Tédio criativo

Diretamente das catacumbas de meu computador, eis resgastado um antigo post – lá dos idos de 2006 – do finado blog Respira pela Barriga. Tudo a ver…

Quando inventou o chuchu, Deus devia estar muito sem inspiração. Mesmo. Provavelmente, foi num dia em que acordou com o pé esquerdo, pisou no penico, xingou o Filho, brigou com o Espírito Santo, teve crise de identidade, arrumou encrenca com os apóstolos e, mesmo assim – ah, as obrigações… – teve que trabalhar.

A gente sabe que quando não está a fim de trabalhar, trabalha do mesmo jeito, mas que os resultados são qualquer nota. Por que é que com Deus seria diferente? Em um dia assim, ele fez o chuchu.

O chuchu é a prova definitiva da existência palpável do nada. É um não-alimento incorporável tanto a doces, quanto a salgados, que agrega um sabor de absolutamente nada ao que quer que acompanhe. Que outro elemento dos reinos animal, vegetal ou mineral pode ser colocado junto com carne, ovo, camarão, peixe, carne de porco, suflê, doce de abóbora ou de marrom glacê e não fazer, absolutamente, nenhuma diferença?

Chuchu é o sonho de consumo de todo restaurante por quilo, porque pesa que é uma desgraça e pode ser enfiado em virtualmente todos os pratos do buffet para aumentar a conta do cliente, ao mesmo tempo em que alivia bolso do empresário. Quem conhece, mesmo que remotamente, a dinâmica perversa de um restaurante por quilo, sabe que nada melhor que um ou dois quilos de chuchu para elevar à enésima a rentabilidade de um strogonoff, de uma peixada, de um pavê…

Êta coisa mais sem graça! O chuchu algo que, por princípio, não deveria existir. Meu pai, por exemplo, se gaba de fazer um excelente camarão com chuchu que, por sinal, eu até já provei. De fato, é saboroso mas ficaria ainda melhor sem o chuchu. Por quê? Porque haveria mais camarão por centímetro quadrado de prato, oras! Simples assim.

O chuchu está para os vegetais, como o escargot está para os animais. Misture qualquer coisa com chuchu (ou com escargot), que você terá 100% do gosto da coisa. Até porque, chuchu não tem gosto!

Em suma, eu detesto chuchu. Não que não aprecie o sabor – isso seria uma impossibilidade física. O que não suporto é a sensação de estar enchendo a barriga de limbo. E como se tanto “nada” não fosse o bastante, o maldito ainda é infernalmente chato de descascar! Ninguém merece…

9 thoughts on “Tédio criativo

  1. Sempre gostei do seu jeito de escrever!

    Bem, então vamos combinar: tenho bastante coisa guardada lá nas catacumbas de meu computador – graças à uma velha mania de “me apropriar” (no bom sentido) de textos dos quais gosto…

    De quando em quando vou soltando algo por aqui para que as pessoas possam se deleitar com o que você já escreveu, o que nos remete ao longínquo ano de 2005, quando eu conheci seu antigo blog!

    Inté!

  2. Oh, meu Deus!!! Quer dizer então que todas as vezes em minha juventude que as meninas diziam que eu era “um chuchuzinho”… …ERA ISSO, ENTÃO?!?!?!?!???……….
    :-p

  3. kkkkkkkkk…Adauto eu demoro a ler as coisas que vc posta, mas hj vc me fez rir muuuito, pq ontem minha fez chuchu com bacon…resultado?!!?!? desperdiçou o bacon…

  4. Ou seja, conforme diz o texto, se você tirasse o chuchu haveria mais bacon por centímetro quadrado no prato!

    (Muito melhor, diga-se de passagem.)

    Simples assim…

    😉

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