NÃO LEIA ESTE TEXTO

se você não tiver uma mente aberta e capacidade de pensar de forma diferente…

Muito bem. Resolveu continuar, né? Então prossiga por sua conta e risco.

O que eu gostaria de tratar aqui é sobre o Especial de Natal do grupo Porta dos Fundos chamado “A Primeira Tentação de Cristo”. Muita bobagem vem sendo falada por muita gente, o que acabou me tirando dessa minha precoce pseudo-aposentadoria literária para tentar colocar alguma ordem nessa bagaça toda.

Em PRIMEIRÍSSIMO LUGAR: se você é do tipo “não assisti e não gostei”, então, por favor, PARE DE LER AGORA! Vai assistir o vídeo (são só 46 minutinhos), pois foge totalmente ao conceito da lógica querer discutir sobre algo que você não conhece. Basta clicar neste link e baixá-lo, então marque direitinho onde parou e depois você volta aqui, ok?

Se bem que nestes “tempos modernos”, onde haters predominam nas redes sociais, regurgitando suas convicções na maior parte das vezes absurdas, não seria de se estranhar uma propensão desse tipo, pois lógica tem sido um produto escasso no mercado…

Mas tergiverso.

Bem, espero que tenha assistido, pois vamos ter vários spoilers por aqui.

Considere-se avisado.

Acontece que no Especial de Natal desse ano o grupo Porta dos Fundos (mais uma vez) resolveu cutucar a onça com vara curta: a estória gira em torno de uma festa surpresa para comemorar o aniversário de trinta anos de Jesus, onde, além da família, reúnem-se os Três Reis Magos, Lázaro, um tanto de figurantes – destaque para a “Tia Lupita” (que existe em praticamente todas as famílias) – e Deus propriamente dito. E eis que chega Jesus, após ter passado quarenta dias no deserto, acompanhado do “Orlando”, que evidentemente é gay. Isso mesmo: homossexual. Uma bicha louca. E não, não devemos ter medo das palavras desde que elas nos sirvam para deixar clara a imagem que queremos passar.

A trama, ainda que bem elaborada, é até bem simplesinha. Aliás, nada que já não tenha sido explorado antes, em termos de humor, pois particularmente ainda prefiro as tiradas do antigo blog Jesus, me Chicoteia! (2002) onde o Marco Aurélio consegue desenvolver uma linha hilária ao transcrever a Bíblia desde o Gênesis… Esse Deus apresentado pelo Porta dos Fundos consegue ser quase tão sacana quanto o do blog, cabendo uma menção honrosa às farpas que ele e José trocam entre si.

Pois bem. Após toda a saia justa da chegada dos dois, ficando no ar um clima tenso por conta de estar na cara o que estava acontecendo ali (você não quer mesmo que eu explique, quer?), nessa festa é revelado a Jesus que ele é o Filho de Deus, o que o deixa atordoado. Depois de um chá muito suspeito que faz Jesus viajar e encontrar outras divindades de outras religiões, ele volta só para descobrir que Orlando havia tomado seu lugar como “Filho de Deus” – só que, na realidade, ele era o Diabo. Eles acabam batalhando entre si (o kamehameha de Jesus é de arrancar gargalhadas), tudo acaba num final feliz, o Bem vence o Mal, etc, etc, etc.

E por último Jesus aceita a missão que Deus lhe passo para divulgar Sua palavra, mas com a condição de que teria que ser do jeito dele, pois ele não gosta do estilo do Pai (transformar gente em pedra, destruir cidades por fogo, enfiar um sujeito dentro de uma baleia e por aí vai) e prefere uma solução mais “Paz e Amor”.

Pronto.

É isso.

E só para contextualizar, Jesus de fato começou sua vida pública aos trinta anos (Lucas 3:23), logo após ter voltado de seu exílio de quarenta dias no deserto, onde foi tentado pelo Diabo (Mateus, 4:1-11).

E então, por conta desse vídeo, as redes sociais entraram em ebulição, com muita gente bradando à Netflix que cancelasse sua exibição, pois tratava-se de uma blasfêmia e zombaria contra a Fé mascarada sob a “desculpa” de liberdade de expressão e cujo único propósito seria dessensibilizar as pessoas e preparar o caminho para uma perseguição (???) mais contundente contra os cristãos. Tudo isso por ter insinuado que Jesus teve uma relação homossexual. Na realidade não insinuou não, disse com todas as letras.

O curioso é que no Especial de Natal desse mesmo grupo do ano passado – que inclusive ganhou um Prêmio Emmy Internacional na categoria Melhor Série de Comédia – não me lembro de ter havido essa comoção toda. Nesse, chamado “Se Beber, não Ceie” (uma clara paródia ao filme Se Beber, não Case), nos é apresentado um Jesus que, juntamente com seus discípulos, se reuniram para a última ceia e encheram copiosamente a cara, acordando todos com uma gigantesca ressaca no dia seguinte enquanto tentam reconstruir os passos de tudo que ocorreu – pois ninguém consegue se lembrar de absolutamente nada.

É desse jeito, então?

Um Jesus ébrio, bêbado, embrigadado é aceitável, mas um Jesus homossexual não?

Mas antes vamos rever alguns conceitos básicos:

Paródia: obra literária, teatral ou musical que imita outra obra com objetivo jocoso ou satírico.

Sátira: composição livre e irônica contra instituições, costumes e ideias da época.

Blasfêmia: enunciado ou palavra que insulta a divindade, a religião ou o que é considerado sagrado.

Ou seja, já deve ter sido possível para você perceber que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”! Aliás uma das melhores explicações que li foi a do padre Francys Silvestrini:

“Quando, por diversas razões, os humoristas tentam entrar no campo religioso, é importante distinguir o ‘alvo’ que querem atingir. O ‘alvo’ da blasfêmia é Deus. O ‘alvo’ da sátira é a imagem de Deus projetada publicamente por aqueles que dizem crer nEle. Os que se utilizam da sátira falam sobre nós, nossas crenças, nossas práticas; não sobre Deus. (…) Será que a caricatura satírica, para muitos desagradável, deste controverso ‘Especial de Natal’ não seria uma ocasião favorável para examinarmos a possível caricatura blasfemadora que muitos de nós, crentes, estamos projetando no espaço público de nosso país?”

Aliás, impossível assistir o vídeo sem ao menos lembrar do excelente A História do Mundo – Parte I, do diretor, roteirista, ator e comediante Mel Brooks (recomendo). Porém, diferente dele, o pessoal do Porta dos Fundos não tem a mesma finesse para tratar do tema, mas mesmo assim possuem pontos em comum, pois trata-se da “arte da farsa”, um gênero teatral de caráter puramente caricatural de concepção simples, que aborda trivialidades em situações ridículas, sem medo de gracejos ou exageros – muitas vezes agindo como crítica sociocultural. E nisso não há blasfêmia nenhuma.

Até porque o que eles fizeram não foi zoar com a religião em si, mas sim com a maneira com que as pessoas lidam com a religião – o que são coisas totalmente distintas. Na prática esse vídeo, apesar de toda a galhofa, acaba por reafirmar a divindade de Cristo bem como a importância de sua missão – até porque somente ele consegue livrar a humanidade do Diabo. Nenhum dogma é questionado, pois até mesmo a virgindade de Maria segue incólume. O verdadeiro alvo das piadas não é a fé, mas os conflitos e as contradições que existem dentro de qualquer família – cujas disputas, intrigas e outros comezinhos acabam por vir à tona na época do Natal.

Doutra feita, tirando, obviamente, a última figurinha, se qualquer das outras figuras desse quadro acima por algum motivo lhe incomodou, então o seu problema não é com o que considera blasfêmia, mas sim com o fato de sua própria intolerância àquilo que foge do “seu normal”.

E não me venha falar de respeito à família, tradição, pessoas de bem, o escambau. Nos dias de hoje tudo isso acaba servindo mais para disfarçar o próprio preconceito das pessoas com relação a tudo que as cercam. Nestes tempos conturbados em que vivemos, onde a sociedade se cala diante dos feminicídios, de assassinatos, da truculência policial, da falta de sensatez generalizada, buscar o ressurgimento de uma ultraconservadora TFP vai contra tudo aquilo que acredito em termos de evolução humana.

Goste ou não, saiba que existem pretos. Existem pobres. Existem nordestinos. Existem bêbados. Existem homossexuais. Existem transexuais. Existem famílias felizes formadas por pessoas do mesmo sexo e até mesmo por três ou mais pessoas que vivem juntas. Você pode não gostar disso, mas você não pode fechar os olhos a isso. É uma realidade que não pode ser alterada nem mesmo pela intransigência, pelo racismo, pela homofobia ou por qualquer outro desvio de caráter (pessoas assim é que, na minha opinião, realmente possuem um desvio de caráter).

Então entenda que esse vídeo do Porta dos Fundos é uma mera sátira, pois enxovalha os costumes dessa sociedade hipócrita em que vivemos, mas nada faz para atacar a Fé de absolutamente ninguém.

Foi essa, inclusive, a linha seguida pela juíza Adriana Sucena Monteiro Jara Moura, da 16ª Vara Cível do Rio de Janeiro, ao negar um pedido de liminar para que esse Especial de Natal fosse removido do Netflix, pois ela entendeu que uma decisão nesse sentido seria “inequivocamente censura decretada pelo Poder Judiciário”. Diz também que não encontrou no caso a ocorrência de crimes contra a religião, violação aos direitos humanos, incitação ao ódio ou discriminação. E, ainda:

“Ademais, também considero como elemento essencial na presente decisão que o filme controverso está sendo disponibilizado para exibição na plataforma de streaming da ré Netflix, para os seus assinantes. Ou seja, não se trata de exibição em local público e de imagens que alcancem aqueles que não desejam ver o seu conteúdo. Não há exposição a seu conteúdo a não ser por opção daqueles que desejam vê-lo. Resta assim assegurada a plena liberdade de escolha de cada um de assistir ou não ao filme e mesmo de permanecer ou não como assinante.”

E esta foi apenas uma de uma série de decisões semelhantes, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. Um pouco mais ácida foi a decisão da juíza Marian Najjar Abdo, da 1ª Vara do Juizado Especial Cível de São Paulo:

“Uma das principais lições ensinadas por Jesus é a da tolerância, sobretudo em relação aos pobres de espírito (e também aos ‘espíritos de porco’). Entendo ausente o perigo de dano irreparável ou de difícil reparação. A liberdade de expressão, no presente caso, parece, de fato, ter sido utilizada de forma desvirtuada e abusiva, mas, em princípio, basta que o autor não assista ao programa em questão e até mesmo não mais mantenha contrato com a corré Netflix, em sinal de sua indignação.”

Enfim, é isso. Essa é minha opinião, quer você goste ou não, quer você tenha se convencido ou não. E você tem o pleno direito de não concordar e continuar convicto de que essa é uma “obra blasfema”. Paciência. Eu tentei. Mas uma coisa lhe digo: se você quer buscar ter, no mínimo, argumentos para discutir, então assista o vídeo (até o fim!) e tire suas próprias conclusões.

Ou então não assista e vá ser feliz.

Mas lembre-se (Lucas 9:37-56) de ser tolerante…

Emenda à Inicial:

E eis que voltei pra casa, após um ótimo Natal em família e, ao me atualizar do que aconteceu no mundo durante minha ausência, uma das primeiras notícias que vejo é a seguinte:

Sede do Porta dos Fundos sofre ataque a bomba na véspera do Natal

Em nota os integrantes do Porta dos Fundos afirmaram:

“Na madrugada do dia 24 de dezembro, véspera de Natal, a sede do Porta dos Fundos foi vítima de um atentado. Foram atirados coquetéis molotov contra nosso edifício. Um dos seguranças conseguiu controlar o princípio de incêndio e não houve feridos apesar da ação ter colocado em risco várias vidas inocentes na empresa e na rua.

O Porta dos Fundos condena qualquer ato de violência e, por isso, já disponibilizou as imagens das câmeras de segurança para as autoridades, para o Secretário de Segurança e espera que os responsáveis pelos ataques sejam encontrados e punidos. Contudo, nossa prioridade, neste momento, é a segurança de toda a equipe que trabalha conosco.

Assim que tivermos mais detalhes, voltaremos a nos manifestar. Mas, por enquanto, adiantamos que seguiremos em frente, mais unidos, mais fortes, mais inspirados e confiantes que o país sobreviverá a essa tormenta de ódio e o amor prevalecerá junto com a liberdade de expressão.”

Particularmente ainda estou pasmo com o grau de ignorância e de violência que nossa sociedade brasileira está atingindo. Não é esse mundo de ódio e intolerância que quero para meus filhos. Sempre me manifesto contra esse tipo de atitude, mas parece que cada vez mais minha voz vai sumindo em meio àqueles que vociferam suas verdades absolutas.

Infelizmente parece que, de fato, como diria Thalma de Freitas, “quem está evoluindo hoje são as máquinas, não nós.”

Jokers

Não, até a data de hoje ainda não fui assistir o novo filme do Coringa – ou melhor, Joker.

Não porque não queira, mas é que eu não tenho essa ansiedade que permeia as novas gerações (X? Y? Z? Sei lá em qual letra do alfabeto estamos atualmente…) para correr a assistir a um filme assim que é lançado, às vezes até mesmo brigando a tapa por uma vaga na pré-estreia.

Sou da geração passada – ou mesmo anterior – em que nem todos podiam ir ao cinema para, naquela tela gigantesca, assistir o filme que estivesse em voga à época. Muitas vezes apenas um da turma é que conseguia assistir e mais tarde, tal qual reunião da tribo sentada em volta da fogueira, juntava-se com os demais para contar o filme nos seus mínimos detalhes. Spoilers não eram problemas, pois o que interessava era saber como era o filme em seu todo. E se mais tarde os demais tivessem oportunidade de assisti-lo, o simples conhecer prévio da estória não minimizava o impacto da imagem na tela grande.

Telas essas que deram lugar às minimalistas salas de apresentação em shoppings, de modo que cada vez menos projeções as ocupavam, tendo primeiro se tornado palcos de eventos e, a seguir, igrejas evangélicas, na sequência estacionamentos e, por fim, esquecimento. Paciência. É apenas a vida sendo a vida.

Mas divago!

Falávamos do Coringa.

Esse personagem foi criado, na época sem muitas pretensões, para ser meramente mais um antagonista do Homem-Morcego, tendo aparecido pela primeira vez já na revista Batman nº 1, em abril de 1940. Criado conjuntamente por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane, reza a lenda que Jerry surgiu para os demais com uma carta de baralho (que viria a servir de cartão de visita para o personagem) e lhes disse como o desenho nela estampado parecia com o ator Conrad Veidt, num filme de 1928, O Homem que Ri (em que o rosto do sujeito era permanentemente operado para que ele sempre tivesse essa espécie de sorriso perpétuo). Originalmente o Coringa era retratado apenas como “mais” um gênio do crime, mas com um senso de humor sádico e doentio. No final da década de cinquenta, por conta da “Caça às Bruxas” instituída pelo Comic Code, tornou-se um ladrão pateta e brincalhão, somente regressando às suas raízes lá pela década de setenta. Mas a sua personalidade psicopata de agente do caos, onde imperam a falta de empatia e ausência de culpa ou remorso pelos seus próprios atos, somente veio a se consolidar em fins da década de oitenta…

Meu primeiro contato com esse personagem foi assistindo a famosa série do “Batman Barrigudinho” (interpretado por Adam West) lançada em 1966, quando era interpretado por César Romero. Ali tudo era kitsch, cômico, histriônico e, diferente das séries exibidas hoje em dia (que tendem mais para um aprofundamento na psiquê dos personagens, exibindo o lado negro que cada vilão ou herói contém), tudo era comédia, tudo era pastelão. Até a própria forma do ator encarnar o personagem, pois ele tinha muito em conta seu “bigodinho sedutor” e impôs como condição não raspá-lo – de modo que a penugem era sempre visível sob a maquiagem branca… Essa foi uma das séries que me acompanhou nos idos dos anos setenta, quando nas manhãs e tardes de sábado me era possível assisti-la no boa e velha TV de tubo da Telefunken!

E eis que veio o final de minha infância, o início da adolescência e meio que deixei de lado todas essas séries e quadrinhos de então para preocupar-me com outras coisas, digamos, “mais interessantes”, invariavelmente relacionadas à fina arte de me encantar com as meninas e moçoilas que faziam parte do meu limitado círculo social…

Só voltei a reencontrar o Coringa nos idos de 1986, quando Frank Miller revolucionou tudo que sabíamos de quadrinhos e lançou a série “Batman: The Dark Knight Returns”. Ali tínhamos a estória de um Batman já aposentado, atormentado pela morte do segundo Robin (cujos detalhes somente viriam à tona mais tarde) e que nesse futuro distópico voltou a combater o crime numa Gotham City mais sombria e violenta do que parecia ser possível. Nela o Coringa encontrava-se internado, há anos em estado catatônico, mas que com a notícia da volta do morcego, também voltou à sua própria distorcida, fria e violenta realidade. Somente sua morte, através das mãos nuas de Batman, foi capaz de deter sua fúria assassina. Talvez essa tenha sido a mais malévola e assustadora encarnação do personagem até então.

A seguir, meio que para preencher as lacunas deixadas para trás, tivemos a HQ “A Death in the Family”, escrita por Jim Starlin, com arte de Jim Amparo e arte final de Mike DeCarlo. Mais uma vez temos um Coringa frio, violento e calculista, enquanto que Batman havia substituído o primeiro Robin (Dick Grayson) por um colérico e indisciplinado Jason Todd. Se Frank Miller já havia revolucionado os quadrinhos nos apresentando uma sombria e brutal Gotham City do futuro, neste caso estávamos tratando ainda do presente e definitivamente não era costume dos roteiristas “exagerar” na dose, nem tampouco matar seus personagens. Mas foi exatamente isso que aconteceu. Numa estória em que o Coringa se apresenta como um estrategista do caos, mas ainda assim um doido varrido e psicótico, numa cena sufocante ele praticamente dá cabo do Robin a golpes de um pé de cabra. Não contente, após quase matá-lo espancado, prende-o, ainda vivo, cercado de explosivos que somente o matam porque Robin ainda tentou proteger a própria mãe que o traiu.

E eis que aquele final de anos oitenta e começo dos noventa foi profícuo em revoluções nos roteiros dos quadrinhos, ainda mais com um personagem tão amplo quanto é o Coringa. Desta vez tivemos que Alan Moore escreveu e Brian Bolland desenhou “Batman: The Killing Joke”. Por mais indícios que houvessem sido dados desde a criação do personagem acerca de como ele veio a se tornar o Coringa, somente aqui realmente nos foi apresentada a mais verossímil versão dessa estória, que mistura uma busca de Batman para tentar acabar com a espiral de violência que permeava o contato de ambos com flashbacks de um passado em que um comediante mal sucedido é conduzido a uma vida de crimes e que encontra seu ápice quando ele definitivamente perde tudo aquilo que lhe serviria de razão para viver – em especial a própria sanidade. É de arrepiar.

Voltando aos cinemas, ainda em 1989, após mais de vinte anos longe das telas, o Coringa iria reaparecer no primeiro filme (quase) sombrio de Batman, dirigido por Tim Burton e teoricamente estrelado por Michael Keaton no papel principal. Isso porque o vilão que literalmente rouba todas as cenas em que aparece é ninguém menos que Jack Nicholson, numa excelente interpretação que por si só já demandaria em mudar o próprio nome do filme… É contada a estória de Jack Napier, um gangster psicopata que foi o responsável pela morte dos pais de Bruce Wayne. Essa versão se assemelha em diversos pontos com a HQ “A Piada Mortal” (The Killing Joke), principalmente porque o Coringa resultante, desfigurado e insano, é nada mais nada menos que um agente do caos, buscando não somente lucrar com seus crimes, mas sobretudo a disseminar a desordem numa Gotham City extremamente gótica, bem no estilo de Tim Burton. E, melhor que tudo, é nesse filme que temos a personagem Vicky Vale, interpretada pela minha eterna musa Kim Basinger… 😀

Depois dessa magistral interpretação, somente em 2008 (ou seja, novamente quase vinte anos depois da anterior) o personagem Coringa seria retomado no filme The Dark Knight, sob direção de Christopher Nolan, com Christian Bale no papel principal e Heath Ledger como o palhaço psicopata. Aqui já não há mais o interesse em recontar a origem do personagem, antes o contrário: no decorrer do filme seu passado é envolto em mistério e a cada vez que ele decide contá-lo o faz com uma versão diferente – o que mais uma vez nos leva à Piada Mortal, quando o Coringa afirma que “já que ele precisa ter um passado, ao menos que seja de múltipla escolha”… Como descrito pelo próprio diretor, a atuação de Ledger nos brinda com “um palhaço psicopata, assassino em série, esquizofrênico, rude, cruel, sarcástico e com zero de empatia”. O ator foi buscar sua inspiração não só nas antigas HQs que exploravam o tom anárquico e insano do personagem, mas também em outros filmes e personagens que também beiravam a insanidade, tais como em Laranja Mecânica e no cantor Sid Vicious. Como todos sabem, Ledger faleceu logo após a conclusão das filmagens e sua atuação lhe rendeu um Oscar póstumo. Merecido, diga-se de passagem.

Em 2016 seria a vez de Jared Leto interpretar o Coringa no filme Suicide Squad, dirigido por David Ayer. O ator foi buscar a inspiração para compor o personagem na aparência dos chefes de cartéis mexicanos e aqui não temos um palhaço psicopata, mas sim um sujeito arrogante e ainda assim sociável, uma espécie de homem de negócios bem sucedido e inteligente que vive um relacionamento incrivelmente disfuncional com a personagem Arlequina (esta sim, doidinha de pedra, como deveria ser). Ele se assemelha mais a um cafetão colombiano que a um vilão merecedor de atenção. Na boa? Essa versão do Coringa tem mais é que ser deletada de nossa memória

E finalmente chegamos no motivo que me impeliu a (re)construir essa saga: o filme Joker, dirigido por Todd Phillips, atualmente em cartaz nos cinemas e cujo personagem do título é interpretado por Joaquim Phoenix. Como já disse, ainda não assisti a película, mas já li um tanto quanto e ainda recebi os costumeiros spoilers de meu aficionado amigo barbeiro de plantão… Para resumir trata-se da estória de Arthur Fleck, um cara que, além de sofrer de um distúrbio neurológico que o faz gargalhar em momentos inapropriados, já é um sujeito muito ferrado na vida e que paulatinamente no decorrer do filme vai sofrendo golpes e mais golpes, cada vez mais duros, até que, por fim, sua sanidade finalmente se dilacera de um modo irrecuperável. Apesar de o roteiro básico lembrar bastante o da Piada Mortal, esse filme é muito – mas MUITO – mais denso do que qualquer outra estória que já tenha sido escrita para o Coringa, quer seja nos quadrinhos ou no cinema.

É um filme chocante. Ou seja, não é um “filme de herói”. E nem mesmo de “vilão”. Nos seus pouco mais de 120 minutos nos é contada uma estória que aparentemente se passa em fins da década de setenta e início dos anos oitenta – mas cujo tecido social que o permeia poderia facilmente ser comparado ao dos dias atuais – em que a trágica figura anônima que ainda irá se tornar o Coringa vai sofrendo os reveses de uma sociedade hipócrita, onde a luta de classes surge como pano de fundo para a trama.

E essa luta, com o proletariado à frente das ações, comete atos de vandalismos e tem confrontos com a polícia que nos trazem à memória cenas que vimos aqui mesmo no Brasil, em 2013, protagonizadas pelos chamados “black blocs”. Diferente de outros filmes baseados em quadrinhos, em que vigora o maniqueísmo clássico entre o bem e o mal, a estória deste filme promove uma violenta revolução social.

E a despeito da crise econômica que afeta a sociedade daquela Gotham, o filme tem um viés muito mais pertencente aos tempos atuais do que à época em que se desenrola a trama: a falta de empatia. Uma sociedade em que ninguém se importa com nada e ninguém se importa com ninguém. Como muito bem dito numa excelente resenha de Irapuan Peixoto, tudo isso se dá por conta de alguns motivos básicos: “A globalização desenfreada, a avidez do capital que destrói postos de trabalho tradicional e tenta criar a ilusão de que cada um é um empreendedor dono de si, capaz de vencer, somente à espera de seu Coach. Não é assim que funciona. A pobreza existe por causa das condições sociais de sua perpetuação. Por causa de um sistema de manutenção da desigualdade que garante que pobres continuem pobres e ricos continuem ricos. E adivinhem quem está no comando do processo? / O Coach te diz que se você se esforçar o bastante enriquecerá. Empreenderá. Isso é uma ilusão. Se o trabalho gerasse riqueza, ninguém seria mais rico do que o escravo. Não é trabalho que gera riqueza, mas a apropriação dos meios de produção. A capacidade de multiplicar uma riqueza prévia.”

Também é dele a seguinte conclusão: “O cinema e o entretenimento dos últimos anos vêm produzido obras sensacionais, mas a um custo: a domesticação dos sentimentos por meio de situações brandas. Notoriamente os longas do Marvel Studios acostumaram seu público de que o perigo em cena nunca é alto demais, nunca é sério demais. Uma sequência tensa é logo acompanhada por uma piadinha – quase sempre infame – que “quebra o gelo”, faz o espectador relaxar e quase esquecer do risco que a trama sugere. / A domesticação dos sentimentos tem um preço: a domesticação dos sentimentos. O público se acostuma.”

Cabe ainda lembrar que são várias as referências tanto para a interpretação quanto para a direção e mesmo a própria estória do filme, cabendo citar, dentre outros, Taxi Driver, de Martin Scorcese, A Piada MortalV de Vingaça (a HQ), ambas de Alan Moore, Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick e por aí vai.

Temos assim um Coringa que parece trazer um pouco de todos seus antecessores (ou não), porém com o agravante de nos esfregar na cara que uma miserável existência inteira sob pressão de uma sociedade injusta e apática torna-se um terreno fértil para o lento surgimento de um sociopata que inevitavelmente torna-se um psicopata pronto para distribuir o caos da forma mais brutal e imprevisível possível.

E como última referência ao filme, segundo tudo que ouvi, basta dizer que o ator Joaquim Phoenix parece estar magistral em sua interpretação, verdadeiramente pronto para um Oscar. Aguardemos.

Enfim, este não é um típico filme que transporta as estórias das HQs para as telas da forma com a qual nos acostumamos nos últimos tempos. É um filme tenso, violento e cheio de significados. Você não vai sair mais leve do cinema, antes o contrário: sairá pensativo e com o cérebro atormentado acerca de quão próximo da realidade a ficção pode estar.

Pronto.

Contei tudo e não contei nada.

Agora só me falta assistir o filme…

 

Ordem cronológica dos filmes da Marvel

Agora que chegamos ao megacolossal Guerra Infinita (e não, ainda não fui assistir), acabei percebendo que muita gente anda confusa querendo entender tudo que aconteceu até agora e se preparar para saborear melhor o filme.

E realmente, vamos combinar? Isso não é para os fracos! Pelo que sei, até mesmo nos gibis a Marvel costuma dar um nó na cabeça dos leitores com sua “cronologia flutuante” – então por que é que nos filmes seria diferente? Ainda mais porque já se passaram dez anos desde a primeira película dessa cronologia! E não, não basta simplesmente assisti-los na ordem em que foram lançados – e vocês já verão o porquê.

Num dos proseios de sempre com o amigo Nando, lá do Sr. Barba, ele comentou que o canal Omelete havia soltado uma “linha do tempo” para orientar os incautos com a ordem cronológica dos filmes da Marvel. Trabalho bacana, bem feitinho e que vale a pena assistir. Está aqui: Linha do Tempo da Marvel no Cinema.

Mas ainda estava faltando algo…

Acontece que tenho acompanhado muitas das séries com personagens da Marvel e sei que tem certos detalhes que não são explicados nos filmes. Então, para mim, essa lista ainda estava incompleta. Por isso fui dar uma fuçada nos cantões da Internet e acabei encontrando o site/blog Textando e o artigo do Rodrigo Bino: Qual a ordem dos filmes da Marvel?”.

E essa sim parecia ser uma lista bem mais completa.

O difícil vai ser arranjar tempo para rever tudo isso…

Sem mais delongas, eis então a lista que tanto eu quanto vocês, nerds de carteirinha, estávamos esperando. E é coisa bagarái! Sei que nem precisava avisar, mas o que estiver em itálico são as séries, ok? Divirtam-se!

01. Capitão América: O Primeiro Vingador
02. Agente Carter (1ª Temporada)
03. Agente Carter (2ª Temporada)
04. Homem de Ferro
05. Homem de Ferro 2
06. O Incrível Hulk
07. Thor
08. Os Vingadores
09. Homem de Ferro 3
10. Agentes da SHIELD (1ª Temporada — Episódios 1 a 7)
11. Thor: O Mundo Sombrio
12. Agentes da SHIELD (1ª Temporada — Episódios 8 a 15)
13. Capitão América: O Soldado Invernal
14. Agentes da SHIELD (1ª Temporada — Episódios 16 a 22)
15. Guardiões da Galáxia
16. Agentes of SHIELD (2ª Temporada — Episódios 1 a 19)
17. Demolidor (1ª Temporada)
18. Guardiões da Galáxia 2
19. Vingadores: Era de Ultron
20. Agentes da SHIELD (2ª Temporada — Episódios 20 a 22)
21. Homem-Formiga
22. Doutor Estranho
23. Jessica Jones (1ª Temporada)
24. Agentes da SHIELD (3ª Temporada — Episódios 1 a 10)
25. Demolidor (2ª Temporada)
26. Agentes da SHIELD (3ª Temporada — Episódios 11 a 19)
27. Capitão América: Guerra Civil
28. Agentes da SHIELD (3ª Temporada — Episódios 20 a 22)
29. Agentes da SHIELD: Slingshot (webserie)
30. Luke Cage (1ª Temporada)
31. Agentes da SHIELD (4ª Temporada — Episódios 1 a 11)
32. Agentes da SHIELD (4ª Temporada — Episódios 12 a 22)
33. Punhos de Ferro (1ª Temporada)
34. Homem-Aranha: De Volta ao Lar
35. Os Defensores (Demolidor + LukeCage + Jessica Jones + Punhos de Ferro)
36. Fugitivos (1ª Temporada)
37. Inumanos (1ª temporada)
38. O Justiceiro
39. Agentes da SHIELD (5ª Temporada)
40. Pantera Negra
41. Jessica Jones (2ª Temporada )
42. Thor: Ragnarok
43. Os Vingadores: Guerra Infinita

A Lista Definitiva dos 100 Melhores Filmes de Todos os Tempos

Na falta de tempo/vontade/ânimo/conhecimento para fazer minha própria lista, resolvi roubartilhar esta, do Ademir Luiz, que achei muito boa! Inclusive, só pra constar, alguns desses filmes estão disponíveis bem aqui

Mas vamos ao que interessa. Luzes… Câmera… AÇÃO! 😀

Diversos veículos de comunicação, nacionais e internacionais, produziram suas listas dos melhores filmes de todos os tempos. Nossa elegância impede de citar nomes, mas muitas não se sustentam. Basta lembrar que há listas com opções altamente questionáveis, como colocar “Um Sonho de Liberdade” em primeiro lugar ou incluir obras tecnicamente sofisticadas, mas com roteiros pobres como “Avatar”; ou ainda francamente descartáveis como “A Princesa Prometida”. Para corrigir essas distorções, a Revista Bula, em parceria com a ONU e os Illuminati, incumbiu-me de apresentar a lista definitiva dos 100 melhores filmes de todos os tempos. Definitiva? Sim, humildemente assumimos esse fardo e essa pretensão. Tamanha convicção se justifica em função dos altamente sofisticados e científicos critérios adotados para a seleção.

A equação envolve elementos relativos à influência, importância histórica, relevância dentro do gênero, apuro estético e artístico dos filmes, entre outros. O que, infelizmente, deixou de fora clássicos mudos como “Nosferatu”, “Intolerância” e “A Carruagem Fantasma”; clássicos sonoros, como “Chinatown”, “A Primeira Noite de um Homem”, “Quanto Mais Quente Melhor” e “Gata em Teto de Zinco Quente”; filmes divertidíssimos, como “De Volta Para o Futuro”, “Os Caça-Fantasmas” e “Curtindo a Vida Adoidado”; obras de formação de caráter, como os primeiros “Rambo” e “Rocky”, “Mad Max”, “Robocop” ou “Conan, o Bárbaro”; filmes de grande importância cultural, como “Adivinhe Quem Vem Para Jantar?”, “Os Eleitos” e “A Noviça Rebelde”; novelões, como “Assim Caminha a Humanidade” e “Jezebel”; experiências audiovisuais inusitadas, como “Valsa Russa”, “Boyhood” e “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”; épicos farofa, como “Gladiador” e “Coração Valente”; filmes com roteiros primorosos, mas com cinematografia discreta, como “A Malvada” e “O Declínio do Império Americano”; e mesmo esfinges intelectuais, como “Império dos Sonhos”, “Brazil, o Filme” e “Adeus à Linguagem”. Em alguns casos houve empate técnico, como entre “Réquiem Para um Sonho” e “Trainspotting” ou a refilmagem de “Scarface” e “Os Intocáveis”. Nessas ocasiões a subjetividade prevaleceu.

Cem títulos parece muito, mas é ilusório tendo em vista o número de candidatos potenciais. Por isso, tivemos o cuidado de restringir a participação de cineastas de gênio que poderiam monopolizar a lista, como Kubrick, Tarkóvski, Coppola, Bergman, Kurosawa, Orson Welles, David Lean, John Ford, Scorsese, Fellini ou Woody Allen. Esse critério retirou da lista obras-primas como “Um Corpo que Cai”, “O Homem que Matou o Facínora”, “Dr. Fantástico”, “Annie Hall”, “O Poderoso Chefão: Parte 2” e “Soberba”. Reconhecemos que — em alguns casos — fomos honestamente desonestos, considerando a “Trilogia de Apu” e a saga “O Senhor dos Anéis” como obras únicas, em função da unidade conceitual e estética. O mesmo não valeu para os filmes tão díspares, como os que compõem as trilogias “Star Wars” e “Poderoso Chefão”.

A lista é definitiva mesmo?

Sim.

Pelo menos até amanhã…

1 — Lawrence da Arábia (1962), de David Lean

“Lawrence da Arábia” é o melhor filme de todos os tempos. Por quê? Não é uma obra inovadora que revolucionou a linguagem do cinema, mas acertou em tudo a que se propôs, realizando cada um dos aspectos com excelência, elevando o nível do que foi feito até então e se tornando o padrão para tudo o que seria realizado posteriormente. Magnífico em todos os aspectos técnicos e artísticos, “Lawrence da Arábia” é, ao mesmo tempo, uma biografia romantizada, uma aventura épica, um filme histórico e um sofisticado estudo de personagem. Até os momentos cômicos funcionam. Praticamente todas as cenas são memoráveis, dignas de se tornarem quadros na parede. Podendo ser interpretado sob os mais diversos aspectos, se “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, é um livro catedral, “Lawrence da Arábia” é um filme catedral.

2 — 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick

Kubrick conseguiu a façanha de transformar um filme de arte em ícone pop. A cena do buraco de minhoca espacial é o mais próximo que um cinéfilo nerd pode chegar de uma viagem de LSD.

3 — Cidadão Kane (1941), de Orson Welles

Durante décadas, “Cidadão Kane” liderou a lista dos melhores filmes de todos os tempos, até ser superado por “Um Corpo que Cai” (que nem mesmo é o melhor filme de Hitchcock) e, em algumas seleções menos influentes, por “O Poderoso Chefão”. Certamente, é o filme mais influente e revolucionário entre os primeiros colocados em qualquer lista, embora não seja perfeito, como demonstrou a decana da crítica americana Pauline Kael, no livro “Criando Kane e Outros Ensaios”. Seja como for, “Cidadão Kane” é uma obra de mestre, surpreendentemente realizada por um jovem de vinte e cinco anos que se tornaria o mais colossal fracassado da história do cinema. Quem começa no auge só pode cair.

4 — O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola

As respostas para todas as perguntas estão na Bíblia, em “O Poderoso Chefão” e no número 42.

5 — Andrei Rublev (1966), de Andrei Tarkóvski

Outro filme catedral, “Andrei Rublev” representa a quintessência da arte do mestre russo Andrei Tarkóvski. Contém a poesia visual e sonora de “O Sacrifício”, “O Espelho” e “Nostalgia”, o rigor estético de “Solaris” e “Stalker”, e ainda narra muito bem sua história, como em “O Rolo Compressor e o Violinista” e “A Infância de Ivan”. A sequência da construção do sino concentra em si alguns dos mais belos momentos da história do cinema. Para assistir ajoelhado.

6 — Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa

O cinema de Kurosawa, diferente de, digamos, Ozu ou Kinoshita, é a ponte perfeita entre a arte oriental e a ocidental. Não por acaso, alguns de seus trabalhos foram refilmados com sucesso. “Yojimbo”, por exemplo, inspirou “Por um Punhado de Dólares”, de Sergio Leone, e “O Último Matador”, estrelado por Bruce Willis. Esse “Os Sete Samurais” inspirou “Sete Homens e um Destino”. O faroeste com Yul Brynner e sua turma é bom, mas o original é obra de mestre. Jamais será igualado. Cenas como a batalha na chuva e o incêndio permanecem gravadas na imaginação de quem as assistiu.

7 — O Sétimo Selo (1956), de Ingmar Bergman

Um cavaleiro cruzado jogando xadrez com a morte. Uma ideia seminal, traduzida em uma imagem imortal.

8 — O Anjo Exterminador (1962), de Luis Buñuel

A natureza animal do ser humano, exposta com crueza.

9 — A Doce Vida (1960), de Federico Fellini

Cada parte do filme representa um dos sete pecados capitais? Tudo bem, Anita Ekberg vale uma temporada no purgatório.

10 — Blade Runner, O Caçador de Androides (1982), de Ridley Scott

Mais forte, mais ágil, mais inteligente do que os filmes comuns.

11 — Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio De Sica

Um filme neorrealista italiano do pós-guerra que consegue agradar e emocionar qualquer público.

12 — Laranja Mecânica (1972), de Stanley Kubrick

Horror Show!

13 — Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola

O filme antibelicista por definição e um estudo profundo sobre a psique humana em situações extremas. É um dos casos no qual a versão do diretor piorou a obra original. A versão “redux” de “Apocalipse Now” é um elefante branco.

14 — O Leopardo (1963), de Luchino Visconti

Um dos raros casos em que o filme é tão bom quanto o livro.

15 — Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock

Comparo esse filme com um tapete persa. A tradição dos tecelões persas defende que se deve sempre deixar um fio solto em seus maravilhosos tapetes, como forma de testemunho de que apenas Alá é perfeito. Só há um plano “imperfeito” em todas as centenas de cenas de “Janela Indiscreta” e dura apenas uns dois segundos. Veja o filme com atenção e tente descobrir qual é.

16 — Cantando na Chuva (1952), de Gene Kelly e Stanley Donen

Tente não sorrir assistindo ao número musical na chuva.

17 — Metrópolis (1927), de Fritz Lang

Nosso futuro, se os nazistas tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial.

18 — Aurora (1927), de F. W. Murnau

Uma das mais notáveis realizações estéticas da era do cinema mudo.

19 — O Terceiro Homem (1949), de Carol Reed

O melhor final infeliz da história do cinema.

20 — A Regra do Jogo (1939), de Jean Renoir

Um filme para damas, cavalheiros e criadagem. A sequência da caçada entra no panteão das melhores.

21 — Amadeus (1984), de Milos Forman

Quem não assistiu a essa obra-prima pode se considerar cúmplice do assassinato de Mozart.

22 — Rastros de Ódio (1956), de John Ford

Esse é o maior faroeste de todos os tempos? Talvez “O Homem que Matou o Facínora” seja mais bem escrito. Talvez “Johnny Guitar” seja mais instigante. Talvez “Os Brutos Também Amam” seja mais empolgante. Talvez “Meu Ódio Será Sua Herança” seja mais realista. Talvez “A Face Oculta” seja mais profundo. Enquanto os mortais discutem, John Wayne cavalga magnânimo pelo Monument Valley.

23 — Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein

Eisenstein era fã do Mickey Mouse. Achei que deveria lembrá-los desse fato.

24 — Era Uma Vez em Tóquio (1953), de Yasujiro Ozu

Lento e belo como a vida.

25 — Olympia (1938), de Leni Riefenstahl

Segundo a crítica de cinema Pauline Kael, “Leni Riefenstahl é um dos cerca de doze gênios criativos que trabalharam com a mídia cinema”. O que a coloca ao lado de figuras como Orson Welles, Hitchcock e Eisenstein. Ela era nazista? Segundo a própria Leni, não era, mas apenas uma artista fascinada pela beleza. No documentário “Olympia”, ela colocou todo o seu talento para fazer o maior de todos os registros dos jogos olímpicos, retratando as competições como balés de corpos em movimento. A política aqui é mero detalhe. Contudo, o mesmo não pode ser dito com relação a “O Triunfo da Vontade”, documentário sobre o congresso do partido nazista de 1934. Por suas escolhas artísticas e más companhias, Leni já foi sentenciada em Nuremberg, mas nunca mais deixou de ser julgada.

26 — Ben-Hur (1959), de William Wyler

Um dos melhores filmes bíblicos. A sequência da corrida de quadrigas é a maior cena de ação de todos os tempos. E é apenas uma pequena parte desse filme excepcional, digno de ser admirado por cristãos, pagãos e ateus.

27 — O Mágico de Oz (1939), de Victor Fleming

Assista ouvindo “The Wall”, de Pink Floyd.

28 — O Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder

Comparando esse clássico com a maioria da produção contemporânea, fica a sensação de que Norma Desmond tem razão: os filmes de hoje estão mesmo ficando pequenos demais.

29 — Rashomon (1950), de Akira Kurosawa

Um diz que esse filme é bom. Outro que é ótimo. Um terceiro defende que é uma obra-prima. Enquanto isso chove lá fora.

30 — Psicose (1961), de Alfred Hitchcock

Hitchcock filmou “Psicose” em preto e branco para não chocar o público. Não foi o suficiente. Até hoje.

31 — Amarcord (1973), de Federico Fellini

Um filme para ficar e sair da memória, simultaneamente.

32 — Era Uma Vez no Oeste (1968), de Sergio Leone

Esse filme é uma ópera.

33 — Morte em Veneza (1971), de Luchino Visconti

O poder avassalador da beleza.

34 — A General (1926), de Buster Keaton e Clyde Bruckman

No filme “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolluci, dois personagens discutem quem é melhor: Chaplin ou Buster Keaton? Para um — não por acaso francês —, Chaplin é insuperável, enquanto o outro — um americano — defende que Keaton era um cineasta de verdade, enquanto Chaplin só se preocupava com sua própria performance. Questão de opinião. Pessoalmente, coloco Keaton um degrau acima.

35 — Em Busca do Ouro (1925), de Charles Chaplin

O crítico Paulo Emílio Salles Gomes, no ensaio “Chaplin é cinema?”, relativizou a habilidade de cineasta do eterno Carlitos. Chaplin seria um diretor apenas mediano, mas uma grande figura cinematográfica. Nesse “Em Busca do Ouro” temos um Chaplin despido de sentimentalismos ou proselitismo político, preocupado apenas em ser engraçado. Atingiu seu auge, mostrando que poderia ter sido ainda maior do que foi.

36 — Meu Tio (1958), de Jacques Tati

Chaplin ou Keaton? Tem gente que prefere Tati. O francês tem o lirismo do primeiro, porém sem seu gosto pelo melodrama, e a habilidade técnica do segundo.

37 — Pulp Fiction: Tempo de Violência (1994), de Quentin Tarantino

Quentin Tarantino é o cineasta favorito de oito entre dez jovens cinéfilos descolados. Andar com camisetas tarantinescas é cool! Dono de um toque de Midas pop, grande parte de sua reputação se deve a “Pulp Fiction”. O próprio Tarantino reconhece que jamais conseguirá igualar o que realizou nesse trabalho. “Pulp Fiction” é o seu “Cidadão Kane”. O que não deixa de ser um bom negócio, afinal, Zed is dead, baby, Zed is dead.

38 — Manhattan (1979), de Woody Allen

Woody Allen reinventou a comédia romântica com “Annie Hall”. Em “Manhattan” ele foi além, mostrando que também pode ser um grande cineasta quando se dá ao trabalho. “Crimes e Pecados” pode ser mais ambicioso, “Zelig” mais inventivo e “A Rosa Púrpura do Cairo” mais sensível, mas “Manhattan” ainda é seu trabalho mais sofisticado, com enredo mais bem resolvido e tecnicamente irrepreensível. Alguns podem preferir “Match Point”, mas parece-me que outro cineasta poderia filmar o mesmo roteiro com resultados igualmente satisfatórios, ao passo que somente Woody Allen poderia dirigir e estrelar “Manhattan”. É um filme assinatura e uma bela homenagem a Nova York.

39 — Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese

Você está falando comigo? Não tem mais ninguém aqui. Você está falando comigo?

40 — Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci

Foi censurado no Brasil. Passa uma manteiguinha que liberam…

41 — Teorema (1968), de Pier Paolo Pasolini

Acho que entendi. Tenho certeza que gostei.

42 — Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini

Anna Magnani é a atriz mais chata de todos os tempos, mas até isso funciona no filme.

43 — O Nascimento de Uma Nação (1915), de D. W. Griffith

A certidão de nascimento do cinema enquanto linguagem. Afinal, nem tudo o que é bom e belo é necessariamente justo (KKK! WTF?).

44 — No Tempo das Diligências (1939), de John Ford

O primeiro faroeste realmente sério e ainda um dos melhores.

45 — A Marca da Maldade (1958), de Orson Welles

Indico o plano sequência na abertura desse filme como forma de aprender a diferença entre realmente ver ou simplesmente olhar uma cena.

46 — A Felicidade Não se Compra (1946), de Frank Capra

Um irresistível hino ao otimismo. Nunca foi tão bom ser ingênuo.

47 — Stalker (1979), de Andrei Tarkóvski

Em “Stalker”, Tarkóvski apurou sua visão de ficção científica apresentada em “Solaris”. Minha tese sobre esse filme: corpos humanos percorrendo telas expressionistas abstratas.

48 — Trinta Anos Esta Noite (1963), de Louis Malle

Um filme existencialista.

49 — Sindicato de Ladrões (1954), de Elia Kazan

O deus Brando em sua melhor atuação.

50 — Casablanca (1942), de Michael Curtiz

Umberto Eco escreveu certa vez que a força de “Casablanca” está no feliz acúmulo de vários clichês do cinema. Um clichê sozinho incomoda. Vários clichês, com sorte, podem gerar um conjunto harmonioso. É uma explicação. Seja como for, tenho uma longa amizade com esse filme.

51 — A Ponte do Rio Kwai (1957), de David Lean

Quem nunca tentou assobiar a marchinha “Colonel Bogey”?

52 — Morangos Silvestres (1957), de Ingmar Bergman

O personagem de Woody Allen em “Manhattan” afirmou que Bergman é o único gênio do cinema. Exagero, considerando que o próprio Allen é um gênio do cinema. Em todo caso, “Morangos Silvestres”, assim como “Gritos e Sussurros”, “Persona” e “Fanny e Alexander” são mesmo obras de gênio. Woody Allen fez sua versão de “Morangos Silvestres” em “Desconstruindo Harry”.

53 — Trilogia de Apu (1955/1956/1959), de Satyajit Ray

Esqueçam o oscarizado épico “Gandhi” ou mesmo o “Mahabharata” de Peter Brook. Se pretende conhecer algo sobre a Índia, o conjunto formado por “A Canção da Estrada”, “O Invencível” e “O Mundo de Apu” é a melhor porta de entrada. A principal lição que aprendemos com esses filmes é que os indianos não são nem os paspalhos da novela da Globo nem os seres iluminados que muitos hippies de butique imaginam. São gente como a gente.

54 — Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut

A morte precoce de Truffaut, com apenas 52 anos, foi uma das maiores perdas da história do cinema. Diretor de obras-primas como “Os Incompreendidos”, “Jules e Jim” e “A Noite Americana”, Truffaut ainda produziria muito. Assistindo a “Fahrenheit 451”, fico imaginando que magnífico “livro” desapareceu quando o perdemos.

55 — Acossado (1960), de Jean-Luc Godard

Gênio? Louco? Charlatão? Esfinge banguela? Caricatura de si mesmo? O Jean-Luc Godard de hoje tornou-se um fetiche dos cinéfilos PIMBA (Pseudointelectuais metidos a besta), mas ninguém pode lhe tirar a glória de ter sido um verdadeiro “enfant terrible” do cinema entre as décadas de 1960 e 1980. Godard verdadeiramente revolucionou o cinema. Poucos podem dizer isso. “Acossado” foi seu cartão de visitas.

56 — 12 Homens e Uma Sentença (1957), de Sidney Lumet

Tema espinhoso e polêmico. Cenário praticamente único. Ótimo time de atores, capitaneado por um astro, Henry Fonda. Roteiro muito bem escrito. Fotografia discreta e eficiente. Direção segura. Parece simples, mas fazer o simples bem feito é sempre o mais difícil.

57 — Napoleão (1927), de Abel Gance

A era do cinema sonoro ainda deve uma versão definitiva da saga de Napoleão Bonaparte. Esse foi um dos projetos abandonados por Kubrick na década de 1970. Por hora, a melhor realização cinematográfica sobre o imperador francês ainda é esse imponente longa-metragem mudo, repleto de experiências estéticas e sem medo de ser grandioso. Exatamente como seu personagem título.

58 — O Exorcista (1973), de William Friedkin

Friedkin é um dos menos reconhecidos entre os cineastas do primeiro time. Fez alguns trabalhos menores, mas tem em sua filmografia obras poderosas, como “Comboio do Medo”, “Operação França” e “Parceiros da Noite”. Merece um resgate. Em seu melhor e maior filme, “O Exorcista”, realizou não apenas a quintessência do terror, mas um drama psicológico dos mais sofisticados. Veja a versão de 1973, o relançamento com efeitos especiais digitais tirou muito da sutileza do filme original.

59 — Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders

Discutindo o sexo dos anjos, literalmente.

60 — Juventude Transviada (1955), de Nicholas Ray

Alguns cínicos afirmam que quando Marlon Brando vestiu suas calças jeans em “O Selvagem”, produziu uma revolução muito maior na juventude do que todos os livros de Marx juntos. Talvez seja um exagero. Mas se somarmos nessa equação a jaqueta vermelha que James Dean usou em “Juventude Transviada”, aí sim teremos algo.

61 — A Paixão de Joana D’Arc (1928), de Carl Theodor Dreyer

O mestre Nicholas Ray costumava dizer que o cinema é a “magia dos olhares”. Essa máxima nunca foi tão verdadeira quanto em “A Paixão de Joana D´Arc”, nos magníficos closes em Renée Maria Falconetti.

62 — Era Uma Vez na América (1984), de Sergio Leone

Depois de fazer história com seus “faroestes espaguete” na Itália, Sergio Leone foi para a América fazer “filmes de gangster espaguete” no melhor estilo americano. Se não fosse a trilogia do “Chefão”, esse “Era Uma Vez na América” seria o melhor exemplar de um gênero que conta com pérolas como os dois “Scarface”, “Os Bons Companheiros” e “Inimigo Público Número 1”.

63 — O Atalante (1934), de Jean Vigo

Nada mais pesado do que a leveza do cotidiano.

64 — O Tesouro de Sierra Madre (1948), de John Huston

Esse filme vale ouro.

65 — O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski

Quem aí não acredita piamente que viu o bebê capiroto? Eu vi, eu vi, sim, eu vi…

66 — Touro Indomável (1980), de Martin Scorsese

Martin Scorsese estava convicto que esse seria seu último filme. Por isso concentrou nele todo seu talento. Felizmente, não foi seu último trabalho. Felizmente, Scorsese pensou que seria.

67 — Blow Up – Depois Daquele Beijo (1966), de Michelangelo Antonioni

Só uma obra-prima pode ter o mestre Jimmy Page, do Led Zeppelin, como figurante.

68 — Tubarão (1975), de Steven Spielberg

Spielberg é um grande cineasta em obras como “A Lista de Schindler”, “A Cor Púrpura” e “O Império do Sol”, mas outros diretores poderiam fazer esses mesmos trabalhos tão bem quanto ele, e talvez até os melhorassem, diminuindo o melodrama. Seu verdadeiro gênio, sua assinatura mais destacada, se manifesta em filmes aventurescos e divertidos, mas nem por isso menos inteligentes, como “Encurralado”, “E.T.” e a série Indiana Jones. Dessa leva, o melhor é “Tubarão”, não por acaso o primeiro “blockbuster” da história.

69 — Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood

“Todos vão saber que Clint Eastwood é o maior covarde do oeste” (fala de “De Volta Para o Futuro III”).

70 — Patton (1970), de Franklin J. Schaffner

O comunistinha covarde que não apreciar a grandeza patriótica desse filme vai levar uns tapas. Em tempo: se fosse um sujeito bonito, George C. Scott teria sido o maior astro de cinema de todos os tempos.

71 — Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks e Arthur Rosson

O maior exemplo de conflito de gerações da história do cinema.

72 — Bonnie e Clyde: Uma rajada de balas (1967), de Arthur Penn

Nada menos que o filme marco da Nova Hollywood.

73 — Um Estranho no Ninho (1975), de Milos Forman

Um filme tão impactante que Jack Nicholson nunca mais conseguiu sair dele.

74 — O Silêncio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme

Recomendo que leiam o profundo e complexo ensaio escrito por, acreditem, Olavo de Carvalho. Depois da leitura nunca mais verão “O Silêncio dos Inocentes”, nem o Olavo, da mesma forma.

75 — Os Excêntricos Tenenbaums (2002), de Wes Anderson

A prova de que nem todos os escritores que fazem cinema estão traindo a arte.

76 — Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha

Lembrando o bom e velho Paulo Francis: o filme é uma porcaria, mas o diretor é um gênio.

77 — O Rei Leão (1994), de Roger Allers e Rob Minkoff

(…) Desculpe, não posso escrever nada agora, estou ocupado dançando e cantando “Hakuna Matata”…

78 — Veludo Azul (1986), de David Lynch

Existe algo de podre no reino do “american way of life”.

79 — O Senhor dos Anéis (2001 / 2002 / 2003), de Peter Jackson

Um filme para dominar a todos.

80 — Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan

Por mais que, por exemplo, o “Super-Homem: O Filme”, de Richard Donner, seja icônico e nos tenha feito acreditar que “um homem poderia voar”, ainda está preso no gênero “filmes de super-heróis”. “O Cavaleiro das Trevas” transcende esses limites. É um ótimo filme de super-heróis, mas também é um policial instigante e um suspense de primeira linha. E, claro, apresentou o Coringa definitivo.

81 — Os Caçadores da Arca Perdida (1981), de Steven Spielberg

Indiana Jones não faria diferença no desenrolar da história?! Se isso for verdade, então, é como na vida real. Só torna o filme melhor.

82 — O Império Contra-Ataca (1980), de Irvin Kershner

“Guerra nas Estrelas” mudou o cinema. Não fosse a canhestra direção de atores de George Lucas, estaria na lista. Essa honra cabe à sua continuação, uma aventura de ficção científica perfeita.

83 — Os Intocáveis (1987), de Brian De Palma

Engana-se quem pensa que esse filme é sobre a investigação e captura de Al Capone pelo lendário agente federal Eliot Ness e seus companheiros incorruptíveis. “Os Intocáveis” é um filme sobre cinema.

84 — Trainspotting (1996), de Danny Boyle

Foi anunciado como o “A Laranja Mecânica” da nova geração. Agora que a nova geração tornou-se veterana, sabemos que não é. Mas é um dos mais incisivos retratos sobre o mundo contemporâneo produzido pelo cinema.

85 — Beleza Americana (1999), de Sam Mendes

Quanto o produtor Steven Spielberg entregou o roteiro para o diretor Sam Mendes, recomendou enfático: “não mude uma linha”. Felizmente, foi obedecido.

86 — … E o Vento Levou (1939), de Victor Fleming

Esse filme é um novelão. Mas quem disse que uma boa novela não pode ser ótima?

87 — Matrix (1999), de Lana Wachowski e Andy Wachowski

Fico imaginando se o filme “Matrix” não é um recurso da matrix para distrair-nos do fato de estarmos todos confinados na matrix, assistindo às duas péssimas continuações de “Matrix”. Se for, a ignorância é mesmo uma bênção.

88 — Ligações Perigosas (1988), de Stephen Frears

Você vai adorar a sofisticação, refinamento e inteligência desse filme. Quer apostar?

89 — Clube da Luta (1999), de David Fincher

Regra número um: Você não fala sobre o clube da luta. Regra número dois: Você NÃO fala sobre o clube da luta.

90 — Faça a Coisa Certa (1989), de Spike Lee

Spike Lee tornou-se um patrulheiro insuportável. Felizmente, nesse filme conseguiu fazer a coisa certa ao tratar da questão do racismo sem radicalismo, condescendência ou pieguice.

91 — Fale com Ela (2002), de Pedro Almodóvar

Esse Almodóvar me arrepia os cabelos do… (sim, isso é uma citação).

92 — Ondas do Destino (1996), de Lars Von Trier

O Dogma 95 em seu momento áureo. Com um final que rasga todas as regras do manifesto Dogma 95. Lars Von Trier é mesmo um cínico, no melhor dos sentidos.

93 — Cinzas no Paraíso (1978), de Terrence Malick

Antes de ficar obcecado em colocar meninas bonitas girando sem parar sobre o próprio eixo em projetos pretensiosos e mal acabados, como “Árvore da Vida”, “O Novo Mundo” e “Amor Pleno”, Terrence Malick realmente foi um projeto de gênio. Pena que voltou de seu autoexílio de duas décadas. Funcionava mais como mito recluso do que como cineasta na ativa.

94 — Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund

“Favela movie” no melhor estilo chiclete com banana.

95 — O Segredo de Seus Olhos (2009), de Juan José Campanella

O pior defeito do cinema brasileiro é o descaso com o roteiro. A maior qualidade do cinema argentino é o cuidado com o roteiro.

96 — Viagem de Chihiro (2001), de Hayao Miyazaki

Um filme para ser visto com humildade, ciente de que não basta fazer yoga e comer sushi para achar que entende alguma coisa sobre a riquíssima cultura oriental.

97 — Herói (2002), de Zhang Yimou

Existe uma longa tradição de filmes de Kung Fu no cinema. As coreografias são sempre um espetáculo por si só, mas o que torna “Herói” especial, para além do pano de fundo histórico, é o fato de que foi dirigido por um cineasta de verdade. Imaginem se o homem que dirigiu o sensível “Lanternas Vermelhas” tivesse tido a chance de trabalhar com o mestre Bruce Lee. “Herói” é o mais próximo que se pode chegar dessa utopia.

98 — Sangue Negro (2008), de Paul Thomas Anderson

Fé, ambição e petróleo. O mais próximo que se chegou de Kubrick após a morte do mestre.

99 — Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore

Uma ode ao cinema. Tudo o que o melodramático “Cine Majestic” tentou ser e não conseguiu. O que prova que talento é mais importante que orçamento.

100 — Um Sonho de Liberdade (1995), de Frank Darabont

Figura em algumas seleções de voto popular como o primeiro da lista. Não se justifica, embora seja um ótimo filme. Fica na digna posição de centésimo. Os últimos serão os primeiros?