Ugur Gallenkus

Ugur Gallenkus é um fotógrafo que nasceu e vive na Turquia, cujo trabalho combina imagens de conflitos com cenas cotidianas e fotografias famosas, numa tentativa de evitar a banalização das imagens das guerras que beiram as fronteiras de seu país.

O abdome está definido, mas a cabeça está cheia de dúvidas

Eberth Vêncio

Em 53 anos, o meu abdome nunca esteve tão definido. Para a minha total contrariedade, decidiu-se pela robustez. É como se eu tivesse engolido uma bola de basquete, se é que me entendem. Aqui na região onde eu moro, diz-se que estrupícios assim possuem “barriguinha de lobó”. Lembram-se da jiboia que engoliu o elefante em “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry? É mais ou menos assim: um chapéu que caminha sobre duas pernas. Eis a minha risível silhueta.

Já faz tempo que odeio espelhos. Também não gosto de frequentar academias, sejam elas de ginástica, de polícia ou de letras. Afetam-me sobremaneira os cheiros de éter, de pólvora e de colônia, não necessariamente nesta ordem. E a ojeriza só cresce com a idade. Puxar ferros vestido com uma camiseta regata, postado de frente um espelho, nessa altura da vida, desafia os meus pecados capitais. Desprovido da devida vaidade, exercito-me numa academia de musculação por ordem e chantagem médicas. “Sem dor, sem ganho”, ele diz, chupando um dropes hipercalórico, como se já não fosse o bastante eu padecer das esferas mentais. Duvido que ele, meu cardiologista balofo, suporte realizar agachamentos sustentando 50 quilos nas costas. Ainda se fosse uma bela mocinha, dava-se um jeito; eu virava titã e não envergava nem que ela tagarelasse nua de tamancos sobre os meus ombros.

Para mim, a pior parte da malhação é a língua. Tem sempre um enxerido que se aproxima e puxa um assunto, geralmente, um tema intolerável demais quando se está bufando, prestes a romper as veias do pescoço e a parir os testículos de tanto fazer força num estúpido exercício de repetições dentro de um aparelho ferruginoso. Não seria de todo ruim se eu me cortasse nele e morresse de tétano. De desencanto, já padeci faz tempo. “Você viu só o que disse o filho do presidente?”. Eu digo que não, que não vi, nem ouvi, o que disse o dito-cujo. Sinto uma raiva primitiva quando sou inconvenientemente forçado a dialogar sob um estado letárgico de asfixia. Tem gente que não se toca. Eu devia botá-los pra correr ou simular um colapso ao som do Calypso que ribomba infernalmente no ambiente. Assim, quem sabe, colocava um ponto final no assunto.

“Virou defunto. Fulano-de-tal morreu enquanto fazia um supino”, alguém conta, com a empolgação de quem falta um pino e comemora um gol. Eu sempre quis entrar com bola-e-tudo na zaga-bem-postada daquela balzaquiana com collant-de-oncinha. Sinto uma saudade miserável dos meus 17. Naquela idade, tinha uma enorme vitalidade para cometer erros, meter os pés pelas mãos e fazer sexo em pé sem chorar de câimbras. Há um excesso de perfume gardênia empestando o ar. Passa uma mulher extravagante com tetas escandalosas prestes a explodir. Todo sacrifício em nome de Alá. Eu sofro de chistes agnósticos. Focados em impressionar a beldade, quase todos os homens presentes no local apressam-se em aumentar um pico na já extravagante carga de halteres. Quisera estar em Alter do Chão. Se tivesse escolha, eu queria mesmo era ser uma árvore. Ouvi isso da boca de ninguém menos do que o cantor Djavan.

Fico pensando qual a chance de ouvir “Riders on the storm” naquele antro fitness. Um sujeito impávido, de sobrancelhas feitas, sábio como um armário, faz bicotinha e se fotografa usando o próprio smartphone. Uma dona que parece recatada e do lar presencia a cena bisonha, suspira fundo e comenta ai-que-bom-seria-se-eu-fosse-solteira, sem depreender que, da fruta que ela gosta, o rapaz come até o caroço.

Não gosto desse troço. De frequentar academias. Nem atléticas. Nem policiais. Nem literárias. Minha cabeça anda cansada como um velho pangaré. Queria tanto um bife a cavalo com três canecos de chope. Sou 70% água e 30% descrença. Por onde passo a fazer o meu circuito, molho os assentos com um suor cínico. Uma mocinha que tem idade para ser minha filha ou minha amante faz a assepsia do aparelho com solução de álcool 70. Sinto-me sujo como um poema do Bukowski.

Já se passaram 20 minutos e me considero desacorçoado o suficiente para dar o fora e escrever uma crônica pedante. Pergunto ao instrutor sarado que veste uma camiseta de Mojo Filter fazendo arminhas com os dedos indicadores onde consigo tomar um cafezinho naquela joça, mas, ele diz que café é frescura e que ele só toma anabolizantes. Já chega de tanto exercício físico. Tiro de campo o meu corpinho de poeta tísico. Nada mal para quem deseja ser uma árvore. Com a vantagem adicional de que árvores não conversam com pessoas, por mais que alguns insistam.

A Terra é plana!

Sim, é isso mesmo. A Terra é plana.

Isso é de uma obviedade que não tem tamanho, pois não importa se todos os demais planetas de nosso sistema solar (e do restante do Universo conhecido) possuem formato esférico, nem se a própria Lua vista a olho nu é nitidamente redonda e muito menos o formato da sombra que é projetada nos eclipses lunares – é incontestável que o Planeta Terra é uma gigantesca panqueca que viaja pelo espaço.

Aliás, perdoem-me pelo ato falho: é lógico que nosso planeta não viaja pelo espaço. Desde a Grécia Antiga já era sabido, pela Teoria do Geocentrismo, que o Planeta Terra permanece fixo no centro do Universo, com todos os demais corpos celestiais – inclusive o Sol – girando ao seu redor.

E é por isso mesmo que se faz necessário acabar com esse falso pensamento ideológico de que haveria necessidade de um “Horário de Verão” – uma mentira criada pelas classes outrora dominantes tão somente para tentar comprovar essa visão distorcida de que a Terra seria redonda e giraria em torno do Sol, com supostos solstícios de Inverno e de Verão. Eu nunca vi! Nunquinha! Então está claro que não existe absurdo maior!

Ah, mas existe sim. Eu falo dessa conspiração que já existe há décadas e que foi perfidamente elaborada pela NASA – a agência espacial do Governo Norte Americano – a qual, desde que pôs as mãos nos meios de comunicação em massa, vive de espalhar mentiras e de ditar regras para a indústria mundial de satélites. Não existe a mínima possibilidade de um ser humano já ter ido à Lua, pois é muito, muito longe! Ainda mais se fosse para contar com aquela tecnologia ultrapassada da década de sessenta. E não importa que mesmo outros países  hoje em dia lancem satélites no espaço, pois eles são obrigados a perpetrar as mentiras da NASA, tendo sido inventado um conceito delirante de “satélite em órbita geoestacionária” para dar a falsa impressão de que esses equipamentos girariam em torno do planeta acompanhando sua rotação – o que evidentemente é uma mentira! Uma vez que a Terra é plana e é o Centro do Universo, não existe esse negócio de “rotação”. O que eles fazem é jogar seus satélites para cima e eles ficam lá, parados, no vácuo do espaço. Simples assim.

Isso se torna tão evidente, ainda mais na medida em que o próprio Criador nos colocou nessa posição, pois somos a única forma de vida que existe no Universo e qualquer outra alegação diferente dessa deve ser guardada para os livros e filmes de ficção científica. Fomos criados à sua imagem e semelhança e foi através de Adão e Eva que tiveram origem todos os povos e etnias que povoam o mundo inteiro. E isso pode ser facilmente comprovado por qualquer pessoa que quiser, basta consultar a Bíblia – tá lá, bem no comecinho, eu mesmo já li! Essa coisa de “Teoria Evolucionista” é claramente uma obra de fariseus sofistas e comunistas, que ficam criando questões casuísticas para ocultar a verdade.

Basta lembrar uma outra passagem que tá lá na Bíblia (e essa eu não só li, como também assisti a um filme que comprova que foi verdade): a Arca de Noé. Os céticos até hoje teimam em negar essa história, usando das mais absurdas alegações. Ora, é lógico que com a ajuda do Senhor seria muito fácil para que os escolhidos, no caso a família de Noé, juntasse um casal de cada uma das bilhões de espécies de animais que ocupam todo o planeta em toda sua extensão e os conduzisse para aquela gigantesca pokebola de madeira que foi construída por apenas um homem e seus três filhos, inclusive com espaço para armazenar a comida que serviria de alimento a todos por quarenta dias! Vejam só que prodígio! Pessoas de visão curta, não compreendem que coube a essa família gerar uma descendência suficiente para repovoar todo o Planeta Terra, dando origem novamente a todos os povos e etnias que hoje existem – até porque, como todo mundo sabe, com prima não é pecado.

E é justamente por conta disso, dessa superpopulação que foi gerada e hoje existe ao redor de todo o planeta, quer dizer, sobre todo o planeta (pois a Terra é plana), que é indispensável que os militares estejam no poder. Isso porque uma guerrazinha de vez em quando serve justamente para ajustar a quantidade de gente existente. Basta ver o exemplo da Alemanha no século passado, povoada por aqueles nazifascistas de esquerda e que, apesar de tudo, ajudaram a efetuar esse necessário controle histórico populacional.

Um exemplo que, inclusive, foi seguido no Brasil, quando do advento da Revolução Redentora de 1964, quando teve início um governo militar democrático (e nada dessa falácia de “Golpe” ou de “Ditadura”) que contou com o apoio de toda a população, sem exceção – menos dos comunistas que queriam levar o país à bancarrota, através de suas falsas ideologias protecionistas, descendentes daqueles que foram derrotados pelo nazismo na Europa.

Mas… Esperem um pouco…

Se o nazismo é de esquerda – o que é óbvio, porque foi o que o Presidente disse – e eles lutavam contra o comunismo, então, por meio de um perfeito silogismo, isso significa que os comunistas eram de direita. Mas se os comunistas eram de direita, então isso quer dizer que o nosso governo militar era de esquerda? Mas e todos os partidos socialistas que foram criados depois? Seriam, então de direita? Não, péra, então tem que ver isso aí. Pois se for assim, esse próprio governo que está aí seria de…

Ôpa!

Estão batendo na porta. Acho que é um pessoal que vinha aqui para uma reunião. Gente que pensa como nós, a maioria correta da população. Vocês sabem, né? Volto assim que puder…

We need to talk about Jean

Exílio de Jean Wyllys mostra que democracia
se tornou perigosa no Brasil

Leonardo Sakamoto

Por medo de ser assassinado, o deputado federal reeleito Jean Wyllys (PSOL-RJ) desistiu do mandato e afirmou que não pretende voltar ao país tão cedo – ele está fora por conta das férias. Jean, que sempre recebeu ameaças de morte por conta de sua atuação parlamentar em defesa da população LGBTT e dos direitos humanos, sentiu sua situação piorar após a execução da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes e das eleições do ano passado.

O deputado, que vive sob escolta policial, disse em entrevista ao jornalista Carlos Julianos Barros, na Folha de S.Paulo, que pesou na decisão as informações de que familiares de um policial militar suspeito de chefiar uma milícia no Rio de Janeiro trabalhavam no gabinete do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro. “O presidente que sempre me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que sempre utilizou de homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim”, disse.

Você não precisa gostar de Jean Wyllys ou concordar com ele para entender que uma democracia pressupõe a garantia que pessoas não sejam ameaçadas de morte por aquilo ou por causa daqueles que defendem. Principalmente quando essas pessoas são políticos eleitos pelo voto popular para falar em nome de uma parcela dos cidadãos no Congresso Nacional. Porque, quando isso acontece, não é apenas o representante que está sendo expulso pelo clima de terror contra ele, mas é a opinião de cada eleitor e eleitora que está sendo amordaçada e violentada.

Uma democracia incapaz de investigar com rapidez e seriedade as ameaças de morte contra um congressista é perigosa. Uma democracia em que uma desembargadora divulga ameaças de morte contra um deputado federal nas redes sociais é disfuncional. Uma democracia em que políticos ironizam um parlamentar que deixa o país com medo de morrer é ridícula.

Não deixo de sentir uma certa vergonha alheia com relação às autoridades que afirmam, com peito estufado, que as “instituições estão funcionando normalmente”. Qual o referencial histórico que adotam para tal avaliação? O Ato Institucional número 5 do Brasil de 1968? A Noite dos Cristais da Alemanha de 1938?

Nosso país sempre matou seus pobres, suas mulheres, seus negros, suas minorias em direitos, seus sem-terra e sem-teto, seus trabalhadores rurais, seus ativistas, seus jornalistas, seus políticos e qualquer um que resolvesse se insurgir contra a desigualdade e a injustiça social. No ano passado, contudo, inauguramos um novo ciclo de violência política. Marielle Franco e Anderson Gomes foram executados em março. Os ônibus da caravana do ex-presidente Lula foram alvos de tiros no mesmo mês. O então candidato Jair Bolsonaro sofreu um atentado em setembro que quase lhe custou a vida. Em outubro, o mestre capoeirista e compositor Moa do Catendê foi esfaqueado e morto por um eleitor de Bolsonaro após uma discussão. Isso não resume a violência, claro.

Esse ciclo encomenda mortes, mas também permite que elas aconteçam, através da omissão e do incentivo.

Em “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, a filósofa Hanna Arendt conta a história da captura do carrasco nazista Adolf Eichmann, na Argentina, por agentes israelenses, e seu consequente julgamento. Ela, judia e alemã, chegou a ficar presa em um campo de concentração antes de conseguir fugir para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Ao contrário da descrição de um demônio que todos esperavam em seus relatos, originalmente produzidos para a revista New Yorker, o que ela viu foi um funcionário público medíocre e carreirista, que não refletia sobre suas ações e atividades e que repetia clichês. Ele não possuía história de preconceito aos judeus e não apresentava distúrbios mentais ou caráter doentio. Agia acreditando que, se cumprisse as ordens que lhe fossem dadas, ascenderia na carreira e seria reconhecido entre seus pares por isso. Cumpria ordens com eficiência, sendo um bom burocrata, sem refletir sobre o mal que elas causavam.

A autora não quis com o texto, que acabou lhe rendendo ameaças, suavizar os resultados da ação de Eichmann, mas entendê-la em um contexto maior. Ele não era o mal encarnado. Seria fácil pensar assim, aliás. Quis ela explicar que a maldade foi construída aos poucos, por influência de pessoas e diante da falta de crítica, ocupando espaço quando as instituições politicamente permitiram. O vazio de pensamento é o ambiente em que o “mal” se aconchega, abrindo espaço para a banalização da violência. Já fiz essa reflexão sobre o livro aqui, mas é pertinente retomá-lo neste momento.

Líderes políticos, sociais ou religiosos afirmam que não incitam a violência através de suas palavras. Porém, se não são suas mãos que seguram o revólver, é a sobreposição de seus argumentos e a escolha que fazem das palavras ao longo do tempo que distorce a visão de mundo de seus seguidores e torna o ato de atirar banal. Ou, melhor dizendo, “necessário”. Suas ações e regras redefinem o que é aceitável, visão que depois será consumida e praticada por terceiros. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, praticamente em uma missão divina.

Os envolvidos nesses casos colocam em prática o que leem todos os dias na rede e absorvem em outras mídias: que seus adversários político e ideológico são a corja da sociedade e agem para corromper os valores, tornar a vida dos outros um inferno e a cidade, um lixo. Seres descartáveis, que nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos do “bem”.

Jean Wyllys foi vendido, ao longo dos anos, como uma dessas pessoas descartáveis, que ameaçam a existência de “homens e mulheres de bem”. Nesse sentido, o agressor pode ser qualquer um.

A discussão não é entre direita e esquerda, mas entre civilização e barbárie.

Com o exílio de Jean Wyllys por medo de morrer, a barbárie marca mais um ponto.

Armas foram feitas para matar

Élida Ramirez

Tânia era uma tia para mim. Foi morta pelo irmão esquizofrênico que usou uma pistola com silenciador. Rodrigo, irmão mais novo de um amigo, tinha 19 anos quando foi atingido por uma bala no peito disparada por um militar que fazia bico em uma festa universitária. Edma fazia minhas unhas e sumiu. O corpo foi achado em um lote vago, cheio de tiros. Nos três casos, armas legalizadas e ilegais. Que cumpriram o papel do armamento: matar. Fico pensando que se fosse uma faca, talvez, os atos violentos não tivessem sido fatais. Conjecturas de quem perdeu afetos. Antes dessas mortes, já era contrária à política do armamento. A discussão sobre o tema gera polêmica há décadas no Brasil. A falta de consenso vai desde o copo sujo aqui perto de casa aos especialistas. E, para mim, a informação parcial desencontrada e o uso político do assunto são tão perigosos quanto ter um revólver no travesseiro em uma casa cheia de crianças.

O uso de arma, suas consequências e simbolismos desde sempre conferiram ao assunto o troféu de abacaxi histórico. Por que tanto bafafá em relação ao assunto? Pois desde a criação da pólvora na China até os fuzis e metralhadoras mais potentes de hoje, as armas cumprem a mesma função: tirar a vida das pessoas. Não vim aqui para convencer ninguém pois as redes sociais já estão lotadas de opiniões de todo tipo. Mas proponho reflexões. A violência não acontece porque estou desarmada. Ela é conjuntura de fatores socioeconômicos. Portanto, ter revólver só ajuda a matar mais.

Muito dirão: “ah, se o estado não me protege 100%, tenho direito a fazê-lo”. De fato. Se a função da arma é matar e é liberado a civis a ter em seus lares, indiretamente é dada a licença para atirar. Rejeito veementemente a noção infantil, rasa e preconceituosa que anda circulando por aí de cidadão do bem. A falta de dinheiro não é a única responsável pelo crime. Meu pai passou fome e nunca tirou um centavo de ninguém. Jamais mataria. Reconheçamos, a conjuntura interfere. E justificar assassinatos de supostos bandidos com o argumento da autoproteção é optar pelo conformismo imediatista, primitivo e perigoso do “olho por olho, dente por dente”.

A solução de problemas por meio da morte não pode ser naturalizada. Quando cobria crimes, como jornalista, tratava o morto informalmente como “presunto”. O maior desrespeito. É que estava tão imersa naqueles cenários de assassinatos, que o corpo era sempre mais um. Horrível e vergonhoso. Reconheci, assumi e saí daquilo. E, olha, sou bastante sensível. Gente, não tem jeito. Mesmo que permitam possuir armas. E hajam brechas, entendimentos, circunstâncias jurídicas atenuantes de homicídios garantindo a absolvição. Quem mata nunca deixará de ter sido autor da morte de alguém. Eu não conseguiria conviver com esse peso.

“Redes sociais formaram geração de pessoas inseguras”, diz criador do Orkut

Juliana Carpanez

Orkut Buyukkokten é um sujeito que parece gostar de se conectar com pessoas. Na entrevista ao UOL, na cafeteria de um hotel em São Paulo na terça-feira (3), o criador da plataforma que levava seu nome conversou por quase uma hora, olho no olho, sem encostar uma única vez no celular. Quem dos seus amigos altamente ligados em tecnologia faz isso?

Na sessão de fotos, mesmo com hora marcada para outro compromisso, topou fazer poses e trocar de roupa a pedido do fotógrafo. Conhecido por suas camisas exóticas, subiu duas vezes até seu quarto no hotel para variar o look. Apenas quando terminado o dever, pegou o celular e postou no Instagram com apenas 882 seguidores, as imagens que sua assessora havia feito durante a sessão de fotos para o UOL (a tal foto da foto). Em seus stories, esse registro apareceu numa sequência do evento de marketing digital Digitalks 2018 e de muita comida – fartos buffets, amendoim, pudim, pão de café e caipirinha estavam na lista.

No encontro, conversou sobre como as redes sociais prejudicam as pessoas e mostrou como acha que dá para melhorar esse cenário – aqui aproveitou para divulgar sua nova rede, Hello, lançada no Brasil há um ano. Também contou que viu as fake news se aproximando, negou ter lucrado com a criação do Orkut, revelou usar o Tinder e se declarou para o Brasil, que visita pela segunda vez, agora para uma série de palestras. Só se mostrou reservado quando questionado sobre a idade, que prefere não revelar.

Cientista da computação formado em Stanford (EUA), ele deixou o Google em 2014, mesmo ano em que a rede social Orkut foi extinta. Antes disso, Orkut já havia parado de trabalhar em sua plataforma para virar gerente de produto da gigante de tecnologia. Hoje ele mora em San Francisco (Califórnia, EUA), onde disse dedicar seu tempo ao Hello e aos amigos. Seu dinheiro vem dos investidores que apostam neste novo projeto.

Antes de apresentar os principais trechos da entrevista, com as respostas editadas para melhor compreensão, duas curiosidades. Primeira: o turco Orkut fala Orkut.com para referir-se à rede social (e diferenciá-la de seu nome). Segunda: o plano inicial era chamar essa plataforma de Eden. Como a palavra não estava mais disponível para registro de domínio, os chefões do Google decidiram usar Orkut.

UOL – Você é importante para o Brasil, pelo fato de tanta gente ter usado sua rede social. Quanto o Brasil é importante para você?

Orkut Buyukkokten – Vim para o Brasil em 2009, quando conheci as pessoas, a cultura, a comunidade. Fiquei encantado em como todos eram amigáveis, receptivos, apaixonados, cheios de vida. Eu já tinha essa impressão por causa dos brasileiros com quem eu trabalhava no Orkut.com.

Chegamos a ter cerca de 70% dos internautas brasileiros no Orkut, criando momentos mágicos: essas pessoas fizeram amigos, se casaram, encontraram melhores empregos. Queremos trazer de volta todos esses valores e essas conexões autênticas com o Hello.

UOL – Como você quer fazer isso? As outras redes também começaram com propostas parecidas, mas de alguma forma as pessoas acabam transformando a maneira de usá-las.

Orkut – As redes sociais são hoje especialmente desenvolvidas para as pessoas se promoverem: essas plataformas ganham dinheiro quando você mostra interesse no que as outras pessoas exibem. Os algoritmos e feeds de notícia são otimizados para aumentar o engajamento e os minutos gastos nesses serviços, criando valor para os anunciantes, os cocriadores de conteúdo, as marcas e os acionistas. Não são desenvolvidos para aumentar a felicidade humana.

O que acaba acontecendo é que estamos mais atentos à vida das pessoas do que nunca: vemos seus casamentos fabulosos, as férias sem fim de nossos amigos, jantares incríveis, gente de aparência maravilhosa. Criamos assim uma geração insegura, que olha para esses feeds de notícias e acha que nunca poderá se comparar aos outros, nunca poderá fazer o bastante, nunca poderá ser o bastante.

Então além das expectativas de nossas famílias, amigos, vizinhos, temos hoje toda essa ansiedade que vem das redes sociais ao nos compararmos com os outros. Temos uma sociedade que é realmente insegura, ansiosa, deprimida, estressada, infeliz e solitária. E as redes sociais têm um papel nisso. Elas não aumentam a felicidade, não melhoram a qualidade de vida. Elas a torna pior.

Se usarmos a tecnologia da maneira certa, ela pode abrir portas, nos conectar mais, servir às comunidades. Vimos isso acontecendo nos bons tempos do Orkut.com. Hoje as redes sociais não criam engajamentos autênticos, as pessoas pararam de mostrar quem realmente são. Elas compartilham o que pensam que os outros querem ver.

Como resultado, nossa vida é repleta de cascatas de momentos falsos perfeitamente orquestrados. Paramos de nos arriscar, de ser genuínos, criando paredes que nos protegem dos outros. Não nos conectamos, não criamos intimidade, não somos vulneráveis.

UOL – E como você pretende fazer diferente?

Orkut É preciso desenvolver uma plataforma na qual os usuários sejam os campeões, eles devem vir sempre em primeiro lugar. A interação com as pessoas precisa ser divertida, precisa haver um engajamento autêntico. E a forma mais natural de nos conectarmos uns com os outros na vida real é com as comunidades: eram elas as características mais populares no Orkut.com.

Além disso, existe uma combinação de tecnologia, de algoritmos, de aprendizado das máquinas. É possível fazer as iniciativas positivas suprimirem o que não é bom. Para postar anonimamente no Hello, por exemplo, temos um sistema de monetização. Então a pessoa pode falar sobre política ou sexualidade sem se expor. Mas, como é preciso pagar por isso, ela nunca usará o anonimato para praticar bullying ou espalhar o ódio. Trata-se de uma forma de equilibrar o ecossistema e melhorar a experiência do usuário.

UOL – Quando você começou a perceber os impactos ruins das redes sociais?

Orkut – Vi esses primeiros sinais no meu próprio feed de notícias. Um amigo havia postado uma foto feliz em um piquenique com sua mulher, quando eu sabia que eles estavam se separando. Não era um momento real, era um momento falso. Vejo isso o tempo todo.

Vejo pessoas gravando vídeos em um show, não vivendo aquela experiência. Recentemente, na Europa, fui a uma balada e tinha três jovens sentados que estavam o tempo todo olhando seus telefones. Eles não se falavam e só foram dançar para gravar um vídeo.

É preciso olhar nos olhos e para o coração das pessoas. Mas estamos olhando para o smartphone, o que é uma violência contra a humanidade. Somos humanos, não máquinas.

UOL – Você percebeu esses primeiros sinais já no Orkut?

Orkut – Não, foi depois. O Orkut tinha um sistema muito diferente, em que o engajamento acontecia principalmente nos scraps. As pessoas colocavam lá as mensagens para elas mesmas ou para seus amigos. Era mais autêntico: não tinha um feed de notícias que mostrava todo esse conteúdo patrocinado.

Isso é outra coisa que está acontecendo hoje. Tem muito conteúdo que as pessoas postam em benefício próprio e não conseguimos mais distinguir o que é real daquilo que não é. Você vê como isso pode influenciar a política, tem as fake news. As coisas foram se tornando mais superficiais, mais falsas, e assim foi possível ver as fake news chegando.

Olhamos o feed e compartilhamos coisas falsas, mas não acreditamos naquelas que são reais. É muito triste isso.

UOL – O Orkut também teve um final ruim, depois de muitas denúncias de crimes e mau uso.

Orkut – Esse tipo de uso indevido e ilegal realmente vai acontecer, porque são as mesmas pessoas na vida real e no online. Acontece em todas as plataformas, isso eu posso garantir para você. Qualquer serviço que conecta as pessoas, que permite a comunicação, será usado também para fins maliciosos.

UOL – Existe um movimento contrário às redes sociais que denuncia a forma descontrolada como usamos essas ferramentas. Qual sua opinião sobre isso?

Orkut – O problema não é usar muito seu telefone, nem as redes sociais. O problema é usar serviços que o deixam infeliz e, no topo dessa lista, estão coisas como “Candy Crush”, Facebook, Grindr. Acredito do fundo do meu coração que a tecnologia pode estar ligada à felicidade, se você gastar tempo conectado a pessoas e conteúdo de uma maneira significativa.

Não quero falar especificamente do Facebook nem do Instagram. Vou falar do Tinder, Happn, esses aplicativos para encontrar parceiros.

Estou solteiro há dois anos [Orkut teve um longo relacionamento com Derek Holbrook] e, quando interajo com pessoas no Tinder, o que vejo é desespero, solidão, insegurança. As pessoas se esqueceram como se comunicar umas com as outras, como ser respeitosas. Aplicativos como o Tinder tornam as relações descartáveis, você julga alguém em um segundo considerando apenas sua foto. É muito cruel para a sociedade, para a humanidade.

Ghosting virou uma palavra de dicionário. É quando você começa a falar com alguém e depois desaparece. Trata-se de uma das coisas mais cruéis, emocionalmente, que você pode fazer com outro humano, pois é muito doloroso. E quem pratica o ghosting são os mais inseguros, aqueles com mais problemas. Isso tudo me aterroriza e por isso estou tão motivado a criar um ambiente de conexões significativas para as pessoas

UOL – Voltando ao Orkut, você ganhou dinheiro com o site?

Orkut – Desenvolvi esse projeto dentro do Google [na política de 20% do tempo livre] e, quando você é contratado, tudo o que faz é daquela empresa. Então era um produto do Google. Tinha até um rumor que eu ganhava US$ 0,10 por cada scrap postado, mas era um rumor [risos].

A princípio eu era a única pessoa que trabalhava no projeto: eu era o engenheiro, o designer, o gerente de produto e até mexia nos servidores. Quando estava tudo pronto para o lançamento, em uma reunião com [o então CEO] Eric Schmidt e [a então diretora] Marissa Mayer, eles sugeriram usarmos o nome Orkut.com. Isso porque eu era o único funcionário, tinha aquele domínio registrado e era uma palavra de cinco letras, fácil de identificar. No último minuto, decidiram lançar como Orkut.com.

UOL – Como era o outro nome?

Orkut – O nome interno do projeto era Eden, que significa paraíso, um lugar incrível para as pessoas estarem juntas. Mas o domínio não estava disponível e não tínhamos tempo suficiente para comprá-lo.

UOL – Ficou triste com o fechamento?

Orkut – Sim, foi um momento muito triste para mim. Tínhamos uma comunidade com mais de 300 milhões de pessoas, ele as aproximou. Foi triste para mim e para todos. Mas vi isso como o fim de um capítulo, e o Hello como o começo de outro. É uma continuação, uma espécie de sucessor espiritual do Orkut.

Teve vários momentos mágicos que me tocaram. Meu melhor amigo conheceu a mulher no Orkut e pediu que eu fosse padrinho de seu filho.

Hoje, em uma palestra, eu contei como me sentia excluído: nasci na Turquia, cresci na Alemanha, muitas vezes eu não me encaixava. Ou porque era um programador nerd, porque era baixo, porque tinha sotaque, porque era gay. E depois da palestra uma pessoa veio até mim e contou que, quando era mais novo, seus amigos e sua família não sabiam que ele era gay. Mas, por causa do Orkut, ele podia se conectar com outras pessoas que o aceitavam e isso o ajudou.

Essas histórias me tocam, é quando sinto que fiz a diferença na vida das pessoas.

UOL – Os brasileiros dominaram o Orkut. Isso de alguma forma foi negativo para o site?

Orkut – A comunidade cresceu muito rápido e, logo depois de lançarmos, tivemos problemas com os servidores. Havia muitos atrasos, perda de conexão: tinha até aquela mensagem engraçada do “bad, bad service. No donut for you“. Com isso perdemos nossa base de usuários nos Estados Unidos, mas no Brasil ela crescia, crescia, crescia. É difícil dizer se os brasileiros tinham mais paciência ou se estavam acostumados com conexões lentas: na época, muitos usavam cybercafés [o que inclui LAN houses] e conexão discada.

Conseguimos resolver esse problema com os servidores em um ano e chegamos a ter cerca de 70% de todos os internautas brasileiros na plataforma. O Brasil foi incrível para o Orkut.

Maurício de Sousa, seus filhos e personagens

Todos que conhecem os quadrinhos da Turma da Mônica já sabem de cor e salteado que Maurício de Sousa baseou sua personagem principal em sua própria filha. Mas vocês sabiam que existem vários outros personagens também inspirados nos (vários) outros filhos do Maurício? Pois é. Confiram a listagem:

Marcelinho – Nos quadrinhos, Marcelinho é um garoto de 7, 8 anos. Na vida real, Marcelo Pereira de Sousa tem 19. É o caçula de Mauricio de Sousa e também foi o último a ser incorporado à Turma. O personagem tem mania de ser certinho, não gosta de desperdícios e sabe ser econômico.

Vanda e Valéria – As gêmeas idênticas foram baseadas nas filhas Vanda Signorelli e Sousa e Valéria Signorelli e Sousa, também gêmeas, hoje com 46 anos. As personagens entraram para a Turma da Mônica somente na fase jovem. Estão sempre juntas, mas têm opiniões divergentes nas histórias.

Professor Spada / Dr. Spam – Para criar o personagem duplo, o cartunista usou duas referências: seu filho Maurício Spada e Sousa, 45 anos, e o conto “O médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson. Nas historinhas, o Prof. Spada dá aulas de informática para a turma. Quando nervoso, se trarnsforma no alterego Dr. Spam, que quer dominar o mundo através dos computadores.

Marina – A filha Marina Takeda e Sousa, 31 anos, é Marina também nos quadrinhos. O talento para desenhar é o aspecto principal da personagem. Sua primeira aparição nos gibis foi em 1994.

Nimbus – As características do personagem surgiram da curiosidade que Mauro Takeda e Sousa, 30 anos, tem por meteorologia, clima e tempo. Nimbus também faz mágicas para a turma. Ele foi criado em 1994, mesmo ano que Marina.

Do Contra – Do Contra é irmão de Nimbus nos gibis, eles foram criados juntos. O rapazinho foi inspirado em Maurício Takeda e Sousa, hoje com 28 anos. O personagem, como o nome revela, gosta de fazer as coisas de maneira diferente, como comer iogurte e catchup “porque sim”.

Maria Cebolinha – Nos quadrinhos a filha mais velha de Mauricio se tornou um bebê. Mariângela Spada e Sousa, 57 anos, foi inspiração para Maria Cebolinha, a irmã de cerca de dez meses do Cebolinha. A primeira aparição dela foi em 2001. A personagem é o centro das atenções da família.

Magali – Magali, a melhor amiga de Mônica, foi criada no mesmo ano e inspirada em uma das irmãs da Mônica real: Magali Spada e Sousa, 55 anos. Quando criança, ela comia uma melancia inteira, sem cerimônia. O apetite e a meiguice da filha se tornaram as principais características da personagem.

Mônica – Criada em 1963, a personagem Mônica foi inspirada em Mônica Spada e Sousa, 56 anos, filha de Mauricio. Na época da criação ela demonstrava uma personalidade forte e o cartunista transferiu as características da filha de forma caricata. Afinal a menina é conhecida por se irritar ao ser chamada de gorducha, dentuça e baixinha.