Quarentena em casa (onde mais?)

Recentemente o amigo virtual Nelson Moraes resolveu disponibilizar gratuita e temporariamente o download do seu livro A Gargalhada de Sócrates (muito bom, diga-se de passagem) como contribuição àqueles que estão de quarentena.

Achei muito legal a ideia!

Tão legal que resolvi fazer o mesmo. Então, com praticamente as mesmas palavras dele, eis minha proposta:

Sua quarentena não precisa ser tediosa ou sem graça, já que rir não é o melhor remédio – é o único remédio.

É por isso que estou disponibilizando, GRÁTIS, o download do PDF de Filosofices de um Velho Causídico – Seletos 99 Causos. Clique aí na imagem da capa aí embaixo, faça o download do arquivo e torne sua reclusão em casa pelo menos divertida, com os 99 textos que são, resumidamente, os melhores, os de maior significância pessoal, os mais divertidos, os mais profundos, enfim, os mais relevantes que já publiquei (na minha nada humilde opinião, é claro). Distribuídos pelos capítulos Coisas de Casal, Criança dá Trabalho, Juridicausos, A vida como ela é, Passado a Limpo, Martelando o Teclado e Filosofices, falo um pouquinho da vida conjugal, da difícil arte de ser pai, acrescento mais um tantinho de causos jurídicos, reclamo dos perrengues do dia a dia, do passado que tanto me guia quanto persegue, bem como desfio um quê de crônicas, invencionices e elucubrações de praxe….

Enquanto aqui na vida real uma leva de canalhas bate bumbo chamando o povo de voltas às ruas, eu tento segurar você em casa oferecendo a possibilidade de se divertir, sem gastar um centavo. É o jeito de eu fazer minha parte.

Pela atenção, obrigado.

Volta ao Mundo em 80 Horas – VII

VII – Até quando tudo dá certo, ainda dá errado. Ou não.

(Para os desavisados de plantão: esta é a continuação da narrativa de uma de minhas desventuras que comecei a contar no final de 2016 – putz, já se vão quase quatro anos! – e que até agora ainda não tinha concluído. Nada demais, apenas um pré-infarto pelo qual passei. Se quiserem saber como tudo isso começou ou rememorar o causo desde o princípio, desçam direto lá para o final deste texto e cliquem no link “Início da Saga”.)

Quinta-feira. Dia três. Noite. Cerca de 60 horas de internação, sendo espetado, desespetado, medido, apalpado, remediado e outros tantos quetais. Porém já estava muito bem descansado e – até que enfim! – munido de óculos e muitos livros os quais poderia ficar lendo até bem tarde da noite de quinta para sexta (lembrem-se que eu havia dado entrada na Santa Casa por volta de dez da manhã de terça-feira).

Já era de madrugada e distraído como estava acabei levando um susto dos infernos quando ouvi batidas na janela, ao lado da minha cama. Alguém estava lá fora, no estacionamento.

– Mas que catzo…

Abri a janela, com cautela e armado de um livro volumoso o suficiente para causar o estrago na testa do primeiro desavisado.

Era o Torquemada. E a Marcela. E a Joseane.

Como obviamente já não era mais horário de visitação e já cientes que dentro em breve eu teria alta eles foram lá para me tripudiar consolar e não me deixar sozinho, ao menos por alguns momentos durante aquela longa noite. Tudo bem que eles já tinham acabado de chegar do Armazém, nosso boteco’s-bar predileto próximo do trabalho, onde deviam ter passado as últimas horas por lá. E pelo estrago estado geral da galera, eu tive absoluta certeza de que não estavam tomando suco de laranja…

Conversamos um tanto, rimos outro tanto (“Porra, não trouxeram nada pra mim? Sacanagem, hein?”), levei uma comida de rabo por essa frase e quando por fim perceberam que aquela janela não era um balcão de bar – e, em especial, que não tinha nenhuma bebida por lá – antes que fossem descobertos pela altura das risadas, resolveram ir embora. Despedimo-nos e, confesso, independentemente do estado geral que fisicamente meu coração poderia estar, espiritualmente ele estava bem mais leve e quentinho. Como é bom ter amigos! Mesmo um sádico como o Torquemada…

Depois dessa resolvi simplesmente deitar e dormir enquanto ainda estava com aquela sensação gostosa de aconchego.

No dia seguinte acordei tarde pra caramba (umas seis e meia), pois pelo visto meu relógio biológico havia resolvido tirar férias. Como eu já sabia que o café da manhã ainda iria demorar um pouco resolvi tomar um outro bom banho – ao menos para lembrar que ainda existia água quente no mundo. Carregando aquela parafernália de soros e acessos e camisola aberta no rego, com um pouco de trabalho – e quase pranchando no chão por umas duas vezes – finalmente consegui terminar a ducha. Bem na hora, pois o café havia acabado de chegar.

Apesar de nos últimos anos ter ostentado uma vetusta barba na maior parte do tempo, naquela época eu preferia ficar bem escanhoado. Mas como é cheia e cresce rápido, ao final de uns dias sem ver um barbeador eu já estava parecendo um indigente. Paciência. Só faltava mais um dia, segundo o “protocolo”, e no sábado eu iria para casa.

Passei o dia meio que bestando, cochilando um tanto e lendo outro tanto e no finalzinho da tarde me veio a médica para a visita de praxe.

– Parabéns, o senhor já vai ter alta.

– Sei, sei. Amanhã, né?

– Não, hoje mesmo. Só falta meu colega assinar comigo e o senhor já pode ir embora. Tem quem venha lhe buscar?

– Mas, mas… E o tal do protocolo? De que eu teria que ficar sei lá quanto tempo em observação?

– Ah, isso é mais uma orientação do que uma regra. Como o senhor está reagindo muito bem não há necessidade de mantê-lo por aqui.

“Mais uma orientação do que uma regra”? Caray! Não pude deixar de me lembrar do filme Piratas do Caribe onde, de acordo com o momento e a conveniência, a “parola” poderia ser considerada uma regra ou não. Sexta-feira, final de expediente, após cravadas oitenta horas longe da sociedade e eu sem uma muda de roupa sequer para ir embora. Liguei para a Dona Patroa – coitada… – e, não demorou muito, ela chegou com o que eu precisava. Separei todo o resto para já levar para o carro enquanto aguardaríamos a segunda assinatura e – enfim! – a alta.

E aguardamos.

E aguardamos.

Aguardamos.

Aguardamos mais um pouco.

E nada.

E já estava ficando muito tarde e ela precisava voltar para dar conta das crianças em casa.

E lá foi ela e lá fiquei eu.

De novo.

E ASSIM QUE ELA SAIU ME TROUXERAM O TAL DO PAPEL DA ALTA!!!

Que estava desde não sei que horas parado na mesa de não sei quem para levar não sei onde e depois entregar para mim.

E já não adiantava mais ligar para ela, pois era tarde e devia estar a meio caminho de casa.

Paciência.

No dia seguinte, cedinho, combinaríamos de ela vir me buscar.

Mas é lógico que não foi isso que aconteceu.

(Início da Saga)                        (Continua…)

Sonhei com você!

Logo pelo raiar do dia acordei com o insistente chamado do maldito despertador.

Ainda assim não quis levantar, pois queria sorver um pouco mais da lembrança daquele sonho gostoso e suave, de como há muito não tinha, onde situações malucas, desconcertantes e nonsense se misturam e flertam com outras triviais e corriqueiras de nosso dia a dia…

Realmente foi um sonho bom…

Invariavelmente não costumo lembrar de meus sonhos, pois durmo apenas poucas horas por noite – costume há muito arraigado – e ainda que não adormeça rápido, durmo profundamente.

Só que desta vez foi diferente, lembrei de cada detalhe, de cada cheiro, de cada gesto, de cada toque, de cada tudo – e sabe por quê?

Sonhei com você!

Assim, do nada, ainda que há muito você sequer passasse próxima de meus pensamentos, tive esse sonho meio doido, onde eu estava num trabalho técnico, burocrático e enfadonho para uma cliente, mas estava feliz, pois você estava ali, presente, sentada do meu lado, conversando, proseando e rindo com esse seu sorriso com cheiro de luz do Sol a iluminar todo o ambiente.

Que bom poder matar essa saudade que eu nem sabia que ainda tinha, mesmo que dessa maneira surreal, lá no mundo onírico, onde tudo se mescla, onde passado, presente e futuro são uma só coisa, pois este meu coração – que ultimamente anda um tanto quanto árido – palpitou forte uma vez mais, com lembranças emocionais que estavam soterradas em algum canto perdido lá nas mais profundas catacumbas de meu ser.

Um tanto quanto exagerado, eu sei – mas fazer o que se sempre fui assim?…

Eu fiquei muito feliz em poder te encontrar novamente, pessoalmente, olhando bem fundo nesses seus olhos brilhantes, apesar de toda essa distância que nos separa, ainda mais porque estávamos daquele nosso jeito de sempre, meio que descontraídos, meio que se divertindo, meio que discutindo mas sempre se amando.

Sei que, para você, não é preciso explicar, mas para qualquer outra pessoa que venha a ler estas linhas é importante entender que quando eu digo clara e francamente que “eu te amo”, isso na realidade é muito mais profundo que um mero amor fraternal e absolutamente não quer dizer que seria daquele tipo de amor para vivermos como um casal.

Amar, nesse caso, é um querer bem de uma forma inenarrável, indescritível, é gostar de estar perto, de poder ajudar, é querer que a pessoa esteja bem, que esteja feliz, independentemente de com quem quer que seja ou onde quer que esteja, sabendo do fundo do coração que o sentimento que se tem por essa pessoa é tanto recíproco quanto de uma sinceridade à toda prova.

Um dia ainda haveremos de nos encontrar novamente – e dessa vez no mundo real – para conversarmos, rirmos, matarmos nossas saudades e lembrarmos com carinho de todas as bobagens que já fizemos enquanto vivíamos próximos um do outro.

Disso eu tenho certeza.

Até porque, como diria Richard Bach, “Se a nossa amizade depende de coisas como o espaço e o tempo, então quando finalmente ultrapassarmos o espaço e o tempo, teremos destruído a nossa fraternidade. Mas, ultrapassado o espaço, tudo o que nos resta é AQUI. Ultrapassado o tempo, tudo o que nos resta é AGORA. E entre AQUI e AGORA você não crê que poderemos ver-nos uma ou duas vezes?”

Devo agora me despedir, guardando com carinho essa sensação de proximidade e familiaridade que esse sonho me trouxe, ou melhor, que me resgatou lá de um passado que já estava começando a ficar pálido em minha memória, mas que, ao menos por enquanto, voltou a pulsar forte no meu peito.

E, por derradeiro, não posso me esquecer de quebrar o maldito despertador para que nunca mais volte a interromper um sonho como este que tive hoje!

😘

NÃO LEIA ESTE TEXTO

se você não tiver uma mente aberta e capacidade de pensar de forma diferente…

Muito bem. Resolveu continuar, né? Então prossiga por sua conta e risco.

O que eu gostaria de tratar aqui é sobre o Especial de Natal do grupo Porta dos Fundos chamado “A Primeira Tentação de Cristo”. Muita bobagem vem sendo falada por muita gente, o que acabou me tirando dessa minha precoce pseudo-aposentadoria literária para tentar colocar alguma ordem nessa bagaça toda.

Em PRIMEIRÍSSIMO LUGAR: se você é do tipo “não assisti e não gostei”, então, por favor, PARE DE LER AGORA! Vai assistir o vídeo (são só 46 minutinhos), pois foge totalmente ao conceito da lógica querer discutir sobre algo que você não conhece. Basta clicar neste link e baixá-lo, então marque direitinho onde parou e depois você volta aqui, ok?

Se bem que nestes “tempos modernos”, onde haters predominam nas redes sociais, regurgitando suas convicções na maior parte das vezes absurdas, não seria de se estranhar uma propensão desse tipo, pois lógica tem sido um produto escasso no mercado…

Mas tergiverso.

Bem, espero que tenha assistido, pois vamos ter vários spoilers por aqui.

Considere-se avisado.

Acontece que no Especial de Natal desse ano o grupo Porta dos Fundos (mais uma vez) resolveu cutucar a onça com vara curta: a estória gira em torno de uma festa surpresa para comemorar o aniversário de trinta anos de Jesus, onde, além da família, reúnem-se os Três Reis Magos, Lázaro, um tanto de figurantes – destaque para a “Tia Lupita” (que existe em praticamente todas as famílias) – e Deus propriamente dito. E eis que chega Jesus, após ter passado quarenta dias no deserto, acompanhado do “Orlando”, que evidentemente é gay. Isso mesmo: homossexual. Uma bicha louca. E não, não devemos ter medo das palavras desde que elas nos sirvam para deixar clara a imagem que queremos passar.

A trama, ainda que bem elaborada, é até bem simplesinha. Aliás, nada que já não tenha sido explorado antes, em termos de humor, pois particularmente ainda prefiro as tiradas do antigo blog Jesus, me Chicoteia! (2002) onde o Marco Aurélio consegue desenvolver uma linha hilária ao transcrever a Bíblia desde o Gênesis… Esse Deus apresentado pelo Porta dos Fundos consegue ser quase tão sacana quanto o do blog, cabendo uma menção honrosa às farpas que ele e José trocam entre si.

Pois bem. Após toda a saia justa da chegada dos dois, ficando no ar um clima tenso por conta de estar na cara o que estava acontecendo ali (você não quer mesmo que eu explique, quer?), nessa festa é revelado a Jesus que ele é o Filho de Deus, o que o deixa atordoado. Depois de um chá muito suspeito que faz Jesus viajar e encontrar outras divindades de outras religiões, ele volta só para descobrir que Orlando havia tomado seu lugar como “Filho de Deus” – só que, na realidade, ele era o Diabo. Eles acabam batalhando entre si (o kamehameha de Jesus é de arrancar gargalhadas), tudo acaba num final feliz, o Bem vence o Mal, etc, etc, etc.

E por último Jesus aceita a missão que Deus lhe passo para divulgar Sua palavra, mas com a condição de que teria que ser do jeito dele, pois ele não gosta do estilo do Pai (transformar gente em pedra, destruir cidades por fogo, enfiar um sujeito dentro de uma baleia e por aí vai) e prefere uma solução mais “Paz e Amor”.

Pronto.

É isso.

E só para contextualizar, Jesus de fato começou sua vida pública aos trinta anos (Lucas 3:23), logo após ter voltado de seu exílio de quarenta dias no deserto, onde foi tentado pelo Diabo (Mateus, 4:1-11).

E então, por conta desse vídeo, as redes sociais entraram em ebulição, com muita gente bradando à Netflix que cancelasse sua exibição, pois tratava-se de uma blasfêmia e zombaria contra a Fé mascarada sob a “desculpa” de liberdade de expressão e cujo único propósito seria dessensibilizar as pessoas e preparar o caminho para uma perseguição (???) mais contundente contra os cristãos. Tudo isso por ter insinuado que Jesus teve uma relação homossexual. Na realidade não insinuou não, disse com todas as letras.

O curioso é que no Especial de Natal desse mesmo grupo do ano passado – que inclusive ganhou um Prêmio Emmy Internacional na categoria Melhor Série de Comédia – não me lembro de ter havido essa comoção toda. Nesse, chamado “Se Beber, não Ceie” (uma clara paródia ao filme Se Beber, não Case), nos é apresentado um Jesus que, juntamente com seus discípulos, se reuniram para a última ceia e encheram copiosamente a cara, acordando todos com uma gigantesca ressaca no dia seguinte enquanto tentam reconstruir os passos de tudo que ocorreu – pois ninguém consegue se lembrar de absolutamente nada.

É desse jeito, então?

Um Jesus ébrio, bêbado, embrigadado é aceitável, mas um Jesus homossexual não?

Mas antes vamos rever alguns conceitos básicos:

Paródia: obra literária, teatral ou musical que imita outra obra com objetivo jocoso ou satírico.

Sátira: composição livre e irônica contra instituições, costumes e ideias da época.

Blasfêmia: enunciado ou palavra que insulta a divindade, a religião ou o que é considerado sagrado.

Ou seja, já deve ter sido possível para você perceber que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”! Aliás uma das melhores explicações que li foi a do padre Francys Silvestrini:

“Quando, por diversas razões, os humoristas tentam entrar no campo religioso, é importante distinguir o ‘alvo’ que querem atingir. O ‘alvo’ da blasfêmia é Deus. O ‘alvo’ da sátira é a imagem de Deus projetada publicamente por aqueles que dizem crer nEle. Os que se utilizam da sátira falam sobre nós, nossas crenças, nossas práticas; não sobre Deus. (…) Será que a caricatura satírica, para muitos desagradável, deste controverso ‘Especial de Natal’ não seria uma ocasião favorável para examinarmos a possível caricatura blasfemadora que muitos de nós, crentes, estamos projetando no espaço público de nosso país?”

Aliás, impossível assistir o vídeo sem ao menos lembrar do excelente A História do Mundo – Parte I, do diretor, roteirista, ator e comediante Mel Brooks (recomendo). Porém, diferente dele, o pessoal do Porta dos Fundos não tem a mesma finesse para tratar do tema, mas mesmo assim possuem pontos em comum, pois trata-se da “arte da farsa”, um gênero teatral de caráter puramente caricatural de concepção simples, que aborda trivialidades em situações ridículas, sem medo de gracejos ou exageros – muitas vezes agindo como crítica sociocultural. E nisso não há blasfêmia nenhuma.

Até porque o que eles fizeram não foi zoar com a religião em si, mas sim com a maneira com que as pessoas lidam com a religião – o que são coisas totalmente distintas. Na prática esse vídeo, apesar de toda a galhofa, acaba por reafirmar a divindade de Cristo bem como a importância de sua missão – até porque somente ele consegue livrar a humanidade do Diabo. Nenhum dogma é questionado, pois até mesmo a virgindade de Maria segue incólume. O verdadeiro alvo das piadas não é a fé, mas os conflitos e as contradições que existem dentro de qualquer família – cujas disputas, intrigas e outros comezinhos acabam por vir à tona na época do Natal.

Doutra feita, tirando, obviamente, a última figurinha, se qualquer das outras figuras desse quadro acima por algum motivo lhe incomodou, então o seu problema não é com o que considera blasfêmia, mas sim com o fato de sua própria intolerância àquilo que foge do “seu normal”.

E não me venha falar de respeito à família, tradição, pessoas de bem, o escambau. Nos dias de hoje tudo isso acaba servindo mais para disfarçar o próprio preconceito das pessoas com relação a tudo que as cercam. Nestes tempos conturbados em que vivemos, onde a sociedade se cala diante dos feminicídios, de assassinatos, da truculência policial, da falta de sensatez generalizada, buscar o ressurgimento de uma ultraconservadora TFP vai contra tudo aquilo que acredito em termos de evolução humana.

Goste ou não, saiba que existem pretos. Existem pobres. Existem nordestinos. Existem bêbados. Existem homossexuais. Existem transexuais. Existem famílias felizes formadas por pessoas do mesmo sexo e até mesmo por três ou mais pessoas que vivem juntas. Você pode não gostar disso, mas você não pode fechar os olhos a isso. É uma realidade que não pode ser alterada nem mesmo pela intransigência, pelo racismo, pela homofobia ou por qualquer outro desvio de caráter (pessoas assim é que, na minha opinião, realmente possuem um desvio de caráter).

Então entenda que esse vídeo do Porta dos Fundos é uma mera sátira, pois enxovalha os costumes dessa sociedade hipócrita em que vivemos, mas nada faz para atacar a Fé de absolutamente ninguém.

Foi essa, inclusive, a linha seguida pela juíza Adriana Sucena Monteiro Jara Moura, da 16ª Vara Cível do Rio de Janeiro, ao negar um pedido de liminar para que esse Especial de Natal fosse removido do Netflix, pois ela entendeu que uma decisão nesse sentido seria “inequivocamente censura decretada pelo Poder Judiciário”. Diz também que não encontrou no caso a ocorrência de crimes contra a religião, violação aos direitos humanos, incitação ao ódio ou discriminação. E, ainda:

“Ademais, também considero como elemento essencial na presente decisão que o filme controverso está sendo disponibilizado para exibição na plataforma de streaming da ré Netflix, para os seus assinantes. Ou seja, não se trata de exibição em local público e de imagens que alcancem aqueles que não desejam ver o seu conteúdo. Não há exposição a seu conteúdo a não ser por opção daqueles que desejam vê-lo. Resta assim assegurada a plena liberdade de escolha de cada um de assistir ou não ao filme e mesmo de permanecer ou não como assinante.”

E esta foi apenas uma de uma série de decisões semelhantes, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. Um pouco mais ácida foi a decisão da juíza Marian Najjar Abdo, da 1ª Vara do Juizado Especial Cível de São Paulo:

“Uma das principais lições ensinadas por Jesus é a da tolerância, sobretudo em relação aos pobres de espírito (e também aos ‘espíritos de porco’). Entendo ausente o perigo de dano irreparável ou de difícil reparação. A liberdade de expressão, no presente caso, parece, de fato, ter sido utilizada de forma desvirtuada e abusiva, mas, em princípio, basta que o autor não assista ao programa em questão e até mesmo não mais mantenha contrato com a corré Netflix, em sinal de sua indignação.”

Enfim, é isso. Essa é minha opinião, quer você goste ou não, quer você tenha se convencido ou não. E você tem o pleno direito de não concordar e continuar convicto de que essa é uma “obra blasfema”. Paciência. Eu tentei. Mas uma coisa lhe digo: se você quer buscar ter, no mínimo, argumentos para discutir, então assista o vídeo (até o fim!) e tire suas próprias conclusões.

Ou então não assista e vá ser feliz.

Mas lembre-se (Lucas 9:37-56) de ser tolerante…

Emenda à Inicial:

E eis que voltei pra casa, após um ótimo Natal em família e, ao me atualizar do que aconteceu no mundo durante minha ausência, uma das primeiras notícias que vejo é a seguinte:

Sede do Porta dos Fundos sofre ataque a bomba na véspera do Natal

Em nota os integrantes do Porta dos Fundos afirmaram:

“Na madrugada do dia 24 de dezembro, véspera de Natal, a sede do Porta dos Fundos foi vítima de um atentado. Foram atirados coquetéis molotov contra nosso edifício. Um dos seguranças conseguiu controlar o princípio de incêndio e não houve feridos apesar da ação ter colocado em risco várias vidas inocentes na empresa e na rua.

O Porta dos Fundos condena qualquer ato de violência e, por isso, já disponibilizou as imagens das câmeras de segurança para as autoridades, para o Secretário de Segurança e espera que os responsáveis pelos ataques sejam encontrados e punidos. Contudo, nossa prioridade, neste momento, é a segurança de toda a equipe que trabalha conosco.

Assim que tivermos mais detalhes, voltaremos a nos manifestar. Mas, por enquanto, adiantamos que seguiremos em frente, mais unidos, mais fortes, mais inspirados e confiantes que o país sobreviverá a essa tormenta de ódio e o amor prevalecerá junto com a liberdade de expressão.”

Particularmente ainda estou pasmo com o grau de ignorância e de violência que nossa sociedade brasileira está atingindo. Não é esse mundo de ódio e intolerância que quero para meus filhos. Sempre me manifesto contra esse tipo de atitude, mas parece que cada vez mais minha voz vai sumindo em meio àqueles que vociferam suas verdades absolutas.

Infelizmente parece que, de fato, como diria Thalma de Freitas, “quem está evoluindo hoje são as máquinas, não nós.”

Treze de Maio: Kevin

Treze de maio.

Vinte anos!

Tanto tempo faz…

E vinte anos atrás?

Exatamente às treze horas e dois minutos – como se para homenagear os dias do aniversário de sua mãe e meu…

Pesando 3.370g e cravados 50cm de altura.

Meio metro.

Kevin Hideaki Miura Andrade.

Kevin. Um nome de origem celta, cujo significado é “Rio Estreito”. Nesse caso, uma alusão ao estreito caminho do meio, em que se navega entre o bem e o mal… Todos os detalhes foram pensados, desde a preservação de sua herança japonesa, a continuidade dos nomes de nossas famílias, passando pela numerologia e até mesmo prevendo uma facilidade de pronúncia e comunicação em qualquer parte do mundo.

Descendente de samurais.

Décima segunda geração a partir da matriarca da família Andrade, de 1629.

Nascido em São José dos Campos, SP, faz parte da sexta geração de legítimos joseenses.

Me parece que foi ainda ontem, quando corremos para o hospital, todo o nervosismo e insegurança de nosso primeiro filho. Nosso primogênito. E lá veio você, lindo, perfeito, saudável. Não sei se ainda lembra do hemangioma, uma espécie de “manchinha” que você tinha na perna e que acabou sumindo com o tempo. Já naquele momento foi nossa primeira preocupação com sua saúde. Outras vieram. Sustos e correrias.

Mas tudo passa. As broncas, os castigos, as manhas. Só não passa minha preocupação. Nunca. Sempre me preocuparei com você. Sempre pensarei em você. Sempre. Todo o tempo, o tempo todo.

E, dentre tantas surpresas, lá se vão vinte anos. Já é praticamente um adulto. Mas sempre com novas descobertas, novos interesses, novas aventuras, novas metas. E, se me permitir, quero participar de tudo isso com você. Quero compartilhar. Quero viver e continuar vivo através de você, de seus olhos e de seus pensamentos.

Te amo, meu filho.

Mais do que você possa supor ou imaginar.

Mas vamos ao que interessa: o momento em que o pai coruja expõe fotos de uma vida inteira para plena vergonha do filhote aniversariante!

😀


1999
No dia em que nasceu.


Uma de nossas primeiras fotos…


Com cerca de seis meses e já tinha a carinha de hoje.


2000
Primeiro aninho. Sempre é de palhacinho!


2001
Lembra do chapéu do Mickey?


2002
A prova de que o magrelo do seu irmão um dia já foi gordinho…
É aquele ali no colo da Márcia!


Na escolinha…


Seu irmãozito! De bochechas altamente mastigáveis!


Aos três anos já cantava como ninguém. Literalmente.


2003
Acho que foi a única vez que fizemos uma festa completa
lá na casa do seu avô Bento…


Aos quatro, nos primeiros movimentos do xadrez.


2004
Pikachu!


A Tropa completa!


2005
Incrível. Nossa família – não o tema. Tá, também…


2006
Amigos e primas.
As duplas (nada sertanejas) César & Daniel e Sara & Sabrine.


2007
Olha aí a turminha Incrível de novo…


2008
Nessa época sua paixão era Jedi.


2009
Começo da paixão por mangás…


2010
Aos onze, bolo branco e muito morango, como gosta (ao menos a sua avó acha que sim).


2011
Meu pequeno adolescente…


2012
Já com o começo da carinha de adulto que virá a ter!


2013
E a partir de então foi cada vez mais difícil conseguir tirar uma foto com uma carinha, digamos, “normal”…


2014
E também foi ficando cada vez mais sério…


2015
Mas sempre vai depender do momento, do estado de espírito e do delicado e variável humor que lhe é característico…


2016
Com seus melhores amigos do segundo grau – e a tradicional cara de louco na foto…


2017
Dezoito anos de idade!



No finalzinho do ano, cabeludo como ele só!



E no início do ano seguinte, reco. A reencarnação do Recruta Zero!


2018
Aos dezenove, comemorando com o núcleo da família…


2019
E agora, há pouco tempo, numa das fotos mais recentes… Crash & Eddie, os irmãos Gambá!
😀

Outro dia de ócio

E eis que tive que ir para a cidade vizinha para cuidar das situações jurídicas que me são peculiares pela própria natureza da profissão: afinal sou advogado e tenho que padecer em vida ainda, né?

Era até uma coisa simples – nem mesmo por mim mesmo, mais para fazer um favor para um colega (por que é que a maioria dos advogados sempre se tratam por “colegas”?…) do que por qualquer outro motivo. Bastava ir até o Distribuidor do Fórum – onde se faz o protocolo dos pedidos nos arcaicos processos que ainda não tramitam pelo meio digital – e protocolar uma petição. Nem mais, nem menos. Mas eu sou eu, não é mesmo?

– O sistema está fora do ar, doutor.

Eu já lhes disse o quanto tenho ojeriza de pessoas que conversam comigo e terminam cada frase com “doutor”? E se o protocolo é físico (carimbão mesmo), do que me interessa o sistema? Paciência…

– Em mais ou menos uma horinha já deverá estar de volta…

Mardito sistema. Isso era hora de sair pra passear? E o fato de tratar a hora que ainda levará por “uma horinha” não faz com que essa mesma hora passe mais rápida que os sessenta minutos regulamentares.

Saio do prédio do Fórum pela lateral e vejo o costumeiro e mórbido espetáculo das famílias que vão acompanhar o depoimento de alguém que foi preso. Sem acesso direto ao distinto, quando ele é encaminhado pela “saída de presos”, ficam todos à distância mínima possível, mandando beijos, abraços, fazendo recomendações, levantando bebês, até que a figura em questão entre no famigerado camburão e volte ao seu recolhimento. Triste. Verdadeiro. Mas triste.

E o que fazer nessa hora que devo aguardar? Que tal tentar resgatar aquele meu “Dia de Ócio”, um brinde levantado há mais de dez anos? Seria possível? Veremos…

Bastou uma caminhada de uns dois quarteirões e já o encontrei. Um boteco. Mas não um boteco qualquer: um boteco pé-sujo, porque é o que tinha que ser.

Característico como todo boteco de igual porte, teor e qualidade, mas com alguns detalhes que refletem o sinal dos tempos. Não existem mais cinzeiros de plástico sobre as mesas, mas estas continuam com as tradicionais toalhas de plástico de sempre. As paredes possuem uma cor indefinida, algo que um dia com certeza já foi branco, mas hoje lembram mais a parede do fundo de uma churrasqueira.

Sento-me no balcão e aguardo ser atendido.

Enquanto isso um senhorzinho educado e aparentemente gentil, com aproximadamente uns 130 anos, com um característico bigode mais branco que minha barba, entra e pede um guaraná sem gelo – isso mesmo! Nada de bebida alcoólica. E ainda mais sem gelo. E, sim, o dia estava quente. Pelo seu modo de se vestir, provavelmente um advogado ou contador que ainda deve bravamente resistir em alguma sala comercial na parte velha da cidade. Após uns vinte minutos se levanta, com uma mesura se despede e segue seu rumo com seu terno surrado. Provavelmente já deve ter visto dias melhores. Ambos, o terno e ele.

Como eu já disse antes, num lugar como este você simplesmente fica invisível para o restante da sociedade. E a prova cabal de minha afirmação é que minha amiga pessoal e previdente sócia de nossa empresa passou a menos de dois metros de distância e sequer me percebeu…

– Tem cerveja gelada?

– É a única que tem.

– Mas tá gelada mesmo?

– Péraê.

E eis que ele me serve como copo uma latinha de cerveja vazia, sem a tampa superior, com as bordas cuidadosamente trabalhadas para evitar algum mínimo corte ou machucado, dentro de um desses pequenos isopores suficientes para apenas uma latinha. Serviu a breja da garrafa. Experimentei. E não é que saporra funciona? Geladíssima!

Diferente da última vez em que estive nessa situação, o trânsito de veículos da rua é muito mais movimentado, ao contrário da estreita calçada, onde minguados gatos pingados que de quando em quando passavam – até porque estamos longe do centro nervoso da cidade.

E então comecei a perceber melhor o ambiente que me cercava. A costumeira chapa deu lugar a um surrado micro-ondas, o qual está EM CIMA da chapa desativada a sabe-se lá quanto tempo. Garrafas de bebida empoeiradas compartilham seu espaço com uma moderna TV digital na qual – é lógico – está passando um jogo de futebol de algum obscuro time de talvez alguma ainda mais obscura divisão.

Paira no balcão uma jarra de forma duvidosa com uma beberagem escura, ainda mais duvidosa, meio que cor de mel – provavelmente algum tipo de cachaça com alguma “especialidade” dentro.

– Chefia, me vê um pedaço desse torresmo, fassavor?

– Quer que corte?

– Não, não precisa não.

Besta quadrada que sou. Ainda bem que tenho dentes fortes. Ainda.

No mais quase tudo era como um “boteco pé-sujo normal”: balcão de madeira e tampo de vidro, banquetas altas, gastas e desconfortáveis, vitrine da década de sessenta com alguns salgados também duvidosos em seu interior. Troféus de formatos estranhos ostentados numa prateleira ao alto (aquilo seria um boi?) dividindo o espaço com diversas garrafas comemorativas de sabe-se lá o quê. Uma espécie de biombo de treliça fazia uma divisória entre a porta e o balcão de modo a garantir a intimidade inexistente de seus clientes. Ou seja, equipamento completo. Perfeito!

E, pra completar, quase todo mundo acima dos quarenta que passava pela calçada fazia questão de cumprimentar a figura bonachona do proprietário, o qual, enquanto me observava com o rabo dos olhos, resolveu limpar o embaçado do balcão com o tradicional paninho sujo sempre presente no seu ombro (conforme já descrevi antes, ao falar da tradicional comida de boteco).

Num mero vislumbre, do lado de fora percebo o povo passando. Todo mundo no celular. Lendo, falando, digitando ou tropeçando.

E lá dentro dois ventiladores de teto. Um ligado, outro queimado. Um moderno freezer (ou seria uma estilosa geladeira?) cheia de sorvetes tem o condão de destoar do ambiente. Assim como um moderno sistema de segurança. Sinal dos tempos, com suas luzes piscantes e câmaras (teoricamente) funcionando para registrar o nada do dia a dia de um boteco desses.

Na calçada transitam novos e velhos hispters – será que eu mesmo, com minha vetusta barba, óculos estilosos e brinco também não seria um? – assim como meninas e moçoilas, teoricamente prontas para frequentar alguma academia, ainda que não. Mais pela modernosa vestimenta que pela falta de dedicação que se denota pelo seu formato físico.

Na rua, em plena disputa com os veículos, passa um casal, jovem até, com ele levando ela sentada no quadro da bicicleta. E eu pensando que essa prática havia sido extinta lá pela década de oitenta!

O final de minha hora de ócio se aproxima, desta vez sem cigarros para me acompanhar. Mais uma vez sinal dos tempos e do inferno do politicamente correto que se instalou nesta nossa sociedade que invariavelmente almeja ser o que não é. Mas a culpa sempre será dos desajustados, dos outsiders, daqueles que não seguem a cartilha do que seria socialmente aceitável para conviver com pessoas de índole duvidosa em seu íntimo, mas que externamente pregam ser pilares de tudo aquilo que consideram como certo e do que seria correto.

Mas divago.

Acerto minha conta, pego minhas coisas e saio pela porta ainda a tempo de presenciar aquele senhorzinho voltando e pedindo outro guaraná sem gelo. Vai entender?

Agora que estou de volta às ruas, longe de minha já preterida invisibilidade, alguns transeuntes – velhos amigos e colegas e gente que preferia nunca mais ver – passam e me cumprimentam através de uma buzinhadinha, um sorriso falso, um tapinha nas costas… Só por isso já fico com vontade de voltar à segurança do boteco.

De volta ao Fórum, agora com o sistema também de volta (garanto que ele também deve ter saído pra uma brejinha gelada…), cumpro com o dever que me foi confiado, protocolo o que tinha que protocolar e já é hora de tomar meu rumo.

Pena que, diferente da última vez, não tenho uma mensagem de digna de nota para lhes passar. Estamos onde estamos pelas escolhas que fizemos. Eu vou muito bem, obrigado. Vou levando minha vida, fazendo meus trabalhos, pagando minhas contas. Me falta um quê de companheirismo daquela velha, louca e embriagada turma do dia a dia, mas fazer o quê? As pessoas precisam evoluir. Tomar novos rumos, decidir por novas vidas. Assim também o fiz. Certos ou errados, é o que temos pra hoje. Vivemos tempos sisudos e não consigo de imediato vislumbrar um brilhante futuro próximo a nos aguardar…

Mas devemos seguir em frente. Sempre. Com a íntima certeza de que tomamos o caminho que consideramos justo e certo. Ao menos, apesar de todos meus atos e de todas minhas falhas e faltas, de um modo perfeitamente imperfeito, sinto que consigo continuar colocando a cabeça no travesseiro e dormindo tranquilamente. Dia após dia. Vocês podem se gabar disso também? Bem, eu posso.

E no mais íntimo recôndito da mais íntima parte de meu ser, continuo tendo uma fé inabalável de que após a tempestade deverá vir a esperada bonança. Meus olhos ainda brilham, aquela fera interior ainda ruge e rosna me dizendo em palavras impronunciáveis que dias melhores virão. Que ainda nos sentaremos num legítimo boteco pé-sujo para saborear a nostalgia daquilo que já foi, a qual virá ao encontro daquilo que ainda está por vir. E vamo que vamo!

Pois é…

Parece que nem mesmo os dias de ócio são mais como antigamente…

Solitude

Oi?

Alguém aí?

Ninguém?

ÓTIMO.

É que já tem meses que escrevi algo que tivesse saído de minha própria cabeça e, na prática, ANOS que escrevi algo que realmente eu mesmo possa rotular de “interessante”…

Esse distanciamento deste espaço virtual se deu em parte por conta da correria do dia a dia (que – vamos combinar? – nem é tão corrido assim…), um tanto de crise criativa e outro tanto de ceticismo generalizado após acompanhar o FEBEAPÁ que grassou nas redes sociais

E não foi sem motivo que fiz uma boa faxina por lá. Não, não exclui ninguém – ainda que muitos merecessem – apenas “me” exclui. Explico. Tirando o Instagram, que na maioria das vezes é uma simpática diversão, o Twitter, onde praticamente ninguém se importa se existo ou não, e o Linkedin, que até hoje não tenho certeza do que estou fazendo por lá, restou-me o degenerado Facebook, um sangrento campo de batalha em que qualquer tentativa de demonstrar algum posicionamento (político, religioso, humorístico, filosófico, pessoal, fiscal, sexual ou seja lá o que for) invariavelmente desanda numa flame war digna de Game of Thrones!

Quer passar incólume por lá? Fácil. Basta se limitar a postar: fotos ou vídeos que mostram os queridos amigos ou a excelente família que você possui e como todos vocês se dão bem, quer sejam recentes, antigas, verdadeiras ou não; frases e citações bonitinhas que servem para estimular o lado positivo das pessoas, ainda que você jamais tenha lido uma vírgula sequer do autor da frase ou, pior, naquele costumeiro exercício insano de recortar-e-colar-sem-nada-checar, que tenha atribuído o texto a quem nunca o disse (e, talvez, jamais o dissesse); e pets. Não as garrafas, mas sim aquelas fotos e vídeos fofinhos de animaizinhos de estimação, nas quais as pessoas gastam horas admirando e readmirando, curtindo, comentando e compartilhando com todo o restante do UNIVERSO – mesmo quando os demais mortais que estão em sua timeline não tenham a mínima vontade de ter o mesmo peculiar e carinhoso olhar do remetente no que diz respeito aos pequenos monstrinhos.

Existem variações, mas a receita básica é essa.

Só que esse negócio já me deu nos pacová, de modo que eu simplesmente apaguei tudo, TUDO, que existia na minha timeline desde 2010 até outubro deste ano. Fotos, frases, vídeos, curtições, postagens, compartilhamentos, comentários, bate-papos, etc. Tudo. Tá certo que eu continuo sendo o neurótico do backup de sempre, de modo que tenho tudo isso muito bem guardado nas catacumbas de meu computador (para eventuais referências futuras…) – mas, lá na rede, mais nada.

Por quê?

Porque preciso – mais uma vez – voltar ao básico. Ao que é simples. Ao que é objetivo. Preciso ter foco.

Mesmo este blog sequer começou como blog! Como já contei antes, lá nos idos de janeiro de 98, o que era para ser uma simples página para consultas jurídicas paulatinamente foi se transformando, se moldando, se ajustando, até que, anos depois, viria a assumir sua natural vocação para se tornar um verdadeiro blog. E só para não deslembrar: BLOG corresponde ao acrônimo de WEBLOG, que nada mais é que uma página da WEB (rede) em que o LOG de dados (registro de eventos) tem suas atualizações organizadas cronologicamente de forma inversa, do mais antigo para o mais atual. Isso mesmo, é exatamente como um DIÁRIO, em que a última página disponível também foi a última a ser escrita.

Ah, eu e esse meu didatismo…

Mas, enfim, é como a mais famosa frase de uma série que sempre adorei, Battlestar Galactica: “all of this has happened before and will happen again”… E com este ano de 2019 se aproximando, juntamente com tudo o que ele representa para este Velho Causídico que vos tecla, essa frase é mais sintomática que nunca. Pois já passei por isso antes, como, há anos, contei neste texto.

E é bem como está escrito lá, pois “não me sinto nem um pouco diferente, mas sei que não sou mais o mesmo”, pelo que me faz falta “uma época em que as coisas eram mais simples, a vida mais doce e a morte mais distante”“Desde então tenho procurado algo que estava faltando. Aquilo que eu esqueci. O Básico

“Quero poder escrever sem saber se e quando vou ser lido. De mim para mim. E deixar lá. Palavras ao vento. Úteis ou não. Não me importa, nem quero me importar mais com o que em qualquer exato momento outrem estiverem fazendo ou pensando. Deixem seus registros e eu, também quando e se quiser, os verei.”

E não, não estou velho e amargurado. Nem solitário. Nem sofrendo de solidão. Mas de uma outra coisa, sim.

Solitude.

Palavrinha interessante, que me foi generosamente apresentada há não muito tempo e cujo conceito não me era estranho – somente não sabia que existia um nome para esse conceito. Inclusive meio que já escrevi sobre isso antes

Diferente da solidão, que é encarar o vazio – que pode se dar pela ausência de contato com outras pessoas, de se expor a relações ou mesmo de poder confrontar as próprias ideias – criando um verdadeiro isolamento de si mesmo (ensimesmar-se), a solitude diz respeito ao pleno contato consigo mesmo, não havendo necessidade de estar sempre em companhia de outras pessoas – e não há solidão por conta disso. É poder estar sozinho viajando numa nave no vazio do espaço e, ainda assim, satisfeito.

A solitude confunde quem olha de fora, pois o observador tem a sensação de que não estamos bem, que estamos sofrendo, enquanto que a realidade é outra: é de paz.

E é essa a paz que busco.

Para isso me é necessário aprofundar-me um tanto numa solitariedade – sem abraçar a solidão – para atingir uma plena solitude

E tentar voltar a escrever.

Escrever como nunca!

Mesmo que não seja lido, como sempre…

Piloto Automático

Check Point: 04:00 AM

Acordo ao som de violoncelos do despertador do celular. Tonteio um bocadinho durante aquele clássico rápido momento de quemcossô, oncotô, poncovô…

Levanto e vou até o escritório para desativar o alarme – sim, tenho que deixar o celular bem fora de meu alcance, senão eu simplesmente o desligaria e não, “função soneca” não funciona pra mim.

Ato seguinte, já acompanhado pela Nãna, nossa gatinha adolescente, vou para minha ablução matinal (será que mais alguém NO MUNDO além de mim ainda usa palavras desse tipo?), mas antes disso educadamente cumprimento a “Clotilde” – que é o nome que demos à chiadeira meio assoviada que sem explicação ou justificativa surge e desaparece na caixa de descarga do banheiro (mais conhecida como o “Demônio da Caixa de Descarga”). Me encaro no espelho. Sorrio.

– Bom dia, bonitão!

[Pegar o cesto de roupas sujas, colocar duas canecas d’água no fogo, colocar ração para Nãna, colocar ração para a Leia e a Lara (nossas vira-latas de plantão), ir até a área de serviço no fundo de casa, separar a roupa escura do restante, ligar a máquina de lavar, recolher a roupa de ontem ainda pendurada no varal, deixar tudo bem dobradinho (facilita para a Dona Patroa passar e evita que ela me encha o saco), descer de volta para a cozinha, preparar o café da família (forte o suficiente para dar partida no carro), preparar o chá japonês do meu sogro (fraco o suficiente para enxergar o fundo da garrafa), preparar a mesa (canecas de cada um, talheres, Toddy, Nescau, leite, pão de forma, pão francês, maionese, requeijão, margarina, geleia, manteiga e o que mais tiver), preparar e colocar minhas torradas no forninho elétrico (fatias de pão francês amanhecido, azeite, orégano ou chimichurri, Aji-no-moto e sal).]

Check Point: 04:30 AM

Pego o celular, meu óculos pra perto (véinho…) e vou para o “meu íntimo momento matinal”, que é quando dou uma rápida checada nas redes sociais, confiro alguns e-mails e as notícias urgentes do dia. Ato contínuo, uma boa chuveirada e ao passar pela cozinha já aproveito e ligo o forninho elétrico com as minhas torradinhas dentro. Antes de me vestir, confiro meu peso: 104,3kg. Tô me mantendo. Se considerarmos que comecei o ano com 113kg, até que estaria bom, mas ainda tô longe dos esperados dois dígitos…

– Bom dia, filho!

Kevin, o filhote número um, já levantou, se barbeou e veio para a cozinha. Tiro de Guerra é assim mesmo, fazer o quê?… Retiro minhas torradas do forninho e sentamo-nos para o café. Meu primeiro café da manhã. Ele vai de café com leite e eu de café puro, sem açúcar. Mais as torradas.

Depois, enquanto ele vai colocar a farda, volto para a área de serviço.

[Tirar a roupa da máquina, colocar a roupa escura, ligar a máquina de lavar, pendurar a roupa lavada com os prendedores de plástico na ordem azul escuro, azul claro, verde, branco, amarelo, o restante e só depois usar os prendedores de madeira (gente, entendam: eu TENHO que me distrair com algo, nem que seja cultivando um TOC), descer de volta à casa, lavar a louça de ontem que deixaram na pia, colocar o lixo reciclável pra fora (é segunda-feira, único dia em que o caminhão passa), devolver a Nãna pra dentro, pegar a chave do Bilbo (nosso valente Ford Ka).]

Check Point: 05:20 AM

– Bóra, filho!

[Para o Tiro de Guerra: são 15 semáforos, 1 radar de 60km/h, 3 radares de 80km/h e 6 buracos de respeito (entendam “buracos de respeito” como aqueles que você tem que saber exatamente onde estão para, no momento certo, desviar deles – sob o risco até mesmo de amassar o aro da roda). Personagens do trajeto (pessoas que todo santo dia estão ali no mesmo lugar, no mesmo horário, fazendo a mesma coisa e que invariavelmente cumprimento ou não): o alemão palmeirense do segundo posto de gasolina, o motorista de van que sempre me ferra na subida, a moça misteriosa no ponto escuro do ponto de ônibus sem luz. Chegamos. Total: 13,8 quilômetros.]

Check Point: 05:36 AM

– Inté, filho!

[De volta pra casa: são 18 semáforos, 1 radar de 60km/h, 2 radares de 80km/h e 4 buracos. Personagens do Trajeto: a moça loira que sempre está flertando com o porteiro de um prédio e o policial militar pra lá de barrigudo saindo da padaria. Cheguei em casa. Total: 15,7 quilômetros.]

Check Point: 05:53 AM

[Recolher o jornal japonês do meu sogro (sei-lá-o-quê Shimbun), subir direto para a área de serviço, estender a roupa escura respeitando a ordem dos prendedores, pegar minha pilha de roupa passada, descer de volta à casa, conferir se o Erik – o filhote número dois – já levantou, guardar a roupa passada, aproveitar que a Dona Patroa acabou de levantar, já dobrar as cobertas e arrumar a cama, arrancar o Jean – o filhote número três – do embolado de cobertas que todos os dias ele faz, volta para cozinha.]

Agora é hora do meu segundo café da manhã. E olha que nem sou um hobbit! Enquanto saboreio outra xícara de café e termino com o que sobrou das torradinhas, o restante da família vai chegando à mesa. O Erik prepara seu Nescau, a Dona Patroa toma seu café com leite e até mesmo o Jean, que ainda vai levar uns vinte minutos para acordar, mesmo que já esteja tomando seu Toddy. Eles terminam e vão se trocar, bem como arrumar as mochilas: o caçula estuda perto de casa e o do meio está num curso técnico perto do Centro. Eu continuo à mesa, esperando dar o horário.

Check Point: 06:25 AM

– Erik, to the Batmobile!

[Para a escola: são 13 semáforos, 2 radares de 60km/h, 1 radar de 80km/h e 1 buraco. Personagens do Trajeto: a moça loira sempre elegantemente sentada numa mureta enquanto aguarda a carona, um senhorzinho muito magro, de rosto anguloso, longa barba e cabelo escorrido sempre parado na esquina com um carrinho de feira (que apelidei de Wild Bill), o tiozinho meio careca passeando com uma coisa pequena e peluda que vagamente lembra um cachorro, o rapazinho na esquina da escola que deveria estar coordenando o trânsito (mas que só fica enconstado na parede vendo as menininhas passarem) e o rapaz da guarita. Chegamos. Total: 9,6 quilômetros.]

Check Point: 06:48 AM

– Boa aula, filho!

[De volta pra casa: são 7 semáforos, 1 radar de 60km/h, 1 radar de 80km/h e 6 buracos. Personagens do Trajeto: o gordinho de uniforme da Urbam mexendo no celular enquanto espera a carona e só. Novamente cheguei em casa. Total: 10,1 quilômetros.]

Check Point: 07:03 AM

Saldo Parcial: 49,2km e 2 máquinas de roupa

[Subir para a cozinha, medir a pressão de meu sogro de 86 anos (ele SEMPRE levanta pontualmente às sete), separar os remédios da parte da manhã (diabetes e, se o caso, pressão), moer tudo num pilãozinho e passar para um copinho (ele tem dificuldade de engolir aqueles comprimidos gigantes), voltar para a frente da casa, fazer uns dez minutos de alongamentos, sair para a avenida, caminhar um quilômetro rua acima, parar para alguns exercícios básicos, correr um quilômetro rua abaixo, chegar em casa.]

Check Point: 07:50 AM

Depois de um esforço final como esse eu sempre continuo suando por por mais pelo menos meia hora… Mesmo debaixo do chuveiro! Sendo assim, distraio-me com uma ou outra leitura e, por fim, passado esse tempo, vou tomar outra ducha, revigorado.

Check Point Final: 08:30 AM

Concluída essa rotina que tenho de segunda a sábado, finalmente posso me dedicar a seja lá o que vá fazer no dia de hoje: quer seja prestar uma consultoria, visitar um cliente, me reunir com as sócias, trabalhar numa peça jurídica, escrever uma crônica, mexer no meu Opala, enfim, sei lá.

Por ora resolvo simplesmente dar uma conferida numa peça que estou montando. Sirvo-me de um café e sento-me à frente do computador. O telefone toca.

– Pronto?

– E aí, Adauto? Bom dia! Desculpa aí se eu te acordei ligando assim tão cedo.

– Não, não. Estou só tomando um café…

– Êita vida boa, hein? Levantou agorinha mesmo, já encontrou seu cafezinho pronto e agora deve estar aí, pensando na vida. Um dia eu chego lá também!

– …

¯\_(ツ)_/¯

Vamo pra feira?

Quando eu era criança, um pouco antes de minha adolescência e das aborrecências que a acompanham, o tradicional “programa de domingo” invariavelmente era comparecer na igreja Matriz de Santana para a “Missa das Dez”, ou, melhor dizendo, a chamada “Missa das Crianças”.

Estávamos no final da década de setenta e começo dos anos oitenta. Quem celebrava a missa ainda era o Padre Luiz Gonzaga Alves Cavalheiro – conhecido pelos mais antigos como o “Xerife de Santana”… E ainda lembro-me bem da austeridade dele em diversas situações! Mas ali, naquela missa, ele meio que se divertia, pois cumpria com toda a liturgia e ainda arranjava um jeito de, com um ou outro gracejo, arrancar algumas risadas daquela criançada que preenchia a gigantesca nave da igreja: meninos sempre do lado esquerdo e meninas do lado direito. Ou será que era o contrário?

Enfim, ao final da missa e badalar dos sinos era o momento de enfrentar a fila do pipoqueiro, que sempre se posicionava estrategicamente na praça bem em frente da igreja, já tendo começado a estourar uma nova leva de pipocas fresquinhas momentos antes da saída da criançada.

“Tio, me dá um saquinho, fazfavor, mas com BASTANTE queijo, hein?”

Até hoje não consegui descobrir qual é o segredo místico que esses tiozinhos pipoqueiros passam de geração após geração e que faz com que o sabor daquele queijo de pipoca de carrinho seja único na face da Terra, jamais sendo possível de reproduzir em outros ambientes, não importa as condições ideais de temperatura e pressão que venham a ser aplicadas…

Ainda lá pelo meio do saquinho (tendo guardado uns dois ou três queijinhos para o final, porque não sou besta), virava para o eventual amigo/colega/parceiro que estivesse do lado e já soltava:

“Vamo pra feira?”

Compreendam que naquela época, longe das distrações digitais, televisivas e comerciais comuns nos dias de hoje, invariavelmente nós crianças tínhamos que inventar o que fazer. E a feira tal qual a conhecíamos – ao menos a de domingo – era um lugar divertido para se passear naquele espacinho de tempo que tínhamos antes de voltar pra casa para o tradicional almoço de domingo (feijão, arroz, macarrão e frango, bem como, muito de vez em quando, um tanto de batatas fritas também).

Em comparação às feiras dos dias de hoje, sinceramente não me lembro se existiam os trailers ou barracas de pastéis, já que quem quisesse comer um bom pastel que fosse numa das pastelarias nas esquinas próximas da igreja! Aliás, não percebíamos ainda à época, mas desde então já era também um lugar para os cachaceiros e cervejeiros de plantão darem início aos trabalhos de final de semana…

Aquele ambiente cheio de gente e o teor multicolorido daquelas frutas, legumes e sabe-se lá mais o quê, não importa para onde quer que se olhasse, sempre foi uma coisa que me atraiu. Ainda que, na época, não me importasse muito em chegar até o “final da feira”, onde se concentravam barracas desse tipo, era ali no comecinho, talvez até mais ou menos no meio da feira, que se encontravam os itens de maior interesse. Ao menos para a criançada.

Sabíamos que estávamos nos aproximando de um outro universo paralelo quando já ali, antes mesmo de chegar na rua da feira, começávamos a ouvir:

“Aguuuuuuuuulha di disintupifugão! Ólha a aguuuuuuuuulha di disintupifugão!”

E aquele tradicional pregoar dos feirantes era uma constante por toda a extensão da feira.

“Olha aqui, olha aqui, a promoção! Tudo mais barato! Somente hoje, somente hoje, hein?”

“Peixe, olha o peixe, peixe fresquinho, acabou de chegar, vem conferir madame!”

“Paga dez, leva doze! Pode vir, pode vir! Paga dez, leva doze!”

“Pamonha, pamonha, pamonha! Pamonha fresquinha! Pamonha de Piracicaba!”

Não. Péra. Deleta esse último, que não tem nada a ver. A memória às vezes dá um nó na cabeça da gente…

Isso sem nem contar aquela rapaziada mais “abusada”, que soltava algumas coisas do tipo:

“Olha aí, olha aí! Olha a formosura passando! Moça bonita, hoje, não paga! Só que também não leva!”

Tudo bem que era uma brincadeira – e que até fazia as meninas corarem e soltarem umas risadinhas. Mas as feiras de hoje me parecem muito mais silenciosas, tanto num sentido quanto noutro. Até porque um gracejo desses, nos dias politicamente chatos corretos em que vivemos, poderia ser encarado como assédio e dar todo aquele perrengue que costumamos ver por aí. Uma pena. Com isso um pouco da alma da feira parece que se perdeu através do tempo.

Seguíamos em frente e olhávamos com um olho comprido para aquelas tentadoras garrafinhas de sucos coloridos – não consigo nem de longe imaginar uma coisa com sabor mais artificial do que aquilo! Mas o que na realidade nos interessava eram as garrafas em si: nos formatos de trem, avião e outras bobagens mais que adoraríamos ter para uma ou outra brincadeira. Isso sem falar nos deliciosos sequilhos, como quase tudo na feira vendidos a granel (alguém aí ainda sabe o que é isso?) e, esses sim, “impossível de comer um só”.

Até que finalmente chegávamos na única barraca que realmente justificava nossa presença ali: a de “tranqueiras”. É que, diferente de hoje, em que você acha de um tudo na feira, desde roupas, calçados, produtos importados, CDs, DVDs (suuuuuper originais), brinquedos, etc (e tudo isso em barracas que já têm até mesmo as maquinetas que aceitam cartões de débito, de crédito, parcelam e o escambau), naqueles tempos não existia essa variedade de itens – quando muito uma, talvez duas barraquinhas, cheias de coisinhas que pareciam um baú do tesouro para os nossos infantis olhos ávidos por novidades.

Pentes, espelhinhos ovais, canivetes, baralhos, adornos, chaveiros, muitos chaveiros, lanternas, miniaturas, presilhas, enfeites, alguns tipos inimagináveis de ferramentas, isqueiros, cachimbos, coisas de então e de outrora que faziam ferver nossa imaginação e voltávamos comentando entre nós se tinha visto isso ou aquilo ou então para o que será que servia aqul’outro. Sim, é lógico, raramente comprávamos alguma coisa. Mas, também é lógico, tínhamos assunto para a semana toda, inclusive sonhar se conseguiríamos juntar um dinheirinho para na semana seguinte tentar comprar o objeto de desejo – se é que ainda iria estar por lá.

Ah, essas crianças…

E agora preciso de um favor: você que é vegetariano, vegano, amante dos animais ou outro tipo qualquer de ser com igual teor de pureza e grau de evolução, pare de ler. Isso mesmo. PARE. DE LER. AGORA. O que virá a seguir era uma coisa natural, ao menos pra época, mas tenho certeza que você não vai gostar. Com o que está escrito até agora até que já deu pra matar a saudade daqueles tempos, não deu não?

Continuou, né?

Não diga que não avisei…

As feiras de então não estavam cercadas por açougues, padarias, casas de carnes ou quaisquer outros tipos de estabelecimentos que tivessem dessas assadeiras de frango (“televisões de cachorro”), tão comuns hoje em dia. Você queria um frango para o almoço? Bastava comprar. Vivo. Escolhia um de bom peso e tamanho numa das gaiolas que ficavam por ali, logo na saída da feira, o tiozinho amarrava as pernas da ave, e, pendurada de ponta cabeça junto com a sacola de compras, você a levava para casa, a pé mesmo.

Era o normal. Há muito tempo perdi a conta de quantas e quantas vezes já acompanhei minha mãe nessa tarefa. Ao chegar em casa a operação era a de praxe. Não vou entrar aqui nos detalhes sórdidos sobre o como se sucediam as coisas, mas depois de abatido o frango, as penas eram arrancadas e ainda era necessário “sapecar” (ou seja, chamuscar) as pontinhas que haviam ficado pra trás. Ainda lembro-me do cheiro nada agradável que se espalhava pela casa… Depois disso, uma vez limpo e temperado, seu interior ainda era preenchido com uma deliciosa farofa antes de ir para o forno.

Sim, frango era “comida de domingo”. E, ainda, assado? Veja lá que raridade!

Bem, todo esse texto, todas essas lembranças, somente vieram à baila porque lembrei desse bendito “frango com farofa”. Um daqueles sabores inesquecíveis de infância. Mas me é difícil de recordar o fato isolado, sempre tem que haver um contexto – e a feira daqueles tempos é que fazia esse contexto.

Mesmo nos dias de hoje até que ainda gosto de ir na feira.

Mas, confesso, não é mais a mesma coisa.

Se procurarmos bem ainda encontraremos aquele olhar fraternal, aquela cumplicidade entre os feirantes, entre os clientes, entre ambos, aquela ajuda pronta a ser dada em qualquer oportunidade em que fosse necessária – como era comum antigamente. Mas há que se procurar. Bastante. Tá tudo muito mais comercial, muito mais o produto, o lucro, a venda do que o proseio, do que a curiosidade, do que o passeio. Pessoas vêm e vão, compram o que querem e tomam seu rumo. Feirantes vêm e vão, vendem seus produtos e tomam seu rumo.

Enfim, como sempre acabo fazendo com esses textos que me levam a reminiscências de outrora, só posso concluir de uma mesma maneira: ando com uma gigantesca saudade de não sei o quê…

Carlão

Das inúmeras aventuras e desventuras de minha época de adolescência, uma boa parte passei com aquele que, então, era um de meus melhores amigos daqueles tempos: meu primo, Carlos Antunes, mais conhecido como Carlão.

Nossa diferença de idade até que não era muita, apenas 6 anos – mas para a época era gigantesca: apesar de grandalhão, eu era um pirralho lá com seus 15 pra 16 anos, enquanto que ele já tinha seus 21, 22 anos…

Ainda assim, sabe-se lá o porquê, nossos santos bateram um com o outro e tínhamos uma cumplicidade e uma parceria fora de série!

Naqueles tempos, em plena década de oitenta, existiam somente algumas poucas coisas realmente constantes em todo o universo: o bigode do Carlão, sua boa e velha moto TT 125, que nós dois estaríamos juntos aprontando alguma em algum canto e, muito provavelmente, bêbados…

Sendo assim, numa fria noite qualquer estávamos lá, nós dois bestando, sentados no murão da casa de meu tio (éramos vizinhos). De repente, do nada:

“Vamos pra Monteiro Lobato?”

“Ôpa!”

Invariavelmente fazíamos uma dessas. Saíamos, percorríamos às vezes uma centena de quilômetros ou mais, tomávamos um conhaque (estava frio, vocês se lembram?), quando muito uma ou duas cervejas e voltávamos. Se houvesse alguma moçoila por perto, certamente seria objeto de nossos comentários, talvez até de alguma tentativa de avanço e – outra constante universal de então – daríamos com os burros n’água! Na verdade estávamos mais interessados em sair e nos divertir do que em ter qualquer tipo de amarração.

E então fomos pra Monteiro Lobato, cidadezinha pequena e que não tinha absolutamente NADA, a cerca de uma hora de viagem – uns 50 quilômetros de uma tortuosa e bucólica estradinha cheia de mata, escuridão e NADA. Nem acostamento tinha! Pensando bem, até hoje ainda não tem… No quê? Na boa e velha moto TT 125, é claro. Que sempre teve um barulhinho característico e quase que hipnotizante com seu motor dois tempos, uma espécie de balido de cabra contínuo e interminável…

Chegamos por lá, encontramos um ou outro conhecido, tomamos nossas cajibrinas e, assim, do nada:

“E aí? Vamos embora?”

“Ôpa!”

É, com certeza nossos diálogos não eram assim tão brilhantes, mas tinham um quê de divertidos…

E lá fomos nós, de volta para nossa cidade, já de madrugada, num friozinho de começo de inverno, naquela estradinha escura e tortuosa, já meio bêbados e sonolentos, com aquele barulhinho de fundo do motor da TT: béééééééééééééééé…

É LÓGICO que, ali na garupa, comecei a cochilar.

E, muito no de repente, a moto lentamente começou a sair fora da estrada, vagarosamente passando do asfalto para a terra (sem acostamento, lembram-se?) e na primeira ameaça de solavanco já acordei, super assustado, com a nítida impressão de que uma descarga elétrica tinha acabado de passar pelo meu corpo! Num átimo de segundo (adoro palavras assim!) já pensei comigo mesmo:

“Caramba! Parece que eu cochilei e comecei a pender de lado, desequilibrando a moto e o Carlão não conseguiu segurar, fazendo com que ela saísse da estrada. Putz, que merda! Ele deve estar puto da vida comigo! Deixa eu me equilibrar e até mesmo me desculpar por essa mancada…”

Tudo isso passou pela minha cabeça numa fração de uma fração de momento. Entre o começar a sair da estrada, construir esse raciocínio e me aprumar na moto não deve ter passado mais do que um ou dois segundos. Ainda fora da estrada foi o tempo de eu levantar a mão e dar um um tapinha no ombro do Carlão, já dizendo:

“Putz, cara! Desculpa aí. Acho que dormi…”

E parece que uma outra corrente elétrica voltou a passar, só que desta vez pelo corpo dele.

De imediato ele se aprumou e ACORDOU.

Isso mesmo, crianças, ELE TAMBÉM ESTAVA DORMINDO!!!

Já estávamos fora da estrada mesmo, paramos, apeamos, acendemos um cigarro, xingamos um ao outro, demos risadas e acordamos de vez, prontos para seguir viagem…

Essa foi apenas uma das inúmeras desventuras pelas quais passamos.

O tempo passou, no início de 88 eu me casei pela primeira vez (afinal já tinha 18 anos à época) e em 93 foi a vez dele também se casar. E foi com a Claudete, uma amiga em comum com quem eu adorava ter longos proseios.

Pouquíssimo tempo depois, no final de 97 ele faleceu.

Câncer.

Com apenas 34 anos de idade.

Não, a vida não é justa. Já tem vinte anos que ele se foi e ainda sinto saudades. Lamento não ter estado mais próximo dele em seus últimos tempos, mas eu mesmo também estava passando por meus próprios perrengues. Nada tão sério quanto pelo que ele estava passando, mas quando estamos no meio da tormenta parece que não conseguimos mensurar as coisas direito.

Onde estiver, esteja com Deus, meu primo-amigo-irmão, Carlão…

Vamos começar?

Então é 2018.

Já passamos do Dia de Reis, o Presépio já voltou pro armário, a árvore já foi desmontada, os enfeites já foram retirados.

Você já passou pelo Ano Novo, já fez a contagem regressiva, brindou com champanhe, cidra, vinho, cerveja ou seja lá o que for, guardou suas sementes de romã, pulou sete ondinhas, comeu até se fartar e no dia seguinte de novo e mais um pouco pelo resto da semana.

Então é 2018.

O ano de 2017 foi um ano ímpar (em todos os sentidos), um ano de animação suspensa, meio que de torpor, principalmente no que diz respeito às questões políticas. Com o tempo as pessoas acabaram desistindo de rosnar e bradar em alto e bom tom como a sua verdade era mais verdadeira que a dos outros.

Foi um ano que foi chegando, assim, meio que cheio de esperanças, e quando as pessoas deram por si, já havia passado o carnaval, a Páscoa, o dia das mães, as festas juninas, o dia dos pais, os aniversários, os feriados, o Natal, o Ano Novo. As esperanças minguaram lá atrás, já no primeiro bimestre e o ano passou tão ou mais rápido como os anteriores.

Então é 2018.

O ano passado não foi um ano fácil, mas também não posso dizer que tenha sido difícil. Para mim, em especial, foi um ano de descanso, de recobrar as energias gastas nos 16 anos anteriores. Afinal, se antes eu me sentia indiretamente responsável por mais de 210 mil pessoas, hoje sou de fato responsável por pouco mais de uma dúzia de pessoas. Vá lá: umas duas dúzias.

Para mim não foi um ano de grandes projetos – ainda que tenha participado de alguns – mas sim um ano de tirar o pé do acelerador, de manter o carro em movimento e ao mesmo tempo poder curtir com calma a paisagem. Naturalmente tanto me afastei de algumas pessoas quanto me aproximei de outras, bem como expandi alguns círculos, principalmente os familiares.

Ter saído das rotinas anteriores – ainda que tenha criado algumas outras – fez com que minha percepção de tempo fosse distendida, de modo que o ano de 2017 passou lentamente. Assim como nos princípios da permacultura, foi um ano de deixar a terra descansar, um ano de respirar, um ano de pensar e avaliar tudo aquilo que já havia sido plantado, o que tinha evoluído, o que tinha murchado, o que tinha florescido.

Então é 2018.

É lógico que os céticos sempre vão esfregar na sua cara que o simples completar de uma rotação da Terra em torno do Sol não traz nada de novo, os dias são iguais, o tempo é igual e nós, humanos, é que criamos essa ficção da contagem do tempo.

Mas justamente por sermos humanos é que necessitamos dessa contagem de tempo. Desse ciclo. Desse começo, meio e fim. Todo ano. É preciso, sim, renovar as esperanças, traçar novos planos, focar em novos objetivos, em novos desafios, quebrar a rotina de um modo geral. É preciso deixar o que é velho, repetitivo e que não funciona pra trás, e, ciente de todo o aprendizado que lhe foi proporcionado, buscar o novo, criativo e que talvez até venha a dar certo. E, se não o der, que se repita o ciclo. Até porque o ano que passou não volta mais e o que se desdobra à sua frente vem chegando, sim, cheio de oportunidades.

Então é 2018.

E assim, mais como uma constatação do que como uma divagação, temos que 2018 chegou e creio firmemente, sim, que é hora de renovarmos as esperanças – em todos os sentidos e em todas as áreas. Cada um de nós tem o poder de fazer a diferença e não dependemos de circos políticos e midiáticos para definir nossas próprias vidas. Arregace as mangas e vá em frente. Com foco. Nenhum sonho é pequeno ou grande demais que não possa ser realizado. Vai dar trabalho, sim. Mas se não começar agora, AGORA, jamais vai chegar lá.

De minha parte, a terra já descansou. É hora de arar. De semear. De observar e cuidar de cada uma dessas novas sementes para que cresçam fortes e viçosas.

Afinal é 2018.

É hora de ficar sóbrio.

Feliz Ano Novo.