Valorizando seu dinheiro – II

Brasil: Império Independente!

Mil-Réis

Como toda grande mudança implica em “botar a casa em ordem”, com o Brasil não foi diferente. Com a independência proclamada em 1822 teve início o Império Brasileiro, tendo D. Pedro I como imperador. Seu período inicial foi marcado por profunda crise (êêê… já começou…) devido às dificuldades de organizar uma nova nação, pois toda gastança necessária resultou na diminuição da quantidade de ouro e prata em circulação, de modo que predominavam as moedas de cobre.

Aliás as moedas mantiveram o mesmo padrão das moedas do período colonial, sofrendo pequenas alterações para se adequar à nova situação política. As Armas de Portugal foram substituídas pelas do Império e acrescentou-se a frase “IN HOC SIGNO VINCES” (“Com este sinal vencerás”).

Já que o “Brasil era nosso”, com o tempo algumas padronizações foram necessárias. Como a população já estava acostumada com o “Réis” como sendo o dinheiro oficial e, graças à desvalorização através do tempo, o “Mil-Réis” é o que fazia parte de seu dia a dia, o então Imperador D. Pedro II (veja só: com apenas 8 anos de idade…) resolveu oficializar essa situação através da Lei nº 59, de 08/10/1833, de modo que o Mil-Réis passou a designar a unidade monetária e Réis os valores divisionários (algo como nossos centavos de hoje em dia). Na mesma época ficou conhecido o Conto de Réis, que correspondia a 1 milhão de Réis ou mil Mil-Réis.

Confuso? Nem tanto. Imaginemos a importância de “2 contos, 320 mil e 160 Réis”. Sua grafia seria assim: R2:320$160.

A nova “família” de moedas criada desde então, ainda que com os mesmos valores de referência de réis, foi conhecida como “Cruzados”.

Pois bem. Com o império já estabelecido era necessário garantir o progresso econômico do país, o que por sua vez exigia recursos monetários distribuídos por várias regiões. Para suprir essa demanda começaram a surgir bancos em diversas cidades brasileiras e, com as bênçãos do governo, cada qual emitindo dinheiro – isto é, tal qual na época de D. João VI, “bilhetes pagáveis ao portador”.

Foi um período interessante e de transformação para a população. Aquela “moeda de papel” foi aos poucos conquistando sua confiança, que começou a adquirir o hábito de usá-la em substituição ao conhecido dinheiro de metal – principalmente quando se tratava da necessidade de se transportar grandes quantias.

Mas Murphy é Murphy em qualquer época! Pra “ajudar” nos trancos e barrancos que um sistema monetário nacional incipiente e em surgimento por si só já tem, eis que desse nosso povinho começaram a surgir inúmeras falsificações. Lembram que, pela escassez dos metais nobres, predominavam as moedas de cobre? Então. Com esse tipo de metal em abundância, essas moedas eram facilmente falsificáveis. Para tentar acabar com isso a partir de 1833 o governo passou a emitir cédulas do Tesouro Nacional que serviam exatamente para substituir as moedas de cobre em circulação.

Vejam o furdúncio: além de todas aquelas antigas moedas em circulação, tínhamos as moedas de cobre falsificadas, os antigos bilhetes ao portador do extinto Banco do Brasil, as cédulas dos bancos locais e mais as cédulas emitidas para troca do cobre. E tudo circulando como moeda corrente! Era preciso começar a dar um basta nisso!

E foi assim que em 1835, não só visando resolver esse problema mas também para uniformizar as cédulas em circulação, o governo emitiu a primeira família de cédulas próprias, criadas e impressas na Inglaterra pela Perkins, Bacon & Petch.

Foi essa a primeira vez que o Tesouro Nacional assumiu o monopólio das emissões de dinheiro.

O Segundo Banco do Brasil

O segundo Banco do Brasil foi criado pelo Visconde de Mauá, e foi formado pela fusão do antigo Banco do Brasil com o Banco Comercial do Rio de Janeiro, tendo iniciado suas atividades em 1854, passando a ser o único emissor de moeda.

Com a generalização do uso de cédulas, a cunhagem de moedas direcionou-se para a produção de valores destinados ao troco. O cobre foi sendo substituído por ligas modernas, mais duráveis, de modo a suportar a circulação do dinheiro de mão em mão. A partir de 1868 foram introduzidas moedas de bronze e a partir de 1870 moedas de cuproníquel (uma liga de cobre e níquel). Com essa palavrinha difícil para a população – “cuproníquel” – por comodidade foi anunciada como se fosse apenas de “níquel”; e daí, dada a nossa brasileira facilidade de criar apelidos para seja lá o que for, de “níquel” pra “Nicolau” foi só um instante…

No tocante às cédulas, no decorrer do tempo as mesmas muitas vezes eram fabricadas com diversas estampas (com as figuras/apresentação diferentes), ainda que com o mesmo valor, por conta das falsificações. Pela ordem cronológica, ainda durante o Império, foram lançadas pelo Tesouro Nacional as seguintes cédulas:

1.000 Réis (lançada em 1835, teve 7 estampas). A sétima, de 1888, possuía na face o Museu Imperial de Petrópolis à esquerda e D. Pedro II à direita; no verso, a estátua equestre de D. Pedro I, com a inscrição IMPERIO DO BRAZIL e valor facial.

2.000 Réis (lançada em 1835, teve 8 estampas). A oitava, de 1888, possuía na face D. Pedro II à esquerda e a Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo (Rio de Janeiro) à direita; no verso, a Rua Direita, no Rio de Janeiro.

5.000 Réis (lançada em 1835, teve 9 estampas). A nona, de 1888, possuía na face D. Pedro II à esquerda, um querubim ao centro e a Alegoria das Artes à direita; no verso, as Armas do Império, a inscrição IMPERIO DO BRAZIL e valor facial.

10.000 Réis (lançada em 1835, teve 8 estampas). A oitava, de 1888, possuía na face D. Pedro II à esquerda, o Brasão do Império ao centro e a Alegoria da Fortuna à direita; no verso, as Armas do Império, a inscrição IMPERIO DO BRAZIL e valor facial.

20.000 Réis (lançada em 1835, teve 8 estampas). A sexta, de 1870, possuía somente a face, com a vista do Ancoradouro do Rio de Janeiro ao centro e figuras alegóricas à esquerda e à direita.

50.000 Réis (lançada em 1835, teve 6 estampas). A segunda, de 1839, possuía somente a face, com o Brasão do Império do Brasil à direita e a Alegoria da Justiça com a data da independência brasileira ao centro.

100.000 Réis (lançada em 1835, teve 5 estampas). A quarta, de 1867, possuía somente a face, com a Alegoria do Descobrimento do Brasil ao centro e figuras alegóricas à esquerda e à direita.

200.000 Réis (lançada em 1835, teve 6 estampas). A quarta, de 1867, possuía somente a face, com D. Pedro II nos cantos superior esquerdo e inferior direito, bem como a Alegoria da Justiça ao centro.

500.000 Réis (lançada em 1836, teve 5 estampas). A quinta, de 1885, possuía na face D. Pedro II acima, o Brasão do Império à esquerda e uma mulher à direita; no verso, D. Pedro II à esquerda e a inscrição IMPERIO DO BRAZIL e Armas do Império à direita.

500 Réis (lançada em 1874, teve 2 estampas). A segunda, de 1878, possuía na face D. Pedro II ao centro, ladeado por duas figuras femininas; no verso, as Armas do Império do Brasil, a inscrição IMPERIO DO BRASIL e valor facial.

Aliás, uma curiosidade inútil: sabiam que D. Pedro II foi a personalidade cujo rosto mais apareceu na moeda brasileira?

Bem, nesta segunda parte dessa história pudemos verificar que esse negócio de emitir moeda não era fácil não! Desde priscas eras esse nosso povinho já tinha uma certa predisposição para querer levar vantagem em tudo, certo? (e olha que a “Lei de Gérson” somente viria muito tempo depois…), pelo que a falsificação era uma constante. Para tentar coibir isso, durante os 67 anos que durou o Império Brasileiro foi emitida uma variedade absurda de cédulas, sempre tentando cada vez mais melhorar a qualidade de sua confecção. Mas a vindoura República também teria seus próprios problemas!


E a Família Andrade, como vai?

Agora é que a história dá um nó! Lembram-se de meu tetravô que foi casado com a própria prima? Então. Ele era um dos mais velhos dentre seus 11 irmãos e teve meia dúzia de filhos, inclusive minha trisavó Maria da Glória Teixeira Guimarães, nascida em 1850. E eis que ela casou-se com Joaquim Theodoro de Andrade, um dos irmãos mais novos de seu pai. Sim, isso mesmo, ela casou-se com o próprio tio! Tudo bem, os tempos eram outros, as idades eram compatíveis e tudo ficaria em família mesmo… Mas isso dá um nozinho na cabeça, pois acabou que ele ficou sendo ao mesmo tempo tanto meu “tio-tetravô” quanto meu “trisavô”… Enfim, casaram-se e seu filho, meu bisavô, João Agnello de Andrade, nasceu em 1877. Mais tarde, logo após a virada do século, viria a casar-se com Iria Rita de Bem (descendente das famílias Novaes e Carneiro de Bem).


(Início da Saga)

(Continua…)

Valorizando seu dinheiro – I

Outro dia estava no escritório das meninas conversando sobre atualização de valores. No mundo do juridiquês moderno não há mais que se ter um contador à mão para fazer os cálculos de correção monetária, juros e multas para liquidação de sentenças judiciais: para tudo há um aplicativo, para tudo há um programa, para tudo há um complemento, um plugin, um sei-lá-o-quê, on-line ou off-line, que permite fazer as contas em poucos minutos.

Tá, às vezes não tão poucos assim…

E era exatamente o que estava acontecendo: o bendito do programa on-line funcionava somente em um computador e não no outro, ao que me foi perguntado se dentro de meus conhecimentos de tecnomagia eu teria a resposta para configurar direito aquele perrengue.

“Sei não… Até porque nunca usei um desses programas. Confio mais nos cálculos que eu mesmo faço através das planilhas que tenho lá nas catacumbas de meu computador. Já tem toda a previsão de conversão de moeda, atualização, juros, multas, o escambau!”

Ainda não foi dessa vez que elas me atiraram do nono andar, mas ói que estiveram bem perto disso…

Pô, que culpa eu tenho se quando comecei a advogar me especializei justamente em liquidação de sentenças? Oi? Não sabem o que é isso? Fácil: é pegar todo aquele emaranhado de juridiquês que o juiz proferiu na sentença (cuja linguagem empolada muitas vezes aproxima-se do sânscrito arcaico) e transformar os valores em numerozinhos inteligíveis. Ou seja, é “tornar líquido” o direito conferido pela sentença, transformá-la num valor palpável e atualizado.

E, para isso, tenho minhas boas e velhas planilhas, de já há duas décadas, mas que continuam dando conta do recado!

Mas isso me fez pensar um bocadinho…

Aliás, vamos combinar: na realidade TUDO me faz pensar um bocadinho!

O negócio é que fiquei elucubrando acerca de todas as atualizações de moeda que já tivemos – a maioria delas decorrentes de desastres políticos na economia – e que nos trouxeram até os dias de hoje. Andei dando uma fuçada aqui, aqui e, em especial, aqui… Então, como era muita informação esparsa, resolvi juntar toda essa informação num único lugar, ou seja, cá no nosso Legal.

É isso mesmo, meu povo: senta que lá vem história!

Das compridas, mas nem tanto…

Período Colonial

Antes de termos a moeda própria…

Desde que o ser humano se entende por gente passou a compreender que era necessário praticar atividades comerciais para obter aquilo que precisasse. Ou que quisesse. A habitual prática do escambo (troca de mercadoria por mercadoria) nem sempre tinha lá muita precisão, afinal o troco era meio impossível quando, digamos, um cavalo valia duas vacas e meia…

Para facilitar essas atividades comerciais era necessário algo que fosse aceito por todos como meio de troca e, por isso, criamos essa ficção chamada “moeda”.

E acho que foi a partir daí que a coisa começou a descambar com a humanidade! Uns têm demais, outros têm de menos; uns ganham muito, outros ganham pouco; uns exploram, outros são explorados… Desde que o mundo é mundo tem gente que sofre, que engana e que até mata pelo vil metal.

E cá nestas nossas terras brasileiras o furdúncio já começou desde o início, lá nos idos de 1500…

Bem no comecinho, ainda durante o período colonial, logo após Cabral ter encalhado por aqui e sob a batuta do então rei de Portugal, D. Manuel I, as atividades comerciais eram principalmente baseadas no tal do escambo que já lhes falei. Fora isso, por falta de moeda própria, o negócio era usar as moedas de outros povos mesmo. Afinal de contas a portuguesada chegou por aqui e encontrou uns 3 milhões de índios peladões que não estavam nem aí para esse tal de comércio e que, em troca de víveres e outros bens preciosos, aceitavam espelhinhos, colares e outras bugigangas das lojas de um e noventa e nove da época.

Desse modo, era somente a “população civilizada” que tinha a necessidade de usar moedas para seus negócios. Na mesma medida em que foi aumentando essa população foi também aumentando a circulação de moedas – não só as portuguesas, mas as de diversos outros países, trazidas pelos próprios colonizadores, por invasores, por comerciantes dos mais diversos e até mesmo pelos piratas.

Real Português

A nossa moeda que não era a nossa

Como Portugal era constituído de diversos reinados, de cada um vinha algum tipo de moeda, em geral cunhada em ouro, prata ou cobre, que tinham os mais diversos nomes e apelidos, tais como Português, Cruzado, São vicente, Tostão, Vintém, etc. Entretanto o sistema monetário vigente era um só: o “Real Português” – que, é lógico, a gente tinha que avacalhar e passar a chamar a bagaça de “Réis”.

E já que a bendita da população não parava de aumentar, nos séculos seguintes começaram a enfrentar a escassez da moeda: estava faltando dinheiro suficiente em circulação para atender as demandas locais. E toca a brasileirada a voltar para o escambo! Como forma de pagamento – inclusive, em alguns casos, com reconhecimento oficial, chancelado pelo governo de então – tínhamos o açúcar, algodão, fumo, ferro, cacau, cravo, couro e até mesmo aguardente. É isso mesmo: a boa e velha cachaça era aceita como forma de pagamento pelos comerciantes da época!

A primeira moeda brasileira não era brasileira

Em meados de 1600, mais ou menos durante os reinados de D. João IV e D. Afonso VI (já tendo passado desde então pelos reinados de D. João III, D. Sebastião, D. Henrique e D. Filipe I, II e III), Portugal estava arruinado financeiramente, sem condições de ampliar as defesas na Colônia Brasileira e, para evitar um desastre maior, viu-se obrigado a assinar um acordo de paz com os holandeses que já estavam começando a tomar conta do pedaço.

Estabelecidos em Pernambuco, as remessas de florins, soldos e xelins pela Holanda não eram suficientes para atender as necessidades da administração holandesa no Brasil. Assim, para resolver esse problema, os holandeses foram os responsáveis pela primeira cunhagem de moedas em território brasileiro, ainda que de forma bastante rudimentar, e foram as primeiras a trazerem o nome do Brasil. Eram feitas em ouro, tinham formato retangular e apresentavam a inscrição “G.W.C.”, que corresponde às iniciais em holândes de “Companhia das Índias Ocidentais” (“Geoctroyeerde West-Indische Compangnie”).

Cunhadas a partir de 1645, essas moedas ficaram conhecidas como “moedas obsidianas”, “moedas de cerco” ou “moedas de emergência”. É que em numismática (ciência que tem por objeto de estudo as moedas) “obsidional” é o termo que serve para indicar a moeda de emergência cunhada durante um assédio (do latim obsidium).

Extremamente raras, foram cunhadas em ouro nos valores de III, VI e XII florins, e em prata no valor de XII soldos. Quanto vale isso? Não tenho nem a mais afastada ideia!

Réis

Primeira Casa da Moeda no Brasil

Ainda que os holandeses tenham resolvido seu próprio problema local de falta de moeda, o resto do Brasil continuava na mesma. Era preciso remediar isso através da cunhagem de novas moedas em território brasileiro, de modo que em 1694, lá pelo reinado de D. Pedro II (o de Portugal, não o “nosso”…), Portugal determinou a criação da primeira Casa da Moeda no Brasil, na Bahia. Mais tarde foi transferida para Pernambuco e, finalmente, em 1702, estabeleceu-se no Rio de Janeiro.

Foi dessa forma que surgiu nossa primeira moeda verdadeiramente brasileira, de uso exclusivo na Colônia. A partir de 1695 foram cunhadas moedas de ouro nos valores de 1.000, 2.000 e 4.000 réis, bem como moedas de prata nos valores de 20, 40, 80, 160, 320 e 640 réis.

Em particular a moeda de 20 réis, com o tempo, acabou ficando conhecida como “Vintém”, que era a menor quantidade de dinheiro que alguém poderia possuir. Daí vem a frase: “Fulano não tem sequer um vintém”.

E, ainda, como se já não bastasse que o “Real Português” tivesse se transformado em “Réis” cá em nossas terras, a corruptela prosseguiu e qualquer quantia de mil réis passou a ser pronuciada como “merréis”, que, com o tempo acabou virando sinônimo de dinheiro: “Me dá alguns merréis!”

Outra curiosidade está na série de moedas menores, destacando-se a de 320 Réis, que ficou conhecida como “pataca” (cujo nome originou-se da moeda mexicana). Desse modo a moeda de 160 Réis dessa série correspondia à “meia pataca”, o que no dito popular acabou por designar alguma coisa de pouco valor ou de má qualidade, algo que não vale nada: “Isso não vale meia pataca!”.

De uma para Três

A partir de 1700 houve um notável aumento da produção de ouro no Brasil, de tal monta que para dar conta da transformação de todo ouro que vinha dessa exploração foram necessárias três casas da moeda funcionando simultaneamente. Isso porque as moedas eram produzidas também para Portugal e tinham que ser cunhadas de forma idêntica às do reino português.

Mesmo naqueles tempos a moeda também desvalorizava, de modo que era preciso cunhar moedas de maior valor para diminuir a quantidade a se carregar. Daí que a partir de 1724, já com D. João V ostentando a coroa portuguesa, na Casa da Moeda de Vila Rica, em Minas Gerais, surgiram as moedas de 10.000 e de 20.000 réis – que ficaram conhecidas como “dobrões” (e não, isso não tem nada a ver com Jack Sparrow…).

A partir de 1727, uma nova série de moedas surgiu: os “Escudos”. Possuíam valores de 400, 800, 1.600, 3.200, 6.400 e 12.800 réis e passaram a adotar a tradição europeia, trazendo a figura do governante de um lado (no caso, D. João V) e as armas do reino do outro. E vem daí mais um de nossos termos usuais relativo às moedas: definimos cada um de seus lados como “cara” ou “coroa”

Juntamente com essas moedas de ouro e prata também circulavam moedas de cobre, que foram sendo cunhadas no decorrer do tempo, havendo as de V, X, XX, XL e LXXX Réis, todas com o Brasão do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e com a inscrição em latim “PECUNIA. TOTUM. CIRCUMIT. ORBEM” (“O dinheiro circula pelo mundo todo”).

Foi quando surgiu o apelido de “Tostão” para a moeda de LXXX Réis (ou seja, para aqueles que não têm intimidade com algarismos romanos, Oitenta Réis). A palavra tostão tem origem no francês teston, que era uma moeda de prata com a efígie de um monarca. Já o termo francês foi emprestado do italiano testone, que era uma antiga moeda da segunda metade do século XIII, e a palavra significava literalmente “cabeça grande” (muito provavelmente num dos lados dessas moedas havia um senhor de um cabeçudo. Apesar de nas moedas brasileiras de então não haver nenhuma cara ou cabeça “descomunal”, mas apenas o brasão real ou imperial (conforme a época em que tenham sido cunhadas), o apelido pegou.

Um detalhe: mais tarde esse apelido seria “transferido” para a moeda de 100 Réis, já durante a República.

O Primeiro Banco do Brasil

Sim, sim: o “primeiro”! O que está aí nos dias de hoje já é a quarta versão dessa instituição… Mas voltemos ao fio da moeda. Ops, digo, da meada…

E eis que em 1808, já há muito passado o reinado de D. José, e sob o comando de D. Maria I (que ficou carinhosamente conhecida cá em nossas terras como “A Louca”) escorraçada de Portugal por Napoleão, a Família Real Portuguesa chegou nos portos brasileiros acompanhada de uma comitiva de apenas alguns milhares (sim, eu disse milhares) de pessoas, entre fidalgos, funcionários públicos, militares e membros do clero. O Brasil deixaria de ser o mero Vice-Reino e passaria a ser a Sede da Monarquia Luso-Brasileira, cuja corte graciosamente se instalou na própria cidade do Rio de Janeiro. E graças a esse destemperado aumento demográfico, que coincidiu justamente com a queda na produção de ouro no país, mais uma vez a quantidade de moedas em circulação tornou-se insuficiente.

Para “resolver” o problema naquele mesmo ano de 1808 D. João VI (que era o regente de fato, graças ao estado “mentalmente instável” de sua mãe) criou o Banco do Brasil, afinal era indispensável levantar recursos necessários à manutenção das sempre crescentes despesas da Corte…

Já em 1810 começaram a ser emitidos os primeiros “bilhetes” do Banco, precursores das cédulas atuais. As primeiras cédulas foram impressas com um layout semelhante ao das libras inglesas e eram bilhetes pagáveis ao portador, com valores a partir de 30 mil Réis, lastreados na fortuna da Coroa, ou seja, o dinheiro que trouxeram do Reino quando da debandada – algo em torno de 22 milhões de Libras.

Mesmo assim, em 1829, devido ao grande descontrole na emissão desses bilhetes, esse primeiro Banco do Brasil foi extinto.

Foi ainda durante o final da estadia da Família Real no Brasil que começaram a ser produzidas moedas de cobre com o valor de 37 ½ Réis, que ficaram conhecidas como “Vintém de Ouro” (isso porque, se o vintém tradicional já era um “nada”, este era um “nada um pouquinho maior”…). O porquê dessa medida estapafúrdia? Sinceramente não descobri. Ah, e junto com essa também havia a de 75 Réis.

Bem, esta foi apenas a primeira parte dessa história. Com mais de três séculos de ocupação, eis que o Brasil ainda não tinha sua própria moeda, pois, apesar de todas as variedades cunhadas por aqui, ainda assim eram moedas do Reino Português. E mesmo essas já estavam desvalorizando através do tempo! Somente com a autonomia do país, somente através de sua própria independência, é que talvez fosse possível tentar “melhorar” essa situação – como veremos no “próximo episódio”…

(Observação: É certo que durante todo o período colonial o Brasil foi localmente administrado por governadores, juntas governativas e vice-reis, desde 1549, com Tomé de Souza, até 1808, com Marcos de Noronha e Brito (Conde dos Arcos) – mas estes não tinham lá tanta autonomia em termos de decisões sobre o sistema monetário, o que cabia à Coroa Portuguesa.)


E a Família Andrade, como vai?

ANDRADE – Um sobrenome patronímico o qual acredita-se ser derivado do nome grego Andras, que vem de anér, andrós, andros (homem, masculino, guerreiro). A origem da família encontra-se na Galícia, Espanha, tendo mais tarde se espalhado por Portugal e vindo para o Brasil. Foi lá, na Comarca de Braga, que em 1670 nasceu meu eneavô Inácio de Andrade Peixoto, também foi lá que se casou com Clara de Brito e, ainda, onde em 1728 nasceu seu filho, Antônio de Brito Peixoto (octavô). Este veio para o Brasil e faleceu em Minas Gerais em 1758. De seu casamento com Maria de Moraes Ribeira teve 10 filhos, dentre eles, nascido em 1750, Manoel Joaquim de Andrade (heptavô), que foi casado com Lauriana de Souza Monteiro. Dentre outros, em 1780 tiveram Venância Constância de Andrade (hexavó), que casou-se com Manoel Joaquim de Santana e deram origem à minha pentavó, Maria Emerenciana de Andrade, nascida no ano de 1800, que viria a casar-se com Francisco Teodoro Teixeira, com o qual teve nada menos que 11 filhos! E, destes, em 1820 nasceu também meu tetravô Antônio Teodoro de Santana, o qual casou-se com Margarida Teixeira Guimarães (sua prima por parte de pai).


(Continua…)

Convites e mais convites

No meio de mais uma madrugada – pra variar – insone, eis que mais uma vez comecei a dar uma arrumada na papelada que teimo em guardar e que, de tempos em tempos, teimo em jogar fora…

Como eu estava fazendo algumas anotações sobre genealogia numa pasta (virtual), fui procurar uma pasta (física) que deveria ter alguns documentos que me serviriam. E eis que começo a encontrar alguns outros “documentos” que nem eu mais lembrava que estavam por ali!

Antes de mais nada, deixa eu explicar uma coisinha: em termos de genealogia as pesquisas em fontes “primárias” são totalmente confiáveis e normalmente são feitas tendo por base certidões e registros diversos de cartório; as pesquisas em fontes “secundárias” são relativamente confiáveis, tendo por base outros estudos já efetuados por outros genealogistas e que estão registrados em livros, artigos, etc; e, por fim, as pesquisas em fontes “terciárias” são confiáveis na justa medida em que envolvem fé, imaginação e chutologia, tendo por base a acurada análise de toda e qualquer migalha de informação que possa vir à mão, tais como relatos de parentes, registros de qualquer tipo, notícias de jornais, atas de reuniões e até mesmo convites de casamento…

E é esse o ponto!

No meio da papelada das famílias que estudo ainda tenho diversos convites de casamento guardados como referência de datas e parentescos. E me surpreendi ao constatar que em alguns casos já se passaram mais de dez anos!!! Vejam só:

Sheila & Rodrigo

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Milena & Carlos

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E como não podia deixar de ser, xereta que sou, fui atrás também daqueles do meu próprio casamento. De ambos…

Adauto & Mieko
(Não encontrei um impresso, mas esta foi a “arte” que lhe deu origem.)

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Adauto & Evanilda
(Também era de dobrar, mas essa parte de cima na realidade era a parte externa do convite.)

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Pois é… O tempo voa, não é mesmo? Sei que tenho por aqui em algum lugar uma raridade ainda maior: o convite de casamento de meus pais! Assim que achar também compartilharei cá neste nosso cantinho virtual…

Antonio Mineiro


Antonio Mineiro e sua charrete.

Antonio Antunes Júnior foi meu bisavô pelo lado materno. Nasceu em 11 de fevereiro de 1889 em Mogi Mirim, SP, filho de Antonio Antunes, legítimo português, e de Francisca de Paula Romana, natural de Ouro Fino, MG.

Apesar de paulista, era conhecido no bairro como Antonio Mineiro, sujeito de gênio forte e pavio curto. Lavrador e conhecido amansador de cavalos, morava em Santana, sendo que sua casa ficava ali no finalzinho da Av. Princesa Izabel, antes da última curva, e suas terras avançavam tanto pro lado da Vila Cristina quanto pro lado do Rio Paraíba, onde construiu diversas casinhas de quarto-cozinha que alugava e lhe dava sustento na velhice.


A casa de meu bisavô, década de oitenta. Hoje é um depósito de bebidas…

Foi nessa casa que o conheci e apesar de ele ter falecido em 3 de maio de 1974, no dia seguinte dos meus recém completadados cinco anos, ainda lembro-me dele – em especial de sua cadeira de balanço, que ficava bem na cozinha de piso de caquinhos e cimento queimado, ao lado de uma pesada e rústica mesa, bem próxima do filtro de barro empertigado no canto da parede. Eu costumava ficar em seu colo e ronda-me na memória a curiosidade que eu sentia em tentar descobrir como é que aquele negócio, que era uma cadeira, ficava indo pra frente e pra trás…

Meu bisavô casou-se três vezes. Seu primeiro casamento foi com minha bisavó, Dyonisia Maria de Jesus, em 1907 – poucos meses após o falecimento de seu pai, o português Antonio Antunes.


Antonio, Dyonisia e suas duas filhas.

O casal teve apenas duas filhas: Benedicta Dyonisia Antunes (a “Tia Dita”) e Maria Dyonisia de Jesus, minha avó. Entretanto Dyonisia, a primeira, minha bisa, faleceu em 1914 durante o parto daquela que seria sua terceira filha – mas ambas não resistiram. Minha avó tinha apenas dois anos quando ela faleceu.

O segundo casamento de meu bisavô se deu em 23 de dezembro de 1916, com Maria José do Nascimento, mineira de Conceição dos Ouros, nascida em 1900.


Antonio, Maria José, as duas filhas do primeiro casamento e três do segundo.

Além de criar as duas enteadas, Maria José teve ainda dezoito filhos. É isso mesmo: DE-ZOI-TO! Mas destes somente nove sobreviveram… Ela faleceu em janeiro de 1942, durante o parto da última das crianças.

Nesse meio tempo Dyonisia, sua filha caçula do primeiro casamento (minha avó), acabou casando com meu avô, Bernardo Claudino Nunes, em 1931. Tiveram duas filhas: Dionísia Nunes (minha tia, hoje na Itália) e Bernardete Nunes, minha mãe. Entretanto Dyonisia, a segunda, minha avó, faleceu em 1945 de doença desconhecida. Minha mãe tinha apenas dois anos quando ela faleceu.


Meus avós: Maria Dyonisia e Bernardo.


Meu avô Bernardo, Antonio Mineiro e meu tio-avô Claudino.

Já o terceiro casamento de meu bisavô foi por volta de 1944 com Guilhermina Libano (ou “Libaneo”), nascida em 1897 em Borda da Mata, MG. Quando minha avó faleceu, meu avô trabalhava em São Paulo e precisou deixar suas filhas (minha tia e minha mãe) com Antonio e Guilhermina, em São José dos Campos.

E foi ali, naquela casa, que minha mãe cresceu e veio a conhecer um tal de José Bento de Andrade (vulgo meu pai), moçoilo garboso, vindo da roça e cheio de boas intenções… Diz a lenda que quando meu pai foi pedir minha mãe em namoro para Seo Antonio Mineiro, ele olhou bem fundo nos olhos daquele rapagote, esticou a mão mantendo três dedos levantados e foi dizendo enquanto abaixava cada um dos dedos:

“Quer casar, hein? Então senhor José entenda que comigo a coisa funciona assim: são três meses para namorar (baixa um dedo), noivar (baixa outro dedo) e casar (baixa o terceiro dedo e mostra um ameçador punho fechado)…”

Se foi por isso ou não, sinceramente não sei. Só sei que não demorou muito pro casalzinho estar bem casado…


Meus pais: Bernardete e José Bento.

Antonio e Guilhermina não tiveram filhos. Após o falecimento dele meu pai construiu uma edícula no fundo de nossa casa e ela veio morar conosco. Cresci chamando-a de “vó”, sem, na época, conhecer a linha complexa de parentesco que nos ligava. Adorava seus pastéis fritos, cuja massa ela mesma fazia, bem como lhe era grato pelos trocados que de vez em quando nos dava – “um agrado”, ela dizia. De minha infância, boa parte enfiado no quintal de casa onde havia um pequeno pomar, eu costumava passar horas em sua companhia, brincando à sua volta, e ouvindo histórias e estórias, as quais infelizmente se perderam no tempo. Faleceu em 1982.

Mas como já havia dito, minha mãe foi criada pelos avós (meus bisavós) e – já devem ter percebido – curiosamente houve uma espécie de ciclo em que histórias se repetiram em gerações consecutivas. Mas ninguém melhor que minha própria mãe, que vivenciou essa história, para contá-la com propriedade. Eis seus apontamentos:

“O tempo passa e a história sempre se repete.

Maria Dionísia de Jesus, nasceu em Borda da Mata, e um ano depois nasceu Benedita Dionísia de Jesus, em 1º de agosto de 1908. Em 29 de outubro de 1909 nasceu outra menina, mas a mãe dessas crianças, Dionísia Maria de Jesus, faleceu no parto – assim como, dias depois, também faleceu a menina.

Mas as irmãs cresceram, unidas e amorosas.

Após dois anos, Antônio Antunes Júnior, seu pai, com dificuldades por ser viúvo e com duas meninas para criar, resolveu se casar com Maria José, que ficou criando as duas meninas e, ao longo de sua vida, teve ainda mais 18 filhos, mas só cresceram Benedita, Palmira, Antônio, João, Bernardete, Helena, Sebastião, Maria Benedita e Aparecida.

Maria Dionísia e Benedita Dionísia, sendo as duas irmãs mais velhas, precisavam trabalhar para ajudar na criação de todos os outros irmãos; enquanto que estes iam para escola, elas ficavam ajudando a madrasta. Maria era muito frágil, e Benedita, mesmo sendo a mais nova, sempre fazia o trabalho das duas, para que nada acontecesse à irmã.

Um dia, Maria, já moça, se casou com Bernardo Claudino Nunes, tendo sido muito doloroso para as duas irmãs se separarem. Maria era moça meiga e dócil, de modo que a madrasta admirava a doçura com que Maria a respeitava e hospedava em sua casa.

Maria tinha os cabelos longos, olhos brilhantes de curiosidade para aprender tudo de bom que havia. Tinha um grande desejo de ser costureira, mas não podia pagar alguém que a ensinasse. Um dia seu marido, chegando em casa disse: “Maria, está aqui um presente. Veja se está a seu gosto.” Ao abrir, que surpresa! Uma máquina de costura, bem usada, mas perfeita, daquelas que eram tocadas à mão – e Bernardo já trouxera também alguns tecidos.

Assim que o marido foi trabalhar, Maria desmanchou uma camisa, passou todos os pedaços, colocou em cima do tecido, cortou e costurou igual a outra, e, quando Bernardo a vestiu, disse: “Perfeito! Ficou muito bom!”. Maria se tornou uma grande costureira, fazia roupas masculinas, femininas, vestidos para noivas e ternos para noivos, ajudando nas despesas do lar.

Já Benedita se casou com Ezechias da Costa Andrade.

Benedita era lavadeira, lavava e passava roupas, e possuía ainda uma hortinha, de modo que os filhos desde pequenos saíam para vender hortaliças, para ajudar o pai, que trabalhava no CTA, em serviços pesados e baixo salário.

Maria teve alguns filhos que faleceram pequenos, um deles se chamava José, sofreu de paralisia infantil, e veio a falecer. Por último nasceu Dionísia, em São José dos Campos, no bairro Pau de Saia. Ali viviam os três, Dionísia, Bernardo, agora carreiro, e a esposa, costureira. Porém, um dia, deu uma doença nos bois de carro e morreram todos. Bernardo, ficando sem saber o que fazer, mudou-se com a família para São Paulo, Capital, no bairro da Lapa, Vila Leopoldina, e foi trabalhar em uma fábrica. A esposa costurava sempre, e após quatro anos nasceu Bernardete, em 10/09/43. Dois anos mais tarde, Maria, que estava doente, muito fraca, veio a casa da irmã Benedita e disse que queria que ela criasse as meninas, pois sabia que podia confiar na irmã. Voltando para São Paulo, foi internada num hospital e faleceu poucos dias depois.

Aí começa novamente a história da vida de duas meninas sem mãe. Só que desta vez a mais velha era mais forte e a menor a mais fraca. Com apenas seis anos de idade Dionísia sentia-se responsável pela irmã e a trazia sempre nos braços para que não chorasse. Ficaram seis meses num orfanato de freiras para que fizesse exames mensais (devido à mãe ter morrido de doença), mas esses exames nunca acusaram nada de grave. Bernardo não sabia mais o que fazer, pois nenhuma pessoa queria cuidar das meninas, e nem mesmo as irmãs não queriam que o pai fosse visitá-las, pois só aumentava o choro das duas quando chegava a hora de ir embora. Foi aí que resolveu trazer as duas meninas para São José dos Campos, no Bairro do Bom Sucesso, para casa dos avós.

Maria José Antunes, a segunda esposa de Antonio Antunes Junior, faleceu no parto do décimo-oitavo filho, e Antonio ficou viúvo pela segunda vez. Depois de dois anos casou-se com Guilhermina Libano, que era natural de Borda da Mata, em Minas Gerais, e ela prontificou-se a criar os enteados e as duas netas.

Mas quando Dionísia fez oito anos o pai a levou para São Paulo, para estudar.

E Bernardete não foi com o pai. Tinha medo de ficar só, pois já tinha perdido a mãe e achava que já havia encontrado uma família. A irmã iria à escola, o pai para o trabalho, e o medo acabou por falar mais alto.

E assim foi a separação das irmãs Dionísia e Bernardete.

A vida é o Trem e o Tempo os trilhos, sempre a separar…”

E, para provar que estamos sempre vinculados a círculos, fadados à repetição em nossas vidas, tenho mais alguma coisinha a acrescentar nessa história, que chegou até nossos dias através dos causos contados em família…

Acontece que Antonio, meu bisavô, na mocidade, enamorou-se de Guilhermina, só que não chegaram a se casar porque suas famílias não o permitiram. Parece que Dona Chiquinha, mãe de Antonio, não aceitava o enlace dos dois pois eram meio que primos. Assim, cada qual tocou sua vida. Antonio casou e enviuvou por duas vezes, enquanto que Guilhermina permaneceu solteira durante toda sua vida.

Quis o destino que voltassem a se encontrar e pudessem consumar o casamento, tão desejado outrora.

Viveram juntos e felizes até o final de seus dias.


Antonio e Guilhermina.

Como costumam dizer por aí, parece que nesse filme da vida só existem cerca de vinte pessoas, e todo o restante são meros atores coadjuvantes…

A Biblioteca

Já faz um bom tempo que não escrevo…

Não tanto por falta de querer, nem menos por não ter assunto – talvez mais pela ausência de algo que me desperte a vontade…

E eis que, dia desses, uma amiga com a casa em reforma contou, toda orgulhosa, o amor que tem por seus mais de mil livros.

Mil livros!

Não é pouco não!

Nos dias de hoje não conheço muitas pessoas que possam se orgulhar de ter um acervo com um número desses (e vocês, os Bicaratos, não contam!)… Conheço, entretanto, uma ou outra moçoila que certamente, ainda que não os tenha, já deve ter lido muito mais que isso, invariavelmente curtindo ao fundo alguma música dos anos oitenta e saboreando uma boa taça de vinho!

Anos oitenta…

Quando essa década perdida começou, contava eu lá com meus dez pra onze anos de idade. Cursava a quinta série numa escola pública – EEPG “Dr. Rui Rodrigues Dória” – em Santana. Pertinho de casa, à distância de apenas duas quadras. Invariavelmente tínhamos um ou outro trabalho pra fazer, quando então era necessária uma pesquisa mais aprofundada. Internet? Google? Redes sociais? Esqueçam! Mas nem os filmes de ficção da época podiam prever este nosso atual “admirável mundo novo”… Assim, sem pré-condicionamentos do que deveríamos ou poderíamos fazer, a biblioteca da escola era o nosso primeiro destino.

Simplesmente pífia!

Não sei se por falta de alguém com conhecimento mais aprofundado, se por falta de recursos ou de vontade mesmo, lá era um lugar onde, na época, mal encontrávamos alguns livros de leitura obrigatória. E só.

Alguns sortudos, de vida mais abastada, ainda tinham em casa a famosa “Barsa” – antiga enciclopédia vendida de porta em porta, constituída por quase duas dezenas de livros de bom tamanho (ótimos como enfeite das prateleiras da sala), e que, em termos de informação e conhecimento, possuía um pouco de tudo em todas as matérias. Lá em casa, quando muito, tínhamos os quatro livros que formavam a “Enciclopédia do Estudante”. Funcionava assim: toda semana chegava nas bancas um novo fascículo e a gente ia montando o conjunto; ao final vinha uma edição especial com a capa dura, quando então juntávamos tudo e levávamos para encadernar. Voilà: um livro inteirinho à nossa disposição!

Mas às vezes nem mesmo isso era suficiente. O negócio era pegar o busão para o Centro (ou, dependendo do dia, ir a pé mesmo – apenas uns três quilômetros) e buscar informações lá na Biblioteca Pública Cassiano Ricardo.

Onde ficava? No mesmo lugar onde hoje se encontra, mas havia algumas fantásticas diferenças na época…

Pra começar, ainda que o acervo já fosse maravilhoso, não havia nada daquela interna construção atual composta de vidro e aço. Era um antigo casarão assobradado. E só. Sabem como é? Com cheiro de casa antiga, cera nos assoalhos de madeira, uma ou outra goteira aqui e ali e – por que não? – algumas teias de aranha esparsas, nos cantos mais altos e difíceis de limpar. Lembro-me bem que lá dentro era geladinho – daquele mesmo tipo de friozinho de quando entramos numa dessas igrejas mais antigas – e sem ter nenhum sistema de ar condicionado em canto algum!

A origem desse casarão remonta ao ano de 1907, quando nem mesmo existia, mas uma comissão formada por moradores do município fez a proposta de construção de um teatro para a cidade. De propriedade de Bertolino Leite Machado, construído pelo Major de Finis e tendo Graciano Fachini como Mestre de Obras, o “Theatro São José” foi inaugurado em 24 de dezembro de 1910. Foi o centro da vida cultural durante as décadas de dez e de vinte, funcionando ainda como cinema e salão de bailes.

Mais tarde, nos anos trinta, juntamente com algumas áreas vizinhas, foi adquirido pela Prefeitura Municipal e nas décadas seguintes abrigou tanto a sede da Prefeitura quanto da Câmara Municipal. O Legislativo saiu dali no final da década de sessenta e o Executivo, na de setenta, quando então a Biblioteca Pública foi transferida para o local, lá permanecendo até os dias de hoje.

Naquela época, no início dos anos oitenta, a entrada se dava pela porta lateral, na Rua Sebastião Hummel, bem de frente com a esquina da Sciamarella, quando já nos deparávamos com o guichê e um balcão nos aguardando logo adiante e, à direita, uma longa escada de madeira.

E era ali, nos degraus daquela escada, que a magia começava!

Ao chegar na parte de cima do antigo sobrado encontrávamos os fichários – se não me engano, eram três: por título, por autor e por assunto. E quando digo “fichário”, é porque era isso mesmo! Cada um dos livros possuía sua correspondente ficha devidamente arquivada, um pequeno pedaço de cartolina retangular devidamente datilografado com informações indicando em que sessão, armário e prateleira as obras estariam nos aguardando. Nada de computadores, buscas ou downloads! O que havia eram alguns bloquinhos de notas ao alcance para anotar os dados e então…

Pensaram que eu ia dizer “bastava pedir para alguém pegar o livro”, certo? ERRADO!!!

Os tempos eram outros e tínhamos acesso direto ao acervo, o que era simplesmente delicioso! Às vezes eu ia buscar um determinado livro e encontrava diversos outros ainda mais interessantes, simplesmente porque estavam todos ali, pertinhos uns dos outro e totalmente acessíveis. E, não raro, eu simplesmente ia até lá para ler alguma coisa. Ainda estava bem no começo do início da minha adolescência, não tinha desenvolvido minha paixão por bicicletas e as meninas eram simplesmente boas amigas e não cada qual um mistério a ser decifrado… Passava tardes inteiras lá dentro da biblioteca!

Foi lá que li toda a coleção do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, e, dentre outros livros esparsos, divertia-me com edições muito antigas de Seleções (“Reader’s Digest”). E, ainda, li todos os livros de Sir Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, bem como a maioria dos livros de Agatha Christie – os quais mais tarde viria a adquirir através do “Clube do Livro”, mas isso é uma outra história…

E, voltando às pesquisas para a escola, quando encontrávamos um ou outro livro que precisávamos ler com mais calma, em casa, bastava levá-lo para aquele guichê lá no térreo, onde iriam carimbar nossa “carteirinha” com a data de devolução – se não me falha a memória, tínhamos uma semana de prazo.

Mas hoje tudo mudou.

Não só naquele prédio, como também em nossas vidas. O imediatismo e a superficialidade ocuparam o espaço antes dedicado à pesquisa e à profundidade. Tudo tem que ser rápido e facilmente digerível, pois “pensar” é um luxo não permitido em nossa sociedade on line e extremamente conectada. Mesmo no meu ofício – arcanas artes jurídicas – tenho que me utilizar de técnicas de escrita, beirando o jornalismo (estou falando do “bom jornalismo”) para fazer com que alguns magistrados se interessem o suficiente pelo texto para ler uma peça até o final. E que a compreendam de modo claro e inequívoco. Não tem sido fácil, não…

Particularmente, continuo lendo, como sempre. Talvez não tanto quanto gostaria, mas me esforço. No meu criado-mudo sempre tem uns quatro ou doze livros me aguardando, invariavelmente divididos entre aqueles que não consigo largar e aqueles que não consigo voltar. Mas, ainda assim, tenho por obrigação lê-los, todos, até o fim. Coisa de taurino, eu acho.

Quanto à nossa querida Biblioteca, nunca mais voltei lá. De quando em quando até que passo em frente, às vezes de carro ou mesmo à pé, mas não me encorajo a entrar. Talvez seja receio de macular essa sensação boa de lembrança que eu tenho de como, nem tanto tempo atrás, tudo era tão diferente.

Ah, por fim, não que alguém esteja contando, mas da última vez que dei uma conferida lá no meu cantinho (e pra desespero da Dona Patroa), entre livros, gibis, revistas, restaurações e outras edições especiais, o número passava de quatro mil… 😉

Veredas da Vida – XIII

Então, caríssimos, e agora?

Eu havia dito que isso não seria um fim!

Mas, afinal, que ás é esse que tenho na manga?

Pois…

O que vem depois do fim?

Só para recapitular o que eu disse lá no começo desta nossa saga, a minha intenção foi não só a de apresentar para vocês toda minha “experiência profissional”, mas também demonstrar como tudo está conectado, como todas as nuances desta nossa vida estão tão interligadas entre si que nos afetam como um todo. Tanto nossa vida pessoal quanto a profissional são, na verdade, uma só.

E é por isso que um mero curriculum vitae não seria suficiente para demonstrar o necessário. Ora, se buscarmos seu significado temos que trata-se de “um documento com os dados pessoais, a formação escolar ou acadêmica, a experiência profissional ou os trabalhos prestados de determinado indivíduo”, ou seja, é o currículo da vida de alguém, a descrição do curso que sua vida profissional seguiu. E já que seria para descrever a trilha profissional de minha própria vida, muito mais agradável aos meus olhos tratá-la como uma simpática vereda

Um curriculum vitae propriamente dito se limitaria a fornecer informações de onde trabalhei, meus cursos e estudos, o que fiz e que experiência adquiri; tudo de uma maneira por demais fria e sistemática. Sem amor. Sem humor. Sem paixão. Sem tezão. Não demonstraria – como fiz ao longo destes 13 episódios – a verdadeira experiência de vida que acumulei e o que me norteou para decidir passar de um trabalho para outro, como minhas amizades influenciaram minha vida profissional, como meus trabalhos me permitiram conquistar novas amizades, a maneira pela qual meus casamentos tanto afetaram quanto foram afetados pela minha profissão, a alegria das pequenas conquistas, o orgulho dos grandes feitos e por aí segue.

Mas, mais do que isso, ao contar com detalhes todos os altos e baixos que envolveram minha pessoal e profissional, o que eu quis também foi deixar claro que é possível, sim, recomeçar. Sempre. Basta querer, basta estar disposto. Como já disse antes, eu tenho essa minha fé inabalável de que as coisas sempre vão se ajeitar!

E é curioso como muita gente não consegue enxergar a vida dessa maneira. Acho que deve ser o tal do copo meio vazio… E, por falar em copo, quando ainda estava acabando o ano passado, num de nossos conhecidos interlóquios etílicos, o Bicarato estava me contando que, já no finalzinho do governo, as pessoas vinham falar com ele invariavelmente com a seguinte tragicômica pergunta: “Nossa, e agora? Acabou o governo, como é que vocês vão fazer?”.

Cuméquié???

Gente, trabalhamos, sim, por muitos anos na Administração Pública Municipal de Jacareí. Mas antes disso já tínhamos nossas profissões! Já tínhamos nossa própria vida – como deixei bem claro através desta saga. O Bicarato já era jornalista, eu já era advogado, assim como todos aqueles que também saíram da Prefeitura já eram profissionais de alguma área!

Então, a vocês que teimaram em nos fazer tão curiosa pergunta, respondo-lhes tranquilamente: vida que segue!

Aliás, dia desses a Dona Patroa me veio lá com uma sugestão. Como ela trabalha no Juizado Especial Cível começou a perceber uma certa movimentação para um determinado tipo de demanda judicial. Um suposto “nicho” de mercado… E me disse que eu poderia começar a explorar esse filão.

Pensei bem e de bate pronto já lhe respondi que não, eu não iria fazer aquilo. Afinal de contas já tenho uma vida inteira de trabalho, bem como uma experiência gigantesca após 20 anos de formado e 16 anos na Administração Pública. Não, obrigado, não vou “voltar ao mercado” ombro a ombro com quem acabou de se formar. O caminho natural seria continuar o meu trabalho nessa mesma área que já vinha atuando. É o que conheço muito bem. É o que gosto muito de fazer.

E assim, após essas considerações, acho que podemos voltar à pergunta que lhes fiz lá no início: “o que vem depois do fim?”

A resposta é óbvia: fins são necessários para novos começos!

Simples assim.

E por isso mesmo vou continuar na área! Doravante vou compartilhar todo esse conhecimento que adquiri com outras administrações públicas municipais, com empresas que com elas se relacionam, com fundações, autarquias e quaisquer entidades que venham a precisar de meus serviços.

Afinal de contas, após ter adquirido tanta experiência por tanto tempo, sem nenhuma falsa modéstia posso afirmar ter também adquirido uma condição de excelência em minha própria área. E, justamente por conhecer tanto da administração pública como um todo, em especial no que diz respeito a licitações, contratos e convênios sou, sim, um expert. Sou um ÁS!

E, assim o sendo, nada melhor que atualizar meu cartão de apresentação de acordo com esse perfil, não é mesmo?

   
Meu cartão atual tem frente e verso!

Mas… Por mais que eu conheça bastante sobre determinada matéria, sempre haverá algo que estará além de minhas possibilidades. Isso é normal, afinal de contas, não tem como sabermos tudo

E é por isso mesmo que nessa empreitada, não estarei só!

Minhas amigas Sheila Moreira Fortes e Ana Paula Truss Benazzi toparam o desafio de, comigo, também prestarem esse tipo de serviço, essa forma de consultoria. Até porque ambas também permaneceram na administração pública tempo o suficiente para acumularem uma enorme carga de conhecimento: também são ASES!

   
Eis como ficou o cartão da Sheila…

   
E assim o da Ana Paula!

E nesse sentido, aproveitando a “brincadeira”, resolvemos que o ideal seria montar uma empresa para melhor prestar nossos serviços. E foi assim, foi dessa maneira, que resolvemos criar a Ases Consultoria!

E perguntar-me-iam vocês: “Espadas, Copas, Ouros… Mas e que é do Ás de Paus?” e responder-lhes-ia eu que essa quarta carta, esse quarto elemento também faz parte imprescindível da nossa consultoria, pois mesmo com nossa experiência acumulada, ainda assim poderia não bastar face às inúmeras dificuldades que – sabemos bem – podem surgir em uma administração pública ou para quem com ela se relaciona.

E é por isso mesmo que nessa empreitada, não estaremos sós!

Por conta dos nossos anos de trabalho e experiência fizemos nossa rede de contatos e amigos, tanto dentro quanto fora da administração, tanto em outros setores da área pública quanto junto a diversas empresas e entidades particulares. Também são pessoas que detém um conhecimento excepcional, cada qual em sua área, e estão dispostas a eventualmente colaborar em algum projeto, trabalho, consultoria ou seja lá qualquer outra atividade que venha a surgir, compartilhando também sua próprio expertise. Não fazem parte da empresa em si, mas são pessoas com quem seguramente podemos contar para levar adiante essa tarefa à qual nos propusemos. São os nossos Colaboradores.

Ide, pois, e anunciai ao mundo a boa nova!

Através da Ases Consultoria nós continuamos por aqui…

Pois viemos pra ficar!

Aliás, querem saber quem mais está conosco?

Então, através de um simples clique na nossa logomarca aí em baixo, vocês poderão visitar nossa página de apresentação, conhecer a nossa proposta, nossos objetivos e, inclusive, ficar à vontade para apresentarem suas críticas e sugestões. Ou, até mesmo, juntar-se a nós! Pois, como ficou evidente nesta nossa saga de 13 episódios, ninguém se faz sozinho… E a nossa força está justamente neste nosso mútuo apoio.

Vida que segue!

Clique na imagem para Ases Consultoria!

(Continua… Só que, agora, lá na vida real!)

😉

Veredas da Vida – XII

O desafio de continuar a ser um Secretário


2013-2016

Nessa votação Hamilton Ribeiro Mota foi reeleito com quase 48% dos votos (só um bocadinho a menos que na votação anterior), sendo que a contagem foi tensa, pois o segundo colocado deu um bom susto, tendo conquistado praticamente 43% dos votos. Como em Jacareí, até então, não havia segundo turno, o resultado já estava consolidado.

Ainda no final do mandato anterior ele me chamou para conversar. Já fui preparado, consciente de que mudanças no quadro provavelmente seriam inevitáveis (tanto por questões técnicas quanto políticas), mas determinado a me colocar à disposição caso fosse possível continuar. Começamos nosso proseio e ele até achou graça no meu discurso! De novo! Acabou por me dizer que tinha uma boa notícia e uma má notícia: e que eu que considerasse qual era qual. Primeiro que, sim, eu continuaria no meu papel de Secretário; segundo, ele tinha outros planos para a Andréa Brito…

De imediato pensei na parceria tão boa que tivemos durante aqueles quatro anos – eu e a Andréa – mas JAMAIS eu iria me intrometer em qualquer possibilidade de ela tomar novos rumos, alçar novos voos. De bate pronto já fechamos quem seria seu substituto, o novo Secretário Adjunto: o Michel.

Enfim, a equipe de assessores diretos do Prefeito, o secretariado municipal, manteve-se praticamente a mesma, apenas com algumas mudanças pontuais e algumas “trocas de cadeiras”…


Cerimônia da Posse em 2013.

E desta feita assumimos como secretários do Prefeito eleito Hamilton: Nydia Natali na Chefia de Gabinete, Sônia Ferraz na Fundação Cultural, Ana Carolina no IPMJ, Gal na fundação Pró-Lar, Lucilene no SAAE, Vera Lino na Assistência Social e Cidadania, André Donizete na Administração e Recursos Humanos, Émerson no Desenvolvimento Econômico, Laodir Suzigan no Esportes, Santana na Segurança e Defesa do Cidadão, Paulo Bicarato (o Bica) na Comunicação Social, João Roberto na Educação, Cláudia Castello Branco na Finanças, Antonio Soares (o Toninho) na Saúde, Pedro Orlando no Governo, Dalton na Infraestrutura, Altemir no Meio Ambiente, Valter Corbani no Planejamento e eu, Adauto, mais uma vez no Jurídico.

Não foi necessário alterar meu crachá, nem tampouco me nomear novamente, uma vez que sequer fui exonerado, haja vista que continuaria exatamente no mesmo posto que dantes…


Meu cartão para essa nova gestão.

Uma vez refeito meu compromisso com esta nova administração, eu, Adauto (01/01/2013 até 30/12/2016), reassumi minhas funções junto à Secretaria de Assuntos Jurídicos. De minha parte também mantive praticamente o mesmo quadro de comissionados da gestão anterior, mas algumas substituições (tanto por questões técnicas quanto por questões políticas) também foram necessárias.

Esse período foi marcado pela escassez de recursos financeiros aliada a grandes embates técnicos e políticos – para citar somente alguns, tivemos o buraco gigante na Avenida Siqueira Campos por onde passa o Córrego do Turi, o solapamento próximo à ponte do Rio Paraíba e a greve da Guarda Civil Municipal -, o que acabou impondo um ritmo mais lento nas realizações do governo. E isso somente iria piorar no último ano desse novo mandato.

Ainda assim foi possível ampliar o quadro da Secretaria, passando dos então treze servidores efetivos (destes, sendo dez procuradores) para, no final do governo, um total de vinte e quatro servidores efetivos (com dezoito procuradores).

Tivemos também grandes batalhas jurídicas, sendo uma boa parte sob nossos cuidados diretos. Ganhamos algumas, perdemos outras… Em especial a chamada “judicialização da saúde” foi de amargar – ainda mais com uma juíza que deferia qualquer pedido liminar, por mais desarrazoado que fosse. Os recursos que seriam utilizados para atender toda uma coletividade acabavam se esvaindo para a assistência a alguns poucos, uma vez que se tratava de “determinação judicial”…

E, enquanto profissional, mais uma vez um motivo de orgulho pessoal… Uma de minhas crianças (como sempre carinhosamente chamei meus contratados no Jurídico), a Suzana, a quem confiei cuidar especificamente da matéria ambiental da Municipalidade, encantou-se tanto com o tema que resolveu fazer uma pós-graduação na área. E assim, quando da elaboração de seu trabalho de conclusão do curso, outra vez coube a mim, informalmente, orientá-la na revisão final desse trabalho. Uma honra! Ainda mais porque ela tirou dez! Seu título: “A Municipalização do Licenciamento Ambiental”.

Por outro lado, no que diz repeito aos projetos particulares, foi nesse período que pude realizar um desejo que já vinha acalentando desde 2011: publicar um livro. Só que não foi só um! Entre os anos de 2014 e 2015 acabei publicando cinco livros: o primeiro é registro sobre a história recente de parte da minha família e os outros quatro são compilações de uma boa parte dos textos e crônicas que tenho publicado no meu blog desde seu início.

Este livro é apenas minha proposta para o registro até o final do ano de 2012 do ramo da família Andrade à qual pertenço. Mais especificamente procurei abranger todos os descendentes diretos a partir de Antonio de Andrade e Sebastianna dos Santos, meus avós paternos.    Este livro é a coletânea de textos e crônicas de meu blog www.legal.adv.br na qual, através dos tópicos Coisas de Casal, Criança dá Trabalho, Juridicausos, Vida Besta, Martelando o Teclado e Filosofices eu disponibilizo textos no geral curtos ou curtíssimos - só que às vezes não - onde falo um pouquinho da vida conjugal, da difícil arte de ser pai, de causos jurídicos, das bestagens que fazemos na nossa vida, de contos, pontos de vista, cultura inútil e coisas de antigamente, bem como também compartilho um tanto de elucubrações mentais que volta e meia passam por esta minha cabeça já atordoada por tanta vivência...    Essa criança que um dia você já foi - regra universal insuperável - é a mesma que existe em todas as casas de todo o mundo. Com a mesma imaginação, criatividade, brincadeiras, disparates, carinho sincero, risada solta ou até mesmo choro sentido. E é disso que este livro trata. Algumas aventuras e desventuras, contos, causos, situações, tiradas e sacadas que só teriam como existir saídos da convivência e da fértil imaginação desses pequeninos seres iluminados.    Este livro nada mais é que uma coletânea de textos jurícos - ou não - pinçada lá do meu blog Legal, onde compartilho um bocadinho das curiosidades que envolvem o cotidiano dos assim chamados     Neste livro está reunido boa parte do que não foi utilizado no Filosofices original, bem como textos de minha autoria que produzi depois e, inclusive, o trabalho de outros blogueiros que simplesmente merecem ser lidos - desta vez distribuídos pelos tópicos Martelando o Teclado, Passado a Limpo, Blog de Papel, Filosofices e Pensatas. São, de um modo geral, causos que trazem um pedacinho de mim, um tiquinho de minh’alma, invariavelmente com bom humor, não dispensando a seriedade e nunca resistindo ao dramático!
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😉

E já em 2016, após diversas etapas em diversos lugares, findou-se a parte graúda da reforma do meu querido Titanic… Lataria totalmente recuperada, pintura nova, amortecedores novos, freios novos, direção hidráulica devidamente adaptada e instalada, bem como um motor de seis cilindros retificado (ou seja, novo). A saga em detalhes continua lá no meu outro blog: Projeto 676.


Novamente, o Titanic!

Voltando às atividades profissionais, durante essa gestão o foco maior foi a conclusão de grandes projetos iniciados em gestões anterior, até mesmo por conta da recessão financeira que limitou – e muito – a capacidade de investimento do Município. Eis alguns dos projetos em que mais uma vez, direta ou indiretamente, eu também participei: criação do Serviço de Regulação de Jacareí, visando a regulação e fiscalização dos serviços públicos de saneamento básico da cidade, construção de novo reservatório de água central de cinco milhões de litros, atualização da legislação municipal permitindo a destinação de recursos da Fundação Pró-Lar para execução de obras de infraestrutura básica visando a regularização fundiária de bairros até então considerados “irregulares”, modernização da legislação municipal através da elaboração do Plano de Carreira do Magistério e do Plano de Carreira da Guarda Civil, implantação do SAMU através do Consórcio Regional CONSAVAP, formalização de contrato no formato “built to suit” para construção de um Hospital Municipal (infelizmente suspenso em decorrência da crise financeira), construção da Unidade de Pronto Atendimento – UPA III, bem como o chamamento público para contratação de Organização Social para sua gestão completa e efetiva inauguração do Centro de Formação de Professores – Educamais Jacareí.


Projeto do Hospital Municipal.


Unidade de Pronto Atendimento Dr. Thelmo de Almeida Cruz.


Educamais Jacareí.

Aliás, caso queiram, tudo isso e muito mais pode ser visto e conferido com detalhes no site Jacareí Melhor, criado para divulgar os dados sobre as principais iniciativas destas últimas gestões municipais.

Mas, apesar de todas essas realizações, por conta de inúmeros motivos – em especial os políticos, dentro de um contexto muito maior no cenário nacional – infelizmente o Prefeito não conseguiu fazer seu sucessor. Com o tempo, ao estudarmos o passado, talvez se torne mais fácil tentar compreender o que foi esse momento político pelo qual o país passou e que afetou praticamente todas as administrações municipais…

E no que diz respeito à minha pessoa já restava claro que meus dias estavam contados. Como já é praxe em toda e qualquer Administração Municipal, invariavelmente os novos gestores não contratam aqueles que trabalharam na gestão anterior. Existem exceções, obviamente, mas no meu caso isso seria inaplicável, até mesmo por uma questão ética: o projeto escolhido pela população não era o projeto que eu havia escolhido para participar. Mas tudo bem. É bem como publiquei em meu último livro:


FVC.

Por todo esse período, por toda essa minha “pós-graduação informal” em Administração e Gestão Pública, eu tenho muito a agradecer a muita gente, aos demais secretários, aos presidentes das fundações e autarquias, a muito dos servidores comissionados e a um número ainda maior de servidores efetivos, pois sem a colaboração de todo esse povo para o desenvolvimento de um trabalho em conjunto, nada seria possível. Mas em especial são duas as pessoas que não posso deixar de citar e formalmente expressar minha gratidão: ao Hamilton, que mesmo nos momentos mais difíceis sempre confiou, confia e continua confiando em mim; e à minha grande amiga, professora e mestra de lógica Nydia “Missão Impossível” Natali! Valeu, gente!


Nóis.

No mais, em que pesem todos os reveses, com sinceros olhos marejados e um pequeno nó na garganta, também só tenho a agradecer a todo “meu povo” da Secretaria de Assuntos Jurídicos daquele final de governo:

Aos procuradores Moyra, Pâmella, Mariana, Heloísa Domingues, Diogo, Rafael, Camila, Flávia, Rogério, Nara, Moara, Stefany, David, Ingrid, Luciana Zárate, Rita Paranaguá, e até mesmo Renato Ratti e André.

Aos demais servidores efetivos Ruth, Cláudia Guedes, “Dona” Lúcia, Floriza, Maria El Kouri, Leandro e minha caríssima e aposentadíssima Célia.

Àqueles agregados do Jurídico, mas que trabalhavam em outros órgãos, Daniela Macedo, Eugênia “Nena” Cabral, Rosa Maria, Heloísa Tosetto, Everton e Luís Flávio.

Àqueles que passaram pelo Jurídico e deixaram sua marca, a minha querida Andréa Brito, Gleice, Wagner Baccaro, Ana Carolina Veneziani, Thalita, Linda, Crislaide, Ana Carolina Neves, Marlene, Sandra Veríssimo, Gabriela Valverde, Jussara, Luciana Soares e Rodrigo Nery.

A todos os estagiários que algum dia passaram pela Secretaria: vocês ajudaram a fazer a diferença!

E, enfim, aos comissionados com os quais sempre pude contar em todos os momentos, Michel, Milena, Priscila, Renato Gil, Ana Paula, Patrícia Lapinha, Cristiane Alves, Suzana, Patrícia Portilho, Raíssa, Sérgio Lippi, Jeniffer Ramos, Rose Cavalcante, Juliana e Rose Faria. Um agradecimento mui especial à Ligia & Jaime e outro muito mais especial ainda à minha sempre amicíssima Sheila

Com isso encerrei mais um ciclo em minha vida. Um longo ciclo, diga-se de passagem… Foram praticamente 16 anos na Administração Pública Municipal de Jacareí, participando do cotidiano dessa linda cidade que, de certa forma, ajudei a construir. Como já disse antes, aprendi muito, muito mesmo. Creio que cresci tanto como profissional quanto como ser humano. Tive reveses, é claro – quem não os tem? Afinal a melhor maneira de desagradar a todos é justamente tentar agradar a todos! E eu não “funciono” assim… Cumpri minha missão, dei o melhor de mim e após tantos anos, pela última e derradeira vez, deixei minha antiga sala para trás. Fechei a porta da sala, sim, mas não fechei a porta das muitas amizades que fiz e ainda mantenho. Vida que segue.

E assim, desta vez através da Portaria nº 4.905, de 1º de dezembro de 2016, eu fui exonerado em 30 de dezembro de 2016.

Mas… E agora?

Desempregado? Na rua? De novo? É o fim?

Desta vez não, meus queridos.

Desta vez não…

(Continua…)