas para ver se não estava me metamorfoseando. Juro que quase senti pena das baratas que já matei. Quase. Mas passou rapidinho.

Agora que estava limpinho, quentinho e reconectado a tudo que tinha que estar, restava-me a árdua tarefa de atravessar a noite de luzes acesas na UTI. Gente, na boa: o que para alguns poderia parecer uma solidão desesperadora, sem ninguém para conversar, nada para ler, nem TV para assistir, para mim foi simplesmente um exercício de tranquilidade. Mesmo o fato de estar sem comer absolutamente nada há mais de um dia sequer me incomodou. Quem me conhece sabe que sempre gostei de estar sozinho, de me perder nos meus pensamentos. E eu estava justamente no melhor lugar para fazer isso, onde somente seria abordado se chamasse alguém – o que, obviamente, não tinha motivo algum para fazê-lo.

Olhei para o medidor de pressão arterial. De quinze em quinze minutos o bendito inflava em meu braço e atualizava os números. Bem diferente dos 15 x 10 de quando dei entrada, estava em 12 x 8, que é o meu normal – e já vinha se mantendo assim em todo o decorrer do dia. Batimentos cardíacos em torno de 56 bpm (batimentos por minuto). Agora, vejam só, vocês podem até achar que é uma viagem minha, mas juro que é verdade: já falei por aqui antes acerca de meditação e técnicas de relaxamento. Como não tinha nada para fazer, resolvi colocar uma teoria à prova e comecei a fazer um relaxamento completo, inclusive reduzindo a respiração (que agora já estava muito bem, obrigado) ao mínimo indispensável. Fiquei olhando para aquele monitor e, plenamente relaxado, quase fora de mim, pude ver os números caírem para 10 x 6 e 44 bpm…

– O senhor está bem?

A enfermeira veio falar comigo no exato momento em que o medidor começou a inflar no meu braço novamente. Sorri e disse que sim, que estava tudo bem. Ela ficou me olhando com uma cara de preocupada, ficou aguardando os resultados do monitor e assim que os números se atualizaram (12 x 8 e 56 bpm novamente), fez uma cara de interrogação, deu uns tapinhas no aparelho e saiu de perto, meio que encafifada…

Pois bem.

Entre um cochilo e outro, atravessei a noite na UTI. Pouco antes da nova troca de turno, Torquemada veio fazer uma visitinha, perguntar se estava tudo bem e se eu realmente não queria fazer uma colonoscopia.

– Cara, essa sua insistência já tá virando ideia fixa! Deixa minhas intimidades em paz, pô! Que fique bem claro: exceto em caso de emergência hospitalar, ali é uma via de mão única!

– No hospital já estamos. Só falta criar uma emergência!

– Nem vem, cara!

– Tá bom, tá bom. Mas só pra você saber: já foi solicitado um ecocardiograma pra você. Assim que o médico fizer, você já deve ter alta, ok? Ele deve chegar aqui lá pelas dez da manhã.

– Beleza!

E realmente o sujeito veio, com sua maleta para fazer um ecocardiograma, que é um procedimento bem parecido com um ultrassom. A que horas? Oito da noite! Bem que eu disse que, comigo, nada é fácil.

Veio, viu, mediu, conversou com o médico de plantão, chegaram num acordo que os risquinhos do eletrocardiograma estavam de acordo com as imagens do ecocardiograma e concluíram que seria aconselhável primeiro fazer um teste de esforço numa esteira (devidamente monitorado, é lógico) e só então avaliar se seria necessária a realização de um cateterismo – que seria a introdução de um cateter (um tubo longo, fino e flexível) por alguma de minhas artérias para verificar a situação das veias. Particularmente eu preferiria a opção de “Viagem Fantástica”, de Asimov, mas creio que não teríamos isso à disposição…

– Pois é, seu Adauto. Como tudo está em ordem e o estado do senhor se apresenta estável, nada mais me resta senão lhe dar alta!

– Quer dizer que…

– Não, não, não. Até já sei o que o senhor vai perguntar. Acontece que vou lhe dar alta da UTI, mas situações como esta são definidas por um protocolo médico e, segundo esse protocolo, o senhor vai ter que passar mais um tempinho aqui em observação, ok?

Não é possível. Eles devem ter cartões personalizados com essa fala decorada. O que era uma visita em busca de um pouco de oxigênio se transformou num pernoite na UTI, a alta que era para de manhã ficou pra noite e agora fechamos em mais uma noite hospitalizado…

– Só que ainda vai demorar mais um pouquinho para que liberem um quarto. Pelo adiantado da hora o senhor gostaria de aguardar ou prefere que lhe deem banho aqui mesmo?

– QUARTO, QUARTO, NO QUARTO, POR FAVOR! Quer dizer… Tudo bem. Eu aguardo. Prefiro aguardar e tomar banho por mim mesmo…

Ele riu e se afastou para cuidar da papelada.

E assim, aproximadamente 36 horas depois, deixei a UTI para trás e retornei para o mesmo quarto em que estive antes. Mais uma vez fui desplugado dos aparelhos, foram removidos os medidores, fui desconectado do soro. Mas o acesso da mão esquerda permaneceu, aquela agulha pendurada ali na veia. Ah, sim, também retiraram os eletrodos. Todos eles. Juntamente com boa parte da pelagem peitoral deste que vos tecla… Nesse meio tempo Torquemada teve o cuidado de avisar a Dona Patroa que eu ainda precisaria passar a noite por ali – até que ele não é de todo sacana. Bem, médio.

Pouco mais de uma hora depois ela chegou com roupas (eu continuava sem lenço nem documento, lembram?), “objetos de higiene pessoal” (ou seja, shampoo, sabonete, escova de dentes, etc), celulares e – vejam só! – dois livros para eu passar o tempo! Tirinhas excelentes em “O livro de ouro de Hagar, o Horrível” e mais um tanto de política e história em “Uma ovelha negra no poder: confissões e intimidades de Pepe Mujica”.

– Caramba, que legal! Adorei! Depois do banho já vou mergulhar nesses livros! Cadê meus óculos?

– Oi?

– Óculos, darling, óculos, lembra? Aquela armação de plástico ou metal, com uma lente para cada olho e que, para pessoas como eu, que não já conseguem mais enxergar absolutamente nada de perto, permitem ao menos o prazer da leitura.

– Xiii…

Dois pares de óculos. Dois. Um multifocal e outro só pra perto. E ambos ficaram em casa, a quilômetros e quilômetros dali. Livros, celulares carregados, tudo à mão e nada ao meu alcance. Eu mereço…

Bem, o jeito seria curtir uma boa noite de sono, sem aparelhos, sem medidores e com a luz apagada – ainda que naquela cama para hobbits. E, segundo o Torquemada, eu já teria alta no dia seguinte, logo pela manhã.

Ao menos era o que eu pensava…

(Continua…)