Sobre história, estátuas e a pandemia

Muita celeuma tem se feito e a temperatura encontra-se agitada nas redes sociais por conta do que aconteceu com a estátua de Borba Gato.

Mas, antes de começar esse proseio, cá entre nós: vocês sabem quem foi Borba Gato?

Manuel de Borba Gato (*1649 +1718) foi um bandeirante paulista, descobridor de ouro e que exerceu o cargo de juiz ordinário em Sabará, MG. Participou da Guerra dos Emboabas (conflito pelo direito de exploração das então recém-descobertas jazidas de ouro onde hoje é o estado de Minas Gerais) e era genro do bandeirante Fernão Dias Pais Leme (conhecido como o “Caçador de Esmeraldas”). Percorreu com o sogro as matas de São Paulo e do Mato Grosso e, mais tarde, a região de Minas Gerais, tendo encontrado ouro no Rio das Velhas. Ascendeu ao posto de Tenente-general do Mato e foi responsável pela organização da justiça, divisão das lavras de ouro e do envio dos impostos que correspondiam à Coroa Portuguesa. Era muito estimado pelos governadores de São Paulo, pois entregou várias permissões para explorações de minas, datas e lavras a amigos e parentes.

Bandeirantes como Borba Gato, Fernão Dias e Raposo Tavares fazem parte da formação histórica da cidade e do estado de São Paulo, sendo que seus nomes até hoje batizam ruas, avenidas, estradas e possuem estátuas no Museu Paulista. Afinal, foi por causa das bandeiras que os limites do Tratado de Tordesilhas foram alargados e a América Portuguesa cresceu, obrigando os soberanos de Portugal e Espanha a assinarem outros tratados a fim de resolver as questões de limites entre suas colônias na América.

Entretanto os benefícios históricos não têm o condão de apagar os malefícios cometidos, eis que um dos objetivos dessas expedições denominadas “bandeiras” era também o de caçar indígenas e escravizá-los, sendo que, muitas vezes, aldeias inteiras eram dizimadas e seus habitantes dispersados para sempre (resumo histórico da professora de história Juliana Bezerra no site TodaMatéria).

Agora que vocês já sabem quem foi Borba Gato e qual sua representatividade na história do Brasil – tanto para o bem quanto para o mal – então já têm condições de avaliar por si próprios essa ocorrência com relação à estátua de 13 metros que lhe foi erigida em Santo Amaro, capital paulista, no início da década de sessenta. Na tarde deste último sábado, dia 24, atearam fogo na estátua e um grupo denominado Revolução Periférica assumiu a autoria do ato, o qual foi exaustivamente veiculado nas redes sociais. Não é necessariamente uma novidade, pois em 2008 um grupo de moradores da cidade questionou o valor da homenagem a um homem de virtude tão duvidosa e propôs eliminar o monumento; também em 2020 a estátua foi pichada, pois muitos consideravam que uma pessoa que causou tanto sofrimento aos indígenas não mereceria ter sua imagem exposta em via pública (informações da reportagem de Daniela Mercier, no jornal El País).

Diante desse quadro duas correntes se criaram: aquela que repudia o que foi feito por se tratar de depredação a um monumento histórico; e aquela que apoia o que foi feito por se tratar de uma espécie de justiça tardia em defesa aos povos indígenas.

Ambas as correntes têm meu respeito – desde que suas convicções tenham se formado a partir da análise dos elementos históricos e não por meras opiniões desvencilhadas de fundamentos (que é o motivo pelo qual fomos conduzidos ao buraco em que estamos).

Particularmente sou integrante da terceira corrente.

Sou a favor de discutirmos a existência e até a substituição de monumentos desse tipo, mas não de meramente derrubá-los, num ato de selvageria. Já temos tecnologia para adentrar o espaço sideral e ainda assim, após milhares de anos de evolução, ainda voltamos à barbárie, com nossas tochas, ancinhos e forcados para “combater o mal”. Mas que “mal” é esse? Apenas a mera imagem do mal, que há décadas estava exposta e agora, por mera conveniência, oportunidade ou vontade de aparecer mereceu ser combatido? Ora, façam-me o favor!

É como esse negócio de “rediscutir” as obras de literatura de antigamente, reescrevendo-as de acordo com o que hoje se julga politicamente correto. Os livros, pelas histórias e estórias que contam, por si só são o retrato de uma época. Esse retrato pode ser bonito ou não, mas não vai deixar de ser um retrato e o que aconteceu à época não vai deixar de existir só porque resolvemos contar de um jeito diferente. Se pararmos para pensar bem, essa questão das estátuas homenageando o que hoje julgamos facínoras é um bom exemplo pra isso: tentaram recontar a história e construíram monumentos para pessoas que, à época, eram “heróis” e “desbravadores”, mas que aos olhos de hoje não passariam de bandidos e exploradores da miséria humana.

É óbvio que Borba Gato destruiu nações inteiras ao longo dos mais de vinte anos que duraram suas bandeiras. Não tenho nem ideia de qual foi o número de indígenas massacrados e povos dizimados no decorrer desse período. Mas respondam-me com sinceridade: será que em algum momento durante esse período ele teria conseguido o “prodígio” de ser responsável, quer seja por sua ação ou omissão, pela morte de mais de meio milhão de pessoas em menos de um ano e meio?

Vocês querem discutir a derrubada de imagens de genocidas? Então sugiro que comecem a ler os jornais, assistir os noticiários e a acompanhar fontes confiáveis de informação. O principal genocida a ser derrubado não é o da imagem de décadas atrás, mas sim aquele que está confortavelmente sentado em sua cadeira levando nosso país à bancarrota. E, pior, se divertindo com isso. Fazendo troça e espalhando mentiras (“fake news” é muito chique, pois mentira é mentira, não importa o nome que se lhe dê).

Enfim, antes de se postarem como defensores ou indignados pelo que foi feito a uma mera escultura, sugiro que se questionem profundamente se já não passou da hora de retomarmos as rédeas de nossa nação, o que somente vai ter início se destituirmos aqueles que desejam o poder pelo poder, somente em benefício de si e dos seus, ignorando a gigantesca massa da população que a cada dia se vê numa situação pior, sendo paulatinamente dizimada, tal e qual o sofrimento impingindo pelos bandeirantes de antigamente.

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Agora que já conversamos com seriedade, vamos relaxar, pois este aqui é um blog que continua tentando trazer algum entretenimento para vocês. A respeito dos bandeirantes uma de minhas tirinhas preferidas foi feita por Laerte, na edição nº 1 da revista Piratas do Tietê, em 1990, quando ao chegar nessas paragens paulistanas quem foi que eles encontraram? O Capitão e sua tripulação, é claro! E cá entre nós, adorei a “negociação”! 😀

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Mas melhor ainda foi a estória contada também pela Laerte e publicada na edição nº 12 da revista Piratas do Tietê, em 1992, sob o título “Bandeirantes do Pinheiros”, onde, com muito bom humor – e um tanto mais de sarcasmo – ela nos conta como foi que se deram as bandeiras através dos tempos. Confiram!

Plantinhas

Como eu já havia comentado antes, A Dona Patroa se tornou uma viciada em suculentas! E não, não é nada dessa besteira que você pensou aí, não! É que no ano passado ela resolveu que iria presentear a cada uma das mães lá da Igreja Holiness com um vasinho de suculenta e então, desde dezembro, começou a cultivá-las. Apenas algumas dezenas já seriam o suficiente. Mas veio a pandemia, o isolamento, o Dia das Mães chegou e passou e as suculentas continuaram aqui em casa. Inclusive se multiplicando. E ela se encantou com sua variedade. E ela arranjou mais suculentas – “Ah, desse tipo eu ainda não tenho!” – e o negócio foi se aumentando cada vez mais. E eis que na última contagem que fiz ali na varanda (já há alguns meses) tínhamos nada menos que 166 vasinhos de suculentas! É ou não é um vício?

E eis que descobri que o Fábio Coala, um excelente cartunista/chargista/desenhista/artista (ou seja lá como queira ser chamado) tem o mesmo tipo de “problema” em casa, pois a Senhora Coala também é uma amante de plantinhas, mudinhas e outros quetais, o que rendeu – até o momento – uma série bem divertida do que é o dia a dia com essas adoráveis criaturas que têm o “dedo verde”…

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Seja você também um herói

Se você é um daqueles que acredita que é “só uma gripezinha”, que esse negócio não se transmite tão fácil, que o pior já passou, que a cloroquina é sua tábua de salvação, ou qualquer outra dessas “verdades absolutas”, por gentileza, pode parar de ler por aqui. Adeus.

Continuou?

Pois bem. Aproveitando uma ideia lá do blog dois:pontos, do Hélcio Costa, acerca de máscaras e heróis – e não vamos aqui tratar dos “heróis de verdade”, ou seja, médicos, enfermeiros, bombeiros, policiais (alguns) -, quero demonstrar que, mesmo no mundo dos quadrinhos, os heróis e super-heróis podem pisar na bola nessa época de pandemia.

Vejamos alguns dos principais personagens desse universo:

Nota Zero: Superman, Supergirl, Mulher Maravilha, Aquaman, Ajax, Capitão Átomo, Shazam, Doutor Estranho, Thor, Viúva Negra, Capitã Marvel, todo o Quarteto Fantástico e até mesmo o poderoso Hulk. Nenhum, NENHUM, deles usa máscara em nenhum momento. No afã de salvar a tudo e a todos, não só estão correndo o risco de contrair o Coronavírus, como também – pior – se algum deles for portador (e que talvez não venha a ter nenhum sintoma devido aos seus poderes) será um vetor de contaminação para toda a sociedade. Lamentável.

Nota Um: Arqueiro Verde, Lanterna Verde, Batman, Robin, Batgirl, Ciborgue, Flash, Capitão América, Wolverine, Demolidor, o lendário Zorro e até mesmo o antiquíssimo Mightor. Na realidade a nota também deveria ser ZERO, mas estou dando um desconto pelo fato de que pelo menos alguma máscara existe. Mas os riscos de contaminação são exatamente os mesmos do grupo anterior, pois equivale àquelas pessoas que apesar de sair para as ruas com máscara, ainda assim a utilizam de forma errada, deixando o nariz de fora ou simplesmente com a singela função de segurar a papada do queixo.

Nota Cinco: Homem de Ferro. É. Só ele e mais nenhum outro nesta categoria. Poderia até ser uma nota dez, mas como o ego do Tony Stark é gigantesco, a maior parte das vezes que ele está de armadura e vai conversar com alguém, levanta a máscara e expõe seu rosto. E com isso, os olhos, o nariz, a boca e todos os perdigotos que puder lançar no ar e para quem quer que esteja na sua frente.

Nota Dez: Spawn e Homem Aranha. Estes são os campeões! O primeiro não tira a máscara nunca, pois é um ser infernal feio de doer, enquanto que o Peter Parker, apesar de toda sua coragem, morre de medo que descubram sua verdadeira identidade. Com isso não correm risco de se contaminar nem de contaminar ninguém. Parabéns!

Enfim, a brincadeira é essa, mas o negócio é sério. Na vida real não podemos nos dar ao luxo de correr o risco: nem de contrair, nem de contaminar. Então seja você também um herói. Use máscara. Sempre. E só para não deslembrar:

Asterix ajuda a entender o Capitalismo

Sérgio Domingues
em Janeiro de 2004

Comparar Obelix e Companhia, de Goscinny e Uderzo, às obras de Marx, Engels, Lênin, Rosa, Trotski, Gramsci, não tem nenhum sentido. Mas, essa pequena obra-prima em quadrinhos merece a atenção de quem luta contra o capitalismo.

“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum, e Petibonum…”

A apresentação acima acompanha todos os álbuns de Asterix, personagem do italiano Albert Uderzo e do francês René Goscinny. A série de 31 álbuns é um dos exemplos do que há de melhor na literatura em quadrinhos.

O que a introdução não explica é que os “irredutíveis” gauleses devem sua invencibilidade a uma poção mágica. A bebida dá aos aldeões uma enorme força física e seus efeitos duram o suficiente para destruir qualquer tentativa romana de conquistar a aldeia. Esta, na verdade, simboliza o nacionalismo francês.

Cada álbum da dupla é uma obra-prima feita de belos traços e cores, humor, roteiro, ironia, conhecimento histórico e muita inteligência. Mas um deles é tudo isso e ainda pode ser usado para mostrar como as relações capitalistas podem corroer laços comunitários de convivência. Trata-se de Obelix e Companhia.

Clique na imagem para baixar a revista!
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A história começa com a imagem da fortificação de Babaorum, a mais próxima da aldeia gaulesa (Prancha 1-A). As legiões romanas, famosas por sua disciplina e dedicação, estão entregues à mais terrível indisciplina e ao mais completo ócio. Só esperam a chegada das legiões que ficarão em seu lugar. As razões? A desmoralização diante das sucessivas surras tomadas dos gauleses.

Vou fazer algumas observações a que chamarei de parênteses. Os leitores que os acharem desnecessários ou quiserem tirar suas próprias conclusões, podem seguir o texto principal sem prejuízos para a compreensão da história.

Enquanto isso, César, em Roma, está desesperado por uma saída para o impasse diante da aldeia de Asterix. Convocou senadores e patriarcas para aconselhá-lo na tarefa. Dentre estes, está Regius Velhacus, recém formado pelo “reformatório de ensino superior”. Ele propõe a César derrotar os gauleses por meios não militares. Através da corrupção pelo ouro. César se interessa.

Mas, um dos presentes discorda. Diz que o melhor ainda é a boa e velha força bruta. Ao ouvir isso, César diz a ele: “Sim, Pediculus, eu me lembro! Você era um jovem tribuno corajoso, audaz, até pensava nos problemas do povo…Agora, com o ouro dos saques, veja em que você se transformou!” Depois, dirigindo-se a todos: “Sim! Vejam o que o ouro, as vilas, as orgias, as comissões na compra de armas fizeram de vocês! Gordos e decadentes!…” (Prancha 9-A)

César vira-se para Velhacus e pergunta: “Você acha que pode transformar aqueles gauleses em algo parecido com isso?”, apontando para os gordos patriarcas. A resposta: “Pode crer! Eles vão lutar por outra coisa e nunca mais para defender sua aldeia!” (9-B).

Os primeiros parênteses: há, nos Estados Unidos, quem defenda um modo mais eficiente de acabar com o regime cubano do que o embargo econômico. Bastaria estabelecer as mais amplas relações comerciais com a ilha. O efeito corrosivo da presença dos produtos capitalistas mais avançados colocaria por terra um sistema de poder que usa como pretexto a penúria a que o povo cubano foi condenado pela brutalidade norte-americana. Esta aventura de Asterix poderia dar razão à tese.

Velhacus parte para a Gália. Por acaso, encontra Obelix na floresta que separa a fortificação romana da aldeia gaulesa. Como sempre, o grande gaulês carrega um menir(1) de sua própria fabricação. Velhacus encontra o pretexto para por seu plano em ação. Compra o menir e pede para entregar mais um na fortificação romana no dia seguinte. Obelix faz mais um menir e o leva a Velhacus. Este lhe diz que vai pagar o dobro do que pagara pelo anterior. Diante do espanto de Obelix, o romano explica as razões do aumento nos seguintes termos: “… problemas de da economia, fluxo de oferta e demanda…reversão atípica das expectativas. Flutuação cambial…é complicado” (13-A).

Javali é o prato preferido na aldeia e o único item na gordurosa dieta de Obelix. Mas com o aumento das encomendas de menires, Obelix já não tem tempo para caçar. Se vê obrigado a oferecer dinheiro a um outro aldeão, Analgesix, para caçar javalis para ele.

Asterix estranha a intensa produção de menires e questiona Obelix. Este dá sua explicação nos termos em que aprendeu a pensar com Velhacus: “…Se a demanda for igual à quantidade de bens produzidos, divididos pela quantidade de moeda boa, multiplicada pela quantidade de moeda má que sai de circulação, os preços cairão” (15-B).

A vida da aldeia começa a entrar em colapso. Obelix recebe cada vez mais dinheiro de Velhacus. Passa a contratar gente para ajudá-lo na fabricação de menires. Ao mesmo tempo, outros aldeões são desviados de suas funções normais para caçar javalis. Estes são vendidos para quem não tem tempo de caçar por estar trabalhando para Obelix.

Ao sair para caçar, Asterix descobre que a floresta está apinhada de caçadores de javalis devido ao surgimento da troca de javalis por dinheiro.

As relações conjugais também não vão bem. Uma das mulheres da aldeia se insinua para Obelix, uma vez que ele comprou todo os belos tecidos do mercador que visita a aldeia regularmente. Obelix a contrata para fazer-lhe uma roupa. O marido cobra o almoço. Mas ela se nega a preparar a refeição porque está costurando para Obelix. “Como não posso contar com você, preciso arranjar um meio de ganhar dinheiro”, diz ela. (23-B e 24-A).

Mais parênteses: o enredo mostra como a forma de troca de mercadorias entre os aldeões vai se alterando. Antes eram trocas entre produtores diferentes. O peixeiro comprava do ferreiro, mas este também seria fornecedor do peixeiro, quando ele precisasse de uma nova balança ou de facas. O dinheiro está presente, mas seu caráter intermediário é mais claro. Com a especialização da aldeia na fabricação de menires, todo o resto começa a girar em sua órbita. Já não circulam produtos e serviços através do dinheiro, mas dinheiro através de produtos e serviços. Há uma passagem de O Capital, de Marx que diz: “… uma mercadoria não se torna dinheiro somente porque todas as outras nela representam seu valor, mas, ao contrário, todas as demais nela expressam seus valores, porque ela é dinheiro. Ao se atingir o resultado final, a fase intermediária desaparece sem deixar vestígios. (…) Ouro e prata já saem das entranhas da terra como encarnação direta de todo trabalho humano. Daí a magia do dinheiro.”

Asterix sente que está em andamento um plano para desunir a aldeia. Prepara a reação. Estimula todos os moradores a entrar no negócio dos menires para concorrer com Obelix. A confusão aumenta. O ferreiro, o peixeiro, o quitandeiro, todos largam suas tarefas tradicionais para também fabricar menires. Ao entusiasmo geral pela nova atividade, Asterix adiciona um aumento de produtividade através do uso da mais avançada “tecnologia” local: a poção mágica. O resultado são entregas cada vez maiores ao acampamento romano.

A consequência é que César começa a se desesperar com a quantidade de menires que chega a Roma. Velhacus o tranquiliza. Diz que vai estimular a compra de menires, usando um marketing todo específico: “As pessoas compram, diz ele, A – o que é útil, B – o que é confortável, C – o que é agradável, D – o que causa inveja nos vizinhos. Está no item D o ponto básico da campanha.” Propõe a massificação. Cita as qualidades que devem ser ressaltadas: “A – durabilidade, B – ineditismo e C – outras qualidades que ainda vou descobrir” (32-A).

A prancha 34-A mostra Velhacus apresentando a César os produtos que inventou para transformar a posse de menires em moda: Togas com menires bordados, relógios solares com ponteiros em forma de menir, jóias com o mesmo motivo e um estojo “faça você mesmo” com martelo e talhadeira para uso familiar.

Parênteses: É uma ideia comum a de que o capitalismo inventa coisas desnecessárias para serem vendidas. No entanto, esta é uma discussão complexa. Qual o limite entre o que é estritamente necessário e o que passa a ser supérfluo? Muito difícil de determinar. Claro que alimento, vestuário e habitação poderiam ser considerados o nível mais básico. Mas em regiões muito quentes, a nudez total seria a regra? Não é o que se verifica. Mesmo entre indígenas em regiões tropicais, os adereços e acessórios simbólicos fazem parte da vida social. Não há uma relação direta entre necessidade e uso. Além disso, hoje já é muito comum ver tribos inteiras vestidas com roupas urbanas, mesmo que não sejam necessárias devido ao clima. Aí, já entra o fator da dominação cultural.

Em O Capital, ao discutir quanto deve ser a soma dos meios necessários para manter a vida normal de um trabalhador, Marx diz que “a soma dos meios de subsistência deve ser (…) suficiente para manter no nível de vida normal do trabalhador”. Mas, adverte que um elemento histórico e moral entra na determinação desse valor. É o caso de indígenas vestidos com camisas do Flamengo, usando relógios de pulso e consumindo bebidas e comidas estranhas à sua tradição e, teoricamente, inadequadas ao ambiente em que vivem.

Mas nem tudo dá certo. Começam a aparecer contradições. Um fabricante romano de menires inicia um movimento protecionista. O fabricante, que se chama Malentendidus, é questionado por César: “Que história é essa?” O fabricante responde: “Os menires gauleses estão colocando em risco a sobrevivência da classe empresarial”. César discorda: “Mas quem fabrica são os escravos”. Malentendidus: “Justamente! O trabalho duro é o único direito do escravo! Não podemos lhes tirar esse direito!” (34-B e 35-A).

A situação evolui para ações concretas. Uma barreira é colocada na entrada de Roma. Numa faixa está escrito “Menires Gauleses Go Home” (35-B).

Parênteses: Um momento muito feliz dos autores. Primeiro, antecipam em pelo menos 15 anos (o álbum é de 1976) as contradições entre a globalização e os interesses de setores nacionais burgueses. Um famoso representante desses setores é José Bové(2), que é francês e lembra Asterix. Em segundo lugar, os escravos romanos não poderiam ter direitos, pois eram considerados coisas. Do ponto de vista formal e real, equivaliam a animais de tração. Portanto, Goscinny e Uderzo devem estar se referindo aos proletários atuais. Estes acreditam ter direitos. Mas só os têm do ponto de vista formal. Do ponto de vista real, seu único grande direito é o trabalho duro. Basta notar que em tempos de ditadura ou de ataque aos trabalhadores, direitos como o voto ou o salário-desemprego podem ser rapidamente suprimidos. Mas o direito a ser explorado continua valendo, nem que seja de modo informal e precário.

As táticas consumistas de Velhacus perdem fôlego. Menires começam encalhar nos estoques e a ser vendidos em liquidação. “Em cada compra de um escravo, dois menires de graça”, diz um anúncio talhado em mármore (37-A).

César pega Velhacus pelos colarinhos, chacoalha e diz: “Foi por sua causa que quase abri falência e quase entramos em guerra civil! Nem mesmo Brutus me prejudicou tanto!” (37-B). Despacha o marqueteiro para a Gália para resolver o problema. Lá chegando, Velhacus simplesmente suspende a compra de menires.

Ao descobrir que os romanos já não querem comprar mais menires, os gauleses começam a se desentender. Uns acusando os outros de concorrência desleal. Mas Asterix lhes faz notar que os verdadeiros culpados são os romanos. Convida-os a acertar tudo com eles. A prancha 43-A mostra Os gauleses entrando numa coluna arrasadora pela fortificação de Babaorum, destruindo tudo e colocando os romanos em fuga. Inclusive, Velhacus.

A cena final é aquela que fecha todas as aventuras de Asterix. Um grande banquete, com muito vinho, os inevitáveis javalis e muita diversão. Só não há música porque o único bardo da aldeia tem uma voz horrível. Durante os banquetes, fica amordaçado e amarrado a uma árvore.

Parênteses de encerramento: Podemos entender a vitória gaulesa sobre a estratégia de Velhacus como a impossibilidade de que relações capitalistas se estabelecessem naquele momento histórico. Ainda citando O Capital, Marx diz que “só aparece o capital quando o possuidor de meios de produção e de subsistência encontra o trabalhador livre no mercado vendendo sua força de trabalho, e esta única condição histórica determina um período da História da humanidade.” Essas condições não aparecem nem em Roma, em que a força de trabalho é escrava, nem na aldeia, em que os moradores possuem seus próprios meios de produção (ou de subsistência através da caça e da coleta). Voltando ao exemplo cubano, a ilha governada por Fidel apresenta as duas condições. Força de trabalho assalariada e meios de produção controlados pelo Estado e não pelos trabalhadores.

Mas é claro que os geniais criadores de Asterix não pretendiam qualquer exatidão histórica. O domínio do formato satírico lhes deu liberdade para fazer a crítica de aspectos da atual sociedade capitalista em plena antiguidade romana. E o fizeram de forma magistral através de um material bonito, divertido e fácil de assimilar. Que tal usá-lo em cursos de formação?

Notas:

(1) Segundo o dicionário Houaiss, menir é um monumento megalítico do período neolítico, geralmente de forma alongada, altura variável (até cerca de 11 m) e fixado verticalmente no solo. Podia servir de marco astronômico. Também pode representar o totem ou outros espíritos, frequentemente apresentando traços figurativos.

(2) José Bové é criador de ovelhas e líder da Confederação Camponesa da França. Tornou-se conhecido em 1999 ao liderar a invasão de uma lanchonete McDonald’s na França em protesto contra a globalização econômica. No final do mesmo ano, em Seattle, nos Estados Unidos, Bové participou de manifestações contra a Organização Mundial do Comércio (OMC). Participa dos Fóruns Sociais Mundiais.