Atleta urbano


E quem sabe o que verdadeiramente se passa dentro do coração humano?
A SOMBRA sabe…

E então, aproveitando que estou de férias mesmo, nada como procurar manter mens sana in corpore sano… Não, não é nada disso que vocês estão pensando, ô cambada de pecadores! Isso é latim, tá bom? Quer dizer “mente sã em corpo são”. Simples assim. E já que minha mente é um espetáculo (vejam bem, eu disse “mente”, não “memória” – pois nesse último quesito até mesmo pombos se saem melhor que eu…), então, pela milésima, quadricentésima, sexagésima nona vez, resolvi voltar a correr.

Acordaria cedinho no dia seguinte, no horário de praxe – cinco da matina – e antes mesmo de levar os filhotes pra escola – que entram às sete – eu faria uma boa série de alongamentos e já encararia uns bons quilômetros de alazônico galope!

Só que daí, já que estou de férias mesmo, com todas aqueles episódios não assistidos das séries que costumo acompanhar, bem, aproveitei pra me colocar em dia – sabem como é, né? Ou seja, fui dormir mais de uma da manhã…

Bem, não importa. Tenho confiança no meu infalível relógio biológico!

Que, lógico, falhou.

E assim, no dia seguinte, lá do ninho aconchegante que se tornou minha cama, resolvi dar uma lânguida e preguiçosa olhada no celular para ver quanto tempo ainda faltava para ele começar a despertar…

E já era umas seizivinti!!!

Passado o inicial choque elétrico que percorreu meu corpo e depois de, na sequência, praticamente jogar a Dona Patroa cama afora (eu sei que um dia ainda vou ter que pagar por isso…), corri pra acordar a criançada, fazer café, colocar pão na mesa… Mas… Cadê pão? Táquiôspa!

– Môr! Vai fazendo o café que eu vou buscar pão, tá bom?

Não tenho muita certeza, mas pelo estilo do grunhido ela deve ter dito algo como um “sim”…

É lógico que esqueci que meu sogro tinha saído com o carro na véspera e, tendo sido o último a guardá-lo, atrapalhou toda a “logística” da garagem. E, detalhe: o carro dele, um Golzinho dos quadrados, não pode ficar na rua, porque a porta do motorista não fecha. E nem posso achar ruim, porque fui EU quem destruiu a capacidade de a porta trancar direito. Mas essa é uma outra história.

Enfim, abre todas as fechaduras do portão de castelo da garagem, dá partida no carro do sogro que não pega, insiste, liga, tira o carro do sogro, tira meu carro, dá partida, insiste, xinga, liga e guarda a porra do carro do sogro, tira o carro da Dona Patroa, guarda meu carro, fecha todas as fechaduras do portão de castelo da garagem, pega o carro da Dona Patroa, vai até a padaria, compra pão, volta pra casa, põe o carro em cima da calçada (já falei que tiveram a capacidade de colocar uma placa de “Proibido Estacionar” BEM EM FRENTE de casa?), chega esbaforido na cozinha e… todo mundo já tomou café.

– Cumassim???

– Ué, amor, você estava demorando e resolvi fazer uns bolinhos de chuva, que é bem rapidinho. Só que gostaram tanto que não sobrou nenhum pra você…

– Gnagnagnagnagnagna…

– Oi?

– Nada não.

Bem, estando dentro dos rígidos padrões de horário escolares, e já voltando pra casa agora era só botar em prática o “Projeto Corrida” e zuzo bem!

Mas, aproveitando o ensejo, resolvi dar uma checada nos e-mails. E ver as notícias. E conferir o Instagram. E ler as últimas do Twitter. E dar uma passeada no Facebook. E atualizar o blog. E responder aquele outro e-mail. E…

– Môr, já tô indo, que tô atrasada, tá bom?

– Ué, mas você não entra às nove?

– E que horas você acha que são?

Caceta! Como o tempo voa e a gente nem percebe! E o pior é que agora o sol já está alto e eu, com minha pele de tez moreno-hipoglós, não tenho a mínima condição de enfrentá-lo. Paciência. Fica pra mais tarde, então…

E, nesse meio tempo, entre o começo do dia e o final da tarde, fiz aquelas faceiras coisas corriqueiras que um bom sujeito de férias sempre costuma fazer… Isso mesmo. Se eu não estava consertando alguma coisa, estava furando, quebrando, refazendo ou montando. Isso fora um relatório que tive que encaminhar para o serviço, já trabalhando no “modo certo de operação”. Mais a necessidade financeira absoluta de fazer as declarações de imposto de renda em casa – minha e a da Dona Patroa – e o dia acabou-se num átimo (não é ótimo usar palavras que muitos de vocês jamais ouviram?)…

Seis da tarde! Pouco mais de doze horas depois do planejado, mas já num clima agradável, sem sol pra castigar e ainda com o dia claro o suficiente para um bom exercício! Peguei meu bom e velho par de tênis de corrida comprado especialmente para esse fim há cerca de uns quatro anos – e pelo qual paguei quase um caldeirão de sestércios! Curioso que após tantos anos ele encontra-se praticamente novo. A marca deve ser realmente muito boa!

Fui ter para com meu filhote mais velho:

– Filho.

– Oi, pai?

– Vou dar uma saída, tá bom? Se sua mãe chegar, diga que fui correr e já volto.

– VOCÊ vai correr, pai?

– Vou, lógico! Pelo menos uns dez quilômetros!

– HUAHUAHUAHUAHUAHUA!!!!

– (…)

Diacho. Só não corto a mesada desse moleque porque ele não tem.

Pois bem. Lembrando de um artigo do dr. Drausio Varella que li recentemente, resolvi seguir o conselho do nobre médico: alongamento pra quê? Afinal de contas, meu corpo ainda estava despertando para a ginástica! Acocorei-me, dei umas esticadas, umas estraladas na coluna, quase fui atropelado ao atravessar a avenida, olhei para diante, pelo meu longo caminho a frente e, antes de começar a corrida, cheguei a uma sábia conclusão.

Melhor diminuir minhas expectativas.

Cinquenta por cento tá bom. Caminho uns cinco quilômetros adiante, aqueço-me o suficiente e volto correndo. Plano perfeito! E lá me fui.

E, absorto em meus pensamentos, depois de horas caminhando em forçada marcha, certamente já tendo atravessado inclusive a divisa da cidade (talvez de mais de uma!) fui me dar conta de onde estava. Coisa de pouco mais de um quilômetro de casa. Na mesma avenida, ainda. Cerca de, sei lá, uns quinze minutos desde minha saída. E suando. MUITO.

Então resolvi diminuir minhas expectativas.

“É. Pro primeiro dia, tá bom, né?”, disse pra mim mesmo. E mim mesmo, confiante, respondeu-me sem pestanejar que voltar correndo não ia rolar. Ah, não ia mesmo!

Olha só: já que eu ia voltar a partir dali e tinha caído pra apenas vinte por cento do plano original (um quilômetro pra ir e outro pra voltar em detrimento dos planejados dez quilômetros), restar-me-ia apenas dez por cento para, de fato, correr – ou seja, o quilômetro de volta, pensando naquele meu joelho latejando e com os parafusos meio que espanando tive que convir comigo mesmo.

O negócio é diminuir minhas expectativas.

Caminho metade da volta e corro o resto. Cinco por cento do plano original. Para um paquiderme sedentário como eu, vamos combinar que tá pra lá de bom! E lá fui eu, caminhando em passo célere, suando como se estivesse debaixo de uma ducha – imaginem se estivesse debaixo do sol? – e vendo todo aquele povo que provavelmente faz suas caminhadas e corridas todos os dias (aliás, tenho certeza que já vi essa morena passar por mim por pelo menos duas vezes!). Ao longe, cada vez menos, minha casa se aproxima e meu ânimo para começar a correr é diretamente proporcional à minha vontade de tomar uma cerveja gelada…

Então resolvi diminuir minhas expectativas.

Faltando cerca de uns cem metros para chegar em frente de casa eis que começo uma tímida corridinha leve (cara, esse tênis é bom mesmo!), aos cinquenta metros me empolgo e já começo a correr com desenvoltura (por que é que eu não comecei correndo desde o início?), a uns quinze metros já passo a me sentir o próprio Rocky Balboa e resolvo fazer aquele sprint na ponta final da corrida, e, finalmente, suadamente, cansadamente, aos cinco metros finais eu descubro o tamanho da merda que fiz.

Clique na imagem para ampliar!

MEU. JOELHO. FUDEU. MEU. JOELHO.

De Rocky Balboa a Corcunda de Notre-Dame. Ao menos foi assim que eu me senti ao atravessar a avenida de volta para casa. Mardito Varella! Sem fôlego, com o joelho latejando, e maldizendo toda essa tal de “geração saúde” que vive falando das vantagens de se exercitar. Não tinha como piorar.

Mas, na verdade, tinha.

Cadê a chave? Cadê a porra da chave do portão de casa???

Sobre minha mesa, que é onde ela deveria estar, não é mesmo?

Toca a tocar a campainha. De novo. E de novo. E novamente. Não é possível! Com exceção da Dona Patroa, tá todo mundo em casa, que eu sei. O filhote número um deve estar no computador, com seus fones editando algum vídeo, o do meio, em seu quarto curtindo com seus fones alguma música que baixou no celular, o caçula, com seus fones, afundado nas almofadas do sofá jogando o tal do DS, e, por fim, meu sogro, sem fones, porém – será que já não falei isso antes? – surdo como uma porta. De carvalho. Dupla.

E meu joelho doendo.

Após muita insistência (ou sorte, ainda não sei) o filhote mais velho veio abrir o portão. Rindo.

– E daí, pai? Correu os dez quilômetros?

– Gnagnagnagnagnagna…

– Pelo menos cinquenta por cento disso?

– Humpf.

– Tá, pai. Ao menos fala quantos por cento você de fato correu!

– Um por cento…

– O QUÊ???

– Um por cento, tá! Isso mesmo. Ou quase, ao menos…

– HUAHUAHUAHUAHUAHUA!!!!

– (…)

Diacho. Só não deserdo esse moleque porque não tenho herança nenhuma pra deixar.

O que me leva a uma interessante conclusão… Na casa de um homem, seu sacrossanto lar, seu refúgio, seu castelo, a regra é muito clara: ou se tem respeito ou se tem filhos. Os dois juntos? Impossível!

Bem, enfim, foi isso. Após toda essa desventura ao menos pude tomar uma boa ducha para recolocar cada pedaço de mim de volta ao seu devido lugar. Detalhe: pouco antes de entrar para o banho a Dona Patroa ligou, dizendo que estava no supermercado e perguntando se eu queria alguma coisa. “Uma cervejinha, pode ser?” E, pasmem, ela concordou! Ao menos algo daria certo no final do dia. Nada como relaxar, limpo, exaurido e refrescado, tomando uma breja estupidamente gelada!

E já estava eu na varanda, quando ela veio subindo as escadas.

– A-mô-or… Cheguei!

– Ah, como diria aquele outro, Sua Linda! Você trouxe de verdade o que disse que iria trazer?

– Claro!

– Ah, que belezinha!

– E já tá até geladinha!

– Jura?

– É, sim. Toma aqui a sua cervejinha sem álcool…

– Oi?

Carái! Eu sabia. Eu sabia que ainda ia ter que pagar por ter jogado ela cama afora hoje pela manhã.

Mas – que putz! – precisava ser tão já?… :-/

Férias – agora começou de verdade!

Você só consegue perceber que REALMENTE está de férias quando a vida à sua volta está dentro da normalidade do dia-a-dia, exceto você.

E somente agora, nesta primeira segunda-feira após o Carnaval, é que o ano começou de verdade… Criançada na escola, Dona Patroa enfrentando novos desafios de volta ao velho trabalho, meu povo ralando lá no meu trabalho, e, ainda que não vá viajar para lugar nenhum, posso ficar aqui, totalmente relaxado, descansando, pronto para…

– Mieko ligou Terefônica?

– Oi?

Era meu sogro. Com uma conta de telefone na mão e um olhar inquiridor pra mim, pois faz dias que o telefone dele está mudo…

– Então. Mieko ligou Terefônica. Quando arruma, né?

Péraê. Deixa eu matar esse negócio no ninho. Liguei pra Dona Patroa pra saber o que é que estava pegando.

– Ah, eu já liguei lá e eles já vieram fazer uns testes. Parece que o problema não é pra lá do poste, mas do lado interno da casa mesmo…

Taquiôspa!

Olho para aquele bondoso velhinho nipônico, com um acolhedor sorriso interrogativo – e surdo como uma porta de carvalho.

– Pode deixar que eu vou dar uma olhada…

– Eh?

– EU! VOU! VER! O QUE TÁ! ACONTECENDO!

– Ah, tá.

E lá se foi ele e cá fiquei eu sabendo que estava fudido…

Bem vamverssaporra. Peguei um aparelho telefônico e fui na caixa de entrada da casa. Conectei os fios descascados. Com sinal. Fui até o ponto onde fica o aparelho dele e desmontei a caixinha. Conectei os fios descascados. Sem sinal. Fudeu. O ponto de desconexão estava em algum lugar no meio do caminho. E, por caminho, entenda-se a fiação que vem desde a frente da casa, passando por todo o tétrico emaranhado de fios que fica no forro até o ponto do telefone dele. Merda. E vai o jamanta aqui entrar na porra do forro da casa, andando agachado por cerca de uns 30 metros, com o sol literalmente cozinhando as telhas – e eu junto. Muito próximo de espanar os parafusos do meu joelho, consegui achar o defeito: havia rompido um dos fios numa emenda entre a fiação interna e a da rua. E por um acaso eu estava com as ferramentas pra consertar isso? Nããããããooo… Volta, pega o necessário, sobe de novo, nova maratona, refaz a conexão e pronto! Telefone funcionando perfeitamente!

Feliz da vida, suado, cansado, empoeirado e cheio de teias de aranha cobrindo meu corpo, fui lá contar pra ele que agora o telefone estava funcionando.

– Ah, tá.

Toda vez que ele responde com esse “Ah, tá”, num tom extremamente peculiar, significa que ele não ouviu absolutamente nada do que a gente tenha falado. Paciência.

Aproveitei que estava com a mão na massa – e já fudido mesmo – e resolvi consertar uma das arandelas de frente de casa que estava lá, toda desmilinguida, pendurada somente pelos fios. Muito provavelmente algum vento forte deve ter feito isso. Mas isso é só para me enganar. Muito mais provavelmente ainda deve ter sido alguma bolada de algum dos filhotes…

Após desmontá-la, limpá-la e avaliar o tamanho do estrago (tinha rompido o fundo que a prende à parede), para solucionar o problema nada como um bom e velho trabalho feito de improviso com peças alternativas e com design informal. Isso mesmo. Uma gambiarra!

Mas péra lá! Comigo não é assim não! Gambiarra tem que ter classe e não pode aparecer! Consegui adaptar uma arruela de bicicleta na parte desmilinguida da rosca da arandela e tudo certo. Como é? Não entenderam? Não se preocupem. O que importa é que está lá, firme e provavelmente melhor que antes!

E, como dizia um antigo estagiário, “já que está no inferno, abraça o capeta”. Então resolvi dar uma checada no registro da pia da cozinha que estava vazando. Até porque a Dona Patroa também já estava pegando no meu pé para consertar esse vazamento. Acho incrível isso! Vocês mulheres são todas iguais! Quando nós, homens, dizemos que vamos consertar alguma coisa, nós vamos consertar essa alguma coisa. No nosso tempo e no nosso ritmo. Não tem a mínima necessidade de vocês ficarem nos cobrando a cada seis meses…

Bem, como eu dizia, uma vez que a cozinha faz parte da ala nova da casa, pós reforma, tive que descobrir onde ficava o registro geral dela. Adivinhem onde ficava? Isso mesmo! No forro, junto da caixa d’água. O que significou também uma nova incursão ao abafado mundo das teias de aranhas…

Uma vez desmontado, avaliado, sopesado, registrado, carimbado, rotulado e seja lá mais o que for, pude chegar a duas conclusões. A boa notícia é que o registro estava perfeito. A má notícia é que continuava vazando.

Mas como? O problema é que a parte possível de se desmontar de um registro, onde estão as borrachas, roscas, travas, etc, estava em perfeitas condições. De modo que ao checar mais detalhadamente percebi que o vazamento vinha da parte de baixo do registro. Algo mais ou menos assim:

Perceberam o tamanho do enrosco? Somente quebrando a parede é que vai ser possível encontrar o vazamento…

É… De fato minhas “férias” começaram bem. Isso porque, fora inúmeras outras pequeninas coisas da casa que clamam por minha atenção, ainda vou ter que pintar a garagem!

Isso fora o novo sofá que eu fiquei de criar, desenhar e construir.

Mas essa já é uma outra história… 😉

Pedaço de mim

Diana Corso

Por que os amores fracassados, as dores de corno, os abandonos, são tão prolíficos na canção, na poesia, tanto quanto ou, talvez, tanto mais do que a paixão? Porque o fim do amor é traumático. Ex-amantes são pedaços perdidos, metades afastadas de nós. Levam consigo um destino que recusou-se a continuar, partem carregando em seus braços aqueles que deixamos de ser, aqueles que sonhamos juntos em tornar-nos um.

Ao rever o passado, tendemos a sentir-nos trapaceados pelos próprios sentimentos. Como foi que me iludi tanto, que escolhi tão mal? Repentinamente aquele que se desejou torna-se um estranho e o amor parece propaganda enganosa, um feitiço que se desfez, revelando alguém que nada vale aos nossos olhos.

Não creio que nos equivoquemos tanto. Por vezes no fim da história não se vive feliz para sempre: a gente se perde, ou apenas escolhe caminhos que tornam-se incompatíveis, mas por certo alguma estrada, boa ou ruim se percorreu juntos. Aquele a quem amamos não é uma pessoa imutável, ele também é resultado do casal que formou. Contemplá-lo, agora afastado de nós, é também ver o resultado disso. Se encontrarmos duas pessoas idênticas ao que eram, então a suspeita do engano se confirma: não houve relação, apenas ilusão.

Mesmo complicados, os amores foram escolhas e deixam marcas no destino que não podem nem devem ser apagadas. Há músicas, cheiros, fotografias, gestos íntimos, que são oriundos daquele laço. Tudo o que vivemos intensamente nos modifica; assim, somos filhos dos amores que tivemos e deles ficamos órfãos.

Pior do que suportar a perda daquilo que se sonhou e viveu juntos é encontrar no lugar do amor que se teve um buraco negro que nos traga. Já conheci esse desespero, já vi um olhar vazio aparecer num rosto em que antes me reconhecia. Sei que todo divórcio é de si mesmo. A sensação que o encontro com um ex-amor recente causa é de cair num abismo, é como se o corpo se dissolvesse.

Por um tempo, seremos pessoas fantasma, até que um dia, passando por um espelho, descobrimos que nossa imagem voltou a estar lá. Vampiros não se enxergam porque perderam todo o sangue próprio. É assim que nos sentimos quando separados: esvaziados. Aos poucos, felizmente, a vida começa a pulsar novamente e podemos voltar a refletir uma imagem. Só que, agora, marcada pelos traços daquele olhar que uma vez escolhemos para nos refletir.

Acabou, mas existiu.

( Crônica publicada na revista Vida Simples, de FEV/2015 )

Dançando até cair

Um dia eu ainda gostaria de dançar assim. Por mais avesso que eu seja a danças! Dançar solto, descompromissado, sem senões, sem dedos em riste, sem esperar, sem cobrar, sem querer – mas querendo, no ritmo que quiser, do jeito que aprouver, virando, torcendo, cantando, com alegria, com vontade, com desejo, com parceria, com olhos nos olhos e coração com coração… Até a exaustão!

E vocês? Já têm seu par?

Realidade paralela

– Roooonc… Hm? Oi?

– Bom dia, mocinho.

– Aff… Bom dia, amor…

– Bonito, hein?

– Você também!

– Não é nada disso! Você tem ideia da condição em que o senhor chegou ontem? Ou, no mínimo, tudo que fez desde que pôs os pés em casa?

– Não…

– E então? Quer saber?

– Cá entre nós, amor: eu vou gostar da resposta?

– Nem um pouco.

– Então, não.

– Tá. Vem tomar café, que já está na mesa (beijo).

– ?????????????????????????????????

(Será que alguém pode me beliscar, me acordar ou então me contar em qual realidade paralela eu vim parar???)

Goin’ crazy…

— Onde você vai?

— Vou sair um pouco.

— Vai de carro?

— Sim.

— Tem gasolina?

— Sim. coloquei.

— Vai demorar?

— Não. Coisa de uma hora.

— Vai a algum lugar específico?

— Não. Só rodar por aí.

— Não prefere ir a pé?

— Não. Vou de carro.

— Traz um sorvete pra mim!

— Trago. Que sabor?

— Manga.

— Ok. Na volta eu passo e compro.

— Na volta?

— Sim. Senão derrete.

— Passa lá, compra e deixa aqui…

— Não. Melhor não! Na volta. É rápido!

— Ahhhhh!

— Quando eu voltar eu tomo com você!

— Mas você não gosta de manga!

— Eu compro outro. De outro sabor.

— Aí fica caro. Traz de cupuaçu!

— Eu não gosto também.

— Traz de chocolate. Nós dois gostamos.

— Ok! Beijo. Volto logo…

— Ei!

— O quê?

— Chocolate não. Flocos.

— Não gosto de flocos!

— Então traz de manga prá mim e o que quiser prá você.

— Foi o que sugeri desde o começo!

— Você está sendo irônico?

— Não tô! Vou indo.

— Vem aqui me dar um beijo de despedida!

— Querida! Eu volto logo. depois.

— Depois não. Quero agora!

— Tá bom! (Beijo)

— Vai com o seu ou com o meu carro?

— Com o meu.

— Vai com o meu. Tem cd player. O seu não!

— Não vou ouvir música. Vou espairecer.

— Tá precisando?

— Não sei. Vou ver quando sair!

— Demora não!

— É rápido. (Abre a porta de casa)

— Ei!

— Que foi agora?

— Nossa! Que grosso! Vai embora!

— Calma. estou tentando sair e não consigo!

— Porque quer ir sozinho? Vai encontrar alguém?

— O que quer dizer?

— Nada. Nada não!

— Vem cá. Acha que estou te traindo?

— Não. Claro que não. Mas sabe como é?

— Como é o quê?

— Homens!

— Generalizando ou falando de mim?

— Generalizando.

— Então não é meu caso. Sabe que eu não faria isso!

— Tá bom. Então vai.

— Vou.

— Ei!

— Que foi, cacete?

— Leva o celular, estúpido!

— Prá quê? Prá você ficar me ligando?

— Não. Caso aconteça algo, estará com celular.

— Não. Pode deixar.

— Olha. Desculpa pela desconfiança, estou com saudade, só isso!

— Ok, meu amor. Desculpe-me se fui grosso. Tá… eu te amo!

— Eu também! Posso futricar no seu celular?

— Prá quê?

— Sei lá! Joguinho!

— Você quer meu celular prá jogar?

— É.

— Tem certeza?

— Sim.

— Liga o computador. Lá tem um monte de joguinhos!

— Não sei mexer naquela lata velha!

— Lata velha? Comprei pra a gente mês passado!

— Tá… Ok. Então leva o celular senão eu vou futricar.

— Pode mexer então. Não tem nada lá mesmo.

— É?

— É.

— Então onde está?

— O quê?

— O que deveria estar no celular mas não está.

— Como?

— Nada! Esquece!

— Tá nervosa?

— Não. Tô não.

— Então vou!

— Ei!

— O que ééééééé, caralho?

— Não quero mais sorvete não!

— Ah é?

— É!

— Então eu também não vou sair mais não!

— Ah é?

— É.

— Oba! Vai ficar comigo?

— Não vou não. Cansei. Vou dormir!

— Prefere dormir do que ficar comigo?

— Não. Vou dormir, só isso!

— Está nervoso?

— Claro, porra!

— Então por que você não vai dar uma volta para espairecer?