Pais e Filhos

Você me diz que seus pais não entendem
Mas você não entende seus pais
(…)
São crianças como você
‘O que você vai ser quando você crescer?’
(Pais e Filhos, Legião Urbana)

        

O cartaz de meu primeiro Dia dos Pais com o Kevin, a tampa da caixinha porta-treco
(que uso até hoje) que ganhei do Erik e “arte” feita pelo Jean…

Dia dos Pais… Trata-se de uma data comemorativa para homenagear a paternidade, atualmente celebrada no segundo domingo de agosto – e que neste ano de 2020 cairá no próximo dia nove.

Ainda que em outros países seja celebrado em datas diversas, no Brasil somente foi comemorado pela primeira vez em 1953 – tendo sido “pensado” por um publicitário chamado Sylvio Bhering, à época diretor do jornal O Globo (do grupo empresarial de Roberto Marinho), um tanto com objetivos sociais – homenagear, de fato, os pais – quanto com nada nobres objetivos comerciais – movimentar a sociedade de consumo em busca de presentes para esse dia. Inicialmente a tentativa foi associar a data ao dia de São Joaquim, pai de Maria, mãe de Jesus Cristo (16 de agosto no calendário litúrgico da Igreja Católica), mas já nos anos seguintes a data também foi deslocada para um domingo, certamente por ser um dia mais fácil de se reunir a família, no caso o segundo domingo do mês de agosto – e assim permanece até hoje.

Apesar de seu apelo inicial ao consumismo, a comemoração do Dia dos Pais acabou ficando arraigada na sociedade brasileira, sendo uma data em que muitos filhos, ainda que distantes, se lembram de mandar ao menos um “oi” para seus pais – o que se torna muito mais relevante nestes tempos de pandemia e de forçado isolamento social. É, enfim, uma data em que um pai gostaria de se sentir amado e lembrado por seus filhos.

Mas, na minha livre interpretação da letra da música Pais e Filhos, do Legião Urbana, todo pai já foi também um filho. E mais: também teve por sua vez seu próprio pai. E suas diferenças. E discussões. E reconciliações. Aquele que hoje deveria ter todas as respostas também já foi ontem um garotinho cheio de perguntas. É um ciclo que se repete. Ou melhor, são ondas, tais como as ondas do mar, que vêm e vão. Explico.

Quem me conhece minimamente sabe que também é do conhecimento até do Reino Mineral o quanto gosto de história e genealogia. Então, para manter o foco genealógico do que tenho a dizer, vamos ficar somente na minha linha paterna – sem entretanto deslembrar os acontecimentos históricos, sociais e econômicos de cada época para que possamos compreender como veio se dando a relação de pais com filhos desde então. Somente assim a conclusão deste texto deverá ficar menos ininteligível…

Apesar de ter traçado minha ascendência nesse ramo até o ano de 1629, comecemos já com meu trisavô, Joaquim Theodoro de Andrade, que em fins do Século XIX foi um dos herdeiros das diversas fazendas deixadas por seus pais na região de Madre de Deus, MG. Ora, pela tradição familiar não é muito difícil cogitar que ele provavelmente também tenha se dedicado à vida no campo, nos tratos de lavoura e de gado. Estamos falando do ano de 1868 (quando da abertura do inventário), em pleno Brasil-Império ainda governado por Dom Pedro II, mas já em pleno declínio da cultura cafeeira, principalmente pela falta da mão de obra escrava – o que já vinha ocorrendo desde os anos seguintes à proibição do tráfico de escravos (1831) e que ainda iria se agravar com o advento da Lei do Ventre Livre (1871) e a própria Abolição da Escravatura (1888). Diante desse quadro cabe supor que, diferente de seu pai, e em conjunto com seus 11 irmãos, Joaquim deve ter vivido muito mais para tentar manter (e ver se desfazer) um patrimônio que não foi construído por ele.

“Pai rico, filho nobre, neto pobre”. Este é um antigo ditado que parece retratar bem o que aconteceu em diversas famílias não só pelo Brasil, mas também pelo mundo afora.

O filho de Joaquim, nascido em 1877 na cidade de Madre de Deus, MG, foi meu bisavô João Agnello de Andrade. Há notícias de que teria falecido cedo, com cerca de apenas 40 anos. Apesar de seus ancestrais terem sido fazendeiros na região de Sul de Minas – e diante da falta de documentação da época – num gigantesco exercício de suposições é plenamente possível imaginar que a fortuna amealhada nas gerações passadas não veio a agraciar essa nova geração. Ora, logo após a Proclamação da República (1889) e com as sucessivas crises do café, na virada do Século XIX para o XX tivemos o começo da Revolução Industrial no Brasil (com cerca de cem anos de atraso em relação à Inglaterra) bem como a Crise do Encilhamento, conjunto de fatores que veio a resultar no início da industrialização no Rio de Janeiro (então Capital do País). Assim, em que pese a cultura familiar de fazendeiros, é bem provável ter sido esse o motivo que fez com que meu bisavô tenha migrado ainda mais para o Sul, para a cidade de Santa Rita de Jacutinga, MG, onde em 1901 casou-se. Há registros de que não só ele como também parte de seus filhos, tenham trabalhado na cidade vizinha de Valença, no Rio de Janeiro. Ou seja, diferente de seu pai, quebrou uma tradição, saiu do campo e, talvez com um quê de esperança, para criar seus 10 filhos resolveu abraçar aquele novo mundo que se lhe surgia.

Mas ainda estamos falando da virada do século. Num curto período de tempo o mundo ainda seria flagelado pela Primeira Guerra Mundial (1914), pela Gripe Espanhola (1918), pela Grande Depressão (1929) e pela Segunda Guerra Mundial (1939). Como resultado direto desses acontecimentos, em cerca de apenas 30 anos, foram diretamente consumidas mais de 140 milhões de almas por todo o planeta. Restaram ainda outros tantos milhões de mutilados e com sequelas. Não deve ter sido um período nada fácil para aqueles que sobreviveram e só posso imaginar uma densa falta de esperança que pairava no ar por esses tempos. Algo como tudo isso que estamos vivendo especificamente neste ano de 2020 em virtude do Coronavírus.

E o filho de João Agnello, meu avô nascido em 1909 em Santa Rita de Jacutinga, MG, Antonio de Andrade passou por tudo isso. Não o conheci, pois faleceu em 1970, quando eu tinha apenas um ano de idade. Até onde pude descobrir, diferente de seu pai, foi um homem que tinha um pé na cidade e outro no campo (talvez mais para este último). Ao que tudo indica o que lhe interessava era tentar possuir seu próprio canto para poder criar os 12 filhos que viria a ter, de modo que abraçava as oportunidades que se lhe apresentassem. Tanto o é que montou e manteve um salão de barbeiro próximo à estação ferroviária local, o que lhe garantia tanto o sustento como o dinheiro para as cachaças que tanto gostava.

Mais tarde, no final da década de 40, veio de trem com toda a família para São José dos Campos, SP, após seu irmão já ter vindo e se certificado de que haveria trabalho para ele. Antes de ter sua própria terra, morou em diversos locais na zona rural, entre São José e Igaratá, sempre cultivando a terra (feijão, milho, arroz, etc) e criando um “gadinho”… Mas nem só da terra viveu, pois também empregou-se pelas fazendas da região, onde fazia serviços diversos, principalmente de marcenaria. E apesar da vida sofrida, era bem animado, adorava os arrasta-pés, foguetórios e tomar umas e outras sempre que podia.

A cidade de São José dos Campos (que agora em 2020 completou 253 anos) até então era classificada como estância climatérica, pois desde 1918, com a construção do Sanatório Vicentina Aranha (assim como de várias outras casas depois), foi o centro de migração de centenas de doentes vindos de várias regiões do país para tratamento da tuberculose. Aqui ficavam todos aqueles que não tinham posses suficientes para serem tratados na estância de Campos do Jordão, escolhidas à época pelo fato de ambas serem cidades afastadas dos grandes centros urbanos, o que minimizava o risco de contágio. Essa fase sanatorial durou até cerca de 1950, quando começou a transformação de São José dos Campos em um polo industrial e tecnológico, tendo início com a instalação do Centro Técnico de Aeronáutica – CTA (1950), do Parque Industrial da Johnson & Johnson (1954), do Complexo Industrial da General Motors do Brasil (1958), bem como de diversas outras empresas e indústrias dos mais diversos setores. Foi um período de prosperidade para a região e ainda levariam alguns anos para que se instalasse a Ditadura Militar no Brasil.

E foi por essa época que o filho mais velho de Antonio, nascido em Santa Rita de Jacutinga, MG, em 1937, José Bento de Andrade (também conhecido como meu pai), resolveu que já era hora de deixar o campo e seguir seu rumo para a cidade. Meu avô foi contra, pois queria que ele tivesse uma “profissão de sucesso”, o que no seu entender era ser tropeiro pela região e pelo Brasil afora. Mas esse “sonho” era dele e não de seu filho. Do alto de seus cerca de 20 e tantos anos ele lhe disse que não queria nada com isso não, que a vida ali era muito sofrida, que queria ir para a cidade tentar a sorte. E assim o fez. Apesar de ser um homem de estudos primários escassos, fez-se a si mesmo. Construiu-se. Com um inafastável esforço próprio no desejo de ser alguém, veio para cidade, arranjou emprego numa mecânica, casou-se, levantou sua casa no bairro de Santana (onde vive até hoje), teve três filhos, e por fim mudou-se para outro emprego numa indústria onde ficou até sua tranquila aposentadoria. Ele nunca foi de mudanças drásticas, de vida atribulada no campo, nem nada disso, e, ainda, apesar de à sua época até ter tomado suas cervejinhas, nunca gostou de bebida alcoólica em excesso – ou seja, ordenou toda sua vida de um modo bem diferente de seu pai

A assim chamada Geração X abrange aqueles que nasceram no início dos anos 60 até o final dos anos 70 (pegando, talvez, o comecinho dos anos 80). É considerada como um grupo de pessoas sem identidade aparente, mas que enfrentariam um mal incerto, sem definição, um futuro hostil de pós-guerra, num tempo de incertezas e de Guerra Fria (a longeva polarização entre Estados Unidos e União Soviética). Essa geração nasceu, cresceu, passou pela fase hippie, teve ideais, esqueceu-se dos mesmos e foi fazer carreira no mercado de trabalho. Atravessou todo o período de evolução tecnológica, tendo presenciado o surgimento e desenvolvimento dos modernos meios de comunicação, viu surgir o computador pessoal, a Internet, o celular, a impressora, o e-mail, etc. O mundo ao seu redor mudou muito e adaptação nunca foi uma opção, mas sim uma necessidade.

Eu, filho do Seo Zé Bento, pertenço a essa geração. Nasci em São José dos Campos, SP, em 1969. Tive uma boa infância, meio de nerd, meio de pé descalço. Minha família era da chamada “classe média” (quando essa ainda existia), de modo que vivi plenamente minha adolescência, viajei um tanto (normalmente de carona) e paquerei outro tanto – pois ainda não existia o termo “ficar” e aqueles relacionamentos esporádicos não podiam ser chamados de namoro. Desde o início da adolescência aprendi a beber, a fumar, a teimar e a ser dono do meu próprio nariz. Sempre adorei estar com os amigos, no meio de gente, de falar alto, de curtir a vida. Eu e meu pai tivemos discussões homéricas por conta disso, pois eu não concordava com o modo e opção de vida dele, assim como ele também não concordava com o meu. Foi somente alguns anos após meu primeiro casamento (casei aos 18) e depois de um tanto de lambadas existenciais que finalmente entendi que ambos estávamos errados: não fazia sentido nos compararmos. Ele, com todos seus defeitos, era ele, assim como eu, também com todos os meus, era eu. Apesar de aparentemente contraditório, foi somente com essa compreensão que veio a aceitação de que eu não precisava gostar de meu pai para amá-lo. Pois não adianta: eu sempre fui, sou e serei diferente de meu pai.

Do meu primeiro casamento, que durou cerca de dez anos, não tive filhos. Se os tivesse, provavelmente seriam da Geração Y, também conhecidos como Millenial: aqueles nascidos do começo dos anos 80 até meados da década de 90. Uma geração que desenvolveu-se em uma época de grandes avanços tecnológicos e prosperidade econômica, tendo crescido com muito do que seus pais não tiveram, como TV a cabo, videogames, computadores, vários tipos de jogos e muito mais. Internalizaram a tecnologia desde pequenos, acostumaram-se à multitarefa e a conseguir o que queriam, não gostando de se sujeitar às tarefas subalternas de início de carreira e por isso sempre trocando de emprego com frequência em busca de oportunidades que oferecessem maiores desafios e crescimento profissional.

Não, meus três filhos, todos de meu segundo (e último) casamento, pertencem à Geração Z, também chamada de Centenial. São aqueles nascidos a partir do final dos anos 90 até aproximadamente 2010 – o que é justamente o caso deles: Kevin em 1999, Erik em 2001 e Jean em 2004. Os que pertencem a essa geração são “nativos digitais”, pois nunca viram o mundo sem computador. São multitarefa, mas seu tempo de atenção é muito breve. Como informação não lhes falta, estão sempre um passo à frente dos mais velhos, concentrados em adaptar-se aos novos tempos. Seu conceito de mundo é desapegado de fronteiras geográficas, pois para eles a globalização não foi um valor adquirido no decorrer do tempo e a um custo elevado. Aprenderam a conviver com ela já na infância. Daí serem desapegados de conceitos históricos ou mesmo da história em si, pois o que interessa é que o presente é a estrada a ser pavimentada para o futuro. Seus maiores problemas são relacionados à interação social, pois, paradoxalmente, por estarem tão conectados virtualmente acabam por sofrer de falta de intimidade com a comunicação verbal.

Quando pequeninos e ainda cabiam em meu colo e eu em seus corações.

Acho que já perceberam onde essa história vai dar, né?

Sim, é isso mesmo: meus filhos são diferentes de mim. E principalmente com a chegada da adolescência essa diferença aumentou de forma exponencial. Tenho absoluta certeza de que a responsabilidade é só minha, pois no decorrer de sua infância até que fomos bastante parceiros, mas quando estavam crescendo e provavelmente mais precisavam de minha presença, eu estava ausente. Seria muito cômodo de minha parte alegar que foi em razão do trabalho, das responsabilidades, da política, ou do que quer que seja. Foi tudo isso, também. Mas na sua essência, não. Não mesmo. Eu estava muito ocupado (ainda) sendo e fazendo tudo aquilo que meu pai não gostava e não queria e não percebi que estava mais uma vez repetindo um ciclo de gerações. Ou sendo apenas o refluxo de mais uma onda na areia, afastando-me cada vez mais da margem. Não só o fosso que começou a nos distanciar acabou por se transformar num imenso vale, como eu ainda tive a capacidade – ainda que involuntária – de queimar todas as pontes pelas quais passei.

Kevin, Jean e Erik em 2020: Geração Z.

Talvez por sermos de gerações tão distintas – afinal “pulamos” toda a Geração Y – essa situação estivesse fadada a acontecer. Não sei. Não posso ter certeza. Mas sei que foi n’o ano que passei fora que tudo se consolidou pra pior, quando minha ausência começou a se fazer presente e nosso distanciamento de gostos e coisas se acentuou. Afinal, diferente de meus filhos, eu vivo com um pé nos dias de outrora pois acredito que a história, o passado, é que verdadeiramente nos ensina o caminho para o futuro para que não cometamos os mesmos erros – nem os nossos, nem os de nossos pais (ainda que, mesmo conscientes disso, acabemos por fazê-lo). Acredito também que a vida é feita de momentos (e mesmo assim, com eles, eu os estou perdendo um a um devido à minha própria negligência), por isso tenho uma profusão deles na minha memória: situações tanto corriqueiras quanto inusitadas que vivenciamos, momentos de carinho e de amor, circunstâncias de dor e de sofrimento, mas principalmente aqueles especiais, marcantes, o primeiro passo, a primeira palavra, a primeira conquista… Não os tenho todos de memória, mas esforço-me para guardá-los.

E é por isso que escrevo. Porque sei que a memória é curta e delével. Não conseguirei reter para sempre esses momentos, pois tudo é inconstante e passageiro. Até nós mesmos. Então é preciso deixar registrado. Porém a comunicação se torna tão mais difícil já que as poucas paixões que tenho (veículos antigos, motos, mecânica, história, genealogia, a família) sequer lhes interessam. E pela falta de interesses comuns até mesmo nosso diálogo restou comprometido. Ou praticamente inexistente. Quero ter a certeza de que meus filhos me amam, mas também sei que meramente me toleram. Então guardo tanto os meus quanto os nossos momentos em palavras impressas para que fique registrado que, de fato, existiram. Ainda que não se lembrem. Ainda que não se interessem. Ainda que não queiram. Mas essa foi a maneira que encontrei de conservá-los para mim, para eles e para quem mais queira apreender desse passado. Pois, independentemente de todos os meus erros, tenho um orgulho gigantesco de cada um de meus filhos, cada qual a sua maneira, e meu maior desejo é que algum dia eles venham também a ter orgulho de mim.

Essa é, hoje, a nossa realidade.

Talvez algum dia mude, não sei.

Como já havia dito, queimei as pontes pelas quais passei e não há retorno fácil, pois é preciso reconstruí-las. Sei que reconstruir pontes é uma tarefa árdua e difícil, mas também sei que tem que ser feito através de esforço mútuo a partir de ambas as margens que se encontram isoladas.

E é esse o desafio que devo me impor… É bem como diz a música: “É preciso amar as pessoas / Como se não houvesse amanhã / Por que se você parar pra pensar / Na verdade não há”. Estou desperdiçando tempo, idade, saúde e sanidade sem dar um passo sequer para consertar essa situação. É difícil. É doído. Mas é necessário ao menos tentar reconstruir o diálogo enquanto ainda há tempo. E mudanças drásticas serão necessárias. Rogo sinceramente para que eu tenha perseverança e que me seja concedida oportunidade para isso – bem como dizem as primeiras linhas da Oração da Serenidade:

“Deus,
Conceda-me a serenidade
Para aceitar aquilo que não posso mudar,
A coragem para mudar o que me for possível
E a sabedoria para saber discernir entre as duas.
Vivendo um dia de cada vez,
Apreciando um momento de cada vez (…)”

PS1: Tenho em casa muito bem guardada uma pasta que contém a maioria dos desenhos e recadinhos que meus filhotes costumavam me deixar antigamente, quando ainda tínhamos diálogo. Dentre eles tenho esta “planta da casa” – segue com a planta em escala (da época) para fins de comparação…

         

Legenda: no gramado do fundo nós jogando bola, à direita a churrasqueira soltando fumaça, no corredor à esquerda nossa cachorrinha Léa, no corredor à direita os latões de lixo, os quartos identificados com os móveis dispostos nos exatos lugares, o escritório com dois computadores, no banheiro alguém no chuveiro com sabonete na mão, a cozinha com sua bancada externa e na sala a mesa redonda que costumávamos ter.

PS2: A partir dessa música veio boa parte da inspiração para este texto. Ouçam a letra, com calma e atenção, do começo ao fim. Vale a pena.

“Meu reino por um cavalo!”

O rei Ricardo III estava se preparando para a maior batalha de sua vida. Um exército liderado por Henrique, Conde de Richmond, marchava contra o seu. A disputa determinaria o novo monarca da Inglaterra.

Na manhã da batalha, Ricardo mandou um cavalariço para verificar se seu cavalo preferido estava pronto.

– Ferrem-no logo – disse ao ferreiro, – o rei quer seguir em sua montaria à frente dos soldados.

– Terás que esperar – respondeu o ferreiro, – há dias que estou ferrando todos os cavalos do exército real e agora preciso ir buscar mais ferraduras.

– Não posso esperar – gritou o cavalariço, impacientando-se, – os inimigos do rei estão avançando neste exato momento e precisamos ir ao seu encontro no campo. Faze o que puderes agora com o material de que dispões.

O ferreiro, então, voltou todos os esforços para aquela empreitada. A partir de uma barra de ferro, providenciou quatro ferraduras. Malhou-as o quanto pôde até dar-lhes formas adequadas. Começou a pregá-las nas patas do cavalo. Mas, depois de colocar as três primeiras, descobriu que faltavam-lhe alguns pregos para a quarta.

– Preciso de mais um ou dois pregos – disse ele, – e vai levar tempo para confeccioná-los no malho.

– Eu disse que não posso esperar – falou, impacientemente, o cavalariço, – já se ouvem as trombetas! Não podes usar o material que tens?

– Posso colocar a ferradura, mas não ficará tão firme quanto as outras.

– Ela cairá? – perguntou o cavalariço.

– Provavelmente não – retrucou o ferreiro, – mas não posso garantir.

– Bem, usa os pregos que tens – gritou o cavalariço, – e anda logo, senão o Rei Ricardo se zangará com nós dois!

Os exércitos se confrontaram e Ricardo participava ativamente, no coração da batalha. Tocava a montaria, cruzando o campo de um lado para outro, instigando os homens e combatendo os inimigos. “Avante! Avante!”, bradava ele, incitando os soldados contra as linhas de Henrique.

Entretanto, lá longe, na retaguarda do campo, avistou alguns de seus homens batendo em retirada. Se os outros os vissem, também iriam fugir da batalha. Então, Ricardo meteu as esporas na montaria e partiu a galope na direção da linha desfeita, conclamando os soldados de volta à luta. Mal cobrira metade da distância quando o cavalo perdeu uma das ferraduras. O animal perdeu o equilíbrio e caiu, e Ricardo foi jogado ao chão. Antes que o rei pudesse agarrar de novo as rédeas, o cavalo assustado levantou-se e saiu em disparada. Ricardo olhou em torno de si. Viu seus homens dando meia volta e fugindo, e os soldados de Henrique fechando o cerco ao redor. Brandiu a espada no ar e gritou:

– Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!

Mas não havia nenhum por perto. Seu exército estava destroçado e os soldados ocupavam-se em salvar a própria pele. Logo depois, as tropas de Henrique dominavam Ricardo, encerrando a batalha…

E desde então o povo passou a cantarolar:

“Por causa de um prego, perdeu-se uma ferradura; por causa de uma ferradura, perdeu-se um cavalo; por causa de um cavalo, perdeu-se uma batalha; por causa de uma batalha, perdeu-se uma guerra; por causa de uma guerra, perdeu-se um reino… Por causa de um único prego, perdeu-se um reino inteiro!”

(Adaptado do original de James Baldwin.)

São José dos Campos: uma história dentro da história

“Nunes”.

Esse é um sobrenome que não possuo, mas, poucos o sabem, faz parte de minha linhagem pelo lado materno.

E o que tem isso a ver com o aniversário da cidade de São José dos Campos?

Bem, acontece que essa parte da minha família já vem há quase dois séculos produzindo joseenses!

Até onde sei, ao menos desde meu trisavô, José Rodrigues de Moraes Nunes que era casado com Rufina Maria Sinhorinha, seguindo pelo meu bisavô, Claudino de Moares Nunes, nascido no ano de 1867 e que faleceu novo – coitado! Em 20 de fevereiro de 1909, pontualmente às 20:00h, a cidade perdeu um de seus humildes lavradores, de apenas 42 anos, falecido em sua própria casa, no Bairro do Jaguari, de afecção do fígado, provavelmente decorrente de forte hepatite.

Ainda assim, apesar de sua curta vida, houve tempo suficiente para se casar com minha bisavó, Benedicta Maria de Mello, apenas 4 anos mais nova que ele, com quem teve oito filhos!

Destes, temos Bernardo Claudino Nunes, provavelmente o caçula, nascido em casa às 4 da manhã de 24 de março de 1907. Das lembranças pessoais que tenho dele, me vem a mente um senhor alto, um tanto quanto gordo e bonachão, loiro e de olhos profundamente azuis da cor do céu. Faleceu em 31 de janeiro de 1979, quando eu ainda tinha meus incompletos dez anos de idade.

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Maria Dionísia e Bernardo, meus avós.

Nesses 71 anos de vida teve pelo menos três esposas, sendo a primeira delas minha avó, a mineira Maria Dionísia de Jesus, com quem se casou aos 24 anos de idade. Um casamento que durou apenas 14 anos, pois ela faleceu pouco tempo depois do nascimento de sua última filha, com apenas 33 anos. Apesar de existirem notícias de que tiveram vários filhos, apenas duas realmente sobreviveram: minha tia Dionísia, joseense, e minha própria mãe Bernardete Nunes, paulistana.

Uai? Mas não eram todos joseenses – vocês podem me perguntar.

Ela acabou sendo “um ponto fora da curva”, pois, apesar de ter sido totalmente criada em São José dos Campos, nasceu em 10 de setembro de 1943 na capital de São Paulo numa fase em que meu avô, cansado da vida de lavrador, estava buscando novos ares e novas oportunidades como mão de obra na indústria. Com o falecimento da esposa e com duas filhas a tiracolo – uma de 6 e outra de 2 anos – resolveu levar a menorzinha para ser criada por seu sogro (no caso, o avô dela pelo lado materno) lá na chácara que possuía no bairro de Santana. Lembro-me bem dessa chácara, sendo que a casa “sede” existe até hoje – mas tornou-se um depósito de bebidas lá no final da Av. Princesa Izabel.

Depois disso, meu avô acabou ficando por São Paulo mesmo, tendo se estabelecido lá pelos lados de Pirituba, onde viveu até o fim da vida ao lado de Geny de Souza, minha “avó postiça” que somente encontrava quando meus pais iam visitá-los. Com ela teve mais 9 filhos. E minha tia Dionísia? Casou-se com o italiano Lelio Silvano Galuzzo em 62 e foi de mala e cuia para a Itália, onde vivem até hoje.

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Bernardete e José Bento, meus pais.

E minha mãe – essa joseense que por acidente nasceu fora de São José – aos 17 anos, no ano de 1960, casou-se com um mineirinho bem estiloso, de 23 anos, o seu José Bento de Andrade, vulgo “meu pai”… Foram anos de bastante trabalho duro – ele mecânico, ela costureira – mas ainda assim conseguiram comprar uma boa casa em Santana e se estabelecer. Tiveram três filhos, todos nascidos em São José dos Campos, sendo eu o caçula. Pois foi em 2 de maio de 1969 que o Hospital Pio XII, em Santana, ouviu o forte choro de um enorme bebê de aproximadamente cinco quilos! Adauto de Andrade acabara de nascer!

Em Santana nasci, em Santana cresci, em Santana me criei. Casei, descasei, casei de novo. Tudo sempre cercado de uma bela confusão emocional, que é uma de minhas características mais básicas enquanto ser humano… E deste meu casamento com a Dona Patroa, vinda lá de Marília, tivemos nossos três filhotes: Kevin, Erik e Jean. 1999, 2001 e 2004. Todos nascidos no Hospital Antoninho da Rocha Marmo – adivinhem onde? Isso mesmo, em São José dos Campos!

Ou seja, é seguramente a quarta geração de joseenses. Talvez quinta, se eu conseguir descobrir um pouco mais sobre meu trisavô…

E qual a relevância de toda essa história nesses 248 anos de aniversário da cidade?

Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Só quis contar um pouco de minha história. A história da família dentro da história da cidade. Desde o lavrador, passando pelo industriário, pela costureira, o advogado e sabe-se lá o que nos reserva o futuro dos filhotes, esta família tem se criado com solidez e tradição. Ter uma história é importante. Mas ser uma história é mais ainda. Não importam os limites geográficos dos bairros, das cidades, dos estados, dos países, sequer dos continentes: a história de minha família se faz pelo reconhecimento ao passado em direção à evolução rumo ao futuro. Geração após geração nós evoluímos. Onde quer que seja. Quando quer que seja.

Por isso que fique registrado aqui meus votos de feliz aniversário a esta cidade que, em algum lugar no passado, acolheu em seu seio o “primeiro Nunes”, bem como o “primeiro Andrade”, permitindo a esta família se enraizar e, cada vez mais, evoluir.

Parabéns, São José dos Campos!

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Em São José dos Campos: Santana de ontem e Santana de hoje…

Cheio de graça, esse Graciliano…

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Vocês sabiam que Graciliano Ramos – escritor conhecido por suas grandes obras, tais como Caetés, Vidas secas, Memórias do cárcere, dentre outras – também já foi prefeito?

Pois é!

Antes mesmo de lançar seu primeiro livro, em 1933, ele foi eleito prefeito da pequenina cidade de Palmeira dos Índios, no agreste alagoano, em 7 de outrubro de 1927, com portentosos 433 votos.

Como prefeito foi um sujeito que, literalmente, arregaçou as mangas e pôs-se a trabalhar, construiu escolas, cuidou da limpeza pública, instituiu um código de posturas, criou o primeiro serviço de higiene pública no interior de Alagoas, abriu estradas, enfim, trouxe modernidade, dinamismo, austeridade e honestidade a uma região geralmente assolada por coronéis e sua política feudal baseada em currais eleitorais.

Apesar de seu desejo sincero de melhorar as condições da cidade, bem como de sua extrema coragem para se contrapor aos grupos que, à época, se beneficiavam do desgoverno e carreavam para si os benefícios decorrentes dos pouquíssimos recursos destinados ao município, no curto período em que permaneceu no cargo Graciliano escreveu dois relatórios anuais (em 1929 e 1930) com balanços de sua gestão ao governo estadual, nos quais descrevia a situação econômica e social da população e a precária situação financeira da prefeitura.

E esses relatórios, longe de serem meros textos burocráticos, até hoje ainda podem ser considerados verdadeiras pérolas da literatura! Confiram:

“Havia em Palmeiras inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do município tinha a sua administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam”, registrou o prefeito, ao descrever ao governador de Alagoas a situação em que encontrou a administração municipal.

“Dos funcionários que encontrei no ano passado, restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contras. Devo muito a eles”, completa o zeloso chefe do Executivo.

A partir daí, ia prestando contas das mais diverssas partes da cidade, sempre de maneira magistral: “No cemitério enterrei 189$000 – pagamento ao coveiro e conservação.”

O cemitério volta a ser alvo de um novo comentário, já no segundo relatório: “Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão por mais algum tempo. São os municípes que não reclamam.”

No parágrafo seguinte, o prefeito se queixa ao governador da despesa com iluminação pública e, sutilmente, coloca em dúvida a lisura de um contrato de fornecimento de energia elétrica. “A prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apear de ser um negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.

Esses relatórios abriram portas tanto ao profissional quanto ao escritor. Após seu período como Prefeito, assumiu, a convite do governador, a Imprensa Oficial do Estado. Em seguida, passou por vários outros cargos na administração, todos ligados à área da educação. E, apesar dessa carreira política na década que se seguiu, foram também esses mesmos relatórios que despertaram a curiosidade do editor Augusto Frederico Schmidt, no Rio de Janeiro, pois, ao ler aquelas pérolas de ironia e graça verbal em meio a despachos burocráticos o editor imaginou que o zeloso administrador público poderia ter algum livro que merecesse ser publicado. E, de fato, tinha: Caetés, o primeiro livro de Graciliano Ramos que foi publicado pelo próprio Schmidt em 1933.

( C&P de trechos do texto “O escritor gestor”, de Marcus Lopes. )

Niemeyer e o Banhado

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Foi quando acabou a fase dos prefeitos nomeados em São José e o primeiro eleito foi Joaquim Bevilacqua. Havia várias correntes na cidade que tentavam responder a pergunta: o que fazer com o Banhado?

Alguns achavam que deveria ser construído um parque aquático, outros uma Disneylândia. A favela se expandia, embora ali não fosse local para habitação, devido ao solo turfoso.

Chamaram, então, Oscar Niemeyer e sua equipe. Ao chegar, o arquiteto ficou por muitos minutos olhando a paisagem. Depois, atravessou a rua e juntou-se ao grupo. Então o prefeito perguntou: “Que devemos fazer com o Banhado?”

A resposta foi simples e objetiva: “A natureza demorou milhares de anos para fazer esta magnífica paisagem. Como e porque destruí-la?”. O grande mestre da arquietetura reconheceu que nem ele era capaz de ofuscar essa obra divina.

Ciro Bondesan dos Santos

Verdadeira lealdade

Essa história foi compartilhada pelo Jorge diretamente daqui. De minha parte a conheci quando assisti o filme de 2009, com Richard Gere. Muito bom.

A Verdadeira História de Hachiko

Chu-ken Hachiko (o cachorro fiel Hachiko) nasceu em Odate, na província de Akita, no Japão em novembro de 1923. Em 1924, Hachiko foi enviado a casa de seu futuro proprietário, o Dr. Eisaburo Ueno, um professor do Departamento Agrícola da Universidade de Tóquio. A história dá conta de que o professor ansiava por ter um Akita há anos, e que tão logo recebeu seu almejado cãozinho, deu-lhe o de Hachi, ao que depois passou a chamá-lo carinhosamente pelo diminutivo, Hachiko. Foi uma espécie de ‘amor à primeira vista’, pois, desde então, se tornariam amigos inseparáveis!

O professor Ueno morava em Shibuya, subúrbio de Tóquio, perto da estação de trem. Como fazia do trem seu meio de transporte diário até o local de trabalho, já era parte integrante da rotina de Hachiko acompanhar seu dono todas as manhãs. Caminhavam juntos o inteiro percurso que ia de casa à estação de Shibuya. Hachiko parecia ter um relógio interno, e sempre às 15 horas retornava à estação para encontrar o professor, que desembarcava do trem das 16 horas, para acompanhá-lo no percurso de volta a casa.

Em 21 de Maio de 1925, o professor Ueno sofreu um AVC, durante uma reunião do corpo docente na faculdade e morreu. Hachiko, que na época tinha pouco menos de dois anos de idade. No horário previsto, esperava seu dono pacientemente na estação. Naquele dia a espera durou até a madrugada.

Na noite do velório, Hachiko, que estava no jardim, quebrou as portas de vidro da casa e fez o seu caminho para a sala onde o corpo foi colocado, e passou a noite deitado ao lado de seu mestre, recusando-se a ceder. Outro relato diz que como de costume, quando chegou a hora de colocar vários objetos particularmente amados pelo falecido no caixão com o corpo, Hachiko pulou dentro do mesmo e tentou resistir a todas as tentativas de removê-lo.

Depois que o professor morreu a Senhora Ueno deu Hachiko para alguns parentes do que morava em Asakusa, no leste de Tóquio. Mas ele fugiu várias vezes e voltou para a casa em Shibuya, um ano se passou e ele ainda não tinha se acostumado à nova casa. Foi dado ao ex-jardineiro da família que conhecia Hachi desde que ele era um filhote. Mas Hachiko continuava a fugir, aparecendo frequentemente em sua antiga casa. Depois de certo tempo, aparentemente Hachiko se deu conta de que o professor Ueno não morava mais ali.

Todos os dias à estação de Shibuya para esperar seu dono voltar do trabalho, da mesma forma como sempre fazia. Procurava a figura de seu dono entre os passageiros, saindo somente quando as dores da fome o obrigavam. E ele fez isso dia após dia, ano após ano, em meio aos apressados passageiros. Estes começaram passaram então a trazer petiscos e comida para aliviar sua vigília.

Em 1929, Hachiko contraiu um caso grave de sarna, que quase o matou. Devido aos anos passados nas ruas, ele estava magro e com feridas das brigas com outros cães. Uma de suas orelhas já não se levantava mais, e ele já estava com uma aparência miserável, não parecendo mais com a criatura orgulhosa e forte que tinha sido uma vez.

Um dos fiéis alunos de Ueno viu o cachorro na estação e o seguiu até a residência dos Kobayashi, onde aprendeu a história da vida de Hachiko. Coincidentemente o aluno era um pesquisador da raça Akita, e logo após seu encontro com o cão, publicou um censo de Akitas no Japão. Na época haviam apenas 30 Akitas puro-sangue restantes no país, incluindo Hachiko da estação de Shibuya. O antigo aluno do Professor Ueno retornou frequentemente para visitar o cachorro e durante muitos anos publicou diversos artigos sobre a marcante lealdade de Hachiko.

Sua história foi enviada para o Asahi Shinbun, um dos principais jornais do país, que foi publicada em setembro de 1932. O escritor tinha interesse em Hachiko, e prontamente enviou fotografias e detalhes sobre ele para uma revista especializada em cães japoneses. Uma foto de Hachiko tinha também aparecido em uma enciclopédia sobre cães, publicada no exterior. No entanto, quando um grande jornal nacional assumiu a história de Hachiko, todo o povo japonês soube sobre ele e se tornou uma espécie de celebridade, uma sensação nacional. Sua devoção à memória de seu mestre impressionou o povo japonês e se tornou modelo de dedicação à memória da família. Pais e professores usavam Hachiko como exemplo para educar crianças.

Em 21 de Abril de 1934, uma estátua de bronze de Hachiko, esculpida pelo renomado escultor Teru Ando, foi erguida em frente ao portão de bilheteria da estação de Shibuya, com um poema gravado em um cartaz intitulado “Linhas para um cão leal”. A cerimônia de inauguração foi uma grande ocasião, com a participação do neto do professor Ueno e uma multidão de pessoas.

Hachiko envelheceu, tornou-se muito fraco e sofria de problemas no coração. Na madrugada de 8 de março de 1935, com idade de 11 anos e 4 meses, ele deu seu último suspiro no mesmo lugar onde por anos a fio esperou pacientemente por seu dono. A duração total de seu tempo de espera foi de nove anos e dez meses. A morte de Hachiko estampou as primeiras páginas dos principais jornais japoneses, e muitas pessoas ficaram inconsoláveis com a notícia. Um dia de luto foi declarado.

A última foto da Hachiko. Aquele cão que esperou o dono morto na estação por quase 10 anos. Exemplo de lealdade que falta a muitos seres humanos. A foto foi tirada em 8 de março de 1935. Hachiko tinha 11 anos.

Seus ossos foram enterrados na sepultura do professor Ueno, no Cemitério Aoyama, Minami-Aoyama, Minato-ku, Tóquio. Sua pele foi empalhado – para conservar-lhe as formas e submetido à substâncias que o isentam de decomposição, e o resultado deste maravilhoso processo de conservação está agora em exibição no Museu Nacional da Ciência do Japão em Ueno.

Durante a Segunda Guerra Mundial, para aplicar no desenvolvimento de material bélico, todas as estátuas foram confiscadas e derretidas, e, infelizmente, entre elas estava a de Hachiko.

Em 1948, formou-se a “The Society For Recreating The Hachiko Statue” entidade organizada em prol da recriação da estátua de Hachiko. Tekeshi Ando, o filho de Teru Ando foi contratado para esculpir uma nova estátua. A réplica foi reintegrada no mesmo lugar da estátua original, em uma cerimônia realizada no dia 15 de agosto.

A estação de Odate, em 1964, recebeu a estátua de um grupo de Akitas. Anos mais tarde, em 1988, também uma réplica da estátua de Hachiko foi colocada próxima a estação. A história de Hachiko atravessa anos, passa de pai para filho, sendo até mesmo ensinada nas escolas japonesas – no início do século para estimular lealdade ao governo, e atualmente, para exemplificar e instilar o respeito e a lealdade aos anciãos.

Na atualidade, viajantes que passam pela estação de Shibuya podem comprar presentes e recordações do seu cão favorito na Loja localizada no Memorial de Hachiko chamada “Shibuya No Shippo” ou “Tail of Shibuya”. Um mosaico colorido de Akitas cobre a parede perto da estação.

Todos os anos, no dia 8 de março. Ocorre uma cerimônia solene na estação de trem de Shibuya, em Tóquio. São centenas de amantes de cães que se reúnem em homenagem à lealdade e devoção de Hachiko. Ao nascimento de uma criança, a família recebe uma estatueta de Akita como desejo de saúde, felicidade e vida longa. O objeto também é considerado um amuleto de boa sorte. Quando há alguém doente, amigos dão ao enfermo esta estatueta, desejando pronta recuperação.

Por causa desse zelo, o Akita se tornou Patrimônio Nacional do povo japonês, tendo sido proibida sua exportação. Se algum proprietário não tiver condições financeiras de manter seu cão, o governo japonês assume sua guarda.

Sempre ao Seu Lado (Hachiko: A Dog's Story)

Casas Entristecidas

Autora: Walcerly Corrêa de Oliveira
Pedagoga especializada em Educação pela Universidade de Campinas
Artigo publicado no jornal Diário de Jacareí em 30/AGO/2009

De repente, depara-se com um imóvel residencial antigo, destoando da maioria das edificações das ruas, agora movimentadas.

Seus antigos donos já se foram e seus descendentes, por motivos diversos, venderam as propriedades ou as deixaram aos cuidados de locadores, que dão a elas uma finalidade qualquer.

Tímidas e isoladas, entre construções modernas de desenhos frios e materiais sintéticos, essas construções, de elaborada e suntuosa arquitetura, que resistem à ação do tempo ou à demolição, humildemente exercem agora função bem diferente da original, ora servindo ao comércio, ora adaptadas para estalagens ou para frios comitês políticos.

Os poucos imóveis residenciais antigos que ainda restam, habitados por algum membro da família de origem, e que outrora foram cheios de movimento e vida, são agora casas entristecidas.

Suas dependências, onde as famílias se reuniam ao final da tarde e eram especialmente iluminadas em dias de festas, hoje são frios espaços vazios.

Os amplos e confortáveis quartos, antes ocupados por filhos ainda crianças em um entra-e-sai vivificante, hoje são solitários depósitos de velhos objetos empoeirados que, junto com o cômodo, perderam a razão de existir, mas que inconscientemente são mantidos ali, como se o tempo pudesse retornar…

A suntuosidade da construção já não mais é conservada por manutenção, seus vidros se tornaram baços e suas paredes pálidas.

As janelas, destas casas entristecidas, sempre fechadas como para que impedir a saída das lembranças que ali devem estar preservadas, dão-lhes um ar de mistério e causam tristeza seus jardins descoloridos e abandonados, onde velhas e estéreis plantas ainda resistem sustentadas por bulbos profundos plantados por mãos que já se foram…

Casas entristecidas, espremidas entre modernas e funcionais construções, geralmente são indiferentes à maioria: a alguns despertam curiosidade, a outros melancolia, a muitos interesse especulativo, mas aos que valorizam histórias de gentes, despertam saudades…

O colar do “Sete Orelhas”

Ainda ontem – não sei mais o porquê – estava eu cá a me lembrar de antigos causos de família… Mas somente os recentes, dos quais se não participei eu mesmo, limitam-se a uma, quando muito duas gerações.

Mas existem os mais antigos. O dos antepassados, parentes ainda que longínquos. E nessa seara está esse causo que segue, contado e recontado pelas bandas do Sul de Minas em diversas versões…

Autor: Afonso Schmidt
Baseado em Cássio Costa: Achegas ao Folclore Mineiro.
“Jornal do Comércio”, 17-4-55 – Rio de Janeiro

Há anos íamos de automóvel com mais alguns companheiros, de Três Corações para Lavras, no Sul de Minas quando, próximo do lugarejo que se chamava São Bento, hoje Eremita, cortando belíssimo trecho à borda de uma pirambeira, ou desbarrancado, alguém apontou para modesta casa de fazenda que via a cerca de 400 metros de distância, ao lado de majestoso pau de óleo, vermelho, redondo como enorme guarda-chuva e falou:

– Lá está a casa da fazenda do “Tira-Couro”, de tenebrosa memória!

Vagamente já ouvíramos falar dessa propriedade e de um pavoroso crime ali cometido. então, o amigo, diante da nossa curiosidade, contou o que sabia:

– Isso faz muito tempo. Era dono destas terras de criação certo ricaço, pai de quatro filhos varões e uma filha. A menina, apesar do isolamento em que vivia, acabou gostando de um rapaz da sua condição, forte e trabalhador, filho de outro fazendeiro da vizinhança. Não se sabe por quê, o casamento deixou de ser do agrado da família da moça, que resolveu impedi-lo a todo custo. Isso porém, não foi obstáculo para que os dois namorados vivessem o seu romance simples e natural, cujos sinais apareceram com toda evidência pouco tempo depois.

Quando o fato chegou ao conhecimento do pai e dos irmãos da jovem, houve grande indignação, planos de exemplar vingança. Um dia, agarraram o rapaz e o amarraram pelos pés a um galho baixo daquele pau de óleo e, com afiadíssima faca, o castraram e começaram a esfolá-lo como se faz a um suíno. Quase no fim da bárbara tarefa, apareceu de repente um irmão da vítima, o qual pensavam estar longe dali, cabra valente e decidido, bom na pontaria, que apenas com sua aparição, fez todo mundo correr.

Chamava-se Januário Garcia. Cortou a corda em que estava pendurado o irmão e, vendo que este morria em seus braços, jurou matar um a um toda a família dos assassinos. E foi dando cumprimento à promessa. Cortava a orelha esquerda de cada cadáver, para com elas fazer um colar que trazia no pescoço. Por fim, já havia matado seis e andava à cata da sétima e derradeira orelha cujo dono, na época do crime, era um menino.

Certa tarde, extenuado de tanto caminhar, tinindo de fome, o matador topou com um rapazola que tratava de acender o fogo para aquecer a matula. Puseram-se a conversar. Palavra vai, palavra vem, acabou o meninote por dizer que andava escondido pelo mato porque tinha a vida jurada. Há anos fugia do homem que já havia matado seu pai, sua irmã e três irmãos.

– De onde és tu, menino? – perguntou Januário.

– De Três Corações, filho de…

– Pois sou eu o Januário Garcia, que matou tua gente e que te procura há muito tempo, para te matar também!

Diante da expressão de terror do rapaz e do fato de haver participado da sua parca comida, o bandido ficou em apuros com a própria consciência. Por outro lado, achava que não podia dar por perdidos os anos que passara à procura da última de suas vítimas, nem faltar ao solene juramento que fizera diante do cadáver ainda quente do irmão querido. Depois de hesitar um pouco, resolveu ser generoso, generoso a seu modo, oferecendo uma oportunidade ao espavorido mocinho, que tremia diante dele, esperando a sentença.

– Como você parece bonzinho e repartiu comigo a sua matula, vamos fazer uma coisa: você sai correndo, eu conto até dez e depois faço fogo. E só dou um tiro. Se não acertar, você continua correndo e vai-se embora.

Assim se fez. Mas aconteceu que Januário ainda não tinha esquecido a pontaria e a carga acertou mesmo na nuca do rapaz que afocinhou morto no chão, vindo logo a sua orelha a completar as contas do sinistro rosário e dar ao seu portador a famosa alcunha de “Sete Orelhas”.

Em Três Corações e cidades próximas, essa estória está na boca do povo, quase com as mesmas palavras. No entanto, há quem conte que Januário Garcia morreu num jogo de búzio onde, sem dinheiro, quis pagar a parada com o seu famoso colar de orelhas ressequidas. Teria havido grande tumulto, morrendo o herói, de uma facada. Outros afirmam que ele morreu de morte natural em idade avançada.

Conto publicado em:

Antologia Ilustrada do Folclore Brasileiro – Estórias e Lendas de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro
Seleção de Mary Apocalyse / Supervisão Literária de Afonso Schmidt
Livraria Literart Editora – SP
1962

O Rio Paraíba – O “Furado”

Autor: Prof. Benedicto Sergio Lencioni
Publicado p. 33/37 da revista Historias gentes e cousas de minha terra
Jacareí – SP

O Rio Paraíba mudou de leito!

Lembro-me de ter ouvido, várias vezes, durante minha adolescência que o leito do Paraíba fora mudado pelo trabalho dos escravos de um fazendeiro, durante a noite.

Esta afirmativa despertava a minha imaginação, à base de imagens e fatos correlatos: Durante a noite, ao som de estalidos de chicote, braços negros e luzidios enterravam enxadões em solo virgem e o rasgavam pela primeira vez. Centenas de escravos trabalhando maquinalmente, abrindo o leito por onde correria pacatamente o lendário Paraíba.

Não imaginava outra cena, senão esta, que ainda hoje me acompanha como verdadeira, quando penso na abertura do célebre “furado” que mudou, por volta de 1850, o leito do Rio.

Ele passava, numa acentuada curva, nos fundos da Santa Casa de Misericórdia, banhando antes o atual leito da E. F. Central do Brasil no Cassununga e completando-se além da Rua XV de Novembro, passando pelos fundos da Igreja Matriz de N. Sa. da Conceição.

Que ele foi mudado provam os documentos e os indícios, mas que teria determinado a mudança do leito? Quais suas consequências? É o que procuraremos decifrar após a leitura e estudo dos documentos que conseguimos colher.

Em fins de 1850 ou 1851, o influente Barão de Jacareí encaminhou ao Juiz de Paz em exercício, Sr. João da Costa Gomes Leitão, o seguinte embargo:

“Ilmo. Snr. Juiz Mal. Supplente

Diz o Barão de Jacarehy, que estando prezentemente o Inspetor da Estrada geral abrindo hum Furado para novo encanamento do rio Parahyba, direcção que desvia extraordinariamente o rio da povoação em reconhecido prejuizo do publico, e especialmente do supplicante, porque o seu predio por onde passa o Parahyba perde consideravelmente de valor, como tudo se mostrará a seu tempo, vem requerer a V. Sa. Mandado de Embargo em dita obra, afim de que esta não continue, citando-se o Inspetor para audiência deste Juizo assistir aos artigos de nunciação e para todos os mais actos da cauza.

E. R. Mcê.

a) Barão de Jacarehy”

O embargo do Barão de Jacarehy suscitou o problema na Câmara e foi efetuada uma vistoria nas obras do “Furado” conforme atesta o interessante documento abaixo:

“Tristão Rodrigues da Silva, Escrivão do Juizo de Pas nesta cidade de Jacarehy e seo distrito na forma da lei. Certifico que revendo o Protocollo das Audiencias do Juizo de Pas nelle as Folhas quarenta hum verso athé quarenta e dois verso achei o Termo pela forma seguinte: Aos dois dias do mes de Março de mil oitocentos e oitenta e hum (1) nesta cidade de Jacarehy Comarca da Imperial Cidade de São Paulo, dirigindo-se o Actual Juiz de Pas em exercicio commigo Escrivão de Seo Cargo Ao diante nomeado e o official de Justiça Luiz Pinto de Morais e as Testemunhas Leocadio da Siqueira Cortes e Joaquim José dos Santos, ao Porteiro do Alferes João da Costa Gomes Leitão onde se estava abrindo hum furado para novo incanamento do Rio Parahiba o qual incanamento desvia o mesmo Rio sento e setenta braças da Povoação; E sendo ahy por ele Juis ditto que sendo a referida obra evidentemente Prejudicar ao Publico pois que retirava o curso do Rio muitas braças de huma grande parte da Povoação, deixando de paçar alem de por muintos Predios particulares, pela Caza de Caridade desta Cidade, indo essa nova direção do Rio ofender em grande parte a Ponte, na qualidade de Juis de Pas e poriço com o dever de ivitar qualquer obra prejudiciar ao Publico, muinto principalmente não existindo no lugar otro qualquer Juis no cazo de se opor a referida obra; E tão bem porque existe huma representação delle Juis ao Excelentisimo Presidente da Provincia sobre este mesmo furado, cuja representação viera para a Camara desta cidade informar. Não sendo avista desto posivel tal obra continuar, pois que he claro que o Governo procura dados para resorver-se com pleno conhecimento de cauza. Tendo-se já pidido huma convocação extraordinária da Camara, poriço fazia-se ver ao Inspetor desta obra João Rodrigues Munhos que não devia continuar nella athé que a Camara informace e o Exmo. Presidente da Provincia resolve-se a respeito, tanto mais que elle Inspetor hera o mesmo Vice-Presidente da Camara a quem tinha vindo a representação, e a quem consta a elle Juis que hum vereador avia requerido convocação da Camara Extraordinaria para informar sobre o objeto, e por elle Inspetor foi ditto que não tinha obrigação de convocar Camara já, poriço que estava incomodado e que não tinha a dar satisfação a ninguém, poriço que estava aotorizado por huma Portaria para esse fim do Exmo. Prezidente ao que elle Juis replicou que esta obra já se tinha começado sem aotorização no dia quatro do corrente como consta da copia della, e para constar mandou elle Juis lavrar o prezente Termo que asigna commigo Tristão Rodrigues da Silva Escrivão de seo cargo e as Testemunhas Leocadio da Silveira Cortes e Joaquim José dos Santos que a rogo do mesmo asigna José Rodrigues da Silva Toledo. Assignaturas: Frederico Candido de Lima Juis de Pas em exercicio. Leocadio da Silva Cortes. Jose Rodrigues da Silva Toledo, he o que se contem o dito Termo a qual me reporto e dou fé. Jacarehy 10 de março de 1851. Tristão Rodrigues da Silva, Escrivão do Juiso de Pas.”

Em data de 10 de março de 1851 o Sr. João da Costa Gomes Leitão em vista da autorização e da pertinácia do encarregado da obra do “Furado” exarou o seguinte despacho ao embargo do Barão de Jacarehy:

“Não tem lugar o que o suple. requer, visto o Inspector da Estrada Geral abrindo o dito furado por portaria do Exmo. Snr. Prezidente da Província e com sepção do proprietário. Jacarehy 10 de março de 1851.

a) Leitão.”

A mudança do leito foi efetivada, baldados os protestos e a celeuma levantada. Quatro anos após, em 22 de setembro de 1855, mais uma vez o Barão de Jacarehy, ainda não se conformando com a mudança declarava em reunião na Santa Casa “que não fazia a obra na enfermaria grande, mas que dava à Irmandade a quantia de 1:000$000 se ella conseguice voltar o Rio Parayba ao seu antigo leito”.

Em 7 de outubro do mesmo ano o Barão demitiu-se da Irmandade, “ao que parece por não ter a mesma se interessado pela volta do rio ao antigo leito” escreveu Rogélio Rodrigues no seu livro “Santa Casa de Misericórdia de Jacareí – Seu primeiro Século”. Não foi este apenas um episódio envolvendo a Casa de Caridade e o problema do “Furado”, outros se verificaram, uma vez que em sua Irmandade encontravam-se as pessoas mais influentes da cidade.

No livro de Atas da Câmara encontramos a seguinte discussão sobre o assunto, quando se procurava solucionar o problema estudando-se uma nova direção ao Rio. A Comissão Permanente encarregada de dar seu parecer sobre o novo “Furado” e prevenir a continuação desses danos, deu o seguinte parecer:

“Fazendo-se a mudança do Rio Parahyba pelo posto do Sr. Joaquim Antonino e procurando o antigo leito, previne-se todo o mal futuro: porém sendo esta mudança muito dispendioza, e talvez com tanta dificuldade, quer quando se realize a mudança, já o rio tenha dado grandes prejuizos.

A outro meio que sendo facilimo é muito dispendiozo, e por isso a Comição é de parecer que se lance mão delle, e é o seguinte:

Fazem-se mudar o rio pelo lado direito principiando pelo pasto do Sr. Leitão pouco para cima do portão do mesmo pasto, e dahy fronteando uma árvore que se acha no pasto do Sr. Joaquim Antonino, porque assim supõem-se que o rio procurando o meio previnira o mal, e quando não previna dará tempo a dar-se outras providências. Martins e Cardozo.

O Sr. Leitão largou a cadeira, e indicou que, se pelo pasto delle ficar melhor, que elle dá o terreno, mas que julga que fica no mesmo estado, e que sendo para por o rio em seo antigo leito, fazendo uma valla no pasto de Joaquim Antonino, procurando a volta do Cassununga, êlle dá para adjutoria 500$ Reis e o Sr. Joaquim Antonino Rapozo, fazendo-se a mudança do rio conforme indicação do Sr. Leitão tão bem dá 500$000. Reis.

A Camara officiou ao Exmo. Prezidente para êlle resolver a respeito mandando um Engenheiro para observar o melhor lugar, orçar a quantia priciza e dar a planta da óbra votando vencido o Sr. Andrade e Camara.”

Esta reunião extraordinária da Câmara Municipal realizou-se a 12 de outubro de 1863 e em data de 17 de dezembro de 1864 enviava ao Presidente da Província o seguinte ofício, dizendo entre outras informações:

“Percorre êste município o Rio Parahyba, que é navegável desta cidade para baixo. nada pode dizer esta Camara sobre profundidade, correnteza, largura e mais circunstâncias que podem interessar a navegação, porque não ha trabalhos a respeito no archivo desta municipalidade.

O rio Parahyba em consequencia de um canal que foi aberto por ordem do Exmo. Snr. Presidente Vicente Pires da Motta, em 1851, tem levado a força de suas correntes para uma direção tal que vae fazendo visivelmente um novo leito, de modo que a magnifica ponte de pedra que está sobre elle, e ponte que custou à provincia mais de 70 contos, vae ficar em secco, lançando-se o rio para o lado da cidade, onde causará graves prejuisos. Em vista disto esta Camara já representou ao Exmo. Governo Provincial por duas vezes, pedindo providencias e a illustrada Assembléa Provincial votou na sessão do presente anno a quantia de 2:500$000 para dar nova direcção ao rio. Infelizmente, porem, esta medida de salvação não tem tido applicação, de modo que breve a provincia terá o prejuizo da perda infallivel da ponte de pedra, e ainda maiores prejuizos pela aproximação do caudaloso rio que com suas enchentes impetuosas inundará esta cidade. Esta Camara toma a liberdade de chamar a sabia attenção de V. Excia. para este grave assumpto.

Paço da Camara Municipal da cidade de Jacarehy, em sessão ordinaria de 17/12/1864.

a) João da Costa Gomes Leitão
Ignacio de Siqueira Cardozo
Salvador de Oliveira Preto
Candido de Siqueira Cardozo
Joaquim Antonio de Paula Machado
Felismino Delfim d’Andrade e Camara”

Como se observa pela redação deste ofício, ainda nessa data a ponte de pedra não estava inutilizada de todo, o que nos leva a concluir que havia o leito velho e o “furado”, portanto o Paraíba correndo em duas direções. Também se deduz pela leitura que o “furado” foi se alargando pela “força de suas correntes” até dar o leito atual, ficando seu antigo o “lamaçal do cassununga” e o então “esmaga sapo”, hoje, ambos aterrados.

A preocupação dos homens públicos da época é constante e novas solicitações são formuladas: 5/4/1867, 7/8/1869: “É esta a décima vez que fazemos êste pedido”. Devido a tantos reclamos insistentes da Câmara o Governo da Província determinou em 6 de novembro de 1869 a vinda do engenheiro para estudar o controvertido assunto.

Em 14 de novembro de 1877 a Câmara mais uma vez voltou à carga comunicando ao Presidente da Província: “O rio continua a produzir desmoronamentos na margem do lado desta cidade e ultimamente com tanta força que formou um reconcavo. Neste andar, pois, é lógico que dentro em pouco tempo este desmoronamento alcance o leito primitivo”.

Nada disto, porém, aconteceu. O rio permaneceu em seu novo leito. O “furado” levou o rio para mais distante da cidade e suas águas deixaram no Cassununga o vestígio periódico do antigo leito – uma região baixa, inúmeras vezes inundada nas cheias.

Em 17 de maio de 1903, o assunto fôra, certamente, pela derradeira vez abordado em reunião da Mesa Administrativa da Santa Casa, nesta feita já intimamente ligado aos interesses do hospital no aproveitamento do leito antigo e não mais de seu retorno.

Como fato consumado, o assunto não mais agitou os meios políticos conformados com a irreversibilidade. O assunto estava encerrado.

(1) Estando o documento datado de 10 de março de 1851 trata-se de equívoco a data 2 de março de 1881.

Bibliografia:

  • Atas da Câmara Municipal de Jacareí
  • Santa Casa de Misericórdia de Jacareí – Seu Primeiro Século de Existência – autor: Rogelio Rodrigues

 

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Imagem constante na pág. 21 do livro Pelas Ruas da Cidade,
de autoria de João Baptista Denis Netto – o Jobanito.

Saudades…

“Cabelos Negros” – Eduardo Dusek

Fogão de lenha. Madeira queimando, fumaça subindo. Leitoa com recheio de farofa. Doce de leite na forma. Leite quentinho, espumando, direto da vaca… na caneca esmaltada, com Toddy no fundo. Água gelada de ribeirão. Peneira pra pescar guaruzinho. Fritada de peixe. Mesa de madeira rústica. Chão de terra batida. Banco de uns três metros pra todo mundo sentar. Despensa de mantimentos. Cachorros na porta da cozinha. Meia porta pro lado de fora. Janela de madeira com tramela. Colchão de palha. Folha de bananeira. Escorregador de morro abaixo. Bica d’água. Corrente na roda pro carro subir o morro no barro em dia de chuva. Barco na represa. Linhada. Vara de pescar de bambu. Minhoca, milho verde e queijo prato. Acará, tilápia, rabo vermelho, saguiru, bagre, piaba, traíra e cascudo. Lampião de gás. Chapéu, cavalo, arreio e sela. Causos de família. Céu azul.

Ah… Bateu uma saudade da infância na casa de minha avó…

Tirinha do dia:
Desventuras de Hugo...

Eras Japonesas

Sistema de contagem dos anos no Japão, baseado no período de cada um dos Imperadores.

IMPERADOR MATSUHITO
ERA MEIJI
(08/09/1868)
IMPERADOR YOSHIHITO
ERA TAISHO
(12/07/1912)
IMPERADOR HIROHITO
ERA SHOWA
(25/12/1926)
IMPERADOR AKIHITO
ERA HEISEI
(08/01/1989)
 
 
 
 
 
 
 
 
1868 – 01
1869 – 02
1870 – 03
1871 – 04
1872 – 05
1873 – 06
1874 – 07
1875 – 08
1876 – 09
1877 – 10
1878 – 11
1879 – 12
1880 – 13
1881 – 14
1882 – 15
1883 – 16
1884 – 17
1885 – 18
1886 – 19
1887 – 20
1888 – 21
1889 – 22
1890 – 23
1891 – 24
1892 – 25
1893 – 26
1894 – 27
1895 – 28
1896 – 29
1897 – 30
1898 – 31
1899 – 32
1900 – 33
1901 – 34
1902 – 35
1903 – 36
1904 – 37
1905 – 38
1906 – 39
1907 – 40
1908 – 41
1909 – 42
1910 – 43
1911 – 44
1912 – 01
1913 – 02
1914 – 03
1915 – 04
1916 – 05
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1919 – 08
1920 – 09
1921 – 10
1922 – 11
1923 – 12
1924 – 13
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1926 – 15
1927 – 01
1928 – 02
1929 – 03
1930 – 04
1931 – 05
1932 – 06
1933 – 07
1934 – 08
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1936 – 10
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1938 – 12
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1944 – 18
1945 – 19
1946 – 20
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1949 – 23
1950 – 24
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1956 – 30
1957 – 31
1958 – 32
1959 – 33
1960 – 34
1961 – 35
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1968 – 42
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1979 – 53
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1984 – 58
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1989 – 01
1990 – 02
1991 – 03
1992 – 04
1993 – 05
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1996 – 08
1997 – 09
1998 – 10
1999 – 11
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2001 – 13
2002 – 14
2003 – 15
2004 – 16
2005 – 17
 


Giri

O conto dos Quarenta e Sete Vassalos Leais

Alexandre Nuernberg
Adaptado do mangá “Lobo Solitário” (Kozure Okami),
de Kazuo Koike (argumento) e Goseki Kojima (desenho).

Era uma época insana. O menor capricho do Shogun tornava-se lei posta em vigor pela pena de morte. Ensinamentos de Buda, que condenavam a violência e a crueldade, foram deturpados em mandamentos contra a morte de animais de toda a espécie, decretando a fome e a peste aos outrora férteis campos do Japão. Caçadores enchiam as ruas, voltando-se para a mendicância e o crime.

Era uma época de decadência moral, regida por ridículas cerimônias. Um tempo de mortes estúpidas e sofrimento sem sentido.

Lorde Asano era jovem e tinha pouca paciência para com a etiqueta de corrupção do shogunato. Ele recusou-se a pagar propina a um oficial da corte. O funcionário, para se vingar, ludibriou Asano, levando-o a vestir-se erroneamente numa cerimônia onde o menor deslize era causa de humilhação pública. Enfurecido, o samurai atacou seu inimigo. Antes de ser subjugado, arremessou sua espada através de um corredor do castelo Tokugawa, a moradia do Shogun. Errando o alvo, o katana perfurou uma porta corrediça, adornada em ouro. Por ter causado dano ao lar de seu soberano, Asano foi sumariamente sentenciado à morte por ritual de suicídio.

Seus quarenta e sete vassalos juraram vingança e não tiveram sucesso. O Shogun então concedeu-lhes o privilégio de seguirem o exemplo de seu mestre, morrendo por harakiri. Quarenta e sete guerreiros samurai (um número grande demais para ser mantido num único pátio ou templo) levaram suas adagas a seus ventres e tombaram no exato momento em que as lâminas ceifavam seus pescoços.

O conto dos “Quarenta e Sete Vassalos Leais” é um estudo sobre o conflito entre a ética samurai e a burocracia do Shogun. Para o samurai, a devoção a seu senhor transcendia qualquer outra paixão na vida.

Essa obsessão em obedecer e servir seu mestre de maneira inquestionável e destemida era a pedra angular do código samurai.

Chamava-se “Giri”.

Giri também significa uma extrema lealdade ao nome da família e aos amigos, inclusive a estranhos a quem se sentisse simpatia ou afeição. Obrigação, honra, decência, cortesia, dívida de gratidão e responsabilidade.

Imigração Japonesa

O sonho de enriquecimento em terras brasileiras

Antonio Alves da Fonseca
Texto enviado para os participantes da Lista Gentree ( genealogia ).

Os japoneses também imigraram de sua pátria por motivos semelhantes aos dos italianos e dos alemães: a desintegração do sistema feudal após a “restauração Meiji” (1868), bem como a política de industrialização e urbanização.

O Estado japonês passou a taxar fortemente a propriedade rural e a produção agrícola, para poder financiar o desenvolvimento industrial, o que trouxe o empobrecimento aos proprietários rurais, que ficaram à margem do processo de modernização, forçando-os a emigrar.

Foram para Honolulu (Havaí) trabalhar com o açúcar e para as Ilhas de Guam (possessão alemã). Foram, ainda, para os Estados Unidos em grande número e também para o Canadá, trabalhar na indústria madeireira. Na América do Sul, estabeleceram-se no Peru, dedicando-se à indústria pesqueira; no Brasil, vieram trabalhar na lavoura do café.

O Japão tinha uma enorme população num território exíguo. A emigração do “excedente populacional” foi estimulada pelo governo para aliviar as tensões sociais e a explosão demográfica, de sérias consequências, como o desemprego, a miséria, a indigência…

Foram formadas as companhias de imigração, semelhantes àquelas formadas para a imigração italiana. Eram empresas privadas que se beneficiavam dos estímulos que o governo oferecia à imigração.

Os japoneses radicaram-se principalmente em São Paulo, já no início do século XX. Foram trabalhar na “frente de expansão” da lavoura cafeeira. Chegaram quando a imigração italiana sofria forte redução, no momento em que a procura por mão-de-obra para as fazendas de café era muito grande; maior do que a oferta.

Em 1907, o governo japonês e o paulista fizeram um contrato com a Companhia Imperial de Imigração, subvencionando parte dos gastos com o transporte de 3000 japoneses (mil por ano). Atendia-se assim aos interesses dos fazendeiros paulistas e aos do governo japonês.

Em 1908, chegam os primeiros japoneses (800), distribuídos por diversas fazendas do Estado de São Paulo. A relação entre os imigrantes japoneses e os administradores das fazendas foi muito conflituosa. Entre os próprios imigrantes eram frequentes os conflitos. As péssimas condições de trabalho, moradia e remuneração causavam constantes atritos, fazendo com que a maioria dos imigrantes abandonasse as terras já nos primeiros meses de permanência. Apenas 25% conseguiram ficar nas fazendas por mais de um ano.

O governo paulista tentou, diante dessa situação, cancelar os contratos. Para que isso não fosse feito, as companhias prometeram selecionar melhor os imigrantes, impedir as greves, as fugas ou o abandono das fazendas antes do prazo estipulado. Mesmo assim, em 1912, cerca de 60% dos japoneses já haviam abandonado as fazendas para as quais emigraram.

O sonho do enriquecimento

Os japoneses vinham para o Brasil com o objetivo de juntar um bom dinheiro e depois voltar para a sua terra. Trabalhavam como contratistas, diferentemente dos alemães e dos italianos, que eram parceiros. Assumiam a empreitada de cuidar de 4 mil a 8 mil pés de café por “família”, por um período de 4 a 6 anos. Poderiam intercalar o cultivo de café com agricultura de subsistência. Trabalhando dessa forma, alguns conseguiram realizar uma poupança, passando a pequenos proprietários. Era o sonho de todos aqueles que vinham com a família. Para isso, chegavam a dobrar a jornada de trabalho. Os que conseguiram adquirir uma pequena propriedade não retornaram para o Japão.

A partir de 1920, a emigração japonesa passou a ser politicamente orientada, principalmente após 1924, quando os Estados Unidos proibiram a entrada de japoneses no país, temendo o “perigo amarelo”. O governo japonês passou, a partir de então, a subsidiar integralmente a emigração para o Brasil. Fornecia capital para os projetos de colonização e para a produção de matéria-prima para o mercado japonês, atendendo a uma necessidade básica desse país, carente em recursos naturais.

O Japão começou a encarar o Brasil como um mercado potencial para os seus investimentos. Mensalmente, 1500 imigrantes chegavam ao Porto de Santos. Para termos idéia do crescimento dessa imigração, vejamos estes números: de 1908 a 1924, chegaram ao Brasil cerca de 35 mil japoneses; depois, em apenas 10 anos, de 1925 a 1935, foram 141 mil japoneses. A partir de 1936, essa imigração começou a cair, entrando no Brasil, no período de 1936 a 1950, somente 14.600 japoneses. Em 1942, o fluxo foi interrompido devido à Segunda Guerra Mundial.

Getúlio Vargas, com o “Estado Novo”, considerava os núcleos de colonização japonesa como “quistos raciais”. Os japoneses passaram a ser perseguidos, discriminados, falava-se no “perigo amarelo”, como nos Estados Unidos. Mesmo depois de restabelecidas as relações entre Brasil e Japão, no pós-guerra, a política de imigração por parte do governo japonês não foi retomada.

O Brasil também não tinha mais interesse numa política de imigração estrangeira.