O Pai

Rubem Alves

Pois eu não tinha intenção alguma de escrever sobre o dia dos pais. Mas, de repente, passando os olhos num livro que uma amiga me enviou, encontrei a seguinte afirmação: “Tomar uma decisão de ter um filho é algo que irá mudar sua vida inteira de forma inexorável. Dali para frente, para sempre, o seu coração caminhará por caminhos fora do seu corpo”.

Aí as ideias puseram a se movimentar por conta própria. Pensei na minha condição de pai. É verdade: pai é alguém que, por causa de um filho, tem sua vida inteira mudada de forma inexorável. Isso não é verdadeiro do pai biológico. É fácil demais ser pai biológico. Pai biológico não precisa ter alma. Um pai biológico se faz num momento. Mas há um pai que é um ser da eternidade: aquele cujo coração caminha por caminhos fora do seu corpo. Pulsa, secretamente, no corpo do seu filho (muito embora o filho não saiba disto).

Lembrei-me dos meus sentimentos antigos de pai, diante dos meus filhos adormecidos. Veio-me à mente a imagem de um “ninho”. Bachelard, o pensador mais sensível que conheço, amava os ninhos e escreveu sobre eles. Imaginou que, “para o pássaro, o ninho é indiscutivelmente uma cálida e doce morada. É uma casa de vida: continua a envolver o pássaro que sai do ovo. Para este, o ninho é uma penugem externa antes que a pele nua encontre sua penugem corporal”. Era isso que eu queria ser. Eu queria ser ninho para os meus filhos pequenos. Queria que meu corpo fosse um ninho-penugem que os protegesse, um ninho que balança mansamente no galho de uma árvore ao ritmo de uma canção de ninar…

Que felicidade enche o coração de um pai quando o filho que ele tem no colo se abandona e adormece! Adormecida, a criança está dizendo: “tudo está bem; não é preciso ter medo”. Deitada adormecida nos braços-ninho do seu pai ela aprende que o universo é um ninho! Não importa que não seja! Não importa que os ninhos estejam todos destinados ao abandono e ao esquecimento! A alma não se alimenta de verdades. Ela se alimenta de fantasias. O ninho é uma fantasia eterna. Jung deveria tê-lo incluído entre os seus arquétipos! “O ninho leva-nos de volta à infância, a uma infância!” (Bachelard). Aquela cena, a criança adormecida nos braços do pai, nos reconduz à cena de uma criancinha adormecida na estrebaria de Belém! Tudo é paz! Desejaríamos que ela, a cena, não terminasse nunca! Que fosse eterna!

É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de uma criança. É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de um pai. O efêmero e o eterno abraçados num único momento! “Conter o infinito na palma da sua mão e a eternidade em uma hora”: o pai que tem o seu filho adormecido nos seus braços é um poeta! Essas palavras do poeta William Blake bem que poderiam ser suas. Um homem que guarda memórias de ninho na sua alma tem de ser um homem bom. Uma criança que guarda memórias de um ninho em sua alma tem de ser calma!

Mas logo o pequeno pássaro começará a ensaiar seus voos incertos. Agora não serão mais os braços do pai, arredondados num abraço, que irão definir o espaço do ninho. Os braços do pai terão de se abrir para que o ninho fique maior. E serão os olhos do pai, no espaço que seus braços já não podem conter, que irão marcar os limites do ninho. A criança se sente segura se, de longe, ela vê que os olhos do seu pai a protegem. Olhos também são colos. Olhos também são ninhos. “Não tenha medo. Estou aqui! Estou vendo você”: é isso o que eles dizem, os olhos do pai.

O que a criança deseja não é liberdade. O que ela deseja é excursionar, explorar o espaço desconhecido – desde que seja fácil voltar. Tela de Van Gogh. É um jardim. No lado direito do jardim, mãe e criança que acabam de chegar. Ao lado esquerdo o pai, jardineiro, agachado com os braços estendidos na direção do filho. É preciso que o pai esconda o seu tamanho, que ele esteja agachado para que seus olhos e os olhos do seu filho se contemplem no mesmo nível. A cena é como um acorde suspenso, que pede uma resolução. É certo que o filho largará a mão da mãe e virá correndo para o pai… E a fantasia pinta a cena final de felicidade que o pintor não pode pintar: o pai pegando o filho no colo, os dois rindo de felicidade…

O tempo passa. Os pássaros tímidos aprendem a voar sem medo. Já não necessitam do olhar tranquilizador do pai. É a adolescência. Ser pai de um adolescente nada tem a ver com ser pai de uma criança. Pobre do pai que continua a estender os braços para o filho adolescente, como na tela de Van Gogh! Seus braços ficarão vazios. Como se envergonharia um adolescente se seu pai fizesse isso, na presença dos seus companheiros! É o horror de que os pássaros companheiros de voo o vejam como um pássaro que gosta de ninho! Adolescente não quer ninho. Adolescente quer asas. Os ninhos, agora, só servem como pontos de partida para voos em todas as direções. Liberdade, voar, voar… A volta ao ninho é o momento que não se deseja. Porque a vida não está no ninho, está no voo. Os ninhos se transformam em gaiolas. Se eles procuram os olhos dos pais não é para se certificar de que estão sendo vistos mas para se certificar de que não estão sendo vistos! Aos pais só resta contemplar, impotentes, o voo dos filhos, sabendo que eles mesmos não podem ir. Nos espaços por onde seus filhos voam os ninhos são proibidos. Mas eles terão de voltar ao ninho, mesmo contra a vontade. E o pai se tranquiliza e pode finalmente dormir ao ouvir, de madrugada, o barulho da chave na porta: “Ele voltou…”

Quem é pai tem o coração fora de lugar, coração que caminha, para sempre, por caminhos fora do seu próprio corpo. Caminha, clandestino, no corpo do filho. Dito pela Adélia: “Pior inferno é ver um filho sofrer sem poder ficar no lugar dele.” Dito pelo Vinícius, escrevendo ao filho: “Eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua…”

Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora

Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.

Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira…

Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…

Trabalho é dignidade

[Eis uma resenha saborosíssima publicada em 2015 pelo amigo virtual Jarbas Novelino lá no BTS – Boletim Técnico do Senac e também disponível em seu blog Boteco Escola. Dá no que pensar. Muito. Eu mesmo, por mais que seja apaixonado pelo trabalho que desenvolvo na área de licitações públicas – afinal de contas trata-se do desenvolvimento de todo um procedimento revestido de uma estrutura jurídica visando atingir algum fim específico para viabilizar que o Poder Público tenha a capacidade de atender à população –, ainda assim por diversas vezes já pensei em voltar aos românticos tempos da adolescência, quando meu maior prazer era trabalhar numa bicicletaria de bairro da periferia, de sol a sal, sujo de graxa, com pouca grana, mas extremamente realizado a cada serviço concluído. Feliz mesmo. Leiam. De minha parte vou ver se encontro esses livros por aí…]

CRAWFORD, Matthew B. Shop Class as Soulcraft: An inquiry into the value of work. New York: Penguin Books, 2009. 245 p.

GUILL, Michael Gates. How Starbucks Saved My Life: A son of privilege learns to live like everyone else. New York: Gotham Books, 2007. 266 p.

Trabalho é Dignidade: Visita a uma cafeteria e a uma oficina mecânica

O título desta resenha é uma afirmação do escritor F. Scott Fitzgerald, utilizada por Michael Gates Gill para definir o trabalho duro, intenso e comprometido de seus companheiros numa casa de café em Nova Iorque. Boa parte dos companheiros de Gates é composta por jovens negros que tiveram infância e adolescência vividas em duras condições dos bairros degradados da grande cidade americana. No trabalho e pelo trabalho, esses jovens ganharam a dignidade que lhes foi negada desde o nascimento. A afirmação de Fitzgerald é um convite para reflexões sobre relações entre o trabalhador e suas atividades. Trabalhar pode ser apenas um meio de ganhar a vida, mas pode também ser um modo de estar no mundo como um cidadão ou cidadã que tem orgulho do que faz.

O trabalho tem valores que lhes são intrínsecos. Pode ser uma atividade que nos traz muita satisfação, ou pode ser uma atividade vista apenas como meio de ganhar a vida. Neste último caso, ele produz a famosa síndrome da sexta feira, identificada em expressões de alívio de trabalhadores que proclamam alegria por escapar da chatice de suas profissões nos finais de semana.

Há quem sugira que a satisfação no trabalho deve ser responsabilidade do trabalhador. Nessa linha, competiria ao profissional descobrir como ele pode dar sentido ao que faz, não importando muito a natureza e conteúdo de suas atividades. Essa solução de tons moralistas não leva em conta o conteúdo do trabalho. De acordo com ela, qualquer profissão pode ser digna, dependendo da maneira pela qual o profissional lhe dá significação.

Estudos clássicos sobre degradação do trabalho como o de Paul Willis (1991) e o de Jean Rousselet (1974) mostram trabalhadores totalmente insatisfeitos com o que fazem para ganhar a vida. Na pesquisa feita por Willis junto a adolescentes ingleses de extração operária, as reações a propostas conformistas de valorização de um trabalho degradado são caracterizadas por revolta e ironia. No estudo feito por Rousselet sobre a situação laboral francesa no pós 68, o trabalho é visto com extremo pessimismo. Convém aqui oferecer uma mostra das observações feitas pelo sociólogo francês:

O fato de serem os valores relacionados com o trabalho os mais ameaçados hoje em dia não encontra apenas explicação no aparecimento de novas necessidades de consumo ou na generalização das inquietações juvenis.

Se tantos jovens, e até adultos, não hesitam em testemunhar nas suas opiniões ou condutas uma surpreendente indiferença por essa forma de atividade humana [trabalho], considerada, outrora, como essencial, é porque também, por seu lado, o progresso tecnológico começa a esvaziar a atividade laboral de significado moral, desumanizando-a de forma desordenada. (ROUSSELET, p. 137)

Essa visão pessimista do destino do trabalho na sociedade que se convencionou de chamar de pós-industrial perpassa toda a obra de Rousselet. Mais à frente, o autor observa:

O frequente exemplo das derrotas de toda a espécie só reforça em grande parte da juventude a ideia de que não existe, de fato, qualquer possibilidade razoável para a maioria dos trabalhadores escapar à mediocridade de sua condição e do determinismo sociocultural (ROUSSELET, p.172)

Análises como as de Willis e Rousselet não são muito lembradas nos dias de hoje. Elas contrariam o otimismo que predomina entre os formadores de opinião, educadores inclusos, que promovem a visão de que o trabalho está cada vez mais complexo, criativo e interessante por causa do ingresso crescente de tecnologia nas atividades produtivas. Há, porém, autores que apresentam um panorama em que a introdução de novas tecnologias segue caminho inverso, tendo como resultado empobrecimento do conteúdo do trabalho.

O trabalho numa oficina mecânica

Uma análise do valor do trabalho que merece atenção apareceu num livro que se tornou bestseller nos Estados Unidos: Shop Class as Soulcraft: An inquiry into the value of work, de Matthew B. Crawford.

Para apreciar Shop Class as Soulcraft é preciso inicialmente considerar quem é seu autor. Os pais de Crawford viveram intensamente os movimentos sociais dos anos sessenta. Seu pai é um cientista que pesquisa e ensina física em grandes universidades dos EUA. Sua mãe é uma ativista social que passou boa parte da vida em comunidades hippies. Na infância e adolescência, o autor não conheceu lares convencionais, pois vivia com a mãe nas comunidades das quais ela era membro muito ativo. Antes de iniciar seus estudos de segundo grau, Matthew Crawford trabalhou como eletricista. E em seus tempos de estudante, voltava a canteiros de obras nas férias de verão para exercer seu ofício na construção civil. No final da juventude, ele se interessou por mecânica de automóveis e, durante algum tempo, esteve empregado numa oficina que preparava carros de corrida. Matthew graduou-se em física. Em seus tempos de universidade encantou-se com filosofia e acabou fazendo mestrado e doutorado nessa área de conhecimento.

Após o doutorado, Crawford conseguiu emprego como executivo de uma organização não governamental, mantida por empresas da área de energia, que atua no campo de pesquisas sobre meio ambiente. Mas, ele não permaneceu muito tempo nesse emprego de prestígio e bem remunerado. Depois de sete meses à frente da organização, pediu demissão, comprou uma oficina de reparo de motos antigas e começou a ganhar a vida como mecânico. Cabe reparar que durante seus estudos de pós-doutorado, Crawford passava boa parte do tempo reparando motos num porão que ele alugou para exercer suas atividades no campo da mecânica.

O livro de Crawford analisa o trabalho a partir das experiências de vida do autor, um intelectual que resolveu deixar a academia para reparar motos que, muitas vezes, já saíram de linha ou cujas fábricas não mais existem. Esse destino profissional não é fruto de algum desastre ou de falta de oportunidades. É uma escolha motivada pela compreensão do que é o trabalho e de que atividades podem ser intelectualmente desafiadoras e psicologicamente compensadoras.

O título do livro faz referência a um ambiente que era comum em escolas americanas na primeira metade do século XX, a oficina (shop class). A Escola Nova e certa saudade das virtudes que eram atribuídas ao trabalho artesanal levaram as escolas americanas a instalar em seus prédios oficinas onde predominavam atividades de marcenaria e mecânica. Tais oficinas não tinham finalidade de capacitar trabalhadores por meio de engajamento dos alunos em atividades que exigiam produção manual de obras, mas a de garantir aprendizagens de valores importantes relacionados com o trabalho. Dos anos de 1970 para cá, há um número expressivo de ferramentas de qualidade em lojas que vendem artigos de segunda mão. Boa parte dessas ferramentas vem de oficinas escolares que foram desativadas. Em seu lugar surgiram laboratórios de informática.

A desativação das oficinas em escolas americanas vem acontecendo em nome daquilo que se convencionou chamar de sociedade do conhecimento. Crawford vê a medida como um engano dos educadores e dos formadores de opinião. Para ele, o fim das oficinas sinaliza falta de compreensão quanto ao significado do trabalho manual. Em sua análise, o autor lembra observação de um dos filósofos de Mileto, Anaxágoras: “somos mais inteligentes que os outros animais porque usamos nossas mãos”. O autor também faz referência à fenomenologia de Heidegger, lembrando que os objetos que manipulamos revelam saberes que estão nas coisas. Essas observações são alguns dos argumentos que Crawford utiliza ao mostrar acerto de sua decisão em deixar um cargo executivo muito bem remunerado para passar boa parte do dia com as mãos sujas de graxa reparando motos. Voltarei a esse contraste entre o trabalho numa oficina e o trabalho na gestão de uma organização que articulava saberes científicos para justificar decisões de empresas da área de energia. Mas, antes disso, convém examinar outros temas que o autor desenvolve em seu livro.

O protótipo de local de trabalho hoje é um espaço onde o profissional dispõe de uma mesa, um computador e outros instrumentos de informação. A visão otimista vê em tal espaço um local típico da sociedade da informação. Crawford, com alguma ironia, apelida tal espaço de cubículo, fazendo referência a Dilbert, The Office, uma história em quadrinhos que mostra os absurdos da vida dos trabalhadores em ambientes burocráticos. Logo depois que concluiu o mestrado, ele acabou conseguindo um emprego numa empresa que produzia resenhas de artigos científicos para sistemas acadêmicos de informação. Ao ingressar em tal atividade no Vale do Silício, o jovem mestre acreditava que faria um trabalho intelectual significativo. Acreditava que sua aprendizagem nos estudos universitários seria expandida com a leitura dos trabalhos científicos que ele deveria fazer para produzir resenhas. Mas, essa esperança logo se desfaz. A empresa de informação que o contratou criou um padrão de resenhas que mecanizou o trabalho. Além disso, estabeleceu cotas absurdas de produtividade. Ao atingir a competência esperada, o autor tinha a inacreditável meta de resenhar 28 artigos diariamente. Cabe aqui uma observação incidental. Na literatura de ficção científica, produção automatizada de textos é explorada no romance de ficção científica The Tin Man (FRAYN, 1965). No ambiente editorial pintado pelo romance há uma máquina que produz automaticamente reportagens, bastando que lhe forneçam alguns termos chave que podem definir acontecimentos merecedores de veiculação pela imprensa. Essa padronização do discurso, permitindo que a produção de textos ocorra de modo automático foi também explorada no campo da inteligência artificial com o programa Eliza, criado por Joseph Weizenbaum (1976). Em todos esses casos, elimina-se o julgamento humano por meio de padrões e rotinas que garantem a produção de textos aparentemente bem articulados. Máquinas e programas produzem tais textos sem qualquer referência à semântica. Ou seja, não operam no território dos significados. Quando os seres humanos operam do mesmo modo, há um completo esvaziamento do conteúdo do trabalho intelectual.

Crawford examina argumento que poderia ser utilizado contra sua crítica ao esvaziamento do trabalho na empresa da área de informação que o contratou, o de que as resenhas deviam ter qualidade porque eram bem aceitas pelo mercado. O autor entende que tal argumento é equivocado quando se examina a questão da qualidade do trabalho. O mercado ás vezes converte em artigos respeitáveis, produtos sabidamente inferiores. Isso explica, segundo Crawford, o sucesso do Windows. E essa respeitabilidade é apenas função do predomínio de algo para o qual não temos alternativa viável. Ao analisar sua experiência no episódio da produção mecanizada de resenhas, o autor insiste na ideia de que é desejável que o trabalho deve ser animado por virtudes que lhes são intrínsecas. Uma atividade esvaziada de conteúdo desestimula o profissional. Fazer bem um trabalho é desejo que nasce do próprio trabalho, não de incentivos ou motivos externos.

A ideia de que ocupações satisfatórias são aquelas cujo conteúdo de trabalho desafia e envolve o trabalhador de modo significativo, destacada no caso do episódio da elaboração de resenhas, perpassa toda a obra. Crawford mostra que o trabalho do mecânico é prazeroso, envolvente e, muitas vezes, mais desafiador do ponto de vista intelectual que as profissões burocráticas, as profissões do cubículo. A identidade profissional do mecânico é significativa no trabalho e na vida. No trabalho ela requer um envolvimento com atividades, desafios e realizações próprias de uma atividade que vale a pena. Na vida, ela oferece muitas satisfações pelo reconhecimento que as pessoas manifestam por alguém cujas obras (reparo de motocicletas) podem ser concretamente apreciadas.

Com o empobrecimento do conteúdo em muitas áreas profissionais, surgiu um movimento que sugere que o trabalho pode ser enriquecido pela criatividade dos trabalhadores. Para examinar tal movimento, Crawford escolhe exemplos apresentados por Richard Florida em The Rise of the Creative Class. Florida afirma que há milhares de novos Einstein, membros de uma classe criativa nos negócios. E essa classe é formada por gente muito jovem capaz de propor mudanças que alavancam lucros das empresas. E Florida, segundo Crawford não identifica esses trabalhadores criativos com grandes executivos, mas com gente do chão de fábrica ou do balcão de loja que contribui com ideias para melhorar continuamente a produção. A medida da criatividade dos novos Einstein é verificada por meio do lucro das empresas. Todo o discurso otimista sobre a suposta criatividade dos empregados não se vincula à satisfação que o trabalho pode assegurar nas atividades cotidianas, mas no sucesso empresarial das pequenas invenções dos novos gênios. O autor critica duramente essa perspectiva de uma criatividade espontânea. Convém citar um trecho da obra de Crawford sobre tal questão:

A verdade, porém, é que a criatividade é um subproduto da mestria cultivada por meio de longa prática. Parece que ela é construída por meio da submissão (pense num músico praticando escalas, ou em Einstein aprendendo álgebra tensorial). Identificar criatividade com liberdade combina bem com a cultura do novo capitalismo, no qual o imperativo de flexibilidade não permite dedicação a uma tarefa por tempo suficiente para desenvolver reais competências. (p. 51)

O que Crawford chama de submissão no texto citado é um mergulho em atividades que envolvem completamente seu executor e exige que ele respeite e aprecie os insumos com os quais interage para realizar uma obra. Esse modo de ver explica a migração do executivo de um escritório de luxo de Washington para o chão de uma humilde oficina de reparo de motos. Nos trabalhos burocráticos atuais, os trabalhadores não percebem claramente qual é o objeto de suas atividades. Não desenvolvem compromisso com obras. Isso, segundo o autor, é acentuado no caso da gestão. Os gestores já não administram produção de obras, administram tão somente satisfação/insatisfação dos empregados.

Volto ao aspecto que mais chama a atenção na história de Matthew Crawford, a saga de um doutor em filosofia que virou mecânico e escreveu um livro para justificar sua decisão radical. A explicação para isso é apresentada mais profundamente no capítulo Thinking as Doing. O autor observa que o atual sistema de ensino privilegia o conhecimento do que (knowing that) que se opõe ao conhecimento do como (knowing how). No campo de preparação para o trabalho, isso gera aspirações pelo exercício de ocupações que não são condicionadas pelas circunstâncias. Mas…”Nós geralmente não encontramos as coisas de modo desinteressado [desencarnado], pela simples razão de que as coisas que não nos dizem respeito são incapazes de resultar em engajamento interessado” (p.163). Em suas análises, Crawford apresenta o trabalho do mecânico como uma atividade que engaja as pessoas em relações significativas com os outros. Esses outros são pessoas, equipamentos, ferramentas, insumos. Todos eles grávidos de significado, em situações desafiadoras. Nessas relações há um saber sempre em construção, pois esse mundo imediato precisa ser transformado de alguma maneira pelo profissional e, ao mesmo tempo, o transforma. O fazer inteligente, necessário para transformar outros significativos, faz do trabalho (trabalho do mecânico) uma atividade que compromete o trabalhador com o resultado de seu trabalho. Em termos cognitivos, trabalhos assim mostram que é preciso fazer para entender. Ao contrário do que sugere o pensamento hegemônico, o fazer tem grande riqueza intelectual. O autor recorre a Heidegger para mostrar isso:

Uma das questões centrais da ciência cognitiva , com raízes na epistemologia predominante, tem sido a de como conceber como nossa mente “representa” o mundo, uma vez que mundo e mente são concebidos como inteiramente distintos. Para Heidegger, não existe o problema de representação do mundo porque o mundo apresenta a si mesmo originalmente como algo no qual já estamos inseridos e excluídos. Os insights do filósofo sobre o caráter situado da cognição cotidiana lança uma luz sobre o conhecimento especializado (expert knowledge), como o de bombeiros e mecânicos, que também está inerentemente situado. (p. 164)

Com a citação que faz referência a Heidegger, eu quis enfatizar as dimensões epistemológicas do fazer propostas por Crawford. Essas dimensões desafiam o lugar comum de um par antitético que assombra a educação, teoria e prática. O filósofo travestido de mecânico mostra que esse tradicional modo de ver é um equívoco que resulta em depreciação de trabalhos nos quais predominam atividades manuais. As transações entre sujeito e objetos naquilo que Heidegger chama de saber local são um conhecimento envolvente e significativo. Sem elas, o saber abstrato, proposicional, o saber do que, não poderia ser elaborado.

Os aspectos epistemológicos propostos por Crawford são interessantes e podem nos ajudar a superar dualismos que acabam resultando em visões equivocadas sobre a natureza do trabalho. Quero encerrar minhas considerações sobre Shop Class as Soulcraft, dando necessário destaque ás análises do autor sobre as dimensões valorativas de trabalhos manuais envolventes como o de mecânico, marceneiro, eletricista. Nessas ocupações, os profissionais, dado seu envolvimento com o significado intrínseco do que fazem, sempre estão comprometidos com a obra. Essa circunstância tem desdobramentos importantes no campo da ética. O atendimento a demandas de qualidade, postas pela natureza dos objetos com os quais o profissional interage, garantem realização de um trabalho que respeita todos os atores diretamente envolvidos. O mecânico tem profundo compromisso com as motos que repara, com os clientes que solicitam seus serviços e com a comunidade de prática com a qual ele compartilha os saberes da profissão. Para tudo isso cabe a frase de Fitzgerald: trabalho é dignidade.

O trabalho numa cafeteria

Outro olhar sobre o trabalho manual e as possibilidades que esse oferece para a realização pessoal é oferecido por livro que conta uma história inusitada: How Starbucks Saved My Life: A son of privilege learns to live like everyone else. A obra narra história de um executivo desempregado que, aos sessenta e três anos começou carreira nova como barista numa loja da Starbucks. O autor do livro é Michael Gates Gill, antigo diretor de criação de uma das maiores agência de propaganda do planeta. Depois de vinte e cinco anos dedicados à corporação, Gates é demitido. Profissional maduro, ele não procura nova colocação no mercado, parte para a carreira solo de consultor. No início, contando com antigos clientes da sua carteira dos tempos em que atuava na agência, consegue alguns contratos. Com o tempo, os clientes vão rareando, até a ocasião em que ninguém mais procura seus serviços. Por acaso, uma gerente da Starbucks lhe pergunta se ele não quer um emprego. Intrigado, mas desesperado com a falta de perspectiva que enfrentava, ele diz que sim. Tempos depois, de acordo com cronograma de recrutamento da empresa, ele é chamado e, apesar de sua idade madura e falta de experiência, é contratado.

Gates entra num mundo inteiramente desconhecido para ele. Seus companheiros de trabalho são muito jovens, quase todos negros, com pouca escolaridade, vindos de famílias desestruturadas. A própria gerente que lhe ofereceu trabalho era uma jovem afro-americana de vinte e oito anos que passara a infância e adolescência em lares provisórios. O autor, pelo contrário, era filho de família da elite, graduado por Yale.

O livro narra aventuras de aprendizagem das tarefas típicas de um barista da Starbucks, envolvendo higienização da loja, elaboração de vinte e oito diferentes tipos de café, atividades de abertura e de fechamento da loja, cuidados de reposição de itens do cardápio, operação do caixa, relacionamento com clientes. Para Gates não foi fácil aprender e desempenhar algumas atividades que demandavam muita agilidade física e força. Além disso, sua inabilidade para lidar com dinheiro gerou pavor no momento em que foi escalado para operar um dos caixas da loja. Ao mesmo tempo em que ele vai aprendendo a profissão de barista, cresce sua admiração por boa parte de seus parceiros na loja. Muito jovens, pobres, com experiências que beiraram a marginalidade, os companheiros de Gates trabalham como muita competência e desenvolvem um sentimento de dignidade que ele passa a admirar. Ao mesmo tempo, o antigo diretor de criação vai conseguindo enxergar que o trabalho braçal na loja de café demanda inteligência e envolvimento dos quais ele sequer suspeitava em seus tempos de executivo.

Gates compara sua vida de barista com sua vida de executivo. E, surpreendentemente, sugere que suas atividades na cafeteria são muito mais envolventes e compensadoras que suas atividades como publicitário. O livro é de uma literatura leve, sem voos profundos como os realizados por Crawford em Shop Class As Soulcraft. Mas, vale a pena considerá-lo em reflexões sobre o trabalho. O autor viveu uma experiência rara para os filhos da elite e apresenta uma contribuição que pode iluminar nossa compreensão sobre o significado do trabalho que envolve o profissional e dá sentido à sua vida.

Gates e Crawford falam de dignidade do trabalho com base em experiências que, infelizmente, merecem pouca atenção em análises sobre educação profissional e tecnológica. Vale a pena visitar a obra de um e outro para rever modos de olhar para a formação de trabalhadores em todos os níveis de ensino. Vale a pena visitar a obra de um e outro para verificar como se manifestam os valores que são intrínsecos ao trabalho.

Referências

FRAYN, M. The Tin Man. New York: Ace Publishing Corporation, 1965.

ROUSSELET, J. A Alergia ao Trabalho. Lisboa: Edições 70, 1974.

WEIZENBAUM, J. Computer Power and Human Reason: From judgment to calculation. San Francisco: W. H. Freeman and Company, 1976.

WILLIS, P. Aprendendo a Ser Trabalhador: Escola, resistência e reprodução social. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

Jarbas Novelino Barato. Professor. Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Mestre em Tecnologia Educacional pela San Diego State University (SDSU).

Indigestão

O livro que atualmente estou lendo tem o título de Joãozito – A infância de João Guimarães Rosa. Foi escrito por seu tio-irmão – posto que compartilhavam praticamente da mesma idade e das mesmas traquinagens – Vicente Guimarães. Eis um trechinho saboroso para mera degustação:

De sua verve infantil, do pouco que dizia aquele menino caladão, quase nada anotado ficou na lembrança dos de mais idade. Nenhum outro caso engraçado, nem resposta interessante, que figurar pudesse na coleção de Pedro Bloch “Criança diz cada uma”.

Mamãe Chiquitinha apenas se recorda deste acontecido: Ela, Joãozito e suas filhas Iza e Zezé visitavam uma amiga que tivera criança. Encantados estavam com o recém-nascido, quando uma sobrevoz nervosa, a voz do dono da casa, se fez ouvir em repreensões gritadas. Ao chegar ao lar, ao santo lar, o chefe sendo dele, viu no sofá da sala, desrespeitoso, o namorado de sua cunhada beijando-a prolongadamente, nos lábios. Indecência! Sem-vergonhice! Desonra! Crime!… O tempo era outro, compreendamos. Décadas passadas!…

O ousado, degenerado criminoso, foi posto para fora aos gritos, e a mocinha, chorosa, de envergonhada face enrubescida escondida pelas mãos, recolhida ao quarto, para posteriores severas conversas e julgamentos impiedosos. De santa moça que era, aparente ingênua, passou a siguilgaita desavergonhada.

Que escândalo! A notícia, aumentada e comentada, propagou-se. Excelente prato-do-dia para um arraialzinho desnovidadeiro.

Era manhã seguinte. Joãozito estava na loja do pai, quando lá apareceu o malogrado. Pálido e de cara padecida, pediu um purgante, o “Rubinat”, corriqueiro purgativo, usual comum, vendido até nas outras casas comerciais.

Joãozito, ao ouvir o pedido de compra do moço, perguntou-lhe:

– Uai! Você está de indigestão de beijos?

Diário da Quarentena

Um relato sincero de um confinamento em família durante a pandemia

Antonio Prata

Algum momento em janeiro – Li num jornal sobre um vírus na China. Que viagem se preocuparem com um vírus na China. As pessoas morrem de dengue no Brasil e a imprensa preocupada com moléstia de morcego na Cochinchina?

15 de março – Duas semanas sem sair de casa. Minha irmã conseguiu um esquema de compra de álcool em gel 70% na dark-web. Ela comprou 100 litros para mim. A ex-namorada do meu primo é irmã de um traficante de cocaína, mísseis terra-ar e animais silvestres que me conseguiu 10 máscaras N-95 em troca do nosso Honda Fit, mais seis parcelas de R$ 2.000,00. Minha mulher ficou um pouco ressabiada com minha atitude intempestiva, mas foi convencida de que é melhor estar vivo sem carro do que morto com carro.

15 de março – Tem álcool em gel e máscara pra vender nas lojas Americanas a R$ 9,99 o litro e R$ 20,00 a dúzia. Frete grátis. Minha mulher ameaçou sair de casa. Eu disse que ela não podia sair de casa por causa da quarentena. Dividimos a casa. Eu fico quarentenado no lavabo, ela e as crianças no resto do apartamento. Ainda acho que saiu barato.

01 de abril – O traficante devolveu meu Honda Fit! Mentira: 1º de abril! (Sei que é estúpido tentar enganar a mim mesmo no primeiro de abril. Coisas da quarentena. No lavabo.).

20 de abril – Minha mulher teve dificuldades para abrir um pote de palmito. Pediu ajuda. Negociei bem: em troca, eu poderia usar o resto da casa. Sorte que minha mulher ama palmito mais do que me odeia. Vitória!

23 de abril – As crianças não aguentam mais ficar fechadas no apartamento. Liberamos Netflix o dia inteiro. Liberamos sorvete o dia inteiro. Banho só aos domingos. O único ponto em que conseguimos não transigir foi sobre fumarem cigarro e beberem uísque antes do meio-dia. Isso não. Eles têm seis e cinco anos, precisam de regras.

26 de maio – Começaram as aulas em casa, com apostilas e lives por hang-out. Ao contrário do que eu pensava, não é só conectar e deixá-los ali. Tem que ficar do lado o tempo todo ajudando. Buscando régua. Buscando tesoura. Buscando “botões de diferentes cores”. Buscando “barbante ou outro tipo de linha”. Ensinando como põe e tira do mudo. Explicando que caxorro não é com x. Reconectando quando cai. Não consigo mais trabalhar. Nem comer. Nem dormir.

27 de maio – Eu e a minha mulher decidimos acabar com essa história de homeschooling. (Adaptando aquela piada do cunhado: se homeschooling fosse bom, não tinha “choo” no meio). Caso eu morra e este diário venha a público: Pedro, Bel, Paula, cunhado e cunhadas queridos, amo vocês. É só uma piada pra mim mesmo no meu diário. Coisas da quarentena.

3 de junho – Meus filhos se revoltaram por não ter aula. Liberamos sorvete e Netflix desde o café da manhã e cigarro e uísque depois das dez. Insistimos para que não fumem na cama nem na cabana da Peppa, pelo risco de incêndio.

187 de junho – Sim. Cento e oitenta e sete de junho. Os dias não passam. As semanas não passam. Estamos presos em 2020. #diadamarmotafeelings.

Julho. Acho – Tomei todo o uísque das crianças. Peguei a máquina de fazer barba e cortei o meu cabelo e o delas. Liguei pra uma ex-namorada da quinta série, chorando. Vomitei em cima do quebra-cabeças de 2000 peças da Patrulha Canina que minha mulher e as crianças estavam terminando de montar. Tuitei contra a #foicedesaopaulo e a #globolixo e só lembrei que eu trabalhava para a Folha e a Globo quando ligaram de lá para me demitir. De volta pro lavabo. Rezando para que saia logo a vacina. Ou para que ainda haja na despensa algum pote de palmito.

Cavaleiros do Apocalipse

Nelson Moraes

Os quatro cavaleiros do Apocalipse entram num bar.

– Sabe – diz a Morte, recostando-se ao balcão e pedindo aquela que matou o guarda – , acho que cansei.

– Cansou do quê? – pergunta a Guerra, pedindo um Silver Bullet. – Eu, que não tenho um minuto de paz, é que já devia pendurar as chuteiras.

– Muito engraçado vocês falarem isso – diz a Fome, jogando o cardápio longe porque nele só tem bebida. – Dou expediente integral nos quatro cantos do mundo e nunca foi cogitada sequer uma licença remunerada.

– Ai, que lindo – fala a Peste, pedindo uma Corona. – As três divas agora resolveram entrar em crise existencial conjunta? O que falta mais, assinar uma nota de repúdio?

– Você só fala isso – replica a Guerra – porque não trabalha igual a gente. E só aparece de tempos em tempos. Expediente de freelancer é outra história.

– É mesmo? – a Peste volta a dizer, acentuando o sarcasmo e virando a long neck.– Pois vocês reclamam de barriga cheia (inclusive você, Fome, sua poser). Não veem o drama que é ser freelancer, e viver sempre por conta própria.

– Como assim? – pergunta a Guerra.

– Simples – a Peste responde. – Vocês todas têm quem banque vocês, queridas. Onde vocês aparecerem sempre haverá alguém respondendo pelo feito. Guerra? Não falta quem assuma a responsabilidade. Fome? É só olhar os embargos internacionais ou governantes corruptos que desviam os recursos alimentares. Morte? Potencialmente cada habitante da Terra é um assassino. Agora pra Peste não tem refresco (falar nisso, desce outra Corona). Nunca aparece um responsável por ela. Quando ela surge é sempre subestimada, tratada como detalhe ínfimo, uma doencinha, ninguém liga a mínima, e quem registra a presença dela ainda é tachado de alarmista. Mas basta ela crescer e se mostrar em toda a sua pujança pra todo mundo imediatamente começar a tirar o corpo fora: ninguém tem culpa, as autoridades teoricamente competentes lavam as mãos (sem duplo sentido, por favor), acusações são trocadas por todos os lados mas ninguém assume o estrago. No final ela sai pela porta dos fundos, como a única vilã, e a Humanidade respira aliviada, como se não houvesse tido o menor envolvimento no acontecido. A Peste fica como uma fatalidade intercorrente na História, tipo um terremoto ou tsunami, ponto. – Aí a Peste seca outra long neck. – E aí?

– É – diz a Fome. – É mesmo de perder o apetite.

– Sim – confirma a Guerra. – Viver desse jeito é uma batalha.

– É de matar, mesmo – fala a Morte. – Não tem nada pior que isso.

– Tem sim – fala a Peste, já ligeiramente bêbada.

– O quê? – dizem todas.

– Aguentar esses trocadilhos óbvios de vocês.

As outras três se entreolham, trocando um “iiiiiiiiiiiiih” imaginário e lembrando que quanto mais bêbada mais rabugenta a Peste fica. Depois de um curto silêncio – e da Peste pedir a quarta long neck – a Morte vai à jukebox e coloca It’s the End of The World as We Know It, do R.E.M., pra ver se anima a colega.

– E tem mais – estende-se a Peste, já com a voz pastosa. – Se somos as quatro do gênero feminino, o nome não tinha que ser as quatro amazonas do Apocalipse?!?

É a deixa pra Morte arrastar a Fome e a Guerra pra mesa de sinuca.

Brasil, entre o soco e o grito

Marcelo Dias

Eu não sou gamer. Gosto de jogar videogame de vez em quando. É divertido, porque nos jogos você resolve tudo na estupidez. Tem que resgatar a rainha presa em uma torre? É só enfiar a espada em todo mundo. Na vida real eu partiria para um papinho. “Bora lá tomar uma breja e ver se rola um acerto?” É menos emocionante, eu sei. Mas dói menos.

O Brasil parece que virou um videogame multiplayer gigante, onde a única solução é explodir tudo e todos até acabar com o outro time. Como videogame poderia ser divertido. Mas trata-se da vida real, então a questão não é ser divertido. Não importa quem ganhe, na vida real o time perdedor continua no jogo. Perdedores e vencedores têm que conviver. Dureza.

Eu daria um reset no Brasil, se fosse possível. Ou devolveria para os índios com um bilhetinho bacana de desculpas. Não sei se eles aceitariam. “Tá fora da garantia”, diria um cacique. Talvez o jeito seja dividir o país em dois. Uma parte para Bolsonaristas ferrenhos e outra para Lulistas convictos. Seja lá quem for ficar com o litoral, eu tô com eles. Tenho minhas convicções políticas. E troco tudo por uma praia com caipirinha.

Só que não dá para dividir o país. Nem continuar em clima de guerra. Talvez a solução seja aquela que eu citei no começo. Bora tomar uma breja?

Eu sei, não tem muita graça dizer isso, mas a solução é ter mais diálogo, sim. Antes, é bom esclarecer: “diálogo” envolve duas ou mais pessoas que falam e ESCUTAM. Duas ou mais pessoas discursando sem dar a mínima para o outro não é diálogo. É sobreposição de monólogos. E, pelo visto, quem anda por aí pedindo mais diálogo não quer diálogo coisíssima nenhuma. Quer mais espaço para falar.

Bolsonaro já disse que está “aberto ao diálogo”. E a gente sabe que Bolsonaro está para a palavra “diálogo” como Alexandre Frota está para “romantismo”. A direita prefere bater, porque bater é uma espécie de monólogo com punhos. E não pense que a oposição está melhor. A esquerda também pede diálogo, só que prefere gritar. Tanto que adora uma manifestação. Manifestação é um monólogo com megafones: fala-se alto para não dar chance de resposta.

O diálogo que todos dizem querer está perdido em algum lugar no meio, entre o soco e o grito. E isso não quer dizer que a solução seja o “centrão”. Porque o centrão não é partido, não é nada. É um balcão de mercearia.

Por isso, talvez valesse a pena aprender com o filósofo Sócrates a como estabelecer um diálogo. Ele costumava parar pessoas na rua para travar debates nos quais disparava várias perguntas. E nessa troca de ideias ele construía um raciocínio. Muitas vezes ele esmigalhava os argumentos do outro. Perceba: antes ele os ouvia. Mais do que cuspir certezas, ele fazia perguntas. Você pode até achar isso meio besta, mas não se esqueça de que ele ainda é considerado um dos maiores filósofos gregos. Respeita o cara.

Por aqui, a regra do jogo é “ninguém ouve ninguém”. É uma bela porcaria de regra que empata tudo. Quando se discutiu a redução da maioridade penal, por exemplo, ficamos encurralados entre “reduzir a maioridade” ou “deixar tudo como está”. Em termos de criminalidade, nenhuma das duas ideias resolve absolutamente nada. No mundo existe uma penca de soluções que ficam entre essas duas opções. Alguém quis estudá-las para discutir o tema? Não muito. Saiu todo mundo berrando e batendo para ver quem vencia na marra. Parece medieval. E é mesmo. É o oposto do que Sócrates faria.

Você pode continuar achando que o outro lado é ignorante, burro, comunista, fascista, tosco e “ai que ódio dessa gente”. Sem ouvir o que eles têm a dizer a coisa não anda. Não custa tentar. Quer mais diálogo? Ótimo. Mas OUÇA MAIS ALTO. Nem que seja para esmigalhar melhor os argumentos.

Bolsonaro é o troll que você alimentou

Edson Aran

O problema do cerumano é que ele alimenta os trolls. Todo mundo sabe que não se deve dar comida para a criatura horrenda, mas há certa dificuldade em identificá-la com segurança. De vez em quando, o troll se disfarça de hobbit ou de elfo e se apresenta apenas como alguém preocupado com o país, o mundo e a sociedade. É picaretagem. Basta você engatar uma conversa, que o bicho parte pra cima com memes, gifs e piadas ruins.

O humor do troll é bastante peculiar. Ele nunca usa a ironia e prefere sempre o sarcasmo. Ironia é escrever uma coisa para dizer outra. Sarcasmo é menosprezar o argumento e também o argumentador.

Ironia é florete, sarcasmo é porrete. Ironia é duelo, sarcasmo é tiroteio. Ironia é o Muhammad Ali dançando, sarcasmo é o Rodrigo Minotauro espacando.

Discutir com troll é garantia de virar alvo de tiro, porrada e bomba. Mas esse nem é o problema. O problema é quando esses monstros saem da virtualidade e entram na realidade. Antigamente, eles só causavam irritação nas redes sociais. Agora não. Agora eles vão pra Brasília atacar jornalistas, fazem dancinha com caixão na avenida Paulista e, pior, vencem eleições.

Donald Trump é o exemplo mais notável dessa raça odiosa. Ele é o Master Troll, o King Troll, o Poderoso Troll. Trump é tosco, vulgar e ignorante. Ele é um comentário de Facebook que ganhou vida. Olhe bem para ele. Trump é um avatar humano desenhado no CorelDRAW. A pele é falsa e alaranjada e o cabelo é igual ao daquele brinquedo dos anos 80, o Duende da Sorte. É tudo falso. Trump nem é gente e, por isso, a trollagem é seu único programa de governo. Se a gente não vivesse numa aldeia global interligada digitalmente, isso seria um problema só dos Estados Unidos, mas infelizmente não é mais assim. O americano tosco inspira vários trolls periféricos como Jair Bolsonaro, por exemplo, que é um Trump do Terceiro Mundo, feito com peças de segunda mão e material vagabundo. É um troll ainda mais patético, mais vulgar e mais grotesco que o original, que já é um horror.

Aqui e lá, a campanha eleitoral das criaturas foi na base da trollagem. Era só fake news, palavrão, xingamento, óculos de pixel e muita esculhambação. Tudo linguagem de troll transposta para a arena política.

Mas quem foi que alimentou e engordou os monstrengos? Foi ocê, dona. Desculpa a sinceridade. Foi a senhora.

A esquerda ficou chata, rancorosa e pentelha. E é isso que alimenta o troll. Pra falar a verdade, nem dá pra chamar esses chatonildos de “esquerda”. A divisão esquerda-direita faz sentido na economia, onde o papel do estado define uma posição. Mas é complicado usar a mesma régua para medir a chateação pseudo-sociológica do, argh, politicamente correto, que é autoritário, carola e antidemocrático igualzinho à velha direita.

A esquerda (ou a “esquerda”) virou uma espécie de síndica de condomínio que passa o dia inteiro inventando regrinhas e regulamentos. Não pode falar isso, não pode falar aquilo, não pode usar essa palavra, não pode mencionar essa expressão, não pode tirar sarro do vizinho, não pode frequentar a piscina com esse biquíni indecente e não pode ouvir funk ostentação.

Isso tudo é alimento de troll, dona “esquerda”. O esculacho conquista seguidores, rende audiência e também dá votos. E esculachar gente chata sempre foi a maior diversão do ser humano.

Eu sou do tempo da esquerda festiva, que bebia até resolver todos os problemas do mundo enquanto contava piadas péssimas e cantava todas as mulheres da mesa. “Que comportamento desprezível!”, a senhora diz. Então tá. Talvez fosse. Só que depois a gente ia pra urna e ganhava a eleição. A “esquerda” fiscal-de-condomínio vai pra urna e perde. Tomou, papuda?

A gente precisa voltar a beber e contar piadas ruins. A gente precisa parar de alimentar os trolls. A gente precisa é voltar a trollar os trolls.

Nascido em 1900

Para quem está muito assustado com o que ocorre hoje, uma reflexão:

Imagine que você nasceu em 1900.

No seu 14º aniversário, a Primeira Guerra Mundial começa e termina no seu 18º aniversário. 22 milhões de pessoas morreram nessa guerra.

No final do ano, uma epidemia de gripe espanhola atinge o planeta e dura até o seu aniversário de 20 anos. 50 milhões de pessoas morrem disso nesses dois anos. Sim, 50 milhões.

No seu 29º aniversário, a Grande Depressão começa. O desemprego atinge 25%, o PIB mundial cai 27%. Isso vai até os 33 anos. O país quase entra em colapso com a economia mundial.

Quando você completa 39 anos, a Segunda Guerra Mundial começa.

Você ainda nem chegou ao topo da colina.

E não tente recuperar o fôlego.

No seu 41º aniversário, os Estados Unidos são totalmente atraídos para a Segunda Guerra Mundial. Entre os 39 e os 45 anos, 75 milhões de pessoas morrem na guerra.

Aos 50, a Guerra da Coréia começa. 5 milhões morrem.

Aos 55 anos, a Guerra do Vietnã começa e não termina por 20 anos. 4 milhões de pessoas morrem nesse conflito.

No seu aniversário de 62 anos, você tem a Crise dos Mísseis Cubanos, um ponto de inflexão na Guerra Fria. A vida em nosso planeta, como a conhecemos, deveria ter terminado. Grandes líderes impediram que isso acontecesse.

Quando você completa 75 anos, a Guerra do Vietnã finalmente termina.

Vamos tentar manter as coisas em perspectiva…

Daí eu lembrei de uma conversa com um grande e sábio amigo: “Tempos difíceis criam homens fortes, homem fortes criam tempos fáceis e tempos fáceis criam homens frágeis que por sua vez criam tempos difíceis.”

A vida é um ciclo e teremos que passar nossos próprios tempos difíceis… Que possamos olhar o passado e aprender com ele, e construir um futuro verdadeiramente novo!

Autor desconhecido

Emenda à Inicial: esse sujeito aí no início do texto é meu avô paterno, Antonio de Andrade, que nasceu em 1909 e faleceu em 1969, ou seja, passou por praticamente tudo isso aí…

Pior do que o Coronavírus é a pandemia de imbecis

Matheus Conceição

Desde as primeiras notícias sobre a pandemia, o brasileiro vive uma saga na luta por verdades. De negacionistas a alarmistas, uma profusão de desinformações foi propagada, fazendo a população ficar confusa ao não saber de fato o que é certo ou errado. Para piorar a situação, governos estaduais e o Planalto divergem sobre medidas a serem tomadas e também sobre possíveis soluções. A conta da irresponsabilidade, contudo, parece estar chegando, com dados que demonstram que o Brasil caminha para condições iguais ou superiores às que a Itália e a Espanha apresentaram. Em meio a tudo isso, a insensatez parece ainda medrar, com surtos que, a bem da verdade, preocupam mais do que o próprio vírus. É a nudez da imbecilidade, que já não mais se esconde por estar ratificada pela torpeza da normalidade.

Quando se iniciaram as notícias sobre a pandemia do Coronavírus, o primeiro discurso foi o de tranquilidade para a população. Afinal, os dados até então demonstravam que “apenas” idosos e pessoas com doenças pré-existentes seriam possíveis vítimas fatais. Uma absurda crueldade travestida de conforto, mas que já mostrava como seria encarado por aqui o combate ao vírus. Como se já não bastasse o temor de se chegar à aposentadoria e viver uma vida de esquecimento, recebendo uma contraprestação obscena pelos anos de trabalho, a saúde dos idosos ainda relegada ao descarte. E os potenciais enfermos, preocupados em excesso por seus males cotidianos, eram da mesma forma “acalmados” pela tal naturalidade mórbida por parte das autoridades nacionais. Estroinice criminosa e desanimadora, pois.

De logo surgiram negacionistas para se apegar às conspirações. Organizaram-se nas redes, fizeram passeatas e protestos. Apoiavam-se no cego e confortável egoísmo de quem não apenas se coloca em situação de risco, mas também se porta como transmissor em potencial. Sem muito acesso à informação, considerável parcela da população adotou também o discurso de reabertura e de basta aos alarmes. Os números do país, contudo, demonstram que o pico da doença ainda sequer chegou e os leitos começam a minguar diante do crescente número de casos. Para se ter uma noção, um estudo do Observatório Covid-19 aponta que o ritmo alcançado pelo vírus no Brasil supera em velocidade os registrados na Espanha no comparativo do mesmo período. Seria dado preocupante para todo e qualquer país sério. Mas, em se tratando de Brasil…

Para a surpresa dos mais precavidos, governadores e prefeitos começam a afrouxar as medidas de isolamento. Em Santa Catarina, por exemplo, um shopping promoveu a sua reabertura com música e uma aglomeração impressionante. Os mais atentos já percebem que poucos são os que de fato estão agora confinados em restrição profilática como determina o script seguido pelo mundo. São situações contrastantes com as catastróficas cenas manauaras divulgadas, onde valas comuns coletivas às centenas foram construídas em meio ao colapso na saúde do estado. Mesmo isso não foi o suficiente para assustar o resto do país: ainda no final de semana, uma carreata pedia intervenção militar no afã de acabar com a quarentena imposta.

O remédio para a contenção do desastre anunciado deveria ser iniciado justamente por quem dele diverge. Governos estaduais e o Executivo Federal entram constantemente em rota de colisão sobre o que deve ser feito em razão da pandemia. No desencontro de informações, os grandes vencedores são as correntes de Whatsapp, com seus conteúdos esdrúxulos e poder de propagação tão forte quanto o próprio vírus. A guerra de egos sobre as certezas expõe a falta de tato e responsabilidade para com quem mais precisa, fazendo valer apenas uma batalha por narrativas. Cenário perfeito para o surgimento de absurdos de todo gênero, como propostas de campos de concentração ou de demarcação de símbolos em quem estiver se negando a voltar ao trabalho. A comparação com o estigma da estrela de seis pontas do período nazista é inevitável. A crueldade e a desumanidade, de semelhanças assustadoras.

A triste realidade nacional parece caminhar a passos largos para um colapso que só será definitivamente sentido quando os camburões estiverem carregando corpos amontoados. Enquanto isso, a marcha da insensatez segue o seu caminho, com o desprezo às medidas de precaução e a controvérsia entre os governantes. O país, com isso, surge como chacota mundial pelas atitudes insanas cometidas. Porém, em se tratando de um lugar onde estádios têm mais valor do que hospitais e escolas, em nada surpreendem as atitudes desarrazoadas. Se de nada adianta o noticiário internacional, talvez o óbito de pessoas próximas possa funcionar para fazer cair a ficha dos irresponsáveis. Até lá, salve-se quem puder. Visivelmente, o navio Brasil há tempos vaga à deriva. E a razão, de fato, assiste ao aclamado ator argentino Ricardo Darín: difícil mesmo é lutar contra a pandemia dos imbecis.

Brasil de 17 de abril de 2020: meu diário

Eliane Brum

Acordei hoje com um peso no peito, maior do que o habitual nestes dias. Essa pandemia é como o colapso climático. É tão grande que o nosso cérebro não abarca de uma vez. Mas a cada dia entendemos um pouco mais do que vivemos. E há alguns dias em que a lucidez nos invade como um excesso. No meu livro (Brasil Construtor de Ruínas) relacionei com a morte de alguém que amamos. No primeiro momento, quando acontece, o horror nos invade. E então nosso cérebro imediatamente vai acionando mecanismos para nos fazer viver apesar do horror. E então conseguimos converter o horror em luto e mais tarde superar o luto. Como todos os seres vivos, assim como esse vírus que se reproduz em nós, queremos viver.

Carregando dentro de mim um peso muito maior do que o meu, olhei no calendário para checar que dia era hoje: 17 de abril de 2020. Dezessete de abril sempre será um dia terrível para mim, e acho que isso já está incrustado no meu inconsciente. Acredito que foi um dia terrível para muitos de vocês. Foi o dia em que a Câmara votou o impeachment de Dilma Rousseff. Quem me acompanha sabe o quanto fui – e sou – crítica ao governo de Dilma. Foi um mau governo, em especial para os povos da Amazônia, Cerrado e outros biomas. E se é ruim para estes povo, é ruim para o Brasil. E também para o mundo em emergência climática. Quem me acompanha sabe também o quanto denunciei que o impeachment não tinha base legal, que era um abuso e um desrespeito ao voto e portanto à democracia. Mas não foi este o horror daquele momento.

O horror foi ver as vísceras daqueles deputados, a sua burrice, a sua pequenez, o que aquele amontoado de homens, em sua maioria, revelava sobre quem os havia carregado com seu voto ao parlamento, porque não tinham chegado lá apenas com suas pernas. A maioria deles era asqueroso, era difícil até mesmo escutar seus votos porque só a sua boçalidade era maior do que a sua burrice. E isso, independentemente de ser a favor ou contra o impeachment, os brasileiros que ainda são capazes de enxergar, naquele 17 de abril enxergaram.

Ainda não sabíamos, mas aquele também foi o dia do lançamento da campanha presidencial de Jair Bolsonaro. Ao votar pelo impeachment de Dilma homenageando o mais notório torturador e assassino da ditadura e não ser punido pelo crime de apologia à tortura, ele se tornou presidenciável. Ao votar homenageando o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um homem capaz de torturar até crianças pequenas, e não ser punido, descobriu que podia tudo. Como Bolsonaro declarou então, sempre orgulhoso de sua violência, “Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Dilma então foi torturada mais uma vez, agora no parlamento. E Bolsonaro começou a se tornar o pavor do Brasil.

E aqui estamos nós, quatro anos depois, com o vilão número um do mundo em pandemia na presidência. Um personagem real que nem o cinema-catástrofe de Hollywood foi capaz de imaginar, um antipresidente, um político profissional mandando a população para a rua, tocando nas pessoas, fazendo selfies, disseminando achismos e mentiras em meio à maior ameaça sanitária global em um século.

E aqui estamos nós, com o ministro de Saúde que enfrentou sua perversidade demitido, com um perverso no poder, com um maníaco, levado até lá pelo voto de milhões de brasileiros que hoje, pelas ações criminosas daquele que ousaram eleger, também podem morrer.

Estamos numa pandemia e temos um homem cuja maior realização foi planejar colocar bombas nos quartéis para pressionar por aumento salarial. Que país torto, que justiça nojenta, que instituições covardes tornaram possível um armador de bombas chegar à presidência. Bolsonaro pode matar muita gente, já está matando. Descobriu que seus dedos que fazem arminha, como um moleque de cinco anos, ao pegar a caneta, matam mais do que bala. E aqui estamos nós. Não adianta pensar positivo, vai ser preciso lutar para viver e fazer viver, porque o perverso que está no poder não tem limites.

Espero que um dia Bolsonaro responda pelos seus crimes no Tribunal Penal Internacional. Mas então muitos de nós já estaremos mortos.

Reproduzo aqui um trecho do capítulo do meu livro que conta do 17 de abril de 2016. Foi escrevendo este capítulo que também consegui dar nome ao livro:

O 17 de abril de 2016 tornou explícito que o Brasil não vivia apenas uma crise política e uma crise econômica. Vivia também uma crise de identidade e uma crise de palavra. De ética e de estética. Os holofotes lançados sobre a Câmara dos Deputados, em transmissão ao vivo pela TV, iluminaram o horror. E iluminaram o horror mesmo para aqueles que torciam pela aprovação da abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff. A imagem era grotesca. E a imagem era nossa.

Quem já perdeu alguém que ama sabe que existe um momento em que todas as proteções caem e enxergamos o horror absoluto da morte. Aquilo que não vira palavra. Ninguém consegue viver com esse excesso de lucidez. Mesmo que seja por um instante, ele já deixa uma marca inapagável. De imediato nosso cérebro aciona mecanismos que nos protegem. E dali em diante sabemos que o monstro respira dentro de nossos corpos. Fingimos que ele não está ali. Mas o gosto do seu hálito não sai de nós.

Para mim, assistir à sessão de votação da abertura do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados foi um momento comparável a esse. Não me é possível escrever sobre esse rasgo no espaço/tempo sem tornar essa narrativa mais pessoal. Pelo que vi e ouvi depois, ela foi pessoalíssima para muitos brasileiros. Não que qualquer outro acontecimento importante não seja, mas algo aconteceu ali.

Eu estava no estádio no famoso 7×1 da Copa de 2014. E não vi trauma. Apenas perplexidade. Era como o anúncio de algo que já se sabia. E que finalmente se confirmava. A vida seguia. Aqueles jogadores não eram nós. Há muito aquela seleção não era nossa. O que aquele futebol revelava era justamente que era nosso porque não era nosso.

O 7×1 foi vivido no 17 de abril de 2016, ao assistir pela TV os deputados com as tripas de fora. E balançando-as com orgulho. Defecando literalmente pela boca. E sem capacidade cognitiva para compreender que era merda que suas cordas vocais despejavam sobre o país. Por mais que eu acompanhasse os fatos e conhecesse o Congresso, assistir ao espetáculo da realidade era ser sujeitado ao absoluto do horror. Como no filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, obrigados a seguir olhando. Sem piscar.

O horror só diz do que não podemos dizer. Fechei as cortinas. Me escondi dentro de casa. Literalmente. Sentia uma vergonha profunda. Uma vergonha que era minha e que não era minha. Passei vários dias revendo os filmes de Glauber Rocha e revisitando o Tropicalismo. Precisava reencontrar as palavras naqueles que tentaram nomear o Brasil. Nos movimentos que buscaram inventar um país, naqueles momentos em que quase fomos. E então ruínas, de novo construímos ruínas. Como interpretou A tragédia e a comédia latino-americana, peça de Felipe Hirsch e do coletivo Ultralíricos que, para mim, é a que melhor expressa esse momento. O Brasil é um grande construtor de ruínas. O Brasil constrói ruínas em dimensões continentais.

Naqueles dias, só me senti próxima de mim quando assisti à Terra em Transe. Em transe a terra também era eu.

Idosos de todo o mundo, uni-vos!

Miguel Paiva

Como idoso me sinto ameaçado por este governo. Não que eu seja um idoso de grupo de risco. Aí já me sentiria condenado. Aparentemente sou saudável, faço exercícios, tomo meus suplementos fitoterápicos, faço meus exames regularmente e tirando meu joelho que reclama, me sinto muito bem. Quando era bem mais jovem me sentia ameaçado pela ditadura por ser estudante e depois jornalista. Fui preso por causa disso duas vezes, uma vez em cada categoria. Achava que esses tempos tinham acabado.

Agora, durante a pandemia bolsonariana, a ameaça volta. Como diz minha amiga Emília Silveira, parceira de trabalhos e de quarentena junto com a Angela aqui na serra, o velho de hoje é o judeu de antigamente (ou de sempre).

Alguns países e algumas tribos indígenas consideram o velho muito importante. Eles transmitem a experiência e a sabedoria. São tratados e respeitados como tesouro do grupo, riqueza a ser preservada para servir de exemplo aos mais jovens.

Aqui neste Brasil, os mais velhos viraram lenha de fogueira. Somos seres descartáveis prontos para o sacrifício em troca dos mais jovens, nem sempre merecedores de uma sobrevida. Mas os jovens são força de trabalho, votos de cabresto e elementos úteis nas manifestações animalescas contra a quarentena dentro de seus carros importados.

Os mais velhos, além de já terem vivido seu tempo, segundo o governo custam caro ao Estado. Logo esse Estado que eles querem acabar. A previdência pena para pagar essa grana que poderia estar sendo usada na criação de novas fábricas de armas ou em investimentos na bolsa de valores. Além de tudo, para eles, velhos são feios, não produzem e nem sexo mais fazem.

Mentira deslavada. Produzo como nunca produzi antes, acompanho e critico essa realidade de merda que somos obrigados a engolir. Me sinto bonito, magro e saudável e considero o sexo indispensável tanto como respirar.

Me pego fantasiando o pior. Ir para as ruas escondido, durante a noite para escapar das blitzes anti-idosos. Furgões carregados de velhinhos que teimam em sair levados para os abrigos de segurança máxima e sendo abandonados à própria sorte e a própria solidão.

Fico tão indignado com esse jeito tosco que o brasileiro trata o que já passou. Temos uma das mais belas histórias na MPB, no cinema, na literatura, no teatro, na arquitetura e na pintura. Somos criativos e convivemos com nossos idosos geniais o tempo todo. Agora mesmo perdemos vários deles que demonstram isso. Moraes Moreira com 72, Rubem Fonseca com 94, Garcia- Roza com 84, Rubinho do Zimbo Trio com 87 e por aí vai. Como diria Nelson Rodrigues no seu habitual exagero frasístico genial, “jovens, envelheçam!”

Nem tanto lá, nem tanto cá. Sempre fui a favor dos jovens. Sempre os respeitei e entendi porque sempre me senti jovem, apesar de não ser mais, na idade. Mas agora que os jovens estão sendo contrapostos aos idosos para promover essa escolha de Sofia cruel e que interessa a certos grupos, serei capaz de chefiar a revolta dos idosos contra essa perseguição nazista que se organiza. Segregar assim os mais velhos é determinar o fim da história para este país que já despreza tanto o seu passado.

Iremos para as trincheiras e defenderemos nosso direito de morrer quando a hora chegar e não quando interessar ao mercado. Como diria Moraes Moreira, “chegou a hora desta gente experiente mostrar seu valor”.

Aditamento à Inicial: para complementar leiam também o ótimo texto “Me chamem de velha“.

Não é mais possível fazer vista grossa à violência perversa de Bolsonaro

Jorge Coli

Em contabilidade sinistra, presidente se opõe à ciência e minimiza perigo de coronavírus

Churchill teria dito uma frase assim: “Ele é tão cretino que até a turma dele acabou percebendo”. Cai como uma luva para a atual situação de Bolsonaro, cada vez mais isolado no poder.

Porém, Bolsonaro não se caracteriza apenas por ser cretino. Além de pascácio, seu universo mental é pervertido. Bolsonaro tem as características dos piores ineptos: aqueles que são desumanos. A tal ponto que alguns políticos reles, pelo contraste, estão parecendo nem tão indecentes assim!

Começamos, no Brasil, a contar para além de 2.000 os mortos por coronavírus. Sabemos que esses números são inferiores à quantidade real de vítimas e não passam de indicadores: falta de testes; autópsias não podem ser feitas por risco de contaminação; hospitais não comunicam, ou não conseguem identificar, todas as causas mortis; entre outras razões.

Sem contar que, por esse Brasil afora, em lugares perdidos ou desfavorecidos, quantos não morreram e vão morrer sem que se saiba a causa. Portanto, o número de vítimas é alto, mais alto ainda do que dizem os indicadores tenebrosos.

Muitas dessas mortes foram causadas pelas afirmações absurdas, contrárias a tudo o que a ciência diz, e que Bolsonaro insistiu em proclamar, em divulgar até mesmo oficialmente, por meio de cadeia nacional, minimizando, em nome da economia, o perigo que o contágio representa.

Gripezinha, resfriadinho que não o abateria, um super-homem com passado de atleta (quando tantos verdadeiros atletas pelo mundo, e jovens, já se foram, vitimados pela Covid-19), exibindo falsas flexões em vídeo. E que não causaria danos à grande maioria das pessoas.

“Vai morrer gente, vai”, ele disse, mas apenas os velhos, os fracotes, gente que não conta para a produtividade do país. Sua sinistra contabilidade define quem tem ou não direito à vida.

Estou nesta triste lista, eu, com 72 anos, dentro do grupo de risco, como tantos outros frágeis e idosos, prontos para o forno crematório. Viva o país dos “young and healthy”!

“Não mata mais do que o surto da H1N1 no ano passado”, ele disse. Mal começou a epidemia do coronavírus entre nós e já ultrapassamos de bastante a soma dos mortos causados pela gripe de 2019.

Não importa. A anta maligna continuou saindo às ruas, reunindo pessoas em volta dele e proclamando, todo orgulhoso: “Eu tenho direito constitucional de ir e vir. Ninguém vai tolher minha liberdade de ir e vir”. Por causa dele, tanta gente deixou o cuidado elementar contra o vírus, seja porque cansou de ficar em casa, seja escudado pelo moralismo da produtividade, do “vou trabalhar porque não sou preguiçoso”.

Bolsonaro é culpado pelos mortos que desrespeitaram o confinamento pois foram encorajados por ele. É um genocida.

A violência perversa que se instalou desde o início de seu governo, com devastação de florestas, desmonte da educação e da pesquisa científica, abandono das populações indígenas aos predadores, e tantos outros crimes, podia passar despercebida a quem fazia vista grossa: tudo isso era longe, abstrato, e o importante mesmo era salvar a economia. Agora, com a peste na porta de cada um, não é mais possível deixar de ver que o pesadelo longínquo se tornou, de fato, realidade.

Mas, calma aí, Bolsonaro não é tão culpado assim. Há pior do que ele. Piores são os eleitores que o puseram lá, no alto do poleiro. Cada um que votou em Bolsonaro é cúmplice das mortes que ele está provocando. Cúmplices de genocídio e de assassinato.

E não é possível dizer: “Eu não sabia”. Não sabia, com a campanha baseada na celebração das armas, na vontade de metralhar os inimigos políticos? Campanha alimentada pela pulsão de morte? Como não sabia, cara pálida?

Você votou em Bolsonaro levado por ódio irracional, que o impediu de ver a abominação evidente. Que o fez isentar as manifestações de machismo, de racismo, de desprezos preconceituosos vomitados sem vergonha. Que levou você a acreditar nas manipulações oportunistas de uma justiça a serviço de fins eleitoreiros, perfeitamente bem-sucedidas, a ponto de porem o juiz responsável na poltrona de ministro. Seu ódio deixou você cego. Votos não poderiam ser conduzidos por ódios ou por amores.

Não creio que a mula sem cabeça tenha algum remorso, diante das mortes que aumentam. Mas é impossível que a decência tenha abandonado todos os seus eleitores.

Para estes, é hora de assumir a responsabilidade por todos os horrores desumanos causados pelo presidente. E de aprender a lição que, por infelicidade, tem custo tão alto.

Chomsky e a viabilidade da espécie humana

Srecko Horvat

Entrevista do filósofo e linguista americano Noam Chomsky. Hoje com 92 anos e tendo vivido como testemunha muitos dos grandes fatos que marcaram o século XX e o início do XXI, ele analisa o cenário da crise do coronavírus e traça um quadro nada animador para os próximos anos. No entanto, cita que o isolamento social destes tempos deve ser usado para fortalecer os laços sociais e desenvolver projetos de resistência. A entrevista foi concedida no fim de março de 2020, uma conversa com o filósofo e co-fundador do DiEM25, Srecko Horvat.

Srecko Horvat: Você nasceu em 1928 e escreveu seu primeiro ensaio quando tinha 10 anos de idade sobre a Guerra Civil Espanhola, após a queda de Barcelona em 1938, o que parece bem distante. Sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, testemunhou Hiroshima e muitos eventos históricos e políticos importantes, da Guerra do Vietnã, a crise do preço do petróleo, a queda do muro de Berlin, Chernobyl, testemunhou o momento histórico que levou ao 11 de setembro e o crash financeiro de 2007/2008. Com esse background e sendo um ator da maioria desses processos, como vê a atual crise do coronavírus, algo sem precedente histórico. Surpreende você? Como observa isso tudo?

Noam Chomsky: Devo dizer que as memórias mais tenras que me assombram agora são dos anos 1930, o artigo que você mencionou sobre a queda de Barcelona foi sobre, aparentemente, a inexorável propagação da praga fascista sobre a Europa e como chegou ao fim. Descobri muito mais tarde, quando os documentos internos vieram à publico que os analistas do governo americano, na época e nos anos seguintes esperavam que a guerra terminasse com mundo dividido entre regiões dominadas pelos EUA e uma região dominada pela Alemanha.

Meus medos infantis não estavam completamente errados. E essas memórias voltam agora. Quando era criança, posso lembrar, ouvindo comício de Hitler em Nuremberg no rádio, podia não compreender as palavras, mas podia facilmente entender o clima daquilo tudo, e tenho que dizer que quando escuto os discursos de Trump hoje, soa algo parecido. Não que ele seja fascista, não tem muito de uma ideologia, é apenas um sociopata, um indivíduo preocupado consigo mesmo, mas o clima e o medo é similar e a ideia de que o destino do país e do mundo está nas mãos de um sociopata bufão é chocante.

O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. De fato, há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exacerbada pela tensão dos regimes militares e claro pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas não há muito tempo e o coronavírus é terrível e pode ter péssimas consequências, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós não resolvermos isso, estaremos acabados. As memórias da infância continuam voltando para me assustar, mas em uma dimensão diferente. A ameaça de guerra nuclear não fazia sentido com o mundo onde está, mas olhando para o passado recente, em janeiro, o relógio do juízo final é ajustado a cada ano com os ponteiros dos minutos a uma certa distância da meia noite, que seria o fim. Desde que Trump foi eleito, o ponteiro tem se movido para mais perto da meia noite. Ano passado estava a dois minutos da meia noite. O mais próximo já alcançado. Esse ano os analistas retiraram os “minutos” e movem agora o ponteiro em segundos, 100 segundos para a meia noite, o mais próximo que já estivemos. Observando três questões: A ameaça da guerra nuclear, a ameaça do aquecimento global e a deterioração da democracia, essa última que não está tendo espaço aqui, mas é a única esperança que temos para a superação da crise. Para que as pessoas tenham controle sobre seu destino, se isso não acontecer, estamos condenados.

Se deixarmos nosso destino com sociopatas bufões, será o fim. E isso está próximo, Trump é o pior, por causa do poder dos EUA, que é esmagador. Estamos falando do declínio dos EUA, mas você olha para o mundo e não vê quando os EUA impõem sanções, assassinatos, sanções devastadoras, é o único país que pode fazer isso, mas todo mundo tem de segui-lo. A Europa pode não gostar das ações odiosas contra o Irã, mas tem que acompanhar, deve seguir o mestre, ou será chutada do sistema financeiro internacional. Não é uma lei da natureza, é uma decisão na Europa estar subordinada ao mestre em Washington, outros países não tem nem tem mesmo como escolher. Voltando ao coronavírus, um dos mais chocantes e severos aspectos disso, é o uso de sanções para maximizar a dor, intencionalmente, o Irã está em uma zona com enormes problemas internos pelo estrangulamento do arrocho das sanções, que são intencionalmente desenhadas, para fazer sofrer mais e mais agora. Cuba vem sofrendo, desde o momento em que ganhou sua independência, mas é surpreendente que tenha sobrevivido, mas ficaram resilientes e um dos elementos mais irônicos desta crise do vírus, é que Cuba está ajudando a Europa. Quero dizer, isso é tão chocante, que você não sabe como descrevê-lo. Que a Alemanha não pode ajudar a Grécia, mas Cuba pode ajudar a Europa. Se você parar pra pensar sobre o que significa isso, todas as palavras não servirão. Quando você vê milhares de pessoas morrendo no Mediterrâneo, fugindo de uma região que foi devastada por séculos e sendo enviadas para morrer ali, você não sabe que palavras usar. A crise civilizacional do ocidente neste ponto é devastadora, pensar nisso e trazer memórias de infância de ouvir Hitler no rádio enlouquecer as multidões, faz você pensar se esta espécie [humana] é mesmo viável.

Srecko Horvat: Você mencionou a crise da democracia. Atualmente acho que devemos nos encontrar em um momento sem precedentes no sentido de que cerca de 2 bilhões de pessoas estão de uma forma ou de outra confinadas em casa, em isolamento, auto-isolamento ou quarentena. Ao mesmo tempo o que nós podemos observar é que na Europa, mas também outros países perto de suas fronteiras, internas ou externas, há um estado de exceção em todos os países em que possamos pensar, em regressão em lugares como França, Servia, Espanha, Itália e outros, exército nas ruas… e quero perguntar a você como linguista. A linguagem que circula nesse momento: Ouvindo não apenas Trump, se você ouvir Macron ou alguns outros políticos europeus, constantemente escutará que eles falam sobre Guerra. Mesmo na mídia se fala sobre “frontliners” e o vírus sendo tratado como inimigo. O que me lembra também Victor Klemperer em “Lingua Tertii Imperii”, livro em que falou da linguagem do Terceiro Reich e como a linguagem e a ideologia foram impostas. Sob sua perspectiva , o que esse discurso sobre guerra representa, para legitimar um estado de exceção, ou algo mais profundo neste discurso?

Noam Chomsky: Eu penso que não é exagero. O significado é que se nós lidamos com a crise, estamos nos movendo para uma mobilização como as de tempos de guerra. Se você pensar, pegue um país rico, como os Estados Unidos que tem recursos para superar a questão econômica de imediato. A mobilização para a Segunda Guerra Mundial deixou o país com uma grande dívida que está completamente saldada hoje e a mobilização foi bem sucedida, praticamente quadruplicou a indústria dos Estados Unidos, acabou com a depressão e deixou o país com mais capacidade para crescer.

Isso é menos do que precisamos provavelmente, não naquela escala, isso não é uma guerra mundial, mas nós precisamos da mentalidade desse movimento, nessa crise que essa é severa aqui nós também podemos lembrar da epidemia da gripe suína em 2009, originada nos Estados Unidos. Centenas de milhares de pessoas se recuperaram do pior, mas tem que lidar com isso em um país rico como os Estados Unidos.

Agora dois bilhões de pessoas, a maioria está na Índia. O que acontece para os indianos, eles vivem “da mão para a boca”, estão isolados e morrem de fome. O que irá acontecer? Em um mundo civilizado os países ricos dariam assistência, aqueles que estivessem em necessidade ao invés de estrangulá-los, que é o que estamos fazendo particularmente na Índia e em muitos dos países no mundo.

Se a atual tendência persiste no sul da Ásia, se tornará inabitável em poucas décadas. A temperatura alcançou 50 graus no Rajastão, neste verão está aumentando. A questão das águas agora pode piorar, há dois núcleos de poder que irão lutar por recursos reduzidos de água. Eu digo que que o coronavírus é muito sério, nós não podemos subestimá-lo, mas nós temos que lembrar que isso é uma pequena fração da crise que está vindo. Pode talvez não ameaçar a vida o que o coronavírus faz hoje mas, (tais fatos) irão perturbar a vida ao ponto de tornar a espécie inviável em um futuro não muito distante.

Então nós temos que lidar com muitos problemas, problemas imediatos, o coronavírus é sério, como muitos outros maiores, vastamente maiores, e que são iminentes. Agora há uma crise civilizacional, temos que ver o lado bom do coronavírus, o que pode fazer as pessoas pensarem sobre que tipo de mundo nós queremos? Nós queremos um mundo que nos leva a isso? Devemos pensar sobre a origem desta crise, por que há uma crise do coronavírus? É uma falha colossal do mercado, leva direto a essência dos mercados exacerbados pelo neoliberalismo selvagem, a intensificação neoliberal, os problemas socioeconômicos. Isso era sabido há muito tempo, que a pandemia era muito provável, entendemos muito bem a probabilidade da pandemia do coronavírus, uma modificação da epidemia da SARS, que foi superada 15 anos atrás, o vírus foi identificado, sequenciado, vacinas estavam disponíveis, laboratórios ao redor do mundo poderiam trabalhar diretamente em desenvolver uma proteção para uma potencial pandemia do coronavírus.

Por que não fizeram isso? As companhias farmacêuticas. Nós temos entregado nosso destino a tiranias privadas, corporações, que são inexplicadas para o público, nesse caso, o Big Farma. Para eles fazer novos cremes corporais é mais lucrativo do que encontrar uma vacina que proteja as pessoas da destruição total. É possível para o governo entrar nisso, voltar às mobilizações dos tempos de guerra, foi o que o que aconteceu com a pólio naquele tempo, eu posso me lembrar muito bem, a terrível ameaça que foi extinta pela descoberta da vacina Salk, por uma instituição do governo, apoiada pela administração Roosevelt. Sem patentes, disponível a todos. Que pode ser feito agora, mas a praga neoliberal bloqueia isso. Estamos vivendo sob uma ideologia para a qual os economistas têm uma boa parte de responsabilidade, que vem do setor corporativo. Uma ideologia que é tipificada por aquilo que Ronald Reagan colocou no script, pelo seu mestres corporativos com seus sorrisos reluzentes, dizendo que o governo é o problema. Vamos nos livrar do governo, o que quer dizer “vamos deixar as decisões nas mãos das tiranias privadas que não tem responsabilidade com o público”. Do outro lado do Atlântico Margaret Thatcher nos mostrou que há uma sociedade, em que apenas indivíduos jogados dentro do mercado podem sobreviver de alguma forma e para além disso não há alternativa. O mundo tem sofrido sob o poder dos ricos por anos, e agora é o ponto onde as coisas podem estar acabadas. Com intervenção direta do governo no escopo da invenção da vacina Salk, mas que é bloqueado por razões ideológicas da praga neoliberal e o ponto é que essa epidemia de coronavírus poderia ter sido prevenida.

A informação que estava ali para ser lida era bem conhecida em outubro de 2019 logo antes do surto. Houve uma grande simulação em escala nos Estados Unidos para uma possível pandemia Mundial desse tipo. Nada foi feito, agora a crise ficou bem pior pela traição do sistema político. Nós não prestamos atenção na informação que estavam cientes em 31 de dezembro, a China informou à OMS sobre uma pneumonia com sintomas com etiologia desconhecida. Uma semana depois eles identificaram, alguns cientistas chineses, como um coronavírus, também sequenciaram e deram a informação ao mundo pelos seus virologistas, outros que ficaram incomodados em ler o relatório da OMS. Os países naquela área, China, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura começaram a fazer algo e contiveram o surgimento da crise. Na Europa o que aconteceu, Alemanha foi capaz de agir de maneira egoísta, não ajudando os outros. Outros países apenas ignoraram. Um dos piores deles o Reino Unido e o pior de todos, os Estados Unidos, que disseram um dia que não havia crise, diziam “ser apenas uma gripe”, e no dia seguinte era uma terrível crise, que sabiam de tudo. No dia seguinte: “nós temos que tratar de negócios, porque tenho que vencer a eleição…”

A ideia de que o mundo está nessas mãos é chocante, mas, o ponto é que começou com uma, novamente, colossal falha do mercado ao ponto fundamental da ordem econômico-social deixada muito pior pela praga neoliberal e ela continua por causa do colapso nas estruturas institucionais que poderiam lidar com isso, se estivessem funcionando.

Esses são os pontos que nós temos que pensar seriamente e pensando mais profundamente digo, em que tipo de mundo nós queremos viver? Se superarmos de qualquer forma haverá opções. O alcance das opções vão da instalação de Estados altamente autoritários por todas as partes até a reconstrução da sociedade em termos mais humanos, preocupados com as necessidades humanas ao invés do lucro privado. Isso é o que nós devemos ter em mente, que estados altamente autoritários e viciados são bastante compatíveis com o neoliberalismo, os teóricos do neoliberalismo como Hayek e o resto eram perfeitamente felizes com o estado massivo de violência apoiada pela economia. O neoliberalismo tem suas origens em 1920 em Viena no estado proto fascista austríaco que esmagou a união dos trabalhadores e a social-democracia austríaca e fez parte do governo proto fascista e louvou o fascismo e sua economia protecionista. Quando Pinochet instalou ditadura assassina brutal no Chile eles amaram, eles lutaram lá, auxiliando esse “milagre maravilhoso”, que que trouxe “solidez da economia”, grandes lucros, para uma pequena parte da população.

Não é errado pensar que sistema neoliberal selvagem pode ser reinstalado por auto-proclamados liberais por forte violência do Estado, um pesadelo que pode vir. mas é necessário a possibilidade de que as pessoas se organizem, se tornem engajadas para um mundo muito melhor, que também enfrentará os enormes problemas que estamos lidando… Problema da guerra nuclear que está mais próximo do que nunca esteve, o problema da catástrofe ambiental do qual pode não haver retorno uma vez que chegamos em tal estágio e não está em uma distância tão grande, a menos que nós arranjemos decisivamente. Então é um momento crítico da história humana não apenas por causa do coronavírus, mas deve nos trazer a consciência das profundas falhas, de forma mais profunda, as características disfuncionais de todo sistema sócio-econômico. Pode ser um sinal de alerta em uma lição para nos prevenir de uma explosão, mas pensando sobre isso e coisas como essas vai nos levar a mais crises piores que essas com um preço extra a se pagar.

Srecko Horvat: Como se dará a resistência em tempos de distanciamento social e o que se esperar de um futuro pós-coronavírus?

Noam Chomsky: Primeiro de tudo nós devemos ter em mente que há, desde poucos anos atrás, uma forma de isolamento social que é muito danosa. Você vai ao McDonald’s e vê adolescentes sentados ao redor da mesa comendo hambúrguer e o que você vê é uma conversa rasa de uns ou alguns outros mexendo no seu próprio celular com algum indivíduo remoto, isso tem atomizado e isolado as pessoas em uma extensão extraordinária. As redes sociais têm tornado as criaturas muito isoladas, especialmente os jovens. Atualmente, as universidades nos Estados Unidos onde os passeios tem placas dizendo “olhe para frente” porque cada jovem ali está grudado em si mesmo, essa é uma forma de isolamento social auto-induzido, o que é muito prejudicial.

Estamos agora em situação real de isolamento social. Que deve ser superada com recreação, laços sociais e tudo que puder ser feito. Qualquer coisa que puder ajudar as pessoas em necessidades, desenvolvendo organizações, expandindo análises… Fazendo planos para o futuro trazendo as pessoas para perto… Procurando soluções para os problemas que encaram e trabalhar neles. Estender e aprofundar atividades, pode não ser fácil, mas os humanos têm encarado seus problemas.