Comida de Boteco

Dia desses, num breve proseio com o copoanheiro de plantão, falávamos sobre um tal de concurso que estão fazendo pelas redondezas: “petisco de buteco”.

É lógico que não poderíamos, juntamente com nossos fermentados e destilados de praxe, também deixar de destilar nossa etílica criatividade para um evento de tal pompa e circunstância! E se você tem estômago fraco então pare de ler este texto neste exato momento! Não só porque você não aguentaria uma verdadeira comida de boteco, mas também porque os níveis de ironia, sarcasmo e tiração de sarro seguem num tom bem elevado, provavelmente acima do suportado por pessoas sensíveis como você…

Continuou, né? Tá bom. Por sua conta e risco, então.

Pois bem. Ele me perguntou se eu havia lido o tal do edital desse concurso e comentou que parecia que tinha uma taxa de cem contos pra participação. Do edital já lhe adiantei que nem sequer passei perto, pois tenho mantido minhas leituras naquilo que importa pro meu ofício, então não vou gastar minha vista com um monte de letrinhas juridicamente embaralhadas – e que provavelmente levariam meu senso crítico a um outro estágio de sarcasmo. E quanto à taxa de participação, meu, CEM CONTOS? Sinceramente, não sei se a informação procede ou não, mas vocês não tem ideia de quantos “petiscos de buteco” dá pra fazer com essa grana!

E acho que foi aí que chegamos ao cerne da questão: será que o organizador desse concurso REALMENTE sabe o que é um boteco? Por mais louvável que seja a iniciativa, me parece que não. Pois boteco, boteco MESMO, é outra coisa. Talvez esse sujeito esteja acostumado não com botecos, mas sim com bares, lanchonetes, restaurantes, petiscarias, mas isso também é outra coisa. Provavelmente, diferente da realidade de um boteco, ele deve frequentar locais que possuem mesas com toalhas de linho, garçons pronto a servi-lo, maître para organizar o local, chefs para cuidar do cardápio, coristas seminuas dançando no palco bem em frente, enquanto que ali à direita, num pole dance, tem uma fantástica ruiva que… Não! Péra! Isso é outra coisa…

Enfim.

Onde estávamos?

Ah, sim. Boteco.

Boteco é um lugar em que o dono chega todo dia pontualmente sabe-se lá a que horas, abre as portas de aço, arruma as caixas de bebida num canto, entre as mesinhas de plástico e as de lata (às vezes tem algumas de madeira também), limpa a bagunça da noite anterior, dá uma varridinha de leve (os cantos das paredes são tradicionalmente arredondados de tanta poeira), desentorta a bandeira do seu time pendurada na parede, se benze em respeito à imagem do santo que fica no outro canto, recebe as pessoas, serve as bebidas, faz as comidas e ainda cuida do caixa. Às vezes tem algum membro da família pra ajudar (a esposa, o filho vagabundo ou aquele cunhado que ninguém suporta), às vezes não. Nesses casos, quando precisa pagar alguma conta na lotérica mais próxima, pega um dos cachaceiros de confiança pra “cuidar” do estabelecimento enquanto estiver fora, não sem antes dar uma boa medida no nível das garrafas de cachaça e outras bebidas que ficam ali, bem do lado da pia. O que ele não sabe é que o caboclo dá suas bicadas do mesmo jeito – mas depois completa com água!

Boteco vem de botequim, diminutivo de botica, derivado do grego apótheke, palavra cuja origem remonta a milhares de anos no passado e pode ser toscamente traduzida por algo como “casa de bebidas onde se reúnem pés sujos, cachorros, violeiros, cachaceiros e outros sujeitos bons de proseio”.

Apesar de uma tradicional confusão cultural, é importante lembrar que um boteco não é um bar. Nem mesmo um bar ruim, como diria Antonio Prata, estando mais próximo da definição do Leonardo Boff… Etimologicamente eu diria que boteco está para bar assim como moleque para criança, velho para idoso, futebol de rua para pelada. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Mas voltemos ao concurso.

Concluímos que se fôssemos nós a fazer um concurso de Comida de Boteco (“petisco” é muito fresco e “buteco” é uma corruptela que falta para com o respeito tanto à língua portuguesa quanto aos botecos de verdade – na minha nada humilde opinião, é claro), teríamos então que montar uma planilha de quesitos rigorosíssima e com uma pontuação condizente à realidade da coisa.

Já na primeira leva de palpites pensamos em algo específico em relação à comida em si: fragrância (cherança); substância (sustança); crocância (mordança); abundância (êita porção servida!); ignorância (arre égua!!!); e, ao final, é claro, ânsia.

Deveríamos também considerar a situação jurídica do estabelecimento: se possui documentação e impostos em dia; se as coisas tão atrasadas mas é do antigo dono que faleceu; se não sabia que precisava de tudo isso pra abrir um boteco; se tem que enxotar todo mundo e fechar as portas rapidinho sempre quando chega a fiscalização. Pontuação inversamente proporcional à regularidade do local.

Aliás, falando em fiscalização, concordamos de bom grado que se o boteco tiver alvará da Vigilância Sanitária já estará sumariamente desclassificado do concurso, deixará de ser considerado um boteco e ainda sofrerá boicote pelos cachaceiros da cidade!

Outro quesito importante: a chapa. Se tiver chapa. Uma chapa limpa e bem cuidada demonstra um nível de asseio inaceitável para o preparo de uma verdadeira comida de boteco. A graduação da pontuação começaria pela simples análise de quantidade de gordura acumulada, aumentando de acordo com os restos de outros lanches que tenham passado por ali e atingindo sua nota máxima caso sejam encontradas substâncias totalmente desconhecidas e inexplicáveis – mas que ainda assim proporcionam à comida aquele gostinho tão bão…

Já para as frituras serão analisadas a qualidade do óleo e a idade da panela. Caso o mesmo óleo não tenha sido utilizado para pelo menos cinco tipos diferentes de frituras (incluídos aí peixe, pastel e coxinha) não será sequer pontuado. A panela deverá obrigatoriamente possuir crostras negras de idade que remontam a eras geológicas por toda sua volta. Gambiarra no cabo (se tiver cabo) e furos tapados contam pontos extras.

O cozinheiro é um item à parte. Tá certo que existem aqueles botecos em que os donos já trazem “pronto de casa” ou mesmo que compram daquela tiazinha que acorda às quatro da manhã e prepara os salgados pra no mínimo metade dos bares da cidade. Mas não é disso que estamos falando. Ao preparar seus quitutes – quer sejam lanches, porções, frituras ou seja lá o que for (afinal de contas quase tudo levemente comestível ou mastigável pode ser considerado como “comida de boteco”) é importante avaliar tanto a forma de preparo quanto as condições do cozinheiro: se usa luvas descartáveis; se usa luvas NÃO descartáveis; se lavou as mãos; se cortou as unhas; se existe explicação pr’aquele preto debaixo das unhas; se ao menos tem unhas. Panos de prato também serão pontuados à parte de acordo com o nível de cândida acumulado que venha a ser encontrado nas tramas do tecido. Se for encontrada (o que garantiria uma pontuação extra). O manuseio também será avaliado: se o pano de prato permanece dobrado à disposição ali de ladinho; se encontra-se pendurado num gancho próximo; se está preso no lateral da gaveta do caixa; se fica no ombro do cozinheiro e é o mesmo que utiliza para enxugar os copos, limpar o balcão, enxugar o suor da testa, secar o sovaco e, eventualmente, assoar o nariz.

A apresentação tem diversas variantes, passando pela tradicional estufa em cima do balcão, invariavelmente com bandejinhas ostentando pedaços de carnes indefinidas praticando nado sincronizado naquela piscina olímpica de gordura e óleo, como também salgados amanhecidos dos mais diversos tipos (ovos cozidos coloridos, por serem representantes de uma outra época, garantem muitos pontos adicionais) até a simples vitrine com uma ou duas moscas varejeiras do lado de dentro atestando a qualidade do alimento. O suporte pode se dar através de pratos de louça, plástico ou isopor (limpos ou não); guardanapos de papel que podem ou não segurar aquela gordura pingando e escorrendo nos dedos; e mesmo a clássica retirada com uma pinça e entrega diretamente na mão mesmo do cliente. Saquinhos de papel de padaria, ainda que usados e com restos de farelo de pão, bem como pedaços de jornais em tiras podem eventualmente ser aceitos, desde que, neste último caso, seja de no máximo uma semana (não pelo estado de conservação, mas por só trazer notícia velha).

A forma de degustação está diretamente ligada à disponibilidade do ferramental. Explico. Quesitos específicos avaliarão se a iguaria sob análise deve ser apreciada com a utilização de talheres, palitos ou guardanapos. Os quesitos seguintes avaliarão se existem talheres, palitos ou guardanapos. A pontuação continuará de acordo se os talheres são ou não lavados regularmente; se os palitos são comprados, reaproveitados ou feitos em casa; se o guardanapo é de pano, papel absorvente ou aquele negócio de qualidade e origem indecifráveis, que raramente limpa algo e que fica naquelas papeleiras inoxidavelmente enferrujadas bem no meio da mesa. Pontuação extra levará em consideração a necessidade de que, com ou sem ferramentas, as mãos tenham que ser usadas na degustação e se foi possível limpar aquela meleca residual que escorreu por entre os dedos num guardanapo ou, na ausência de guardanapo, na borda da toalha da mesa ou, se a toalha for de plástico, qual foi o tamanho e a consistência da mancha que tenha ficado na calça. Mais pontos extras se nunca mais for possível usá-la.

Acompanhamentos obrigatórios de acordo com o tipo de comida servida podem também render pontos extras, sendo aceitáveis e pontuáveis elementos do tipo suco, refrigerante, cerveja, vinho do garrafão embaixo do balcão, cachaça, azeite, orégano, coentro, pimenta, pimenta forte, pimenta muito forte, pimenta da braba mesmo, água-água-pelamordedeus, Epocler, Eno, e outras variantes. No caso da cachaça ser o acompanhamento, quer seja da tradicional, quer seja da artesanal (hmmm… aquela amarelinha…), aos juízes fica proibida a degustação de mais de três iguarias por sessão, bem como voltar pra casa dirigindo, assim como a utilização de celular para enviar mensagem para aquela ex que não quer vê-lo nem pintado de ouro, mas pela qual ele sempre chora quando está de fogo.

No que diz respeito aos juízes qualquer um pode ser aceito, independentemente de currículo, não importando a cor, a raça, o sexo, a preferência sexual, a religião, o partido político, o time que torce, sendo apenas imprescindível que nenhum desses temas jamais seja discutido no boteco, mesmo sabendo, é lógico, que vão ser. A única exigência é que ao menos um deles, por razões óbvias, tenha que ter o apelido de “avestruz”…

Enfim, meus queridos, brincadeiras à parte, no que diz respeito ao tradicional boteco como o conheço, prefiro mesmo é ficar com as palavras finais daquele excelente texto do Leonardo Boff:

O boteco é um estado de espírito, o lugar do encontro com os amigos e os vizinhos, da conversa fiada, da discussão sobre o último jogo de futebol, dos comentários da novela preferida, da crítica aos políticos e dos palavrões bem merecidos contra os corruptos. Todos logo se enturmam num espírito comunitário em estado nascente. Aqui ninguém é rico ou pobre. É simplesmente gente que se expressa como gente, usando a gíria popular. Há muito humor, piadas e bravatas. Às vezes, como em Minas, se improvisa até uma cantoria que alguém acompanha ao violão.

Ninguém repara nas condições gerais do balcão ou das mesinhas. (…)

Se bem repararmos, o boteco desempenha uma função cidadã: dá aos frequentadores especialmente aos mais assíduos, o sentimento de pertença à cidade ou ao bairro. Não havendo outros lugares de entretenimento e de lazer, permite que as pessoas se encontrem, esqueçam seu status social e vivam uma igualdade, geralmente, negada no cotidiano.

Aliás, em tempo: caso alguém queira se aventurar na cozinha para tentar fazer alguma tradicional Comida de Boteco (quer venha a seguir as regras acima ou não), eis aqui algumas dezenas de receitas para que possa experimentar: Receitas do Festival de Comida de Boteco – BH.

E vê se me chama, hein?

Adêvogado dos bão

Dizem que aconteceu em Minas Gerais, em Ubá, cidade onde nasceu o genial compositor Ary Barroso.

Na cidade havia um senhor, cujo apelido era Cabeçudo. Nascera com uma cabeça grande, dessas cuja boina dá pra botar dentro, fácil, fácil, uma dúzia de laranjas.

Mas fora isso, era um cara pacato, bonachão e paciente.

Não gostava, é claro, de ser chamado de Cabeçudo, mas desde os tempos do grupo escolar, tinha um chato que não perdoava. Onde quer que o encontrasse, lhe dava um tapa na cabeça e perguntava:

“Tudo bom Cabeçudo?”

O Cabeçudo, já com seus quarenta e poucos anos, e o cara sempre zombando dele.

Um dia, depois do milésimo tapão na sua cabeça, o Cabeçudo meteu a faca no zombeteiro e matou-o na hora.

A família da vítima era rica; a do Cabeçudo, pobre.

Não houve jeito de encontrar um advogado pra defendê-lo, pois o crime tinha muitas testemunhas.

Depois de apelarem pra advogados de Minas e do Rio, sem sucesso algum, resolveram procurar um tal de “Zé Caneado”, advogado que há muito tempo deixara a profissão, pois, como o próprio apelido indicava, vivia de porre.

Pois não é que o “Zé Caneado” aceitou o caso? Passou a semana anterior ao julgamento sem botar uma gota de cachaça na boca!

Na hora de defender o Cabeçudo, ele começou a sua defesa assim:

– Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.

Quando todo mundo pensou que ele ia continuar a defesa, ele repetiu:

– Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri..

Repetiu a frase mais uma vez e foi advertido pelo juiz:

– Peço ao advogado que, por favor, inicie a defesa.

Zé Caneado, porém, fingiu que não ouviu e:

– Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.

E o promotor:

– A defesa está tentando ridicularizar esta corte!

O juiz:

– Advirto ao advogado de defesa que, se não apresentar imediatamente os seus argumentos…

Foi cortado por Zé Caneado, que repetiu:

– Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.

O juiz não aguentou:

– Seu moleque safado, seu bêbado irresponsável, está pensando que a justiça é motivo de zombaria?
Ponha-se daqui pra fora, antes que eu mande prendê-lo.

Foi então que o Zé Caneado disse:

– Senhoras e Senhores jurados, esta Côrte chegou ao ponto em que eu queria chegar… Vejam que, se apenas por repetir algumas vezes que o juiz é meritíssimo, que o promotor é honrado e que os membros do júri são dignos, todos perdem a paciência, consideram-se ofendidos e me ameaçam de prisão! Pensem então na situação deste pobre homem, que durante quarenta anos, todos os dias da sua vida, foi chamado de Cabeçudo!

Cabeçudo foi absolvido e o Zé voltou a tomar suas cachaças em paz.

Moral da estória? Mais vale ser um “Bêbado Inteligente” do que um “Alcoólatra Anônimo”!

Mas pode ainda ter outra, melhorzinha:

“No mundo sempre existirão pessoas que vão te amar pelo que você é,
e outras, que vão te odiar pelo mesmo motivo.
Conforme-se com isso.”

Johnnie Walker X João Andante

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( Publicado originalmente no blog etílico Copoanheiros… )

Bicarato

Quem capota primeiro? O lorde ou o caipira? Apostas ali no escritório, por favor.

Mas, caray, que porre! Esses gringos ainda não sacaram que cachaça é cachaça e uísque é uísque? E que, apesar do fraque e cartola, o lorde é muito mais cafona que o nosso legítimo e sincero e gente-boa e lesgal-pra-caramba e… eu-também-gosto-muitcho-docê-mas-ninguém-me-entende-você-é-um-amigão-mêsss! Dá-mais-uma-aí-Chefia!

Uísque Johnnie Walker tenta derrubar cachaça João Andante

A holding inglesa Diageo, detentora da marca do uísque Johnnie Walker, abriu processo administrativo no Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) contra a cachaça João Andante. A Diageo acusa a empresa mineira de ser “imitação” de sua marca –segundo ela, avaliada em US$ 3,5 bilhões.

Mas o processo gerou publicidade para a cachaça e fez suas vendas dispararem. Nas últimas duas semanas, os pedidos feitos via e-mail já chegam a mil garrafas. Até então, as vendas eram de apenas 200 garrafas por mês.

“Os pedidos estão aumentando muito e nós sempre trabalhamos com margem e volume pequenos”, disse Gabriel Lana, 25, um dos donos.

A João Andante foi organizada em 2008 por quatro jovens que viam a atividade mais como um hobby do que propriamente um negócio empresarial. Cada um deles segue com sua profissão.

O desenho das duas marcas é representado pela figura de um andarilho, embora de classes sociais distintas: enquanto um é lorde, o outro é um jeca, ou capiau, conforme o regionalismo mineiro.

“Apesar de ambos os personagens mostrarem algumas distinções, o uso da expressão ‘João Andante’, que é a tradução literal de ‘Johnnie Walker’, evidencia a intenção de criar uma ‘versão local’ da marca”, argumenta a holding inglesa por meio do escritório de advocacia Dannemann Siemsen.

Os mineiros negam que o uísque tenha sido a inspiração e sustentam que o Walker da marca inglesa nada tem a ver com andar ou caminhar –é um sobrenome.

Afirmam que a ideia é a de um caixeiro-viajante, que é um andarilho, segundo o escritório de advocacia Hidelbrando Pontes e Associados.

[Copy&Paste direto da Folha.com]

Esses gringos, sempre se achando... nhé!

Segunda dose: uai, mas é claro que o João Andante tem sítio-chácara sim. E é bem bacana, óia só aqui. E tem mais causo também lá no Dono do Bar

O prazer de beber vinho

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( Publicado originalmente no blog etílico Copoanheiros… )

Adauto de Andrade

E quem diria que um filme de quinta categoria, do início da década de sessenta, totalmente trash, renderia uma sequência tão interessante? A obra original é Tales of Terror (“Muralha do Pavor”, na sempre fidedigna tradução brasileira) – uma tentativa de adaptação de contos de Edgar Allan Poe.

Mas a parte que nos interessa foi recortada-e-colada lá do Plural Refogado, coluna do Márcio Alemão, na revista Carta Capital nº 664, de 21 de setembro de 2011:

E ele (Montresor Herringbone, personagem bêbado vivido por Peter Lorre) parte para a noite. É expulso de uma taverna, segue cambaleante pelas ruas nem um pouco escuras de uma Londres mal cenografada, pedindo alguns trocados. Nada consegue, mas os anjos acabam conduzindo-o à porta de um local onde está acontecendo um encontro de comerciantes de vinho. Ele entra e sua expressão é a de quem, após grande sofrimento na Terra, alcançou o paraíso.

O anfitrião do encontro, então, com grande pompa, comunica que entre eles está o Robert Parker Jr. da época, o maior entendedor de vinhos de todos os tempos, o senhor Fortunato Luchresi, que é intepretado por Vincent Price. Usando roupas em tons de rosa, tendo o seu tastevin pendurado no pescoço, Fortunato é cheio de gestos exagerados, que são imitados de maneira cômica por Montresor, o mesmo que o desafia, dizendo que entende tanto ou mais que ele sobre vinhos.

Começa a competição. Um em cada ponta da mesa. O primeiro vinho é servido no tastevin de Fortunato. O tastevin, para descrevê-lo melhor, se parece muito com um pequeno cinzeiro de prata. Ele começa a sentir o aroma do vinho e depois o degusta. E esse é um bom momento: as caras e bocas que Vincent Price faz durante a degustação. Ah, sim! Me esqueci de que antes disso tivemos o aquecimento. Uma série de exercícios faciais e labiais com som.

Por fim, ele faz um bico e suga o vinho que já estava em sua boca. Nas sequência, diz, entre pausas: “Borgonha, Pinot Noir, Clos de Vougeot, 1838… Não muito ruim”. O organizador, orgulhoso, confirma as informações. Na vez de Peter Lorre/Montresor, ele escolhe uma taça para fazer a degustação. O responsável o serve com parcimônia e ele pede que encha a taça. Toma tudo de uma vez, sem caras e bocas e descreve o vinho com alegria: “Volnay, feito com uvas de vinhedos excepcionais, 1837… Muito bom vinho!”

E ele também acerta.

A disputa vai adiante e o que mais interessou e interessa para este Refogado: o técnico, o mestre, Fortunato Luchresi, em nenhum momento se mostrou feliz. Ele acertou uvas, safras, produtor, mas parece que esse esforço fez com que abandonasse o que Montresor não deixou escapar em nenhum gole: o enorme prazer de beber um bom vinho. E isso, no final, é o que importa.

Verdade verdadeira!

Confiram:
 

Sou mais a porrinha

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( Publicado originalmente no blog etílico Copoanheiros… )

Bicarato

No melhor estilo *espírito de porco*, conforme o próprio Luiz Antonio Simas, contador de Histórias Brasileiras, reproduzo aqui um textinho que é daqueles que me da a sensação de *por que não escrevi isso antes?* Tá, ok: não escrevi esse texto porque não tenho o conhecimento necessário, nem as referências culturais e de formação do Luiz — mas uma coisa temos em comum: o verdadeiro espírito democrático e esportista-de-boteco, ainda que eu reconheça que — como os melhores artífices dessa arte da porrinha — esteja um pouco desleixado e fora de forma. Nada, porém, que não possa ser devidamente sanado com poucas horas de boteco. Mas, valeu, Luiz! Te desafio, desde já, pra uma peleja — e te dou o benefício de ser o *mandante* do jogo. É só marcar o local =^)

Esporte de homem não é porrada. É porrinha.

Realmente não sou chegado a ver um bando de homens, dando pinta de que acabaram de escapar de uma gruta em Neanderthal, brigando. Por isso mesmo não assisti ao evento de luta livre (tem uma sigla pro treco, mas estou com preguiça de verificar qual é…) que ocorreu aqui no Rio. A última briga entre cariocas que me interessou foi entre os índios tamoios e temiminós, nos idos do século XVI , nas praias da Guanabara. Depois de Araribóia e Cunhambebe e seus respectivos tacapes eu não respeito homem nenhum saindo no braço.

Porrinha OlímpicaUm conhecido meu, durante um rápido encontro no Centro da cidade, tentou me convencer a assistir o confronto entre os egressos do Paleolítico Inferior com o argumento de que isso sim é “esporte de homem”. Respondi que esporte de homem, pra mim, nem o futebol é. Só mesmo a porrinha disputada nos botequins mais vagabundos merece essa alcunha. É por isso que reproduzo abaixo um texto que escrevi em 2010, logo depois da escolha do Rio de Janeiro como cidade olímpica: Porrinha nas Olimpíadas de 2016! E vai em negrito, pra fortalecer a campanha.

Existem vários tipos de espíritos que podem encostar e pegar o sujeito. Eu, por exemplo, que vim de uma família ligada ao espiritismo em suas vertentes macumbais – umbanda e encantaria – quando era pequeno ouvi da minha avó que era sempre bom pedir auxílio aos espíritos e entidades; eles viriam me ajudar. Tornei-me, então, devoto do espírito mais citado lá em casa: O espírito de porco. Fazia pedidos a ele.

Quando descobri, lá pelos sete anos, que o espírito de porco não era exatamente quem eu imaginava, mergulhei durante meses no mais absoluto materialismo e virei comunista. Foi o seguinte: Tomei um esporro da minha avó no dia em que perguntei a ela qual era o ponto que eu devia cantar para saudar o espírito de porco. Ela achou que era sacanagem minha. Posso, inclusive, confessar algo que só pretendia fazer ao médium de mesa branca depois da morte – o dia em que descobri que o espírito de porco não era uma entidade correspondeu, em termos de impacto, à notícia sobre a inexistência do Papai Noel para centenas de outras crianças.

Parêntese: Vejam como são as coisas. Comecei falando do espírito de porco quando, na verdade, pretendia escrever desde o início sobre outro espírito – o olímpico. Retomo no próximo parágrafo a ideia original.

A escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 20l6 despertou em mim forte vocação esportiva. Entusiasta dos esportes do Brasil, sou fã e praticante amador de um jogo fundamental para nossa gente brasileira, tão sofrida e adepta do desporto como instrumento de inclusão social: a porrinha [ou purrinha], também conhecida como basquete de bolso.

A porrinha é um esporte altamente sofisticado e democrático. Os estádios ideais para a prática são os botequins mais vagabundos. Cada atleta, em geral, inicia a peleja com três palitinhos. A partida começa quando os jogadores escondem uma certa quantidade de palitos numa das mãos e as estendem, fechadas, para a frente. Cada jogador dá, então, o seu palpite sobre quantos palitos estão no jogo. Ganha a rodada quem acertar o número exato de palitos.

A porrinha exige dos esportistas alguns atributos fundamentais: Sorte, inteligência para blefar e perceber o blefe e preparo físico para jogar enquanto quantidades generosas de cervejas e cachaças são consumidas durante o embate. Recomenda-se um trabalho de musculação para o fortalecimento da musculatura do bíceps, que sofrerá o impacto do peso dos palitos durante a refrega. O uniforme ideal para a prática do desporto é simples e consiste em bermuda, camiseta e sandália de dedo.

Pesquisas que fiz em compêndios e dicionários especializados indicam que a provável origem da porrinha é o antigo Império Romano. Os soldados de Roma costumavam praticar, nos intervalos das batalhas mais sangrentas, um jogo conhecido como Morra. O negócio consistia no seguinte: Os jogadores escondiam uma certa quantidade de dedos da mão direita às costas e diziam um número. Aquele que acertasse o número exato era o vencedor. O troço era popularíssimo e há relatos nas crônicas de Seleno de torneios realizados no Coliseu que terminaram em matanças tremendas.

Alguns especialistas defendem que o nome porrinha surgiu de uma expressão proferida por Santo Agostinho no século IV – Porro cum quo micas in tenebris ei liberum est, si veliti, fallere. Tradução: Com certeza, mesmo que avisado, podes enganar aquele com quem jogas morra no escuro. O latim porro, com o tempo, virou porra. A porra virou porrinha.

O Brasil transformou a velha porrinha romana em coisa nossa, como o samba, a prontidão e outras bossas. Introduzimos os palitinhos de dente ou fósforo no babado e consagramos o botequim como palco da disputa. Fizemos a mesma adaptação em relação ao futebol, o jogo sem graça dos ingleses que ganhou a ginga e o balacobaco canarinho.

É por isso que sugiro, com a maior seriedade, campanha em meios de comunicação e o esforço dos formadores de opinião para que a porrinha seja considerada esporte olímpico em 2016. Clamo pelo empenho do Doutor João Havelange, do presidente Lula, de Pelé e demais autoridades físicas e metafísicas para que o Comitê Olímpico Internacional faça justiça com o histórico esporte.

Não precisaremos, pensem nisso, sequer construir estádios. Aqui no Maracanã temos, por exemplo, o Bode Cheiroso, botequim com estrutura para sediar os embates. Imagino até o novo nome do estabelecimento: Complexo Olímpico Bode Cheiroso.

A memória dos grandes e falecidos atletas da porrinha de todos os tempos – Meu avô, Jorge Macumba, Seu Nilton, Manoelzinho Motta, Seu Vovô, Abecedário, João do Vale, Teté, Claudio Camunguelo, Dr. Castor de Andrade, Moisés Xerife, Candonga, Primo Pobre, Querido de Deus, Seu Sete Rei da Lira, Madame Satã, Camisa Preta, Julião Vem Cá Meu Puto, Wilson Batista, Almir Pernambuquinho… – poderá inclusive servir como instrumento de forte campanha de marketing para estimular a prática educativa do esporte entre nossa juventude.

Esporte de homem não é porrada. É porrinha.

Abraços

Que “Via Láctea” Nada, Agora é “Via Cevadis”!

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( Publicado originalmente no blog etílico Copoanheiros… )

Sandino

Australianos criam cerveja espacial


Cientistas australianos criaram uma bebida ideal para quando o turismo espacial se tornar realidade. De acordo com o site Geeky Gadgets, uma cervejaria local, um grupo da Aeronáutica e um professor criaram uma cerveja que pode ser consumida no espaço.

A cerveja espacial, chamada de 4 Pines, é mais encorpada e tem o gosto mais forte. Isso porque a língua dos astronautas incham durante a viagem e, dessa forma, fica mais fácil perceber o gosto da bebida. Outra característica da cerveja é a diminuição do gás que, quando é consumido no espaço, não consegue se separar da bebida, causando desconfortos estomacais.

 

Controlcesado e vesado daqui ó.