Categoria "Comics"
1 out 2002 - 9:29  

Gilgamesh II – A volta da mais antiga das lendas

Gilgamesh foi um lendário rei da Babilônia, cuja saga data de aproximadamente 2.000 a.C., que é para muitos o mais antigo texto literário até hoje encontrado (mais velho que a Bíblia).

Agora Gilgamesh também é o mais novo membro da galeria de personagens cósmicos do grande Jim Starlin editado nos EUA pela DC Comics e que a Editora Globo lançou no Brasil.

É curioso que uma lenda tão famosa como essa, que explora temas como amizade, lealdade e aventura entre outros, só tenha aparecido nos quadrinhos agora. Segundo Starlin, a adaptação deste épico é uma idéia antiga dentro da indústria dos quadrinhos. Contudo, o trampolim editorial para o lançamento dessa série talvez seja a notoriedade que a lenda alcançou em 1988 com sua adaptação para o teatro, The Forest, de Bob Wilson, auxiliado por David Byrne dos Talking Heads (essa peça quase foi encenada no Brasil, mas o projeto foi cancelado devido aos altos custos de produção), e a possibilidade de se tornar um filme sob a direção de Win Wenders. Por coincidência, a Marvel também apresentou uma versão do personagem, criada por Walter Simonson para a revista Avengers (Vingadores). Diferente da Marvel, que o transformou em um personagem de “linha”, Starlin desenvolveu seu projeto como uma adaptação livre da lenda num todo, apresentada na forma de uma minissérie de luxo em 4 edições totalmente desvinculadas do universo DC.

A Lenda

Em linhas gerais, a história original é a seguinte: Gilgamesh, o poderoso tirano da cidade de Erech, na Mesopotâmia, incomodava os deuses com sua opressão sobre o povo. Eles criam, então, um bárbaro chamado Enkidu para ajudar a dar bom senso a Gilgamesh. A princípio, os dois se confrontam, depois tornam-se amigos, e saem pelo mundo atrás de aventuras. Em algumas versões, eles matam um dragão conhecido pelo nome de Humbaba. Impressionada com tais feitos, Ishtar, deusa guardiã de Erech, se apaixona por Gilgamesh, mas é rejeitada por ele. Irritada, ela envia o Touro do Céu para destruir Erech, mas Gilgamesh e Enkidu o matam. Irritados, os deuses sentenciam Enkidu à morte por causa de tamanha afronta. Ver a morte do amigo inspira Gilgamesh a procurar o segredo da imortalidade.

Ele enfrenta inúmeros obstáculos na procura do Utnaphishtim, o único mortal que sobreviveu ao Grande Dilúvio (citação semelhante e contemporânea da Bíblia) e a quem foi assegurada vida eterna. Achando-o, ele obtém o segredo, uma planta que jaz no fundo do mar, mas, logo depois, a perde enquanto tomava banho.

“É uma das histórias mais niilistas já escritas”, comenta Starlin, que preferiu transformá-la numa história de ficção científica bem-humorada. Um dos pontos principais, a busca da vida eterna passa a ser uma busca para trazer alguém de volta à vida. A história básica está mantida, apesar dos vários pontos apresentarem uma nova perspectiva. Tudo começa em 1988, com a chegada à Terra de dois alienígenas recém-nascidos. Gilgamesh é adotado por um casal de hippies e o “Outro” (como Enkidu é chamado na série) cresce sozinho no meio da floresta amazônica. Outros personagens também foram incorporados á série, só que disfarçados por nomes e formas diferentes. Humbaba passa a ser um monstro mutante batizado de Sombra Noturna; o Touro do Céu é apresentado como um ninja cibernético chamado Frank (e é engraçado notar que a fisionomia dele lembra bastante Frank Miller); os deuses são substituídos por uma corporação que agora governa a Terra, e assim por diante.

Mesmo o sucesso de vendas proporcionados pelo nome de Starlin não fará com que GILGAMESH II venha a ser uma série contínua ou tenha uma continuação qualquer. Segundo Starlin, a maneira com que ele fecha a história deixa pouca ou nenhuma margem para tal.

O Criador Mítico

Para quem não sabe, Jim Starlin foi um dos artistas de maior destaque na década de 70. Sua passagem por vários títulos da Marvel conquistou inúmeros fãs. Entre os trabalhos de maior destaque, que o colocaram na vanguarda junto com artistas de calibre como Berni Wrightson, Barry Windsor-Smith, Frank Brunner e Neal Adams, temos sua passagem pelas revistas Captain Marvel e Warlock. Nestas séries ele também se firmou como um dos primeiros artistas/argumentistas e um dos primeiros “exterminadores” de personagens da atualidade. A soma de sua arte vigorosa com argumentos intrincados e recheados de filosofia provaram ser um sucesso, inspirando artistas como Frank Miller e John Byrne. Por falar em filosofia, é curioso lembrar que foi Starlin o primeiro a desenhar um personagem marcado pelo emprego da filosofia oriental: o Mestre do Kung Fu, uma série que acabou durando bem mais do que a moda das artes marciais, e do que seus editores pudessem imaginar. Também são de Starlin algumas das primeiras experiências das grandes companhias com formatos de luxo: a controvertida Morte do Capitão Marvel (lançada pela Editora Abril), em que o antigo personagem morre de câncer e Dreadstar (a primeira Graphic Globo, de outubro de 88).

Perspectivas

Dreadstar, a série (também pela Globo), tem muitos pontos em comum com GILGAMESH II: drama e humor se alternando em meio aos muitos comentários e críticas sociais. Temas que variam entre a ideologia capitalista, política, ecologia, religião, estupro de menores, manipulação de massas, etc… A série que era publicada pela Epic, extensão da Marvel, passou para First Comics devido a um desacordo contratual. Depois que a revista se firmou na nova editora, Starlin depositou os cuidados de seus personagens nas mãos de uma nova equipe de criação.

Ultimamente, Starlin vem se dedicando mais à função de escritor/roteirista. nesta nova fase, já desenvolveu vários projetos para a DC, como The Cult (O Messias) e The Weird, ambos com os desenhos de Berni Wrightson, Cosmic Odissey, com arte de Mike Mignola, e uma sequência de histórias para a revista Batman, dentre as quais as minisséries internas As Dez Noites da Besta e a polêmica Morte de Robin. Atualmente, passou a escrever a série Silver Surfer (Surfista Prateado) para a Marvel e não sabe se voltará a ser o roteirista regular da revista Batman, pois julga que o personagem tornou-se muito instável por causa do sucesso cinematográfico e a excessiva atenção depositada sobre ele. Além desses projetos, existe o contrato com uma editora para a publicação de 2 romances de sua autoria.

Para Starlin, GILGAMESH II é provavelmente o último trabalho que desenha, pois julga o trabalho de arte “longo e solitário”, e escrever “divertido”, além de dar maior vazão às suas idéias.

GILGAMESH II não é apenas uma série para quem gosta de Jim Starlin, por sintetizar bem seu estilo e ser representativo dentro de suas obras, nem apenas para os fãs de quadrinhos, que poderão apreciar um trabalho que harmoniza mutio bem texto e arte de primeira qualidade, GILGAMESH II é uma série para todas as pessoas que admiram uma grande história contada com o talento e a imaginação de um dos melhores artistas dos quadrinhos americanos das últimas décadas.


George Andolfato

  (Publicado originalmente em algum dos sites gratuitos que armazenavam o e-zine CTRL-C)


1 set 2002 - 7:55  

Os sonhos, quadrinho a quadrinho

Sidney Gusman é jornalista especializado em quadrinhos e editor-chefe do site Universo HQ (http://www.universohq.com).

Artigo publicado no exemplar nº 13 da Revista Sandman, pela editora Globo em 1991.

As formas de arte sempre exploraram diversos temas para entreter seu público. Sob as mais variadas óticas e concepções, as pessoas já viram assuntos como violência, terror, ficção, amor e mais dezenas de outros. Nesse rol, um dos preferidos é, sem dúvida, o sonho. Teoricamente, a palavra significa o conjunto de idéias e imagens apresentadas ao espírito durante o sono. Mas não é tão simples assim, pois os sonhos abrigam muitos mistérios, a ponto de atrarir a atenção e a pesquisa de um gênio como Sigmund Freud. É fascinante saber que, ao sonhar, uma pessoa pode realizar seus desejos ou, então, viver temores hediondos.

Os sonhos são frequentadores assíduos do mundo da arte. No cinema, uma das maiores coqueluches do gênero foi Freddy Krueger, um ser que atacava suas vítimas enquanto elas tinham pesadelos, dilacerando-as com suas garras de metal. O personagem fez um sucesso enorme e virou mania nos EUA. No filme “Dream Scape”, o ator Denis Quaid tinha o poder de penetrar nos sonhos dos outros. Graças a isso, impediu que o presidente norte-americano fosse assassinado em seus próprios pesadelos. Em “Veludo Azul”, a referência não é tão explícita, porém fica evidente quando o ótimo Roy Orbison interpreta “In Dreams”. Fato parecido aconteceu na primeira parte de “De Volta para o Futuro”. quando o garoto Marty (Michael J. Fox) volta no tempo para o ano de 1955, ele acha que tudo não passa de um sonho. Para ilustrar a cena, no momento do “desembarque” no passado, a música de fundo é “Mr. Sandman” cantada pelo grupo Four Aces. Nos quadrinhos, as incursões são inúmeras. Começam no início do século e vão até os dias de hoje, sempre contadas dos modos mais diferentes. Afinal, sonhar é preciso.

Os Sonhos invadem as páginas

Os sonhos nas HQs são, algumas vezes, o tema principal de histórias. em outras, servem como “gancho” para o desenrolar das tramas. Em “O Cavaleiro das Trevas”, obra que detonou o “boom” dos quadrinhos, pouca gente pode se lembrar, mas é num pesadelo de Bruce Wayne (ao acordar está na Bat-Caverna e sem bigode) que Frank Miller começa a arquitetar a volta do cinquentão Batman. Em “Gothic”, minissérie de Grant Morrison (Homem-Animal) e Klaus Janson (Cavaleiro das Trevas), o homem-morcego sonha com o pai com a boca costurada e tentando avisá-lo sobre o vilão, o Sr. Whisper. Mas os temores do sono atacaram também o seu falecido parceiro Jason Todd. Na revista Batman 377 aparece uma vilã chamada Nocturna. Ela conhece a identidade secreta do morcegão e, para ameaçá-lo, solicita a tutela de Robin. Essa trama gerou uma belíssima capa, onde o garoto está voando numa cama, entre Batman e Nocturna, numa clara homenagem ao clássico Little Nemo. Os desenhos são de Ed Hannigan e a arte-final de Dick Giordano.

Alan Moore, que ao lado de Miller forma a dupla mais badalada de roteiristas do momento, também já “sonhou” em seus argumentos. Foi na reformulação de Miracleman. Nesse “revival”, Moore encontrou uma forma de adequar a antiga origem à nova fase do personagem: todas as recordações do herói não passavam de sonhos introduzidos, enquanto ele dormia num divã de “indução somática”. E o responsável era o seu suposto inimigo, o Dr. Gargunza.

Um dos mangás mais famosos no mundo inteiro, “O Lobo Solitário”, faz uma pequena, mas significativa citação aos sonhos. Ele recorre ao capítulo que narra a origem da saga do Samurai Itto Ogami. Sua esposa Azami, ainda grávida, lhe conta sobre seus repetidos sonhos, onde vê as almas encaminhadas pelo marido amaldiçoando o filho prestes a nascer. Ogami não lhe dá ouvidos e só depois de vê-la assassinada e ser injustamente acusado de tramar a derrubada do Shogun conseguiu compreender que o sonho era na verdade um aviso.

O quadrinho europeu também aborda com maestria o mundo do onirismo. Em “Os Companheiros do Crepúsculo”, o francês François Bourgeon construiu um dos melhores roteiros já escritos nas HQs. Baseado numa profunda pesquisa, o autor faz o Cavaleiro sem rosto, a ruivinha Mariotte e o atrapalhado escudeiro Anicet compartilharem – sem saber – dos mesmos sonhos. Isso se passa nos dois capítulos iniciais da série, quando eles penetram no Bosque das Brumas e encontram duendes feiosos que falam tudo rimando. Ao acordarem, nunca sabem se tudo foi sonho ou verdade.

“O Incal”, de Alessandro Jodorowski (roteiros) e Moebius (desenhos), tem uma passagem curiosa sobre os sonhos. Quando a história se aproxima do desfecho, no capítulo “A Quinta Essência”, a entidade chamada Incal diz que a única forma de derrotar a Treva é se todos os habitantes da galáxia (mais de 70 bilhões) entrarem em estado de “sonho-teta”. Inclusive esse episódio tem o subtítulo “A Galáxia que sonha”. Para alcançar esse objetivo, a luz conta com o inesperado apoio de um apresentador de TV maluco que cria até um slogan: “Sonhar é sobreviver”. moebius voltaria à carga no álbum “Os Jardins de Edena”, onde mostra sua predileção pelo naturalismo. Ele conta a história de Stell, um rapaz que, para conseguir o amor da bela Atan, enfrenta “a sombra do sonho” e, para vencer o estranho inimigo, liberta “o lado da luz”, acordando dentro do seu próprio sonho e banindo a criatura.

O argumentista Godard e o desenhista Ribeira criaram um aventureiro das estrelas e o batizaram de Axle Munshine. Sua primeira aventura foi “O Vagabundo dos Limbos” (modo como ficou sendo conhecido). Nela, após voltar de mais uma bem-sucedida missão pelo espaço, Axle seria indicado para o cargo de governador no Conselho Superior de Regência, mas cometeu um crime imperdoável: transgrediu o décimo-terceiro mandamento da “Guilda”, em outras palavras, atraveu-se a transpor as portas do sono. Tudo lhe era permitido, exceto sonhar e, por ter desejado conhecer essa outra realidade, foi condenado a viver fugindo, como um cavaleiro errante intergaláctico.

Os quadrinhos eróticos também dão uma grande contribuição. Um dos papas do gênero, o italiano Guido Crepax, deu uma amostra de sua criatividade em “Anita – Uma História Possível”. A personagem-título sempre que adormecia se via envolvida em devaneios repletos de erotismo, onde seu amante tratava-se de uma televisão portátil. Mas Crepax não parou por aí. Sua criação máxima, a sexy fotógrafa Valentina, é constantemente assediada por sonhos. Nessas “viagens”, ela já experimentou de tudo, desde sadomasoquismo até a mais completa loucura, sempre proporcionando aos leitores belos momentos de delírio.

Da Itália vem outro significativo exemplo. Trata-se de “Sonhar Talvez”, de Milo Manara, que é considerado o grande mestre do erotismo na atualidade. No álbum são contadas as aventuras da incansável Francesca Foscari e seu “guarda-costas” Giuseppe Bergman. Num clima de misticismo, o casal vai até a Índia investigar estranhos investigar estranhos acontecimentos ocorridos com uma equipe de filmagens. Daí para frente, o gênio de Manara cria situações em que sonho e realidade mesclam-se a todo momento, tornando a linha que os separa cada vez mais tênue e fazendo jus ao título da obra.

Os personagens Disney não poderiam ficar de fora. Entre as diversas histórias que já citaram os sonhos, duas merecem destaque especial: “A Bela Adormecida” e “Alice no País das Maravilhas”. Na primeira, após dar um beijo apaixonado na Princesa Aurora e livrá-la do sono eterno, no qual foi posta pela bruxa Malévola, o Príncipe Filipe diz: “Foi um final feliz para uma história que começou num sonho”. Já Alice quando retorna do país das maravilhas exclama ao pé de uma árvore: “Foi tudo um sonho!”. A loirinha criada por Lewis Carroll age do mesmo modo em “Alice no Mundo dos Espelhos”, recentemente editada na coleção Clássicos Ilustrated, com desenhos de Kyle BAker (Justiça Ltda).

Alguns não precisam nem dormir para sonhar. É o caso específico do endiabrado Calvin, de Bill Waterson. Esse garotinho loiro de 6 anos vive – literalmente – sonhando acordado. Ele faz de seu tigre de pelúcia, Haroldo, seu melhor amigo; transforma-o em dinossauros; vira o “Homem-Estupendo” e o “Cosmonauta Spiff”; e o mais incrível de tudo, quando vai dormir, não o faz porque seu quarto está cheio de monstros escondidos embaixo de sua cama.

O Universo dos super-heróis é o que tem maior ligação com o mundo dos sonhos. Hulk é uma das vítimas prediletas. Quando Bruce Banner conseguiu controlar o monstro, o vilão Pesadelo ocasionou a quebra desse controle, minando as resistências do cientista enquanto ele dormia. Esse mesmo inimigo voltou a atacar, agora junto com Desespero. Só que, além do Hulk, os dois atormentaram sua esposa Betty. Pra variar, foram vencidos.

O time dos “mocinhos” ainda está recheado de exemplos. Na origem dos Novos Titãs, a empata Ravena incute nos sonhos de Robin, Moça Maravilha, Ciborg, Mutano e Kid Flash, imagens que acarretariam na formação do grupo. Em Secret Wars, a entidade chamada Beyonder oferecia como prêmio aos vencedores da contenda, a realização de todos os seus sonhos. Quando Tempestade, dos X-Men, foi atacada pelo vampiro Drácula, ela sonhava estar sugando seus companheiros. Após a morte de Guardião, o líder da Tropa Alfa, sua esposa Heatler Hudson viu diversas vezes, enquanto dormia, a cena que presenciou. Na onda do “revival” dos superseres, J. M. De Matteis (Moonshadow) revelou aos leitores a nova origem de Ajax e, na história “Sonho Febril”, mostrou que até o Caçador de Marte sente medo. Para salvar sua parceira Danielle Moonstar, os Novos Mutantes enfrentaram um “Urso Místico” dentro dos sonhos da jovem, tudo desenhado por Bill Sienckiewicz (Elektra Assassina). Nem mesmo o Super-Homem escapou. Obrigado a assassinar os três inimigos do Superboy – General Zod, Quexul e Zaora – o Homem de Aço foi perseguido durante um bom tempo por pesadelos com essas recordações.

Existem ainda citações como “Sonho de Água”, uma historieta de Philipe Caza, onde o francês mostra todo o seu talento em quatro páginas só de imagens. No álbum “Mulheres de Sonho em Quadros Sonhados”, o desenhista Alex Varenne mistura onirismo, desejos eróticos, fantasias e situações absurdas. O bárbaro albino Elric e sua espada, “Stormbringer”, transformaram Ymrryr, a cidade dos sonhos, em um autêntico inferno. O Sargento Tainha vive acordando o Quartel Swampy com seus pesadelos ocasionados por refeições noturnas. E há também “Dreamer” (Sonhador), do mestre Will Eisner. Na obra, a palavra, no sentido de realização profissional, mostra a luta de um desenhista para publicar suas tiras. Dizem que o trabalho é uma autobiografia de Eisner. Se for, nesse caso o sonho virou realidade.

O Poder dos Sonhos

Os sonhos não apenas ilustram histórias, há também os personagens que vivem suas aventuras exclusivamente sonhando. Nessa galeria, o mais famoso é Little Nemo, de Winsor McCay. Era um menino de aproximadamente 7 anos, que vestia um camisolão e vivia passeando por paisagens surrealistas e de uma sofisticação incrível. Nemo era convocado pelo Rei Morfeu para ir a Slumberland, mas sempre acordava no último quadrinho de cada página. Criado em 1905, ele presenciava situações absurdas, retratadas pelas cores fantásticas do seu criador. Aliás, McCay era um especialista em lidar com sonhos. No ano de 1904, criou, sob o pseudônimo de Silas, a tira “Dreams of a Rarebit Fiend”, batizada no Brasil como “Sonhos de Um Comilão”, pois mostrava os pesadelos causados pelo excesso de comida. O desenhista ainda fez outras tiras relacionadas ao assunto, como “Midsummer Day Dreams”, “It was a Only Dream”, “Day Dreams” e “Dreams of a Lobster Fiend”. Todos esses trabalhos foram publicados pela Fantagraphics Books sob o título “Daydreams & Nightmares”.

Na onda de Little Nemo, dois autores aproveitaram para criar seus trabalhos. Em 1916, Penny Ross dava vida à “Mama’s Angel Child”, uma garotinha loira que, como Nemo, sempre despertava no último quadrinho. Para diferenciá-la, enquanto dormia, as imagens apareciam como formas retangulares. No mesmo esquema era “Polly and Her Pals”, de Cliff Sterrett (1926-1930). O protagonista era um baixinho carega de bigodes brancos; nos seus sonhos os desenhos ficavam deformados. A diferença é que, nessa tira, todos “viajavam” pelo mundo dos devaneios, até o gato.

A homenagem mais recente ao trabalho de Winsor McCay foi “Little Ego”, do italiano Vittorio Giardino. A história é basicamente a mesma, só que a ninfeta Ego só tem sonhos eróticos e, ao despertar, sempre quer contar tudo ao seu analista. Giardino ainda se deu ao capricho de caracterizar os quadrinhos à la McCay, como se fossem molduras, criando lindos painéis.

Alguns personagens têm seus poderes oriundos dos sonhos. Na relação dos que podem usá-los para prever o futuro, achamos Sonhadora. Nura Nal faz parte da Legião dos Super-Heróis e ajuda os legionários prevenindo-os dos perigos. Quem tem dons parecidos é o pequenino Franlin Richards, filho do Sr. Fantástico e da Mulher Invisível. O menino já avisou com antecedência ao Quarteto Fantástico sobre diversos ataques inimigos.

No ano de 1963 surgia no Universo Marvel, o vilão Pesadelo. Ele vive numa dimensão dos sonhos e tem o costume de visitar os pesadelos das pessoas para estudá-las. Seu maior inimigo é o Dr. Estranho, que já o impediu várias vezes de vir para o plano da realidade. Pesadelo foi o responsável por Hulk ter sobrepujado o controle de Bruce Banner.

Outro que faz parte do time dos bandidos é Morpheus, o Demônio dos Sonhos. Vítima de um experimento, ficou impossibilitado de sonhar, mas adquiriu energias psíquicas capazes de emitir raios e campo de força. Após uma derrota para o Cavaleiro da Lua, ele foi sedado por um bom tempo. A partir daí, obteve o poder de ligar-se a outras mentes, através dos sonhos.

O mestre dos pesadelos nas telas, Freddy Krueger, também pintou em forma de HQ, numa revista própria da Marvel. Seus assassinatos foram escritos por Steve Gerber, desenhados por Tonh de Zuñiga, e arte-finalizados por Alfredo Alcala. A publicação teve apenas duas edições e foi cancelada. Dessa vez, Freddy perdeu!

No início da década de 80, a Marvel criou um “Novo Universo”, que se originou do “Evento Branco”. Numa explosão, em um aeroporto, o jovem Keith Remsen recebeu o estranho dom de entrar nos sonhos das outras pessoas (baseado no filme “Dream Scape”) e adota o nome de Máscara Noturna. Com o passar dos anos ele aprimora seu poder, mas ao assassinar um vilão, enlouquece e termina sua carreira internado num hospício. Ainda nos estúdios de Stan Lee achamos o herói Talismã, um aborígene da Austrália que é capaz de se comunicar com o “Alter Jeringa” – O Mundo dos Sonhos. Ele pode enviar outras pessoas para o “lado de lá”, apenas girando uma boleadeira mágica. Sua primeira aparição foi em 1982 no Cross-Over Contest of Champions.

E o Brasil também tem seus representantes no mundo dos sonhos. Fikon e Sandra foram criados por Fernando Ikoma na falecida Editora Edrel. Em sua identidades secretas, eles são Mukifa e Karla, ambos muito feios e antipáticos entre si. Os dois encontraram medalhões dentro de maçãs, as peças eram encantadas e tinham o poder de materializar seus inconscientes, enquanto dormiam, transformando-os em seres bonitos e poderosos. Fikon e Sandra se apaixonaram, mas não sabem que na realidade se odeiam. Quando um deles acordava, automaticamente fazia sumir os dois heróis.

Alguns personagens têm o sonho apenas no nome. Scarlet Dream, de Claude Moliterni e Robert Gigi, era uma ruiva escultural que viveu aventuras até na selva amazônica. Nessa lista está “The Dream Walker”. O herói veste-se impecavelmente – fraque, gravata-borboleta, chapéu, máscara e capa – e enfrenta um guarda com a cara de Bruce Lee. A curiosidade é o argumentista dessa Graphic Novel. Seu nome é Bill Mummy. Se você não se lembra, na década de 60 muitos garotos sonhavam em ser como ele. Mummy era o Will Robinson do seriado Perdidos no Espaço.

O Mestre dos Sonhos

É certo que muitos obtiveram destaque em hitórias oníricas, porém só um deles recebeu o título de Mestre dos Sonhos. Seu nome, Sandman. Surgido em contos infantis há 155 anos, da cabeça do dinamarquês Hans Christian Andersen, o personagem soprava areia mágica nos olhos das pessoas para elas dormirem ou terem pesadelos.

Nos quadrinhos, sua primeira aparição foi em 1939, na “Adventure Comics 40″, com roteiros de Gardner Fox e desenhos de Bert Christman. Wesley Dodds (sua identidade secreta) não tinha nenhum superpoder, apenas uma pistola de gás, e não era muito elegante para se vestir, pois trajava um terno verde, luvas e chapéus marrons, máscara amarela e capa roxa. No ano de 1942, Jack Kirby e Joe Simon (os pais do Capitão América) dão a ele um uniforme colante e um parceiro: Sandy, o Goldent Boy. Suas características passam a ser mais científicas e ele ganha, inclusive, um apito hipersônico.

Depois de ficar 30 anos esquecido (aparecia apenas como coadjuvante na Sociedade da Justiça), Sandman ganhou outra identidade e uma revista própria, em 1974, novamente pelas mãos de Kirby. Seu nome era Garret Sanford e, em sua nova origem, tratava-se de um cientista que trabalhava numa máquina de monitorar sonhos. Recebeu um chamado da Casa Branca, pois o presidente estava em coma e ele teria que entrar nos seus sonhos. Após cumprir a missão, Sanford constatou uma coisa. Não podia viver mais de 60 minutos no mundo real. Resolveu então assumir a identidade de Sandman, contando com a ajuda dos monstros Brute e Glob e do garoto Jed Paulsen. Ele vivia no Domo dos Sonhos e utilizava uma espécie de tubo ejetor para vir à realidade.

Garret Sanford não aguentou os poderes e suicidou-se. No seu lugar, assumiu o posto Hector Hall. Esse novo sandman era filho do Falcão Negro e da Mulher-Gavião, da Terra Paralela, e fazia parte da Corporação Infinito como Escaravelho de Prata. Numa aventura do grupo, Hall é possuído pelo espírito que assassinou a primeira encarnação de seus pais e volta-se para o mal. Seu fim é triste: morre virando pó. Mas isso durou pouco, pois Rhoy Thomas o ressuscita como Sandman. A explicação? Após a morte, ele passou pelo mundo dos sonhos e Brute e Glob lhe deram os novos poderes. Todavia, seu reinado durou pouco. O verdadeiro Sandman o fez retornar a pó, para desesepero de sua esposa Hipólita (filha da Mulher-Maravilha), que esperava um filho do falecido.

Finalmente, em 1988, Sandman ganhou sua versão definitiva, àquela que veio para ficar. Depois do ótimo trabalho em “Orquídea Negra”, Neil Gaiman foi encarregado de reestruturar o personagem. O argumentista não se fez de rogado e reconstruiu totalmente o irmão da morte. Ele lhe deu um visual pós-apocalíptico, com pele pálida e cabelos negros arrepiados. Trabalhou sobre o fato de que um habitante dos sonhos deve, por obrigação, ser misterioso. Mexeu com o lado psicológico dos pesadelos e insistiu num terror escatológico nas páginas da revista. Reuniu nessa versão, pedaços de todas as anteriores, amarrando-as com precisão. Aboliu o escrúpulo e mostrou ao público o verdadeiro significado de “quadrinho adulto”. Definitivamente, Gaiman transformou Sandman num autêntico Mestre dos Sonhos. Por tudo isso, podemos afirmar uma coisa: o genial John Lennon que nos desculpe, mas o sonho não acabou.


Sidney Gusman

  (Publicado originalmente em algum dos sites gratuitos que armazenavam o e-zine CTRL-C)


1 ago 2002 - 16:49  

Excommunicamus – A bruxaria nos quadrinhos

Noite de lua cheia. O céu está limpo, sem nuvens ou ameaças de chuva. No meio de uma floresta, em algum lugar, uma modesta cabana dá sinais de vida através das acanhadas luzes amareladas de velas e lampiões. Um pouco de fumaça sai de sua chaminé. É quase meia-noite…

Com hipnóticos olhos cor de mel, uma enorme coruja está atenta a tudo e, entre uma virada e outra do pescoço, crocita ruidosamente. Seu canto grave, entretanto, não intimida o réptil viscoso que rasteja pela folhagem seca. O vento se intensifica e muda sua entonação de voz. De melodioso assovio, torna-se uma lamúria gélida e sem fim. É quase meia-noite…

Na cabana, cochichos se escondem sob risadas apressadas. Ouvidos mais bem treinados certamente escutariam o tique-taque insistente de um relógio. Então, sem avisar, o caótico concerto noturno se cala. A coruja, agora muda, pisca seguidamente e afunda sua cabeça contra o corpo. Dentro da cabana, um cuco faz dueto com o relógio. Doze cantos e doze badaladas. A hora das bruxas. É meia-noite!

Caldeirões fervendo, asa de morcego, perna de sapo, veneno de aranha, pena de corvo… Irc! Que nojo! Bruxaria não! Ou melhor, bruxaria sim! Afinal, os quadrinhos são um grande refúgio de magia, bruxaria e seus derivados. Mas, antes, vamos dar uma olhada no pesadelo real que originou tantas lendas populares sobre as tão temidas bruxas.

Fala-se muito sobre a caça às bruxas e as impiedosas fogueiras inquisidoras, mas quase ninguém cita os responsáveis por essa chacina histórica. Na verdade, não existem culpados que você possa apontar, mas agentes de uma instituição que buscava uma maneira de se fortalecer mais ainda diante das constantes ameaças de perda de poder: a Igreja. Em 1231, o papa Gregório IX, através de sua bula, Excommunicamus, anunciou algumas “regras” para guiar os passos dos inquisidores profissionais no encalço daqueles que eram considerados hereges. Segundo ele, sua bula tornaria os julgamentos de heresia mais racionais, impedindo que a população cometesse atos de selvageria, tais como linchamentos e outras “diversões” do gênero. Apesar de suas intenções serem as “melhores” possíveis, Inocêncio IV autorizou a tortura como parte dos interrogatórios. Método bastante sutil para a época… Perseguições indiscriminadas não tinham mais fim, e até facções dentro da própria Igreja sofreram represálias. Toda a Europa se transformara numa imensa fogueira de ignorância. Acreditava-se que bruxas canibais e adoradoras do Diabo se reuniam para praticar todo tipo de malefícios através da magia. Segundo os religiosos mais fervorosos, as artes mágicas, boas ou más, eram um subterfúgio do demônio para enganar os homens e fazê-los perder a crença em Deus e, principalmente, nos cofres da Igreja… A condenação por heresia e a vinculação da bruxaria ao diabolismo no século XIV foram marcos decisivos para a ascensão do catolicismo na Idade Média.

Quando Inocêncio VIII redigiu a pomposa bula papal Summis desiderantes affectibus, em 1484, desencadeou, intencionalmente ou não, o início de uma Era dominada pelo medo e ignorância sem limites. Em sua onipotente presunção, ele quis instituir uma forma de combater todos os tipos de malefícios constatados pela Igreja até então. Dois anos depois, os inquisidores dominicanos Heinrich Kramer e James Sprenger escreveram o volumoso Malleus Maleficarum, um dos maiores tratados (junto com Formicarius de João Nider, 1435) sobre o assunto. De certa forma, o Malleus foi o livro de cabeceira do inglês Matthew Hopkins, o famoso caçador de bruxas que atuou por volta de 1650, desbravando uma impiedosa trilha de terror em nome de Deus.

Se a Itália, a França e a Alemanha foram os maiores palcos da Inquisição, a Inglaterra manteve-se isolada (por razões claramente religiosas). O manual de caça às bruxas de Kramer & Sprenger, durante muito tempo, só existia num círculo muito elitizado de estudiosos e cultos britânicos. Por outro lado, o Parlamento inglês teve três leis que condenavam a bruxaria como delito previsto na legislação. A última delas, que vigorou de 1604 a 1736, condenava as bruxas à pena de morte nos casos de reincidência de malefícios tais como roubos de tesouro, amor ilícito, destruição de gado ou bens e tentativas de assassinato. Além disso, era crime consultar, alimentar, recompensar ou se aliar a qualquer espírito mau.

Parece brincadeira, mas não é. Milhares e milhares de pessoas (a maioria formada por mulheres) foram condenadas à morte simplesmente por discordarem dos dogmas impostos pela Igreja, que ditava como deveriam viver e em que acreditar. Joana D’Arc (hoje santa), uma verdadeira heroína francesa durante a Guerra dos Cem Anos, chegou a vestir-se como cavaleiro para fortalecer o sentimento patriótico de seu povo e acabou sendo condenada à fogueira em 1431, acusada de heresia e feitiçaria. Vinte e cinco anos depois, uma comissão papal reveu o julgamento e ela foi canonizada. Ironia? Não. Benevolência… Quantas idéias não se perderam nesse período tão negro? Para se ter idéia, o astronônomo italiano Giordano Bruno foi queimado como herege por defender a idéia de que a Terra e outros planetas giravam em torno do Sol (teoria do heliocentrismo lançada por Nicolau Copérnico em 1512). Mais afortunado foi Galileu Galilei, o polêmico cientista de Florença, que tanta dor de cabeça causou à Inquisição. Com Siderus Nuncius (1610), um tratado que descrevia o relevo lunar, desvendava quatro satélites de Saturno e defendia o heliocentrismo, o “pai do telescópio” recebeu apenas um pequeno aviso de que suas afirmações eram contrárias às da Igreja. Depois, com a publicação de Dialogo (1632), que reforçava ainda mais as suas idéias anteriores, Galileu foi julgado como herege e acabou se retratando publicamente para não ter que ir para a cadeia ou sofrer uma penalidade mais drástica. E foi somente agora, no final deste século, que a Igreja deu pleno perdão a ele e retirou seu nome da lista negra. Incrível, hein? O que seria do “mago” Paulo Coelho se ele vivesse em plena Inquisição? É melhor não entrarmos no mérito da questão…

Hoje, felizmente, os tempos são outros e as bruxas e bruxos não amedrontam mais. Muito pelo contrário! Quem é que não se lembra da simpática Samantha, do seriado A Feiticeira, que marcou os anos 60 e 70? É lógico que sua mãe, Endora, fugia à regra e infernizava a vida de seu genro, James. Aquele velho problema com as sogras… Até o antigalã Jack Nicholson, que encarnou o Diabo no filme As Bruxas de Eastwick, de George Miller, sofreu na pele os encantos e feitiços de três lindas bruxas vividas por Michelle Pfeiffer, Cher e Susan Sarandon. Em Coração Satânico, de Alan Parker, o azarado detetive particular vivido por Mickey Rourke se vê atormentado por todo tipo de magia negra e descobre que foi contratado pelo próprio Lúcifer, magnificamente interpretado por Robert De Niro. Mais para o gênero do terror/humor, Warlock, o Demônio, de Seteve Miner, mostra um inquisidor do time dos “mocinhos” no encalço de um feiticeiro com cara de roqueiro que busca o Grimoire (um livro de magia negra). Tudo isso em pleno século XX!

David Lynch, o grande cineasta do obscuro, se enveredou pelos tortuosos caminhos do sobrenatural e criou o assustador pesadelo em capítulos chamado Twin Peaks. Também dirigido por Lynch há o estranhíssimo Coração Selvagem, onde a bruxinha boa e a bruxa má fazem aparições memoráveis. Para os amantes da lenda do Rei Arthur, John Boorman produziu o monumental Excalibur, que reconta toda a saga dos Cavaleiros da Távola Redonda, onde o mago Merlin e a feiticeira Morgana desempenham papéis fundamentais. E é claro que não poderíamos omitir O Nome da Rosa, de Jean-Jacques Annaund, uma citação direta à Inquisição. Embora não seja uma adaptação fiel do romance homônimo de Umberto Eco, este filme traz o sempre espetacular Sean Connery no papel de um monge franciscano que tenta solucionar estranhos assassinatos numa distante abadia.

Levando o tema para uma versão mais infantil, podemos citar Fantasia (produzido pelos estúdios de Walt Disney), um belíssimo desenho animado, de 1940, comandado pelas peripécias mágicas do ratinho Mickey, o aprendiz de Feiticeiro. Além das inovações de animação, Fantasia traz uma trilha sonora composta pelos maiores músicos da história. Ainda sob a batuta do papai Disney, as crianças perderam o sono com Branca de Neve e os Sete Anões (de 1937) e A Bela Adormecida (de 1959). No primeiro, a vaidosa e vingativa bruxa, madrasta da bobinha Branca de Neve (criada pelos Irmãos Grimm), inferniza a vida de sua enteada e da gangue de baixinhos. No outro, adaptação inspirada do conto de Charles Perrault, a feiticeira Malévola enfrenta o valente Príncipe na forma de um imenso dragão. Quem viu sabe que essa é uma das sequências mais incríveis já produzidas para o cinema.

Diretamente da Bélgica, Peyo criou os felizes Schtroumpfs (“Smurfs”, no Brasil), uma versão light de duendes pentelhos que vivem sendo perseguidos pelo azarado feiticeiro Gargamel e seu fiel assistente, o gato Cruel. Ei! Que é que há, velhinho? Pernalonga, o coelho cinquentão mais esperto do cinema, também passou maus bocados com a bruxa Hazel, que queria incluí-lo nos ingredientes de seu fumegante caldeirão.

E no mundo dos balões e onomatopéias, a Santa Inquisição não tem vez mesmo! Cheio de receitas miraculosas, Panoramix, o sábio druida da aldeia gaulesa criada por Goscinny & Uderzo, foi o manipulador da poção mágica que concedia força sobre-humana a Asterix e seu obeso e inseparável companheiro Obelix. Assim, eles podiam enfrentar o avanço dos atrapalhados romanos. Para quem aprecia patos (não para comer, é lógico!) a Maga Patalogika fazia parceria com a Madame Min para roubar a cobiçada moeda número 1 do velho muquirana Tio Patinhas. No Brasil, a simpática bruxinha Medéia, da Turma do Arrepio (criação de César Sandoval), apronta das suas com seus monstruosos amiguinhos. Dando um ar mais adulto ao assunto, o desenhista britânico John Bolton, produziu, em parceria com Chris Claremont (o mentor X-Maníaco), duas obras recheadas de fetiçaria: Marada, a Mulher Lobo e Black Dragon. Ambas retratam com seriedade a época medieval. Na mesma linha, Tim Truman concebeu TOADSWARTH, representante primogênito do movimento gótico em quadrinhos. Inspirado pela Guerra dos Cem Anos, François Bourgeon nos presenteou com os Companheiros do Crepúsculo, uma obra simplesmente magnífica que narra as andanças de um cavaleiro desfigurado e sem destino pelos campos de feitiçaria. Da Marvel, há exemplos famosos. O mais conhecido deles é Conan, o Bárbaro, que passou noites e noites em claro seduzido pelos encantos naturais irresistíveis de bruxas curvilíneas. Seu criador, Robert E. Howard, também concebeu Solomon Kane, um puritano da Idade Média que provou todos os dissabores da feitiçaria. Entre relâmpagos e trovões, o mago Shazam concedeu todos os superpoderes a Billy Batson, transformando-o no Capitão Marvel, o mortal mais poderoso da Terra (e de seu idealizador, C. C. Beck).

Merlin e Morgana, além da lenda saxônica que os mantêm “vivos” até hoje, receberam inúmeras versões nas HQs. A saga futurista Camelot 3000, de Mike Barr e Brian Bolland, talvez seja a mais significativa. Mas o demoníaco par também teve importância no surgimento de Etrigan, o Demônio, que também foi brilhantemente revitalizado por Matt Wagner na minissérie The Demon, um tratado de demonologia em quadrinhos. Ainda no gênero de super-heróis, o Dr. Estranho continua travando intermináveis batalhas astrais, enquanto, na Latvéria, o tirano enlatado Dr. Destino faz uso de magia e tecnologia para infernizar a vida de seus adversários. Tex Willer, o ranger mais famoso do Velho Oeste, ganhou alguns cabelos brancos quando enfrentou as bruxarias de seu arquiinimigo Mefisto. O mal-encarado feiticeiro Mordru fez jus às suas qualidades e tornou-se um dos mairoes inimigos da Legião dos Super-Heróis, no século XXX.

Nos chamados quadrinhos adultos seria sacrilégio deixarmos de citar a minissérie Livros de Magia, escrita por Neil Gaiman, onde praticamente todos os personagens mágicos da DC Comics são retomados, e Dylan Dog, de Tiziano Sclavi, que, além de solucionar os casos mais escabrosos, provou ser mais um sucesso absoluto do grande editor e aventureiro Sergio Bonelli, da Itália.

Apesar de tudo o que foi dito nesta pretensa matéria sobre Inquisição e bruxaria, nunca haverá espaço suficiente para explorarmos o assunto com o merecido respeito. Para se ter uma idéia, Sandman, John Constantine, e o Monstro do Pântano, personagens considerados como a elite dos quadrinhos de horror, têm envolvimentos tão fortes no reino do sobrenatural que seriam argumento mais do que suficiente para receberem matérias próprias, tamanha a riqueza de citações em suas histórias. Por essa razão, encerramos nossa breve incursão mística com a obrigação de retomarmos o tema em breve. Um brinde aos bruxos e bruxas de todas as épocas. Que os tempos negros da Inquisição não voltem jamais.


Leandro Luigi Del Manto

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17 jul 2002 - 12:20  

Superman – IX

Biografia de Joe Shuster

Joe Shuster é um artista de HQs e tiras nascido no dia 10 de junho de 1914 em Toronto, Canadá. sua família se mudou para Cleveland, Ohio, em 1923, e foi ali que ele conheceu o argumentista Jerry Siegel. Juntos, quando adolescentes, os dois começaram a publicar fanzines de ficção científica. Em uma das edições, fizeram um artigo sobre o romance Gladiator, de Philip Wylie, que foi a base para a maior criação deles, o Super-Homem, concebido em 1933.

Ao mesmo tempo, Shuster estava estudando Arte e cursava o John Huntington Polytechnical Institute e a Cleveland School of Art. Em 1936, Siegel e Shuster entraram no negócio de revistas em quadrinhos através da New Fun Comics, Inc. – que, mais tarde, se tornaria Detective Comics e depois National Periodics -, produzindo histórias convencionais de aventura, como Dr. Occult, Henry Duval, Spy, Federal Men, Radio Squad e Slam Bradley.

Em 1938, porém, a companhia comprou deles a primeira história do Super-Homem por 130 dólares. Fazendo sua primeira aparição na edição inaugural de Action Comics, o Homem de Aço foi um sucesso imediato e, desde então, avançou até se tornar o mais conhecido personagem de aventuras dos quadrinhos.

A arte de Shuster era primitiva, chapada, até mesmo primária, mas lindamente projetada e bem concebida. De certo modo, seu estilo simples tornou-se a receita para os primeiros gibis de aventuras, mas seu trabalho era em geral melhor e mais inspirado do que as imitações que se seguiram. Ele gostava de usar planos distantes, que mostravam o personagem inteiro; sua arte nunca foi pretensiosa ou experimental. Em vez disso, Shuster se contentou com o trabalho narrativo direto, que o crítico e artista James (Jim) Steranko uma vez comparou ao estilo dos cartunistas editoriais.

Embora Siegel e Shuster tenham ganho bastante dinheiro com o Super-Homem – o Saturday Evening Post estimou a renda deles em 75 mil dólares em 1940 – e embora tenham aberto um estúdio para produzir as quantidades sempre ascendentes de material solicitadas pela National, eles nunca tiveram nenhum direito sobre o personagem. Shuster desenhou o kryptoniano até 1947 – para os gibis e para as tiras de jornal do McLure Syndicate – e terminou sem nada.

Após trabalhar um período com o Bell Syndicate na tira Funnyman, escrita por Siegel, o canadense abandonou completamente a indústria quadrinística.


Mário L. C. Barroso

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15 jul 2002 - 12:18  

Superman – VIII

Biografia de Jerry Siegel

A primeira criação de Jerome “Jerry” Siegel para gibis foi o Super-Homem, o personagem quintessencial dos quadrinhos e bisavô de milhares de super-heróis, que desde então tomaram o meio. A carreira de Siegel foi assombrada pelo personagem desde sua concepção, em 1933, e sua primeira aparição no número um da revista Action Comics, da editora National Periodics, em junho de 1938. Siegel e o artista Joe Shuster, um amigo de infância, venderam o personagem por 130 dólares e receberam pouco mais a partir de então. Na verdade, Siegel gastou boa parte de sua vida adulta tentando inutilmente reconquistar um pouco dos direitos sobre o que é indiscutivelmente o personagem mais lucrativo dos quadrinhos.

Nascido em Cleveland, Ohio, em 17 de outubro de 1914, Siegel baseou frouxamente seu conceito de Super-Homem no romance Gladiator, escrito por Philip Wylie em 1930. A origem do Homem de Aço foi incorporada às tradições norte-americanas, naturalmente, e centenas de imitações o seguiram. Em retrospectiva, porém, o personagem de Siegel era único, pois mostrava um ser superpoderoso adotando o disfarce de um repórter tímido, Clark Kent. Os contemporâneos do Super-Homem costumavam ser humanos normais que se transformavam em super-heróis. As implicações psicológicas de sua criação têm sido estudadas há anos.

Mas, apesar de sua posição atual de destaque, o Super-Homem foi inicialmente rejeitado por todas as grandes agências de tiras de jornal da época. Somente em 1938, os editores da revista especializada em histórias policiais e de aventura, Detective Comics, compraram os direitos do Super-Homem e o publicaram na revista Action Comics: o personagem de Siegel e Shuster decolou imediatamente. Siegel continuou a trabalhar no herói até 1948 – com histórias que consistem em pequenas peças de moralidade. Sua caracterização do Homem de Aço era mais sóbria que a de escritores posteriores – e a disputa em torno da propriedade do herói se seguiu quase imediatamente. Até hoje, Siegel e a National (agora DC Comics) estão nos tribunais por causa do personagem.

Todavia, apesar de Jerry afirmar constantemente que foi incluído na lista negra da indústria de gibis por causa do processo contra a National, seu rol de créditos é tão longo quando o de qualquer um da área. Siegel trabalhou em muitas tiras de jornal – incluindo Super-Homem, Funnyman, Reggie Van Twerp, Ken Winston, Tallulah – e também foi o primeiro diretor de revistas em quadrinhos da Ziff-Davis. Mas muitos especialistas acham estranho que nenhuma de suas criações tenha alcançado sucesso prolongado. Muitos acreditam que, embora Siegel possa não estar na lista negra, talvez ele tenha sido punido constantemente por suas tentativas de reconquistar o Super-Homem.


Mário L. C. Barroso

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13 jul 2002 - 12:10  

Superman – VII

Supermoça

A Supermoça foi criada pelo editor Mort Weisinger e pelo argumentista Otto Binder como série de apoio para o Super-Homem na revista Action Comics, a partir do número 252 (maio de 59). A nova série estreou após uma fantástica reação dos leitores a uma edição de Superman, publicada um ano antes, na qual Jimmy Olsen usava um totem para criar uma Supermoça, que posteriormente sacrificou sua vida para salvar o Super-Homem. A partir do enorme sucesso dessa edição, decidiu-se criar uma nova Supermoça para aparecer em Action Comics.

A nova “Moça de Aço” era a última sobrevivente (na época) da cidade de Argo, parte do planeta Krypton. Quando o astro explodiu – explicava a história de origem -, Argo foi lançada ao espaço num grande bloco de rocha que logo se transformou na letal kryptonita. Folhas de chumbo foram usadas para cobrir o solo, mas, anos depois, uma chuva de meteoros perfurou a proteção, liberando as radiações mortais para os kryptonianos. O cientista Zor-El (irmão do pai de Super-Homem, Jor-El) enviou sua filha adolescente, Kara, para a Terra, do mesmo jeito que Jor-El havia feito com seu filho anos antes. Nesse período, Kal-El tinha crescido e se tornado o Super-Homem. Como a nova Supermoça era prima do Defensor de Metrópolis, isso eliminava qualquer possibilidade de um romance entre os dois alienígenas, não interferindo no namoro entre o Homem de Aço e Lois Lane.

A loura e adolescente Supermoça recebeu uma peruca castanha e o alter ego de Linda Lee, moradora do Orfanato Midvale. Durante algum tempo, a existência de uma Supermoça foi mantida cuidadosamente em segredo e Linda Lee, continuando a viver no orfanato, evitava a adoção. Finalmente, em agosto de 1961, ela foi adotada pelo casal Danvers (mudando a identidade para Linda Lee Danvers), e, em fevereiro do ano seguinte, o Super-Homem anunciou que o “período de treinamento” dela havia terminado e que o mundo deveria saber de sua presença.

A primeira história de Supermoça foi desenhada por Al Plastino, que foi substituído por Jim Mooney até 1968, quando Kurt Schaffenberger assumiu. As histórias eram fornecidas por Binder, Leo Dorfman, Edmond Hamilton e muitos outros. Ao longo dos anos, a Supermoça também apareceu com frequência em todas as outras revistas derivadas do Super-Homem, inclusive, na Legião dos Super-Heróis. Linda Lee Danvers cresceu e se matriculou na faculdade.

Em junho de 1969, a Supermoça começou a aparecer em Adventure Comics (nº 381) e, tempos depois, tomou a revista inteira, abandonando a vaga secundária em Action Comics. Schaffenberger e Winslow Mortimer ilustraram a série até o ano seguinte, quando Mike Sekowsky assumiu edição, argumento e arte da Moça de Aço. Linda Lee Danvers se formou na faculdade por essa época, e, pouco depois, Sekowsky foi substituído por uma série de escritores e artistas, como Bob Oskner, Art Saaf, vince Colleta, John Albano, Steve Skeates e, mais tarde, Sekowsky novamente. Em 1972, a Supermoça deixou a Adventure Comics e apareceu numa revista, Supergirl, começando do número 1 (novembro). A revista durou apenas dez edições, mas, após o cancelamento do seu título próprio, a Supermoça passou a aparecer regularmente na revista The Superman Family.

Como foi visto em Crise nas Infinitas Terras, a heroína morreu lutando contra o Anti-monitor.

Entretanto, há rumores de que Byrne ressuscitou a Moça de Aço…


Mário L. C. Barroso

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11 jul 2002 - 11:55  

Superman – VI

As Origens do Super-Homem – Quinta Parte

Numa tentativa final de atualizar a imagem do Super-Homem, Clark Kent deixa o Planeta Diário. O jornal tinha sido comprado por Morgan Edge, uma mescla de Rupert Murdoch e Don Corleone. Engolido completamente pelo Sistema Galáxia de Telecomunicações de Edge, o venerável Planeta tornou-se apenas uma pequena engrenagem num grande império da mídia, e Kent transformou-se em âncora do SGT. Com o cabelo devidamente tratado, gravatas largas e chamativas, o “novo” Clark parecia distante da criação de Siegel e Shuster. E, para muitos, o conceito de Clark como personalidade televisiva pareceu problemático desde o início. Se, digamos, o Cid Moreira fosse secretamente o Homem de Aço, como ele poderia cobrir um desastre natural ou um sequestro ao vivo e ainda cumprir seu dever heróico? O trabalho de Clark como repórter de jornal dava exatamente a mobilidade de que ele necessitava para, simultaneamente, cobrir histórias chamativas e ainda salvar a pátria como Super-Homem. No entanto, estar diante das câmaras comprometia demais sua tão necessária liberdade.

Durante essa era, por um curtíssimo período, uma lenda dos quadrinhos passou a trabalhar com o Super-Homem. Jack Kirby, assim como Siegel e Shuster, fôra um dos precursores dos quadrinhos de super-heróis e, em quase meio século de carreira, esteve envolvido na criação de uma infinidade de personagens com apelos quase tão duradouros quanto os do Homem de Aço.

Contratado para trabalhar na revitalização do personagem, Kirby preferiu atuar mais perifericamente, indicando o caminho, em vez de comandar sua revista principal. Ele assumiu o título Superman’s Pal: Jimmy Olsen a partir do nº 133, de outubro de 1970, e deixou naquelas páginas a marca de seu impressionante gênio criativo. O resultado foi puro brilhantismo num título anteriormente chinfrim. As histórias em Jimmy Olsen nunca tinham sido mais do que histórias do Super-Homem com outra roupagem, mas, sob a tutela de Kirby, Jimmy conquistou um espaço bem maior.

Kirby ressuscitou a Legião Jovem – equipe criada com Joe Simon na década de quarenta – e, com ela, enviou Jimmy numa frenética jornada pelo mundo da contracultura do início da década de 70. Ali estavam os Cabeludos, um grupo quase tribal de motoqueiros hippies que habitava uma cidade arbórea na Área Selvagem. Ali estava o Projeto, um experimento ultra-secreto que produzia super-criaturas geneticamente alteradas de todas as formas e todos os tamanhos, inclusive o grupo de agentes especiais conhecido como os DNAlienígenas. Ali também estava a Montanha do Julgamento, um colosso motorizado que cruzava velozmente o interior do país numa missão misteriosa e incompreensível. Em páginas de três quadros, Kirby despejava conceitos que um roteirista menos capacitado teria espalhado por três ou quatro revistas.

No título The Forever People, Kirby apresentou ao Super-Homem os Deuses de Nova Gênese. Pela primeira vez, o Homem de Aço encontrava seres que eram iguais ou talvez superiores a ele.

Lamentavelmente, esta torrente de criatividade teve vida curta. O principal interesse de Kirby estava voltado para seu ciclo do Quarto Mundo, os Novos Deuses, o Povo da Eternidade e o Senhor Milagre. Esta tapeçaria de intrincado tecido, retratando um Novo Ragnarok, uma guerra cósmica entre seres de estatura divina, tomava todo o seu tempo. Quando acabou sua participação em Jimmy Olsen, ele havia contribuído para o panorama geral, mas não tinha influenciado os outros títulos o suficiente. O Super-Homem ainda enfrentava sérios problemas.

Foi nessa época que o roteirista Dennis O’Neil apontou o que ele acreditava ser o maior defeito no herói. O Homem de Aço havia se tornado poderoso demais. O’Neil afirmava que era impossível criar histórias empolgantes e dinâmicas com um ser praticamente divino. Ao lado do editor Julius Schwartz e do veterano desenhista Curt Swan, O’Neil iniciou sua reformulação do personagem.

Teria sido difícil selecionar uma equipe melhor. Schwartz já era um dos Grandes Anciões tanto das revistas em quadrinhos quanto da ficção científica. Sua carreira era tão longa quanto a do Super-Homem, e ele já tinha renome por revitalizar personagens conhecidos.

Swan havia começado a desenhar o Super-Homem em meados da década de 50, e seu trabalho estava entre os melhores. Seu estilo limpo e realista era o mais identificado com o Homem de Aço. O’Neil era um roteirista premiado, vindo da surpreendente revitalização do Lanterna Verde e, principalmente, do Batman, com histórias que tinham recuperado muito do conceito original do Cavaleiro das Trevas.

O’Neil tomou uma atitude bem simples: privou o personagem de um terço de seu poder. Isto foi concretizado a partir de janeiro de 1971, na edição Superman 233, com a criação de uma duplicata do Super-Homem. A enigmática criatura recebeu um terço do poder do Homem de Aço e, dessa perda, emergiu um herói mais gerenciável. Para sorte do desenergizado Super-Homem, toda a kryptonita da Terra foi transformada em ferro inofensivo por uma reação em cadeia gerada pelo mesmo acidente que criara a duplicata. Ao fim deste ciclo, a duplicata havia drenado metade dos poderes do Homem de Aço.

Schwartz humanizou um pouco mais Clark Kent, deixando-o de costeletas e usando ternos de outras cores além de azul. Ele também começou a integrar mais o Super-Homem com o universo DC. Em grande parte por causa da “realidade” intrincada e interativa criada pela Marvel Comics, leitores de toda parte exigiam aventuras mais complexas e ambientações mais perenes para os personagens DC. Mort Weisinger havia criado uma continuidade bastante coerente entre os títulos do Super e, agora, Schwartz se dispunha a fazer com que o herói interagisse mais com os outros personagens da editora.

Depois da saída de O’Neil, o Homem de Aço recuperou seus poderes perdidos. Afinal, muitos afirmavam que os dons de qualquer kryptoniano eram infinitos, e dois terços do infinito são… bem… ainda infinito (esta leitura dos poderes do personagem tinha o efeito colateral lamentável de implicar que Krypto e Beppo, o supermacaco eram tão poderosos quanto o Super-Homem, mas, uma vez que nenhum dos dois continuava aparecendo, o problema potencial havia sido habilmente jogado para debaixo do tapete.

No início da década de oitenta, outra reavaliação entrou em andamento. O editor-executivo Dick Giordano e a diretora Jenette Kahn perceberam que toda a linha DC estava irremediavelmente bagunçada. Uma enorme faxina se fazia necessária.

Grandes mudanças foram possibilitadas por uma mega-saga sem precedentes na história: Crise nas Infinitas Terras, um massacre calculado. Os leitores ficaram sem fôlego. E, mais importante ainda, foram preparados para outras mudanças. Era a ocasião perfeita de se fazer outra reformulação no Super-Homem. Na verdade, a mais completa de todas elas. Dick Giordano me procurou e, em íntima colaboração com os editores Mike Carlin e Andrew Helfer, eu estabeleci os parâmetros de um novo Super-Homem.

Ele fez sua estréia nos EUA em 1986 e, para falar a verdade, não era tão “novo” assim. Foi uma aproximação do personagem de Siegel e Shuster. Eliminamos os poderes divinos e sua carreira como Superboy. O planeta Krypton foi reprojetado e redefinido. Jor-El e Lara pareciam diferentes. O casal Kent estava mais jovem quando encontrou o bebê. Os dois disseram ao mundo que o garoto era filho natural, e não tiveram de passar por um elaborado ritual de adoção.

Mais uma vez, como no início, ele chegou à idade adulta sem assumir a identidade de Superboy. Na verdade, uma vez que nesta versão seus superpoderes se desenvolveram lentamente, o jovem Clark não precisou esconder suas capacidades, pois ainda não as tinha. Quando visto pela primeira vez, com a idade de dezoito anos, ele havia se tornado campeão pelo time de futebol americano do Colégio Pequenópolis, para irritação dos outros jogadores. Ao ver a chateação dos colegas de equipe de Clark, Jonathan Kent decidiu contar ao filho a verdadeira história de seu nascimento e deixou bem claro para o rapaz que ele jamais deveria usar suas habilidades extraordinárias para se fazer superior aos outros, mas sempre para ajudar a todos.

Adquirindo humildade por meio das palavras do pai, Clark resolveu assumir a responsabilidade inerente a seus poderes de maneira secreta. Ele não queria que o mundo soubesse que um “anjo da guarda” estava à disposição.

Somente depois de ser forçado a agir abertamente para salvar um ônibus espacial em Metrópolis, Clark Kent voltou a Pequenópolis e, com a ajuda de seus pais, criou a identidade uniformizada de Super-Homem. Só então ele decidiu alterar sua aparência como Clark, assumindo o tradicional penteado para trás e os óculos fundo-de-garrafa.

Numa grande inversão filosófica, Clark tornou-se o verdadeiro personagem, que se fazia passar pelo Homem de Aço, e não o contrário. Mais ainda, ninguém na Terra, exceto Martha e Jonathan Kent, sabia que o Super-Homem tinha dupla identidade. Livre da compulsão exaustiva de fingir que não era Super-Homem, Clark pôde se tornar um personagem mais dinâmico, exibindo orgulhosamente seus troféus de futebol americano, que também serviam para justificar seu físico magnífico.

Lois ficou livre para se tornar a personagem inteligente e segura de si de cinquenta anos antes. Uma vez que ninguém suspeitava que o Super-Homem tinha um alter ego, Lois não precisava mais perder tempo tentando revelar o segredo.

O Planeta Diário voltou a seu local original na história. Perry White foi apresentado como editor-chefe, e não executivo, tornando mais lógico o relacionamento íntimo com seus repórteres.

Talvez a maior de todas as mudanças tenha sido proposta pelo meu colega Marv Wolfman. Ele sugeriu “ajeitar” Lex Luthor. Não mais um cientista maluco, Luthor tornou-se um “super-homem” dos negócios, o mais poderoso de Metrópolis… até a chegada do Homem de Aço. O herói tirou de Luthor sua posição privilegiada. Como o Salieri em Amadeus, reconhecendo o gênio de Mozart, Luthor sabia que, para voltar a ser o Número Um, deveria eliminar seu rival. Porém, diferente de Salieri, Luthor não aceita a idéia de que o Homem de Aço é melhor do que ele e, por isso, está condenado a fracassar sempre.

Desta forma, nosso herói decola rumo ao seu segundo meio-século. Ele passou por situações difíceis nas suas cinco primeiras décadas de vida. Voou mais alto do que qualquer outro personagem, mas também caiu a pontos baixíssimos. Conquistou a glória em histórias empolgantes e mergulhou na tolice e na pretensão. Serviu como um orgulhoso emblema para a nação e foi constrangido pelos excessos dela. Brega, cultuado, clássico.

Ele foi essas coisas e muito mais. Mas, acima de tudo, sempre foi o Super-Homem.

E sempre será.



John Byrne

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9 jul 2002 - 11:43  

Superman – V

As Origens do Super-Homem – Quarta Parte

A veia trágica sempre correu profunda na lenda do Super-Homem. Tendo começado com a morte de bilhões de pessoas, não podia ser de outro jeito. Curiosamente, nesse período de histórias que agora até podemos encarar como mais bobas, a temática trágica foi desenvolvida ainda mais, com repetida ênfase em Krypton e na herança perdida do Super-Homem. O papel do Homem de Aço como um “estranho numa terra estranha” foi introduzido e desenvolvido durante essa época. Não importava o fato de ele ter sido criado como ser humano, com todos os valores judaico-cristãos de nossa sociedade ocidental. Quanto mais o tempo passava, mais nosso herói lamentava a perda de Krypton. Ele fazia juras em seu nome (“Grande Krypton!”) e, em sua Fortaleza da Solidão, construiu um enorme altar em memória de seus pais e de seu planeta.

Então, de repente, surgiu Kandor. Primeira capital do governo mundial de Krypton (substituída por Kryptonópolis, cidade natal do Bebê de Aço), Kandor era uma cidade com cerca de um bilhão de habitantes, reduzida ao tamanho de uma lista telefônica e aprisionada numa garrafa pelo alienígena maligno Brainiac. Anos depois, quando Brainiac chegou à Terra e começou a roubar nossas principais cidades, Super-Homem descobriu esse remanescente de sua herança, completa, com uma população ativa, e dedicou a ela um lugar de honra em sua Fortaleza no Ártico, prometendo aos kandorianos que ele não pouparia esforços a fim de descobrir um meio de restaurá-los a seu tamanho original.

Mais tarde, quando Jimmy Olsen foi agraciado com a realização de três desejos por uma fonte mágica, ele usou um deles para enviar o Homem de Aço ao passado para uma breve visita a Krypton. Para evitar que seu superamigo soubesse o que estava planejando, Jimmy datilografou o seu desejo em vez de falar em voz alta. Sua intenção era que o Super-Homem “encontrasse seus pais”. Mas, ao chegar a Krypton, o herói descobre que Lara está prestes a se casar com outro homem e, numa antecipação a De Volta para o Futuro, ele é obrigado a arquitetar as circunstâncias em que seus pais se conheceram e se casaram. Jimmy, ao que parece, inadvertidamente datilografara “mate” (em inglês, mais ou menos, bancar o cupido) em vez de “meet” (em inglês, encontrar).

No decorrer dos anos, quase todo mundo acabou indo parar em Krypton de uma forma ou de outra. Em World’s Finest Comics, título partilhado por Super-Homem e Batman, a dupla teve algumas aventuras na cidade miniatura de Kandor, muitos anos antes de o Homem de Aço finalmente cumprir sua promessa e devolver a cidade ao tamanho original. Numa dessas aventuras, nosso herói se defendeu contra meia dúzia de capangas de Luthor, mesmo após perder seus poderes no ambiente kryptoniano de Kandor. Um dos criminosos chegou a comentar: “Mesmo sem seus superpoderes, esse cara é um osso duro de roer!”. Os leitores jamais duvidaram disso.

Nessa época, entre os roteiristas do Super-Homem, estavam Edmond Hamilton e Otto Binder. Foi Binder quem acrescentou Supermoça e Brainiac à lenda e elaborou uma das melhores histórias do Superboy nesse período, tão boa que passou a fazer parte do histórico do Homem de Aço adulto.

Criada como uma analogia ao monstro de Frankestein, a primeira criatura a se chamar Bizarro era uma duplicata imperfeita do Menino de Aço, gerada num acidente de laboratório. Um cientista amigo do Superboy estava tentando produzir urânio artificial para uso em medicina nuclear. No entanto, suas tentativas redundaram em fracasso, uma vez que seu “raio duplicador” tinha produzido urânio não-radiativo. Em dado momento, a máquina sofreu um solavanco e o próprio Superboy foi exposto aos raios, resultando no surgimento da versão quase cristalina do jovem herói, dotada de pele branca e traços que pareciam ter sido lapidados, com uma rebelde cabeleira espetada e de cor preta.

Como era típico na época, esta história foi uma adaptação de uma aventura apresentada originalmente nas tiras de jornal do Super-Homem. Muitos roteiros dessas tiras eram aproveitados e apresentados no formato de quadrinhos.

Concomitantemente, a história do Super-Homem continuava a se expandir, tornando seu passado mais complexo. Assim como Lana Lang foi introduzida retroativamente na lenda, o mesmo se deu com outros personagens bastante conhecidos. Em 1960, revelou-se que o maligno Luthor havia sido outrora amigo do Superboy em Pequenópolis. Seu ódio contra o Homem de Aço teve origem naqueles tempos antigos. Seu primeiro nome, Lex, foi revelado nessa história, cerca de vinte anos depois de sua estréia.

Pequenópolis, à medida que se desenvolveu no decorrer dos anos, tornou-se um local muito ativo, graças à fluidez da realidade nos gibis. Em World’s Finest, revelou-se que a dupla Super-Homem & Batman teve sua gênese em Pequenópolis, quando Thomas e Martha Wayne passaram por lá com seu filho, Bruce. Este primeiro encontro ocorreu mais de uma vez, já que as histórias eram contadas e recontadas para tornar ainda mais complexa a lenda. Em uma versão, o jovem Bruce até mesmo trajou uma fantasia que lembrava um morcego, autodenominando-se Raposa Voadora e combatendo, por um breve período, o crime em Pequenópolis.

Os anos 60 foram tempos difíceis para nosso herói. Num período de transformação cultural para a América e o mundo, a filosofia maniqueísta e, alguns diriam, simplista de bem versus mal das histórias do Super-Homem soava ainda mais caduca. Tentativas de abordar a situação do mundo pareciam apenas um esforço para acompanhar os novos tempos e frequentemente erravam feio o alvo. Os gibis sempre seguiram os modismos da sociedade, tentando, na medida do possível, capitalizar os movimentos populares. Mas, para o Super-Homem, os temas abordados se mostraram esforços fracassados de fazer o personagem caber numa forma para a qual ele não fôra feito.

Clark Kent poderia deixar crescer costeletas e Lois Lane poderia se transformar numa mulher negra para explorar o dia-a-dia de Metrópolis. Porém, de alguma forma, era tudo muito difícil de engolir. A Metrópolis do Super-Homem simplesmente não parecia ser um lugar onde pudesse haver guetos ou gente pobre de qualquer cor. Por muito tempo, a cidade havia sido a pedra precisosa mais reluzente no diadema das cidades imaginárias da DC: Nova Iorque sem as pichações, Chicago sem a máquina política corrupta, Los Angeles sem a poluição.

Os elementos do passado trágico do Homem de Aço foram retratados durante os anos sessenta e setenta, mas com um efeito alienante. A paixão por Krypton tornou-se praticamente ofensiva. Cada exclamação de “Grande Krypton!” era um insulto ao mundo que havia sido lar do Super-Homem por quase toda sua vida. Uma espiral decadente teve início e parecia muito improvável que se pudesse fazer alguma coisa para reverter a derrocada final do personagem.

A lenda continuou a crescer com revisionismos retroativos. À medida que o planeta Krypton era deslocado no espaço, avançando para posições cada vez mais distantes da Terra, segundo o critério de uma sucessão de roteiristas e editores, justificativas cada vez mais engenhosas e complexas iam se fazendo necessárias para que o pequeno foguete atravessasse a distância espacial que se interpunha entre Krypton e a Terra. Em 1938, era o suficiente dizer que Jor-L tinha construído um buscapé vitaminado no qual ele havia colocado seu filho e apontado para a Terra. Ninguém se indagava a respeito da distância ou da trajetória. O deslumbramento com o acontecido era tudo o que importava e a cruel ditadura da lógica podia ser posta de lado se uma história tivesse um ritmo suficientemente ligeiro. Podia-se engolir numa boa a visão simplista que Siegel tinha sobre navegação espacial.

Na década de setenta, o foguete foi equipado com um “propulsor estelar”, e a dobra ou fenda espacial que esse estranho motor abriu também foi responsável por um verdadeiro dilúvio de artefatos kryptonianos que acompanhou o pequeno Kal-El até a Terra. Todavia, tantos foram os destroços da explosão que chegaram ao sistema solar que, às vezes, a destruição de Krypton parecia ter sido unidirecional, como que apontada para a Terra. Fazendo o pequeno foguete gerar uma espécie de buraco negro, um redemoinho no espaço, roteiristas mais recentes puderam justificar muito do que havia sido relatado anteriormente.

Em outra revisão, o foguete havia explodido ao chegar à Terra, antes do efeito da radiação solar ter chance de tornar o metal, o plástico e o vidro invulneráveis. Esta explosão foi usada para criar dois pedaços perfeitamente circulares de supervidro para que Clark Kent pudesse usar em seus óculos. Alguém finalmente havia percebido que Clark não teria sido capaz de cortar o vidro com sua unha por mais super que ela fosse. Seria o mesmo que dizer que um homem normal é capaz de cortar vidro comum com sua unha normal.



John Byrne

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7 jul 2002 - 12:31  

Superman – IV

As Origens do Super-Homem – Terceira Parte

A introdução da kryptonita nas histórias do Super-Homem aumentou a importância do principal inimigo do herói: Lex Luthor, o mais louco de todos os cientistas. Luthor rapidamente soube não só da existência deste veneno letal para o Super-Homem, mas também descobriu como sintentizá-lo (em uma história baseada tanto no programa de rádio quanto no segundo seriado cinematográfico, ele consegue enganar o Homem de Aço e fazê-lo reunir todos os elementos necessários para produzir kryptonita artificial).

A atenção sobre Krypton foi transferida para outros elementos ligados ao passado do Super-Homem: kryptonianos vivos! Em uma edição de agosto de 1950, nosso herói confronta-se com três criminosos, lançados em órbita por Jor-El, o que lhes permitiu escapar à destruição do planeta. Jor-El, ao que parece, tinha mais de um foguete guardado em seu laboratório. Ele também estava mais envolvido nos trâmites judiciários kryptonianos do que se poderia esperar de um cientista, ainda que excepcional. À medida que a lenda progredia, podíamos ter a imagem de um Albert Einstein sendo convidado a participar da Suprema Corte.

Por fim, revelou-se que Jor-El era o inventor/descobridor de um aparelho que, com o passar dos anos, seria uma ameaça quase tão grande quanto a kryptonita: o projetor da Zona Fantasma. Esta dimensão espectral era vista pela população de Krypton como um castigo mais benevolente do que o tradicional exílio em órbita. Numa cena significativa, Jor-El era visto prometendo ao criminoso condenado que ele criaria algo mais piedoso do que cem anos em animação suspensa. O leitor pode julgar se a Zona Fantasma era mesmo um bem maior. Projetados nesta dimensão crepuscular, os criminosos tornavam-se espíritos desencarnados, capazes de ver e ouvir tudo que se transpirava em seu mundo natal, mas incapazes de tocar ou fazer contato com qualquer pessoa fora desse limbo.

Tendo descoberto a existência da Zona Fantasma, o Homem de Aço ficou sabendo que muitos dos criminosos internados nela estavam no fim de suas sentenças, e se sentiu naturalmente compelido a libertá-los. No entanto, a maioria não havia aprendido nada com o castigo e, possuindo os poderes do Super-Homem, esses criminosos kryptonianos iniciaram várias investidas maléficas. Inevitavelmente, acabaram voltando para a Zona Fantasma, rosnando de ódio e jurando vingança.

A essa altura, Siegel e Shuster já haviam partido. Eles deixaram de trabalhar com o personagem em 1947, e o controle de criação passou a vários editores, escritores e desenhistas. A primeira destas pessoas a causar impacto considerável na lenda do Super-Homem foi Mort Weisinger, que assumiu o controle das tarefas editoriais depois da Segunda Guerra Mundial. Sob a influência de Weisinger, o nosso herói começou a assumir a forma mais conhecida pelo público de hoje.

Weisinger, segundo consta, tinha o hábito de conversar com as crianças de seu bairro, perguntando o que gostariam de ver acontecer com o personagem cujas aventuras eram, afinal, ainda endereçadas quase que inteiramente a elas. Foi neste período que a proliferação de superpoderes teve início. Seja por sugestão das crianças ou por causa da astuta intuição do que elas gostariam de ver, as histórias desta época se encheram de uma infinidade de personagens com poderes idênticos aos do Homem de Aço. O primeiro a chegar, retroativamente, foi Krypto, o Supercão.

Pelo visto, Jor-El tinha um modelo daquele foguete que lançou seu filho rumo à Terra. E, sendo um pai zeloso e amoroso, ele não desejava arriscar a vida de Kal-El numa nave ainda não testada, e por isso havia lançado antes o cachorro da família rumo ao espaço no protótipo.

Krypto aparece em algumas histórias ao acaso, tanto em Pequenópolis quanto em Metrópolis e até mesmo no espaço sideral, seu território favorito. Sua longevidade sugere que o tempo de vida provável do Super-Homem é extremamente longo, uma vez que nada no texto jamais tinha indicado que os cães kryptonianos tivessem um tempo de vida maior do que seus equivalentes terrestres.

O surgimento de Krypto se fez seguir da aparição de um personagem muito mais significativo nas lendas do Super-Homem, a prima do herói, Kara, conhecida em todo o mundo como Supermoça. Tendo aparecido pela primeira vez em maio de 1959, a Supermoça rapidamente desenvolveu uma origem quase tão complexa quanto a do Super-Homem. Agora, uma cidade inteira tinha sobrevivido à destruição de Krypton, com uma bolha de ar de alguma forma atada ao fragmento lançado ao espaço. Revisões posteriores acrescentaram uma “abóboda climática” que realmente continha o ar.

Entre os residentes de Argo City estavam Zor-El e sua esposa, Alura. Zor-El, como logo ficou claro, era o irmão caçula de Jor-El (ô mundinho pequeno, esse Krypton!). Alguns anos depois da destruição de Krypton, os habitantes de Argo descobriram que o fragmento do planeta no qual estavam viajando através do espaço estava se transformando em anti-kryptonita, através de uma reação estranhamente retardada. Foram feitas tentativas de cobrir o solo com chumbo, para bloquear a radiação mortífera, mas, como Krypton, o povo de Argo percebeu que estava condenado.

Imitando seu ilustre irmão, Zor-El colocou sua filha, uma adolescente, num foguete e a enviou rumo à Terra. Depois de ser encontrada por Super-Homem, ela adotou a identidade de Linda Lee. Supermoça operou em segredo por anos, até seu primo julgar que o treinamento estava completo, e revelou sua existência a um mundo surpreso e empolgado em fevereiro de 1962.



John Byrne

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5 jul 2002 - 11:55  

Superman – III

As Origens do Super-Homem – Segunda Parte

Na Terra, depois de um pouso forçado, o sobrevivente da pequena astronave enviada de Krypton é encontrado por um casal que passava de carro pelo local. Originalmente não identificados, eles mais tarde se tornariam Jonathan e Martha Kent. Seus nomes, também, variaram no início. Em 1942, George Lowther escreveu um romance do Super-Homem, detalhando sua origem com muito do que estava presente nos quadrinhos, e finalmente deu aos pais adotivos os nomes de Sarah e Eben Kent (com estes nomes eles ficariam conhecidos no seriado de cinema Superman de 1948 e no episódio-piloto do seriado televisivo The Adventures of Superman). O romance de Lowther também foi o primeiro a revelar o sobrenome kryptoniano do Super-Homem por inteiro, soletrando “EL” em vez de “L”, além de alterar o nome da mãe do herói de “Lora” para “Lara”.

Na versão em quadrinhos de 1938, os Kent, ainda sem nome, eram um casal idoso, sem filhos, que levava a criança perdida a um orfanato próximo, voltando depois para adotar o bebê. Numa redefinição, foi revelado que esse retorno era a intenção dos Kent desde o começo. Quando o casal voltou, os funcionários do orfanato ficaram mais do que felizes com a partida do bebê. Já possuindo os fabulosos poderes de um nativo de Krypton, a criança tinha quase demolido o orfanato.

Batizado de Clark Kent, o menino cresceu e tornou-se adulto antes de vestir o conhecido uniforme vermelho, azul e amarelo. Há versões conflitantes de como Clark recebeu esse nome. Nas próprias histórias, foi revelado que era o nome de solteira de sua mãe adotiva. No entanto, ninguém sabe o que Siegel e Shuster tinham em mente ao tomar tal decisão. Uma versão conta que a escolha do nome foi inspirada nos atores Clark Gable e Kent Taylor. Outra versão diz que foi uma homenagem às antigas revistas pulp que tinham alimentado a imaginação dos criadores do Super-Homem: Doc Savage, o heróico “Home de Bronze”, chamava-se Clark Savage Jr. e seu criador foi o autor Lester Dent.

O jovem Clark teve o cuidado de manter seus poderes em segredo. Na primeira edição de Superman, papai Kent o alerta: “Agora preste muita atenção no que vou dizer, Clark! Essa sua enorme força… bem, você tem de escondê-la das pessoas ou elas vão ficar com medo de você!”. Mamãe Kent era menos catastrófica e dizia: “Quando chegar a hora, você deve usar esse poder para ajudar a humanidade”.

Estabelecendo-se em Metrópolis, Clark arrumou emprega no Planeta Diário e assim conheceu o membro mais antigo do elenco de coadjuvantes, Lois Lane. Lois é a única personagem além do Super-Homem que esteve presente desde o começo. Ela entrou na vida de Clark Kent em Action Comics # 1, já como uma ousada repórter do Estrela Diária de Metrópolis (mais tarde, rebatizado de Planeta). Os outros membros mais conhecidos do elenco, Jimmy Olsen e Perry White, vieram depois, ambos gerados nas aventuras do Super-Homem no rádio.

Desenvolvimentos posteriores do personagem acrescentaram Superboy à lenda (em 1945), revelando que não fora como adulto que Clark demonstrara ao mundo suas habilidades kryptonianas, mas ainda jovem em Pequenópolis. Nas revistas Superboy e Adventure Comics, revelou-se a maior parte do que conhecemos sobre os bondosos Kent. Começando como fazendeiro, Jonathan Kent mais tarde compraria uma loja de mantimentos gerais em Pequenópolis. Nesse ambiente aconchegante, Clark viveria muitas aventuras (devido às curiosas confusões de continuidade que afligiram a DC Comics no passado, passaram-se muitos anos até que a existência de Superboy fosse reconhecida dentro dos títulos do Super-Homem).

Em Pequenópolis, nós também conhecemos Lana Lang, uma ruiva muito animada e, por um tempo, namorada do Superboy. Lana ocupou um papel em sua infância e adolescência semelhante ao que seria assumido anos depois por Lois. As narrativas do Superboy tornaram-se tão complexas quanto as do Super-Homem nos trinta e poucos anos de sua publicação. Ninguém parecia se incomodar com as contradições do aparecimento do Superboy como um elemento de peso no passado do Super-Homem. Talvez os leitores fossem menos chatos a respeito da continuidade naqueles dias. É bem provável que simplesmente acolhessem de braços abertos qualquer coisa que lhes apresentasse uma possibilidade de novas aventuras de seu herói favorito.

Das histórias do Superboy, vieram mais detalhes sobre a vida passada de Kal-El em Krypton. Usando a supermemória, o jovem Clark era capaz de relembrar muito dos acontecimentos do dia-a-dia em seu mundo de origem. Mais do que se poderia esperar de um recém-nascido. E, à medida que a crônica do herói progredia, a idade em que o Super-Homem havia deixado Krypton também avançava. Mencionava-se que Kal-El já era uma criança que balbuciava as primeiras palavras, com consciência plena de tudo o que acontecia a seu redor, quando partiu de Krypton. Novamente, as contradições eram ignoradas com muito prazer pelos leitores. Enquanto as histórias fossem empolgantes, ninguém dava muita bola para os detalhes.

A textura mudava, os detalhes se alteravam, até mesmo as personalidades se modificavam. Mas o Homem de Aço permanecia mais ou menos o mesmo, uma rocha ao redor da qual todas as outras coisas orbitavam.

Aos poucos, os próprios kryptonianos sofreram alterações, tornando-se cada vez mais parecidos conosco. Revelou-se que Krypton era um planeta gigantesco, talvez do tamanho de Júpiter, e a força do Super-Homem foi explicada com base nisso, uma vez que os músculos evoluídos para dar conta da esmagadora gravidade de Krypton tornavam-se superpoderosos na Terra.

Daí também se explicaria a origem da capacidade de voar própria do Super-Homem. A gravidade da Terra simplesmente não era suficiente para contê-lo. Sua invulnerabilidade era outro vestígio de seu planeta natal. Todos os kryptonianos, ao que parece, tinham estruturas moleculares superdensas.

Essa safra de alterações na lenda chamou mais atenção para o planeta Krypton em si. Esse mundo fora pouco mencionado durante a primeira década da vida do Super, mas acabaria se tornando uma engrenagem vital no maquinário que compõe o personagem. O interesse alcançou seu momento mais significativo em 1949, quando o Super-Homem, pela primeira vez, encontrou um fragmento reluzente de seu planeta. Colorida de vermelho na estréia nos quadrinhos, a kryptonita, na verdade, tinha sido gerada na série de rádio do Super-Homem e passaria a ser a partir de então a mais perigosa ameaça à existência do herói. A letal kryptonita assumiu a tonalidade verde numa segunda aparição. Mais tarde, uma versão vermelha foi mostrada aos leitores, mas seus efeitos sobre o Super-Homem eram profundamente diferentes. Como veremos.



John Byrne

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3 jul 2002 - 11:21  

Superman – II

As Origens do Super-Homem – Primeira Parte

Como convém a um personagem cujas proezas rapidamente assumiram o aspecto de lenda, os primórdios do Super-Homem foram ao mesmo tempo humildes e cataclísmicos.

Cataclísmicos pois ele nasceu da morte de um mundo. Arremessado num frio e ameaçador Universo, um bebê órfão tornou-se a criatura mais solitária de todos os tempos. Viajando no ventre metálico de uma pequena espaçonave, o inocente deixou atrás de si um planeta moribundo que explodiu em bilhões de fragmentos verdes, meteoritos radiantes que se espalharam por todo o universo. Radiativos. Letais. À sua espera.

Humildes porque essa detonação, capaz de destruir um planeta foi gerada na mente de dois adolescentes, criados no coração dos EUA com revistas pulp de ficção científica e sonhos de um mundo além de Ohio. Seus nomes: Jerry Siegel e Joe Shuster, respectivamente roteirista e artista. Da imaginação deles, nasceu um personagem de apelo incomparável, que tocou no ponto certo da psiquê americana. Um herói chamado Super-Homem.

Era a década de 30. O momento exato da concepção do Homem de Aço é objeto de conjecturas, mas, com certeza, não foi posterior a 1934. Jerry Siegel usou o nome de Super-Homem pela primeira vez em 1933, num conto que escreveu para seu fancine (revista amadora produzida por fãs) Science Fiction. A história se chamava O Reino do Super-Homem, e tinha pouco a ver com o personagem que nós conhecemos hoje. Era a aventura de um homem que havia ganhado fantásticos poderes mentais e feito um péssimo uso deles. O ilustrador do conto: Joe Shuster.

Mais cinco anos se passaram até o público conhecer o nome aplicado ao maior de todos os aventureiros uniformizados. Antes disso, porém, Siegel e Shuster tentaram, sem sucesso, fazer muitos editores se interessarem por sua criação. Originalmente projetado para estrelar tiras de jornais, o Homem de Aço foi apresentado, a princípio, aos syndicates (associações que representam quadrinistas e vendem seus trabalhos para diversos jornais do mundo inteiro, quase sempre em forma de tiras). A reação foi estrondosamente negativa e, após muitas rejeições, os dois procuraram editoras no Canadá, onde Joe Shuster tinha parentes. Ele costumava passar férias nos arredores de Toronto (na verdade, o primeiro trabalho do Super-Homem original foi como repórter do Daily Star, inspirado no Toronto Star). O consenso geral? O personagem não teria “apelo duradouro”.

Enquanto não obtinham aprovação, Siegel e Shuster se viravam como podiam. Como o herói kryptoniano continuava engavetado, a dupla produzia outros trabalhos. Suas carreiras, na verdade, começaram quase que simultaneamente com os primórdios do ramo – em grande parte na DC Comics.

Armados de um currículo de sucesso, eles finalmente venderam o Super-Homem, que foi adaptado para o formato de revista em quadrinhos e apresentado a Harry Donenfeld, presidente da DC Comics. Donenfeld autorizou a publicação. Sheldon Mayer foi o editor do lançamento. E, como se costuma dizer, assim nasceu uma lenda.

O herói estreou na edição número um de Action Comics, com data de capa de junho de 1938. Os Estados Unidos, abatidos pela depressão econômica e temerosos com a guerra, vislumbraram, pela primeira vez, o personagem que se tornaria um ícone americano. Capa de edição número um de Action Comics, o Super-Homem passaria a abrilhantar todas as capas da revista a partir da edição 19, na época em que já tinha, inclusive, seu próprio título, Superman. No auge de sua popularidade, ele estrelaria mais um punhado de títulos, como Superboy, Adventure Comics, World’s Finest Comics e Justice League of America, entre outros.

A primeira aventura do Super-Homem era bastante simples, com elementos que o escritor Siegel havia desenvolvido em histórias anteriores. A trama: nos confins do espaço, havia um grande planeta chamado Krypton. Em suas primeiras versões, pertencia ao nosso sistema solar. Siegel e Shuster devem ter se inspirado nas teorias da época, que afirmavam que o cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter era remanescente de um terrível cataclismo. Os astrônomos e astrofísicos da década de 70 provaram o contrário: a força gravitacional de Júpiter, oscilando de forma irregular, jamais deu chance para que um décimo planeta se formasse naquela região. mas, na década de 30, a ficção científica estava cheia de narrativas sobre um mundo há muito desaparecido.

Krypton era o lugar ideal, muito mais avançado do que a Terra de 1938. Os kryptonianos haviam atingido a perfeição física e mental. Uma raça de super-homens. Todavia, uma população condenada. Em nossa primeira visão de Krypton, tremores na crosta planetária abalavam as poderosas torres de suas cidades. Jorros de lava eram liberados através do manto que se fragmentava. O céu escurecia. Os kryptonianos estavam apavorados, pois o mundo que haviam conquistado tinha se voltado contra eles, e não sabiam porquê. Apenas um homem conhecia a verdade. Ele era Jor-L, um brilhante cientista que tinha percebido qual seria o destino do planeta. As pressões crescentes dentro do núcleo em breve destroçariam tudo.

O nome Jor-L já havia aparecido em outra das histórias de Siegel, redigida após a concepção do Super-Homem, mas publicada antes da estréia do personagem.

Saltando através da cidade, com pulos que cobriam várias quadras, Jor-L correu para casa, onde encontrou à sua espera a bela esposa Lora, e seu filho: um bebê recém-nascido que viria a se tornar o Homem de Aço. Somente em 1957, o leitor descobriria seu verdadeiro nome. A essa altura, a nomenclatura de seu pai havia mudado ligeiramente para Jor-El, e o Super-Homem seria Kal-El, que significava Filho das Estrelas em kryptonês.

Temendo a completa destruição de seu mundo, Jor-L concebeu um estratagema para salvar seu filho. Antecipando o destino que aproximava para sua raça, ele já havia construído um pequeno protótipo de uma frota de foguetes que salvaria toda a população. Os kryptonianos, porém, tinha rejeitado o plano, pois não acreditavam nas previsões apocalípticas. O pequeno modelo, inteiramente funcional, era tudo o que fora concluído. Jor-L colocou seu filho na pequena nave com o consentimento de Lora, e o pequeno Kal partiu rumo a um longíquo planeta chamado Terra, enquanto uma onda de terremotos destruía Krypton.



John Byrne

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1 jul 2002 - 15:39  

Superman – I


O Reinado do Super-Homem

Como a idéia de dois adolescentes, mais de meio século atrás, se tornou o modelo de herói moderno e continua sendo um sucesso nos quadrinhos

Após 58 anos, ele ainda consegue voar sobre a cidade de Metrópolis, decidido a resgatar a verdade, a justiça e o modo de vida americano. Salvando o mundo ou simplesmente ajudando uma menina a recuperar o seu gatinho, o mito Super-Homem deixou de ser apenas um personagem de histórias em quadrinhos para ser visto como um ícone cultural do século XX. Invejado por uns, criticado por muitos, imitado por todos, o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster é um marco divisor no mercado de quadrinhos. Ele é o protótipo do homem perfeito, o objetivo a ser alcançado.

É bem conhecida a lenda de como Siegel e Shuster criaram o Super-Homem, e a grande batalha que travaram para sua publicação. Mas muita gente desconhece que nosso “Homem de Aço” nasceu como o mais temido vilão, um tirano que usava a sua força destruidora para subjugar os mais fracos. Depois, passando para o lado dos mocinhos, seus poderes foram ampliados, até ele atingir o status de semideus e perder a perspectiva do homem comum.

Nascimento

Os gregos foram os primeiros a buscar a perfeição, fosse ela física ou intelectual. Seus heróis e lendas eram mistos de ideais perfeitos e atitudes muito longe disso. Héracles (depois chamado de Hércules pelos romanos) inaugurou a categoria dos semideuses, poderosos e fortes, mas também infectados pelas fraquezas humanas. Beberrão e mulherengo, o filho do todo-poderoso Zeus com uma mortal matou duas serpentes com as mãos ainda quando criança. Caçador de primeira, o adolescente Héracles tinha 2 metros e meio de altura e um físico invejável. Os famosos 12 trabalhos provaram seu poder frente aos admiradores mortais, mas também marcaram sua tragédia pessoal: sob um encantamento de Hera, mulher de Zeus, ele matou seus filhos com Mêgara, filha do rei Creonte de Tebas. Como punição, Héracles teve de cumprir as 12 tarefas para, só então, subir ao Olimpo, a morada dos deuses.

Muitos séculos depois, na Idade Média, os heróis se tornaram cavaleiros armados de espadas e lanças. Vestidos de armaduras pesadas, eles combatiam dragões, salvavam princesas e enfrentaram até o demônio para recuperarem cálices sagrados. Mas, tirando nosso hercúleo semideus, todos estes heróis antigos eram homens comuns lutando contra seus limites. O século XX necessitava de algo mais, de alguém diferente, alguém… super!

Siegel e Shuster eram fãs de histórias de ficção científica e, quando se conheceram aos 16 anos, começaram a criar histórias no jornal da escola e num fanzine mimeografado chamado Science Fiction. Foi neste folhetim, em janeiro de 1933, que nasceu o Super-Homem. O nome do personagem foi copiado de um anúncio da revista pulp Doc Savage. Ele era um tirano do futuro, calvo e de olhar aterrador, que tinha poderes mentais sobre-humanos. Siegel e Shuster criaram um mundo do amanhã com o mesmo olhar pessimista que hoje também se vislumbra nos dias que virão. A crise de 1929, que enfiara os Estados Unidos numa grande depressão econômica, gerou uma série de previsões pessimistas. Em 1932, Aldous Huxley idealiza seu Admirável Mundo Novo, onde os seres humanos renegam sua humanidade. No ano seguinte, Adolf Hitler se torna o chanceler alemão, e planta a idéia da raça perfeita de super-homens, a raça ariana. Talvez por este motivo, os dois jovens judeus resolveram transformar seu novo personagem num mocinho.

A febre das revistas em quadrinhos começou em 1933 e os dois aprendizes de quadrinhistas são capturados imediatamente. Decidiram, então, fazer uma história completa só com o personagem, ainda sem o uniforme, mas com cabelo. Levaram sua obra para um editor que não quis publicá-lo. No ano seguinte, numa noite calma, Siegel concebeu a versão final do seu personagem. Em apenas algumas horas escreveu material para sete semanas de tiras de jornal. Pela manhã já estava ao lado de Shuster, que desenhou furiosamente a nova história. Em vinte e quatro horas, o mito estava criado. Em formato de tiras de jornal ou de revista, Siegel e Shuster durante quatro anos bateram em várias portas tentando vender a sua idéia. Editoras e syndicates (empresas que gerenciam a venda de tiras para os jornais) recusavam o projeto. Apenas a National Periodical (hoje DC Comics) resolveu apostar nos dois jovens e seu Super-Homem. Compraram os direitos de publicação por apenas 130 dólares. E o resto é história.

Os anos seguintes

Depois que surge uma boa idéia, várias outras seguem o mesmo caminho. Com o Super-Homem não foi diferente. Homens com capas e superpoderes começaram a surgir numa explosão sem precedentes. De um momento para o outro, a Terra tinha mais salvadores do que problemas. Cada cidade do continente americano possuía um “super-alguma-coisa” disposto a defender a moral e os bons costumes. Nem mesmo décadas de confrontos com supervilões, guerras, morte, ressurreições, marketing, clones, nada conseguiu abalar a credibilidade e a popularidade dos super-heróis. Crianças, jovens e adultos continuam a acompanhar suas histórias, sejam elas engraçadas, sombrias, ou humanitárias, como quando Super-Homem e Batman juntos lutaram contra a fome.

O final dos anos 80 e início dos anos 90 marcaram a humanização dos super-heróis. Autores consagrados procuraram resgatar a humanidade perdida dos seres mais poderosos do planeta, tentando destruir a imagem de que estes personagens poderiam, se quisessem, mudar o curso da história. Mais e mais superseres passaram a ter uma visão mundana e mais preocupada com a realidade. E esta avalanche que tentou mudar a história em quadrinhos também teve como astro inaugural o primeiro dos novos deuses: Super-Homem. Após décadas de poderes ilimitados, John Byrne, em junho de 1986, transforma o Homem de Aço num Homem Terreno: ele não podia mais viajar no tempo, viver no espaço e nem mais ser eterno.

Kurt Busiek renovou o Universo Marvel em 1993 com a minissérie Marvels (publicada no Brasil em 1995 pela Editora Abril Jovem). Num mundo em que imperam os super-heróis, Busiek procurou o ponto de vista do cidadão comum: um repórter. Este símbolo do contador de histórias do mundo moderno serve de identificação com o leitor. O destaque da minissérie não está nos super-heróis, mas sim no ponto de vista do repórter sobre um mundo onde existem super-homens capazes de fazer tudo o que as pessoas comuns apenas sonham.

No ano passado, Busiek criou uma cidade cheia de super-heróis: Astro City. Nela, tudo se passa num clima de anos 50, os anos de ouro do consumismo americano, dos carrões passeando sem se preocupar com crise de combustível, e de homens e mulheres de chapéu. E é nesta cidade que seus super-homens e super-mulheres vivem as angústias do dia-a-dia. Samaritan, o herói mais parecido com o Super-Homem original, vive o seu dia dividido entre seu emprego como revisor de uma grande editora e sua obrigação de salvar o mundo inteiro. Sua prioridade é salvar pessoas e evitar catástrofes. Inclusive, ele se recrimina quando perde muito tempo salvando um gatinho de uma árvore e quase não consegue salvar uma pessoa. Os super-heróis de Busiek na série Astro City aparentemente não têm a perspectiva do homem comum. Mas nos sonhos, Samaritan pode voar. Ora, como todo superser que se preze, ele vive voando e salvando o mundo. Mas o que ele quer é voar, só isso, num sonho que qualquer pessoa comum tem. Apenas voar.

Vigilantes

Talvez o exemplo mais concreto de um super-herói que perdeu a perspectiva de sua humanidade seja o Dr. Manhattan. Criado por Alan Moore e David Gibbons na minissérie Watchmen, o Dr. Manhattan é um ser onipresente e onisciente, resultado de uma experiência nuclear que acabou em tragédia. O físico Jon Osterman sem querer entra em um compartimento usado para testes radioativos e tem seu corpo destruído. Todos acreditam que esteja morto, mas ele apenas se transformou, sendo capaz de rearranjar os átomos à sua vontade e ver além da superfície: o Dr. Manhattan consegue enxergar átomos, moléculas e partículas e ver o passado, o presente e o futuro… ao mesmo tempo!

Por causa desse seu ponto de vista totalmente inédito, Manhattan perdeu completamente sua humanidade, tornado-se cético e distante, deixando de se preocupar com assuntos mundanos. Para ele, a composição molecular de uma pessoa viva é tão parecida que não se consegue distinguir uma da outra. Ao ultrapassar a linha entre o “normal” e o “super”, Manhattan perdeu também a capacidade de compreender sentimentos básicos, como o amor.

Mas nem tudo está perdido para o Dr. Manhattan. Ao descobrir que sua namorada é filha do Comediante, por quem a mãe dela sentia verdadeiro nojo, notou que às vezes a improbabilidade pode se transformar em realidade. Para ele, que podia passear pelo espaço-tempo sem esforço, aquele fato abriu seus olhos para uma característica do ser humano, algo que dá sentido à vida: o improvável, o imprevisível. Tão imprevisível como a morte.

Em 1992, Joe Shuster morreu, cego de um olho, sem poder desenhar mais o seu personagem, que passou a pertencer à DC Comics. Em janeiro deste ano, foi a vez de Jerry Siegel. Em um anúncio publicado em suas revistas, a DC faz o seu mea culpa. O texto do anúncio diz: “Ele olhou para o céu. Ele atreveu-se a sonhar. Ele nos deu um ícone. E nos ensinou a voar”. O Super-Homem que os rapazes Siegel e Shuster criaram continua a voar pelos céus de Metrópolis, perseguindo o ideal de ser perfeito num mundo cheio de injustiças e que, agora, ficou mais triste.


Sérgio Miranda

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21 jun 2002 - 7:35  

Os fantásticos mundos de Robert E. Howard – XI

A História por trás da História

Vou confessar: esta é uma história que há mais de uma década eu vinha tendo vontade de fazer.

Durante meu primeiro período como escritor das histórias do Conan na Marvel, de 1970 a 1981, concebi a idéia de combinar Conan e seu criador, Robert E. Howard, numa única história. Desde então, de tempos em tempos, eu costumava imaginar um roteiro.

Num certo sentido, eu e Barry Smith escrevemos uma história para a Marvel que pode ser considerada a predecessora de “Bárbaros da Fronteira”. A história, de sete páginas – publicada na revista CHAMBER OF DARKNESS nº 4 no início de 70 -, foi chamada, apropriadamente, de “The Sword and the Sorcerer”, (A Espada e o Feiticeiro) e falava de um guerreiro semelhante a Conan, chamado Starr – the Slayer, que se aventurava no século XX para executar seu criador, um escritor de fantasia que planejava “matar” o seu personagem em sua próxima história.

Mesmo assim, com o passar dos anos, minha vontade de fazer uma aventura com Howard e Conan continuou aumentando, e prometi a mim mesmo que, tão logo tivéssemos terminado de adaptar todas as histórias de Howard/De Camp/Carter na SAVAGE SWORD (Espada Selvagem), eu faria isso.

Porém, uma vez chegada a ocasião, acabei não fazendo isso. E, em retrospecto, estou contente por não ter feito.

Isso porque, na década de 80, a criação de Conan por Howard foi colocada numa perspectiva mais ampla por livros como Dark Valley Destiny (biografia de Robert E. Howard escrita por De Camp/Griffin e publicada em 1983), One Who Walked Alone (de 1985; as memórias de Howard escritas por Novalyne Price Ellis, que o conheceu nos últimos anos de sua breve vida) e Post Oaks and Sand Roughs (de 1990; uma autobiografia ligeiramente romanceada que Howard escreveu em 1928 e que antecede a concepção de Conan em vários anos).

A principal fonte de inspiração para “Bárbaros da Fronteira”, porém, foi um punhado de cartas que o próprio Robert Ervin Howard escreveu a diversos correspondentes (inclusive os escritores de histórias de horror H. P. Lovecraft e Clark Ashton Smith) a respeito da gênese do Cimério. Essas e outras cartas do escritor foram reunidas, compiladas e publicadas geralmente sob os auspícios de Glenn Lord, cuja bibliografia, The Last Celt, também teve influência nesta história.

A idéia era combinar uma história de Conan com a sua criação, em 1932, por Robert E. Howard – e, como um terceiro elemento, uma “aventura” acontecendo com o próprio Howard, que iria se descobrir, no final, ser uma fantasia, tanto quanto o próprio Conan. Na verdade, se, no final da história, você não souber ao certo qual dos dois – Howard ou Conan – é o mais literalmente “real”, isso também está ótimo.

Mas, como muitos leitores podem estar interessados, achamos que devíamos esclarecer precisamente que partes do episódio com Howard em “Bárbaros da Fronteira” são baseadas no que ele afirmou ter realmente acontecido e que partes são pura invenção. Portanto, aqui vai…

No início de 1932, Howard, que completara 26 anos em 22 de janeiro, estava já há vários anos vendendo histórias para as revistas pulp da época (revistas de capa mole e papel barato que reuniam contos diversos, às vezes acompanhados de algumas ilustrações). O Rei Kull, Salomão Kane, El Borak, Bran Mak Morn e outros heróis, modernos e históricos (e, no caso de Kull, pseudo-histórico), já haviam fluído de sua máquina de escrever na pequena cidade de Cross Plains, Texas, ao lado da rodovia para Abilene. Entre suas principais influências – alguns nomes ainda lembrados até hoje, outros quase esquecidos – estavam Edgar Rice Burroughs, H. P. Lovecraft, Talbot Mundy, Harold Lamb, Robert W. Chambers e H. Rider Haggard.

Porém, no inicio de 1932, como o próprio Howard escreveria depois, “eu estava absolutamente vazio de idéias, completamente incapaz de criar alguma coisa vendável”. Após ter decidido, em fevereiro, que precisava de umas férias longe da sua cidade, o escritor fez uma viagem de ônibus ao sul, para San Antonio e o Vale do Rio Grande, chegando inclusive à cidade fronteiriça de Rio Grande, a meio caminho entre Laredo e a cidade costeira de Brownsville.

Howard considerou San Antonio “sem dúvida, a cidade mais interessante e pitoresca do Texas, possivelmente de todo o sudoeste”. Ali, como escreveu depois, “conheci por alto um indiano que havia passado a maior parte de sua vida na China”.

Ele não revelou o nome do homem em suas cartas, nem (ao contrário da nossa história) mencionou que ele estivesse no ônibus que partiu de San Antonio em direção ao sul. Nós inventamos isso!

Howard era dado a inventar histórias, tanto pessoalmente quanto em suas cartas. Mas, neste caso, provavelmente estava contando a verdade quando disse que o homem relatou a ele muitas “torturas do Oriente” e como havia visto “centenas de comunistas chineses decapitados nas ruas”. Howard escreveu a Lovecraft: que “só de imaginar tal evento fiquei nauseado”.

Em sua viagem, Howard desceu o Vale do Rio Grande até a cidade de Rio Grande, na fronteira mexicana (o rio em si faz fronteira entre os EUA e o México).

No livro Dark Valley Destiny, os autores contam que, em algum lugar no caminho, provavelmente na cidade de Rio Grande, Howard “substituiu seu boné de pano habitual por um enorme sombrero preto mexicano”, que era pelo menos um número grande demais. Um conhecido de Cross Plains, entrevistado anos depois, relatou: “Deus, aquela coisa engolia ele!”.

Foi enquanto Howard estava apreciando tortillas e vinho espanhol que… bem, vamos deixá-lo contar em suas próprias palavras: “Conan simplesmente surgiu em minha mente alguns anos atrás, quando eu estava fazendo uma parada numa pequena cidade fronteiriça na parte baixa do Rio Grande. Eu não o criei por nenhum processo consciente. Ele simplesmente surgiu do nada, totalmente desenvolvido, e me pôs para trabalhar registrando suas aventuras”.

Ao retornar à casa de seus pais em Cross Plains, Howard logo criou uma biografia geral, e até o rascunho de um mapa do mundo imaginário de seu novo herói, antes de começar a escrever a primeira história a seu respeito. Assim nasceu “A Era Hiboriana”, o ensaio que formou o substrato pseudo-histórico de toda a saga de Conan.

Desde o início, Howard de alguma forma sentiu que Conan era mais “real” para ele do que seus heróis anteriores. Como escreveu depois: “Pode soar fantástico ligar o termo ‘realismo’ a Conan, mas na verdade – deixando de lado suas aventuras sobrenaturais – ele é o personagem mais verossímil que já elaborei. É simplesmente uma combinação de diversos homens que conheci, e acho que é por isso que ele parece ter surgido totalmente desenvolvido na minha consciência quando escrevi o primeiro conto da série. Algum mecanismo do meu subconsciente apreendeu características dominantes de diversos lutadores, jogadores, pistoleiros, contrabandistas, valentões de campos de petróleo e trabahadores honestos com quem eu havia entrado em contato e, combinando todas essas características, surgiu o amálgama que chamo de Conan, o Cimério”.

Howard também relatou: durante semanas não fiz nada exceto escrever as aventuras de Conan. O personagem tomou minha mente e expulsou tudo o que pudesse me impedir de contar suas histórias. Quando, deliberadamente, tentei escrever outra coisa, não consegui.

O mapa que Howard desenhou ajudou-o a manter sua geografia da Era Hiboriana em ordem – pelo menos “dos países a oeste de Vilayet e ao norte de Kush”.

Embora a primeira história de Conan a ser vendida para Weird Tales (“The Phoenix on the Sword”) apresente seu herói já como rei, Howard começou logo a saltar aleatoriamente pela vida que havia mapeado mentalmente para seu novo personagem. Afinal, como Howard afirmou: “Um aventureiro normal contando ao acaso histórias de uma vida movimentada raramente segue um plano ordenado, mas, sim, narra episódios largamente separados no tempo e no espaço à medida que vai se lembrando”.

Na verdade, “The Phoenix on the Sword” foi uma versão meticulosamente reescrita de “By This Axe I Rule”, uma história rejeitada do Rei Kull. Mas Howard deu continuidade à saga quase imediatamente, com outras histórias de Conan totalmente novas, inclusive “The Frost Giant’s Daughter”, “The God in the Bowl” e “The Vale of Lost Women” – e todas as três foram rejeitadas na época pelo editor da Weird Tales e só foram publicadas anos depois da morte do escritor!

Contudo, dezessete histórias de Conan foram vendidas e publicadas entre 1932 e 1936, enquanto oito outras – não vendidas ou até inacabadas – foram deixadas para De Camp, Lord e outros descobrirem quase uma geração depois.

Quanto à questão de Robert E. Howard ter ou não fantasiado uma aventura consigo mesmo… bem, temos a palavra de pessoas que o conheceram e afirmam que ele frequentemente parecia imaginar inimigos de tocaia atrás de cada esquina. Uma vez, conduzindo um visitante, Howard parou subitamente o carro, pegou sua arma e saltou fora para inspecionar um rochedo à sua frente – explicando depois que queria ter certeza de que nenhum inimigo seu estava se escondendo atrás da pedra esperando para emboscá-los. Ele provavelmente estava apenas brincando com o amigo. Ainda assim, como August Derleth, escritor e correspondente de Howard declarou, “ele vivia num mundo que era pelo menos quase de faz-de-conta”.

Sem dúvida, a viagem de Howard para o sul do Texas, mesmo considerando o encontro pitoresco com aquele indiano, foi relativamente desprovida de acontecimentos, se não levarmos em conta a aventura interior que foi a criação de Conan. Mas Howard poderia não tê-la visto dessa maneira.

Além dos fatos objetivos da criação de Conan numa cidade fronteiriça em fevereiro de 1932, foi um trecho de uma carta escrita por Howard em 1931 que plantou em mim a idéia da história desta edição. Escrevendo a um amigo, Howard opinou que “nove vezes em dez uma arma não vai servir para nada no caso de uma encrenca. No caso de um assalto, normalmente o outro sujeito terá a vantagem da surpresa. Mas sempre existe uma chance da arma poder ser útil”.

Ele continuou: “Certa vez, à meia-noite, numa cidadezinha na divisa de Oklahoma, eu teria dado um dente por um trabuco de algum tipo”.

Essa frase ficou na minha cabeça por todos esses anos, desde que a vi pela primeira vez, impressa nas páginas de The Howard Collector, uma publicação especializada editada por Lord.

Se ele suspeitava de perigo na divisa entre o Texas e Oklahoma, raciocinei, por que não sentiria o mesmo na atmosfera muito mais hostil de uma cidade na fronteira mexicana?

Assim nasceu “Bárbaros da Fronteira”, e deixo aqui meus agradecimentos a Mike Rockwitz, à Marvel e aos artistas John Buscema e Ernie Chan por me darem a chance de finalmente ver esse trabalho realizado após todos esses anos.


Roy Thomas

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