Moral conservadora: perguntas que podem revelar a hipocrisia

J. C. Guimarães

Costumes conservadores são baseados na ideia de família tradicional, homem e mulher, com nuclearidade na figura masculina; na monogamia; na heteronormatividade, combinando os dois sexos opostos; no judaísmo-cristianismo enquanto sistema de crenças transcendentais (do qual a Bíblia seria o código), com forte componente racial de superioridade dos brancos. Têm sido a ideologia hegemônica no Brasil desde os tempos coloniais, quando aqui teve início a exploração econômica, sexual e racial de nativos e africanos, pelos conquistadores portugueses. São a ideologia do governo atual porque são, também, a ideologia das classes dominantes e, até, das classes dominadas, que, reconhecidamente, tendem a reproduzir convicções estranhas aos seus interesses.

Não é preciso valer-se dos conceitos clássicos (de Morgan, Mauss, Malinowski etc.) para saber que essas representações mentais são estruturantes em sistemas culturais complexos. Legítimas, têm a função de dar significado e coesão a grupos que nelas se reconhecem. Sem elas, perdem-se as referências que mantêm a noção de ordem, fundamental para a manutenção cósmica. São, nesse sentido, verdadeiros nortes existenciais, em que se baseiam o equilíbrio comunitário e individual. Daí a violenta reação a tudo que ameaça o conservadorismo, como aqueles grupos em ebulição — as chamadas “minorias” — aos quais se contrapõe. Conviver com as diferenças não é fácil, pela simples razão de que todos os grupos humanos buscam não apenas a própria identidade e afirmação, mas também a universalização de seus valores. É a hegemonia que está em jogo e o temor de extinção de uns pelos outros, o que tenciona o conjunto social e leva ao confronto aberto. A sociedade brasileira chegou a esse estado de polarização, a partir de 2015. Desde então, costumes e valores viraram guerra declarada.

Convém perguntar: os tabus conservadores são integralmente levados a sério por seus aderentes? Analisados ponto a ponto, será verdade que os conservadores são fiéis ao conservadorismo? Serão eles, na vida privada, leais seguidores das normas de conduta publicamente exortadas e defendidas? Talvez nos decepcionemos ao entrar sorrateiramente nesta “honrada” casa, onde, ao que parece, nem tudo deve ser tão harmonioso. Pode ser que aquele elenco de ideias do início desse artigo seja ilusório — de fato, apenas ideologia —, falseando práticas comportamentais contraditórias que o desmentiriam, em parte ou no todo. Estudos antropológicos e sociológicos poderiam, com mais eficácia, revelar a imensa hipocrisia que nós, enquanto observadores, suspeitamos existir por entre as quatro paredes dessa casa. Uma série de questões bastante polêmicas se impõe, aos seus moradores.

O patriarcalismo apoia-se, inclusive, no Novo Testamento, e boa parte das mulheres aprecia a ideia de submissão a seus maridos. Mas em que porcentagem isso é escolha livre delas e não produto de repressão? É verdade que os casais, nas famílias tradicionais, estão mutuamente seguros da fidelidade dos seus parceiros? A monogamia é um fato social no Brasil. Significa que a fidelidade é, de fato, observada pelos conservadores ou a traição é mais comum do que se admite, entre eles? E, tendo em vista a traição, as esposas conservadoras têm a mesma chancela social que os maridos, para “pularem a cerca”? Elas estariam de acordo com uma provável desigualdade de tratamento? Casais conservadores restringem, realmente, suas relações sexuais entre marido e mulher ou, além de eventualmente se traírem, transgridem de forma associada, buscando práticas “corruptas” como o swing? Nesses jogos eróticos as trocas são entre sexos diferentes ou, eventualmente, ocorrem manifestações homoeróticas?

A homossexualidade é, de fato, raríssima ou comum entre os conservadores, incluindo seus líderes? Tudo isso não é nada conservador e levanta sérias questões morais, nos termos da moralidade que pretende se impor ao Brasil. Mas precisa ser respondido pelos conservadores, a fim de se estabelecer a coerência entre seu discurso e sua prática. Pública, inclusive.

Opções de arranjo familiar e escolhas sexuais interessam à religião, mas nunca foram agenda para o Estado laico, praticamente único no Ocidente e no Brasil. Somente em países comunistas, como a Coreia do Norte, e teocráticos, como o Irã, o governo controla a vida privada dos cidadãos. Agora, o governo brasileiro, que vocifera contra o Comunismo — regime “autoritário”, que “acabaria com a liberdade das pessoas”, e por isso “é preciso armá-las” — é o mesmo governo que se infiltra nas casas dos brasileiros para impor a visão de mundo de um grupo: os conservadores. Não precisamos, então, temer os comunistas, pois a principal missão da extrema-direita é, justamente, violar nossos muros para acabar com nossa liberdade. Pensando bem, aqui não há contradição, porque apenas comprova seu próprio autoritarismo, fascista. O que será contraditório é se, ao avançarmos das instituições públicas para os recintos domésticos desses novos moralistas, descobrirmos práticas que não recomendam. Será que não temem responder às perguntas mencionadas acima, expondo-se a um grave problema moral: a hipocrisia?

O conservadorismo, enquanto fenômeno público, é bem conhecido e assentado. Um estudo íntimo dele, porém, poderia surpreender a todos nós. E até escandalizar os menos liberais.

Evangélico, eu?

Comecemos pelo princípio. Minha querida, amada, idolatrada, salve, salve Dona Patroa faz parte de um Pequeno Grupo da igreja evangélica que ela frequenta e, para fins de estudar a Bíblia, praticamente todas as sextas feiras eles se reúnem – e não me venham com críticas, pois em tempos de pandemia a reunião é virtual, tá o seus incréus!

Dia desses o foco do estudo foi a oração do Pai Nosso. Aqueles que a conhecem poderiam perguntar: “mas o que há para estudar numa oração tão curtinha que todo mundo já sabe de cor e salteado?”… Para de perguntar, ô criatura! Eu vou chegar lá. E a questão, na minha opinião, é exatamente essa. Esse Pequeno Grupo realmente se preocupa em compreender o conteúdo daquilo que professam.

Diferentemente da igreja católica, que acabou promovendo um Grande Cisma em decorrência principalmente das bulas papais – a história na realidade é bem mais complexa, mas basicamente essas bulas seriam “cartas de graças ou indulgências” por atos meritórios ($$$) -, as igrejas evangélicas de um modo geral parecem seguir mais o conteúdo dos Evangelhos do que o rastro do dinheiro.

E entendam que quando falo de igrejas evangélicas estou me referindo àquelas que verdadeiramente estão preocupadas e voltadas aos ensinamentos de Cristo e não aquelas reuniões caricatas para “expulsão do demo” ou para venda de canetas e vassouras “consagradas” pela bagatela de mil reais a unidade. Isso, para mim, juridicamente tem outro nome. E moral e pessoalmente tem um ainda pior, mas este aqui continua sendo um blog de família e me recuso a transcrever palavras (muito) chulas neste nosso espaço virtual.

Mas, para variar, estou perdendo o foco. Estávamos falando da oração do Pai Nosso. Comecei a pensar nisso tudo ao me pegar ainda hoje, quase dormitando, naqueles últimos momentos de sanidade enquanto o sono vai nos inebriando e começando a tomar conta da gente e que, no modo “piloto automático”, fiz minhas preces – que se resumem a recitar mentalmente as orações da Ave Maria e do Pai Nosso. É um hábito que adquiri há muito, muito tempo, da época de adolescência em que ainda era frequentador da igreja católica.

E então tive um momento de lucidez (e lá se foi o sono pelo ralo abaixo!) e perguntei para mim mesmo: “mim mesmo, qual é o porquê disso?”, quero dizer, por que repetir mecanicamente determinadas “fórmulas” e acreditar que nisso aí estaria a salvação? No fundo, no fundo, como eu disse, é mais um hábito que uma convicção, pois na prática – ainda que participe e comungue da fé de muitas – não frequento nenhuma igreja ou grupo religioso, pois ainda prefiro um bom proseio sem intermediários (como já lhes contei aqui e aqui)…

E isso me fez lembrar que as “novas bulas papais” já estão inseridas no contexto da igreja católica há tempos, na forma dos confessionários e a nova moeda seria a quantidade de reza e não a qualidade da oração. Pecou? Ora, não se preocupe! Seus problemas acabaram! Vá até o confessionário, ouça um entediante sermão e retire seu boleto de rezas! Mentiu? Dez ave marias! Roubou? Cinquenta pai nossos! Traiu? Trinta terços completos e suba de joelhos os 382 degraus da Escadaria da Penha! E pronto! Tá tudo resolvido, pois lavou, tá novo: a alma tá lavada e novinha em folha para os próximos pecados!

Tá, é exagero, eu sei, mas eu sou assim mesmo, fazer o quê? “Vocês sabem que não posso resistir ao dramático”… Aliás, disso tudo o terço me parece ainda mais inócuo agora que parei para pensar. Você recita dezenas de vezes as mesmas fórmulas sem se ater a uma só palavra do que está repetindo! Isso é reza, não é oração… Lembro-me de uma vida que já não mais me pertence que das diversas vezes que já participei de novenas, minha boca se mexia em consonância com todas as demais, mas a minha alma e pensamentos divagavam em outras plagas bem distantes de onde eu estava.

Antes de encerrar, quero que entendam que não vim aqui para ofender nenhuma igreja, religião, grupo, congregação ou seja lá como for que se autodenominem. Este texto simplesmente traduz meu modo de ver as coisas e não tem nada do que escrevi que já não seja do conhecimento e entendimento até mesmo do reino mineral…

E mesmo que eu esteja falando do Evangelho, também é bom deixar claro que na verdade nenhum livro, qualquer que seja, teria a capacidade de trazer um “manual para a vida”. Não existe “receita de bolo”. Temos, sim, que pensar muito, interpretar muito, compreender seu conteúdo e ter o tirocínio pessoal acerca de sua aplicabilidade ou não nesta nossa existência terrena. E conviver com as consequências de nossas decisões.

Enfim, o que eu estou tentando lhes dizer é que acho incrível a atitude desse grupo de pessoas que dedicou mais de uma reunião para estudar uma oração que pode ser repetida em menos de um minuto (cerca de sete segundos se for rezando o terço), pois eles não estão preocupados em simplesmente seguir o conteúdo do Evangelho, mas sim em compreender as palavras de Cristo.

E creio que talvez seja nisso que estaria o que realmente diferencia esse Pequeno Grupo dessa longeva dicotomia assimétrica que tanto caracteriza a distinção entre católicos e evangélicos, pois eles não se enquadram em nenhuma “definição clássica” para nenhum desses grupos, pois eles são simplesmente o que são: cristãos.

Simples assim.

E após todas essas elucubrações mentais que me vieram à tona (e acabaram com meu sono), para que não digam que não lhes deixei uma mensagem de Páscoa, então lá vai! 😁

Tudo por um brinco?

Então.

Estávamos na década de oitenta.

Tudo era proibido, tudo não era permitido e tudo era maravilhoso.

Nossa função, enquanto adolescentes era de compurscar esse limite que nos era impingido.

Daí eu tinha meus 14 anos e fiz uma tatuagem. Daí eu tinha meus 14 anos e furei a orelha. Brinco. Contestadores de fundo de quintal. Escondidos dos pais. Sim, esse era eu.

Cai o pano.

Trinta anos se passaram. A tatuagem ainda estava lá (um lixo, confesso, eu a fiz quando tinha 14 e 70kg, aos 50 e 105, ficou MUITO diferente…) e o furo na orelha ainda presente. Quase tapado.

Boteco. Pé sujo. Eu encontro com meu amigo Flávio. “Cara, o dia que você encontrar um brinco igual a esse que você usa, me avisa. Eu quero. Assim, argola.”.

Na hora: “Este?” Meteu a mão na orelha e tirou o próprio brinco. “É seu.” Só me restou, entre descrédito e estupefato: “Cumassim????”. Ele mo deu. O brinco. “É prata espanhola. Cuida bem dele”. Quase não acreditei. Foda-se se é prata espanhola ou não, meu amigo tirou ali, na hora, o que estava usando e me deu. Do nada. É meu maior tesouro.

Flávio se foi. Pra sempre. Talvez um dia nos encontremos, ou não. Depende de nossa fé. Mas o brinco está comigo. Meu maior tesouro. Cuido dele como Jack Sparrow cuidava de sua bússola. A cada dia que eu o coloco, lembro-me de meu amigo. E sempre me pergunto: “O que ele faria nesta situação? Como ele iria se livrar desta encrenca?” Vejo o tempo passar e ele a me ajudar, ainda agora, depois de seu tempo passado, pois consigo ver seu sorriso infantil, seus olhos brilhantes e sua gargalhada contagiante a me orientar.

Obrigado, Flávio. De minha vida inteira eu posso contar nos dedos de uma mão quem foram meus melhores amigos. E todos já se foram. Mas você, dentre poucos, ainda continua presente, meu indicador e meu orientador. Continuemos juntos. Sempre.

Até já…

Pais sendo pais…

É certo que nós pais sempre, SEMPRE, nos preocuparemos com nossos filhos. Não importa a idade que tenham. Mas algumas situações acabam sendo pra lá de inusitadas! Confiram este pequeno rol que encontrei lá no Instagram de O Lado Bom das Coisas


E hoje que fui no meu pai e ele “E aí, como vão os trabalhos de escola?” (Ele quis perguntar do meu Mestrado).


No último aniversário de minha avó, 98 anos, liguei para ela e perguntei se ia ter festa. Ela respondeu: “não, minha filha, só as meninas é que vêm merendar aqui.” As meninas são as filhas dela, 77, 76 e 74 anos.


Eu passei na residência e quando fui fazer a matrícula meu pai perguntou se ele ou minha mãe precisavam assinar algum documento lá. Eu tenho 24 anos e quase dois anos de formada.


Minha bisa todo dia me dando dinheiro para eu merendar (estou no 5º período da Faculdade). Eu acho a coisa mais fofa!


Meu pai pergunta todo dia o que eu comi no recreio ou se levei lanchinho. Tô na Faculdade…


Eu estava explicando pra minha mãe que estava meio estressada negociando faltas porque adoeci mas não tinha atestado, aí ela deu a sugestão: “Não tem como falar com a diretora não? Se precisar eu falo com ela.” (Estou fazendo Doutorado).


E meu pai que pediu o boletim, eu estando na Universidade, e ainda perguntou quando era a reunião de pais…


Quando comecei na Faculdade fui morar com meus avós e meu avô preparava o meu lanche e ia me levar na facul todas as manhãs. Uma fofura!


Na minha formatura minha mãe achou que ela também iria pra Aula da Saudade. Eu disse: “não, mãinha, vai ser só minha turma mesmo”. E ela: “ôxe, e não vai ter nenhum adulto nessa festa não?”


Tenho 26 anos e quando eu ia para a academia (antes da pandemia) meu pai dizia que eu ia para Educação Física.


Minha mãe até hoje manda quentinha pra mim porque acho que passo fome porque moro sozinha.


Mâmis já foi na Faculdade para conversar com uma professora!


Meu pai até hoje pergunta se eu paguei a mensalidade do “colégio”. Estou quase concluindo minha graduação…


Meu vôzinho uma vez me deu R$50,00 dizendo que era para ajudar a pagar minha Faculdade (faço Mestrado em uma instituição pública). Achei a coisa mas linda do mundo!


Meu pai falava que “a perua chegou”. Era a van da empresa; eu já tinha mais de 20 anos.


Eu faço graduação EAD (Ensino à Distância) em casa e toda vez que me levanto para esticar as pernas um pouco minha mãe fala: “aproveita que está no recreio e come alguma coisa”.


Meu pai fala que eu saí com uma amiguinha. Tenho 38 anos.


Minha mãe passou a minha Faculdade inteira chamando o intervalo de recreio. Quando eu ia de short (aos sábados) ela falava que a diretora ia chamar minha atenção.


Minha vó, brava porque eu vou mudar de cidade para fazer o Doutorado, ligou para minha mãe: “Como é que você vai deixar a menina mudar de cidade, quem vai cuidar dela lá?”


E meu pai que me manda ter cuidado pra atravessar a rua. Tenho 32 anos.


Minha mãe trabalha em uma papelaria. Quando chega no começo do semestre ela me traz cadernos do Snoopy, da Minie, canetas coloridas… Vou para Faculdade parecendo criança!


Já comigo, eu tirando plantão noturno, minha mãe me liga às duas da madrugada e pergunta se eu não vou dormir porque tá tarde.


Meu vô esperava todo dia meu ônibus da Faculdade pra me dar tchauzinho. Todo mundo do busão dava tchau pra ele! Ele é o amor da minha vida!


Meu pai, a cada domingo que vou pra lá (ele mora no interior), me oferece Danoninho. Eu tenho 25 anos e sou casada há sete…


E, mesmo fugindo um pouco do tema, eis mais um pra fechar essa lista com chave de ouro (juro que me identifiquei):

“Meu pai subiu em cima da mesa para trocar uma lâmpada e minha mãe achou ruim e brigou com ele. Alexandre, adulto, pai e advogado apresentou um argumento muito maduro e convincente para minha mãe parar de brigar, que foi: AH, EU NÃO POSSO, MAS O GATO PODE???”

E vocês? Alguém tem alguma história assim para contar? Fiquem à vontade para compartilhar aí nos comentários! 🙂

Plantinhas

Como eu já havia comentado antes, A Dona Patroa se tornou uma viciada em suculentas! E não, não é nada dessa besteira que você pensou aí, não! É que no ano passado ela resolveu que iria presentear a cada uma das mães lá da Igreja Holiness com um vasinho de suculenta e então, desde dezembro, começou a cultivá-las. Apenas algumas dezenas já seriam o suficiente. Mas veio a pandemia, o isolamento, o Dia das Mães chegou e passou e as suculentas continuaram aqui em casa. Inclusive se multiplicando. E ela se encantou com sua variedade. E ela arranjou mais suculentas – “Ah, desse tipo eu ainda não tenho!” – e o negócio foi se aumentando cada vez mais. E eis que na última contagem que fiz ali na varanda (já há alguns meses) tínhamos nada menos que 166 vasinhos de suculentas! É ou não é um vício?

E eis que descobri que o Fábio Coala, um excelente cartunista/chargista/desenhista/artista (ou seja lá como queira ser chamado) tem o mesmo tipo de “problema” em casa, pois a Senhora Coala também é uma amante de plantinhas, mudinhas e outros quetais, o que rendeu – até o momento – uma série bem divertida do que é o dia a dia com essas adoráveis criaturas que têm o “dedo verde”…

1 2 3 4 5 6 7 8

Pequeno dicionário cínico das palavras da moda

Ademir Luiz

O jornalista, editor e escritor Ambrose Bierce compilou ao longo de 25 anos os verbetes e poemas que formariam o “Dicionário do Diabo”, um dos livros mais hilariantes de todos os tempos. Os primeiros verbetes apareceram em 1881, publicados esparsamente em diferentes jornais. Bierce não aprovava dicionários, definindo-os como um “maligno instrumento literário para limitar o crescimento de um idioma e torná-lo duro e inelástico”. Justamente por isso atribuiu esses escritos ao próprio Diabo, que estaria zombando das pretensões e hipocrisias humanas. Cinismo é a melhor palavra para definir verbetes como “crítico: pessoa que se vangloria de ser difícil de agradar porque ninguém tenta agradá-lo” ou “lixo: material sem valor, como religiões, filosofias, literaturas, artes e ciências das tribos que infestam as regiões ao sul do Polo Norte”. Ambrose Pierce teve um fim misterioso, desaparecendo em 1914 enquanto cobria as ações dos rebeldes liderados por Pancho Vila durante a Guerra Civil Mexicana. Mas, como ensinou Baudelaire, “o truque mais esperto do Diabo é convencer-nos de que ele não existe”. Alguém sempre assume a pena. Neste espírito endiabrado, preparei um breve compilado de palavras da moda que, provavelmente, Ambrose Bierce incluiria em seu possesso dicionário.

Action figures: hominhos para marmanjos com dinheiro para gastar.

Ambientalismo: nova religião secular.

Amor líquido: boa sacada de filósofo sério que queria ficar pop e vender livros. Autoajuda para intelectuais.

Anonymous: militantes ateus anarquistas quem usam como símbolo a máscara de um conspirador católico.

Apropriação cultural: prática enriquecedora que gerou magníficas trocas de experiências culturais entre diferentes grupos humanos, responsável por criações como o rock and roll, o futebol e o hábito de consumir sushi em praças de alimentação de shoppings centers mundo afora.

Arte contemporânea: arte moderna batida no liquidificador, mas sem aura.

Astrólogo: tratamento positivo se for Fernando Pessoa. Negativo se for Olavo de Carvalho.

Ativismo judicial: forma legal de tornar normas constitucionais ilegais.

Atrasados do ENEM: atração turística anual. Desculpa perfeita para parecer empático recriminando quem se diverte abertamente. Pessoas que perderam a desculpa do horário de verão.

Baixar: leituras futuras que nunca chegam. Vídeos consumidos instantaneamente.

Black Blocs: revolucionários que não arrumam o próprio quarto. Indivíduos que acreditam que entendem mais de Marx do que Engels, Fidel Castro, Mao Tsé-Tung, Stálin, Leandro Karnal, o namorado da Fátima Bernardes e o próprio Marx. Esperam que lançamento de latas de lixo à distância se torne esporte olímpico.

Bullying: darwinismo escolar.

Caetanear: fazer coisas muitooooo lindas e maravilhosas.

Cancelar: maneira mais fácil de achar que venceu uma discussão sem ter argumentos.

Censura nas redes: (conteúdo retirado por conter informações imprecisas, manipuladas ou que podem induzir ao erro.)

Cerveja artesanal: cerveja sem ISO 9001. A regra social exige que, em qualquer caso, seja considerada melhor que o produto industrializado.

Chef: cozinheiro com camisa xadrez, barba de lenhador e coque de samurai. Produz cerveja artesanal.

Ciclista: bicicleteiro com consciência social.

5G: espionagem. Pornografia que não trava.

Comuna: liberal conservador antes de ser assaltado.

Comunidade: favela em novelas do horário nobre e relatórios da ONU.

Coach: guru com roupa de moletom. Modelo socialmente aceitável de exercício ilegal de diversas profissões. Alguém que acredita ser um sábio porque possui a sabedoria e a humildade de se saber um sábio. Profissional que um dia vai escrever um livro ou, em casos extremos, um dia vai ler um livro.

Crossfiteiro: mercado futuro para consultórios de ortopedia.

Cult: filme, livro ou banda que apenas você e seu amigo esquisito conhecem.

Desconstrução: padrão ético autolimpante. Rebute automático de todas as postagens que poderiam ser usadas como provas contra você.

Discurso de ódio: qualquer coisa que eu não concorde.

Disruptivo: o que o vinil foi um dia.

Doutrinação: falar sobre algo no qual acredito e acho que deve ser difundido ao mesmo tempo em que nego terminantemente estar fazendo isso.

Easter egg: micro orgasmo nerd.

Edição especial comemorativa definitiva em capa dura: a mesma coisa de antes gourmetizada.

Educação a distância: estratégia pedagógica que visa o fomento da não aprendizagem caseira em detrimento da não aprendizagem em ambiente escolar.

Empatia: autopromoção embalada em pretensa responsabilidade social.

ENEM: todas as opções acima.

Esquerdomacho: esquerdista feministo que fuma, mas não traga.

Estado democrático de direito: fórmula mágica para começar e terminar discursos.

Esteticista: manicure que usa tesouras, lixas e alicates levados pelas clientes.

Fake news: antigamente era chamado de mentira ou boato. Algumas vezes são fatos que comprovam de maneira definitiva o que você considera discurso de ódio.

Fitness: quem faz exercícios físicos e dieta por vontade própria.

Gabarito do ENEM: tudo que parecia óbvio antes do candidato entrar na sala de provas.

Gatilho: cenas, temas e frases que pagam o aluguel de seu psicólogo.

Geeks: nerds que sabem formatar o computador.

Gênero: todas as letras do alfabeto sem ordem alfabética.

Genocidas: pessoas que visitam parentes e amigos, frequentam restaurantes, praias e praças, além de comemorar feriados.

Geração canguru: espectador de todas as temporadas de Malhação.

Geração floco de neve: pessoas que nasceram depois da transformação dos chinelos Havaianas em marca de sucesso.

Geração nem nem: jovens que não estudam e não trabalham. Esse verbete não contém ironia.

Glúten: substância contida em diversos alimentos que foram consumidos durante muito tempo sem apresentar maiores problemas, mas que agora podem te matar.

Gospel: Reforma Protestante gourmetizada.

Gourmetizar: maquiavélica tática capitalista para inflacionar preços.

Google assistente: sexo virtual consensual.

Google: biblioteca frequentada por jovens.

Gratidão: obrigado para pessoas com deficiência cognitiva.

Gratiluz: obrigado para pessoas com deficiência cognitiva severa.

Hacker: pessoa que vê seus nudes sem você enviar.

Hater: pessoa que você não adicionou em sua rede social. Variação: pessoa que você adicionou em sua rede social.

Influenciador: vítima preferencial do cancelamento. Desempregado. Efeito colateral da difusão das mídias sociais e facilitação de acesso à tecnologia celular.

Lacaniano: forma de ser freudiano sem ser freudiano e sem, necessariamente, ter entendido o texto.

Lockdown: vertente contemporânea da medicina medieval.

Mudanças climáticas: solução semântica encontrada pelos defensores da teoria do aquecimento global diante de evidências científicas ruins para os negócios.

Negacionismo: ver Discurso de Ódio.

Perfil fake: espionagem social.

Performance: qualquer coisa.

Piriguete: personagens de Shakespeare e Jane Austen adaptados para dramaturgia contemporânea.

Politicamente incorreto: tudo que passava na Sessão da Tarde na década de 1980.

Pronome neutro: alternativa ao necessário e exaustivo estudo dos pronomes pessoais na norma culta. Humor involuntário.

Rachadinha: equivalente ideológico ao desvio bilionário de recursos públicos.

Reaça: liberal conservador depois de ser assaltado.

Redes sociais: solidão compartilhada. Exercício de criação de universos ficcionais. Funil de vida.

Subcelebridade: alguém famoso apenas na internet.

Teoria da conspiração: interpretação criativa da realidade.

Terra plana: ideia antiga vendida como nova.

Tuitar: ver Tretar.

Tretar: revelar verdades inconvenientes.

Vegano: pessoas obrigadas a consumir fontes alternativas de proteína. Consideram os vegetarianos indivíduos cruéis com peixes e ladrões de leite. Os puros. Fonte de proteína se estiverem perdidos em uma savana africana.

O que sabemos sobre as vacinas… até agora.

Sou assinante do Meio, que é uma newsletter com a proposta de encaminhar de segunda a sexta, logo pela manhã, as notícias essenciais do dia, de forma gratuita, e cuja leitura completa é, em média, de apenas 8 minutos. Muito bom. Recomendo. Assinantes premium (que optam por pagar R$9,90 por mês) recebem também um conteúdo diferenciado aos sábados E neste caso, pelo teor e importância do tema e como se tem falado muita besteira nas redes sociais, resolvi compartilhar essa última edição de sábado aqui neste nosso cantinho virtual… Dica: os links disponibilizados no decorrer da matéria apontam para uma versão mais detalhada daquele trecho da notícia. Aproveitem e informem-se!


Prezadas leitoras, caros leitores —

Esta é uma edição de sábado diferente. Não em sua proposta de oferecer textos autorais e analíticos para uma leitura mais detalhada. Mas pelo fato de, por entendermos que este é um assunto de interesse público, estar aberta a todos os assinantes, não apenas aos Premium.

Acreditamos que a informação deve fluir, que o jornalismo independente e de qualidade é um pilar da democracia e que o interesse público é umas das razões de ser do nosso ofício.

E, claro, você que está tendo o primeiro contato com nossa edição de sábado pode ver que é um bom motivo para se tornar um assinante Premium do Meio. A assinatura mensal é menos que uma passagem de ida e volta de metrô. Quase nada, mas muito para nós.

Assine o Meio.

Faz diferença.

— Os editores


Edição especial: o que sabemos sobre as vacinas… até agora

Se o gerenciamento da vacinação contra a Covid-19 no Brasil está nos ensinando algo é que nada está garantido até que tenha acontecido. Uma das poucas certezas é que amanhã, dia 17, a diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vai se reunir para autorizar ou não o uso emergencial de duas vacinas, a CoronaVac, da chinesa SinoVac em parceria com o Instituto Butantan, e a da Universidade de Oxford/AstraZeneca com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na segunda-feira termina o prazo de dez dias estabelecido pela própria Anvisa para dar uma resposta aos pedidos de uso emergencial.

Passada a única certeza – a data limite da Anvisa –, começa um emaranhado de dúvidas que envolve até mesmo qual vacina estará disponível para os brasileiros. No momento em que este texto é escrito, a exportação para o Brasil de dois milhões de doses da vacina de Oxford fabricadas na Índia está vetada pelo governo indiano, e o Ministério da Saúde brasileiro requisitou todo o estoque da CoronaVac em poder do Butantan, seis milhões de doses.

Como não é possível responder às questões futuras, vamos procurar esclarecer as dúvidas presentes sobre as vacinas que estão sendo utilizadas e desenvolvidas para combater a mais grave pandemia a atingir a Humanidade, desde a Gripe Espanhola, há pouco mais de cem anos.

Quantas vacinas estão em desenvolvimento ou em uso hoje?

Segundo levantamento do New York Times68 vacinas estão sendo testadas em humanos, incluindo as que já estão em uso, e pelo menos outras 90 estão em fase de experimentos em animais.

Como são feitos os testes?

Primeiramente, os laboratórios realizam experiências com animais, verificando se a vacina tem efeitos colaterais e se, após injetarem o vírus, funcionam. Se tudo certo, começam as fases de testes em humanos. A primeira, com um pequeno grupo de adultos saudáveis, analisa se a vacina é segura. A segunda, com centenas de pessoas, incluindo integrantes de grupos de risco, aprofunda a análise da segurança e já começa a verificar a eficácia. Finalmente a fase três pega um universo de milhares de pessoas dos mais variados grupos para testar a eficácia em “condições” normais.

Somente após o sucesso da fase três uma vacina pode receber autorização de uso emergencial e registro definitivo. Há ainda a fase quatro, a análise do resultado de um amplo programa de vacinação ao longo dos anos. Só aí se pode saber, por exemplo, se a imunidade oferecida pela vacina é permanente ou não.

O desenvolvimento dessas vacinas foi apressado?

Apressado, não; acelerado, sim. Normalmente uma vacina leva anos para ser desenvolvida, com as fases acontecendo em sequência ao longo de mais tempo, e os trabalhos de infraestrutura e fabricação começando quase no momento da aprovação. Porém, a gravidade da pandemia exigiu adaptações nesses processos, com as fases um e dois acontecendo quase simultaneamente, a infraestrutura sendo montada desde os testes com animais e a fabricação acontecendo em plena fase três – se a vacina fosse um fracasso, bilhões de dólares seriam perdidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os protocolos de segurança foram obedecidos. Neste caso, rápido não é sinônimo de mal feito.

Como as vacinas funcionam?

Embora busquem o mesmo objetivo, fazer com que o organismo produza anticorpos contra a doença, as vacinas o fazem por métodos diferentes. As duas que estão em análise pela Anvisa, por exemplo, usam de forma diversa o mesmo princípio: injetar o vírus (ou bactéria, dependendo da doença) no corpo para que este desenvolva defesas. Mas quando se diz “injetar o vírus”, não se trata de pegar um Sars-Cov-2 em toda sua força e botá-lo no organismo do indivíduo.

A CoronaVac, por exemplo, usa o sistema mais comum, o chamado vírus inativo. O laboratório cultiva uma grande quantidade do vírus e depois, por meios físicos e químicos, o torna incapaz de transmitir a doença, o mata, por assim dizer. Mesmo assim, quando o vírus é injetado no corpo, nosso sistema imunológico o reconhece como uma ameaça e cria defesas. A mesma técnica é usada na vacina da indiana Bharat Biotech, que empresas brasileiras querem comprar.

As grandes vantagens dessa técnica são que ela já foi amplamente testada em outros imunizantes e é inofensiva para pacientes com problemas no sistema imunológico (imunocomprometidos). Por outro lado, são necessárias mais doses para garantir a imunidade.

Já a vacina de Oxford/AstraZeneca usa o vetor viral, o vírus vivo. No caso um adenovírus, que provoca, esse sim, uma gripezinha. O adenovírus recebe uma informação genética do Cov-Sars-2, geralmente da membrana que o envolve, e é injetado no organismo. Nosso corpo começa então a reagir à informação do coronavírus e desenvolve os anticorpos antes que ele possa agir. Para tornar o processo mais seguro a AstraZeneca usou adenovírus de macacos, dificultando ao vírus se adaptar ao novo hospedeiro.

Além de também já ser usada em dezenas de outras vacinas, essa técnica permite uma imunidade mais duradoura. Entretanto, pessoas imunocomprometidas correm o risco de não desenvolverem anticorpos a tempo e acabarem contaminadas por uma eventual reativação do vírus. O armazenamento desses dois tipos de vacinas requer temperaturas entre -2º e -8º C, obtidas com equipamentos convencionais.

Mas essas são as vacinas em análise no Brasil. Americanos e britânicos estão tomando imunizantes da Pfizer/BioNTech e da Moderna feitos com uma técnica recente e radicalmente diferente, a imunização gênica. Nela, os cientistas injetam em nosso organismo o código genético do vírus para que nosso RNA, a macromolécula que transmite as informações genéticas do DNA, o inclua em nossas células. Assim, o próprio organismo cria a proteína do Sars-Cov-2, sem o vírus, e aciona o sistema imunológico.

Por não requerer a cultura de grandes quantidades do vírus em laboratório e sua inativação ou atenuação, as vacinas gênicas têm um custo muito menor e podem ser produzidas mais rapidamente. Seu grande problema é que exigem temperaturas de -70ºC, o que cria um imenso problema logístico de transporte e armazenamento.

Como é uma técnica nova e está sendo usada pela primeira vez numa vacina para humanos, foi alvo dos mais disparatados boatos, inclusive que alteraria o DNA humano. Isso não é verdade.

Existem outros métodos, mas esses são os que estão predominando no combate à Covid-19.

O que é a eficácia?

Um dos termos menos compreendidos quando se fala de vacinas é “eficácia global”, interpretada pelo público em geral como “se a vacina funciona”. Não é isso. Primeiramente, é preciso entender como se calcula a eficácia de uma vacina. Durante os testes com pessoas, metade dos voluntários recebe a vacina de verdade e a outra metade um placebo, uma substância sem qualquer efeito – e espera-se para ver quem fica doente. É estabelecido um número x de infecções, e, quando ele é atingido, compara-se a quantidade de casos nos dois grupos. A eficácia global é a diferença percentual entre os casos nos que tomaram a vacina e nos que tomaram o placebo.

Para a OMS e a Anvisa, uma vacina funciona quando sua eficácia global fica acima de 50%. Mas isso não é tudo. É preciso avaliar a eficácia da vacina diante dos diversos níveis de gravidade da doença. Nesta semana, o anúncio de que a CoronaVac tinha eficácia global de 50,38% provocou surpresa e até deboche.

Para os leigos, parecia que só metade dos vacinados desenvolvia anticorpos. Não é isso. Todos desenvolvem, mas a eficácia varia. A vacina é 78% eficaz nos casos moderados da doença, quando é necessária internação, e 100% eficaz nos casos graves, nos quais o paciente precisa ser intubado.

Mas, se a vacina serve para evitar que se tenha a doença, como se chegou a esses números? Simples. De todos os voluntários que tomaram a CoronaVac, nenhum teve um caso grave (100% de eficácia), 22% tiveram casos médios (78% de eficiência) e 49,62% tiveram casos leves, tratáveis em casa (50,38% de eficiência). Ou seja, ela pode reduzir pela metade o número de novas infecções e impedir novas mortes. O que é muito bom.

O que os especialistas ressaltam é que, com a eficácia menor, torna-se mais importante a ampla cobertura, com a vacinação do maior número possível de pessoas, de forma a criar um cordão de imunidade.

Tomar apenas uma dose é eficiente?

Não. Todas as vacinas que já estão em uso requerem ao menos duas doses para garantia de imunidade. Entretanto, estamos em uma situação de calamidade global. Diversos países, incluindo Reino Unido, onde a vacinação já está em andamento, e Brasil, onde não sabemos quando começará, estudam atrasar a segunda dose de forma a aplicar a primeira no maior número possível de pessoas. A OMS admite que o intervalo entre as doses possa chegar a seis semanas em situações extremas, mas diz que o ideal é que a segunda seja aplicada entre três e quatro semanas após a primeira.

Quantos países já estão vacinando?

Até o momento, 52 países já iniciaram campanhas de vacinação, e a Oceania é o único continente onde ainda não houve imunizações. Em termos absolutos, Estados Unidos e China lideram, com 12,2 milhões e 10 milhões de vacinados. Já em termos percentuais, Israel já imunizou 25,34% da população.

Quando e como será a vacinação no Brasil?

“Quando” é a pergunta de um milhão de dólares. O Ministério da Saúde pretendia fazer uma cerimônia no dia 19 e iniciar a campanha no dia 20, mas o imbróglio com a Índia fez o evento ser adiado, mas não se sabe se a vacinação começará mesmo no dia 20 com os imunizantes requisitados ao Butantan.

Já o “como” é razoavelmente conhecido. As doses serão repassadas aos estados e municípios, responsáveis pela aplicação de acordo com o critério de prioridades. A fase 1 abrangerá profissionais de saúde, maiores de 75 anos e maiores de 60 que vivam em instituições de longa permanência. Na fase 2 serão imunizadas pessoas entre 60 e 74 anos. Na 3, portadores de comorbidades agravantes de Covid, como diabetes, hipertensão e obesidade. Finalmente, na 4, professores, profissionais das forças de segurança e salvamento, funcionários do sistema prisional e detentos. Só depois virá a população em geral. Confira a íntegra do plano nacional de vacinação.

Ainda há perguntas cujas respostas só virão durante e após a vacinação, mas o fundamental é ter em mente que a vacina é nossa melhor arma contra essa doença. Tome-a tão logo seja possível.

Por Leonardo Pimentel


Esta é uma edição exclusiva para assinantes premium do Meio.
Ainda não assinou? Assine agora mesmo.

Quem faz o Meio.

© 2016-2021 Canal Meio S.A.

Estamos enviando este email porque você assinou a newsletter diária do meio.


Só para complementar: obviamente este vídeo a seguir sobre “Rambo e a Vacina” não faz parte de nenhuma edição do Meio; recebi pelo Facebook e – sinceramente – ri litros! Até porque a dublagem ficou perfeita… Confiram! 😀

Bodas de Louça

Bodas de Louça. Vigésimo segundo ano de comemoração matrimonial. 22 anos de casados. E qual é o porquê da louça? É que com a louça, apesar de sua fragilidade, é possível fabricar vasilhames que tanto podem acomodar líquidos como sólidos, recebendo e amoldando as situações da vida em conformidade com o formato do próprio casal, demonstrando que já suportou e suporta muitas coisas juntos, mas com a ciência da necessidade de continuar cuidando da integridade da relação.

Nos conhecemos quando estudávamos na Faculdade de Direito. Ela já havia começado o curso, trancou a matrícula, foi para o Japão – onde trabalhou por quatro anos – e voltou no ponto onde havia parado, no terceiro ano, em 1994. E eu já estava por lá, seguindo normalmente os estudos…

Primeiro contato…

Apesar de nosso primeiro contato não ter sido promissor (pois ela me deu uma reprimenda porque eu nunca sabia se chamava ela de Elaine, Eliane ou Eliana…), e mesmo ela estando noiva e eu sendo casado, acabamos nos tornando bons amigos e como é comum em todo e qualquer curso de Direito volta e meia saíamos em turma para aproveitar os barzinhos da cidade.

Se não me falha a memória, lá no saudoso “O Caipira”…

Nessa época, para me sustentar, eu montava e vendia microcomputadores (bons tempos dos 386 DX 40 e o começo dos 486!) e acabei lhe vendendo e instalando seu primeiro computador. No último ano de faculdade, em 1996, ela já fazia estágio no departamento jurídico da Prefeitura e graças aos meus “conhecimentos técnicos” ela me indicou para uma entrevista e eu também passei fazer estágio na área jurídica enquanto, paralelamente, ajudava todo aquele pessoal a desvendar os segredos daquele novo ambiente gráfico que eles não tinham nem ideia de como funcionava: o Windows 3.11.

E também foi nesse ano que cada qual encerrou de vez com sua vida conjugal. Eu saí de um casamento de cerca de dez anos e ela saiu de um noivado de cerca de quatro anos. E naquele final de anos, ainda que sozinhos mas meio que juntos, esse fato veio a dar um novo sabor às últimas festas de formatura…

Acho que esse foi o último churrasco que fizemos – e olha o bonitão (o único sem camisa) sentadinho bem ali no meio!

Aliás, já que estávamos naquela “situação”, por que não nos acompanharmos um ao outro na própria formatura? Foi o que fizemos!

Eu, todo na estica e com pelo menos uma arroba a menos do que nos dias de hoje.
Já ela não mudou nadinha!

E foi dessa maneira, naturalmente, em decorrência de uma convergência de inúmeros fatores inesperados, que começamos nosso relacionamento. Que ainda assim ela tentou encerrar – mas quem me conhece sabe como eu posso ser persuasivo. Ou melhor, teimoso e turrão!

Bem que ela tentou…

E uma vez formados atravessamos o ano de 1997 trabalhando juntos no escritório de advocacia de nossos amigos, sendo que passávamos praticamente o tempo todo um com o outro, volta e meia visitávamos a irmã dela no litoral e normalmente eu também estava lá pelas bandas da casa dela…

Eu, na minha versão “Renato Russo”.

Abre o olho, Japonesa!
Fecha o olho, Gaijin!

Mieko sendo bonitinha como só ela sabe ser…

Mas não teve jeito. Estávamos fadados ao sucesso! E foi assim que no dia 12/12/1998, nas dependências do restaurante rural Coelho e Cabrito, que formalizamos nossa união perante os homens e perante Deus. Aliás, logo após a cerimônia civil e sem que tivesse chegado o pastor que faria um culto ecumênico (pois ele se perdeu no caminho), chamamos todos os convidados para que se sentassem e começassem a se servir. Então, quando todos já estavam acomodados, eis que o pastor chegou. Pediu desculpas aos presentes e falou suas palavras. O que rendeu o inesquecível comentário do Luisinho, nosso padrinho:

“O melhor casamento que eu já fui foi o da Mieko e do Adauto. Enquanto o padre falava a gente estava lá, sentadão, com o copo de cerveja na mão!”

Atrasado, mas em tempo!

Segundo uma senhorinha, mãe de um amigo meu, ao ver essa foto:
“A perfeita união da Máfia Italiana com a Yakuza Japonesa!”

E, dali, partimos para nossa Lua de Mel em Porto Seguro, uma viagem que foi o presente dos nossos amigos do escritório – apesar de a Mieko já conhecer o lugar, ainda assim fomos curtir e aprontar a dois naquelas distantes plagas da Bahia…

Mieko pedindo informação.

Adauto discordando.

E desde então a gente vem levando nossa vidinha… Ambos cometendo erros e acertos, alguns maiores e outros menores (fora os gigantescos), mas ainda assim vamos levando. Apesar de sempre lembrarmos da data de nosso aniversário de casamento, na realidade raramente “comemoramos”, então as fotos a seguir representam apenas um pequeno apanhado acerca do que estava acontecendo conosco no dia ou num dia bem próximo dessa data.

1999: eu e Kevin no apartamento do Jardim América.

2002: eu, Kevin e Erik na comemoração de final de ano da escolinha.

2003: churrasco na Prefeitura de Jacareí, Erik no colo, Kevin brincando com a Mieko e Jean na barriga.

2004: Erik e eu limpando a massa de bolo crua da tigela – que, segundo a Mieko, “faz mal”…

2005: Jean “seguindo meus passos”…

2007: sim, nesse ano comemoramos “formalmente” nosso aniversário de casamento.

2012: sim, nesse ano também.

2013: foi no mesmo dia da formatura do Kevin.

2016: bem próximo da formatura do Erik.

2017: em casa com Hideki, Júlio, Júlia, Elaine, Mieko e eu.

2018: também foi próximo do dia da formatura do Jean…

… mas foi no exato dia que o Titanic voltou às ruas!

E é isso. Bodas de Louça. Continuamos sempre procurando nos adequar às novas situações que a vida nos brinda – ainda mais nessa época maluca de pandemia e desvario presidencial – mas também não descuidando da fragilidade que é a manutenção de um casamento já tão longevo. O tempo vai passando, as crianças vão crescendo e, enquanto casal, temos nos descoberto cada vez mais parceiros no nosso dia a dia – apesar dos eventuais dedos em riste de ambos os lados, mas isso faz parte… O que importa é manter a família unida!

Cenas do dia a dia de um casal

Abertura: Cena de uma ponta da cozinha em uma grande angular. Percebe-se a longa mesa que atravessa o cômodo, uma parede toda tomada de armários de um lado e, do outro, uma mesinha alta com apenas duas cadeiras. Ao fundo uma também longa pia, sob a janela, ladeada pela porta de saída do lado esquerdo e pelo fogão no canto, do lado direito. No chão, próximo da pia, duas grandes sacolas de feira, ainda com produtos recém-comprados. Duas pessoas estão de costas para a câmera, lado a lado e de frente para a pia, fazendo algum serviço manual.

Corta: O enquadramento da cena agora é do ponto de vista da altura da pia de duas cubas, focado, mostrando nitidamente de baixo para cima o que o casal está fazendo bem como seus rostos e olhares absortos em sua ocupação. Ele, alto, está fatiando um queijo, olhar vago, pensando em alguma coisa. Ela, pequenina, está lavando folhas de couve, semblante ligeiramente franzido. De repente, do nada, apoiando-se sobre a beirada da pia, ela olha para ele e solta:

– Na boa? Você precisa mesmo é criar juízo!

Diz isso e volta-se para a frente, retomando seus afazeres.

– Cuméquié? Pô, tô quieto aqui cortando meu queijinho e você me vem com essa?

– Na verdade é simples: – diz, sem olhar – eu não estou a fim de ficar viúva!

– E você poderia ficar viúva porque eu não teria “juízo”. É isso?

Cerrando os olhos e agora ambos se encarando, ela responde:

– É.

Num gesto teatral e grandiloquente, com os olhos arregalados, cara de espanto e a mão espalmada no peito ele ainda pergunta:

– Falta de Juízo, EEEEEUUUUU???

Não sem um esgar de um sorriso, voltando novamente sua atenção para as folhas de couve, desta vez ela afirma:

– Pois é, amor, o problema é que você não tem juízo…

Também voltando a fatiar o restante que falta do queijo, quase que distraidamente, num tom tranquilo é a vez dele:

– Amor, na verdade quem não tem juízo é você.

– Como assim? Voltando a encará-lo. Por que eu?

Desta vez interrompendo seu fatiado, mas ainda assim sem se abalar, baixando a faca na pia e com um carinho no olhar ele calmamente responde:

– Amor, veja bem. Eu tenho muito juízo. Tenho juízo de sobra. Sabe o porquê? É porque eu me casei com você. Na verdade quem não tem juízo é justamente você, simplesmente pelo fato que casou comigo.

Novo corte: Bem de frente. Ângulo fechado somente na face dos dois. Sérios. De repente os lábios começam a tremer e sonoras gargalhadas dão lugar ao que quase poderia ter sido uma discussão. A câmera se afasta para vislumbrar o casal se abraçando, ainda rindo, olhos nos olhos, com um suave beijo para encerrar o assunto. Cai o pano.

(Flagrante do momento: “Falta de Juízo, eu?”…)

A vida é mais!!!

Quanto mais eu conheço dessa raça (humana), mais vergonha acabo sentindo…

Mas quando encontro sentenças como essa a seguir ainda tenho alguma esperança!

Trata-se de ação de indenização por danos morais e materiais por um suposto “erro médico” que tramitou no Juizado Especial Cível da comarca de Goioerê, Paraná, uma simpática cidadezinha com cerca de 30 mil habitantes encravada pro lado da região oeste do estado. Essa pitoresca sentença (a original pode ser visualizada aqui) foi prolatada nos autos do processo nº0003331-47.2019.8.16.0084 pela Juíza Fabiana Matie Sato.

SENTENÇA

1. Afasto o parecer, de seq. 44, nos termos do artigo 40 da lei 9.099/95.

2. Os autores pretendem ser indenizados, por dano material de R$ 4.987,00 mais dano moral de R$ 15.000,00, sob a alegação de que o médico, após realizar ultrassom, informou que o bebê era menino, mas no sétimo mês de gravidez, os autores vieram a descobrir que o requerido errou no diagnóstico, porque a mãe estava grávida de uma menina.

3. Adoto a fundamentação da rejeição das duas preliminares, pela desnecessidade de prova pericial, e a incompetência territorial, do parecer de seq. 44.

4. É de conhecimento popular e raso que, no início da gestação, qualquer informação sobre o sexo do bebê está sujeita à alteração, seja pela limitação do exame de ultrassom, seja pela posição da criança no ventre materno. Conforme seq. 1.4, tratava-se de exame com uma gravidez de 14 semanas.

O casal de autores informa a realização de Ultrassonografia Pélvico Endovaginal, em 28/02/2018, 07/03/2018, 29/03/2018 e 26/04/2018 e Ultrassonografia Obstétrica no dia 01/08/2018.

No exame Ultrassonografia Pelvico Endovaginal, de 26/04/2018, da gravidez de 14 semanas, o médico disse que era um menino.

E eles não se importaram em fazer novo exame para apurar o sexo do bebê, e apenas no 7º mês descobriram que era uma menina, mas tudo já estava comprado.

O casal comprou todo o enxoval da criança em coloração azul e roupas próprias para meninos, e gastaram cerca de R$ 4.987,00.

Pelo engano do médico, sustentam o dano moral, quantificado em R$ 15.000,00.

Nesta ação, os autores pretendem empurrar para o médico, a conta do chá de bebê e das roupas também.

Tenho dó desta menina, porque os pais queriam que ela fosse um menino, porque o médico disse que era menino, e a mãe não fez outro exame para confirmar o sexo do bebê, após o exame de ultrassom, de 14 semanas, e os pais compraram tudo, desde chá de bebê azul até roupas azuis, e só descobriram que era uma menina, no 7º mês.

Coitada. Veio ao mundo, recebida, com este clima, sem direito dos pais de serem reembolsados pelas despesas com enxoval e chá de bebê.

Meu Deus, quanta pequenez para celebrar a vida. Quanto despreparo para uma gravidez e para reconhecer a dádiva das belezas da vida.

A culpa foi dos pais, e ele pretendem colocar a culpa no médico, no exame, em todos, menos neles.

A vida é mais!!!

Os pedidos são totalmente improcedentes.

DISPOSITIVO

Ante o exposto, julgo IMPROCEDENTES os pedidos.

Sem custas ou honorários advocatícios.

Publique-se, registre-se e intime-se.

Goioerê, 27 de fevereiro de 2020.

Fabiana Matie Sato
Magistrada

Valorizando seu dinheiro – XI

Recapitulando
(As principais representantes da moeda em cada época…)

Moeda de Cerco – Doze Florins (1645)
 

Vintém – Vinte Réis (1695)
 

Meia Pataca – Cento e sessenta Réis (1695)
 

Dobrão – Vinte mil Réis (1724)
 

Escudo – Doze mil e oitocentos Réis (1727)
 

Tostão – Oitenta Réis (1727)
 

Cinco mil Réis (1833)
 

Dois mil Réis (1888)
 

Quinhentos Réis (1901)
 

Quinhentos mil Réis (1936)
 

Dez Cruzeiros (1950)
 

Dez Cruzeiros Novos (1967)
 

Cem Cruzeiros (1970)
 

Barão – Mil Cruzeiros (1978)
 

Quinhentos Cruzados (1986)
 

Cinquenta Cruzados Novos (1989)
 

Cinquenta mil Cruzeiros (1990)
 

Cinco mil Cruzeiros Reais (1993)
 

Cem Reais (1994)
 

E aqui concluímos esta nossa histórica história, tendo passado por todos os períodos do Brasil, desde a época colonial até os tempos atuais. Poderíamos também ter falado das recém-surgidas criptomoedas, um novo meio de troca que se utiliza das tecnologias de protocolos seguros e da criptografia para assegurar a validade das transações efetuadas através do computador – mas isso já é matéria para algum outro dia…


(Início da Saga)