Foi amor ao primeiro escrito com português correto

Rebeca Bedone

Ela se rendeu aos aplicativos de paquera. Tímida e conservadora, nunca acreditou muito nessas tecnologias do amor. Mas acontece que a solidão torna-se uma insistente companheira para aqueles que não tomam alguma atitude, como sair de casa mais vezes ou até encarar sites de relacionamento. Encorajada pelas amigas que arrumaram seus “crushs” na internet, ela montou seu perfil. Escolheu algumas fotos e ficou pensando se colocaria informações pessoais. Melhor não, vai saber quem é que leria sobre a sua vida. No começo, ela tinha que decidir se apertava o xis ou o coraçãozinho: não ou sim. Com qual critério decidir se o cara era um paquera em potencial? A foto. Até ali, era só a aparência física que estava valendo? Ok. Ela resolveu jogar o joguinho de encontrar um “crush”: não; não; não; não; não; não; não. Tinha alguma coisa errada. Será que ela estava sendo exigente demais? Com certeza, sempre foi (deve ser por isso que anda sem sorte no amor). Mas essa maneira de escolher não parecia muito justa. E se os nãos anteriores fossem pessoas legais e interessantes? Ela só saberia se conversasse, certo? Então despiu-se mais uma vez de seus preconceitos e começou a espalhar coraçãozinhos: sim, sim, sim, sim, sim, sim! Mais uma barreira vencida. Ela estava se sentindo orgulhosa. Ficou esperando para ver o que aconteceria em seguida, quando chegou a primeira mensagem: “oi linda”. Hum. Curioso. A abordagem, que para muitas mulheres deve ser uma delícia, para ela pareceu invasiva. O cara nem tinha intimidade e já ia chamando-a de linda. Mas, ok, ela estava decidida a romper barreiras. Papo veio, papo foi e o dia correu com uma variação de cantadas digitais. Mas alguma coisa estava esquisita. Não era que os moços não parecessem bacanas, até pareciam. Uns mais atirados, outros, discretos; fazia parte do processo, como na vida real. Mas um detalhezinho a incomodava: quanto erro de português, meu Deus! Veja bem: ela não é nenhuma literata nem professora de Língua Portuguesa. Mas, quanto mais madura e independente é uma mulher, mais seletiva ela fica em seus relacionamentos. Se isso é bom? É e não é; cada experiência que o diga! E, em se tratando dela, escrever o básico de forma correta é imprescindível (fazer o quê?!). Como sentir tesão com um “moro aqui a cinco anos” e “concerteza você vai gostar”? Ela, com absoluta certeza, não gostou. E gostou menos ainda quando leu “pra mim fazer”, “fazem 3 dias” e “agente vamos”. Sobre os porquês, ela até deu um tempo na sua implicância. A língua portuguesa é difícil mesmo, não seria justo julgar alguém só por ele não saber por que os porquês são escritos de forma junta ou separada. Mas, porque chegou a próxima mensagem, ela quase surtou: “linda agente podia marca um rapi”. Será que ele estava convidando-a para dançar rap? Não. Era “happy hour”! As pessoas escrevem mensagens com um ritmo acelerado nos dias de hoje. Ela entendia que abreviaturas como vdd (verdade), blz (beleza), vc (você), ctz (certeza), n (não) e bj (beijo) fossem aceitas na era da escrita digital. Mas, mesmo assim, ela chegou a pensar que a profecia de José Saramago seria cumprida algum dia: “De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”. Entretanto, o que a chateava era ver a “última flor do Lácio, inculta e bela” ser tão maltratada. O seu coração doía ao ler tanta coisa errada. Por que assaltaram a gramática e assassinaram a nossa lógica? Para ela, havia uma grande diferença entre licença poética e erro de português. Foi então que seu celular apitou: “Boa noite. Tudo bem com você?”. Os olhos dela brilharam. Como era bonito ler palavras que não estavam abreviadas. E a mensagem tinha até pontuação! Ela ficou interessada e respondeu. A conversa prosseguiu tão deliciosamente pelo aplicativo de paquera que, logo, eles passaram para o WhatsApp — e não “Zap”, como disse um outro candidato ao coração dela. E depois? Será que rolou o encontro ao vivo? Bom, isso é uma outra história (ou estória, para quem preferir).

NÃO LEIA ESTE TEXTO

se você não tiver uma mente aberta e capacidade de pensar de forma diferente…

Muito bem. Resolveu continuar, né? Então prossiga por sua conta e risco.

O que eu gostaria de tratar aqui é sobre o Especial de Natal do grupo Porta dos Fundos chamado “A Primeira Tentação de Cristo”. Muita bobagem vem sendo falada por muita gente, o que acabou me tirando dessa minha precoce pseudo-aposentadoria literária para tentar colocar alguma ordem nessa bagaça toda.

Em PRIMEIRÍSSIMO LUGAR: se você é do tipo “não assisti e não gostei”, então, por favor, PARE DE LER AGORA! Vai assistir o vídeo (são só 46 minutinhos), pois foge totalmente ao conceito da lógica querer discutir sobre algo que você não conhece. Basta clicar neste link e baixá-lo, então marque direitinho onde parou e depois você volta aqui, ok?

Se bem que nestes “tempos modernos”, onde haters predominam nas redes sociais, regurgitando suas convicções na maior parte das vezes absurdas, não seria de se estranhar uma propensão desse tipo, pois lógica tem sido um produto escasso no mercado…

Mas tergiverso.

Bem, espero que tenha assistido, pois vamos ter vários spoilers por aqui.

Considere-se avisado.

Acontece que no Especial de Natal desse ano o grupo Porta dos Fundos (mais uma vez) resolveu cutucar a onça com vara curta: a estória gira em torno de uma festa surpresa para comemorar o aniversário de trinta anos de Jesus, onde, além da família, reúnem-se os Três Reis Magos, Lázaro, um tanto de figurantes – destaque para a “Tia Lupita” (que existe em praticamente todas as famílias) – e Deus propriamente dito. E eis que chega Jesus, após ter passado quarenta dias no deserto, acompanhado do “Orlando”, que evidentemente é gay. Isso mesmo: homossexual. Uma bicha louca. E não, não devemos ter medo das palavras desde que elas nos sirvam para deixar clara a imagem que queremos passar.

A trama, ainda que bem elaborada, é até bem simplesinha. Aliás, nada que já não tenha sido explorado antes, em termos de humor, pois particularmente ainda prefiro as tiradas do antigo blog Jesus, me Chicoteia! (2002) onde o Marco Aurélio consegue desenvolver uma linha hilária ao transcrever a Bíblia desde o Gênesis… Esse Deus apresentado pelo Porta dos Fundos consegue ser quase tão sacana quanto o do blog, cabendo uma menção honrosa às farpas que ele e José trocam entre si.

Pois bem. Após toda a saia justa da chegada dos dois, ficando no ar um clima tenso por conta de estar na cara o que estava acontecendo ali (você não quer mesmo que eu explique, quer?), nessa festa é revelado a Jesus que ele é o Filho de Deus, o que o deixa atordoado. Depois de um chá muito suspeito que faz Jesus viajar e encontrar outras divindades de outras religiões, ele volta só para descobrir que Orlando havia tomado seu lugar como “Filho de Deus” – só que, na realidade, ele era o Diabo. Eles acabam batalhando entre si (o kamehameha de Jesus é de arrancar gargalhadas), tudo acaba num final feliz, o Bem vence o Mal, etc, etc, etc.

E por último Jesus aceita a missão que Deus lhe passo para divulgar Sua palavra, mas com a condição de que teria que ser do jeito dele, pois ele não gosta do estilo do Pai (transformar gente em pedra, destruir cidades por fogo, enfiar um sujeito dentro de uma baleia e por aí vai) e prefere uma solução mais “Paz e Amor”.

Pronto.

É isso.

E só para contextualizar, Jesus de fato começou sua vida pública aos trinta anos (Lucas 3:23), logo após ter voltado de seu exílio de quarenta dias no deserto, onde foi tentado pelo Diabo (Mateus, 4:1-11).

E então, por conta desse vídeo, as redes sociais entraram em ebulição, com muita gente bradando à Netflix que cancelasse sua exibição, pois tratava-se de uma blasfêmia e zombaria contra a Fé mascarada sob a “desculpa” de liberdade de expressão e cujo único propósito seria dessensibilizar as pessoas e preparar o caminho para uma perseguição (???) mais contundente contra os cristãos. Tudo isso por ter insinuado que Jesus teve uma relação homossexual. Na realidade não insinuou não, disse com todas as letras.

O curioso é que no Especial de Natal desse mesmo grupo do ano passado – que inclusive ganhou um Prêmio Emmy Internacional na categoria Melhor Série de Comédia – não me lembro de ter havido essa comoção toda. Nesse, chamado “Se Beber, não Ceie” (uma clara paródia ao filme Se Beber, não Case), nos é apresentado um Jesus que, juntamente com seus discípulos, se reuniram para a última ceia e encheram copiosamente a cara, acordando todos com uma gigantesca ressaca no dia seguinte enquanto tentam reconstruir os passos de tudo que ocorreu – pois ninguém consegue se lembrar de absolutamente nada.

É desse jeito, então?

Um Jesus ébrio, bêbado, embrigadado é aceitável, mas um Jesus homossexual não?

Mas antes vamos rever alguns conceitos básicos:

Paródia: obra literária, teatral ou musical que imita outra obra com objetivo jocoso ou satírico.

Sátira: composição livre e irônica contra instituições, costumes e ideias da época.

Blasfêmia: enunciado ou palavra que insulta a divindade, a religião ou o que é considerado sagrado.

Ou seja, já deve ter sido possível para você perceber que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”! Aliás uma das melhores explicações que li foi a do padre Francys Silvestrini:

“Quando, por diversas razões, os humoristas tentam entrar no campo religioso, é importante distinguir o ‘alvo’ que querem atingir. O ‘alvo’ da blasfêmia é Deus. O ‘alvo’ da sátira é a imagem de Deus projetada publicamente por aqueles que dizem crer nEle. Os que se utilizam da sátira falam sobre nós, nossas crenças, nossas práticas; não sobre Deus. (…) Será que a caricatura satírica, para muitos desagradável, deste controverso ‘Especial de Natal’ não seria uma ocasião favorável para examinarmos a possível caricatura blasfemadora que muitos de nós, crentes, estamos projetando no espaço público de nosso país?”

Aliás, impossível assistir o vídeo sem ao menos lembrar do excelente A História do Mundo – Parte I, do diretor, roteirista, ator e comediante Mel Brooks (recomendo). Porém, diferente dele, o pessoal do Porta dos Fundos não tem a mesma finesse para tratar do tema, mas mesmo assim possuem pontos em comum, pois trata-se da “arte da farsa”, um gênero teatral de caráter puramente caricatural de concepção simples, que aborda trivialidades em situações ridículas, sem medo de gracejos ou exageros – muitas vezes agindo como crítica sociocultural. E nisso não há blasfêmia nenhuma.

Até porque o que eles fizeram não foi zoar com a religião em si, mas sim com a maneira com que as pessoas lidam com a religião – o que são coisas totalmente distintas. Na prática esse vídeo, apesar de toda a galhofa, acaba por reafirmar a divindade de Cristo bem como a importância de sua missão – até porque somente ele consegue livrar a humanidade do Diabo. Nenhum dogma é questionado, pois até mesmo a virgindade de Maria segue incólume. O verdadeiro alvo das piadas não é a fé, mas os conflitos e as contradições que existem dentro de qualquer família – cujas disputas, intrigas e outros comezinhos acabam por vir à tona na época do Natal.

Doutra feita, tirando, obviamente, a última figurinha, se qualquer das outras figuras desse quadro acima por algum motivo lhe incomodou, então o seu problema não é com o que considera blasfêmia, mas sim com o fato de sua própria intolerância àquilo que foge do “seu normal”.

E não me venha falar de respeito à família, tradição, pessoas de bem, o escambau. Nos dias de hoje tudo isso acaba servindo mais para disfarçar o próprio preconceito das pessoas com relação a tudo que as cercam. Nestes tempos conturbados em que vivemos, onde a sociedade se cala diante dos feminicídios, de assassinatos, da truculência policial, da falta de sensatez generalizada, buscar o ressurgimento de uma ultraconservadora TFP vai contra tudo aquilo que acredito em termos de evolução humana.

Goste ou não, saiba que existem pretos. Existem pobres. Existem nordestinos. Existem bêbados. Existem homossexuais. Existem transexuais. Existem famílias felizes formadas por pessoas do mesmo sexo e até mesmo por três ou mais pessoas que vivem juntas. Você pode não gostar disso, mas você não pode fechar os olhos a isso. É uma realidade que não pode ser alterada nem mesmo pela intransigência, pelo racismo, pela homofobia ou por qualquer outro desvio de caráter (pessoas assim é que, na minha opinião, realmente possuem um desvio de caráter).

Então entenda que esse vídeo do Porta dos Fundos é uma mera sátira, pois enxovalha os costumes dessa sociedade hipócrita em que vivemos, mas nada faz para atacar a Fé de absolutamente ninguém.

Foi essa, inclusive, a linha seguida pela juíza Adriana Sucena Monteiro Jara Moura, da 16ª Vara Cível do Rio de Janeiro, ao negar um pedido de liminar para que esse Especial de Natal fosse removido do Netflix, pois ela entendeu que uma decisão nesse sentido seria “inequivocamente censura decretada pelo Poder Judiciário”. Diz também que não encontrou no caso a ocorrência de crimes contra a religião, violação aos direitos humanos, incitação ao ódio ou discriminação. E, ainda:

“Ademais, também considero como elemento essencial na presente decisão que o filme controverso está sendo disponibilizado para exibição na plataforma de streaming da ré Netflix, para os seus assinantes. Ou seja, não se trata de exibição em local público e de imagens que alcancem aqueles que não desejam ver o seu conteúdo. Não há exposição a seu conteúdo a não ser por opção daqueles que desejam vê-lo. Resta assim assegurada a plena liberdade de escolha de cada um de assistir ou não ao filme e mesmo de permanecer ou não como assinante.”

E esta foi apenas uma de uma série de decisões semelhantes, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. Um pouco mais ácida foi a decisão da juíza Marian Najjar Abdo, da 1ª Vara do Juizado Especial Cível de São Paulo:

“Uma das principais lições ensinadas por Jesus é a da tolerância, sobretudo em relação aos pobres de espírito (e também aos ‘espíritos de porco’). Entendo ausente o perigo de dano irreparável ou de difícil reparação. A liberdade de expressão, no presente caso, parece, de fato, ter sido utilizada de forma desvirtuada e abusiva, mas, em princípio, basta que o autor não assista ao programa em questão e até mesmo não mais mantenha contrato com a corré Netflix, em sinal de sua indignação.”

Enfim, é isso. Essa é minha opinião, quer você goste ou não, quer você tenha se convencido ou não. E você tem o pleno direito de não concordar e continuar convicto de que essa é uma “obra blasfema”. Paciência. Eu tentei. Mas uma coisa lhe digo: se você quer buscar ter, no mínimo, argumentos para discutir, então assista o vídeo (até o fim!) e tire suas próprias conclusões.

Ou então não assista e vá ser feliz.

Mas lembre-se (Lucas 9:37-56) de ser tolerante…

Emenda à Inicial:

E eis que voltei pra casa, após um ótimo Natal em família e, ao me atualizar do que aconteceu no mundo durante minha ausência, uma das primeiras notícias que vejo é a seguinte:

Sede do Porta dos Fundos sofre ataque a bomba na véspera do Natal

Em nota os integrantes do Porta dos Fundos afirmaram:

“Na madrugada do dia 24 de dezembro, véspera de Natal, a sede do Porta dos Fundos foi vítima de um atentado. Foram atirados coquetéis molotov contra nosso edifício. Um dos seguranças conseguiu controlar o princípio de incêndio e não houve feridos apesar da ação ter colocado em risco várias vidas inocentes na empresa e na rua.

O Porta dos Fundos condena qualquer ato de violência e, por isso, já disponibilizou as imagens das câmeras de segurança para as autoridades, para o Secretário de Segurança e espera que os responsáveis pelos ataques sejam encontrados e punidos. Contudo, nossa prioridade, neste momento, é a segurança de toda a equipe que trabalha conosco.

Assim que tivermos mais detalhes, voltaremos a nos manifestar. Mas, por enquanto, adiantamos que seguiremos em frente, mais unidos, mais fortes, mais inspirados e confiantes que o país sobreviverá a essa tormenta de ódio e o amor prevalecerá junto com a liberdade de expressão.”

Particularmente ainda estou pasmo com o grau de ignorância e de violência que nossa sociedade brasileira está atingindo. Não é esse mundo de ódio e intolerância que quero para meus filhos. Sempre me manifesto contra esse tipo de atitude, mas parece que cada vez mais minha voz vai sumindo em meio àqueles que vociferam suas verdades absolutas.

Infelizmente parece que, de fato, como diria Thalma de Freitas, “quem está evoluindo hoje são as máquinas, não nós.”

Mussarelices

– Boa noite. Quero pedir uma pizza.

– Pois não, qual o sabor?

– Meia dois queijos e meia calabresa. Aqui diz que a calabresa vem com mussarela. Eu quero sem mussarela e com bastante cebola.

– Qual pizza o senhor quer?

– Meia Calabresa sem mussarela e meia dois queijos.

– O senhor não quer que coloque mussarela na calabresa?

– Por favor, não.

– Aqui colocamos mussarela, senhor.

– Vocês não podem tirar?

– Podemos sim, senhor. É que normalmente não fazemos isso.

– Minha querida, calabresa com mussarela se chama Sorrento. Pizza de Calabresa não vai mussarela.

– Sim senhor. Então o senhor não quer mussarela na calabresa?

– Não, querida, sem mussarela.

– E na dois queijos, vai querer a mussarela?

– Aqui no cardápio diz que a dois queijos de vocês é com provolone e catupiry.

– Ah. Mas como o senhor não quer mussarela na calabresa, pensei que queria na dois queijos.

– Ok, faz sentido, mas não, minha filha. Hoje não é um bom dia para mussarela, ok? Sem mussarela.

– Então sem mussarela na dois queijos, senhor?

– Isso! Sem mussarela na dois queijos e sem mussarela na calabresa! Entendeu?

– Sim senhor. O senhor então quer duas pizzas, uma meia calabresa sem mussarela e dois queijos e outra só de mussarela?

– …

– Senhor?

– Vamos lá… Eu quero UMA!!! UMA PIZZA METADE DOIS QUEIJOS E METADE CALABRESA SEM MUSSARELA!!!

– Ok, senhor. E a mussarela então não vai?

– Como?

– A pizza de mussarela, senhor.

– Sem mussarela, entendeu? Sem mussarela! Minha nossa!

– É que entendi o senhor dizer que não quer uma segunda pizza de mussarela.

– Vou repetir: quero uma pizza metade calabresa sem mussarela com bastante cebola. E outra dois queijos conforme está no cardápio.

– Entendi, senhor. Quarenta minutinhos.

– Tudo isso?

– É que estamos sem mussarela e vamos pegar na nossa outra unidade, senhor.

– Não. Peraí. Você tá me zoando?

– Não senhor, eu jamais faria isso.

– Eu pedi uma pizza dois queijos, catupiry e provolone e a outra metade calabresa SEM MUSSARELA!

– Eu entendi, senhor.

– Obrigado. Vou aguardar.

……………

Quarenta minutos depois a pizza chega. Abro a caixa. Era uma pizza de atum com mussarela.

Nota: Desconheço a autoria deste texto – mas adorei!!! 😀

A FLIP está certa: a literatura é inútil

Edson Aran

O escritor Hilaire Belloc (1870-1953), um anglo-francês amigo de G.K. Chesterton, disse: “Metade do que escrevemos é prejudicial; o resto, inútil”.

Belloc foi poeta, político, ensaísta, católico fervoroso e esquizoide. Eu acho, pelo menos. Um “anglo-francês” é uma esquisitice tão grande quanto um “argentino-brasileiro”. Um ser imaginário que não faz sentido algum aos olhos de deus e dos homens. No entanto, Belloc está certo quando diz que escrever é uma atividade ridícula e desprezível. Pra quê serve a literatura, afinal? Pra nada. Absolutamente nada. Fez muito bem a FLIP em se transformar numa feirinha de ativistas. A turba bolsonarista que tentava impedir a palestra de Glenn Greenwald é a imagem que vai ficar do encontro. O resumo.

Livrarias fecham, editoras agonizam e só funcionários públicos podem se dedicar à literatura no Brasil, mas está tudo bem. Afinal, pra que serve a literatura? Pra nada. O que os dramas burgueses de Machado fizeram pela emancipação do proletariado? Nada. O que o indeciso príncipe dinamarquês de Shakespeare fez pela restauração do catolicismo na Inglaterra? Nada. O que Euclides fez pelo banimento dos canudos? Acertou: nada. Eu poderia comentar ainda o papel de Cervantes na emancipação da mulher negra (nenhum) ou de Mário de Andrade na demarcação de terras indígenas (zero), mas acredito que o argumento esteja claro. A literatura é uma atividade inútil e é uma absoluta perda de tempo se ocupar com essa bobagem. Ativismo, sim! Essa é a glória que fica, eleva, honra e consola.

Afinal, pra que serve a literatura? Só pra uma coisa, que é, no entanto, desprezível, desnecessária e dispensável: criar o imaginário de um povo. Uma ideia de nação. Uma ideia de país. Uma ideia de cultura. Uma ideia de futuro. Uma ideia de passado. Mas quem precisa disso? Não o Brasil, muito obrigado.

Passamos da barbárie à decadência sem fazer escala na civilização. Ficamos reduzidos a duas tribos políticas antagônicas que só se encontram no atraso. De um lado, a corrupção corporativista primitiva e cínica comandada por uma triste figura sebastianista endeusada por padres sem fé. De outro, o fascismo ignorante violento e tosco liderado por uma patética figura endeusada por pastores com fé apenas no dinheiro. Em 500 anos, foi isso o que conseguimos produzir. Quer dizer, 500 não, que isso é de um eurocentrismo pra lá de abjeto. São 13.500, a contar da chegada de Luzia na nossa horta. Luzia, o fóssil mais antigo das Américas. Aquele que quase virou cinzas quando o Museu Nacional pegou fogo, lembra?

Diante desse abissal tempo perdido, para que serve a literatura? Para construir um imaginário diferente desse que está aí? Para unir as tribos belicosas numa cultura comum? Ah, fala sério. Quem precisa disso? A Terra é plana, a cabeça é oca e a FLIP está certa em se encher de lobbystas em vez de autores.

Afinal, se todo mundo bater bumbo o tempo inteiro, ninguém vai ouvir o brasileiro gritando: “O horror! O horror! O horror!”

Ugur Gallenkus

Ugur Gallenkus é um fotógrafo que nasceu e vive na Turquia, cujo trabalho combina imagens de conflitos com cenas cotidianas e fotografias famosas, numa tentativa de evitar a banalização das imagens das guerras que beiram as fronteiras de seu país.

O abdome está definido, mas a cabeça está cheia de dúvidas

Eberth Vêncio

Em 53 anos, o meu abdome nunca esteve tão definido. Para a minha total contrariedade, decidiu-se pela robustez. É como se eu tivesse engolido uma bola de basquete, se é que me entendem. Aqui na região onde eu moro, diz-se que estrupícios assim possuem “barriguinha de lobó”. Lembram-se da jiboia que engoliu o elefante em “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry? É mais ou menos assim: um chapéu que caminha sobre duas pernas. Eis a minha risível silhueta.

Já faz tempo que odeio espelhos. Também não gosto de frequentar academias, sejam elas de ginástica, de polícia ou de letras. Afetam-me sobremaneira os cheiros de éter, de pólvora e de colônia, não necessariamente nesta ordem. E a ojeriza só cresce com a idade. Puxar ferros vestido com uma camiseta regata, postado de frente um espelho, nessa altura da vida, desafia os meus pecados capitais. Desprovido da devida vaidade, exercito-me numa academia de musculação por ordem e chantagem médicas. “Sem dor, sem ganho”, ele diz, chupando um dropes hipercalórico, como se já não fosse o bastante eu padecer das esferas mentais. Duvido que ele, meu cardiologista balofo, suporte realizar agachamentos sustentando 50 quilos nas costas. Ainda se fosse uma bela mocinha, dava-se um jeito; eu virava titã e não envergava nem que ela tagarelasse nua de tamancos sobre os meus ombros.

Para mim, a pior parte da malhação é a língua. Tem sempre um enxerido que se aproxima e puxa um assunto, geralmente, um tema intolerável demais quando se está bufando, prestes a romper as veias do pescoço e a parir os testículos de tanto fazer força num estúpido exercício de repetições dentro de um aparelho ferruginoso. Não seria de todo ruim se eu me cortasse nele e morresse de tétano. De desencanto, já padeci faz tempo. “Você viu só o que disse o filho do presidente?”. Eu digo que não, que não vi, nem ouvi, o que disse o dito-cujo. Sinto uma raiva primitiva quando sou inconvenientemente forçado a dialogar sob um estado letárgico de asfixia. Tem gente que não se toca. Eu devia botá-los pra correr ou simular um colapso ao som do Calypso que ribomba infernalmente no ambiente. Assim, quem sabe, colocava um ponto final no assunto.

“Virou defunto. Fulano-de-tal morreu enquanto fazia um supino”, alguém conta, com a empolgação de quem falta um pino e comemora um gol. Eu sempre quis entrar com bola-e-tudo na zaga-bem-postada daquela balzaquiana com collant-de-oncinha. Sinto uma saudade miserável dos meus 17. Naquela idade, tinha uma enorme vitalidade para cometer erros, meter os pés pelas mãos e fazer sexo em pé sem chorar de câimbras. Há um excesso de perfume gardênia empestando o ar. Passa uma mulher extravagante com tetas escandalosas prestes a explodir. Todo sacrifício em nome de Alá. Eu sofro de chistes agnósticos. Focados em impressionar a beldade, quase todos os homens presentes no local apressam-se em aumentar um pico na já extravagante carga de halteres. Quisera estar em Alter do Chão. Se tivesse escolha, eu queria mesmo era ser uma árvore. Ouvi isso da boca de ninguém menos do que o cantor Djavan.

Fico pensando qual a chance de ouvir “Riders on the storm” naquele antro fitness. Um sujeito impávido, de sobrancelhas feitas, sábio como um armário, faz bicotinha e se fotografa usando o próprio smartphone. Uma dona que parece recatada e do lar presencia a cena bisonha, suspira fundo e comenta ai-que-bom-seria-se-eu-fosse-solteira, sem depreender que, da fruta que ela gosta, o rapaz come até o caroço.

Não gosto desse troço. De frequentar academias. Nem atléticas. Nem policiais. Nem literárias. Minha cabeça anda cansada como um velho pangaré. Queria tanto um bife a cavalo com três canecos de chope. Sou 70% água e 30% descrença. Por onde passo a fazer o meu circuito, molho os assentos com um suor cínico. Uma mocinha que tem idade para ser minha filha ou minha amante faz a assepsia do aparelho com solução de álcool 70. Sinto-me sujo como um poema do Bukowski.

Já se passaram 20 minutos e me considero desacorçoado o suficiente para dar o fora e escrever uma crônica pedante. Pergunto ao instrutor sarado que veste uma camiseta de Mojo Filter fazendo arminhas com os dedos indicadores onde consigo tomar um cafezinho naquela joça, mas, ele diz que café é frescura e que ele só toma anabolizantes. Já chega de tanto exercício físico. Tiro de campo o meu corpinho de poeta tísico. Nada mal para quem deseja ser uma árvore. Com a vantagem adicional de que árvores não conversam com pessoas, por mais que alguns insistam.