Valorizando seu dinheiro – IX

A mais breve moeda do Brasil

Cruzeiro Real
(CR$1,00 = Cr$1.000,00)

Com o afastamento de Collor, assumiu seu vice: Itamar Franco – também conhecido como “presidente tampão”, já que assumiu o restante do mandato, até o final de 1995. Seu maior feito foi o relançamento do Fusca, que havia deixado de ser produzido no Brasil em 1986, mas voltou à linha de produção entre 1995 e 1996. Ah, sim. Ele também foi o responsável pela estabilização da a moeda brasileira.

Mas vamos com calma. Para não perder o costume, mais uma vez houve o corte de três zeros no sistema monetário nacional e foi instituída como nova moeda o Cruzeiro Real (CR$) – o que se deu através da Medida Provisória nº 336, de 28 de julho de 1993, mais tarde convertida na Lei nº 8.697, de 27 de agosto de 1993. Assim, nesse novo sistema, 1 Cruzeiro Real equivalia a 1.000 Cruzeiros.

E, para também não perder o costume, foi novamente implementada a estratégia de apor um carimbo identificador nas cédulas mais altas do sistema anterior e que desta vez (vejam só!) era redondo, mas sem bordas, com as próprias letras dando-lhe forma. Assim, as cédulas do sistema anterior de 50.000, 100.000 e 500.000 Cruzeiros, após serem devidamente carimbadas, passaram a ser respectivamente de 50, 100 e 500 Cruzeiros Reais.

Como a inflação continuava em plena debandada morro abaixo, já em outubro de 93 foram lançadas as notas de 1.000 e 5.000, sendo que a de 50.000 viria juntar-se a elas somente em agosto de 94.

CR$ 1.000,00. Na face possuía a efígie de Anísio Spínola Teixeira (1900-1971), tendo à esquerda vista parcial da Escola Parque, integrante do Centro Educacional Carneiro Ribeiro, projeto do arquiteto e engenheiro Diógenes Rebouças, sob orientação do próprio Anísio; no verso, cena alegórica referente à proposta de ensino levada a efeito pela Escola Parque, cujo fundamento e método defendem a educação como processo constante de reorganização e reconstrução de experiências.

CR$ 5.000,00. Na face possuía a efígie de um gaúcho, ladeada por painel que retrata, em visão simultânea, a fachada e o interior das ruínas da Igreja de São Miguel das Missões, RS, construída pelos jesuítas na primeira metade do século XVII; no verso, painel apresentando cena de um gaúcho manejando o laço, na captura do gado; e, ainda, sob as legendas da margem inferior, reproduções de acessórios típicos que o gaúcho usa em sua lida diária, tais como boleadeira, relho, guampa e esporas.

CR$ 50.000,00. Na face possuía a efígie de uma baiana, com torço e colares, tendo à esquerda painel onde figuram alguns de seus mais importantes balagandãs, os quais possuem diversos significados, tais como romã e cacho de uvas (fecundidade), figa de madeira e dentes de animais (proteção), caju (abundância), peixe, cordeiro e pombas do Espírito Santo (elementos resultantes do sincretismo com o catolicismo), no verso, cena com uma baiana trajada com o requinte dos dias de grande festa, com o clássico tabuleiro, preparando o acarajé; e, ainda, ao fundo vê-se perspectiva da Igreja do Bonfim, em Salvador, cenário de uma das mais famosas festas do sincretismo religiosos brasileiro, qual seja, a Lavagem do Bonfim.

A transformação do sistema monetário vigente à época para o Cruzeiro Real foi apenas uma das medidas adotadas pelo Governo Federal para conter a hiperinflação, que já havia fechado o ano de 1993 no patamar de 2.447,15%. Isso fazia parte de um plano maior engedrado por uma equipe de economistas montada pelo Ministério da Fazenda, que, desde maio de 93, era comandado por Fernando Henrique Cardoso.

Também fazia parte desse plano um conjunto de medidas voltadas para a redução e maior eficiência dos gastos da União. Graças a essas providências iniciais a inflação daquele ano de 1994 recuou para “somente” 916,46%. Mas ainda estava muito alta.

Assim, outra das medidas foi a criação da URV (Unidade Real de Valor), a qual foi instituída em 1º de março de 1994 através da Medida Provisória nº 482, de 28 de abril de 1994, mais tarde transformada na Lei nº 8.880, de 27 de maio de 1994. Sim, a legislação é posterior à criação da URV, mas já fixava em seu bojo que o valor inicial da mesma corresponderia a CR$647,50, retroagindo ao início de março daquele ano.

A URV funcionou principalmente como um indexador para o sistema monetário nacional, já que seu valor era diariamente fixado pelo Governo para aquela data, desta maneira corrigindo, estabilizando e unificando os valores praticados no mercado, já que que era obrigatória sua utilização para conversão dos valores. Mas a URV também acabou sendo meio que uma “moeda de transição” e sua vigência se deu até 30 de junho de 1994, quando então houve a implantação da medida final desse plano de estabilização da economia, que ficou mais conhecido como Plano Real.


(Início da Saga)

(Continua…)

Valorizando seu dinheiro – VIII

Collonoscopia econômica!

Cruzeiro
(Cr$1,00 = NCz$1,00)

Antes de mais nada, vamos nos situar. Em março de 1990 finalmente assumiu um presidente verdadeiramente eleito pelo povo (e que iria se demonstrar como uma bela de uma fraude – um verdadeiro estelionato eleitoral!): Fernando Collor de Mello

E desta vez, tal qual aquela outra vez durante a Ditadura, ainda em 1970, não houve corte de zeros. Apesar da desembestada inflação arredia e galopante do início dos anos noventa, e apenas pouco mais de um ano da última alteração da moeda, no dia seguinte ao de sua posse foi anunciado um novo “Plano Econômico” (o primeiro de muitos) no qual o Cruzado Novo voltaria a se chamar Cruzeiro. Aliás foi esse mesmo plano que decretou o confisco bloqueio das cadernetas de poupança e das contas correntes de todos os cidadãos brasileiros por 18 meses!

Mas sejamos técnicos.

Foi a Medida Provisória nº 168, de 15 de março de 1990 – mais tarde convertida na Lei nº 8.024, de 12 de abril de 1990 – que restabeleceu a denominação de Cruzeiro para a moeda brasileira, sendo que 1 Cruzeiro equivalia a 1 Cruzado Novo.

Este foi o primeiro ato da pantomina presidencial que viria a seguir, editando de uma só tacada 23 medidas provisórias visando combater a inflação que em abril de 90 atingiria inconcebíveis 6.238,57% acumulados nos últimos 12 meses – o mais alto pico da inflação já visto no país!

Em tese todo esse pacote tinha por pretensão combater a inflação, eliminar o déficit público e reduzir a máquina estatal. E, assim como os planos de estabilização econômica anteriores, o Plano Collor fracassou estrondosamente. A inflação não foi controlada, o fechamento de empresas estatais com a consequente demissão arbitrária de funcionários desorganizou ainda mais os serviços públicos e o confisco do dinheiro das contas bancárias desagradou absolutamente todos os setores da sociedade.

Também como já feito anteriormente em outras mudanças de moeda, mais uma vez usou-se a estratégia de apor um carimbo identificador nas cédulas e desta vez ele era – uau! – retangular… As primeiras emissões nesse padrão foram cédulas de 50, 100, 200 e 500 Cruzados Novos reaproveitadas com esse carimbo retangular com a nova denominação de de 50, 100, 200 e 500 Cruzeiros.

Com a inflação corroendo diariamente o valor do dinheiro, uma cédula provisória de 5.000 Cruzeiros com projeto simplificado entrou em circulação para atender o aumento da demanda antes da emissão das novas cédulas próprias da nova moeda.

Cr$5.000,00. Na face possuía a efígie da República, tendo, à esquerda, rosácea em guilhochê (desenhos contínuos e simétricos em que a ponta de trabalho retorna ao ponto inicial); no verso, uma representação das Armas Nacionais, ladeada por composição de rosáceas em guilhochê..

Tal qual Sarney no início de seu governo, ainda naquele ano de 90 entraram em circulação as novas cédulas no valor de 100, 200 e 500 Cruzeiros, “aproveitando” os elementos das cédulas lançadas anteriormente, apenas com a adaptação das legendas e do valor facial para o novo padrão.

Cr$100,00. Na face possuía o retrato de Cecília Meireles (1901-1964), tendo à esquerda a reprodução de desenho de sua autoria, ao qual se sobrepõem alguns versos manuscritos extraídos de seus “Cânticos”; no verso, uma gravura, à esquerda, representa o universo da criança, suas fantasias e o momento da aprendizagem e o painel é completado, à direita, com a reprodução de desenhos feitos pela escritora, representativos de seus estudos e pesquisas sobre folclore, músicas e danças populares.

Cr$200,00. Na face possuía a efígie simbólica da República, interpretada sob a forma de escultura e, à esquerda, gravura simbolizando a reunião de ideais republicanos, onde aparecem as personagens históricas de Silva Jardim, Benjamim Constant, Marechal Deodoro da Fonseca e Quintino Bocaiúva; no verso, detalhe do quadro “Pátria”, do pintor Pedro Bruno (1888-1949), onde aparece a bandeira do Brasil sendo bordada no seio de uma família.

Cr$500,00. Na face possuía a efígie do cientista Augusto Ruschi (1915-1986), ladeada por alegorias de flora e fauna, destacando-se uma representação da “Cattleya labiata warneri”, orquídea que, com dezenas de variedades, é a mais típica do Espírito Santo e a maior flor do gênero no Brasil; no verso, Ruschi examinando orquídeas, aparecendo em destaque a figura de um beija-flor.

E, juntamente com essas, também foram lançadas as novas cédulas de 1.000 e de 5.000 Cruzeiros.

Cr$1.000,00. Na face possuía a efígie de Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958), tendo à esquerda uma gravura em que aparece uma estação telegráfica pioneira, além da representação de uma floresta e de mapa com contornos do Brasil e da América do Sul; no verso, casal de índios carajás, ladeado pela representação de alimentos e de uma habitação nhambiquara.

Cr$5.000,00. Na face possuía a efígie de Antônio Carlos Gomes (1836-1896), tendo à esquerda três figuras que fazem parte do monumento existente junto ao Teatro Municipal de São Paulo, as quais representam “O Guarani”, “Salvador Rosa” e “O Escravo”, três de suas mais importantes óperas; no verso, à direita, parte do monumento já referido no anverso e, à esquerda, um piano que pertenceu ao homenageado.

Mas a escalada da inflação não dava trégua e o Governo foi obrigado a emitir novas cédulas: em 1991 no valor de 10.000 Cruzeiros e em 1992 no valor de 50.000 e 100.000 Cruzeiros em 1992. E, por fim, no início de 1993, entrou em circulação a cédula de 500.000 Cruzeiros, a última desse padrão monetário.

Cr$ 10.000,00. Na face possuía a Efígie do cientista Vital Brazil (1865-1950), tendo à esquerda uma gravura que representa cena clássica de extração do veneno, tarefa básica para a produção de soros; no verso, um painel calcográfico mostrando um antigo serpentário, com destaque para a cena de cobra muçurana devorando uma jararaca.

Cr$ 50.000,00. Na face possuía a efígie de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), tendo à esquerda cena de jangadeiros; no verso, cena do “Bumba-meu-boi”, bailado popular do folclore brasileiro.

Cr$ 100.000,00. Na face possuía a cena de um beija-flor (Amazilia lactea) alimentando filhotes no ninho; no verso, vista das Cataratas do Iguaçu, situada na fronteira com a Argentina.

Cr$ 500.000,00. Na face possuía a efígie de Mário Raul de Morais Andrade (1893-1945), tendo à esquerda desenho inspirado em fotografia de sua autoria, intitulada “Sombra Minha”, acompanhada pelo último verso do conhecido poema “Eu sou trezentos…”; no verso, cena representando Mário de Andrade conversando com crianças, ladeada por prédios que simbolizam o crescimento vertiginoso da cidade de São Paulo na época do escritor.

Mas o que começou mal certamente iria acabar mal. Já em meados de 91 o outrora “Caçador de Marajás” começou a ser denunciado por esquemas de corrupção, irregularidades e outras safadezas. A imprensa tupiniquim (aquela mesma que o colocou lá) pressionou tanto a população e o circuito político que em fins de 92 foi votado e aprovado o impeachment do Presidente, com seu consequente afastamento do cargo. Em dezembro de 92, poucas horas antes de ser condenado pelo Senado por crime de responsabilidade e ter seus direitos políticos suspensos por oito anos, Collor ainda tentou renunciar. Só que essa “renúncia” não foi reconhecida e ele ainda teve a petulância de procurar a imprensa para se fazer de vítima. Covarde.

E assim fechamos a oitava parte desta saga… O Cruzeiro, moeda que já havia sido sepultada em 67 e novamente em 86, mais uma vez caminhava para seu derradeiro fim. A boa notícia é que a inflação acumulada daquele ano de 92 fechou em “apenas” 1.129,45%


(Início da Saga)

(Continua…)

Vamo pra feira?

Quando eu era criança, um pouco antes de minha adolescência e das aborrecências que a acompanham, o tradicional “programa de domingo” invariavelmente era comparecer na igreja Matriz de Santana para a “Missa das Dez”, ou, melhor dizendo, a chamada “Missa das Crianças”.

Estávamos no final da década de setenta e começo dos anos oitenta. Quem celebrava a missa ainda era o Padre Luiz Gonzaga Alves Cavalheiro – conhecido pelos mais antigos como o “Xerife de Santana”… E ainda lembro-me bem da austeridade dele em diversas situações! Mas ali, naquela missa, ele meio que se divertia, pois cumpria com toda a liturgia e ainda arranjava um jeito de, com um ou outro gracejo, arrancar algumas risadas daquela criançada que preenchia a gigantesca nave da igreja: meninos sempre do lado esquerdo e meninas do lado direito. Ou será que era o contrário?

Enfim, ao final da missa e badalar dos sinos era o momento de enfrentar a fila do pipoqueiro, que sempre se posicionava estrategicamente na praça bem em frente da igreja, já tendo começado a estourar uma nova leva de pipocas fresquinhas momentos antes da saída da criançada.

“Tio, me dá um saquinho, fazfavor, mas com BASTANTE queijo, hein?”

Até hoje não consegui descobrir qual é o segredo místico que esses tiozinhos pipoqueiros passam de geração após geração e que faz com que o sabor daquele queijo de pipoca de carrinho seja único na face da Terra, jamais sendo possível de reproduzir em outros ambientes, não importa as condições ideais de temperatura e pressão que venham a ser aplicadas…

Ainda lá pelo meio do saquinho (tendo guardado uns dois ou três queijinhos para o final, porque não sou besta), virava para o eventual amigo/colega/parceiro que estivesse do lado e já soltava:

“Vamo pra feira?”

Compreendam que naquela época, longe das distrações digitais, televisivas e comerciais comuns nos dias de hoje, invariavelmente nós crianças tínhamos que inventar o que fazer. E a feira tal qual a conhecíamos – ao menos a de domingo – era um lugar divertido para se passear naquele espacinho de tempo que tínhamos antes de voltar pra casa para o tradicional almoço de domingo (feijão, arroz, macarrão e frango, bem como, muito de vez em quando, um tanto de batatas fritas também).

Em comparação às feiras dos dias de hoje, sinceramente não me lembro se existiam os trailers ou barracas de pastéis, já que quem quisesse comer um bom pastel que fosse numa das pastelarias nas esquinas próximas da igreja! Aliás, não percebíamos ainda à época, mas desde então já era também um lugar para os cachaceiros e cervejeiros de plantão darem início aos trabalhos de final de semana…

Aquele ambiente cheio de gente e o teor multicolorido daquelas frutas, legumes e sabe-se lá mais o quê, não importa para onde quer que se olhasse, sempre foi uma coisa que me atraiu. Ainda que, na época, não me importasse muito em chegar até o “final da feira”, onde se concentravam barracas desse tipo, era ali no comecinho, talvez até mais ou menos no meio da feira, que se encontravam os itens de maior interesse. Ao menos para a criançada.

Sabíamos que estávamos nos aproximando de um outro universo paralelo quando já ali, antes mesmo de chegar na rua da feira, começávamos a ouvir:

“Aguuuuuuuuulha di disintupifugão! Ólha a aguuuuuuuuulha di disintupifugão!”

E aquele tradicional pregoar dos feirantes era uma constante por toda a extensão da feira.

“Olha aqui, olha aqui, a promoção! Tudo mais barato! Somente hoje, somente hoje, hein?”

“Peixe, olha o peixe, peixe fresquinho, acabou de chegar, vem conferir madame!”

“Paga dez, leva doze! Pode vir, pode vir! Paga dez, leva doze!”

“Pamonha, pamonha, pamonha! Pamonha fresquinha! Pamonha de Piracicaba!”

Não. Péra. Deleta esse último, que não tem nada a ver. A memória às vezes dá um nó na cabeça da gente…

Isso sem nem contar aquela rapaziada mais “abusada”, que soltava algumas coisas do tipo:

“Olha aí, olha aí! Olha a formosura passando! Moça bonita, hoje, não paga! Só que também não leva!”

Tudo bem que era uma brincadeira – e que até fazia as meninas corarem e soltarem umas risadinhas. Mas as feiras de hoje me parecem muito mais silenciosas, tanto num sentido quanto noutro. Até porque um gracejo desses, nos dias politicamente chatos corretos em que vivemos, poderia ser encarado como assédio e dar todo aquele perrengue que costumamos ver por aí. Uma pena. Com isso um pouco da alma da feira parece que se perdeu através do tempo.

Seguíamos em frente e olhávamos com um olho comprido para aquelas tentadoras garrafinhas de sucos coloridos – não consigo nem de longe imaginar uma coisa com sabor mais artificial do que aquilo! Mas o que na realidade nos interessava eram as garrafas em si: nos formatos de trem, avião e outras bobagens mais que adoraríamos ter para uma ou outra brincadeira. Isso sem falar nos deliciosos sequilhos, como quase tudo na feira vendidos a granel (alguém aí ainda sabe o que é isso?) e, esses sim, “impossível de comer um só”.

Até que finalmente chegávamos na única barraca que realmente justificava nossa presença ali: a de “tranqueiras”. É que, diferente de hoje, em que você acha de um tudo na feira, desde roupas, calçados, produtos importados, CDs, DVDs (suuuuuper originais), brinquedos, etc (e tudo isso em barracas que já têm até mesmo as maquinetas que aceitam cartões de débito, de crédito, parcelam e o escambau), naqueles tempos não existia essa variedade de itens – quando muito uma, talvez duas barraquinhas, cheias de coisinhas que pareciam um baú do tesouro para os nossos infantis olhos ávidos por novidades.

Pentes, espelhinhos ovais, canivetes, baralhos, adornos, chaveiros, muitos chaveiros, lanternas, miniaturas, presilhas, enfeites, alguns tipos inimagináveis de ferramentas, isqueiros, cachimbos, coisas de então e de outrora que faziam ferver nossa imaginação e voltávamos comentando entre nós se tinha visto isso ou aquilo ou então para o que será que servia aqul’outro. Sim, é lógico, raramente comprávamos alguma coisa. Mas, também é lógico, tínhamos assunto para a semana toda, inclusive sonhar se conseguiríamos juntar um dinheirinho para na semana seguinte tentar comprar o objeto de desejo – se é que ainda iria estar por lá.

Ah, essas crianças…

E agora preciso de um favor: você que é vegetariano, vegano, amante dos animais ou outro tipo qualquer de ser com igual teor de pureza e grau de evolução, pare de ler. Isso mesmo. PARE. DE LER. AGORA. O que virá a seguir era uma coisa natural, ao menos pra época, mas tenho certeza que você não vai gostar. Com o que está escrito até agora até que já deu pra matar a saudade daqueles tempos, não deu não?

Continuou, né?

Não diga que não avisei…

As feiras de então não estavam cercadas por açougues, padarias, casas de carnes ou quaisquer outros tipos de estabelecimentos que tivessem dessas assadeiras de frango (“televisões de cachorro”), tão comuns hoje em dia. Você queria um frango para o almoço? Bastava comprar. Vivo. Escolhia um de bom peso e tamanho numa das gaiolas que ficavam por ali, logo na saída da feira, o tiozinho amarrava as pernas da ave, e, pendurada de ponta cabeça junto com a sacola de compras, você a levava para casa, a pé mesmo.

Era o normal. Há muito tempo perdi a conta de quantas e quantas vezes já acompanhei minha mãe nessa tarefa. Ao chegar em casa a operação era a de praxe. Não vou entrar aqui nos detalhes sórdidos sobre o como se sucediam as coisas, mas depois de abatido o frango, as penas eram arrancadas e ainda era necessário “sapecar” (ou seja, chamuscar) as pontinhas que haviam ficado pra trás. Ainda lembro-me do cheiro nada agradável que se espalhava pela casa… Depois disso, uma vez limpo e temperado, seu interior ainda era preenchido com uma deliciosa farofa antes de ir para o forno.

Sim, frango era “comida de domingo”. E, ainda, assado? Veja lá que raridade!

Bem, todo esse texto, todas essas lembranças, somente vieram à baila porque lembrei desse bendito “frango com farofa”. Um daqueles sabores inesquecíveis de infância. Mas me é difícil de recordar o fato isolado, sempre tem que haver um contexto – e a feira daqueles tempos é que fazia esse contexto.

Mesmo nos dias de hoje até que ainda gosto de ir na feira.

Mas, confesso, não é mais a mesma coisa.

Se procurarmos bem ainda encontraremos aquele olhar fraternal, aquela cumplicidade entre os feirantes, entre os clientes, entre ambos, aquela ajuda pronta a ser dada em qualquer oportunidade em que fosse necessária – como era comum antigamente. Mas há que se procurar. Bastante. Tá tudo muito mais comercial, muito mais o produto, o lucro, a venda do que o proseio, do que a curiosidade, do que o passeio. Pessoas vêm e vão, compram o que querem e tomam seu rumo. Feirantes vêm e vão, vendem seus produtos e tomam seu rumo.

Enfim, como sempre acabo fazendo com esses textos que me levam a reminiscências de outrora, só posso concluir de uma mesma maneira: ando com uma gigantesca saudade de não sei o quê…

O Sebastianismo

Vocês já ouviram falar do “Sebastianismo”? Então. Até há pouco tempo, nem eu. Mas dentre os 4 ou 12 livros que sempre tenho à cabeceira para leitura, dia desses retomei um que traz a história de Portugal desde antes de ser Portugal, passando por todos seus reis e, dentre eles, D. Sebastião.

D. Sebastião I foi o Rei de Portugal e Algarves de 1568 até 1578. Mas, na prática, já era o rei de fato desde 1557, quando faleceu D. Manuel I, seu avô e antecessor no trono. Entretanto, como tinha apenas quatro anos de idade, teve que esperar mais um bocadinho…

Nesse meio tempo, enquanto regentes cuidavam do trono, foi educado “para reinar”, isto é, foi criado dentro do culto do heroísmo militar e do caráter divino da realeza. Desse modo convenceu-se desde cedo que caberia a ele ser o instrumento de salvação da cristandade em tese ameaçada pela reforma protestante que vinha tomando um corpo cada vez maior desde a publicação das 95 teses de Martinho Lutero, em 1517 – uma obsessão que somente acentuou-se com o passar do tempo.

E no decorrer dos dez anos que reinou sonhava com a derradeira luta contra os “inimigos da fé”…

E a “oportunidade” surgiu em 1578, quando, do alto de seus meros 24 anos de idade, embarcou para a África com o firme propósito de tomar a cidade de Marrocos, a qual havia sido conquistada por um mouro apoiado pelos turcos (o que significaria que a Turquia iria dominar todo o Norte da África, ameaçando assim a Europa Cristã). Ainda que estivesse com um exército de 17 mil combatentes, o confronto com as forças do rei de Marrocos, que se deu nas proximidades de Álcácer Quibir, resultou num estrondoso fracasso. Metade dos soldados morreu e a outra metade foi aprisionada. E o próprio rei morreu. Porém seu corpo nunca foi encontrado.

Sem herdeiros diretos que pudessem se habilitar ao trono de português, após muito embate este acabou sendo entregue nas mãos de seu parente Filipe, rei da Espanha (Filipe I em Portugal). E assim permaneceu por mais duas gerações, com Filipe II e III.

E essa situação política de subordinação à Espanha foi se traduzindo numa inconformidade por parte do povo e gerando uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através de um esperado retorno triunfal de D. Sebastião, já que vários setores da população simplesmente não acreditavam na morte do rei. Estava criado o “Sebastianismo”, uma espécie de consciência coletiva popular que traduzia-se na firme convicção de que em épocas de sofrimento generalizado do povo, haveria de aparecer uma figura heroica, salvadora, não sendo possível dizer quem seria ou de onde viria, mas que haveria de salvar a todos!

Escritores de renome, tais com o Padre Antônio Vieira, Fernando Pessoa e mesmo Ariano Suassuna dedicaram-se a esse tema. Mas o mais interessante é que as origens do Sebastianismo são de fato anteriores à morte e até mesmo ao nascimento de D. Sebastião!

Vejam como isso se deu através das palavras de José Hermano Saraiva, em seu livro História Concisa de Portugal:

“Em 1530, o rei D. João III deu a Vila de Trancoso a um seu irmão mais novo, o infante D. Fernando, que por essa altura se casou. Os lavradores e artesãos de vários ofícios amotinaram-se e não permitiram que o infante tomasse conta da Vila. Isso porque preferiam a dependência direta da administração da Vila por parte dos funcionários reais, que eram mais ou menos indulgentes na cobrança de impostos, em vez de pertencerem a um grande senhor rigoroso e às vezes cruel em suas exigências. Essa situação de rebeldia manteve-se durante alguns anos e o rei entrou em negociações com um representante dos moradores, confiando em que o tempo acabaria por resolver a situação. Não se enganou, porque o infante morreu já em 1534 e a Vila de Trancoso voltou ao patrimônio da Coroa.”

E o que isso tem a ver com o Sebastianismo? Calma, calma… Veremos!

“Foi durante os anos da revolta anti-senhorial de Trancoso que um sapateiro que lá morava, Gonçalo Anes Bandarra, escreveu umas trovas que o tempo haveria de tornar célebres. Era um homem rude (“próprio para ovelheiro”, diz um auto do Santo Ofício), que se metera a ler a Bíblia em português e mantinha contatos com cristãos-novos [judeus forçados a se converterem à fé católica], a quem recorria para que lhe explicassem as passagens que não entendia. Misturando confusas citações da Bíblia, reminiscências da poesia popular tradicional, mitos espanhóis (o Encoberto, a que faz alusão, é um mito ligado à revolta das comunidades espanholas de 1520-1522), profecias que andavam de boca em boca, vestígios de lendas do ciclo arturiano [em especial as lendas britânicas de que Rei Arthur estaria vivo e algum dia iria retornar], críticas sociais à corrupção e à prepotência dos grandes, compôs uma espécie de auto pastoril profético, que era inicialmente um protesto conta a doação da Vila ao infante irmão do rei.

Mas acontecia que o sapateiro era mau escritor. Usava os termos que lhe pareciam bem soantes, mas que não sabia ao certo o que queriam dizer, reproduzia, embaladas na toada popular da redondilha, palavras, frases e símbolos ouvidos aqui e ali, mas era incapaz de lhes definir um sentido claro. O resultado foi que as trovas se podiam entender em tantos sentidos quanto se quisessem. Começaram a circular cópias de mão em mão e quando se iniciou a perseguição da Inquisição aos cristãos-novos estes julgaram ler o anúncio da vinda de um Messias salvador nos versos que, na realidade, eram um apelo a D. João III para que defendesse a Vila de Trancoso da ambição do infante. Nessa altura a Inquisição interveio e prendeu o sapateiro, que apareceu como suspeito de judaísmo. O Bandarra era porém tão alheio a esses entendimentos que os judeus lhe faziam das trovas que acabou por ser posto em liberdade e condenado apenas a não escrever mais versos e a não se meter em leituras profanas.

Os inquisidores julgaram que a sua sentença punha termo ao processo, mas na realidade este apenas estava por começar.

A morte de D. Sebastião em condições misteriosas [quase 50 anos depois do episódio da Vila de Trancoso e dos versos compostos por Bandarra] veio dar uma nova acepção às trovas do sapateiro. O rei morreu durante a batalha, mas ninguém afirmava tê-lo visto morrer, embora muitos o tivessem visto já depois de morto (segundo a ética cavaleiresca, confessar que se tinha visto morrer o rei, sem dar a vida por ele, seria uma infâmia – o que explica em grande parte o mistério). Entre o povo dizia-se que o rei conseguira escapar e ia regressar ao País. Há notícia de vários aventureiros que exploraram essa crença popular e procuraram fazer-se passar por D. Sebastião.

As profecias de Bandarra passaram então a ser lidas com olhos diferentes: o Messias cujo regresso anunciavam era D. Sebastião. O público leitor já não é mais formado só pelos cristãos-novos, mas por nobres saudosistas. Versões sucessivas foram adaptando a redação ao seu novo sentido, de tal modo que o movimento de Restauração que viria a ocorrer somente em 1640 pareceu trazer a confirmação das trovas. Considerado o profeta nacional, o sapateiro foi venerado como santo, e até mesmo o arcebispo de Lisboa autorizou a colocação de uma imagem de Bandarra num altar da cidade.”

O Sebastianismo, devidamente adaptado de tempos em tempos, deixou suas marcas que se estenderam em múltiplas variações até meados do século XVIII, cada qual com um novo rei como titular, tendo chegado ao Brasil já quando de sua colonização e mais tarde, no final do século XIX, foi o que inspirou Antônio Conselheiro quando do movimento que criou Canudos. E deu no que deu.

“Mas, mais funda do que o artifício literário, a consciência sebastianista permanece como estado instintivo e permanente. O mito do ‘rei que há de voltar numa manhã de nevoeiro’ ainda hoje é um lugar comum da linguagem popular portuguesa. Ninguém o diz a sério, mas a frase é muitas vezes usadas para aludir a um intraduzível estado de espírito que consiste em crer que aquilo que profundamente se deseja não deixará de acontecer, mas ao mesmo tempo em esperar que aconteça independentemente do nosso esforço e sem implicação da nossa responsabilidade.”