Ah, não!

E então eis que as duas amigas resolveram sair para tomar uns drinques. Ambas mulheres experientes, vividas, mesmo que não tivessem o assim chamado “frescor da juventude”, ainda contavam com uma nítida sexualidade e um charme todo próprio adquirido com o passar das estações…

Uma casada, a outra não.

E estavam elas instaladas numa confortável mesinha na calçada, naquele conversê de barzinho, bebericando seus drinques, falando de atualidades, do passado, do futuro, dos outros e – claro! – de homens.

Então, não mais que de repente, aparece aquela picape gigante, lentamente se movendo do outro lado da larga avenida, aguardando a liberação de uma vaga enquanto um outro sujeito desajeitadamente manobrava seu carro para ir embora. Não era possível ver com nitidez seu motorista, nem se estava com alguém, mas mesmo daquela distância era visível o bem delineado contorno de sua cabeça, o queixo proeminente bem como o nariz afilado. Enquanto espera ele dá uma olhadinha em direção a elas e discretamente sorri.

— Ai, amiga! Olha só! Aquele sujeito chegando ali, ele tá me paquerando!

— Hm? – perguntou a outra, lentamente levantando os olhos e perscrutando ao redor enquanto ruidosamente sorvia o final de sua caipirinha pelo canudinho.

— Ali, ó, naquela camionete estacionando…

— Ih, amiga, cuidado, hein? Normalmente gente que tem carrão grande assim é tudo baixinho.

— Credo, para de ser assim! Você tá aí, tranquilinha, bem casadinha e eu não. Se chega um sujeito bonitão querendo dar em cima de mim, deixa ele!

— Não é isso, minha linda! Olha pra você. Você tem bem mais de um metro e setenta – e só de pernas!

— Exagerada!

— Tô te falando. Você é alta, amiga, muito mais que a maioria. Sei que é difícil surgir um cara que combine com você, mas escreve o que eu tô dizendo: carro grande só vem com baixinho. Com certeza é um anão!

— Pelamordedeus, menina! Para! Deixa eu. Até porque ele já deu mais umas olhadinhas pra mim…

— Tá bom, tá bom. Mas nem deu pra ver se ele está com alguém. E se estiver? E se for um safado?

— Bom, daí azar dele, pois não vai poder usufruir da mamãe aqui! – disse enquanto descia as mãos pelo corpo, ressaltando as próprias curvas.

— Ai, você não presta mesmo! Mas ainda acho que o cara deve ser um baixinho, um anão. Você vai ver só.

Nisso finalmente o sujeito acabou de estacionar. Fechou o vidro semiaberto, entreabriu a porta ao mesmo tempo que virou-se de lado, parecendo que estava se debruçando sobre alguém.

— Ih, amiga, já vi tudo! Pode ir tirando esse sorrisinho besta do rosto que ele deve estar com alguém. De qualquer jeito sua noitada acaba aqui, pois pela maneira que deve estar desafivelando o cinto, o anão também está com uma criança.

— Além de despeitada, bocuda, hein? E daí que ele tenha uma criança com ele? Vai que dá certo, a gente se conhece e marca alguma coisa para um outro dia?

— Mas você não perde a esperança, né? Então deixa o baixinho vir, que agora até eu quero ver no que é que isso vai dar.

— Ai, para!

E então, pela porta, de fato desceu uma criança. Assim, de costas meio que escorregando pelo banco alto daquela picape mais alta ainda, até que seus pezinhos titubeantes tocaram o chão. E com um estrondo a porta se fechou.

— Nossa, será que ele vai deixar aquele menino ali na rua, assim sozinho?…

E então o garotinho se virou e sorriu.

Ativou o alarme enquanto começava a atravessar a rua com seus passinhos lépidos e gingados.

Era um anão.

Mussarelices

– Boa noite. Quero pedir uma pizza.

– Pois não, qual o sabor?

– Meia dois queijos e meia calabresa. Aqui diz que a calabresa vem com mussarela. Eu quero sem mussarela e com bastante cebola.

– Qual pizza o senhor quer?

– Meia Calabresa sem mussarela e meia dois queijos.

– O senhor não quer que coloque mussarela na calabresa?

– Por favor, não.

– Aqui colocamos mussarela, senhor.

– Vocês não podem tirar?

– Podemos sim, senhor. É que normalmente não fazemos isso.

– Minha querida, calabresa com mussarela se chama Sorrento. Pizza de Calabresa não vai mussarela.

– Sim senhor. Então o senhor não quer mussarela na calabresa?

– Não, querida, sem mussarela.

– E na dois queijos, vai querer a mussarela?

– Aqui no cardápio diz que a dois queijos de vocês é com provolone e catupiry.

– Ah. Mas como o senhor não quer mussarela na calabresa, pensei que queria na dois queijos.

– Ok, faz sentido, mas não, minha filha. Hoje não é um bom dia para mussarela, ok? Sem mussarela.

– Então sem mussarela na dois queijos, senhor?

– Isso! Sem mussarela na dois queijos e sem mussarela na calabresa! Entendeu?

– Sim senhor. O senhor então quer duas pizzas, uma meia calabresa sem mussarela e dois queijos e outra só de mussarela?

– …

– Senhor?

– Vamos lá… Eu quero UMA!!! UMA PIZZA METADE DOIS QUEIJOS E METADE CALABRESA SEM MUSSARELA!!!

– Ok, senhor. E a mussarela então não vai?

– Como?

– A pizza de mussarela, senhor.

– Sem mussarela, entendeu? Sem mussarela! Minha nossa!

– É que entendi o senhor dizer que não quer uma segunda pizza de mussarela.

– Vou repetir: quero uma pizza metade calabresa sem mussarela com bastante cebola. E outra dois queijos conforme está no cardápio.

– Entendi, senhor. Quarenta minutinhos.

– Tudo isso?

– É que estamos sem mussarela e vamos pegar na nossa outra unidade, senhor.

– Não. Peraí. Você tá me zoando?

– Não senhor, eu jamais faria isso.

– Eu pedi uma pizza dois queijos, catupiry e provolone e a outra metade calabresa SEM MUSSARELA!

– Eu entendi, senhor.

– Obrigado. Vou aguardar.

……………

Quarenta minutos depois a pizza chega. Abro a caixa. Era uma pizza de atum com mussarela.

Nota: Desconheço a autoria deste texto – mas adorei!!! 😀

Grogueadas oníricas

Situação recorrente que costuma acontecer comigo e a Dona Patroa é a de nos perdermos nos shoppings da vida. Isso porque eu só costumo entrar num shopping para comprar o que quero e já sair, enquanto que ela faz questão de entrar em cada uma das 1.469 lojinhas de promoções de dérreal que existirem por lá…

Pois bem.

Eis que hoje eu SONHEI que havíamos nos desencontrado num shopping. Procura daqui, procura dali, pergunta pra um, pergunta pra outro e nada.

Então decidi que já era hora de pegar meu celular e ligar para descobrir onde ela estava.

Ainda meio grogue, LEVANTEI DA CAMA, procurei meu celular pela casa e então liguei pra ela.

– Oi, amor! Onde é que você está? Já te procurei por tudo quanto é lugar!

E ela, também meio grogue, LEVANTOU DA CAMA e com o celular na mão veio até onde eu estava e me respondeu:

– Que é que você quer, seu louco?

Só então me caiu a ficha.

Só então eu percebi o que estava fazendo, o que já tinha feito e o quanto eu estou ferrado, pois ela vai fazer questão de me lembrar disso e tirar um sarro da minha cara – no mínimo – pela semana inteira!

Sósifôdo…

A Terra é plana!

Sim, é isso mesmo. A Terra é plana.

Isso é de uma obviedade que não tem tamanho, pois não importa se todos os demais planetas de nosso sistema solar (e do restante do Universo conhecido) possuem formato esférico, nem se a própria Lua vista a olho nu é nitidamente redonda e muito menos o formato da sombra que é projetada nos eclipses lunares – é incontestável que o Planeta Terra é uma gigantesca panqueca que viaja pelo espaço.

Aliás, perdoem-me pelo ato falho: é lógico que nosso planeta não viaja pelo espaço. Desde a Grécia Antiga já era sabido, pela Teoria do Geocentrismo, que o Planeta Terra permanece fixo no centro do Universo, com todos os demais corpos celestiais – inclusive o Sol – girando ao seu redor.

E é por isso mesmo que se faz necessário acabar com esse falso pensamento ideológico de que haveria necessidade de um “Horário de Verão” – uma mentira criada pelas classes outrora dominantes tão somente para tentar comprovar essa visão distorcida de que a Terra seria redonda e giraria em torno do Sol, com supostos solstícios de Inverno e de Verão. Eu nunca vi! Nunquinha! Então está claro que não existe absurdo maior!

Ah, mas existe sim. Eu falo dessa conspiração que já existe há décadas e que foi perfidamente elaborada pela NASA – a agência espacial do Governo Norte Americano – a qual, desde que pôs as mãos nos meios de comunicação em massa, vive de espalhar mentiras e de ditar regras para a indústria mundial de satélites. Não existe a mínima possibilidade de um ser humano já ter ido à Lua, pois é muito, muito longe! Ainda mais se fosse para contar com aquela tecnologia ultrapassada da década de sessenta. E não importa que mesmo outros países  hoje em dia lancem satélites no espaço, pois eles são obrigados a perpetrar as mentiras da NASA, tendo sido inventado um conceito delirante de “satélite em órbita geoestacionária” para dar a falsa impressão de que esses equipamentos girariam em torno do planeta acompanhando sua rotação – o que evidentemente é uma mentira! Uma vez que a Terra é plana e é o Centro do Universo, não existe esse negócio de “rotação”. O que eles fazem é jogar seus satélites para cima e eles ficam lá, parados, no vácuo do espaço. Simples assim.

Isso se torna tão evidente, ainda mais na medida em que o próprio Criador nos colocou nessa posição, pois somos a única forma de vida que existe no Universo e qualquer outra alegação diferente dessa deve ser guardada para os livros e filmes de ficção científica. Fomos criados à sua imagem e semelhança e foi através de Adão e Eva que tiveram origem todos os povos e etnias que povoam o mundo inteiro. E isso pode ser facilmente comprovado por qualquer pessoa que quiser, basta consultar a Bíblia – tá lá, bem no comecinho, eu mesmo já li! Essa coisa de “Teoria Evolucionista” é claramente uma obra de fariseus sofistas e comunistas, que ficam criando questões casuísticas para ocultar a verdade.

Basta lembrar uma outra passagem que tá lá na Bíblia (e essa eu não só li, como também assisti a um filme que comprova que foi verdade): a Arca de Noé. Os céticos até hoje teimam em negar essa história, usando das mais absurdas alegações. Ora, é lógico que com a ajuda do Senhor seria muito fácil para que os escolhidos, no caso a família de Noé, juntasse um casal de cada uma das bilhões de espécies de animais que ocupam todo o planeta em toda sua extensão e os conduzisse para aquela gigantesca pokebola de madeira que foi construída por apenas um homem e seus três filhos, inclusive com espaço para armazenar a comida que serviria de alimento a todos por quarenta dias! Vejam só que prodígio! Pessoas de visão curta, não compreendem que coube a essa família gerar uma descendência suficiente para repovoar todo o Planeta Terra, dando origem novamente a todos os povos e etnias que hoje existem – até porque, como todo mundo sabe, com prima não é pecado.

E é justamente por conta disso, dessa superpopulação que foi gerada e hoje existe ao redor de todo o planeta, quer dizer, sobre todo o planeta (pois a Terra é plana), que é indispensável que os militares estejam no poder. Isso porque uma guerrazinha de vez em quando serve justamente para ajustar a quantidade de gente existente. Basta ver o exemplo da Alemanha no século passado, povoada por aqueles nazifascistas de esquerda e que, apesar de tudo, ajudaram a efetuar esse necessário controle histórico populacional.

Um exemplo que, inclusive, foi seguido no Brasil, quando do advento da Revolução Redentora de 1964, quando teve início um governo militar democrático (e nada dessa falácia de “Golpe” ou de “Ditadura”) que contou com o apoio de toda a população, sem exceção – menos dos comunistas que queriam levar o país à bancarrota, através de suas falsas ideologias protecionistas, descendentes daqueles que foram derrotados pelo nazismo na Europa.

Mas… Esperem um pouco…

Se o nazismo é de esquerda – o que é óbvio, porque foi o que o Presidente disse – e eles lutavam contra o comunismo, então, por meio de um perfeito silogismo, isso significa que os comunistas eram de direita. Mas se os comunistas eram de direita, então isso quer dizer que o nosso governo militar era de esquerda? Mas e todos os partidos socialistas que foram criados depois? Seriam, então de direita? Não, péra, então tem que ver isso aí. Pois se for assim, esse próprio governo que está aí seria de…

Ôpa!

Estão batendo na porta. Acho que é um pessoal que vinha aqui para uma reunião. Gente que pensa como nós, a maioria correta da população. Vocês sabem, né? Volto assim que puder…

A Gargalhada de Sócrates

E eis que no último sábado, logo pela manhã, fui agraciado pelos serviços de entrega do Correio com a chegada do meu exemplar de A Gargalhada de Sócrates: como o maior filósofo do ocidente desvendou o intrigante caso do assassino em série ateniense, com a improvável ajuda de seu desafeto Aristófanes, de autoria de Nelson Moraes Alves.

Como sempre costumo fazer quando me chegam às mãos novos livros (não necessariamente livros novos), dei uma boa olhada na capa, li o conteúdo da contracapa, li atentamente ambas as orelhas do livro, fiquei feliz com o autógrafo, dei uma checada na dedicatória e… só. Mais tarde eu daria início à leitura, juntamente com os outros quatro ou doze livros que sempre estão me aguardando na cabeceira de minha cama.

Os prognósticos já eram bons, pois, da Internet, já conhecia o “jeitão” do Nelson escrever – desde os tempos do blog Ao Mirante, Nelson! (falarei disso mais adiante) e, mais recentemente, pelas redes sociais, com seus ferinos comentários ou pequenas e bem humoradas parábolas. Mesmo assim permanecia um certo “receio”, pois não se tratava de uma coletânea de seus escritos (como eu já havia feito com meu blog), mas sim de algo totalmente novo e desconhecido: um romance completo, com começo, meio e fim distribuídos por mais de 300 páginas! E esse meu sentimento somente se dá porque, para mim, existem basicamente dois tipos de livros: aqueles que você não consegue largar e aqueles que você não consegue voltar… E se ele fosse dessa segunda categoria? Bem, só mesmo lendo para saber.

Como os sábados sempre costumam ser um tanto quanto atribulados (aliás, não diferente dos demais dias úteis da semana), deixei para a noite de domingo para começar a me engraçar com o livro. Assisti alguns episódios de algumas séries junto com a Dona Patroa (dentre elas, a britânica Killing Eve – recomendo!) e lá pelas dez da noite, enquanto ela ainda assistia um filme que me causou mais sono que interesse, recolhi-me ao quarto, afofei os travesseiros, engatei a primeira e abri o livro.

E só o fechei às cinco horas da manhã!

Na última página.

Sem parar.

É bem como está lá no comentário de Janaína Jordão, na contracapa do livro: “Me diverti horrores. O livro prende do começo ao fim, é impecável. Não dei conta de largar. E do epílogo para frente fiquei lendo com um misto de curiosidade crescente e um medo de acabar logo”. Aconteceu o mesmo comigo, pois foi de uma só toada.

Os incautos podem até vir a se assustar um bocadinho num primeiro momento, pois o livro é composto quase que inteiramente de diálogos na segunda pessoa do singular (eu, tu, ele… lembram?) e com muitas palavras tanto complexas quanto “de época”, pois a estória se passa no século 4 a.C. – eu mesmo quase fui buscar um dicionário para deixar ali do ladinho. Mas é só uma primeira e equivocada impressão. Ao começar a entrar no fio da meada a gente acaba percebendo que mesmo aquelas palavras desconhecidas se encaixam perfeitamente no contexto das frases, sendo subliminarmente compreendidas e não atrapalhando em nada a dinâmica da leitura.

O que, aliás, me fez lembrar de uma antiga piada envolvendo estudantes de grego clássico, marinheiros e uma inusitada viagem à Grécia…

Mas deixemos isso para um outro momento.

Voltemos ao livro.

O Nelson conseguiu montar uma trama excelente e bem humorada, com diálogos totalmente permeados de trocadilhos e ironias. E, de quebra, podemos aprender e compreender o que era o método maiêutico utilizado por Sócrates, bem como a maneira pela qual funcionava a contemporânea Escola Sofística de pensamento. E não, não vou explicar. Se quiserem saber vão pesquisar – ou melhor, comprar o livro!

E se prestarmos um pouco mais de atenção a esses diálogos, veremos que também temos verdadeiras aulas sobre justiça, democracia e até mesmo sobre a forma e os limites do humor…

A base da estória (não se preocupem, sem spoilers) gira em torno de como Sócrates, aprisionado enquanto aguardava a execução da sentença que o condenou à morte, conseguiu, juntamente com Aristófanes, desvendar o caso do assassinatos que, um a um, estavam acontecendo em Atenas enquanto se desenrolava a trama. Trama essa muito bem construída para esconder a identidade do assassino até o último momento – se bem que, confesso, logo após o terceiro assassinato comecei a ter minhas desconfianças, as quais se confirmaram no final. Mas isso não é uma crítica e nem diminui a beleza da obra, pois talvez tenha se dado simplesmente porque já li muitos livros da Agatha Christie e todos do Sherlock Holmes, sendo que, neste caso em especial, me veio à mente Um Estudo em Vermelho.

Enfim, leiam. Leiam esse livro sem dó. Recomendo veementemente.

Mas ainda resta uma última pergunta: quem afinal de contas é esse tal de Nelson Moraes Alves?

Blogueiro das antigas, mas que há muito já aposentou seu blog Ao Mirante, Nelson!, tive que dar uma fuçada no Internet Archive para encontrar algumas de suas antigas referências… Parece que tudo começou por volta de outubro de 2002, no endereço www.aomirante.com, mais tarde tendo passado para o www.interney.net/blogs/aomirante, o que duraria até dezembro de 2009, quando foi para o www.aomirante.net e lá ficou até seus últimos posts, em dezembro de 2011. Ao menos é o que eu acho, mas posso estar errado…

Mas creio que quem possa melhor descrevê-lo seja o Idelber Avelar, conforme publicou lá em maio de 2009 no também finado blog Biscoito Fino e a Massa:

“Nelson Moraes talvez seja o único blogueiro brasileiro a ter inventado um gênero. O que você lê em Ao Mirante, Nelson! não é microconto, não é poema em prosa, não é fait divers. É um gênero próprio, burilado ali, algo para o qual ainda não há nome e que poderíamos chamar de post elevado à condição de arte.

No final de 2004, logo depois de abrir o Biscoito, ainda sem saber onde aterrizara, saturado de ler porcarias – ou uns poucos blogs bem escritos que, no entanto, não me diziam muito –, já meio rendido à tese de que tudo na blogosfera era ruim, eu cheguei a um post. Foi, ao mesmo tempo, lição de humildade e fonte de gargalhadas que insistiam em se repetir cada vez que eu revisitava o texto. Eu nunca havia visto aquilo: um diálogo de meia página que combinava uma erudição assombrosa com um domínio perfeito de todos os tiques da linguagem tecnológica daquele momento. Trata-se daquele que eu ainda considero o post mais perfeito já produzido em lusitana língua: Se os diálogos de Platão fossem pelo MSN. Se você nunca leu, siga o link e fique por lá. Volte aqui só no domingo.

A obra de Nelson Moraes – sim, de uma obra se trata – tem essa característica, a de agarrar um momento da tecnologia, da política ou do cotidiano, extrair-lhe a essência mais hilária e, ao mesmo tempo, confrontar-nos com o seu vazio. No caso da tecnologia, o mais recente exemplo é o emblemático Jornal x Blog x Twitter: a série, que diz mais que todas as nossas verborrágicas discussões sobre o futuro das mídias. Os próprios blogs são temas constantes, como nesta paródia aos comentaristas ou nesta sátira à republicação de posts. Não custa lembrar, Nelson é o responsável pela tese de que não existe ex-blogueiro.

Ninguém se lembra o que realmente foi roubado do MASP em 2007, mas para muitos de nós, aquele desimportante acontecimento jamais será esquecido. Foi, afinal de contas, quando Nelson escreveu Ladrões arrombam o MASP e se recusam a furtar inúmeras obras de arte. A criminalização da bebida para motoristas já vai caindo no olvido, como sói acontecer com as leis brasileiras, mas duvido que eu me esqueça de Lei seca ameaça piadas de bêbado. “Leem” e “voo” já me saem naturalmente sem acento (e eu não conheço tema de discussão mais chato que a Reforma Ortográfica). Mas muito depois que tenhamos nos esquecido que “heroi” “heroico”* um dia teve acento, lá estará um clássico: Após o acordo ortográfico, entra em vigor agora o acordo aritmético.

Nelson possui uma tremenda erudição literária, cinematográfica, musical e filosófica. No entanto, ao contrário de certo humor pseudoaristocrático que floresceu durante algum tempo em comarcas mais direitosas da blogosfera, a erudição de Nelson não exclui, mas inclui o leitor, mesmo aquele que não domine todo o intertexto do post. Eu, que possuo cultura cinematográfica tão vazia que nela não cabe mais nada, não deixei de gargalhar com Post Noir.

Uma vez vislumbrei uma antologia de posts de Nelson Moraes ilustrada por André Dahmer. Bem promovida, venderia mais que boa parte do catálogo de qualquer editora, mesmo que não se apagasse nada da internet. Talvez, algum dia, apareça um editor lúcido o suficiente para fazê-lo.

Vida longa e infinitas Bohemias para o Almirante.”

Por fim, uma última observaçãozinha pessoal… Desde sempre eu achava que, menos que o sujeito que derrotou Napoleão, o nome do blog dele era um trocadilho com o nome deste Almirante Nelson, da mesosóica série Viagem ao Fundo do Mar

Qual deles?

No início do ano de 1997 eu comecei a advogar de fato e fazia parte, juntamente com outros amigos, de uma sociedade de advogados aqui da cidade. Nesse início éramos em dez ao todo: cinco advogados recém formados, os “agregados” (eu entre eles), e cinco advogados já com larga experiência no mercado, os “sócios” (Luís Henrique e Luiz Arnaldo entre eles).

E a secretária.

Se não me engano, a primeira dentre várias que ainda viriam.

Mocinha simpática, moreninha, bem magrinha, bonitinha até!

Mas que até hoje não sei dizer se se possuía um senso de humor único, uma perspicácia além da conta ou se era, digamos, “limitadinha” mesmo…

E este causo aconteceu pouquinho tempo após a inauguração do escritório.

Ela lá, impávida na recepção, sempre com um sorrisinho estampado no rosto e que raramente se apagava. Chegou um sujeito, assim meio que com cara de perdido, encarou-a, também sorriu e foi falando:

– Por gentileza, eu gostaria de falar com um advogado.

– Tudo bem. Qual deles?

– Ah, tá. Lógico. Tem um monte de advogados aqui… É com o Dr. Luiz.

– Tudo bem. Qual deles?

– Ué? Tem mais de um Luiz aqui? Tá certo. É um nome comum, né? É um assim alto, bem magrinho.

– Tudo bem. Qual deles?

– Tá, tá… Esse é um tipo até comum. É um bem clarinho, quase loiro.

– Tudo bem. Qual deles?

– Pôxa, é o que antes tinha escritório no edifício aqui pertinho, no Vip Center.

– Tudo bem. Qual deles?

– Menina, eu o vi entrando aqui agorinha há pouco. Ele está com uma camisa branca e terno preto.

– Tudo bem. Qual deles?

– Caramba! É o que tem um carro da Fiat… Qual mesmo? Ah, é: um Tempra preto.

– Tudo bem. Qual deles?

– Ô louco! Os dois têm Tempra, é? Pois bem, é um que tem uma criança pequena, não sei que idade.

– Tudo bem. Qual deles?

– Você não tá tirando uma com a minha cara não, né menina? A esposa dele se chama… Deixa eu ver… Ah é! Cíntia! É o que é casado com a Cíntia!

– Tudo bem. Qual deles?

– Ah, não! Agora você tá de gozação! Só pode estar! Não é possível! É o que tem bigode, tá bom? É o que tem bigode! Sabe o que é um bigode? Sabe? É o que tem bigode!!!

– Ah! Então é o Dr. Luiz Arnaldo! Por que o senhor não disse antes?…

Deixarei para que a profícua mente destes incautos leitores possa imaginar – somente imaginar – qual o rol de impropérios que, ainda que não tenha manifestado em alto e bom tom, certamente passou pela cabeça desse indivíduo enquanto se dirigia para a sala do advogado…

Um grito, um sapo e um barranco

Me é estranho, após tanto tempo, retomar da pena.

Ou melhor, do teclado.

As palavras que outrora fluíam tão naturalmente encontram-se escondidas, relutantes – recalcitrantes até.

Mas é necessário desenferrujar estes nervosos neuróticos neurônios que têm fugido de mim tal qual o tinhoso foge da luz, num bloqueio que há muito já ultrapassou o limite do que poderia pensar em ser considerado razoável.

Então, como Roger Waters já vaticinava, é o que me resta: “Tear down the wall”!

E para isso comecemos com um causo recente, algo bem leve, quase que corriqueiro.

Ou não.

Estava eu, numa dessas noites recentes, em casa desfrutando de minha usual breja na varanda enquanto pensava qual seria o tamanho da tal da Superlua por detrás das nuvens, quando ouvi um grito agudo. Vindo lá de dentro de casa. Da Dona Patroa.

Fiquei tranquilo, beberiquei mais um gole. Após tantos anos de convivência aprendi a identificar cada um dos faniquitos, ops, tipos de grito que ela tem. E esse, desse timbre, dessa altura, com essa duração, era inconfundível. Pensei comigo: “sapo”.

E eis que ela me surge na varanda.

– Vai AGORA lá no fundo. Tem um sapo gigante dentro da vasilha de ração da Leia!

– Mesmo? Será que ele é tão grande assim?…

– NÃO QUERO SABER. Só quero que tire ele de lá!

– Ah, tadinho, deixa ele curtir um pouquinho…

– De jeito nenhum! Quero mais é que jogue essa criatura gorda e nojenta lá no meio do mato!

– Ei, sem ofensas! Espero que você esteja se referindo ao sapo!

– VAI! LÁ! AGORA!!!

Ô coisinha estressada, credo…

Mas preciso contextualizá-los: moramos num local que é uma espécie de vale, bem em frente a uma larga avenida que, juntamente com um córrego que a margeia, dividem ambos os lados desse vale, sendo que de um lado ficam as casas e do outro uma Área de Preservação Permanente toda arborizada com uma mata nativa que segue por alguns quilômetros. Basta atravessar a rua e na beirada da calçada do outro lado está a mata, que já começa bem no barranco que desce até o córrego.

Fui até o fundo de casa e encontrei o bichinho bem onde ela disse que estava. “Gordo mesmo”, pensei na hora. Municiado com um saco plástico nas mãos (isso mesmo, não tenho a mínima vontade de pegar um sapo com as mãos nuas) peguei aquele pequeno filhote de hipopótamo anfíbio e fui devolvê-lo à mata de onde não deveria ter saído. Ainda fiz um pouco de graça enquanto o carregava só pra ver a Dona Patroa dar no pinote quando cheguei perto. Ah, essas pequenas maldades…

E justamente enquanto atravessava a rua eis que o fiudumaégua do sapo começou a… mijar! Mas soltou um jorro de longa distância que por um triz não me pega! Quase me deu vontade de dali mesmo arremessá-lo à distância lá pro meio do mato! Quase.

Acabei o trajeto, dei uma última olhada para aquela carinha rechonchuda e bem ali na beirada do barranco, com um ligeiro movimento joguei-o no meio da folhagem lá embaixo. E me virei para voltar pra casa. E pisei em falso. E me desequilibrei.

E caí.

E rolei.

Morro abaixo.

Uma cambalhota atrás da outra, atrás da outra, atrás da outra.

O céu no chão, o chão no céu, o mato na boca e tudo rodopiava pra tudo quanto é lado.

Parei numa aconchegante moita orvalhada que me deixou encharcado.

Fora a terra.

Fora o barro.

Fora a lama.

Puto. Eu estava PUTO da vida. Fiadaputa de sapo dos infernos! Fui subindo de volta à rua, patinando, escorregando e puto. E caí sentado. E fiquei ainda mais PUTO.

Mas era pior do que eu imaginava.

Foi só quando cheguei de volta à varanda – puto ainda, diga-se de passagem – é que me dei conta.

“Meu celular. Cadê o meu celular? Onde está a porra do meu celular???” Olhei pro outro lado da rua, pr’aquela escuridão molhada e enlameada. Olhei pro exato ponto em que eu havia sumido e cambalhotado metros barranco abaixo e então, com desalento, me veio a única conclusão óbvia. “Lá.”

Chamei novamente a Dona Patroa.

– Liga pra mim.

– Ué, por quê? Você já está aqui na minha frente. E por que você está todo sujo assim?

Respirei fundo.

– Celular. Mato. Lá.

– Você perdeu o celular lá embaixo? Mas por quê?

– Meu ANJINHO, só liga pra mim, faz favor!

Novamente atravessei a rua e enquanto perscrutava a escuridão do meio do mato vi o brilho da tela e o característico toque do meu celular. Ufa! Resgatei-o e ele estava inteirinho, sem um arranhão sequer. Duplo ufa!

E é lógico que enquanto eu voltava pro mundo dos vivos escorreguei mais umas duas vezes e quase cambalhotei de volta…

Após toda essa rocambolesca cena circense só me restava tomar um belo de um banho e dormir. Até porque no dia seguinte, bem cedinho, tinha que levar meus meninos para escola.

No dia seguinte, enquanto a criançada tomava seu café, fui até a varanda novamente. Ainda estava escuro. Dei uma olhada pro outro lado da rua e mentalmente xinguei o bendito do sapo.

E, apesar de tão cedo, ouvi um “blip-blop” do celular no meu bolso. Sinal de mensagem. Estranho. Fui pegar meus óculos para ver qual era a mensagem, pois depois dos quarenta o “braço ficou curto” e sem eles não consigo ler absolutamente nada.

Foi aí que me dei conta.

“Meus óculos. Cadê os meus óculos? Onde está a porra dos meus óculos???” Olhei pro outro lado da rua, pr’aquela escuridão molhada e enlameada. Olhei pro exato ponto em que eu havia sumido e cambalhotado metros barranco abaixo e então, com desalento, me veio a única conclusão óbvia. “Lá.”

Solitude

Oi?

Alguém aí?

Ninguém?

ÓTIMO.

É que já tem meses que escrevi algo que tivesse saído de minha própria cabeça e, na prática, ANOS que escrevi algo que realmente eu mesmo possa rotular de “interessante”…

Esse distanciamento deste espaço virtual se deu em parte por conta da correria do dia a dia (que – vamos combinar? – nem é tão corrido assim…), um tanto de crise criativa e outro tanto de ceticismo generalizado após acompanhar o FEBEAPÁ que grassou nas redes sociais

E não foi sem motivo que fiz uma boa faxina por lá. Não, não exclui ninguém – ainda que muitos merecessem – apenas “me” exclui. Explico. Tirando o Instagram, que na maioria das vezes é uma simpática diversão, o Twitter, onde praticamente ninguém se importa se existo ou não, e o Linkedin, que até hoje não tenho certeza do que estou fazendo por lá, restou-me o degenerado Facebook, um sangrento campo de batalha em que qualquer tentativa de demonstrar algum posicionamento (político, religioso, humorístico, filosófico, pessoal, fiscal, sexual ou seja lá o que for) invariavelmente desanda numa flame war digna de Game of Thrones!

Quer passar incólume por lá? Fácil. Basta se limitar a postar: fotos ou vídeos que mostram os queridos amigos ou a excelente família que você possui e como todos vocês se dão bem, quer sejam recentes, antigas, verdadeiras ou não; frases e citações bonitinhas que servem para estimular o lado positivo das pessoas, ainda que você jamais tenha lido uma vírgula sequer do autor da frase ou, pior, naquele costumeiro exercício insano de recortar-e-colar-sem-nada-checar, que tenha atribuído o texto a quem nunca o disse (e, talvez, jamais o dissesse); e pets. Não as garrafas, mas sim aquelas fotos e vídeos fofinhos de animaizinhos de estimação, nas quais as pessoas gastam horas admirando e readmirando, curtindo, comentando e compartilhando com todo o restante do UNIVERSO – mesmo quando os demais mortais que estão em sua timeline não tenham a mínima vontade de ter o mesmo peculiar e carinhoso olhar do remetente no que diz respeito aos pequenos monstrinhos.

Existem variações, mas a receita básica é essa.

Só que esse negócio já me deu nos pacová, de modo que eu simplesmente apaguei tudo, TUDO, que existia na minha timeline desde 2010 até outubro deste ano. Fotos, frases, vídeos, curtições, postagens, compartilhamentos, comentários, bate-papos, etc. Tudo. Tá certo que eu continuo sendo o neurótico do backup de sempre, de modo que tenho tudo isso muito bem guardado nas catacumbas de meu computador (para eventuais referências futuras…) – mas, lá na rede, mais nada.

Por quê?

Porque preciso – mais uma vez – voltar ao básico. Ao que é simples. Ao que é objetivo. Preciso ter foco.

Mesmo este blog sequer começou como blog! Como já contei antes, lá nos idos de janeiro de 98, o que era para ser uma simples página para consultas jurídicas paulatinamente foi se transformando, se moldando, se ajustando, até que, anos depois, viria a assumir sua natural vocação para se tornar um verdadeiro blog. E só para não deslembrar: BLOG corresponde ao acrônimo de WEBLOG, que nada mais é que uma página da WEB (rede) em que o LOG de dados (registro de eventos) tem suas atualizações organizadas cronologicamente de forma inversa, do mais antigo para o mais atual. Isso mesmo, é exatamente como um DIÁRIO, em que a última página disponível também foi a última a ser escrita.

Ah, eu e esse meu didatismo…

Mas, enfim, é como a mais famosa frase de uma série que sempre adorei, Battlestar Galactica: “all of this has happened before and will happen again”… E com este ano de 2019 se aproximando, juntamente com tudo o que ele representa para este Velho Causídico que vos tecla, essa frase é mais sintomática que nunca. Pois já passei por isso antes, como, há anos, contei neste texto.

E é bem como está escrito lá, pois “não me sinto nem um pouco diferente, mas sei que não sou mais o mesmo”, pelo que me faz falta “uma época em que as coisas eram mais simples, a vida mais doce e a morte mais distante”“Desde então tenho procurado algo que estava faltando. Aquilo que eu esqueci. O Básico

“Quero poder escrever sem saber se e quando vou ser lido. De mim para mim. E deixar lá. Palavras ao vento. Úteis ou não. Não me importa, nem quero me importar mais com o que em qualquer exato momento outrem estiverem fazendo ou pensando. Deixem seus registros e eu, também quando e se quiser, os verei.”

E não, não estou velho e amargurado. Nem solitário. Nem sofrendo de solidão. Mas de uma outra coisa, sim.

Solitude.

Palavrinha interessante, que me foi generosamente apresentada há não muito tempo e cujo conceito não me era estranho – somente não sabia que existia um nome para esse conceito. Inclusive meio que já escrevi sobre isso antes

Diferente da solidão, que é encarar o vazio – que pode se dar pela ausência de contato com outras pessoas, de se expor a relações ou mesmo de poder confrontar as próprias ideias – criando um verdadeiro isolamento de si mesmo (ensimesmar-se), a solitude diz respeito ao pleno contato consigo mesmo, não havendo necessidade de estar sempre em companhia de outras pessoas – e não há solidão por conta disso. É poder estar sozinho viajando numa nave no vazio do espaço e, ainda assim, satisfeito.

A solitude confunde quem olha de fora, pois o observador tem a sensação de que não estamos bem, que estamos sofrendo, enquanto que a realidade é outra: é de paz.

E é essa a paz que busco.

Para isso me é necessário aprofundar-me um tanto numa solitariedade – sem abraçar a solidão – para atingir uma plena solitude

E tentar voltar a escrever.

Escrever como nunca!

Mesmo que não seja lido, como sempre…

Darwinismo Informático

Tudo muda.

Tudo sempre muda.

Mas nunca muda totalmente, pois muitas das experiências e situações pelas quais passamos são cíclicas. Vão acontecer de novo. E daí a beleza e a vantagem de todo o conhecimento adquirido e acumulado no decorrer de todas essas mudanças: com o inescapável passar do tempo e através da evolução natural de tudo ao nosso redor, estaremos assim preparados para enfrentar esses novos desafios, essas novas situações, prontos para enfrentar o que é novo – mas não necessariamente desconhecido, para explorar novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve!!!

NÃO!

Péra.

Desculpa aí, acho que me empolguei…

Mas creio que vocês pegaram o fio da meada, né? E neste nosso causinho de hoje vamos viajar um pouco em algumas relembranças de experiências de um passado não tão remoto, mas que contextualizados numa linha natural de evolução acabaram sendo cruciais para que eu me tornasse este sujeito tão extraordinariamente especial (e modesto!) que hoje vocês conhecem! E não, não estou falando de minha vida pessoal – que já foi contada em minúcias através dos meus livros – e nem tampouco da minha vida profissional – que já foi totalmente destrinchada em Veredas da Vida.

Hoje vamos tratar um tantinho da trajetória do mundo da informática pela minha vida – algo que já contei, em parte, aqui.

Tudo começou antes mesmo da consolidação da era dos computadores – ainda com a boa e velha máquina de escrever! Afinal de contas, para ter me tornado um exímio digitador antes de mais nada eu teria que ter sido um exímio datilógrafo. E isso somente veio depois de longos quatro meses através do bom e velho cursinho de datilografia! Bem, ao menos naquela época essa era uma realidade… Apesar de tudo vejo muita gente digitando através de avançadas técnicas de catamilhografia e que estão satisfeitas com isso. Paciência.


E ói que passei com a nota 8,5!

E lá pelos idos de 85 foi que se deu (ao menos que eu me lembre nesta já provecta idade) o meu primeiro contato com o mundo da microinformática. E a criatura tinha nome: CP-500.


Sim, esse troço era gigante!

Numa época em que as linguagens de programação que “importavam” para o mundo eram o COBOL (COmmon Business Oriented Language – Linguagem Comum Orientada para os Negócios – que era voltada ao processamento de bancos de dados comerciais) e o FORTRAN (IBM Mathematical FORmula TRANslation System, voltada ao campo da ciência da computação e análise numérica), era uma verdadeira inovação aquela molecada aprendendo BASIC (Beginner’s All-purpose Symbolic Instruction Code – Código de Instruções Simbólicas de Uso Geral para Principiantes – criada especificamente para fins didáticos).


Meu primeiro “diploma informático”!

Sim, BASIC, pois ainda não se falava em microcomputadores e Sistema Operacional era uma coisa que simplesmente não existia. Os dados eram carregados no computador e nossos programas eram gravados em fitas cassete (até porque ainda não existiam disquetes no mercado comum). E não, vocês não entenderam errado não: eram fitas K-7 mesmo – para que pudéssemos executar qualquer programa que tivéssemos escrito tínhamos que conectar no equipamento um gravador (um troço de antigamente, mais ou menos do tamanho de uma caixa de sabão em pó pequena) e carregar os dados. É LÓGICO que todo mundo que programava ao menos uma vez já havia tentado colocar aquela bendita fita com dados no aparelho de som de casa (os chamados três-em-um) pra ver que tipo de ruído saía na caixa de som. Parecia coisa do demo…


Tenho até hoje minha coleção de fitas K-7 com músicas daquela época…

E o tempo foi passando e eu fui acompanhando meio de longe a evolução da espécie… Mesmo assim, ainda que sequer computador tivesse em casa, em 1988 fiz um dos “cursinhos” que pipocavam na época – que serviam mais para arrancar dinheiro dos incautos do que necessariamente prepará-los para esse admirável mundo novo que nos batia à porta. E ali aprendi os mais rudimentares conceitos de programação, planilha de cálculos, banco de dados e editor de texto. Traduzindo: Basic, Lotus 1-2-3, DBase III Plus e Wordstar. Ah, sim, e eu GANHEI a piromba do cursinho…


Como dizem por aí: “de grátis, até ônibus pro lugar errado…”

Segue o andor, até que no decorrer do ano de 1991, mais por força da necessidade do que por minha natural curiosidade, voltei a ter contato direto com a vida virtual. Em parte porque meu irmão mais velho havia comprado um “Poderoso PC XT“, com sua romântica tela verde, dois drives para disquetes 5 1/4” e – A-HA ! – não precisava de disco rígido! A inicialização utilizava um dos drives de disquete enquanto você trabalhava com o outro.

Aliás, os disquetes eram um caso à parte. O único disquete que eu havia visto antes era um enorme, de 8 polegadas, quando ainda trabalhava num banco. Já na época do PC XT, os disquetes de 1,44Mb ainda eram um sonho distante e os que usávamos armazenavam somente 360Kb – que era o suficiente para carregar um Sistema Operacional DOS 3.30 completo, mais um Wordstar para textos e dBase III Plus para bancos de dados. Porém as planilhas precisavam de mais espaço, por isso o Lotus 1-2-3 ocupava um disquete inteiro. E desde então, sendo quem somos, já dávamos nó em pingo d’água, pois estava em voga um programinha italiano que enganava o computador, elevando a capacidade do disquete de 360 para inimagináveis 800Kb! Ainda devo ter uma cópia dele perdida nas catacumbas do meu computador…

E no início dos anos noventa vieram os 386 com suas telas coloridas e coprocessadores matemáticos (normalmente só pra quem rodava AutoCAD), bem como a coqueluche do momento: o Windows 3.11, uma nova forma de trabalhar com os computadores através de um ambiente gráfico que rodava muito bem sobre o Sistema Operacional DOS 5.0. Não muito tempo depois os sistemas “estáveis” rodavam com o Windows for Workgroups sobre o DOS 6.22.


Sim, estes disquetes fazem parte de minha coleção pessoal.

Já conhecendo um tanto de configuração de microcomputadores, e, na época, trabalhando na Telesp, eis que o pessoal da CPD (Central de Processamento de Dados) descobriu que havia um funcionário novo que entendia desse novo sistema operacional que estava tomando conta do mercado e para o qual teriam que migrar – enquanto que eles estavam acostumados com os grandes e parrudos computadores e servidores que rodavam sobre o Sistema Operacional Unix. Foi uma via de mão dupla, pois enquanto eu passava para eles meu conhecimento adquirido na prática e na lida, eles me passaram o deles através de cursos nos centros de treinamento da empresa.


Eis “O” Sistema Operacional antes que existissem os demais sistemas operacionais…

E em 1995 o que surgiu? O Windows 95, é claro, trazendo uma nova concepção para o mundo da informática. A multitarefa finalmente parecia que estava saindo dos livros e entrando na vida real. Nessa época eu montava, configurava e vendia computadores em casa, de modo que foi também quando montei meu primeiro computador. Impossível hoje dizer “o que” ele era, pois muitas vezes, a cada vez que chegava um novo computador para conserto ou para montagem, eu precisava abrir o meu próprio computador para testar placas e memórias e outros quetais, de modo que hoje já não tenho mais ideia de qual seria sua configuração.

Mas uma coisa é certa: ele tinha um nome.

Ou melhor, teve vários nomes. A cada vez que eu trocava uma placa-mãe ou instalava uma nova versão do sistema operacional, era como se ele assumisse uma nova identidade, motivo pelo qual eu lhe dava um novo nome.

Nomes são importantes.

Quando você atribui um nome a algo ou a alguém – ainda que seja um nome que somente sirva para você lembrar no seu íntimo – então esse objeto ou ser nomeado passou a ser um indivíduo, não dividual, indiviso. Passou a ter uma forma como um todo reconhecível. Ou seja, ganhou uma personalidade. E, para mim, sempre foi mais fácil lidar com minhas máquinas e equipamentos dessa maneira, atribuindo-lhes características únicas que as diferenciavam de todo o restante – meus computadores de então eram extremamente dedicados a mim, mas geniosos com estranhos; já tive o Brioso, um Fusca extremamente ciumento (deveria ter sido Briosa…); o Cruzador Imperial, um orgulhoso Opala Comodoro; a sempre elegante Madame Zafira; Bilbo, o Ford Ka, também conhecido como o pequeno notável; e, é lógico, Titanic – a Lenda.

Mas deixemos os carros de lado, pois estamos aqui para falar de informática!

No ano de 1996 eu me separei de minha primeira esposa e, de bom grado, saí com somente aquilo que me interessava: a roupa do corpo, minha coleção de gibis e meu bravo computador. Que, não demorou muito, sucumbiu ao mundo capitalista e teve que ser vendido para dar sustento àquele recém-separado estudante do último ano de direito…

Mas o mundo dá voltas e não demorou muito novas e duradouras amizades vieram fazer parte desta minha vida, já um tanto sofrida, inclusive abrindo-me portas para os primeiros passos na carreira profissional de Doutor Adêvogado de Direito Jurídico… Tudo bem que o fato de eu conhecer de informática e viver acertando e configurando todas as máquinas daquele povo também ajudava, né?

Pois bem, naqueles tempos a Internet para o povão era só um mito, uma coisa que acontecia lá fora, em terras estrangeiras, e sobre a qual líamos nas “revistas especializadas”. A solução caseira em terras tupiniquins se dava através dos BBS, uma espécie de rede local via linha discada. Alás, a primeira placa de fax-modem a gente nunca esquece: era uma Zoltrix de velocíssimos 28.800 Kbps!

E então, no final de 1996, finalmente conheci a Internet. Logo após eu ter me formado em Direito, o escritório no qual eu trabalhava resolveu assinar um pacote: míseros R$100,00 por uma hora de acesso no mês (fora a conta telefônica)! Uma verdadeira pechincha! #SQN

Mas os preços foram caindo e as possibilidades se ampliando e o tempo de conexão aumentando. Foi mais ou menos por aí, lá pelos idos de 97, que criei meu primeiro blog. O ano seguinte veio a nos coroar com o Sistema Operacional Windows 98, que durante os anos seguintes reinaria absoluto em termos de estabilidade e segurança – mesmo diante daqueles que tentaram ser seus sucessores dentro da própria Microsoft (Vista e Millennium, pra citar só dois). Também foi nesse período que tive meu primeiro contato com o Linux, mais especificamente um dos primeiros produtos da empresa Conectiva, baseado na Distribuição Red Hat. Mais tarde eu viria a “brincar” bastante também com outras distribuições, em especial o Slackware e mais recentemente com o Ubuntu.

E também foi no ano de 98 que eu viria a me casar pela segunda vez. E ao juntar nossas trouxinhas agora tínhamos dois computadores, o meu e o dela, para administrarmos numa pequena rede em casa – que foi ampliada, reduzida e destruída a cada uma das mudanças que fazíamos (ao todo foram sete). Para nomeá-los resolvi partir para o básico, então simplesmente adotei o Alfabeto Grego. Alfa e Beta.

Mas, ao menos nesse novo período, curta vida teve o caquético Alfa. Exaurido por tanto ser transportado e adaptado desde a época em que estava no escritório, já na nossa segunda mudança ele deu indícios de severa senilidade que o condenaram em definitivo.

As portas estavam abertas para Alfa-2, que foi montado com o que eu tinha à mão e ainda assim sobre os restos mortais de seu antecessor (o que, eu deveria ter previsto, demonstrou ser um erro trágico). Foi vítima de uma tempestade de raios que lhe fritou totalmente os cornos. E, de quebra, meus arquivos.

Estávamos em meados de 2001 quando montei minha primeira “máquina parruda”: ALPHA3 (só pra ser diferentão…). Tinha conexões para todo tipo de cartão de memória, placa de captura de vídeo, dois HDs de gaveta (ainda não existiam HDs externos), o escambau! Desta vez tendo por base o Sistema Operacional Windows XP foi o de mais longeva duração em minhas mãos, mesmo quando do advento do Windows 7 eu me mantive fiel ao sistema anterior – até porque não queria fazer parte daquela obsolescência programada, que nos faz aposentar nossas máquinas atuais sempre que um novo sistema é lançado.

“Mas acontece que tudo tem começo; se começa, um dia acaba…”, como dizia a letra da música… E no decorrer do ano de 2010, após anos de excelentes serviços prestados, inclusive sendo responsável pela maior parte da digitalização das fitas de vídeo que tenho em casa, silenciosamente sua essência partiu para a Grande Nuvem para nunca mais voltar.

E 2010 foi uma complicado. Muito. Alfa-4 se consolidou na figura nada carismática de um computador de loja (da marca Megaware) e sinceramente não me encantou. No final daquele ano, ainda que na época não soubesse, eu viria a passar um bom tempo fora de casa, de modo que depois de alguns meses reconfigurei-o para o uso da Dona Patroa e mandei pra garagem o antigo, mas ainda vigoroso, HP Pavillion que eu havia conseguido numa boa promoção (um leilão de ponta de estoque que merece um causo à parte!).

E então veio ALFA-5… Montei carinhosamente esse computador com tudo que encontrei de melhor à época. Não vou perder tempo aqui descarregando sobre vocês um monte de tecnicidades, velocidades, clocks, megabytes e terabytes que só chateiam a leitura para os “não iniciados”. Entendam que era uma EXCELENTE MÁQUINA. Assim, em caixa alta mesmo. Para usufruir melhor de sua capacidade até mesmo abri mão de minha teimosia (ói que difícil!) e instalei o Windows 7. Tive trabalho para reconfigurar um tanto de outros programas que utilizo desde o Windows 98 – mas que até hoje não encontrei melhores no mercado, em especial no que diz respeito à Genealogia e catálogos de peças do Opala.


Alfa-5, ainda em montagem e configuração, ladeado pelos restos mortais de ALPHA3…

Nesse meio tempo, com a criançada de casa já em plena adolescência, fui atrás de algumas máquinas também para eles. Também de prateleira, todas iguais que era para não dar briga. Um detalhe: o sistema embarcado era o Windows 8. Desde o início já deixei bem claro que não conhecia aquele sistema, não queria conhecer e qualquer problema que tivessem teriam que recorrer uns aos outros e se ajudar. Seguindo a ordem alfabética grega, as máquinas entraram na rede com os nomes de Gama, Delta e Zeta (na verdade esta última era para ser “Épsilon”, mas não gostei do nome…).

Porém, como muitos já sabem, há cerca de uma semana eu soltei a seguinte nota nas redes sociais:

NOTA DE FALECIMENTO: depois de sete anos de excelentes serviços prestados, comunico a passagem do meu aguerrido computador. Há tempos já vinha dando sinais de esgotamento nervoso, com eventuais lapsos de memória e desmaios repentinos. Passou por uma recente cirurgia de transplante, após uma súbita parada de fonte. Parecia estar bem, mas hoje, por volta de 06h10min, teve um colapso fulminante e não reagiu mais aos tratamentos de ressuscitação artificial. Deixará saudades e um grande vazio em minha mesa e outro maior ainda em meu bolso.

Péssimo momento.

Foram anos de intenso uso, com muita, muita digitação, edição de imagens, planilhas e mais planilhas, muitas vezes ficando ligado dias e dias para dar conta de uploads e downloads, bem como para renderização de filmes e vídeos dos mais variados tipos.

Mas nada mais havia a ser feito.

Muitos amigos se ofereceram para me emprestar computadores e notebooks, mas, com todo respeito e profundo agradecimento que devo a cada um deles, sou extremamente sistemático. Trabalho com um gama de programas instalados e uma metodologia que só funciona se eu zerar o computador e reconstruí-lo sob essas condições (eu ia escrever “à minha imagem”, mas fiquei com vergonha…), de modo que soluções de curto prazo não se demonstrariam producentes para meu dia a dia.

Até porque ainda tenho o meu notebook (ganhado), mas que, além de jurássico, é dado a surtos esquizofrênicos, de modo que não tenho como desenvolver um trabalho de peso em cima dele.

Assim, resgatei da aposentadoria (e das teias de aranha) aquele geriátrico HP Pavillion e comecei a reconfigurá-lo até que me sobrasse algum cascalho ($$$) para começar a montar um novo computador. Mas a surpresa viria logo a seguir, de uma maneira totalmente inesperada, pois eu jamais poderia prever que o apelo que lancei à procura de quem ainda tivesse algum disquete disponível (que, diga-se de passagem, foi mera brincadeira) acabasse por surtir efeito!

Mas não basta contar o milagre, tenho que dar nome ao santo. Se bem que, de “santo”, não sei não… Então. Eis que numa bela manhã de sol, me liga o meu amigo Renato Gil e me oferece um computador que estava encostado na casa dele. Argumentou que não tem mais a mínima intenção de trabalhar com desktops e que eu poderia usá-lo à vontade. Eu já estava começando com minha ladainha de que não, muito obrigado, que legal, mas eu sou sistemático e…

“Ô seu Zé Ruela, eu tô DANDO o computador pra você! Nem sei se está funcionando direito. Se você formatar e conseguir usar, tudo bem; se quiser só usar pra arrancar as peças, não tem problema, mas ele é SEU!”

GLUP.

Eu deveria conhecer melhor os amigos que tenho…

Enfim, combinamos o combinado e fui lá buscar o bichinho encostado.

Encontrei um simpático e bem conservado computador com placa Intel DG31PR, processador Pentium E2180 de 2 GHz e com 2 núcleos, 2 GB de RAM DDR2 800, fonte de 450 Watts e um modesto HD de 150 GB. Formatei-o e, mais uma vez dando a mão à palmatória, já sabendo que meu próximo computador vai ter que estar atualizado para os dias atuais, resolvi instalar o Windows 10 – na verdade foi por insistência do filhote mais velho, hoje técnico em informática e estudante de engenharia da computação, que preferia inclusive o sistema de 64 bits, mas que não foi suportado pelo computador.

Instalei em paralelo o HD de 1 TB do Alfa-5, onde estão todos os meus arquivos (fora os backups) e confesso que deu um tanto de trabalho para instalar (malditos pendrives de boot!) e outro tanto para configurar (nada está onde deveria estar – ah, que saudades do Windows 98!), mas enfim consegui. Estável. Leve. Rápido. Sem travamentos. Esse novo sistema impressionou-me de maneira extremamente positiva. Baixei e instalei os programas de uso diário devidamente atualizados (sempre freeware ou software livre) e desci às minúcias de configuração. Tudo bem. Tudo bom. Inclusive é nele que estou escrevendo e publicando essas tortas linhas de sempre. Assim nasceu Alfa-6.


Ladies & Gentlemen: conheçam Alfa-6!

Ainda falta configurar um tanto de cousas, mas estou bastante confiante e otimista, pois esse menino vai ficar comigo por um bom tempo. Ao menos até eu conseguir levantar fundos suficientes para nossa próxima grande aventura neste nosso evolucionário mundo do Darwinismo Informático. Aguardem, pois mais dia, menos dia, vocês virão a conhecer seu sucessor: ALPHA7! 😉

(E, mais uma vez, MUITO OBRIGADO, Renato, seu lindo! Valeu mesmo! 😀 )

Por quê?

Porque eu não sou de pedir ajuda.

Porque eu sou teimoso.

Porque estou cansado.

Porque sofrer cansa.

Porque amar cansa.

Porque demorei demais para abrir meus olhos.

Porque descobri que não enxergo além de minhas escolhas.

Porque a solidão se faz presente mesmo no meio da multidão.

Porque sozinho vim.

Porque sozinho estou.

Porque sozinho irei.

(2011)

Um canoro proseio

Num fim de noite qualquer, já num clima de começo de inverno (porque todo friozinho de inverno é bom para qualquer casal ficar abraçadinho e aconchegado) e depois de algumas taças de vinho, enquanto que com a palma de uma mão se apoiava na sacada do apartamento e com os dedos da outra tamborilava alguma música que só se desenrolava dentro de sua cabeça, ele olhava fixamente para um distante ponto invisível no horizonte, eis que ela resolveu começar a conversa que, há tempos, vinham adiando.

Pego de surpresa com aquela súbita quebra do silêncio que protegia seus pensamentos, ele buscou os olhos dela com um nítido ar de quem não entendeu, não ouviu, ou, mais provavelmente, ambas as coisas.

– Deixa eu repetir: o que eu perguntei é “e então, como é que a gente fica?”
– …

– Que foi? Por que esse sorrisinho bobo, seu bestão? Quero saber da gente: como ficamos?
– A dois passos do Paraíso! (Blitz)

– Oi? Como assim? Do que é que você está falando?…
– Assim será… (Los Hermanos)

– Assim será o que, seu doido? Não tô te entendendo! E por que é que você tá falando assim, cantado?
– Adivinha o quê? (Lulu Santos)

– Péraê… Essa eu conheço… Não, péra, as outras também! Isso tudo é nome de música, sei lá, da década de oitenta?
– Isso! (Titãs)

– Ah, tá. E justo agora você vai conversar comigo desse jeito?
– Bem vindo ao mundo adulto! (Biquini Cavadão)

– Tá bom! Mundo adulto só se for na sua cabeça! Sério mesmo que você vai fazer isso?
– Eu me sinto bem… (Titãs)

– Cara, como você é estranho…
– Muito Estranho! (Dalton)

– Mas eu não desisto assim tão fácil. Ainda quero minha resposta.
– Ainda é cedo. (Legião Urbana)

– Ah, não! Não me venha com essa! Assim você só me deixa pê da vida, sabia? Sai pra lá que vou pegar outro vinho!
– Volta pra mim… (Roupa Nova)

– Uéééé… Primeiro não queria nada, agora me quer aí pertinho, é?
– Insensível! (Titãs)

– Humpf! Acho que é isso mesmo, meu bem. Vou te deixar é de castigo por um tempo pra ver se você aprende…
– Tenha dó… (Los Hermanos)

– Tô brincando, bestão! Vem cá, me abraça!
– Chega mais! (Rita Lee)

– Eu ainda vou acabar te batendo por toda essa cantarolação…
– Impossível! (Biquini Cavadão)

– Ah é? Posso saber por quê?
– Tempo perdido. (Legião Urbana)

– É, disso eu sei. Você não aprende, mesmo.
– Não dá… (Roupa Nova)

– Amor, agora sério: o que é que foi? A gente estava tão bem… Pra você estar desse jeito, mais esquisito que o normal, alguma coisa mudou muito aí dentro dessa cabecinha.
– Nada tanto assim. (Kid Abelha)

– Sou eu, né?
– Tente outra vez. (Raul Seixas)

– Não, não preciso. Já sei que sou eu.
– Exagerado… (Cazuza)

– Eu? Exagerada? Exagerado é o teu focinho, tá bom?
– Essas emoções / À flor da pele… (Zeca Baleiro²)

– É você que me deixa assim!
– Desculpe o auê! (Rita Lee)

– Tá, tá… Deixa pra lá… Môr? Posso te perguntar uma coisa?
– Tá bom. (Los Hermanos)

– Você me acha bonita?
– Bicho de sete cabeças. (Zeca Baleiro)

– Seu chato! Escroto! Bestão!
– Terceiro… (Ultraje a Rigor)

– …
– …

– Sério que você me acha um bicho de sete cabeças?…
– Linda demais! (Roupa Nova)

– Sei lá, eu nem sou tão bonita assim…
– Perfeita simetria. (Engenheiros do Hawaii)

– Mesmo? Você não me acha feia?
– Nem pensar! (Kleiton & Kledir)

– Depois dessa, bem que você até mereceria um presente…
– Só se for a dois! (Cazuza)

– Então vem, vem comigo, agora!
– Como eu quero! (Kid Abelha)

– Então! Vem, me diz, me diz o que é que eu sou pra você?
– Deusa da minha cama! (Camisa de Vênus)

– Hmmm, gostei! Então vem! Então vamos!
– Me beija! (Lobão)

– Com certeza! Hmmm… Que bom… Oi? Que foi? Por que parou?
– Pra ser sincero… (Engenheiros do Hawaii)

– O quê? O que é que foi?
– Injuriado. (Eduardo Dusek)

– Como assim, “injuriado”? O que foi que eu te fiz?
– Você não soube me amar! (Blitz)

– Ah, cê tá me zoando! Desde o primeiro momento em que nos vimos, eu sempre te amei!
– Será?… (Legião Urbana)

– Ah, então agora a culpa é minha também? É isso?
– Eu quero sempre mais! (Ira!)

– Mais? E o que mais você quer?
– Um certo alguém… (Lulu Santos)

– Oi? Não! Cumassim? Fala comigo. Fala direito, por favor!
– Preciso me encontrar… (Marisa Monte)

– Se encontrar? Você… Você quer ficar com outra mulher? É isso? Ou… Ou outro homem?
– Eu gosto de mulher! (Ultraje a Rigor)

– Tá, tá, tudo bem, eu só tô tentanto te entender. Entender este nosso relacionamento que não vai, nem fica, não anda, nem desanda.
– Tédio. (Biquini Cavadão)

– Tédio??? Meu, eu aguento toda sua esquisitice, sempre estamos buscando algo novo e você vem me falar de tédio?
– O tempo não pára… (Cazuza)

– Então é isso, né? Cansou. Cansou de mim…
– Meu erro. (Os Paralamas do Sucesso)

– Você já não é mais um mocinho, sabia? Quer mesmo sair assim? Tentar começar tudo de novo com um outro alguém?
– Envelheço na cidade… (Ira!)

– Pois é. Então tá. Não vou mais insistir. E quer saber o que mais lhe desejo?
– As dores do mundo? (Jota Quest)

– Não, besta. Só você pra ainda me fazer rir numa hora dessas… Quero que você fique bem. Ainda te amo, mas não vou te prender. Melhor ainda, não vou me prender.
– Dias de luta… (Ira!)

– Mas você não vai me esquecer, vai? Você ainda vai lembrar de mim?…
– Aonde quer que eu vá! (Os Paralamas do Sucesso)

– Então tá. Olha, tá quase amanhecendo o dia. Se é assim que ficamos, acho que agora o melhor que você tem a fazer é ir embora, tá bom?
– Alvorada voraz! (RPM)

– Adeus, amor. Até algum dia. Ou nunca. O que for melhor. Ou menos pior…
– Adeus você… (Los Hermanos)

E lá se foi ele. Após aquele tumultuado namoro que não foi namoro, e que durou apenas onze dias, ainda que com um pouco de azedume, mas com sinceras lágrimas sofridas, desceu do sétimo andar e, com o pouco que sobrou de sua sobriedade, encarou a rua com aquele ar gelado, típico das madrugadas de inverno. Os pássaros começavam a cantar para uma Primavera que não estava lá enquanto que o vento quase que levou seu cachecol. Meteu as mãos nos bolsos e resolveu caminhar até sua casa. Tá bom, ele sabia que era um cara estranho. Mas ao menos agora também sabia que aquela morena tinha sido seu último romance. Isso porque enquanto ele estava com o olhar perdido naquele horizonte distante, buscando enxergar algo além do que se vê, teve uma longa conversa de botas batidas consigo mesmo, assim, do lado de dentro, e curiosamente teve a descoberta de quem verdadeiramente era o outro alguém com que deveria formar um par e deixar de se sentir sempre tão sozinho.

E do fundo de seu coração, bem lá de onde vem a calma, seguiu seu caminho assobiando a mesma música que estava em sua cabeça enquanto tamborilava os dedos na sacada. Uma antiga música de uma antiga banda chamada Ultraje a Rigor e que acabou desencadeando toda a série de eventos daquela noite.

O nome da música?

Eu me amo.

Vencido é a mãe!

Essa história já é um pouco antiga, quando os tempos eram outros e este nosso anti-herói de plantão ainda não tinha a vida regrada e familiar que hoje leva… Vamos chamá-lo de “Fred”.

Pois bem, lá estava ele com a sua já habitual insônia atravessando mais uma dessas noites quentes de Verão. Vira pra um lado, nada. Vira pra outro, nada. Desiste. Maldita insônia! Melhor dar uma olhada no que está passando na TV, fumar um cigarro, sei lá – distrair-se de alguma forma.

Mas cadê cigarro?

Só então lembrou-se de ter jogado o maço fora pouco antes de tentar começar a dormir, quando deu cabo do último sobrevivente!

“Bem, a noite é uma criança – mal passa de uma da matina – e já que estou com um carro aqui à disposição, melhor sair pra comprar mais dessas pílulas cancerígenas para atravessar o restante dela”, foi o que disse de si para si em uma bem lógica conclusão. Nessa época morava num bairro chamado Jardim Paulista e a única padaria 24 horas que sabia estar aberta ficava lá pelas bandas do Centro, há alguns quilômetros de distância.

E assim o fez. Foi, tranquilo, dirigindo e vendo pelo caminho um tanto daquele povo que estava indo ou vindo da balada, uns ainda sóbrios, outros nem tanto, bem como algumas moçoilas do ramo que estavam por ali para vender a única coisa que tinham para vender…

Chegou na padaria, de cara já pediu dois maços e – por quê não? – também duas latinhas de cerveja. Quem sabe com um pouquinho de teor alcoólico o sono não viria antes do amanhecer do dia? Entrou no carro e tomou seu rumo, de volta pra casa, desta vez atravessando o Anel Viário da cidade.

E eis que no meio do caminho havia uma batida policial. Um comando da polícia, no meio do caminho!

“Tudo bem! Podem até me parar, pois duvido que hoje encontrem alguém mais sóbrio e acordado que eu!”, foi o que pensou enquanto olhava para as duas latinhas intocadas, dentro de uma sacola, no banco do passageiro.

– Documentos!

– Pois não, seu guarda… Aqui está o meu e aqui o do carro.

Nisso o oficial se afastou para conferir sabe-se lá o que junto à viatura enquanto ele permaneceu bem ali, dentro do carro, fumando um cigarro e torcendo para que ele voltasse com um bafômetro! Ah, isso seria muito divertido!

– Senhor, queira sair do veículo, por gentileza.

– Pois não, seu guarda! – respondeu num exagerado tom de gentileza que, junto com o sorriso que ostentava, beirava a zombaria…

– Sinto muito, senhor, mas vamos ter que apreender o veículo.

– CUMÉQUIÉ? COMO ASSIM “APREENDER O VEÍCULO”???

– Acontece que o licenciamento está vencido desde o dia trinta e o senhor não pode transitar com o veículo nessa situação. Conforme consta no artigo 230 do Código de Trânsito Brasileiro é necessário que eu…

– Mas seu guarda, espera um pouco, vamos conversar, tá bom? Veja bem, este carro é da minha mãe e ela sempre foi muito cuidadosa no que diz respeito à documentação. Simplesmente não é possível que ela tenha deixado vencer o documento de… PÉRAÊ!!!

– Pois não, senhor?

– Você disse que o documento venceu no dia trinta? Dia trinta agora? Mas HOJE é dia trinta!

– Não, senhor, hoje é dia primeiro. Dia trinta foi até a meia-noite de ontem.

– CUMASSIM? Mas isso não faz nem duas horas! O que você está me dizendo é que este veículo vai ser apreendido simplesmente porque o documento venceu de ontem pra hoje? Há apenas duas horas ou menos?

– Exatamente, senhor. Vencido é vencido.

De nada adiantou argumentar, apelar para o bom senso, para o superior imediato, lembrar do local em que se encontravam, da distância até sua casa, do horário, nada. O sujeito era irredutível.

Absurda, insólita, inacreditável situação. Mas ainda assim, verdadeira! Aos olhos daquele guarda o documento estava simples e irremediavelmente vencido. Ora, vencido estava ele pela bur(r)ocracia que determinava a fria obediência à lei pelo diligente oficial – ao qual as denominações que passavam pela cabeça de nosso amigo não eram lá assim tão diligentes e muito menos publicáveis neste nosso cantinho de respeito!

Nada mais restou senão voltar pra casa. A pé. Alguns quilômetros, apenas, pelo ermo Anel Viário.

Ao menos as latinhas não foram confiscadas…

Maldita insônia!