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O ACESSO GRATUITO: AFINAL, QUEM PAGA A CONTA?

 Acesso gratuito: neste nosso país em que  pagamos  até  por  lugar  em
 fila, parece brincadeira, mas não é. Essa nova tendência torna-se mais
 estranha na medida em que, num passado bem recente - há mais ou  menos
 cinco anos - o governo achava um  "absurdo"  que  esse  bicho  chamado
 Internet possibilitasse às pessoas entrar em contato com  o  resto  do
 mundo sem que se pagasse interurbano pra isso. Mas estamos falando  de
 uma época pré-privatização, onde  as  estatais  dominavam  serviços  e
 recursos que hoje fazem parte da livre concorrência do mercado.  Sinal
 dos tempos...

 Na  realidade,  apesar  de  já  existir  há  algum  tempo   lá   fora,
 especialmente no Reino Unido, não se esperava que  o  acesso  gratuito
 chegasse tão cedo à Terra Brasilis. Nem com tanta  força.  O  processo
 que desencadeou essa nova modalidade  no  mercado  brasileiro  seguiu,
 mais ou menos, a seguinte trajetória: num primeiro  momento  fez-se  a
 luz  e  a  Internet  começou  a  despontar  nos   lares   brasileiros,
 nitidamente caracterizada por um acesso precário e  preço  proibitivo.
 Em seguida  surgiram  as  "gigantes"  do  mercado  -  UOL,  ZAZ,  AOL,
 Starmedia  -  provedores  cuja  concorrência  desencadeou  uma  guerra
 particular, onde a agressividade gerou efeitos benéficos para o  bolso
 dos consumidores, fazendo com que os preços caíssem (mas  ainda  assim
 custava alguma coisa). Por fim, no final de 1999  e  início  de  2000,
 começaram a despontar as primeiras oportunidades de  acesso  gratuito,
 primeiramente através de alguns bancos,  e,  em  seguida,  através  de
 provedores propriamente ditos.

 Indubitavelmente o primeiro banco a oferecer acesso  gratuito  a  seus
 clientes foi o Banco do Brasil, parece  que  com  5  horas  de  acesso
 mensal. Muitos clientes, ainda  assim,  achavam  um  absurdo  o  banco
 oferecer acesso gratuito e continuar cobrando  taxas  extorsivas  para
 outros  serviços,  tais  como  extratos  e  talões  de  cheques.  Como
 demonstra a história relacionada às empresas do governo,  o  Banco  do
 Brasil não soube enxergar ou sequer aproveitar a oportunidade  que  se
 descortinava ante seu empreendimento inovador. Tanto o  é,  que  nessa
 exurrada de promoções que circunda o acesso gratuito não me lembro  de
 já ter visto ou ouvido alguma propaganda desse banco.

 Logo em seguida, com um senso de oportunidade  muito  mais  aguçado  -
 próprio da iniciativa privada - o Bradesco passou  a  oferecer  acesso
 gratuito aos seus correntistas, atitude  essa  que  foi  imediatamente
 copiada pelo Unibanco.

 No caso dos bancos o interesse pelo fornecimento de acesso gratuito se
 explica pelo simples fato de se tratar de um fator de  investimento  e
 economia para a empresa, que vão se verificar a médio ou longo  prazo.
 Investimento, pois visa  atrair  novos  correntistas  interessados  em
 contratar o banco para "cuidar" de seu  dinheiro  e  que,  de  brinde,
 ganham no pacote um acesso gratuito à Internet. Economia,  pois  desse
 modo procura difundir cada vez mais o uso  de  seu  Internet  Banking,
 fazendo com que a maior parte das transações sejam efetuadas a  partir
 da própria residência do correntista, reduzindo sobremaneira os custos
 bancários.

 Essa redução dos custos bancários se dá porque uma transação on-line é
 muito mais barata do que uma transação na boca do caixa  (economiza-se
 em papel, equipamento, funcionário, dependências, etc).  Para  se  ter
 uma idéia da economia, uma transação pela Internet chega a  custar  um
 décimo da compensação iniciada  na  boca  do  caixa.  Mas  quem  ficou
 verdadeiramente contente com essa novidade foi  a  bolsa  de  valores,
 pois, pasmem, graças a isso o valor de mercado  do  Bradesco  subiu  4
 bilhões de reais em dezembro!

 O curioso é que a Abranet (Associação  Brasileira  dos  Provedores  de
 Acesso, Serviços e Informações da Rede Internet de  São  Paulo)  temia
 que essa ação dos bancos representasse concorrência  desleal  em  face
 dos demais provedores existentes. Ora, entendo que não há que se falar
 em concorrência desleal, posto que o  público-alvo  de  cada  setor  é
 bastante distinto.  Além  do  quê,  seria  ingenuidade  achar  que  os
 usuários da Internet que já possuíssem um provedor migrariam  para  os
 serviços oferecidos pelos bancos, até porque existe sim  um  custo:  o
 usuário tem de se sujeitar às regras do banco para ter  o  direito  ao
 acesso gratuito, regras essas que podem incluir um  número  limite  de
 horas de acesso, um capital mínimo investido na instituição, um número
 x de transações mensais, ou qualquer outra modalidade do gênero.

 Antes de passarmos ao surgimento dos primeiros  provedores  de  acesso
 gratuito, convém falar um pouco sobre o FreeServe, um provedor Europeu
 que já vem oferecendo esse tipo de acesso desde  1998  na  Inglaterra,
 tendo, inclusive, desbancado o  AOL  (América  On  Line)  do  primeiro
 lugar. O segredo do lucro, nesse caso, está  diretamente  vinculado  à
 regulamentação  das  telecomunicações  britânicas,  pois  a  companhia
 telefônica (no caso, a BT - British Telecom) é obrigada  a  pagar  aos
 provedores de  acesso  uma  percentagem  do  que  recebem  nas  contas
 telefônicas de internautas. Como o acesso à Internet é  o  responsável
 direto pelo aumento de  tráfego  na  rede,  nada  mais  justo  que  as
 empresas que proporcionaram essa avalanche de impulsos tenham para  si
 uma fatia do bolo, que, dependendo do horário, gira em torno de  30  a
 90 pence (um a três reais)  por  hora  gasta  navegando  (o  custo  do
 impulso no Reino Unido é um dos mais altos da Europa).

 Pois bem, após a investida dos bancos,  surgiram  então  os  primeiros
 provedores gratuitos: BRFree (em Minas Gerais, cujos  três  principais
 acionistas são os ex-proprietários da rede de  supermerados  Mineirão,
 comprada pelo Carrefour) e iG (em São Paulo, de Aleksandar  Mandic,  e
 bancado pelos grupos Opportunity e Garantia  Press).  Em  que  pese  a
 primazia do BRFree no lançamento desse tipo de serviço, pois começou a
 operar em 8 de janeiro, dois dias antes de seu concorrente, foi  o  iG
 que rapidamente se alastrou pelo Brasil afora. Isso  se  explica  pelo
 investimento maciço desse último em publicidade e uma rápida  expansão
 que permitiu o acesso a inúmeras cidades do interior do  Estado  e  no
 restante do Brasil. Já o BRFree, pelo menos até o momento, limitou sua
 área de atuação somente às cidades de Belo Horizonte, São Paulo e  Rio
 de Janeiro.

 Quase que simultaneamente surgiram também o Super11.Net e o  C@tólico,
 este lançado pela Arquidiocese e Porto Alegre. Na sequência  vieram  o
 Tutopia, o Terra Livre e a Netgratuita - sendo que  os  dois  últimos,
 respectivamente, são as ramificações de  acesso  gratuito  dos  grupos
 Terra (ex-ZAZ) e Universo On Line.

 Entretanto fica a  pergunta:  de  onde  vem  o  dinheiro  para  tantos
 empreendimentos? Convém esclarecer que  no  Brasil,  ao  contrário  da
 Inglaterra, não existe o repasse de  parte  da  conta  telefônica  aos
 provedores de acesso. Assim, sobram as seguintes fontes:  investidores
 e anunciantes.

 Mas quem seria louco o suficiente para investir dinheiro em um serviço
 que não cobra nada de seus usuários? Muita  gente...  Deve-se  ter  em
 mente  que  a  carteira  de  assinantes  de  um  provedor  é  um   bem
 de valor incálculavel. Na realidade trata-se de uma grande aposta, que
 funciona como um loop: os assinantes procuram determinados  provedores
 porque estes disponibilizam acesso gratuito, quanto maior o número  de
 assinantes, mais interessados ficam os anunciantes, que pagam para que
 seus produtos possam atingir esse público, quanto mais os  anunciantes
 pagam, mais os provedores lucram  e  mais  eles  podem  reinvestir  em
 conteúdo e em atendimento  aos  assinantes,  quanto  mais  conteúdo  e
 melhor atendimento, mais assinantes surgem, e assim por diante.

 Apesar de praticamente tudo na Internet ser conteúdo, nesse caso,  diz
 respeito  a  uma   série   de   serviços   e   facilidades   que   são
 disponibilizados para os  usuários  de  determinados  provedores.  Por
 exemplo, dentro do conteúdo que o  UOL  oferece  aos  seus  assinantes
 encontra-se a revista Veja e o jornal Folha de  São  Paulo  -  são  de
 acesso exclusivo àqueles que se utilizam dos serviços do  provedor.  A
 histórica  compra  da  Time  Warner  pelo  América  On  Line   visava,
 principalmente, a aquisição de conteúdo a ser oferecido aos assinantes
 do AOL. Digamos que o AOL tornou-se responsável pelo encanamento  e  a
 Time Warner pelo que vai fluir dentro desse  encanamento.  Como  muito
 bem colocado numa reportagem de Helio Gurovitz:

 "Mas é muito importante entender aqui que a palavra conteúdo não tem o
 mesmo significado dentro e fora da Internet. O primeiro  a  distinguir
 entre canos e conteúdo foi o fundador da RCA,  David  Sarnoff,  em  um
 artigo escrito em 1958 para a revista Fortune. Eis o que ele dizia  em
 relação ao modelo de negócios que criou  para  o  rádio:  'Estamos  na
 mesma posição que encanadores instalando canos. Não somos responsáveis
 por aquilo que corre dentro  desses  canos'.  Assim,  os  negócios  de
 comunicação tradicionalmente têm sido divididos entre os encanadores e
 os produtores de conteúdo. Uns são os técnicos, que imprimem ou  levam
 ao ar um programa de rádio ou TV. Outros são os criadores, que de fato
 produzem texto, sons e imagens."

 Marcos  Aguiar,  diretor  da  consultoria  Boston  Consulting   Group,
 especializada em tecnologia, afirmou que "ninguém assiste à  televisão
 pelos comerciais; a procura é pelo  conteúdo,  e  na  internet  não  é
 diferente". Ou seja, os atuais provedores  pagos  devem  repensar  sua
 estratégia de abordagem, de modo a compreender que não é a mensalidade
 que paga que torna  o  usuário  lucrativo,  na  realidade  o  fato  de
 utilizar de seus serviços é que definitivamente agrega um valor real a
 esse usuário, posto que, uma vez satisfeito,  fatalmente  indicará  os
 serviços do provedor a terceiros, de modo que a carteira  de  clientes
 cresça cada vez mais.

 Assim, como já disse, tudo trata-se de uma grande aposta,  pois  muito
 do investimento feito  nesses  provedores  de  acesso  gratuito  foram
 anteriores  à  existência  de  qualquer  carteira  de  assinantes.  Os
 investidores demonstraram que acreditavam no sucesso do empreendimento
 da melhor forma que conhecem: financiando-o. A lógica dos investidores
 dita que é uma boa coisa aplicar  recursos  em  projetos  que  dão  os
 primeiros passos, pois é menor o custo e é maior  a  possibilidade  de
 assumir uma participação maior nos negócios. Quem está na área diz que
 nove entre dez empreendimentos afundam  no  primeiro  ano,  entretanto
 aquele que  sobrevive  pode  gerar  lucro  suficiente  para  cobrir  o
 fracasso do restante.

 Se um empreendimento digital desse porte consegue firmar-se no mercado
 e transformar-se num sucesso  comercial,  seus  proprietários  poderão
 ficar ricos e os investidores multiplicarão algumas  vezes  o  capital
 que arriscaram no negócio. Entretanto, se der errado, com  certeza  os
 investidores nunca mais verão a cor de seu dinheiro. Para falarmos  um
 pouco de números, o Brasil é o maior mercado de  Internet  da  América
 Latina, pois o continente  movimenta  hoje  cerca  de  1,4  bilhão  de
 dólares por ano, devendo crescer 42% ao ano até 2004 e  chegar  a  8,1
 bilhões de dólares.

 O sucesso do empreendimento pode ser medido justamente através de  sua
 carteira de assinantes: só o  iG,  nas  primeiras  semanas,  já  tinha
 arregimentado mais de 400  mil  novos  usuários.  A  NetGratuita,  num
 período igual, diz ter conseguido mais de 800 mil. Mas, cá entre  nós,
 saibam que  a  NetGratuita  montou  seu  serviço  de  acesso  sobre  a
 estrutura do BOL (Brasil On Line) - aquele  do  "todo  brasileiro  tem
 direito a um e-mail" - e convenientemente contabilizou os usuários  já
 cadastrados do BOL nos números apresentados...

 Vemos, então, que  essa  carteira  de  assinantes  é  que  é  a  pedra
 filosofal dos serviços de acesso gratuito, pois todos esses assinantes
 são, teoricamente, compradores virtuais. Mas será que a publicidade na
 Internet dá tanto retorno assim? Vejamos: qualquer empresa que resolva
 investir em publicidade quererá que seu anúncio seja visto pela  maior
 quantidade de pessoas possível. Na Globo,  por  exemplo,  o  custo  de
 inserção de um  comercial  no  horário  nobre  é  um  dos  mais  caros
 existentes - justamente porque a audiência naquele horário é  uma  das
 maiores da emissora. Mesmo  assim  os  anunciantes  pagam  esse  preço
 porque sabem que seu produto será visto por zilhões de pessoas, e que,
 de uma maneira  ou  de  outra,  terá  um  retorno  de  pelo  menos  um
 percentual desse povo todo.

 Na Internet não é muito diferente. Numa analogia ao quadro  acima,  os
 anunciantes vão procurar os sites que  possuem  grande  quantidade  de
 visitantes (ou seja, uma grande audiência) para expor  seus  produtos.
 Numa explanação  simplista,  suponhamos  a  existência  de  um  banner
 (propaganda) num site que receba a visita de cerca  de  um  milhão  de
 internautas por dia; destes, apenas 1% vão clicar no banner, o que  já
 corresponde a 10 mil consultas diárias por um público bem seleto, pois
 somente os verdadeiramente interessados é que efetuarão essa consulta.
 Ora, temos que uma mísera imagem  relegada  a  um  canto  da  tela  do
 computador consegue atrair cerca de 300 mil pessoas  por  mês  para  o
 anunciante. Qual propaganda de jornal, revista, rádio ou  TV  consegue
 essa façanha e pelo mesmo custo? Nenhuma, creio eu.

 Para finalizar, é curioso verificar que empresas digitais  que  jamais
 deram lucro são justamente as que tem maior valor de mercado. O bordão
 adotado  pela  turma  da  nova  economia  diz  que  "lucros  são  para
 perdedores". Acho que força um pouquinho o  bom  senso,  mas  a  frase
 define bem a diferença  que  separa  a  velha  economia  do  mundo  de
 negócios virtual da Internet. Salvo  raras  exceções  as  empresas  do
 mundo digital (também conhecidas como dotcom  ou  pontocom)  vivem  no
 vermelho, jamais tendo visto lucro. E  por  que  valem  tanto,  então?
 Valem pelo seu potencial, pelo que  podem  vir  a  ser  no  futuro.  O
 mercado acredita que suas ações valem muito porque todo mundo acredita
 que valerão mais ainda dentro de pouco tempo. Enfim, tudo é questão de
 fé...

 É necessário, entretanto, tomar cuidado com toda  essa  euforia,  pois
 situações como essas faz com que as pessoas comprem ações a  um  preço
 que sabem ser elevado, na certeza de que vão encontrar dentro de pouco
 tempo "um tolo mais tolo"  que  irá  pagar  ainda  mais  pelos  mesmos
 papéis. Na história mundial das euforias, as crises ocorrem justamente
 quando a figura desse "grande tolo"  não  aparece  e  aí  amarga-se  o
 prejuízo. Como diz o ditado, "o diabo pega o último da fila".

 A quem interessar  possa,  os  links  para  os  provedores  de  acesso
 gratuito são os seguintes:

 - iG            - http://www.ig.com.br
 - Terra Livre   - http://www.terralivre.com.br
 - NetGratuita   - http://www.netgratuita.com.br
 - Super11.Net   - http://www.super11.net
 - BRFree        - http://www.brfree.com.br
 - C@tólico      - http://www.catolico.com.br
 - Tutopia       - http://www.tutopia.com.br

 E como, ainda assim, o acesso não é  totalmente  gratuito,  visto  que
 resta a conta telefônica a ser paga, não se  esqueçam  de  observar  a
 tabela abaixo:

 HORÁRIOS DE TARIFAS NORMAIS E REDUZIDAS:

 0hs.              6hs.            14hs.        24hs.
 !-----------------!---------------!-------------!---------------------
 ! Tarifa Reduzida !         Tarifa Normal       ! Dias Úteis
 !-----------------!-----------------------------!---------------------
 ! Tarifa Reduzida ! Tarifa Normal ! Tarifa Red. ! Sábados
 !-----------------!---------------!-------------!---------------------
 !                  Tarifa Reduzida              ! Domingos e Feriados
 ----------------------------------------------------------------------
  * Tarifa Normal   = 1 pulso a cada 4 minutos
  * Tarifa Reduzida = 1 pulso por chamada