Vencido é a mãe!

Essa história já é um pouco antiga, quando os tempos eram outros e este nosso anti-herói de plantão ainda não tinha a vida regrada e familiar que hoje leva… Vamos chamá-lo de “Fred”.

Pois bem, lá estava ele com a sua já habitual insônia atravessando mais uma dessas noites quentes de Verão. Vira pra um lado, nada. Vira pra outro, nada. Desiste. Maldita insônia! Melhor dar uma olhada no que está passando na TV, fumar um cigarro, sei lá – distrair-se de alguma forma.

Mas cadê cigarro?

Só então lembrou-se de ter jogado o maço fora pouco antes de tentar começar a dormir, quando deu cabo do último sobrevivente!

“Bem, a noite é uma criança – mal passa de uma da matina – e já que estou com um carro aqui à disposição, melhor sair pra comprar mais dessas pílulas cancerígenas para atravessar o restante dela”, foi o que disse de si para si em uma bem lógica conclusão. Nessa época morava num bairro chamado Jardim Paulista e a única padaria 24 horas que sabia estar aberta ficava lá pelas bandas do Centro, há alguns quilômetros de distância.

E assim o fez. Foi, tranquilo, dirigindo e vendo pelo caminho um tanto daquele povo que estava indo ou vindo da balada, uns ainda sóbrios, outros nem tanto, bem como algumas moçoilas do ramo que estavam por ali para vender a única coisa que tinham para vender…

Chegou na padaria, de cara já pediu dois maços e – por quê não? – também duas latinhas de cerveja. Quem sabe com um pouquinho de teor alcoólico o sono não viria antes do amanhecer do dia? Entrou no carro e tomou seu rumo, de volta pra casa, desta vez atravessando o Anel Viário da cidade.

E eis que no meio do caminho havia uma batida policial. Um comando da polícia, no meio do caminho!

“Tudo bem! Podem até me parar, pois duvido que hoje encontrem alguém mais sóbrio e acordado que eu!”, foi o que pensou enquanto olhava para as duas latinhas intocadas, dentro de uma sacola, no banco do passageiro.

– Documentos!

– Pois não, seu guarda… Aqui está o meu e aqui o do carro.

Nisso o oficial se afastou para conferir sabe-se lá o que junto à viatura enquanto ele permaneceu bem ali, dentro do carro, fumando um cigarro e torcendo para que ele voltasse com um bafômetro! Ah, isso seria muito divertido!

– Senhor, queira sair do veículo, por gentileza.

– Pois não, seu guarda! – respondeu num exagerado tom de gentileza que, junto com o sorriso que ostentava, beirava a zombaria…

– Sinto muito, senhor, mas vamos ter que apreender o veículo.

– CUMÉQUIÉ? COMO ASSIM “APREENDER O VEÍCULO”???

– Acontece que o licenciamento está vencido desde o dia trinta e o senhor não pode transitar com o veículo nessa situação. Conforme consta no artigo 230 do Código de Trânsito Brasileiro é necessário que eu…

– Mas seu guarda, espera um pouco, vamos conversar, tá bom? Veja bem, este carro é da minha mãe e ela sempre foi muito cuidadosa no que diz respeito à documentação. Simplesmente não é possível que ela tenha deixado vencer o documento de… PÉRAÊ!!!

– Pois não, senhor?

– Você disse que o documento venceu no dia trinta? Dia trinta agora? Mas HOJE é dia trinta!

– Não, senhor, hoje é dia primeiro. Dia trinta foi até a meia-noite de ontem.

– CUMASSIM? Mas isso não faz nem duas horas! O que você está me dizendo é que este veículo vai ser apreendido simplesmente porque o documento venceu de ontem pra hoje? Há apenas duas horas ou menos?

– Exatamente, senhor. Vencido é vencido.

De nada adiantou argumentar, apelar para o bom senso, para o superior imediato, lembrar do local em que se encontravam, da distância até sua casa, do horário, nada. O sujeito era irredutível.

Absurda, insólita, inacreditável situação. Mas ainda assim, verdadeira! Aos olhos daquele guarda o documento estava simples e irremediavelmente vencido. Ora, vencido estava ele pela bur(r)ocracia que determinava a fria obediência à lei pelo diligente oficial – ao qual as denominações que passavam pela cabeça de nosso amigo não eram lá assim tão diligentes e muito menos publicáveis neste nosso cantinho de respeito!

Nada mais restou senão voltar pra casa. A pé. Alguns quilômetros, apenas, pelo ermo Anel Viário.

Ao menos as latinhas não foram confiscadas…

Maldita insônia!

A Mensagem

Num mundo em que a comunicação é tudo e o dinheiro sempre pouco, conta-se aqui uma história altamente moral sobre a inutilidade da primeira enquanto se economiza o segundo:

E chamou o pintor e lhe encomendou a placa para anunciar a especialidade do seu negócio: “Nesta casa se vendem ovos frescos”. Além dos dizeres recomendou ao pintor que bolasse uma figura, uma alegoria referente ao ramo. E perguntou quanto era. O pintor disse que ficaria em 50.000. Cinquenta mil o quê?, indagou o comerciante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Ah, não vale, disse então o comerciante. Como não vale?, retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em sua economia. O senhor não poderia reduzir um pouco?, arriscou o comerciante. Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura e os dizeres. Como assim?, disse o negociante? Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa não precisamos usar figura nenhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de galinha, o fato de não ter nenhuma outra ave faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. É certo, concordou o negociante. Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros de menos. Agora também não é necessário dizer nesta casa. Se o freguês passa por aqui e vê: “Se vendem ovos frescos”, já sabe que é nesta casa. Ele não vai pensar que é na casa ao lado, não é mesmo? Certíssimo!, exclamou o comerciante. Então, continuou o pintor, por que colocar “Se vendem”? Se o freguês potencial lê “Ovos Frescos”, já sabe que se vende. Ninguém pensaria que o senhor vai abrir uma casa comercial para alugar ovos ou apenas para expô-los, right? É mesmo!, espantou-se ainda mais o comerciante. Quanto ao “Frescos”, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não é de boa psicologia usar essa palavra. “Frescos” lembra sempre a hipótese contrária, a de ovos “velhos”. Não deve nem ter passado pela cabeça do comprador a ideia de que seus ovos podem ser outra coisa senão frescos. Portanto, tiremos também o “frescos”! Certíssimo!, berrou o negociante, agora profundamente entusiasmado com a dialética do pintor. Façamos, portanto, apenas OVOS. Por favor, desenhe aí só essa palavra, bem bonita, bem clara: OVOS! Só ovos, ovos tout court, ovos em si mesmos, que se vendam pela sua pura e simples aparência de ovos, pelo seu inimitável oval! Então vamos lá, concordou o pintor. Mas antes de começar a usar o pincel, voltou-se para o negociante e perguntou, preocupado: Mas, me diga aqui, amigo ― pensando bem, por que vender ovos?