Dançando até cair

Um dia eu ainda gostaria de dançar assim. Por mais avesso que eu seja a danças! Dançar solto, descompromissado, sem senões, sem dedos em riste, sem esperar, sem cobrar, sem querer – mas querendo, no ritmo que quiser, do jeito que aprouver, virando, torcendo, cantando, com alegria, com vontade, com desejo, com parceria, com olhos nos olhos e coração com coração… Até a exaustão!

E vocês? Já têm seu par?

Realidade paralela

– Roooonc… Hm? Oi?

– Bom dia, mocinho.

– Aff… Bom dia, amor…

– Bonito, hein?

– Você também!

– Não é nada disso! Você tem ideia da condição em que o senhor chegou ontem? Ou, no mínimo, tudo que fez desde que pôs os pés em casa?

– Não…

– E então? Quer saber?

– Cá entre nós, amor: eu vou gostar da resposta?

– Nem um pouco.

– Então, não.

– Tá. Vem tomar café, que já está na mesa (beijo).

– ?????????????????????????????????

(Será que alguém pode me beliscar, me acordar ou então me contar em qual realidade paralela eu vim parar???)

Goin’ crazy…

— Onde você vai?

— Vou sair um pouco.

— Vai de carro?

— Sim.

— Tem gasolina?

— Sim. coloquei.

— Vai demorar?

— Não. Coisa de uma hora.

— Vai a algum lugar específico?

— Não. Só rodar por aí.

— Não prefere ir a pé?

— Não. Vou de carro.

— Traz um sorvete pra mim!

— Trago. Que sabor?

— Manga.

— Ok. Na volta eu passo e compro.

— Na volta?

— Sim. Senão derrete.

— Passa lá, compra e deixa aqui…

— Não. Melhor não! Na volta. É rápido!

— Ahhhhh!

— Quando eu voltar eu tomo com você!

— Mas você não gosta de manga!

— Eu compro outro. De outro sabor.

— Aí fica caro. Traz de cupuaçu!

— Eu não gosto também.

— Traz de chocolate. Nós dois gostamos.

— Ok! Beijo. Volto logo…

— Ei!

— O quê?

— Chocolate não. Flocos.

— Não gosto de flocos!

— Então traz de manga prá mim e o que quiser prá você.

— Foi o que sugeri desde o começo!

— Você está sendo irônico?

— Não tô! Vou indo.

— Vem aqui me dar um beijo de despedida!

— Querida! Eu volto logo. depois.

— Depois não. Quero agora!

— Tá bom! (Beijo)

— Vai com o seu ou com o meu carro?

— Com o meu.

— Vai com o meu. Tem cd player. O seu não!

— Não vou ouvir música. Vou espairecer.

— Tá precisando?

— Não sei. Vou ver quando sair!

— Demora não!

— É rápido. (Abre a porta de casa)

— Ei!

— Que foi agora?

— Nossa! Que grosso! Vai embora!

— Calma. estou tentando sair e não consigo!

— Porque quer ir sozinho? Vai encontrar alguém?

— O que quer dizer?

— Nada. Nada não!

— Vem cá. Acha que estou te traindo?

— Não. Claro que não. Mas sabe como é?

— Como é o quê?

— Homens!

— Generalizando ou falando de mim?

— Generalizando.

— Então não é meu caso. Sabe que eu não faria isso!

— Tá bom. Então vai.

— Vou.

— Ei!

— Que foi, cacete?

— Leva o celular, estúpido!

— Prá quê? Prá você ficar me ligando?

— Não. Caso aconteça algo, estará com celular.

— Não. Pode deixar.

— Olha. Desculpa pela desconfiança, estou com saudade, só isso!

— Ok, meu amor. Desculpe-me se fui grosso. Tá… eu te amo!

— Eu também! Posso futricar no seu celular?

— Prá quê?

— Sei lá! Joguinho!

— Você quer meu celular prá jogar?

— É.

— Tem certeza?

— Sim.

— Liga o computador. Lá tem um monte de joguinhos!

— Não sei mexer naquela lata velha!

— Lata velha? Comprei pra a gente mês passado!

— Tá… Ok. Então leva o celular senão eu vou futricar.

— Pode mexer então. Não tem nada lá mesmo.

— É?

— É.

— Então onde está?

— O quê?

— O que deveria estar no celular mas não está.

— Como?

— Nada! Esquece!

— Tá nervosa?

— Não. Tô não.

— Então vou!

— Ei!

— O que ééééééé, caralho?

— Não quero mais sorvete não!

— Ah é?

— É!

— Então eu também não vou sair mais não!

— Ah é?

— É.

— Oba! Vai ficar comigo?

— Não vou não. Cansei. Vou dormir!

— Prefere dormir do que ficar comigo?

— Não. Vou dormir, só isso!

— Está nervoso?

— Claro, porra!

— Então por que você não vai dar uma volta para espairecer?

Quer namorar comigo?

Outro dia, por conta de alguns conversê meio que sem pé nem cabeça, veio ao mote o seguinte assunto: “como foi que pedi minha esposa em casamento”.

Com o sorriso enviesado e a orelha direita em pé, intimamente me diverti com o tema. Levou-me de volta à adolescência – afinal de contas, ainda que muitos digam o contrário, EU também já fui adolescente… E não pude deixar de lembrar o que é gostar de uma menina e ficar ensaiando e planejando, querendo “pedi-la em namoro”

Com os pés firmemente plantados no chão viajei para um outro tempo e lugar onde eu mesmo gostaria que houvesse alguém para me responder essa pergunta. Dos gracejos e namoricos de criança-adolescente, quando as amigas passam a ser mais que amigas; quando, sem saber explicar o porquê, queremos ficar cada momento do dia curtindo uma conversa ou mesmo um silêncio ao lado daquela menina que tanto nos faz feliz; quando a ausência é pontuada pela constante lembrança daquela que não está presente – e que gostaríamos que estivesse; quando não temos a coragem necessária para querer ir além, simplesmente pelo medo de estragar tudo que está tão bom. Platônico, sim, eu sei, mas qual adolescente já não passou por isso?

Voltando devagar ao futuro – e presente – rememoro cada uma das minhas próprias paixões adolescentes e, não sem um quê de vergonha ou frustração, lembro-me da primeira vez que gostei tanto, mas tanto, de uma menina que criei coragem suficiente e a pedi em namoro. “Não”, foi sua resposta. Naquele momento uma gigantesca bigorna gelada afundou em meu estômago e, com o solavanco, senti que meu coração simplesmente parou de bater. Sorri e, senhor de minhas emoções, disse-lhe que tudo bem (lógico, depois de insistir mais um bocadinho) e que não queria que aquilo comprometesse nossa amizade e a maneira tão gostosa com a qual nos relacionávamos, etc, etc, etc. Para meu alívio, ela concordou! Para meu desespero, ela concordou… Acho que chorei uns três dias seguidos, escondido de tudo e de todos, tendo ficado frustrado para o resto da vida. O que durou mais ou menos umas duas semanas.

Anos depois eu tive a cavalar estupidez de repetir a dose. E, pior, totalmente fora de mim, embevecido que estava. Desta vez o “não” foi veemente e a possibilidade de se manter uma amizade escorreu para o meio-fio, junto com o resto derretido de mim.

Talvez tenha sido aí que percebi.

Essa construção Hollywoodiana daquele momento esperado em que, no ápice do filme, o mocinho pede a mão da mocinha e ela, tenra e docemente diz “sim”, bem, isso praticamente não existe. Digo “praticamente” porque, ainda assim conheço uma ou outra exceção… Mas nós, meros mortais, assalariados que somos e preocupados quando muito com o dia de amanhã – pois o depois de amanhã ainda está muito longe – não me parece que tenhamos essa nota romântica ressonando de forma tão clara em nosso dia a dia, a não ser no próprio contexto do cinema e da literatura.

Não que não exista romantismo – longe disso!

Eu mesmo tendo a me considerar um romântico… Sei que parece uma afirmação até um tanto quanto pretensiosa, mas é verdade!

Entretanto aprendi que a vida não necessariamente é romântica, como nas grandes estórias de amor. Explico. Se você está com a pessoa amada, ainda que nunca tenha se declarado, e a situação é propícia, e as estrelas estão alinhadas, e os deuses os favorecem, e seu olhar diz que sim, e seus lábios sorriem, convidativos, então o momento É esse e a hora É agora. Meras palavras e pedidos não serão capazes de expressar a ebulição de dois corpos que se desejam e que querem e precisam se tocar, se conhecer e se completar.

O coração vai acelerar, uma tontura vai se apoderar de ambos e, com sofreguidão, se conhecerão milímetro por milímetro, rosto com rosto, boca com boca, sorriso dentro de sorriso… E, ao se separarem, irão se encarar olhos nos olhos, sorrisos nos lábios, com um ou dois rápidos beijos como que para se certificar que tudo aquilo realmente está acontecendo. E vão se abraçar, terna e carinhosamente, sentindo o calor e a pulsação um do outro. E então terão a mais absoluta certeza: os filmes mentem, pois na vida real palavras são desnecessárias. É certo que o cavalheirismo ainda é necessário e indispensável, mas é humanamente impossível tentar buscar a formalidade para com aquilo que foi criado para ser informal.

Ou seja, sempre haverão situações propícias, surgidas ou planejadas, mas momentos – ah, os momentos! – estes são únicos!

E torço sinceramente para que você, que lê este texto, não seja nem ao menos a metade do romântico que já fui. Pois, francamente, apaixonar-se não é fácil e muito menos indolor. Mas, por outro lado, ser assim e ser correspondido é de um êxtase tal que se torna completamente impossível de descrever!

Pura felicidade em estado sólido.

E assim, com essa breve digressão, finalmente voltamos ao mote principal, que ensejou este texto…

Imagem e Ação

– Não tem o menor cabimento!

– Como não? Não é para compartilharmos tudo? Então?

– Meu amor (tom de paciência e resignação após respirar profundamente), entenda que MEU Facebook é MEU Facebook! Não faz o menor sentido você utilizá-lo para postar as suas coisas!

– Ah, é? Mas se eu não posso utilizar nem mesmo o meu, então isso significa dizer que eu posso utilizar o seu!

– Você que utilize o seu do jeito que quiser!

– Ah, mas agora eu até já apaguei ele.

– Nem me venha com essa. Você sabe que a qualquer tempo dá pra recuperar tudo. Você já fez isso muito mais de uma vez!

– Escuta: de que adianta eu ter o meu Facebook se eu não posso colocar aquilo que quero? Você não deixa!

– Não é que eu não deixo, mas toda vez que você muda sua senha e eu não consigo acessar o seu Face, acabo ficando desconfiada, né?

– Desconfiada de quê? Em todos esses meses que estamos juntos já lhe dei motivos pra não confiar em mim?

– Ah, você deve estar brincando, né? E aquelas sirigaitas que ficavam flertando com você no Inbox?

– Não, mas aquilo não tinha nada a ver…

– Ah, não? Tá bom. Faz de conta que eu acredito.

– Mas aquilo foi passado…

– Passado ou não, não interessa. Você tem o SEU Face e se quiser publicar alguma coisa que vá na timeline do SEU Face.

– Como se eu pudesse.

– Ah, não pode, é?

– Não. VOCÊ não deixa! Toda vez que eu coloco meu posicionamento político ou tento encorajar algum movimento social, você vem me dizer que aquilo vai te prejudicar de alguma forma!

– Acontece que você não pensa! Tudo o que você vê é a necessidade de escrever o que quer, de colocar sua posição! E eu, como fico? Seu “posicionamento político” é totalmente diferente do meu, não dá pra deixar, na minha própria timeline, que as pessoas pensem que eu concordo com aquilo que você escreve!

– Tá vendo? Tá vendo? É esse o problema: você me sufoca. Eu fico travado, não posso falar o que penso, não posso sequer discutir aquilo que acredito ser o certo. Que culpa eu tenho se o MEU certo é diferente do SEU certo?

– O problema não é esse. O problema é que você vende uma imagem de “salvador da pátria”, do lutador, do batalhador, de alguém que respira revolução. Como se na vida real você fosse assim! Acho que é esse realmente o problema: sua imagem na Internet é mais importante que nosso relacionamento! Desse jeito não é possível!

– Ah, imagem, é? Então vamos falar de imagem. E você, então? Você é a pessoa mais antissocial que eu conheço. Entre sair com meus amigos e ficar em casa vendo filmes e séries baixados da Internet, você não pensa duas vezes! Aquela moça cheia de sorrisos, cheia de energia, toda atleta e tudo mais que aparece nas fotos da sua timeline simplesmente não é a mesma pessoa que passa por essa porta todas as noites!

– (…)

– Ah, não acredito! Ficou sem resposta, né? A verdade dói, não é mesmo? E é por isso que, já que eu não posso fazer o que quero no meu Face, então vou usar o seu Face pra isso. Daí você vai ter o gostinho de sentir a mesma sensação que senti em todos esses meses: violado moralmente!

– Se tá tão ruim assim, então por que é que ainda estamos juntos?

– Eu gosto de você. Eu te amo! Mas não posso deixar minhas convicções de lado.

– Suas convicções… Sua imagem, isso sim!

– Que seja, mas é o que sou – e não vou mudar!

– Olha, se o problema é a Internet, então vamos fazer o seguinte: não deixe de ser quem você é. Vamos ficar fora disso. Por um tempo. Sei lá, vamos tentar… Por favor?

– Como é que é? E como vou pagar minhas contas? E os e-mails com meus contratos? E a publicidade pelo Face? E a política?

– Dá pra fazer tudo isso sem Internet…

– Meu amor, entenda: não existe vida sem Internet.

E assim terminou aquela discussão. Naquele momento. De modo fulminante. Não havia mais nenhum argumento. Nada mais a declarar. E naquela noite foram se deitar. Emburrados, enfezados, cada qual com um nó na garganta. E agora? Como continuar? Voltar atrás? Permanecer daquele jeito? Sem respostas, assim dormiram. Bunda com bunda.

Mas, por sorte ou por azar, quis o Destino se intrometer nessa briga, inserindo um inesperado capítulo nessa novela que estava longe de acabar. Em se falando do mundo da informática como vilã, eis que, exatamente por uma providencial confusão no processamento de dados nos computadores do banco, os débitos em conta não caíram no cartão de crédito. E assim, menos de um dia depois da desavença, viram-se eles chegando em casa tarde da noite enfrentando um breu sem saber o porquê. Sem energia. Sem telefone. Sem celular. E, obviamente, sem Internet.

No começo foi esquisito. Não tinham como se mover naquela escuridão. Lanternas? Quem tem isso nos dias de hoje? E, ainda que tivessem, as pilhas já teriam se esgotado. Velas? Nem de aniversário. Mas tinham aquelas aromáticas! O jeito era espalhar as poucas existentes pela casa.

E assim foram tomados por aquele novo e estranho ambiente de aconchegante e perfumada penumbra…

No dia seguinte, cada qual em seu canto, cada qual em seu trabalho, ambos ainda tentaram – sem sucesso – vencer a confusão que o computador lhes proporcionou. Continuavam desconectados do mundo. Nem mesmo os celulares permitiam acesso! Mas a vida continua e as contas vencem nos prazos de sempre. Com o cartão bloqueado a saída era pegar a fila no banco. Audácia! Imaginem, nos dias de hoje, serem submetidos a uma forma tão arcaica de atitude.

– E aí, sujeito!

– Hm? Ah, oi. E aí, moça, há quanto tempo, hein?

– Só se for pra você! Que acontece? Faz uns dois dias que não te vejo online…

– Ah, não. Só tô dando um tempinho, sabe? Internet demais, sabe como é…

– Ah, não sei não! Eu não consigo ficar um dia sem saber o que está acontecendo! Mas – nossa – não sabia que você estava assim com o cabelo grisalho. Sua foto lá está diferente…

– É… Tá meio velha, né?

– Não sei porque não atualiza. Ficou bem assim. Na verdade, se pensarmos bem, acho que já tem meses que nos vimos pessoalmente!

– É mesmo! Foi quando nasceu seu filhote! Como está o bebê?

– Já está andando, rapaz! Você realmente tá fora do mundo real, hein?

E foi assim, com aquela frase final na cabeça, que naquela noite ele voltou para casa começando a vislumbrar e perceber o quanto de razão poderia haver em tudo aquilo. E ambos conversaram sobre isso, conversaram muito mesmo, pra tentar se entender. E, agora já sob a luz de velas de verdade emolduradas num belo castiçal que ela havia encontrado num brechó durante o dia, jantaram animadamente – como há muito não o faziam – e brindaram com suas já não mais empoeiradas taças de vinho. Por um breve momento quase lamentaram a falta de um Instagram para registrar o momento – mas, afinal, isso serviria para quê? Só pra fazer inveja a quem quer que seja? Bobagem. A vida a dois era muito mais importante. E, desde que se conheceram – pela Internet, diga-se de passagem -, pela primeiríssima vez estavam tendo uma noite a dois, sem a presença da multidão onipresente que invariavelmente os cercava: e-mail, blogs, Facebook, Twitter, Instagram, Foursquare, WhatsApp, GTalk, e sabe-se lá quantas outras “ferramentas” inventadas para trazer a comodidade que eles simplesmente não precisavam.

Mas que também não sabiam inexistir.

Simplesmente por forças ocultas alheias – sim, o Universo conspira quando necessário – ambos se viram obrigados a viver uma vida desconectada. Por mais tempo que imaginavam e, o que no início era um desconforto, passou a ser uma cotidiana busca de opções. Nada de filmes ou seriados na portentosa TV de cinquenta polegadas – por não poder baixá-los e, muito menos, assisti-los. Compartilhar livros começou a tornar-se um hábito e discutir – no bom sentido da palavra – o posicionamento de cada qual com relação aos autores, mais ainda. Receber (e conhecer) amigos de um de outro, também. O que era a princípio estranho para as visitas, tornou-se um charme. Motivo de comentários nas redes sociais – dos quais eles sequer tomavam conhecimento. Sem energia o negócio era improvisar, de modo que sempre tinha alguém com um violão, uma flauta e – pasmem! – até mesmo um violino, numa memorável noite de foundue!

O problema tão digladiado na origem perdeu-se na memória, pois não havia – nem por parte de um nem por parte de outro – nenhuma necessidade de “passar uma imagem” de quem pretendiam ser. Pois, do ato ao fato, passaram efetivamente a sê-lo. Até mesmo a política, essa eterna controversa, passou a ser melhor compreendida entre ambos. Não que tenham mudado seu posicionamento – jamais! Entretanto, por pura falta de opção, se viram obrigados a entrar um na cabeça do outro e compreender o que cada um pensava e se forçar a rever suas próprias íntimas convicções, sem ninguém para “curtir” ou “comentar” algum eventual desabafo de momento. E, como sempre, respeito gera respeito.

Mas, como dizia o poeta, tudo que é bom um dia acaba.

E os computadores resolveram fazer as pazes e solucionaram os problemas de débitos e créditos pelo qual tanto tempo foram submetidos.

Numa bela noite de sábado, após um revigorante dia com amigos de ambos na piscina do condomínio (sim, lá havia uma piscina na qual jamais haviam sequer chegado perto), entre confusos e ofuscados entraram naquela estranha casa toda iluminada para só então descobrir que era a mesma em que moravam. E ela lhes pareceu apática e sem personalidade. Jantaram cabisbaixos e foram dormir em silêncio. E agora? Como continuar? Voltar atrás? Permanecer daquele jeito?

No dia seguinte resolveram tomar seu café da manhã fora, como também há muito não faziam. Aquela casa agora era estranha, cheia de sons silenciosos e zumbidos ocultos que lhes testavam a compreensão. E, mais uma vez, conversaram, conversaram muito pra tentar se entender.

E assim o foi. A televisão, venderam. Os computadores, também. Os tablets e notebooks viraram presentes para filhos de amigos.

Como sei de tudo isso? Encontrei-os há pouco, na usual “feira do rolo” de domingo, aqui perto de casa. Tinham acabado de fazer uma troca, com um atônito rapazinho, em que entregaram seus ultramodernos smartphones por aparelhos da década passada, somente de teclas e ainda com aquele visor verde. De quebra estavam levando também uma coruja de madeira e uma bomba de ar, daquelas antigas, para encher o pneu de suas bicicletas.

– Uai? Depois de tudo isso, celulares, é, moça?

– É. Não dá pra fugir de tudo, né? Mas somente daquilo que for possível…

– Tãotáintão. E no mais?

– No mais? A vida continua!

E foi assim, olhos nos olhos e sorrindo, que os vi desaparecer de mãos dadas no meio daquela multidão de pessoas reais.

Sobre casamentos

Em tempos de Internet sempre é salutar duvidar da autoria de determinados textos. Já cheguei ao cúmulo de encontrar um texto criado e assinado por Drummond em 2005. Detalhe: ele faleceu em 1987…

Aliás, acho que um dos papas em receber atribuições de textos deve ser o coitado do Luís Fernando Veríssimo. Como lhe atribuem palavras alheias! O bom é que, como sempre costumo dizer, todo texto tem sua “impressão digital”, de modo que para certos absurdos não precisamos sequer chegar ao final da leitura para ter a mais absoluta certeza de que NÃO é de determinado autor.

Assim também invariavelmente acontece com Arnaldo Jabor. O problema é que não conheço o suficiente do que ele realmente escreveu para poder identificar sua “marca”. Entretanto encontrei esse texto, compartilhado lá no Face pela amiga Marisa, e achei bastante interessante! Encontrei-o com sob os mais variados títulos, prevalecendo três: “Divórcio”, “Casamento Perfeito” e “Casar-se de novo”. Como gostei mais deste último – parece-me ter mais a ver com a mensagem da crônica – adotei-o como verdadeiro. Mas posso estar errado. Inclusive quanto ao autor. Paciência.

Bem, sendo ou não sendo, compartilho-o aqui para que meus quase quatro leitores possam também se deleitar com uma fórmula simples e tão óbvia quanto inusitada acerca das relações!

Casar-se de novo

Meus amigos separados não cansam de perguntar como consegui ficar casado 30 anos com a mesma mulher. As mulheres sempre mais maldosas que os homens, não perguntam à minha esposa como ela consegue ficar casada com o mesmo homem, mas como ela consegue ficar casada comigo.

Os jovens é que fazem as perguntas certas, ou seja, querem conhecer o segredo para manter um casamento por tanto tempo. Ninguém ensina isso nas escolas, pelo contrário. Não sou um especialista do ramo, como todos sabem, mas dito isso, minha resposta é mais ou menos a que segue:

Hoje em dia o divórcio é inevitável, não dá para escapar. Ninguém aguenta conviver com a mesma pessoa por uma eternidade. Eu, na realidade já estou em meu terceiro casamento – a única diferença é que casei três vezes com a mesma mulher. Minha esposa, se não me engano está em seu quinto, porque ela pensou em pegar as malas mais vezes que eu. O segredo do casamento não é a harmonia eterna. Depois dos inevitáveis arranca-rabos, a solução é ponderar, se acalmar e partir de novo com a mesma mulher.

O segredo no fundo é renovar o casamento e não procurar um casamento novo. Isso exige alguns cuidados e preocupações que são esquecidos no dia-a-dia do casal. De tempos em tempos, é preciso renovar a relação. De tempos em tempos é preciso voltar a namorar, voltar a cortejar, seduzir e ser seduzido.

– Há quanto tempo vocês não saem para dançar?

– Há quanto tempo você não tenta conquistá-la ou conquistá-lo como se seu par fosse um pretendente em potencial?

– Há quanto tempo não fazem uma lua-de-mel, sem os filhos eternamente brigando para ter a sua irrestrita atenção?

Sem falar dos inúmeros quilos que se acrescentaram a você depois do casamento. Mulher e marido que se separam perdem 10 kg em um único mês – por que vocês não podem conseguir o mesmo? Faça de conta que você está de caso novo. Se fosse um casamento novo, você certamente passaria a frequentar lugares novos e desconhecidos, mudaria de casa ou apartamento, trocaria seu guarda-roupa, os discos, o corte de cabelo, a maquiagem. Mas tudo isso pode ser feito sem que você se separe de seu cônjuge.

Vamos ser honestos: ninguém aguenta a mesma mulher ou o mesmo marido por trinta anos com a mesma roupa, o mesmo batom, com os mesmos amigos, com as mesmas piadas. Muitas vezes não é a sua esposa que está ficando chata e mofada, é você, são seus próprios móveis com a mesma desbotada decoração. Se você se divorciasse, certamente trocaria tudo, que é justamente um dos prazeres da separação. Quem se separa se encanta com a nova vida, a nova casa, um novo bairro, um novo circuito de amigos.

Não é preciso um divórcio litigioso para ter tudo isso. Basta mudar de lugares e interesses e não se deixar acomodar. Isso obviamente custa caro e muitas uniões se esfacelam porque o casal se recusa a pagar esses pequenos custos necessários para renovar um casamento. Mas se você se separar sua nova esposa vai querer novos filhos, novos móveis, novas roupas e você ainda terá a pensão dos filhos do casamento anterior.

Não existe essa tal “estabilidade do casamento” nem ela deveria ser almejada (muitas vezes é confundida com “acomodação”, o que é cruel…). O mundo muda, e você também, seu marido, sua esposa, seu bairro e seus amigos. A melhor estratégia para salvar um casamento não é manter uma “relação estável”, mas saber mudar junto .

Todo cônjuge precisa evoluir: estudar, aprimorar-se, interessar-se por coisas que jamais teria pensado em fazer no inicio do casamento. Isso é necessário também no trabalho, por que não na própria família? É o que seus filhos fazem desde que vieram ao mundo. Portanto descubra a nova mulher ou o novo homem que vive ao seu lado, em vez de sair por aí tentando descobrir um novo interessante par.

Tenho certeza que seus filhos os respeitarão pela decisão de se manterem juntos e aprenderão a importante lição de como crescer e evoluir unidos apesar das desavenças. Brigas e arranca-rabos sempre ocorrerão: por isso de vez em quando é necessário casar-se de novo, mas tente fazê-lo sempre com o mesmo par.

O flerte

E então aqueles dois resolveram passear em Sampa.

Passeio revigorante para o casal, ver coisas novas e – por que não? – fazer suas comprinhas de praxe!

Num local cheio de novidades, cheio de lojas com fantásticas bugigangas, com traquitanas tecnológicas de última geração, ainda assim acabaram indo no trivial…

Entram, conferem, se interessam, se separam.

Cada um para um lado para conferir o que havia por ali.

Ele, dando voltas e revoltas, se interessando ou não por este ou aquele produto, vai, volta, anda caminha, passeia e se perde.

Ela, concentrada, vendo o que realmente lhe interessava (afinal elas são elas, não é mesmo?), de repente percebe sua solidão. Mas com isso não se preocupa. Afinal ele deveria estar por ali, por perto e tudo bem.

Então ela vê.

De costas.

Entretido com algo – sabe-se lá o quê.

Dentro de seu gosto, de sua preferência, da altura perfeita, com o físico ideal. Não tem como não olhar. Não tem como não cobiçar.

Sente – mais que momentaneamente – um quê de vergonha (afinal seu marido ainda estava por ali, ainda que não às vistas). Mas inevitavelmente aquele sujeito lhe chamou a atenção. Uma ligeira pontada de desejo lhe estremeceu o corpo…

Afinal, apenas olhar e admirar não seria errado, certo?

Mas não poderíamos ficar apenas nisso.

Pois, vagarosamente, aquela figura de seu inesperado desejo, volta-se e a olha nos olhos.

Fixamente.

E lhe sorri.

E ela se assusta.

E se confunde.

Pois aquele pequeno flerte jamais consubstanciado, que sequer veio à tona, tinha por objeto algo ainda mais inesperado.

O sujeito, afinal de contas, ao voltar-se para ela, revelou-se como sendo seu próprio marido!

E agora?

Em que situação ele fica?

Traído consigo mesmo?…

Ou orgulhoso de ser o que é?…

Alguém se habilita a opinar?…

A pílula e a gravidez

Numa bem-humorada conversa com algumas das meninas de lá onde trabalho, eis que surgiu o assunto acima. E este velho escriba digital que vos tecla, do alto de sua infindável cultura inútil, pôs-se a explicar que a pílula surgiu de pesquisas a partir da década de cinquenta, tendo chegado ao mercado no início da década de sessenta. Na origem de seus estudos teria por finalidade agir meramente como reguladora do ciclo menstrual, inclusive para auxiliar os casais na concepção. Mas um “efeito colateral” percebido logo no início foi o que acabou lhe garantindo o sucesso: era, na realidade, um contraceptivo!

Assim acabou funcionando como um verdadeiro divisor de águas, em se tratando de liberdade sexual. Isso porque, antes, toda e qualquer relação entre homem e mulher poderia resultar num pãozinho no forno. Ou, no mínimo, numa bela duma preocupação… Já com a pílula o sexo poderia ser visto simplesmente como “recreativo”, sendo a gravidez uma opção, já que a área industrial podia – ainda que temporariamente – ser transformada em área de lazer.

Bem, daí à revolução sexual, rebeldia, contestação de valores sociais tradicionais, movimento feminista, etc, foi só um pulo. Bem pequeno. Woodstock que o diga. De um modo geral – e com o passar do tempo – o advento da pílula pode ser visto até mesmo como um dos fatores que permitiu um maior ingresso de mulheres no mercado de trabalho. Prosseguir nos estudos e desenvolver uma carreira passou a ser uma realidade, uma vez que tornou-se possível o adiamento da maternidade e a mera submissão à vida doméstica.

Mas, voltando ao foco da conversa, por essas e outras é que a pílula anticoncepcional, na verdade, vai bem além da mera prevenção da gravidez, existindo uma série de benefícios que traz à mulher.

Confiram o porquê, neste ótimo artigo escrito pela médica e professora Angela Maggio da Fonseca:

Cólicas, irritabilidade, acne, seborreia, corpo inchado e aumento do volume de pelos no corpo são alguns dos incômodos que muitas mulheres passam por causa de alguma alteração no ciclo menstrual. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde, estes sintomas atingem cerca de 70% das brasileiras.

Existe tratamento para ajudar a amenizar os sintomas: a pílula anticoncepcional. Para eliminar os mitos sobre o medicamento, a especialista explica detalhadamente todos os benefícios apresentados pelos contraceptivos.

1. Controle da tensão pré-menstrual (TPM)

Depressão, irritabilidade, fadiga, alteração do apetite, dores de cabeça, inchaço e distúrbio do sono estão na lista de queixas das mulheres que sofrem com a TPM. A pílula anticoncepcional é indicada nesses casos, pois a tensão pré-menstrual nada mais é do que o nível de hormônio alterado no corpo da mulher e a pílula controla a taxa hormonal do organismo. Além disso, algumas pílulas ajudam a diminuir a retenção de líquido, como aquelas à base de drospirenona.

2. Menstruação irregular

Muitas mulheres apresentam irregularidades no ciclo menstrual, fugindo do padrão normal de intervalos entre uma menstruação e outra. Em muitos casos a menstruação irregular ocorre por desequilíbrio hormonal. Desta maneira, a melhor “arma” para combater o problema é o uso do anticoncepcional, que ajuda a regularizar a taxa hormonal no corpo da mulher.

3. Síndrome do Ovário Policístico

A Síndrome do Ovário Policístico (SOP) é um dos distúrbios mais frequentes em mulheres em idade reprodutiva. Aproximadamente, entre 4% e 7% das brasileiras nesta faixa, que se estende do início da menstruação à menopausa, apresentam o problema, que é uma das maiores causas de infertilidade. Essa condição afeta a produção hormonal e provoca aumento dos hormônios masculinos, os androgênios, no organismo da mulher.

Estas alterações decorrem de duas causas distintas: ou porque os ovários respondem de maneira anormal aos estímulos dos hormônios do cérebro; ou porque os estímulos do cérebro são irregulares. Como consequência, a mulher deixa de ovular todos os meses e passa a apresentar diversas manifestações no corpo. A partir do diagnóstico positivo, o médico define junto com a paciente o tratamento que será seguido. Caso a intenção seja a melhora do ciclo menstrual e da pele, pode-se optar por tratamento de controle hormonal com uma pílula que contenha acetato de ciproterona. Hoje, é a terapia mais indicada para esta patologia.

4. Uso precoce do medicamento

A pílula anticoncepcional pode ser tomada, desde que o caso seja orientado e acompanhado por um médico. Seu uso não confere risco de infertilidade futura e não interrompe o crescimento. As doses de estrogênio (hormônio feminino) nas pílulas atuais são extremamente baixas e, por isso, não causam danos no desenvolvimento da mulher e nem para uma futura gravidez planejada.

5. Outras indicações

Devido ao controle hormonal a que os anticoncepcionais estão atrelados, quando a mulher apresenta algum sintoma indesejado relacionado com o período menstrual, o medicamento é recomendado.

6. A baixa dosagem

As pílulas de baixa dosagem têm as taxas hormonais mais baixas, porém o efeito de contracepção é o mesmo, assim como o de diminuição do fluxo menstrual.

7. Reduz o risco de doenças em geral

O uso da pílula anticoncepcional reduz os riscos de gravidez ectópica, acne, queda de cabelo, diminui o crescimento dos pelos e ameniza os sintomas da pré-menopausa. É fundamental que seu uso seja sempre orientado e acompanhado por um ginecologista, pois, como qualquer medicamento, a pílula anticoncepcional pode ter efeitos colaterais indesejáveis.

Casórios modernos

(Aviso aos Navegantes: os gnomos revisores/censores que vivem nas entranhas deste blog classificaram este post como altamente herege e sarcástico. Se você for do tipo que fica indignado com coisas desse tipo, então pare agora e aguarde algum próximo texto não tão carregado. Pode voltar à sua leitura de Pollyana Moça, aos seus afazeres normais ou seja lá o que for que pessoas como você costumam fazer. Não diga que não avisei.)

Resolveu continuar, hein? Além de herege, curioso…

Pois bem. Disaôje (como dizia minha Bisa) fomos a um casamento. A filha mais velha de um antigo amigo de uma outra vida. Literalmente, a vi nascer – o que comprova que eu estou mais pra curva de pra lá de Marrakesh, mas não ainda do Cabo da Boa Esperança.

Bem, enfim. Fomos ao casamento. Lugarzinho longe mas bem agradável: um clube, no campo, com muita mata, muito verde, muita estrada, muita chuva, etc. A noiva atrasou somente uma hora, o que está dentro dos padrões internacionais aceitos pela ABNT e homologado pela ONU para eventos de igual porte e estilo. Chegou, com a habitual pompa e circunstância (sempre adorei esse termo) que lhe é peculiar, foi adentrando o recinto, toda sorridente, até engatar no braço do noivo de uma maneira tal que, estou certo, nunca mais deve largar.

Até aí estava tudo indo muito bem.

Então ouvimos uma voz chamando a atenção de toda a congregação. Ou melhor, dos convidados. De imediato a Dona Patroa ressaltou que o pastor tinha uma voz muito feminina. “Será que talvez não seja porque ele é uma mulher?” Perguntei-lhe. Ela foi obrigada a concordar comigo. E olha que já é a segunda vez neste semestre! É sempre bom pro ego quando a gente usualmente tem razão…

Bem, os noivos posicionados, eis que ela começa a preleção. E de uma maneira inusitada! Agradeceu a presença de todos e ressaltou que ainda estava faltando alguém muito importante. Seriam os avós de algum deles, perguntei para mim mesmo. Mas não. Ela continuou: “Convido a adentrar este recinto aquele que está faltando nesta reunião, alguém muito importante e que não poderia faltar! Convido ao Todo Poderoso para que entre por este corredor, por este tapete, e venha nos abençoar a todos! Vamos, Senhor, pode vir! Venha, Senhor!” Automaticamente todos olharam pra trás, pelo tapete, pelo corredor, pela porta afora. Juro que quase fui. Já me imaginei ali, entrando, a passos largos, um falso sorriso constrangido, acenando para todos, piscadelas para as moçoilas, o escambau. Mas algo me disse que era melhor me conter. Talvez o olhar de fúria da Dona Patroa quando me propus a isso. E, assim, me contive.

Dali em diante ela passou a hora seguinte (eu disse “hora”? pareceu bem mais…) pregando, na minha opinião, toda e qualquer idéia relacionada a casamento que lhe viesse na cabeça. Nem pouco, nem menos. Professores de cursos de oratória de todo esse lado do estado devem ter passado mal com a energia emanada da tamanha falta de coesão, métrica e foco demonstrada em tão pouco tempo (eu disse “pouco”?).

Aliás, ela não estava sozinha, não! O gentil cavalheiro que pairava ao lado da distinta também era pastor! E ela, já nas primeiras palavras, ressaltou que estava ali presente juntamente com o pastor sei-lá-o-nome-do-caboclo. Ainda que ele não abrisse a boca um momento sequer. “Deve ser alguma espécie de pastor-estagiário”, pensei comigo mesmo.

Como se já não bastasse, após tudo isso, ela ainda me soltou a seguinte frase: “Tô percebendo, pela carinha de vocês, que já deve estar na hora de trocar as alianças!” Putz, eu também já estava percebendo! Juro! Eu e as demais 1.469 pessoas do salão. Mas esse ainda não foi o ponto. O ponto foi quando da surreal sequência:

– Vamos lá, então, gente, vamos ver o que ele responde! E daí, o que você responde?

– Siiiiiiiiiiimmm! (Brincadeira, não foi assim não, foi muito mais sério que isso. O que não altera em nada o desfecho.)

– Ele disse sim! ELE DISSE SIM! Gente, ai que chique!

“Ai que chique”? Em quantos missais vocês já ouviram isso, hein? Não contente, logo na sequência, quando da noiva, ela me soltou:

– Ah! Ela TAMBÉM disse sim! Gente, ai que ma-ra-vi-lha!

É sério. Olhei para os lados para dar uma conferida onde a gente estava. Em qual centro fomos parar. Não, somente a noiva estava de branco, então não podia ser algum outro onde a Hebe tivesse baixado ali e reencarnado para dar o ar de sua graça, presença e pieguice. Aquilo era DELA mesmo… Mas ainda teríamos mais! Logo após os votos dos noivos um para o outro – coisa bonita, que nem aqueles dos filmes (por mais curtos que tenham sidos) – ela deu uns dois passos para trás, quase caiu, olhou para os nubentes e com aquele sorriso puro e franco de um filme de terror, soltou mais essa, no melhor estilo Sazón:

– Ai, gente, olha como o amor é lindo!

Ok, sei que eu estava com o meu sarcasmo em mode on e carregado com a bateria até no talo, mas foi complicado estar ali, viu, gente? As sequências seguintes foram acompanhadas externamente por meu semblante sereno e dedicado a uma cerimônia do porte, mas internamente eu, irônico que sou, só aguardava a próxima tirada para soltar das minhas – ainda que somente em pensamento. Me sentia fazendo escárnio num programa de auditório. Cruel, eu sei, mas este sou eu, que fazer? Vamos lá:

“Agora vamos consagrar as alianças, mergulhando-as no no azeite.” Por quê? Senão não entra? Tudo bem que os noivos parecem estar meio gordinhos, mas não me parece que seja pra tanto…

“Olha, gente, como ela está tremendo de emoção!” Emoção? Com aqueles ombros de fora, o vento que está fazendo e a chuva que está caindo? Ela está é com frio, caramba!

“E vocês deverão lembrar que o homem é a cabeça do casal.” Hah! Piada pronta! Não conhecem? Então tá. De fato o homem é a cabeça do casal; mas a mulher é o pescoço: vira a cabeça pra onde quiser!

Bem, foram tantas tiradas que acho que não vai dar pra lembrar de todas. Dentre outras, vamos combinar que não é lá muito comum alguém, ainda que seja uma pastora em suas orações, referir-se ao Senhor ora pelo respeitoso termo “Deus Altíssimo Onipotente”, ora pelo intimista e quase infantil “Papai”. Ao menos não numa cerimônia de casamento…

Mas ainda teríamos a homenagem final. Uma dançarina. Não, cambada de hereges! Não ESSE tipo de dançarina! Não tinha nenhum dos costumeiros sete véus nela. Se bem que, dada a performance e a silhueta, talvez tenha sido até bom… Mas o que de fato aconteceu é que uma moçoila, vestida com o que eu achei ser uma espécie de túnica, desenvolveu toda uma performance ao som da mais apurada e decibelística música gospel que o momento pedia. Pedia? Bem, manjam aquelas pessoas que dançam “interpretando” a música? Então. Dava até para ver os lábios se movendo em conjunto… Ainda bem que Jennifer Beals (aquela, do filme Flashdance) não estava por ali pra ver aquilo…

Bem, finalmente fomos para as orações finais. E, é lógico, desta vez em conjunto com a platéia a congregação os convidados.

“Quem é a noiva de Jesus?” Nessa hora fui sumariamente aquietado com um bom chute na canela e não tive oportunidade de tecer nenhum comentário sobre Madalena, enquanto que os demais respondiam “é a Igreja!”

“Agora vamos pedir a Deus que nos dê direção!” Mais piada pronta, ao menos na minha cabeça. Não teve como não lembrar de uma tirinha do Laerte – esta aqui.

“E agora o beijo! O pessoal tá esperando o beijinho de vocês! Vamos lá! Não, não valeu! De novo! Ainda não valeu! De novo! Não vale-eu! De novo! Ai, geeeeente, que liiiiindo!!!”

Agora acho que já sei o porquê de o buffet não ter deixado talheres nas mesas. Facas, pulsos, pensamentos suicidas… Com tudo isso já deu pra imaginar, né?

Mas enfim, após os cumprimentos à noiva – que sim, estava linda – e ao noivo – que estava muito bem apessoado (jamais me ouvirão chamar um ser masculino de “lindo”) – o ponto alto de tudo isso ainda estava por vir e eu não tinha sequer me tocado.

Bem, não foi difícil para vocês perceberem que estávamos num casamento evangélico, certo?

AH – HA! Exatamente!

Isso mesmo.

Absolutamente nem uma gota de álcool!

De novo.

Bodas de Marfim

Antes de mais nada, vamos esclarecer: o termo “bodas” vem do latim. Significa promessa – no caso, os votos matrimoniais, feitos no dia do casamento. Assim, a cada ano que passa, comemoramos o aniversário de bodas, o aniversário daquela promessa feita um para o outro. Em sua origem comemorava-se apenas a de Prata (25 anos) e a de Ouro (50 anos), mas com o tempo foram surgindo outras simbologias para os demais anos.

E, conforme a tradição, as bodas de quatorze anos são representadas pelo marfim.

Marfim é uma substância dura, branca e opaca. É a massa do dente e dos caninos de animais como elefantes, hipopótamos, morsas, mamutes, etc. Possui altíssimo valor comercial.

Bodas de Marfim…

Quatorze anos…

Sete mais sete…

Eu e você…

Um sete de lá, outro de cá.

Sete são os dias da semana, sete são as cores do arco-íris, sete são as notas musicais, sete saias usavam as mulheres de Nazaré, sete são os véus da dança, sete são as maravilhas da antiguidade, sete são os pecados capitais, sete são as virtudes, sete são os deuses da felicidade, sete são os céus, sete cabeças possuía a hidra, sete são as léguas do conto, a sete chaves guardamos nossos segredos, a sétima onda é sempre a maior e a mais forte, em sete dias o mundo foi criado…

Sete é um número mágico e afortunado.

Um sete de lá, outro de cá.

Quatorze anos.

Magia dobrada, força acumulada.

Há exatos quatorze anos cruzávamos o tapete vermelho para nossas bodas. Como testemunhas, um vasto gramado era nosso piso, a própria natureza, em conjunto com nossos amigos e parentes, formavam nossa catedral e tínhamos ainda o céu e as nuvens como teto fulgurante.

Feliz aniversário, Mi.

E como já me foi dito há mais de quatorze anos, por uma pessoa mais sábia que eu, “A vida dá muitas voltas… O importante é não se perder nelas, continuar sempre, recomeçar e nunca pensar que é um obstáculo, são apenas… etapas de nossas vidas – e ela é bela, digo, e repito sempre! Pois encarar tudo com otimismo não deve ser um esforço e sim um hábito, pois o humilde sabe sempre identificar e reconhecer seus próprios erros, aprender e seguir caminho, avante, passos à frente… Às vezes não temos coragem suficiente, mas devemos ter coragem para juntar coragem e ir à luta.”

Amo você.

Simples assim.

E eis um pouquinho de quatorze anos em quatorze momentos antes dos quatorze anos:

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E eis um único momento que faz valer todos os quatorze anos passados, futuros e muito mais:

Ah, e por fim: a “pessoa sábia” a qual me referi é você mesma. Aquelas foram palavras extraídas diretamente de um texto com o qual você me presenteou quando do início de nossa história…

😀