Bolsonaro é o troll que você alimentou

Edson Aran

O problema do cerumano é que ele alimenta os trolls. Todo mundo sabe que não se deve dar comida para a criatura horrenda, mas há certa dificuldade em identificá-la com segurança. De vez em quando, o troll se disfarça de hobbit ou de elfo e se apresenta apenas como alguém preocupado com o país, o mundo e a sociedade. É picaretagem. Basta você engatar uma conversa, que o bicho parte pra cima com memes, gifs e piadas ruins.

O humor do troll é bastante peculiar. Ele nunca usa a ironia e prefere sempre o sarcasmo. Ironia é escrever uma coisa para dizer outra. Sarcasmo é menosprezar o argumento e também o argumentador.

Ironia é florete, sarcasmo é porrete. Ironia é duelo, sarcasmo é tiroteio. Ironia é o Muhammad Ali dançando, sarcasmo é o Rodrigo Minotauro espacando.

Discutir com troll é garantia de virar alvo de tiro, porrada e bomba. Mas esse nem é o problema. O problema é quando esses monstros saem da virtualidade e entram na realidade. Antigamente, eles só causavam irritação nas redes sociais. Agora não. Agora eles vão pra Brasília atacar jornalistas, fazem dancinha com caixão na avenida Paulista e, pior, vencem eleições.

Donald Trump é o exemplo mais notável dessa raça odiosa. Ele é o Master Troll, o King Troll, o Poderoso Troll. Trump é tosco, vulgar e ignorante. Ele é um comentário de Facebook que ganhou vida. Olhe bem para ele. Trump é um avatar humano desenhado no CorelDRAW. A pele é falsa e alaranjada e o cabelo é igual ao daquele brinquedo dos anos 80, o Duende da Sorte. É tudo falso. Trump nem é gente e, por isso, a trollagem é seu único programa de governo. Se a gente não vivesse numa aldeia global interligada digitalmente, isso seria um problema só dos Estados Unidos, mas infelizmente não é mais assim. O americano tosco inspira vários trolls periféricos como Jair Bolsonaro, por exemplo, que é um Trump do Terceiro Mundo, feito com peças de segunda mão e material vagabundo. É um troll ainda mais patético, mais vulgar e mais grotesco que o original, que já é um horror.

Aqui e lá, a campanha eleitoral das criaturas foi na base da trollagem. Era só fake news, palavrão, xingamento, óculos de pixel e muita esculhambação. Tudo linguagem de troll transposta para a arena política.

Mas quem foi que alimentou e engordou os monstrengos? Foi ocê, dona. Desculpa a sinceridade. Foi a senhora.

A esquerda ficou chata, rancorosa e pentelha. E é isso que alimenta o troll. Pra falar a verdade, nem dá pra chamar esses chatonildos de “esquerda”. A divisão esquerda-direita faz sentido na economia, onde o papel do estado define uma posição. Mas é complicado usar a mesma régua para medir a chateação pseudo-sociológica do, argh, politicamente correto, que é autoritário, carola e antidemocrático igualzinho à velha direita.

A esquerda (ou a “esquerda”) virou uma espécie de síndica de condomínio que passa o dia inteiro inventando regrinhas e regulamentos. Não pode falar isso, não pode falar aquilo, não pode usar essa palavra, não pode mencionar essa expressão, não pode tirar sarro do vizinho, não pode frequentar a piscina com esse biquíni indecente e não pode ouvir funk ostentação.

Isso tudo é alimento de troll, dona “esquerda”. O esculacho conquista seguidores, rende audiência e também dá votos. E esculachar gente chata sempre foi a maior diversão do ser humano.

Eu sou do tempo da esquerda festiva, que bebia até resolver todos os problemas do mundo enquanto contava piadas péssimas e cantava todas as mulheres da mesa. “Que comportamento desprezível!”, a senhora diz. Então tá. Talvez fosse. Só que depois a gente ia pra urna e ganhava a eleição. A “esquerda” fiscal-de-condomínio vai pra urna e perde. Tomou, papuda?

A gente precisa voltar a beber e contar piadas ruins. A gente precisa parar de alimentar os trolls. A gente precisa é voltar a trollar os trolls.

Por que votamos em Hitler

Por que a Alemanha, o país com um dos melhores sistemas de educação pública e a maior concentração de doutores do mundo na época, sucumbiu a um charlatão fascista?

Oliver Stuenkel

Ao longo da década de 1920, Adolf Hitler era pouco mais do que um ex-militar bizarro de baixo escalão, que poucas pessoas levavam a sério. Ele era conhecido principalmente por seus discursos contra minorias, políticos de esquerda, pacifistas, feministas, gays, elites progressistas, imigrantes, a mídia e a Liga das Nações, precursora das Nações Unidas. Em 1932, porém, 37% dos eleitores alemães votaram no partido de Hitler, a nova força política dominante no país. Em janeiro de 1933, ele tornou-se chefe de governo. Por que tantos alemães instruídos votaram em um patético bufão que levou o país ao abismo?

Em primeiro lugar, os alemães tinham perdido a fé no sistema político da época. A jovem democracia não trouxera os benefícios que muitos esperavam. Muitos sentiam raiva das elites tradicionais, cujas políticas tinham causado a pior crise econômica na história do país. Buscava-se um novo rosto. Um anti-político promoveria mudanças de verdade. Muitos dos eleitores de Hitler ficaram incomodados com seu radicalismo, mas os partidos estabelecidos não pareciam oferecer boas alternativas.

Em segundo lugar, Hitler sabia como usar a mídia para seus propósitos. Contrastando o discurso burocrático da maioria dos outros políticos, Hitler usava um linguajar simples, espalhava fake news, e os jornais adoravam sugerir que muito do que ele dizia era absurdo. Hitler era politicamente incorreto de propósito, o que o tornava mais autêntico aos olhos dos eleitores. Cada discurso era um espetáculo. Diferentemente dos outros políticos, ele foi recebido com aplausos de pé onde quer que fosse, empolgando as multidões. Como escreveu em seu livro “Minha Luta”:

Toda propaganda deve ser apresentada em uma forma popular (…), não estar acima das cabeças dos menos intelectuais daqueles a quem é dirigida. (…) A arte da propaganda consiste precisamente em poder despertar a imaginação do público através de um apelo aos seus sentimentos.

Em terceiro lugar, muitos alemães sentiram que seu país sofria com uma crise moral, e Hitler prometeu uma restauração. Pessoas religiosas, sobretudo, ficaram horrorizadas com a arte moderna e os costumes culturais progressistas que surgiram por volta de 1920, época em que as mulheres se tornavam cada vez mais independentes, e a comunidade LGBT em Berlim começava a ganhar visibilidade. Os conservadores sonhavam com restabelecer a antiga ordem. Os conselheiros de Hitler eram todos homens heterossexuais brancos. As mulheres, ele argumentou, deveriam se limitar a administrar a casa e ter filhos. Homens inseguros podiam, de vez em quando, quebrar vitrines de lojas, cujos donos eram judeus, para reafirmarem sua masculinidade.

Em quarto lugar, apesar de Hitler fazer declarações ultrajantes – como a de que judeus e gays deveriam ser mortos -, muitos pensavam que ele só queria chocar as pessoas. Muitos alemães que tinham amigos gays ou judeus votaram em Hitler, confiantes de que ele nunca implementaria suas promessas. Simplista, inexperiente e muitas vezes tão esdrúxulo, que até mesmo seus concorrentes riam dele, Hitler poderia ser controlado por conselheiros mais experientes, ou ele logo deixaria a política. Afinal, ele precisava de partidos tradicionais para governar.

Em quinto, Hitler ofereceu soluções simplistas que, à primeira vista, faziam sentido para todos. O problema do crime, argumentava, poderia ser resolvido aplicando a pena de morte com mais frequência e aumentando as sentenças de prisão. Problemas econômicos, segundo ele, eram causados por atores externos e conspiradores comunistas. Os judeus – que representavam menos de 1% da população total – eram o bode expiatório favorito. Os alemães “verdadeiros” não deviam se culpar por nada. Tudo foi embalado em slogans fáceis de lembrar: “Alemanha acima de tudo”, “Renascimento da Alemanha”, “Um povo, uma nação, um líder.”

Em sexto lugar, as elites logo aderiram a Hitler porque ele prometeu — e implementou — um atraente regime clientelista, cleptocrata, que beneficiava grupos de interesses especiais. Os industriais ganharam contratos suculentos, que os fizeram ignorar as tendências fascistas de Hitler.

Em sétimo, mesmo antes da eleição de 1932, falar contra Hitler tornou-se cada vez mais perigoso. Jovens agressivos, que apoiavam Hitler, ameaçavam os oponentes, limitando-se inicialmente ao abuso verbal, mas logo passando para a violência física. Muitos alemães que não apoiavam o regime preferiam ficar calados para evitar problemas com os nazistas.

Doze anos depois, com seis milhões de judeus exterminados e mais de 50 milhões de pessoas mortas na Segunda Guerra Mundial, muitos alemães que votaram em Hitler disseram a si mesmos que não tinham ideia de que ele traria tanta miséria ao mundo. “Se soubesse que ele mataria pessoas ou invadiria outros países, eu nunca teria votado nele ”, contou-me um amigo da minha família. “Mas como você pode dizer isso, considerando que Hitler falou publicamente de enforcar criminosos judeus durante a campanha?”, perguntei. “Eu achava que ele era pouco mais que um palhaço, um trapaceiro”, minha avó, cujo irmão morreu na guerra, responderia.

De fato, uma análise mais objetiva mostra que, justamente quando era mais necessário defender a democracia, os alemães caíram na tentação fácil de um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e muito poucas propostas concretas de como lidar com os problemas da Alemanha em 1932. Diferentemente do que se ouve hoje em dia, Hitler não era um gênio. Não passava de um charlatão oportunista que identificou e explorou uma profunda insegurança na sociedade alemã.

Hitler não chegou ao poder porque todos os alemães eram nazistas ou anti-semitas, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo, disseminando-se entre os alemães porque o povo estava disposto a minimizá-lo. Antes de muitos perceberem o que a maquinaria fascista do partido governista estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais.

Emenda à Inicial: IMHO, qualquer semelhança não é mera coincidência…

Um mundo sem bar

Não tem nada a ver com porres, ressacas ou qualquer comportamento autodestrutivo; bar é a celebração da vida, do amor, da inteligência e do companheirismo

Gilberto Amendola

Eu não quero viver em um mundo sem bar. Não sei qual vai ser o novo normal depois do fim da quarentena, mas, definitivamente, não quero viver em um mundo sem bar.

Não é pelo álcool, acreditem. Se fosse só por beber, ficaria em casa com meu estoque de garrafinhas. Não tem nada a ver com porres, ressacas ou qualquer comportamento autodestrutivo.

Ao contrário, amigos. Bar é a celebração da vida, do amor, da inteligência e do companheirismo. No final da linha evolutiva traçada por Darwin, podem apostar, o que se vê é um homem sentado no balcão de um bar, tomando sua cervejinha em paz.

Sem bar, o que nos resta é o meteoro (ou a pandemia).

Bar é igreja, startup, salão de beleza, consultório psiquiátrico, UTI, SUS, ONU, OMS… Bar é meio ambiente, Ministério da Cultura, Economia, Educação, Justiça e Direitos Humanos.

O bar é a arena das nossas maiores emoções. Bar é o consolo de quem perdeu. O pódio dos campeões. E o olimpo de quem não quer competir.

Sou um sujeito adaptável. Posso viver sem muitas coisas. Abro mão de quase tudo que possa resultar na aglomeração de seres humanos e, consequentemente, facilitar a disseminação da nojenta da covid-19. Ou seja, estádios de futebol, festivais de música e clubes de swing não mais contarão com a minha presença pelo tempo determinado pelas autoridades.

Mas um mundo sem bar é um mundo pior.

É um mundo sem happy hour, sem aquela olhadinha para o relógio perto do fim do expediente, sem a gravata frouxa e torta no pescoço, sem aquele suspiro de alívio ao se aboletar em um banco e encostar os cotovelos no balcão.

Um mundo sem balcão de bar é um mundo muito pior. É um mundo sem a nossa tábua de salvação, sem a lousa em que rabiscamos projetos, fugas e desastrados sonetos de (des)amor.

Eu não quero viver em um mundo sem bolovo, shot de Cynar, caipirinha, dry martini ou negroni. Não quero viver em um mundo sem amendoim, porção de azeitona ou pururuca. Eu não quero viver em um mundo sem saideira. Eu não quero viver em um mundo em que eu não possa desenhar no ar aquele gesto universal que, em qualquer idioma, significa “fecha a conta, por favor”.

Um mundo sem bar é um mundo sem as melhores pessoas. Como deve ser ruim um mundo em que nenhum garçom nos chame pelo nome, em que nenhum bartender saiba qual o nosso coquetel preferido, em que nenhuma musa nos lance um olhar de desprezo ao deixar o recinto com o cara errado.

Um mundo sem bar é um mundo sem empatia. É um mundo sem amor ao próximo. É um mundo de indiferença. Um mundo cheio de “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”.

Vai por mim! Mesmo que esse próximo esteja na mesa ao lado falando bobagens, contando mentiras ou piadas ruins, ele também será digno desse sublime amor de bar. Mesmo que seja um mala, um inconveniente, alguém exaustivamente alegre ou infeliz como um cactos, ele sempre será digno do infinito amor de bar.

No bar, todo desconhecido ganha um voto de confiança imediato. Todo estranho confirma Rousseau – e é bom por natureza.

O bar é a nossa maior invenção. É a nossa alma coletiva. Nosso colo de mãe. Bares funcionam como postos de abastecimento da humanidade.

– Enche aí meu coração com sua melhor gasolina aditivada de alma.

Um brinde, saúde!

Eu não quero viver em um mundo sem bar.

Quando tudo isso passar, vou sair de casa e ir direto para um balcão. Quem puder que me siga.

(Emenda à Inicial: esse texto foi uma indicação etilírica do copoanheiro Bicarato…)

Nascido em 1900

Para quem está muito assustado com o que ocorre hoje, uma reflexão:

Imagine que você nasceu em 1900.

No seu 14º aniversário, a Primeira Guerra Mundial começa e termina no seu 18º aniversário. 22 milhões de pessoas morreram nessa guerra.

No final do ano, uma epidemia de gripe espanhola atinge o planeta e dura até o seu aniversário de 20 anos. 50 milhões de pessoas morrem disso nesses dois anos. Sim, 50 milhões.

No seu 29º aniversário, a Grande Depressão começa. O desemprego atinge 25%, o PIB mundial cai 27%. Isso vai até os 33 anos. O país quase entra em colapso com a economia mundial.

Quando você completa 39 anos, a Segunda Guerra Mundial começa.

Você ainda nem chegou ao topo da colina.

E não tente recuperar o fôlego.

No seu 41º aniversário, os Estados Unidos são totalmente atraídos para a Segunda Guerra Mundial. Entre os 39 e os 45 anos, 75 milhões de pessoas morrem na guerra.

Aos 50, a Guerra da Coréia começa. 5 milhões morrem.

Aos 55 anos, a Guerra do Vietnã começa e não termina por 20 anos. 4 milhões de pessoas morrem nesse conflito.

No seu aniversário de 62 anos, você tem a Crise dos Mísseis Cubanos, um ponto de inflexão na Guerra Fria. A vida em nosso planeta, como a conhecemos, deveria ter terminado. Grandes líderes impediram que isso acontecesse.

Quando você completa 75 anos, a Guerra do Vietnã finalmente termina.

Vamos tentar manter as coisas em perspectiva…

Daí eu lembrei de uma conversa com um grande e sábio amigo: “Tempos difíceis criam homens fortes, homem fortes criam tempos fáceis e tempos fáceis criam homens frágeis que por sua vez criam tempos difíceis.”

A vida é um ciclo e teremos que passar nossos próprios tempos difíceis… Que possamos olhar o passado e aprender com ele, e construir um futuro verdadeiramente novo!

Autor desconhecido

Emenda à Inicial: esse sujeito aí no início do texto é meu avô paterno, Antonio de Andrade, que nasceu em 1909 e faleceu em 1969, ou seja, passou por praticamente tudo isso aí…

The Rolling Stones – Living in a Ghost Town

 

Desde 2012 o grupo The Rolling Stones não lançava uma música nova.

Até agora.

Composta por Mick Jagger e Keith (“o imortal”) Richards, Living in a Ghost Town é uma canção que fala sobre viver forçadamente em uma cidade vazia – com imagens de Londres impressionantemente deserta por conta da crise da Covid-19.