9 fev 2016 - 6:55  

Caos…

Já lhes disse inúmeras vezes por aqui: a vida é caótica e não temos nenhum controle sobre ela. Quando muito um fluxo a se seguir e a se deixar levar. Uma correnteza.

Quanto antes tivermos consciência disso, quanto antes daremos os primeiros passos para a verdadeira felicidade… Ao menos é o que acho.

Temos que ter em mente que não temos controle de nada. Que quanto mais tentamos gerar controle e domínio sobre as coisas do dia-a-dia que nos cerca, mais tudo isso nos escapa pelas frestas entre os dedos de nossas mãos.

Mas, ainda assim, às vezes cansa…

Às vezes a realidade nos aborda com tantas variáveis ao mesmo tempo que, por mais que queiramos somente seguir o fluxo, a vontade é de fugir, deixar tudo pra trás, apertar o botão do “foda-se”… É uma insana corrida, onde de quando em quando estamos na frente, mas, noutros momentos, cada um de nossos problemas e adversidades, um a um, vai nos deixando pra trás…

E infelizmente não viemos com um alter-ego que nos coloque de lado – ainda que por alguns momentos – e resolva todos nossos problemas de imediato…

Oi?

Não sabem do que estou falando?

Ora, do Capitão Caos, é lógico!

(Aumente o som e curta esse herói…)

😀


Do filme "The Cannonball Run" (1981)...

 


8 fev 2016 - 7:04  

Trindade – III

– E aí, moçada?

– E aí?

A traseira do caminhão tinha apenas uma roda sobressalente deitada num canto, algumas lonas dobradas e cordas do outro, algumas vassouras, tudo mais ou menos perto da cabine do motorista, e sobre esse monturo de coisas, meia dúzia de gente.

Rapazes iguais à nós, com suas mochilas e sacolas, também na estrada também indo pra algum canto, também durangos. Começamos a trocar uma ideia – eles já saíram junto com o caminhão, também com destino ao litoral, o motorista era vizinho deles e topou levar aquela turminha pra praia.

– Legal! Vão pra onde?

– Ah, Caraguá mesmo. Lá na Martim de Sá.

Naquela época as praias do Centro eram muito feias e largadas, de modo que TODO MUNDO ia pra Martim de Sá. Pensando bem, as praias do Centro não são mais assim, e todo mundo CONTINUA indo pra Martim de Sá… Vai saber…

– E vocês?

– Estamos indo pra Trin…

– PULIÇA!!! PRO CHÃO!!!

Nos distraímos com a conversa e acabamos ficando desatentos…

E não, não é o que vocês estão pensando.

Não fomos cercados, alvejados ou vítimas de algum comando.

Simplesmente esquecemos do Posto de Guarda. Na realidade são dois (ou, na época, eram apenas esses dois): um logo no começo da Tamoios, saindo da zona urbana de São José, e outro bem no alto da serra. Vocês devem se lembrar que hoje em dia é proibido viajar (ou mesmo ser transportado) na carroceria de um caminhão aberto, certo? Então. Naquela época também era. E iria ser encrenca da grossa se o caminhão fosse parado por isso – e o que se viu foi um tal da rapaziada se atirar de peito no chão (a carroceria do caminhão era de madeira, com as laterais baixas e vazadas) e tentar se esconder no meio das lonas e cordas e outros quetais.

Dei uma olhada com o rabo dos olhos e vi os guardas lá dentro de sua cabine/posto/guarita/sei-lá-o-quê, olhando com desinteresse para o trânsito. Quase deu vontade de levantar e dar um tchauzinho só pra ver o que rolava – mas algo me disse que eu seria extremamente estúpido se fizesse isso. Talvez tenha sido apenas bom senso. Talvez tenha sido o Vilaça segurando minha garganta enquanto eu esperneava. Enfim, acho que nunca terei certeza…

Passado o “perigo”, logo após a última longa curva depois do Posto de Guarda, levantamo-nos descontraídos enquanto que o motorista passava um sabão na gente, pra que a gente prestasse atenção e, na próxima, ficasse esperto ANTES de chegar na fiscalização. Bem, acho que foi isso que ele disse, pois com o barulho do motor, o sacolejar da carroceria, um monte de adolescentes conversando e rindo, o vento nos ouvidos e o fato de ele ser um tanto quanto fanho – nada disso ajudou para dar uma melhor compreensão de suas palavras. Mas o recado foi entendido.

Aliás, por falar em vento…

Taí uma coisa que sempre gostei: vento. Quer me ver num mau humor desgraçado? Me encontre num dia quente, mormacento e de ar parado. E me aguente. Agora, quer me ver sorrir sozinho? Me dê um dia com vento. Sou daqueles que, andando na rua, louco entre o sãos, abre os braços para receber melhor cada vento, cada brisa, cada sopro que passa por mim.

Desde sempre gosto disso. Desde a mais tenra idade. Quando meu pai tinha um Jipe e íamos para a roça, o vento era presente em todos os cantos possíveis e imagináveis do veículo; mais tarde, com uma Variant (impecável até os dias de hoje), eu sempre escolhia sentar no banco atrás dele, pois ele preferia andar com o vidro aberto, se refrescando com o vento; foi no vento que, em casa, decolei de meu velocípede em alta velocidade e me esborrachei no chão, perdendo os sentidos; foi correndo contra o vento que perdi a noção de direção e, literalmente, bati de cara num muro de chapisco grosso (o que rendeu minha primeira grande cicatriz); foi numa noite de ventania, no escuro, brincando de pega-pega que, de novo literalmente, dei de cara com um varal de arame farpado (o que rendeu minha segunda grande cicatriz); o carrinho de rolimã me ajudava a desbravar o vento tanto quanto, anos depois, eu o faria com minha bicicleta…

E ali, naquele momento, na estrada, num dia que começava a ficar mais fresco graças às nuvens que resolveram tapar o sol, de pé em cima da carroceria de um caminhão, vento é o que não faltava!

Seguimos nosso rumo proseando um bocado, lembramo-nos de tomar todo o cuidado ao passar no segundo Posto de Guarda (“Pô, Vilaça! Não vou levantar, não! Fica na sua! E solta minha garganta…”), até que começou a descida da serra…

Quem já passou por ali, sabe o quão paradisíaca é aquela paisagem. Agora imaginem – apenas fechem os olhos e imaginem – oito garotos aloprados “surfando” serra abaixo, curva após curva, rolando pela carroceria às vezes, levantando-se em seguida, rindo sempre, vento nos rostos, frescor nas almas… Não tem como descrever. Simplesmente não tem como.

E, já na altura do mar, ainda no caminhão, aquele vento de maresia nos envolveu totalmente, já salgando nossos paladares sem sequer termos entrado na água… Foi ali que nos despedimos do grupelho, que ficou por Caraguá mesmo.

– E aí, vocês acabaram não dizendo pra onde vão…

– Trindade, cara.

– “Deus me Livre”!

– Porra, por quê? Ouvimos dizer que lá é bem legal…

– Não, não. Vocês não entenderam. Vocês não tem ideia do que estou falando, né? “Deus me Livre”?

– Carái! Dá pra ser claro?

Sem chance. Aquilo não era táxi e, com o pessoal que ia descer já no chão, o motorista do caminhão simplesmente arrancou e saiu, aliás, quase arrancando eu e o Vilaça de cima da carroceria também. O rapaz ainda gritou alguma coisa – que, lógico, não conseguimos entender – e saiu rindo falando sei lá o quê pro resto da turminha. Paciência.

O caminhão estava indo rumo a Paraty (carona melhor jamais teríamos conseguido) e tudo ia bem…

Bom. Quase. Aquelas nuvens lá no céu, outrora hospitaleiras em encobrir o sol, agora começavam a ficar cada vez mais densas e cada vez mais com cara de nuvens de chuva. Mas, naquela velocidade, certamente chegaríamos ao nosso destino antes que começasse a chover. O negócio era curtir aquela paisagem de mar, totalmente à nossa disposição durante quase todo o trajeto!

E, nessa toada, quando menos esperávamos, o motorista parou. Não vimos nenhuma placa. Nada. Mato, mato, mato e uma estrada de terra à direita.

– Chegamos!

Descemos do caminhão, já com as mochilas nas costas, meio que incrédulos…

– Aqui?

– É isso aí. Agora é só seguir nessa estradinha que já, já, vocês chegam lá.

– Tem certeza, cara?

– Tô te falando…

– Tãotáintão… Valeu, chefia! Boa viagem e vai com Deus!

– ‘Brigado! Boa sorte procês também!

Cumassim “boa sorte”? Olhamos um para o outro enquanto o caminhão seguia seu caminho, sumindo na estrada.

– É, cara, o negócio agora é andar. Porque aqui nessa estradinha eu du-vi-de-o-dó que a gente vá conseguir alguma carona nesse século…

O Vilaça nem se dignou a responder. Atravessamos a pista, olhamos para aquele começo de estrada de terra que seguia morro acima e demos o primeiro passo da nossa caminhada.

Que foi exatamente no mesmo instante em que a primeira gota de chuva caiu na minha testa.

( Continua. Morro acima e chuva adentro. )

 
 
# Perdeu o começo? Liga não. Tá aqui.


5 fev 2016 - 6:21  

“Meu reino por um cavalo!”

O rei Ricardo III estava se preparando para a maior batalha de sua vida. Um exército liderado por Henrique, Conde de Richmond, marchava contra o seu. A disputa determinaria o novo monarca da Inglaterra.

Na manhã da batalha, Ricardo mandou um cavalariço para verificar se seu cavalo preferido estava pronto.

– Ferrem-no logo – disse ao ferreiro, – o rei quer seguir em sua montaria à frente dos soldados.

– Terás que esperar – respondeu o ferreiro, – há dias que estou ferrando todos os cavalos do exército real e agora preciso ir buscar mais ferraduras.

– Não posso esperar – gritou o cavalariço, impacientando-se, – os inimigos do rei estão avançando neste exato momento e precisamos ir ao seu encontro no campo. Faze o que puderes agora com o material de que dispões.

O ferreiro, então, voltou todos os esforços para aquela empreitada. A partir de uma barra de ferro, providenciou quatro ferraduras. Malhou-as o quanto pôde até dar-lhes formas adequadas. Começou a pregá-las nas patas do cavalo. Mas, depois de colocar as três primeiras, descobriu que faltavam-lhe alguns pregos para a quarta.

– Preciso de mais um ou dois pregos – disse ele, – e vai levar tempo para confeccioná-los no malho.

– Eu disse que não posso esperar – falou, impacientemente, o cavalariço, – já se ouvem as trombetas! Não podes usar o material que tens?

– Posso colocar a ferradura, mas não ficará tão firme quanto as outras.

– Ela cairá? – perguntou o cavalariço.

– Provavelmente não – retrucou o ferreiro, – mas não posso garantir.

– Bem, usa os pregos que tens – gritou o cavalariço, – e anda logo, senão o Rei Ricardo se zangará com nós dois!

Os exércitos se confrontaram e Ricardo participava ativamente, no coração da batalha. Tocava a montaria, cruzando o campo de um lado para outro, instigando os homens e combatendo os inimigos. “Avante! Avante!”, bradava ele, incitando os soldados contra as linhas de Henrique.

Entretanto, lá longe, na retaguarda do campo, avistou alguns de seus homens batendo em retirada. Se os outros os vissem, também iriam fugir da batalha. Então, Ricardo meteu as esporas na montaria e partiu a galope na direção da linha desfeita, conclamando os soldados de volta à luta. Mal cobrira metade da distância quando o cavalo perdeu uma das ferraduras. O animal perdeu o equilíbrio e caiu, e Ricardo foi jogado ao chão. Antes que o rei pudesse agarrar de novo as rédeas, o cavalo assustado levantou-se e saiu em disparada. Ricardo olhou em torno de si. Viu seus homens dando meia volta e fugindo, e os soldados de Henrique fechando o cerco ao redor. Brandiu a espada no ar e gritou:

– Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!

Mas não havia nenhum por perto. Seu exército estava destroçado e os soldados ocupavam-se em salvar a própria pele. Logo depois, as tropas de Henrique dominavam Ricardo, encerrando a batalha…

E desde então o povo passou a cantarolar:

“Por causa de um prego, perdeu-se uma ferradura; por causa de uma ferradura, perdeu-se um cavalo; por causa de um cavalo, perdeu-se uma batalha; por causa de uma batalha, perdeu-se uma guerra; por causa de uma guerra, perdeu-se um reino… Por causa de um único prego, perdeu-se um reino inteiro!”

(Adaptado do original de James Baldwin.)


31 jan 2016 - 9:23  

Trindade – II

De casa, com nossas tralhas, praticamente bastava atravessar a rua para o ponto de ônibus, quase em frente. “Ah, então vocês foram de ônibus?” – Não! Prestenção! Nós fomos para o ponto de ônibus, o melhor lugar para se batalhar uma carona.

Sim, carona. Tenho certeza que vocês já devem ter visto isso em filmes. Daqueles antigos. Na boa e velha década de oitenta ainda era possível viajar meramente de carona…

Uma vez que Trindade ficava um pouco antes de Paraty (era a única referência que tínhamos para a cidade), então teríamos que conseguir alguma carona lá na Tamoios, a estrada que leva ao litoral. Mas, antes mesmo, precisaríamos chegar até lá – coisa de, sei lá, uns dez quilômetros de onde estávamos, em Santana.

Nossa sorte já começou boa. É que, pertinho da casa de meu pai fica o Senai, escola que arregimenta estudantes vindos de todos os cantos da cidade. Por ser um período de férias, não teríamos que disputar carona com nenhum dos alunos de lá (que ficavam às pencas, também tentando uma carona), e, não demorou muito, um caboclo que passava num Golzinho simpatizou com a cara daqueles dois palermas enmochilados e resolveu nosso problema.

– Vai pra onde, chefia? – é, desde aquela época eu já tinha esse costume de tratar todo mundo por “chefia”…

– Vou aqui pro Centro. Tá bom pra vocês?

– Tá ótimo!

Regra número um de um bom caronista: se alguém vai, ainda que minimamente, pro mesmo lado que você pretende ir, aceite. É uma pernada a menos. Regra número dois: seja sempre cordial. Sempre. Converse, demonstre-se interessado, puxe assunto, seja educado. Normalmente quem dá carona costuma ser bom de proseio e está mais interessado em você, para onde pretende ir e como pretende fazer para chegar lá. E não se esqueça de sorrir!

Mas, hoje em dia, creio que essas regras já não valem tanto. Ou melhor, nada. Ao menos aqui nesta nossa terrinha, ou, no mínimo, na região. Já não se dá mais carona, já não se pede mais carona… Todos transitam sozinhos, encastelados dentro de seus próprios veículos, com os vidros fechados, no ar condicionado, blindados à exposição de outras pessoas, transeuntes, pedestres, pedintes, artistas, vendedores e o que mais quer que o mundo lá fora possa oferecer para ofender sua pseudo-segurança. Permitir que um estranho entre no seu carro? Que viole sua intimidade? Jamais! Tá me achando com cara de táxi? Ou de Uber? Quer ir pra algum lugar, que pegue um ônibus! Ou que compre um carro você mesmo, então!

Não… A “carona” é de uma outra era, uma época romântica, quando as pessoas se preocupavam com o próximo além de si mesmas e ainda olhavam nos olhos umas das outras – em vez de, como hoje, passarem ao léu de todos, absortas cada qual no seu mundo virtual de redes sociais. Acho que, na prática, o nome correto deveria ser “redes antissociais”…

– Aqui já tá bom, chefia!

“Apeamos” no Centro, próximos da Rodoviária Velha. É, dali não teria como, o negócio era caminhar, mesmo. O melhor lugar para batalhar uma nova carona seria lá no comecinho da Tamoios, no posto Caminho das Praias (que hoje já nem mais existe). Com o sol a pino e mochilas nas costas, atravessamos todo o centro velho da cidade, seguimos pela Paraibuna e, coisa de uma horinha depois, chegamos no nosso primeiro destino.

– Carái! Essa deu pra cansar, hein?

– Nah! É só porque esse solzão tá forte. Eu é que tô ferrado: se dali do Centro até aqui já tô vermelho assim, imagine depois de uns dias na praia!

– Hah! Vai ficar igual o homem-cobra: soltando a pele!

– Filmaço, né?

– Filmaço.

– Pelo menos aquela caroninha já ajudou. Imagine a gente, assim, carregado, de Santana ao Centro, a pezão na “subida da Rui Barbosa”?

– Putz! A gente tava ferrado! Não aguentava chegar até aqui não.

– Nem eu.

Essa “subida” nem era tanta assim. Mas fugíamos como o diabo da cruz toda vez que tivéssemos que enfrentá-la. Era preferível ficar mais de uma hora tentando uma carona que encarar aquela ladeira! Se tivéssemos a mínima ideia do que nos aguardava…

Enfim, carona de estrada já era um negócio mais complicado, pois normalmente quem ia viajar para o litoral já ia de mala, cuia, família, cachorro, gato, galinha e o escambau. Naqueles tempos o pessoal alugava uma “casa de temporada”, que normalmente só tinha o básico do básico da mobília, e tinham que levar todo o resto: panelas, pratos, mantimentos, lençóis, até mesmo a tevê da sala às vezes ia no porta-malas, junto com o resto das tralhas. E ói que estou falando daquelas tevês enormes, de tubo, hein… Espaço para mais dois caboclos e suas mochilas? Difícil, muito difícil.

Foram horas ali no posto, na beira da estrada. Mas éramos teimosos e determinados. Alguém ainda iria parar. Alguém TINHA que parar… Até porque o tempo já estava começando a fechar, anunciando uma daquelas chuvas de verão se avizinhando. E carona na chuva é algo que beira o impossível! Foi quando um caminhão deu uma guinada, quase em cima da gente e parou, uns trinta metros adiante. O Vilaça deu uma corrida pra conversar com o motorista, enquanto eu fiquei no mesmo lugar, um tanto quanto cético. É que uma das “diversões” do pessoal das estradas era justamente parar o carro lá adiante e quando os pretensos caronistas iam correndo para alcançá-los, faltando alguns metros, eles aceleravam e iam embora dando risada. E a cabine do caminhão estava lotada – eu vi! Estava mais que na cara que era mais um daqueles tiradores de sarro.

Mas não saíram. Apesar de já estarem até atrapalhando o trânsito ali naquela curva de estrada, ficaram parados e trocaram uma rápida ideia com o Vilaça. Fiquei olhando, de orelha em pé…

– Bora!

– Cumassim?

Ligaram o motor e já foram dando seta ao mesmo tempo que o Vilaça já foi subindo na traseira do caminhão.

– Só tem espaço aqui atrás! Bora, bora, bora!

Merda! Saí correndo ao mesmo tempo que o caminhão engatou a primeira. Estava a uns dois metros dele, arranquei a mochila e joguei pro Vilaça, que já estava lá em cima. O filha da puta do motorista engatou a segunda e eu ali correndo os cem metros rasos, a centímetros da carroceria. É, não ia ter jeito, seja o que Deus quiser.

Pulei.

Pulei e me agarrei na madeira do jeito que dava. O Vilaça se cagando de rir da minha situação, e eu ali, pendurado, tentando descobrir onde apoiar ao menos um dos pés – até que encontrei o para-choque e, com o coração na boca, consegui me apoiar firme e decentemente na traseira da porra do caminhão. Foi só o tempo de recuperar o fôlego para, antes mesmo de subir, descarregar nos ouvidos do Vilaça toda a farta coleção de palavrões e impropérios ao meu alcance…

Subi. Olhamos um pro outro. Ele ainda rindo. Menos, mas ainda. Não teve jeito: tivemos ambos um ataque de riso monumental, que deve ter durado de uns cinco a dez minutos! Daqueles de fazer doer a barriga, sabem?

Só então, recuperando o fôlego e tentando manter o equilíbrio, ainda com lágrimas nos olhos é que pudemos dar a devida atenção à situação em que nos encontrávamos.

Não estávamos sozinhos.

( Continua. Serra abaixo e morro acima, mas continua… )

 
 
# Perdeu o começo? Liga não. Tá aqui.


31 jan 2016 - 6:27  

Chumbo trocado…

E ontem à tardinha, quando de minha tradicional passada lá no Sr. Barba para uma brejinha gelada, eis que já chego com uma cena inusitada: o Fred na cadeira do Nando! Visto o visto, era dia de eles darem uma aparada nas próprias madeixas…

Só posso dizer que Stan Laurel e Oliver Hardy não me fariam rir tanto! Se bem que, talvez, esses dois estejam mais para o Pink e o Cérebro… Mas o negócio é que ambos realmente se divertem com o que fazem!

Clique na imagem para ampliar!

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Ah, mais uma coisa: jamais, eu disse JA-MAIS, permitam que o Fred comece a cortar ao som de Queen… #ficaadica

Emenda à Inicial: Bem mais tarde, via chat, enviei estas e outras fotos que tirei para os dois jaritatacas. A conversa foi mais ou menos assim:

Eu:
Seguem as fotos… Ah, também tem post lá no blog!

Nando:
Jeeesusmariajosé hahaha

Fred:
Vai ter churrasco?

Eu:
Num sábado qualquer vou acabar fazendo um churrasco elétrico é lá no Sr. Barba… 😉

Nando:
Ai sim kkk

Fred:
Então, só perguntei pq este canal de comunicação, ao meu ver, só serve para marcar churrasco na casa do adalto.
Kkkkkkkk

Eu:
Vamos começar com uma lição de português. Repitam comigo: A-daU-to… 😀

Fred:
Adalton

Hadalton

Adownto

Nando:
Adawtu

Athauto

Eu:
Putz… Eu pedi por isso, né?…

Fred:
Há down tom

Eu:
Assifudê! 😀

Nando:
A down


30 jan 2016 - 16:29  

Trindade

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Então, crianças, ando meio que encantado com leituras alheias de alhures e acabei percebendo o quanto cada vez mais, menos tenho escrito por aqui neste nosso cantinho virtual. Poderia dizer que é excesso de trabalho (que é verdade), que nas horas vagas tenho me dedicado a outros hobbies (que é verdade), que passei os últimos meses num sufoco cerebral e/ou emocional que não me permitia parar para pensar em novos ou velhos causos (que é verdade), ou poderia simplesmente dizer que estava com uma inenarrável preguiça e sem vontade de escrever (que é mentira, mas tem mais a minha cara).

Então, apesar de muitas ideias para muitos causos de coisas recentes e atuais que vêm acontecendo, preferi me pautar um pouco no longínquo passado de minha infância e adolescência (como se isso interessasse pra alguém… – mas o blog é meu e gosto de encará-lo como minha própria “penseira virtual”) e dentre três ou quatro episódios, me lembrei de Trindade.

Ou seja, é isso mesmo: senta que lá vem história!

Antes de mais nada é preciso falar do Vilaça. Até hoje não consigo me lembrar de como foi que nos conhecemos. Talvez tenha sido da ETEP, quando de minha rápida passagem por lá – o que por si só já dá um outro causo… Só sei que em determinado momento e período de nossas adolescências ficamos amigos e vez ou outra saíamos juntos para uma ou outra desventura. Filho único, morava com os pais e era um ou alguns anos mais velho que eu. Hoje em dia, para todos nós, “adultos” que somos, uns anos a mais, outros a menos, não fazem diferença nenhuma; mas na adolescência – entendam – isso muda tudo! Os adolescentes de quatorze olhavam com respeito para os de quinze, já no segundo grau, que eram desprezados pelos de dezesseis, mais experientes, que por sua vez eram ignorados pelos de dezessete… E os de dezoito? Esses já eram praticamente adultos! Bem, vocês entenderam. Anos ou mesmo meses já faziam toda a diferença para determinar com que turma você andava.

E por isso mesmo essa nossa amizade, com ele um pouco mais velho, era diferente: não tínhamos muitos amigos em comum, pois a turma dele já era de “outro nível”… Como nunca dei a mínima trela pra esse negócio de turma, invariavelmente aprontávamos as nossas somente a dois mesmo.

Assim foi com Trindade.

Estava eu lá em casa, no bom e velho bairro de Santana, do alto dos meus quinze ou dezesseis anos (meados da década de oitenta, tá bom?), numa época em que para gente simplesmente não existia internet, blogs, tevê a cabo, séries, celulares, redes sociais – nenhum desses nossos vícios modernos que, invariavelmente, nos custam um pedaço da alma. Ou, ao menos, da sanidade. Estava lá, fazendo o que qualquer bom adolescente daquela época fazia durante as férias numa tarde abafada de verão: bestando.

Do nada, surge o caboclo no portão de casa.

– Adautô! Adaaauto! Ô, Adauto!

Fui até a sala, abri a portinhola da porta (isso mesmo: as casas de antigamente não tinham o tal do “olho mágico” – algumas até tinham, mas só as de gente mais abastada… – e, na sua falta, as portas tinham uma portinha, mais ou menos do tamanho de um caderno escolar, na altura dos olhos), e de lá mesmo gritei:

– Calma, ô desinfeliz! Já ouvi. Péraê…

Abri a porta e, como desde aquela época eu e minha pele moreno-hipoglós já tínhamos treta da brava com sol quente, dali mesmo do alpendre já falei…

– Desembucha.

– Vamos pra Trindade?

– Quando?

– Agora.

Essa era boa. Dois moleques durangos, assim, do nada, resolvem viajar. Cumassim? E dinheiro? E preparativos? E dinheiro? E locomoção? E dinheiro? E planejamento? E, sobretudo, dinheiro?

Bem, parem de pensar com essas suas cabeças adultas de século vinte e um. Estamos falando de um outro tempo, uma outra época, uma outra vida. Nada disso era necessário. Tá, talvez um tiquinho de dinheiro ajudasse um pouco – e normalmente era só esse pouco mesmo que nós tínhamos.

– Beleza! Me dá um tempinho…

Corri pra dentro de casa, peguei minha mochila de lona, coloquei umas mudas de roupas (que é como chamávamos cada um dos conjuntos de calça-meia-cueca-camisa para uso a cada um dos dias fora), uma ou duas blusas (caso esfriasse), o único calçado era o que já estava no pé mesmo, assaltei umas duas latas de feijoada pronta da despensa (melhor coisa pra não morrer de fome quando não se tem opção acampando), juntei a velha barraquinha canadense de dois lugares que um abilolado de um amigo de meu irmão, lá da USP, e que morou um tempo em casa, acabou deixando pra trás, fucei em todas as gavetas ajuntando todo o pouco de grana que tinha e pé na estrada!

Tenho certeza que entre uma coisa e outra deve ter havido um momento em que eu deva ter falado com minha mãe, talvez pedindo permissão, mais provavelmente comunicando que iria viajar. Mas esse detalhe simplesmente não existe mais na minha memória. Deve fazer parte dos bad blocks do meu cérebro, danificados ao longo dos anos por uma nada suave vida etílica…

( Continua, devagar como a Trindade daquela época,
na medida em que eu não ficar com pressa de contar logo essa história… )

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