Semanário de um Temulento – I

E eis que finalmente, depois de longo e tenebroso inverno (mais longo que tenebroso), finalmente resolvi dar o primeiro passo.

“Para onde?”, perguntar-me-iam vocês. “Não ‘para onde’, mas para quê”, responder-lhes-ia eu.

Já há muitos anos – eu disse ANOS !!! – que eu estou mergulhado no álcool. E nem é para ver se daria uma boa conserva, hein? Beber, beber, bebi desde a adolescência e durante toda minha fase adulta, mas era aquele negócio de final de semana, ou somente quando tinha uma festa, evento, sei lá, essas coisas. Muito de vez em quando um porre homérico, mas isso era mais exceção do que regra.

Porém de uns tempos pra cá comecei a tomar minhas cagibrinas praticamente todos os dias. Basicamente basta eu por o pé na rua e vou parar em algum canto específico para encher o caneco (na realidade são apenas três os botecos “pé-sujo” que frequento e gosto de frequentar). Não que amarre um porre diário, mas invariavelmente um semanal acaba acontecendo. E – oh, descoberta das descobertas! – percebi que isso está me fazendo mal. Fisicamente e financeiramente. Psicologicamente ainda vou muito bem, obrigado.

Mas mesmo assim somente com um trabalho psicológico é que eu terei como, se não me livrar, ao menos deixar essa bagaça sob controle. Eu acho.

Há meses a Dona Patroa vem me cobrando para tomar uma atitude, inclusive com bons argumentos, para todos os quais eu solenemente faço ouvidos moucos. Mas em determinado momento, nem eu sei o porquê, resolvi aceitar um desses conselhos. E então ela conseguiu o contato de uma psicóloga especializada no assunto, indicada por uma amiga, e o repassou para mim. E levou apenas algumas semanas para que eu agendasse uma consulta com ela…

E lá fui eu para o tal do proseio.

Conversamos um tanto, ela meio que tateando, tentando descobrir um tanto de quem eu sou e como fui parar ali. Minha vontade era já lhe dar alguns de meus livros de presente. “Faz o seguinte: dá uma lida aí no geral e quando concluir daí você me chama, tá bom? Desse jeito poderemos poupar um tanto de palavrório entre a gente e outro tanto de dinheiro para mim.” Mas alguma coisa me disse que não ia rolar. Talvez seja aquele fiapo que restou do que eu costumava chamar de consciência.

Num resumo do resumo do resumo da ópera, basicamente lhe disse que, apesar de ter consciência de meu alcoolismo, não me considero um viciado. Se eu não sair de casa posso ficar dias sem beber e até sem fumar e não sentir vontade nenhuma disso. O que eu quero dizer é que não sinto falta da bebida ou do cigarro, pois meu problema mesmo seria o “sair de casa”. E também não bebo por negação, trauma, fuga, ou seja lá o escambau que for. Bebo porque gosto. Porque é divertido. Eu diria que sou um alcoólatra do tipo do Mussum (quem aí ainda se lembra?), ou seja, um bêbado de bem com a vida. Algo assim.

Ela, por sua vez, me disse que o alcoolismo pode ter três fatores como gatilho: a personalidade, pois o indivíduo tímido bebe para se soltar (nem com o mais hercúleo esforço, simplesmente não consigo me imaginar como uma pessoa tímida que precisa beber para se soltar – antes o contrário, taca cachaça em mim pra ver se eu calo a boca!); a genética, pois o indivíduo pode ter um histórico familiar de alcoólatras (e nesse caso não teria o que se fazer, pois se tá no sangue, tá no sangue – que o digam meus avôs tanto paterno quanto materno, que adoravam tomar um porre de vez em sempre); e a sociedade, pois o indivíduo bebe para estar com os amigos, para fazer parte de uma “turma” ou algo do gênero (é, acho que a coisa deve ser mais ou menos por aí mesmo…).

Ela também citou que o primeiro passo mais importante já foi dado, que é eu reconhecer que tenho um problema. Comentou que, apesar de não adotar esse sistema, no grupo dos Alcoólicos Anônimos esse é o primeiro dos doze passos para se tornar um abstêmio, conforme consta lá no site deles: “1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”.

Passinho meio exagerado pro meu gosto, quando assim descrito. Prefiro simplesmente reconhecer que tenho um problema, mas de jeito nenhum que eu tenha perdido o domínio sobre minha vida. Já perdi o domínio sobre a conta corrente, sobre o cartão de crédito, sobre ter razão numa discussão com a Dona Patroa e até sobre “desta vez é mesmo a saideira, verdade”. Mas sobre minha vida? Nãnãninãnão!

Bão, enfim, proseia daqui, proseia dali, conto um tantinho do meu dia a dia e da minha vida e ela chegou a algumas conclusões e me deu algumas orientações:

Primeiro: eu estou tentando parar de beber porque gosto de mim, faço isso por mim, e não o faço porque quero agradar alguém ou atender o desejo de seja lá quem for.

Segundo: mudança de hábitos são importantes, ou seja, sair da espiral descendente na qual me meti e criar novos hábitos, novos percursos, novas tentativas, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais est… Pôrra! Eu sempre caio nessa mesma esparrela do Star Trek! Caráy… Enfim, devo criar novos hábitos. É isso.

Terceiro: tentar me reaproximar de meus filhotes, restabelecer o vínculo que, antes mesmo de cair na bebedeira, eu já havia perdido, conforme deixei claro no meu texto Pais e Filhos.

Muito bem, são essas as minhas “tarefinhas” para a semana, mas mesmo assim confesso, sem nenhuma culpa ou modéstia, que só não passei num boteco depois da consulta porque já estava tarde e eu tinha que voltar pra casa…

Tá certo que o que eu queria mesmo era fazer como Mário Prata descreveu em seu livro Diário de um Magro – e ói que eu até consegui achar qual foi o spa que ele citou no livro: é o São Pedro Spa Médico, que fica em Sorocaba, SP. Eu cheguei até mesmo a fazer uma cotação de quanto seria ficar pelo menos uma semaninha por lá, e me responderam que o pacote de uma semana para uma pessoa, no apartamento suíte standard (ar condicionado, frigobar, TV a cabo, Internet wireless, telefone e secador de cabelo), com eletrocardiograma, acompanhamento médico, clínico geral, psicólogo, avaliação geral com fisioterapeuta e nutricionista, com enfermagem 24 horas, direito a uma massagem anti-stress (hmmmm….), atividades físicas (caminhadas, hidroginástica, alongamento, ginástica localizada, aulas de ritmos, aula de tênis, etc), tendo sinuca, ping-pong e pebolim, com café da manhã, almoço, jantar e lanches inclusos, e mais uma caralhada de coisas, sairia pela módica quantia de R$ 4.500,00 à vista (ou 6 vezes no cartão, com juros extorsivos).

o_O

Foda-se.

Vou ficar mesmo é com minha psicóloga de cem contos por sessão.