Os sonhos, quadrinho a quadrinho

Sidney Gusman é jornalista especializado em quadrinhos e editor-chefe do site Universo HQ (http://www.universohq.com).

Artigo publicado no exemplar nº 13 da Revista Sandman, pela editora Globo em 1991.

As formas de arte sempre exploraram diversos temas para entreter seu público. Sob as mais variadas óticas e concepções, as pessoas já viram assuntos como violência, terror, ficção, amor e mais dezenas de outros. Nesse rol, um dos preferidos é, sem dúvida, o sonho. Teoricamente, a palavra significa o conjunto de idéias e imagens apresentadas ao espírito durante o sono. Mas não é tão simples assim, pois os sonhos abrigam muitos mistérios, a ponto de atrarir a atenção e a pesquisa de um gênio como Sigmund Freud. É fascinante saber que, ao sonhar, uma pessoa pode realizar seus desejos ou, então, viver temores hediondos.

Os sonhos são frequentadores assíduos do mundo da arte. No cinema, uma das maiores coqueluches do gênero foi Freddy Krueger, um ser que atacava suas vítimas enquanto elas tinham pesadelos, dilacerando-as com suas garras de metal. O personagem fez um sucesso enorme e virou mania nos EUA. No filme “Dream Scape”, o ator Denis Quaid tinha o poder de penetrar nos sonhos dos outros. Graças a isso, impediu que o presidente norte-americano fosse assassinado em seus próprios pesadelos. Em “Veludo Azul”, a referência não é tão explícita, porém fica evidente quando o ótimo Roy Orbison interpreta “In Dreams”. Fato parecido aconteceu na primeira parte de “De Volta para o Futuro”. quando o garoto Marty (Michael J. Fox) volta no tempo para o ano de 1955, ele acha que tudo não passa de um sonho. Para ilustrar a cena, no momento do “desembarque” no passado, a música de fundo é “Mr. Sandman” cantada pelo grupo Four Aces. Nos quadrinhos, as incursões são inúmeras. Começam no início do século e vão até os dias de hoje, sempre contadas dos modos mais diferentes. Afinal, sonhar é preciso.

Os Sonhos invadem as páginas

Os sonhos nas HQs são, algumas vezes, o tema principal de histórias. em outras, servem como “gancho” para o desenrolar das tramas. Em “O Cavaleiro das Trevas”, obra que detonou o “boom” dos quadrinhos, pouca gente pode se lembrar, mas é num pesadelo de Bruce Wayne (ao acordar está na Bat-Caverna e sem bigode) que Frank Miller começa a arquitetar a volta do cinquentão Batman. Em “Gothic”, minissérie de Grant Morrison (Homem-Animal) e Klaus Janson (Cavaleiro das Trevas), o homem-morcego sonha com o pai com a boca costurada e tentando avisá-lo sobre o vilão, o Sr. Whisper. Mas os temores do sono atacaram também o seu falecido parceiro Jason Todd. Na revista Batman 377 aparece uma vilã chamada Nocturna. Ela conhece a identidade secreta do morcegão e, para ameaçá-lo, solicita a tutela de Robin. Essa trama gerou uma belíssima capa, onde o garoto está voando numa cama, entre Batman e Nocturna, numa clara homenagem ao clássico Little Nemo. Os desenhos são de Ed Hannigan e a arte-final de Dick Giordano.

Alan Moore, que ao lado de Miller forma a dupla mais badalada de roteiristas do momento, também já “sonhou” em seus argumentos. Foi na reformulação de Miracleman. Nesse “revival”, Moore encontrou uma forma de adequar a antiga origem à nova fase do personagem: todas as recordações do herói não passavam de sonhos introduzidos, enquanto ele dormia num divã de “indução somática”. E o responsável era o seu suposto inimigo, o Dr. Gargunza.

Um dos mangás mais famosos no mundo inteiro, “O Lobo Solitário”, faz uma pequena, mas significativa citação aos sonhos. Ele recorre ao capítulo que narra a origem da saga do Samurai Itto Ogami. Sua esposa Azami, ainda grávida, lhe conta sobre seus repetidos sonhos, onde vê as almas encaminhadas pelo marido amaldiçoando o filho prestes a nascer. Ogami não lhe dá ouvidos e só depois de vê-la assassinada e ser injustamente acusado de tramar a derrubada do Shogun conseguiu compreender que o sonho era na verdade um aviso.

O quadrinho europeu também aborda com maestria o mundo do onirismo. Em “Os Companheiros do Crepúsculo”, o francês François Bourgeon construiu um dos melhores roteiros já escritos nas HQs. Baseado numa profunda pesquisa, o autor faz o Cavaleiro sem rosto, a ruivinha Mariotte e o atrapalhado escudeiro Anicet compartilharem – sem saber – dos mesmos sonhos. Isso se passa nos dois capítulos iniciais da série, quando eles penetram no Bosque das Brumas e encontram duendes feiosos que falam tudo rimando. Ao acordarem, nunca sabem se tudo foi sonho ou verdade.

“O Incal”, de Alessandro Jodorowski (roteiros) e Moebius (desenhos), tem uma passagem curiosa sobre os sonhos. Quando a história se aproxima do desfecho, no capítulo “A Quinta Essência”, a entidade chamada Incal diz que a única forma de derrotar a Treva é se todos os habitantes da galáxia (mais de 70 bilhões) entrarem em estado de “sonho-teta”. Inclusive esse episódio tem o subtítulo “A Galáxia que sonha”. Para alcançar esse objetivo, a luz conta com o inesperado apoio de um apresentador de TV maluco que cria até um slogan: “Sonhar é sobreviver”. moebius voltaria à carga no álbum “Os Jardins de Edena”, onde mostra sua predileção pelo naturalismo. Ele conta a história de Stell, um rapaz que, para conseguir o amor da bela Atan, enfrenta “a sombra do sonho” e, para vencer o estranho inimigo, liberta “o lado da luz”, acordando dentro do seu próprio sonho e banindo a criatura.

O argumentista Godard e o desenhista Ribeira criaram um aventureiro das estrelas e o batizaram de Axle Munshine. Sua primeira aventura foi “O Vagabundo dos Limbos” (modo como ficou sendo conhecido). Nela, após voltar de mais uma bem-sucedida missão pelo espaço, Axle seria indicado para o cargo de governador no Conselho Superior de Regência, mas cometeu um crime imperdoável: transgrediu o décimo-terceiro mandamento da “Guilda”, em outras palavras, atraveu-se a transpor as portas do sono. Tudo lhe era permitido, exceto sonhar e, por ter desejado conhecer essa outra realidade, foi condenado a viver fugindo, como um cavaleiro errante intergaláctico.

Os quadrinhos eróticos também dão uma grande contribuição. Um dos papas do gênero, o italiano Guido Crepax, deu uma amostra de sua criatividade em “Anita – Uma História Possível”. A personagem-título sempre que adormecia se via envolvida em devaneios repletos de erotismo, onde seu amante tratava-se de uma televisão portátil. Mas Crepax não parou por aí. Sua criação máxima, a sexy fotógrafa Valentina, é constantemente assediada por sonhos. Nessas “viagens”, ela já experimentou de tudo, desde sadomasoquismo até a mais completa loucura, sempre proporcionando aos leitores belos momentos de delírio.

Da Itália vem outro significativo exemplo. Trata-se de “Sonhar Talvez”, de Milo Manara, que é considerado o grande mestre do erotismo na atualidade. No álbum são contadas as aventuras da incansável Francesca Foscari e seu “guarda-costas” Giuseppe Bergman. Num clima de misticismo, o casal vai até a Índia investigar estranhos investigar estranhos acontecimentos ocorridos com uma equipe de filmagens. Daí para frente, o gênio de Manara cria situações em que sonho e realidade mesclam-se a todo momento, tornando a linha que os separa cada vez mais tênue e fazendo jus ao título da obra.

Os personagens Disney não poderiam ficar de fora. Entre as diversas histórias que já citaram os sonhos, duas merecem destaque especial: “A Bela Adormecida” e “Alice no País das Maravilhas”. Na primeira, após dar um beijo apaixonado na Princesa Aurora e livrá-la do sono eterno, no qual foi posta pela bruxa Malévola, o Príncipe Filipe diz: “Foi um final feliz para uma história que começou num sonho”. Já Alice quando retorna do país das maravilhas exclama ao pé de uma árvore: “Foi tudo um sonho!”. A loirinha criada por Lewis Carroll age do mesmo modo em “Alice no Mundo dos Espelhos”, recentemente editada na coleção Clássicos Ilustrated, com desenhos de Kyle BAker (Justiça Ltda).

Alguns não precisam nem dormir para sonhar. É o caso específico do endiabrado Calvin, de Bill Waterson. Esse garotinho loiro de 6 anos vive – literalmente – sonhando acordado. Ele faz de seu tigre de pelúcia, Haroldo, seu melhor amigo; transforma-o em dinossauros; vira o “Homem-Estupendo” e o “Cosmonauta Spiff”; e o mais incrível de tudo, quando vai dormir, não o faz porque seu quarto está cheio de monstros escondidos embaixo de sua cama.

O Universo dos super-heróis é o que tem maior ligação com o mundo dos sonhos. Hulk é uma das vítimas prediletas. Quando Bruce Banner conseguiu controlar o monstro, o vilão Pesadelo ocasionou a quebra desse controle, minando as resistências do cientista enquanto ele dormia. Esse mesmo inimigo voltou a atacar, agora junto com Desespero. Só que, além do Hulk, os dois atormentaram sua esposa Betty. Pra variar, foram vencidos.

O time dos “mocinhos” ainda está recheado de exemplos. Na origem dos Novos Titãs, a empata Ravena incute nos sonhos de Robin, Moça Maravilha, Ciborg, Mutano e Kid Flash, imagens que acarretariam na formação do grupo. Em Secret Wars, a entidade chamada Beyonder oferecia como prêmio aos vencedores da contenda, a realização de todos os seus sonhos. Quando Tempestade, dos X-Men, foi atacada pelo vampiro Drácula, ela sonhava estar sugando seus companheiros. Após a morte de Guardião, o líder da Tropa Alfa, sua esposa Heatler Hudson viu diversas vezes, enquanto dormia, a cena que presenciou. Na onda do “revival” dos superseres, J. M. De Matteis (Moonshadow) revelou aos leitores a nova origem de Ajax e, na história “Sonho Febril”, mostrou que até o Caçador de Marte sente medo. Para salvar sua parceira Danielle Moonstar, os Novos Mutantes enfrentaram um “Urso Místico” dentro dos sonhos da jovem, tudo desenhado por Bill Sienckiewicz (Elektra Assassina). Nem mesmo o Super-Homem escapou. Obrigado a assassinar os três inimigos do Superboy – General Zod, Quexul e Zaora – o Homem de Aço foi perseguido durante um bom tempo por pesadelos com essas recordações.

Existem ainda citações como “Sonho de Água”, uma historieta de Philipe Caza, onde o francês mostra todo o seu talento em quatro páginas só de imagens. No álbum “Mulheres de Sonho em Quadros Sonhados”, o desenhista Alex Varenne mistura onirismo, desejos eróticos, fantasias e situações absurdas. O bárbaro albino Elric e sua espada, “Stormbringer”, transformaram Ymrryr, a cidade dos sonhos, em um autêntico inferno. O Sargento Tainha vive acordando o Quartel Swampy com seus pesadelos ocasionados por refeições noturnas. E há também “Dreamer” (Sonhador), do mestre Will Eisner. Na obra, a palavra, no sentido de realização profissional, mostra a luta de um desenhista para publicar suas tiras. Dizem que o trabalho é uma autobiografia de Eisner. Se for, nesse caso o sonho virou realidade.

O Poder dos Sonhos

Os sonhos não apenas ilustram histórias, há também os personagens que vivem suas aventuras exclusivamente sonhando. Nessa galeria, o mais famoso é Little Nemo, de Winsor McCay. Era um menino de aproximadamente 7 anos, que vestia um camisolão e vivia passeando por paisagens surrealistas e de uma sofisticação incrível. Nemo era convocado pelo Rei Morfeu para ir a Slumberland, mas sempre acordava no último quadrinho de cada página. Criado em 1905, ele presenciava situações absurdas, retratadas pelas cores fantásticas do seu criador. Aliás, McCay era um especialista em lidar com sonhos. No ano de 1904, criou, sob o pseudônimo de Silas, a tira “Dreams of a Rarebit Fiend”, batizada no Brasil como “Sonhos de Um Comilão”, pois mostrava os pesadelos causados pelo excesso de comida. O desenhista ainda fez outras tiras relacionadas ao assunto, como “Midsummer Day Dreams”, “It was a Only Dream”, “Day Dreams” e “Dreams of a Lobster Fiend”. Todos esses trabalhos foram publicados pela Fantagraphics Books sob o título “Daydreams & Nightmares”.

Na onda de Little Nemo, dois autores aproveitaram para criar seus trabalhos. Em 1916, Penny Ross dava vida à “Mama’s Angel Child”, uma garotinha loira que, como Nemo, sempre despertava no último quadrinho. Para diferenciá-la, enquanto dormia, as imagens apareciam como formas retangulares. No mesmo esquema era “Polly and Her Pals”, de Cliff Sterrett (1926-1930). O protagonista era um baixinho carega de bigodes brancos; nos seus sonhos os desenhos ficavam deformados. A diferença é que, nessa tira, todos “viajavam” pelo mundo dos devaneios, até o gato.

A homenagem mais recente ao trabalho de Winsor McCay foi “Little Ego”, do italiano Vittorio Giardino. A história é basicamente a mesma, só que a ninfeta Ego só tem sonhos eróticos e, ao despertar, sempre quer contar tudo ao seu analista. Giardino ainda se deu ao capricho de caracterizar os quadrinhos à la McCay, como se fossem molduras, criando lindos painéis.

Alguns personagens têm seus poderes oriundos dos sonhos. Na relação dos que podem usá-los para prever o futuro, achamos Sonhadora. Nura Nal faz parte da Legião dos Super-Heróis e ajuda os legionários prevenindo-os dos perigos. Quem tem dons parecidos é o pequenino Franlin Richards, filho do Sr. Fantástico e da Mulher Invisível. O menino já avisou com antecedência ao Quarteto Fantástico sobre diversos ataques inimigos.

No ano de 1963 surgia no Universo Marvel, o vilão Pesadelo. Ele vive numa dimensão dos sonhos e tem o costume de visitar os pesadelos das pessoas para estudá-las. Seu maior inimigo é o Dr. Estranho, que já o impediu várias vezes de vir para o plano da realidade. Pesadelo foi o responsável por Hulk ter sobrepujado o controle de Bruce Banner.

Outro que faz parte do time dos bandidos é Morpheus, o Demônio dos Sonhos. Vítima de um experimento, ficou impossibilitado de sonhar, mas adquiriu energias psíquicas capazes de emitir raios e campo de força. Após uma derrota para o Cavaleiro da Lua, ele foi sedado por um bom tempo. A partir daí, obteve o poder de ligar-se a outras mentes, através dos sonhos.

O mestre dos pesadelos nas telas, Freddy Krueger, também pintou em forma de HQ, numa revista própria da Marvel. Seus assassinatos foram escritos por Steve Gerber, desenhados por Tonh de Zuñiga, e arte-finalizados por Alfredo Alcala. A publicação teve apenas duas edições e foi cancelada. Dessa vez, Freddy perdeu!

No início da década de 80, a Marvel criou um “Novo Universo”, que se originou do “Evento Branco”. Numa explosão, em um aeroporto, o jovem Keith Remsen recebeu o estranho dom de entrar nos sonhos das outras pessoas (baseado no filme “Dream Scape”) e adota o nome de Máscara Noturna. Com o passar dos anos ele aprimora seu poder, mas ao assassinar um vilão, enlouquece e termina sua carreira internado num hospício. Ainda nos estúdios de Stan Lee achamos o herói Talismã, um aborígene da Austrália que é capaz de se comunicar com o “Alter Jeringa” – O Mundo dos Sonhos. Ele pode enviar outras pessoas para o “lado de lá”, apenas girando uma boleadeira mágica. Sua primeira aparição foi em 1982 no Cross-Over Contest of Champions.

E o Brasil também tem seus representantes no mundo dos sonhos. Fikon e Sandra foram criados por Fernando Ikoma na falecida Editora Edrel. Em sua identidades secretas, eles são Mukifa e Karla, ambos muito feios e antipáticos entre si. Os dois encontraram medalhões dentro de maçãs, as peças eram encantadas e tinham o poder de materializar seus inconscientes, enquanto dormiam, transformando-os em seres bonitos e poderosos. Fikon e Sandra se apaixonaram, mas não sabem que na realidade se odeiam. Quando um deles acordava, automaticamente fazia sumir os dois heróis.

Alguns personagens têm o sonho apenas no nome. Scarlet Dream, de Claude Moliterni e Robert Gigi, era uma ruiva escultural que viveu aventuras até na selva amazônica. Nessa lista está “The Dream Walker”. O herói veste-se impecavelmente – fraque, gravata-borboleta, chapéu, máscara e capa – e enfrenta um guarda com a cara de Bruce Lee. A curiosidade é o argumentista dessa Graphic Novel. Seu nome é Bill Mummy. Se você não se lembra, na década de 60 muitos garotos sonhavam em ser como ele. Mummy era o Will Robinson do seriado Perdidos no Espaço.

O Mestre dos Sonhos

É certo que muitos obtiveram destaque em hitórias oníricas, porém só um deles recebeu o título de Mestre dos Sonhos. Seu nome, Sandman. Surgido em contos infantis há 155 anos, da cabeça do dinamarquês Hans Christian Andersen, o personagem soprava areia mágica nos olhos das pessoas para elas dormirem ou terem pesadelos.

Nos quadrinhos, sua primeira aparição foi em 1939, na “Adventure Comics 40”, com roteiros de Gardner Fox e desenhos de Bert Christman. Wesley Dodds (sua identidade secreta) não tinha nenhum superpoder, apenas uma pistola de gás, e não era muito elegante para se vestir, pois trajava um terno verde, luvas e chapéus marrons, máscara amarela e capa roxa. No ano de 1942, Jack Kirby e Joe Simon (os pais do Capitão América) dão a ele um uniforme colante e um parceiro: Sandy, o Goldent Boy. Suas características passam a ser mais científicas e ele ganha, inclusive, um apito hipersônico.

Depois de ficar 30 anos esquecido (aparecia apenas como coadjuvante na Sociedade da Justiça), Sandman ganhou outra identidade e uma revista própria, em 1974, novamente pelas mãos de Kirby. Seu nome era Garret Sanford e, em sua nova origem, tratava-se de um cientista que trabalhava numa máquina de monitorar sonhos. Recebeu um chamado da Casa Branca, pois o presidente estava em coma e ele teria que entrar nos seus sonhos. Após cumprir a missão, Sanford constatou uma coisa. Não podia viver mais de 60 minutos no mundo real. Resolveu então assumir a identidade de Sandman, contando com a ajuda dos monstros Brute e Glob e do garoto Jed Paulsen. Ele vivia no Domo dos Sonhos e utilizava uma espécie de tubo ejetor para vir à realidade.

Garret Sanford não aguentou os poderes e suicidou-se. No seu lugar, assumiu o posto Hector Hall. Esse novo sandman era filho do Falcão Negro e da Mulher-Gavião, da Terra Paralela, e fazia parte da Corporação Infinito como Escaravelho de Prata. Numa aventura do grupo, Hall é possuído pelo espírito que assassinou a primeira encarnação de seus pais e volta-se para o mal. Seu fim é triste: morre virando pó. Mas isso durou pouco, pois Rhoy Thomas o ressuscita como Sandman. A explicação? Após a morte, ele passou pelo mundo dos sonhos e Brute e Glob lhe deram os novos poderes. Todavia, seu reinado durou pouco. O verdadeiro Sandman o fez retornar a pó, para desesepero de sua esposa Hipólita (filha da Mulher-Maravilha), que esperava um filho do falecido.

Finalmente, em 1988, Sandman ganhou sua versão definitiva, àquela que veio para ficar. Depois do ótimo trabalho em “Orquídea Negra”, Neil Gaiman foi encarregado de reestruturar o personagem. O argumentista não se fez de rogado e reconstruiu totalmente o irmão da morte. Ele lhe deu um visual pós-apocalíptico, com pele pálida e cabelos negros arrepiados. Trabalhou sobre o fato de que um habitante dos sonhos deve, por obrigação, ser misterioso. Mexeu com o lado psicológico dos pesadelos e insistiu num terror escatológico nas páginas da revista. Reuniu nessa versão, pedaços de todas as anteriores, amarrando-as com precisão. Aboliu o escrúpulo e mostrou ao público o verdadeiro significado de “quadrinho adulto”. Definitivamente, Gaiman transformou Sandman num autêntico Mestre dos Sonhos. Por tudo isso, podemos afirmar uma coisa: o genial John Lennon que nos desculpe, mas o sonho não acabou.


Sidney Gusman

  (Publicado originalmente em algum dos sites gratuitos que armazenavam o e-zine CTRL-C)

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