Atleta urbano – mesmo sem querer

E então, logo cedinho, café preparado, tomado e processado, eis que saio para levar os filhotes para a escola. De cara já encontro o saco de lixo reciclável meio rasgado, meio espalhado. Taquiôspa! Querem fuçar, fucem – mas precisa rasgar e espalhar? Como invariavelmente o lixeiro passa às sete – e só faltavam alguns minutos – pedi para a Dona Patroa juntar tudo aquilo. Dali em diante, opeação padrão: levei os filhotes, soltei-os pelo “drive-thru” da escola (é esquisito, mas é isso mesmo…) e voltei pra casa. Minha excelentíssima senhora raio de sol ainda estava a varrer os últimos pedacinhos de papelinhos.

– E aí, deu tempo?

– Quase. Ficou um pouquinho pra trás…

– Paciência. Falta do que fazer, né?

– É. Vamos correr?

Essa última frase é só pra comprovar que a Dona Patroa dirige pra lá de perigosamente quando está numa conversa. Ela muda de assunto numa guinada de 180 graus, sem dar seta, nem sinalizar. Normalmente isso me faz perder alguns segundos até que eu possa me situar e me adaptar à nova situação. Ou ao novo assunto, como queiram.

– Nah… Não tô legal…

– Isso é ressaca! Não foi a cachaça de ontem, não?

– A-mor-da-mi-nha-vi-da (assim mesmo, desse jeitinho lento e sincopado, que é para garantir total atenção), entenda uma coisa: eu sei muito bem o que é ressaca. E isso não é. Pelo jeito estou ficando é meio gripado. Prefiro ficar em casa, mesmo.

Só para lembrar nossas desventuras tuitísticas compartilhadas nas redes sociais: eu, de férias, passei praticamente os primeiros quinze dias conjuntivitiaditivado. E, agora, na segunda quinzena, provavelmente deverei passar engripado. Garganta coçando e a cabeça doendo.

E, de volta à nossa desventura, lá se foi ela rua afora, lépida e faceira, com seus bem pesados cinquenta quilos distribuídos por um metro e cinquenta e três de pessoinha. Hah! Tô fora. Prefiro mais é tomar um (outro) café.

Passado um tempinho, pontualmente vinte para as oito, eis que toca a campainha. Estranho. A empregada somente chega às oito…

Fui dar uma olhada e, lá embaixo, estava a Dona Patroa aguardando para que eu jogasse as chaves. Ah, só pra contextualizar: nossa casa foi construída acompanhando um morro, de modo que o primeiro patamar, no nível da rua, abriga a garagem, o segundo patamar, um andar acima, a casa propriamente dita e ainda há um terceiro patamar, no quintal, onde fica lavanderia, varais, as plantas que a Dona Patroa planta para meu sogro cortar quando ela menos esperar, etecétera e coisa e tal. Isso faz com que tenhamos um muro de uns quatro metros a proteger a frente desse verdadeiro bunker – muito prático, diga-se de passagem. Lá de cima dá pra ver quem tocou a campainha e até fazer de conta que não tem ninguém, conforme seja um cobrador, um oficial de justiça ou uma testemunha de jeová. Bom, enfim, tirei um sarro por ela não ter levado a chave e joguei-lhe o molho. Aliás, sabiam que, nesse contexto, pronuncia-se “mólho”? Sim, sim, continuamos hoje e sempre com nosso programa de cúltura inútil…

Foi quando ela me respondeu:

– Engraçadinho! Caiu na escada, não foi?

Na hora já compreendi que ela não havia esquecido as chaves, mas, sim, perdido. Engoli em seco.

Por mais que o bunker seja um bunker, com a chave certa qualquer um facilmente entra. Simples assim. Perguntei-lhe se era sério. Era. Merda. Calcei o tênis e, a contragosto, parti para a caminhada que não queria fazer em busca das chaves de casa. “Está num chaveirinho assim, azul…”, ela me disse. Ah, que ótimo! Facilitou muito. Com isso devo ter descoberto no mínimo umas dez espécies novas de miosótis que nasceram por toda extensão da mata lateral à calçada em que costumamos caminhar…

E eu ali, engripado, preocupado, com dor de cabeça e a garganta arranhando, tal qual Lancelote, parti na empreitada em busca da santa chave perdida.

Isso é só pra provar que, por mais que você esteja fodido, as coisas ainda podem piorar. Sempre. É como aquele caboclo que perdeu a namorada, está arrasado, sem vontade de trabalhar, de comer, sequer de viver, e, para coroar tudo isso, teima em buscar a música mais dor de cotovelo que existe na face da Terra e colocá-la para tocar em alto e bom tom, que é pra poder afundar de vez na fossa, chorar copiosamente sua perda e arrebentar com tudo de vez.

Mas tergiverso.

E lá fui eu, passo a passo, literalmente escaneando a calçada, o meio-fio, a mata adjacente. Meu sexto sentido me dizia que essa chave somente poderia ter sido perdida em um de três lugares distintos, que é onde eu faria uma busca com maior acuidade. Mal caminhei cinquenta metros e um caboclo do outro lado da rua, de uma empresa que trabalha com gesso, começou a me chamar, balançando um jogo de chaves ao alto. Não acreditei! Ele me viu procurando alguma coisa e supôs que seriam aquelas chaves. Que sorte!

Atravessei a rua e ele me perguntou se eu estaria procurando algumas chaves, eu lhe disse que sim, ele disse que tinha aquelas ali que tinha encontrado na mesma calçada de caminhada, eu lhe agradeci, dizendo que a Dona Patroa tinha perdido as chaves ainda há pouco, enquanto pegava de sua mão aquele chaveiro vermelho (Péraê, péraê! Vermelho?…), ao que ele disse que não, não era de hoje, mas tinha encontrado aquelas chaves há alguns dias, quando conclui que não, aquela não era nossa chave, então tá, fica assim, paciência, boa sorte aí pra você e tomara que encontre sua chave! A conversa foi mais ou menos essa e só sei que saí de lá sem chave nenhuma. Que azar!

Continuei minha inglória busca enquanto, para ajudar, o sol começava a despontar. Já cansei de lhes falar que eu e o sol nunca tivemos um relacionamento lá muito bom. Sou, por excelência, notívago e quando me exponho ao dito cujo, em que nível for, tenho vampirescos problemas de pele. Não. Nada a ver com aquela viadagem do Crepúsculo, onde vampiros viram purpurina. Minhas reações estão mais para Christopher Lee, aquele dos antigos filmes de vampiro, dos estúdios Hammer, da década de cinquenta, pois qualquer pouquinho a mais de queimadura com qualquer mínima exposição que eu tiver ao sol e ainda acabo virando pó.

 
Oi?

Não sabem de quem estou falando?

Tudo bem, vocês fazem parte da geração que somente vai lembrar desse ator no recente papel de Conde Dookan, da saga Star Wars, ou, ainda, como Saruman, em Senhor dos Anéis...

E passo a passo prossegui até o ponto que costuma ser o limite da caminhada da Dona Patroa. E nada. Fucei e fucei na grama, nos equipamentos de ginástica, no mato, em tudo quanto é canto e nada. Resolvi voltar e, agora, prestar mais atenção no meio-fio. Mas sem descuidar do resto. E cada um que passava por mim, eu ainda tinha um mínimo de esperança que olhasse para aquela patética figura da minha pessoa e dissesse: "Parece que você está procurando algo. Seria uma chave? Acabei de encontrar esta ali atrás..." Nisso eu ficaria agradecido, sorriria, diria algum gracejo, agradeceria novamente e tomaria o rumo de casa, pronto para, vitorioso, me apresentar à Dona Patroa. Mas a vida é uma caixinha de surpresas... Ou não. Nada de ninguém me abordar e, muito menos, de eu encontrar a malfadada chave.

O que me faz lembrar de um antigo causo da época da faculdade. Tínhamos um professor, o P.C., que, se não me engano, dava aula de Direito Penal. Jé era um princípio para eu não gostar do caboclo... Mas acontece que ele adorava contar his(es?)tórias de sua própria época de faculdade - para desencanto geral de nós, pobres alunos ouvintes... Uma delas diz respeito a uma farra que eles fizeram numa noite, na praia, e no dia seguinte, ainda de ressaca, ele saiu a procurar o relógio que havia perdido. Palavras dele (juro!):

"- Então eu estava ali, com o sol começando a raiar, procurando meu relógio naquele mundo de areia. Mas, de repente, eu vi um brilho e percebi que só podia ser meu relógio. Isso porque era um brilho diferente, pois, não sei se vocês sabem, o ouro de um Rolex legítimo realmente tem um brilho diferenciado..."

Sim. Pasmem. Essas eram minhas aulas de Direito Penal.

E que pena que nem o chaveiro nem a chave perdida sejam de ouro de (en)Rolex. Eu poderia chamar esse antigo professor pra ver se encontrava a porra da chave.

Enfim, cheguei em casa. Fui confirmar mais uma vez se ela não havia esquecido as chaves no próprio bolso, ou perdido em frente de casa, sei lá. Nada. Com ela já pronta para sair para o trabalho, desci até a garagem para que trocássemos os carros de lugar (logística, lembram?). Mal saiu e eu, ainda manobrando o bom e velho Cruzador Imperial (também conhecido como Opalão), eis que ela volta.

- Uai? Que foi?

- Óculos.

- Êitcha! Parece que o dia hoje promete. Quando você não está perdendo alguma coisa está esquecendo outra...

E lá se foi ela escadas acima atrás dos óculos. E nadica de nada das chaves. Paciência. E tudo isso somente para uma coisa serviu: para que eu, mesmo não querendo, acabasse fazendo uma caminhada. Ainda que gripado.

Ah, antes que eu me esqueça, quanto àqueles três lugares distintos que minha infalível intuição garantiu que as chaves estariam: não estavam.

Ou seja, já tá na hora de recalibrar essa piromba de sexto sentido...

Atleta urbano


E quem sabe o que verdadeiramente se passa dentro do coração humano?
A SOMBRA sabe…

E então, aproveitando que estou de férias mesmo, nada como procurar manter mens sana in corpore sano… Não, não é nada disso que vocês estão pensando, ô cambada de pecadores! Isso é latim, tá bom? Quer dizer “mente sã em corpo são”. Simples assim. E já que minha mente é um espetáculo (vejam bem, eu disse “mente”, não “memória” – pois nesse último quesito até mesmo pombos se saem melhor que eu…), então, pela milésima, quadricentésima, sexagésima nona vez, resolvi voltar a correr.

Acordaria cedinho no dia seguinte, no horário de praxe – cinco da matina – e antes mesmo de levar os filhotes pra escola – que entram às sete – eu faria uma boa série de alongamentos e já encararia uns bons quilômetros de alazônico galope!

Só que daí, já que estou de férias mesmo, com todas aqueles episódios não assistidos das séries que costumo acompanhar, bem, aproveitei pra me colocar em dia – sabem como é, né? Ou seja, fui dormir mais de uma da manhã…

Bem, não importa. Tenho confiança no meu infalível relógio biológico!

Que, lógico, falhou.

E assim, no dia seguinte, lá do ninho aconchegante que se tornou minha cama, resolvi dar uma lânguida e preguiçosa olhada no celular para ver quanto tempo ainda faltava para ele começar a despertar…

E já era umas seizivinti!!!

Passado o inicial choque elétrico que percorreu meu corpo e depois de, na sequência, praticamente jogar a Dona Patroa cama afora (eu sei que um dia ainda vou ter que pagar por isso…), corri pra acordar a criançada, fazer café, colocar pão na mesa… Mas… Cadê pão? Táquiôspa!

– Môr! Vai fazendo o café que eu vou buscar pão, tá bom?

Não tenho muita certeza, mas pelo estilo do grunhido ela deve ter dito algo como um “sim”…

É lógico que esqueci que meu sogro tinha saído com o carro na véspera e, tendo sido o último a guardá-lo, atrapalhou toda a “logística” da garagem. E, detalhe: o carro dele, um Golzinho dos quadrados, não pode ficar na rua, porque a porta do motorista não fecha. E nem posso achar ruim, porque fui EU quem destruiu a capacidade de a porta trancar direito. Mas essa é uma outra história.

Enfim, abre todas as fechaduras do portão de castelo da garagem, dá partida no carro do sogro que não pega, insiste, liga, tira o carro do sogro, tira meu carro, dá partida, insiste, xinga, liga e guarda a porra do carro do sogro, tira o carro da Dona Patroa, guarda meu carro, fecha todas as fechaduras do portão de castelo da garagem, pega o carro da Dona Patroa, vai até a padaria, compra pão, volta pra casa, põe o carro em cima da calçada (já falei que tiveram a capacidade de colocar uma placa de “Proibido Estacionar” BEM EM FRENTE de casa?), chega esbaforido na cozinha e… todo mundo já tomou café.

– Cumassim???

– Ué, amor, você estava demorando e resolvi fazer uns bolinhos de chuva, que é bem rapidinho. Só que gostaram tanto que não sobrou nenhum pra você…

– Gnagnagnagnagnagna…

– Oi?

– Nada não.

Bem, estando dentro dos rígidos padrões de horário escolares, e já voltando pra casa agora era só botar em prática o “Projeto Corrida” e zuzo bem!

Mas, aproveitando o ensejo, resolvi dar uma checada nos e-mails. E ver as notícias. E conferir o Instagram. E ler as últimas do Twitter. E dar uma passeada no Facebook. E atualizar o blog. E responder aquele outro e-mail. E…

– Môr, já tô indo, que tô atrasada, tá bom?

– Ué, mas você não entra às nove?

– E que horas você acha que são?

Caceta! Como o tempo voa e a gente nem percebe! E o pior é que agora o sol já está alto e eu, com minha pele de tez moreno-hipoglós, não tenho a mínima condição de enfrentá-lo. Paciência. Fica pra mais tarde, então…

E, nesse meio tempo, entre o começo do dia e o final da tarde, fiz aquelas faceiras coisas corriqueiras que um bom sujeito de férias sempre costuma fazer… Isso mesmo. Se eu não estava consertando alguma coisa, estava furando, quebrando, refazendo ou montando. Isso fora um relatório que tive que encaminhar para o serviço, já trabalhando no “modo certo de operação”. Mais a necessidade financeira absoluta de fazer as declarações de imposto de renda em casa – minha e a da Dona Patroa – e o dia acabou-se num átimo (não é ótimo usar palavras que muitos de vocês jamais ouviram?)…

Seis da tarde! Pouco mais de doze horas depois do planejado, mas já num clima agradável, sem sol pra castigar e ainda com o dia claro o suficiente para um bom exercício! Peguei meu bom e velho par de tênis de corrida comprado especialmente para esse fim há cerca de uns quatro anos – e pelo qual paguei quase um caldeirão de sestércios! Curioso que após tantos anos ele encontra-se praticamente novo. A marca deve ser realmente muito boa!

Fui ter para com meu filhote mais velho:

– Filho.

– Oi, pai?

– Vou dar uma saída, tá bom? Se sua mãe chegar, diga que fui correr e já volto.

– VOCÊ vai correr, pai?

– Vou, lógico! Pelo menos uns dez quilômetros!

– HUAHUAHUAHUAHUAHUA!!!!

– (…)

Diacho. Só não corto a mesada desse moleque porque ele não tem.

Pois bem. Lembrando de um artigo do dr. Drausio Varella que li recentemente, resolvi seguir o conselho do nobre médico: alongamento pra quê? Afinal de contas, meu corpo ainda estava despertando para a ginástica! Acocorei-me, dei umas esticadas, umas estraladas na coluna, quase fui atropelado ao atravessar a avenida, olhei para diante, pelo meu longo caminho a frente e, antes de começar a corrida, cheguei a uma sábia conclusão.

Melhor diminuir minhas expectativas.

Cinquenta por cento tá bom. Caminho uns cinco quilômetros adiante, aqueço-me o suficiente e volto correndo. Plano perfeito! E lá me fui.

E, absorto em meus pensamentos, depois de horas caminhando em forçada marcha, certamente já tendo atravessado inclusive a divisa da cidade (talvez de mais de uma!) fui me dar conta de onde estava. Coisa de pouco mais de um quilômetro de casa. Na mesma avenida, ainda. Cerca de, sei lá, uns quinze minutos desde minha saída. E suando. MUITO.

Então resolvi diminuir minhas expectativas.

“É. Pro primeiro dia, tá bom, né?”, disse pra mim mesmo. E mim mesmo, confiante, respondeu-me sem pestanejar que voltar correndo não ia rolar. Ah, não ia mesmo!

Olha só: já que eu ia voltar a partir dali e tinha caído pra apenas vinte por cento do plano original (um quilômetro pra ir e outro pra voltar em detrimento dos planejados dez quilômetros), restar-me-ia apenas dez por cento para, de fato, correr – ou seja, o quilômetro de volta, pensando naquele meu joelho latejando e com os parafusos meio que espanando tive que convir comigo mesmo.

O negócio é diminuir minhas expectativas.

Caminho metade da volta e corro o resto. Cinco por cento do plano original. Para um paquiderme sedentário como eu, vamos combinar que tá pra lá de bom! E lá fui eu, caminhando em passo célere, suando como se estivesse debaixo de uma ducha – imaginem se estivesse debaixo do sol? – e vendo todo aquele povo que provavelmente faz suas caminhadas e corridas todos os dias (aliás, tenho certeza que já vi essa morena passar por mim por pelo menos duas vezes!). Ao longe, cada vez menos, minha casa se aproxima e meu ânimo para começar a correr é diretamente proporcional à minha vontade de tomar uma cerveja gelada…

Então resolvi diminuir minhas expectativas.

Faltando cerca de uns cem metros para chegar em frente de casa eis que começo uma tímida corridinha leve (cara, esse tênis é bom mesmo!), aos cinquenta metros me empolgo e já começo a correr com desenvoltura (por que é que eu não comecei correndo desde o início?), a uns quinze metros já passo a me sentir o próprio Rocky Balboa e resolvo fazer aquele sprint na ponta final da corrida, e, finalmente, suadamente, cansadamente, aos cinco metros finais eu descubro o tamanho da merda que fiz.

Clique na imagem para ampliar!

MEU. JOELHO. FUDEU. MEU. JOELHO.

De Rocky Balboa a Corcunda de Notre-Dame. Ao menos foi assim que eu me senti ao atravessar a avenida de volta para casa. Mardito Varella! Sem fôlego, com o joelho latejando, e maldizendo toda essa tal de “geração saúde” que vive falando das vantagens de se exercitar. Não tinha como piorar.

Mas, na verdade, tinha.

Cadê a chave? Cadê a porra da chave do portão de casa???

Sobre minha mesa, que é onde ela deveria estar, não é mesmo?

Toca a tocar a campainha. De novo. E de novo. E novamente. Não é possível! Com exceção da Dona Patroa, tá todo mundo em casa, que eu sei. O filhote número um deve estar no computador, com seus fones editando algum vídeo, o do meio, em seu quarto curtindo com seus fones alguma música que baixou no celular, o caçula, com seus fones, afundado nas almofadas do sofá jogando o tal do DS, e, por fim, meu sogro, sem fones, porém – será que já não falei isso antes? – surdo como uma porta. De carvalho. Dupla.

E meu joelho doendo.

Após muita insistência (ou sorte, ainda não sei) o filhote mais velho veio abrir o portão. Rindo.

– E daí, pai? Correu os dez quilômetros?

– Gnagnagnagnagnagna…

– Pelo menos cinquenta por cento disso?

– Humpf.

– Tá, pai. Ao menos fala quantos por cento você de fato correu!

– Um por cento…

– O QUÊ???

– Um por cento, tá! Isso mesmo. Ou quase, ao menos…

– HUAHUAHUAHUAHUAHUA!!!!

– (…)

Diacho. Só não deserdo esse moleque porque não tenho herança nenhuma pra deixar.

O que me leva a uma interessante conclusão… Na casa de um homem, seu sacrossanto lar, seu refúgio, seu castelo, a regra é muito clara: ou se tem respeito ou se tem filhos. Os dois juntos? Impossível!

Bem, enfim, foi isso. Após toda essa desventura ao menos pude tomar uma boa ducha para recolocar cada pedaço de mim de volta ao seu devido lugar. Detalhe: pouco antes de entrar para o banho a Dona Patroa ligou, dizendo que estava no supermercado e perguntando se eu queria alguma coisa. “Uma cervejinha, pode ser?” E, pasmem, ela concordou! Ao menos algo daria certo no final do dia. Nada como relaxar, limpo, exaurido e refrescado, tomando uma breja estupidamente gelada!

E já estava eu na varanda, quando ela veio subindo as escadas.

– A-mô-or… Cheguei!

– Ah, como diria aquele outro, Sua Linda! Você trouxe de verdade o que disse que iria trazer?

– Claro!

– Ah, que belezinha!

– E já tá até geladinha!

– Jura?

– É, sim. Toma aqui a sua cervejinha sem álcool…

– Oi?

Carái! Eu sabia. Eu sabia que ainda ia ter que pagar por ter jogado ela cama afora hoje pela manhã.

Mas – que putz! – precisava ser tão já?… :-/

Férias – agora começou de verdade!

Você só consegue perceber que REALMENTE está de férias quando a vida à sua volta está dentro da normalidade do dia-a-dia, exceto você.

E somente agora, nesta primeira segunda-feira após o Carnaval, é que o ano começou de verdade… Criançada na escola, Dona Patroa enfrentando novos desafios de volta ao velho trabalho, meu povo ralando lá no meu trabalho, e, ainda que não vá viajar para lugar nenhum, posso ficar aqui, totalmente relaxado, descansando, pronto para…

– Mieko ligou Terefônica?

– Oi?

Era meu sogro. Com uma conta de telefone na mão e um olhar inquiridor pra mim, pois faz dias que o telefone dele está mudo…

– Então. Mieko ligou Terefônica. Quando arruma, né?

Péraê. Deixa eu matar esse negócio no ninho. Liguei pra Dona Patroa pra saber o que é que estava pegando.

– Ah, eu já liguei lá e eles já vieram fazer uns testes. Parece que o problema não é pra lá do poste, mas do lado interno da casa mesmo…

Taquiôspa!

Olho para aquele bondoso velhinho nipônico, com um acolhedor sorriso interrogativo – e surdo como uma porta de carvalho.

– Pode deixar que eu vou dar uma olhada…

– Eh?

– EU! VOU! VER! O QUE TÁ! ACONTECENDO!

– Ah, tá.

E lá se foi ele e cá fiquei eu sabendo que estava fudido…

Bem vamverssaporra. Peguei um aparelho telefônico e fui na caixa de entrada da casa. Conectei os fios descascados. Com sinal. Fui até o ponto onde fica o aparelho dele e desmontei a caixinha. Conectei os fios descascados. Sem sinal. Fudeu. O ponto de desconexão estava em algum lugar no meio do caminho. E, por caminho, entenda-se a fiação que vem desde a frente da casa, passando por todo o tétrico emaranhado de fios que fica no forro até o ponto do telefone dele. Merda. E vai o jamanta aqui entrar na porra do forro da casa, andando agachado por cerca de uns 30 metros, com o sol literalmente cozinhando as telhas – e eu junto. Muito próximo de espanar os parafusos do meu joelho, consegui achar o defeito: havia rompido um dos fios numa emenda entre a fiação interna e a da rua. E por um acaso eu estava com as ferramentas pra consertar isso? Nããããããooo… Volta, pega o necessário, sobe de novo, nova maratona, refaz a conexão e pronto! Telefone funcionando perfeitamente!

Feliz da vida, suado, cansado, empoeirado e cheio de teias de aranha cobrindo meu corpo, fui lá contar pra ele que agora o telefone estava funcionando.

– Ah, tá.

Toda vez que ele responde com esse “Ah, tá”, num tom extremamente peculiar, significa que ele não ouviu absolutamente nada do que a gente tenha falado. Paciência.

Aproveitei que estava com a mão na massa – e já fudido mesmo – e resolvi consertar uma das arandelas de frente de casa que estava lá, toda desmilinguida, pendurada somente pelos fios. Muito provavelmente algum vento forte deve ter feito isso. Mas isso é só para me enganar. Muito mais provavelmente ainda deve ter sido alguma bolada de algum dos filhotes…

Após desmontá-la, limpá-la e avaliar o tamanho do estrago (tinha rompido o fundo que a prende à parede), para solucionar o problema nada como um bom e velho trabalho feito de improviso com peças alternativas e com design informal. Isso mesmo. Uma gambiarra!

Mas péra lá! Comigo não é assim não! Gambiarra tem que ter classe e não pode aparecer! Consegui adaptar uma arruela de bicicleta na parte desmilinguida da rosca da arandela e tudo certo. Como é? Não entenderam? Não se preocupem. O que importa é que está lá, firme e provavelmente melhor que antes!

E, como dizia um antigo estagiário, “já que está no inferno, abraça o capeta”. Então resolvi dar uma checada no registro da pia da cozinha que estava vazando. Até porque a Dona Patroa também já estava pegando no meu pé para consertar esse vazamento. Acho incrível isso! Vocês mulheres são todas iguais! Quando nós, homens, dizemos que vamos consertar alguma coisa, nós vamos consertar essa alguma coisa. No nosso tempo e no nosso ritmo. Não tem a mínima necessidade de vocês ficarem nos cobrando a cada seis meses…

Bem, como eu dizia, uma vez que a cozinha faz parte da ala nova da casa, pós reforma, tive que descobrir onde ficava o registro geral dela. Adivinhem onde ficava? Isso mesmo! No forro, junto da caixa d’água. O que significou também uma nova incursão ao abafado mundo das teias de aranhas…

Uma vez desmontado, avaliado, sopesado, registrado, carimbado, rotulado e seja lá mais o que for, pude chegar a duas conclusões. A boa notícia é que o registro estava perfeito. A má notícia é que continuava vazando.

Mas como? O problema é que a parte possível de se desmontar de um registro, onde estão as borrachas, roscas, travas, etc, estava em perfeitas condições. De modo que ao checar mais detalhadamente percebi que o vazamento vinha da parte de baixo do registro. Algo mais ou menos assim:

Perceberam o tamanho do enrosco? Somente quebrando a parede é que vai ser possível encontrar o vazamento…

É… De fato minhas “férias” começaram bem. Isso porque, fora inúmeras outras pequeninas coisas da casa que clamam por minha atenção, ainda vou ter que pintar a garagem!

Isso fora o novo sofá que eu fiquei de criar, desenhar e construir.

Mas essa já é uma outra história… 😉

Pedaço de mim

Diana Corso

Por que os amores fracassados, as dores de corno, os abandonos, são tão prolíficos na canção, na poesia, tanto quanto ou, talvez, tanto mais do que a paixão? Porque o fim do amor é traumático. Ex-amantes são pedaços perdidos, metades afastadas de nós. Levam consigo um destino que recusou-se a continuar, partem carregando em seus braços aqueles que deixamos de ser, aqueles que sonhamos juntos em tornar-nos um.

Ao rever o passado, tendemos a sentir-nos trapaceados pelos próprios sentimentos. Como foi que me iludi tanto, que escolhi tão mal? Repentinamente aquele que se desejou torna-se um estranho e o amor parece propaganda enganosa, um feitiço que se desfez, revelando alguém que nada vale aos nossos olhos.

Não creio que nos equivoquemos tanto. Por vezes no fim da história não se vive feliz para sempre: a gente se perde, ou apenas escolhe caminhos que tornam-se incompatíveis, mas por certo alguma estrada, boa ou ruim se percorreu juntos. Aquele a quem amamos não é uma pessoa imutável, ele também é resultado do casal que formou. Contemplá-lo, agora afastado de nós, é também ver o resultado disso. Se encontrarmos duas pessoas idênticas ao que eram, então a suspeita do engano se confirma: não houve relação, apenas ilusão.

Mesmo complicados, os amores foram escolhas e deixam marcas no destino que não podem nem devem ser apagadas. Há músicas, cheiros, fotografias, gestos íntimos, que são oriundos daquele laço. Tudo o que vivemos intensamente nos modifica; assim, somos filhos dos amores que tivemos e deles ficamos órfãos.

Pior do que suportar a perda daquilo que se sonhou e viveu juntos é encontrar no lugar do amor que se teve um buraco negro que nos traga. Já conheci esse desespero, já vi um olhar vazio aparecer num rosto em que antes me reconhecia. Sei que todo divórcio é de si mesmo. A sensação que o encontro com um ex-amor recente causa é de cair num abismo, é como se o corpo se dissolvesse.

Por um tempo, seremos pessoas fantasma, até que um dia, passando por um espelho, descobrimos que nossa imagem voltou a estar lá. Vampiros não se enxergam porque perderam todo o sangue próprio. É assim que nos sentimos quando separados: esvaziados. Aos poucos, felizmente, a vida começa a pulsar novamente e podemos voltar a refletir uma imagem. Só que, agora, marcada pelos traços daquele olhar que uma vez escolhemos para nos refletir.

Acabou, mas existiu.

( Crônica publicada na revista Vida Simples, de FEV/2015 )

Dançando até cair

Um dia eu ainda gostaria de dançar assim. Por mais avesso que eu seja a danças! Dançar solto, descompromissado, sem senões, sem dedos em riste, sem esperar, sem cobrar, sem querer – mas querendo, no ritmo que quiser, do jeito que aprouver, virando, torcendo, cantando, com alegria, com vontade, com desejo, com parceria, com olhos nos olhos e coração com coração… Até a exaustão!

E vocês? Já têm seu par?

Realidade paralela

– Roooonc… Hm? Oi?

– Bom dia, mocinho.

– Aff… Bom dia, amor…

– Bonito, hein?

– Você também!

– Não é nada disso! Você tem ideia da condição em que o senhor chegou ontem? Ou, no mínimo, tudo que fez desde que pôs os pés em casa?

– Não…

– E então? Quer saber?

– Cá entre nós, amor: eu vou gostar da resposta?

– Nem um pouco.

– Então, não.

– Tá. Vem tomar café, que já está na mesa (beijo).

– ?????????????????????????????????

(Será que alguém pode me beliscar, me acordar ou então me contar em qual realidade paralela eu vim parar???)

Goin’ crazy…

— Onde você vai?

— Vou sair um pouco.

— Vai de carro?

— Sim.

— Tem gasolina?

— Sim. coloquei.

— Vai demorar?

— Não. Coisa de uma hora.

— Vai a algum lugar específico?

— Não. Só rodar por aí.

— Não prefere ir a pé?

— Não. Vou de carro.

— Traz um sorvete pra mim!

— Trago. Que sabor?

— Manga.

— Ok. Na volta eu passo e compro.

— Na volta?

— Sim. Senão derrete.

— Passa lá, compra e deixa aqui…

— Não. Melhor não! Na volta. É rápido!

— Ahhhhh!

— Quando eu voltar eu tomo com você!

— Mas você não gosta de manga!

— Eu compro outro. De outro sabor.

— Aí fica caro. Traz de cupuaçu!

— Eu não gosto também.

— Traz de chocolate. Nós dois gostamos.

— Ok! Beijo. Volto logo…

— Ei!

— O quê?

— Chocolate não. Flocos.

— Não gosto de flocos!

— Então traz de manga prá mim e o que quiser prá você.

— Foi o que sugeri desde o começo!

— Você está sendo irônico?

— Não tô! Vou indo.

— Vem aqui me dar um beijo de despedida!

— Querida! Eu volto logo. depois.

— Depois não. Quero agora!

— Tá bom! (Beijo)

— Vai com o seu ou com o meu carro?

— Com o meu.

— Vai com o meu. Tem cd player. O seu não!

— Não vou ouvir música. Vou espairecer.

— Tá precisando?

— Não sei. Vou ver quando sair!

— Demora não!

— É rápido. (Abre a porta de casa)

— Ei!

— Que foi agora?

— Nossa! Que grosso! Vai embora!

— Calma. estou tentando sair e não consigo!

— Porque quer ir sozinho? Vai encontrar alguém?

— O que quer dizer?

— Nada. Nada não!

— Vem cá. Acha que estou te traindo?

— Não. Claro que não. Mas sabe como é?

— Como é o quê?

— Homens!

— Generalizando ou falando de mim?

— Generalizando.

— Então não é meu caso. Sabe que eu não faria isso!

— Tá bom. Então vai.

— Vou.

— Ei!

— Que foi, cacete?

— Leva o celular, estúpido!

— Prá quê? Prá você ficar me ligando?

— Não. Caso aconteça algo, estará com celular.

— Não. Pode deixar.

— Olha. Desculpa pela desconfiança, estou com saudade, só isso!

— Ok, meu amor. Desculpe-me se fui grosso. Tá… eu te amo!

— Eu também! Posso futricar no seu celular?

— Prá quê?

— Sei lá! Joguinho!

— Você quer meu celular prá jogar?

— É.

— Tem certeza?

— Sim.

— Liga o computador. Lá tem um monte de joguinhos!

— Não sei mexer naquela lata velha!

— Lata velha? Comprei pra a gente mês passado!

— Tá… Ok. Então leva o celular senão eu vou futricar.

— Pode mexer então. Não tem nada lá mesmo.

— É?

— É.

— Então onde está?

— O quê?

— O que deveria estar no celular mas não está.

— Como?

— Nada! Esquece!

— Tá nervosa?

— Não. Tô não.

— Então vou!

— Ei!

— O que ééééééé, caralho?

— Não quero mais sorvete não!

— Ah é?

— É!

— Então eu também não vou sair mais não!

— Ah é?

— É.

— Oba! Vai ficar comigo?

— Não vou não. Cansei. Vou dormir!

— Prefere dormir do que ficar comigo?

— Não. Vou dormir, só isso!

— Está nervoso?

— Claro, porra!

— Então por que você não vai dar uma volta para espairecer?

Quer namorar comigo?

Outro dia, por conta de alguns conversê meio que sem pé nem cabeça, veio ao mote o seguinte assunto: “como foi que pedi minha esposa em casamento”.

Com o sorriso enviesado e a orelha direita em pé, intimamente me diverti com o tema. Levou-me de volta à adolescência – afinal de contas, ainda que muitos digam o contrário, EU também já fui adolescente… E não pude deixar de lembrar o que é gostar de uma menina e ficar ensaiando e planejando, querendo “pedi-la em namoro”

Com os pés firmemente plantados no chão viajei para um outro tempo e lugar onde eu mesmo gostaria que houvesse alguém para me responder essa pergunta. Dos gracejos e namoricos de criança-adolescente, quando as amigas passam a ser mais que amigas; quando, sem saber explicar o porquê, queremos ficar cada momento do dia curtindo uma conversa ou mesmo um silêncio ao lado daquela menina que tanto nos faz feliz; quando a ausência é pontuada pela constante lembrança daquela que não está presente – e que gostaríamos que estivesse; quando não temos a coragem necessária para querer ir além, simplesmente pelo medo de estragar tudo que está tão bom. Platônico, sim, eu sei, mas qual adolescente já não passou por isso?

Voltando devagar ao futuro – e presente – rememoro cada uma das minhas próprias paixões adolescentes e, não sem um quê de vergonha ou frustração, lembro-me da primeira vez que gostei tanto, mas tanto, de uma menina que criei coragem suficiente e a pedi em namoro. “Não”, foi sua resposta. Naquele momento uma gigantesca bigorna gelada afundou em meu estômago e, com o solavanco, senti que meu coração simplesmente parou de bater. Sorri e, senhor de minhas emoções, disse-lhe que tudo bem (lógico, depois de insistir mais um bocadinho) e que não queria que aquilo comprometesse nossa amizade e a maneira tão gostosa com a qual nos relacionávamos, etc, etc, etc. Para meu alívio, ela concordou! Para meu desespero, ela concordou… Acho que chorei uns três dias seguidos, escondido de tudo e de todos, tendo ficado frustrado para o resto da vida. O que durou mais ou menos umas duas semanas.

Anos depois eu tive a cavalar estupidez de repetir a dose. E, pior, totalmente fora de mim, embevecido que estava. Desta vez o “não” foi veemente e a possibilidade de se manter uma amizade escorreu para o meio-fio, junto com o resto derretido de mim.

Talvez tenha sido aí que percebi.

Essa construção Hollywoodiana daquele momento esperado em que, no ápice do filme, o mocinho pede a mão da mocinha e ela, tenra e docemente diz “sim”, bem, isso praticamente não existe. Digo “praticamente” porque, ainda assim conheço uma ou outra exceção… Mas nós, meros mortais, assalariados que somos e preocupados quando muito com o dia de amanhã – pois o depois de amanhã ainda está muito longe – não me parece que tenhamos essa nota romântica ressonando de forma tão clara em nosso dia a dia, a não ser no próprio contexto do cinema e da literatura.

Não que não exista romantismo – longe disso!

Eu mesmo tendo a me considerar um romântico… Sei que parece uma afirmação até um tanto quanto pretensiosa, mas é verdade!

Entretanto aprendi que a vida não necessariamente é romântica, como nas grandes estórias de amor. Explico. Se você está com a pessoa amada, ainda que nunca tenha se declarado, e a situação é propícia, e as estrelas estão alinhadas, e os deuses os favorecem, e seu olhar diz que sim, e seus lábios sorriem, convidativos, então o momento É esse e a hora É agora. Meras palavras e pedidos não serão capazes de expressar a ebulição de dois corpos que se desejam e que querem e precisam se tocar, se conhecer e se completar.

O coração vai acelerar, uma tontura vai se apoderar de ambos e, com sofreguidão, se conhecerão milímetro por milímetro, rosto com rosto, boca com boca, sorriso dentro de sorriso… E, ao se separarem, irão se encarar olhos nos olhos, sorrisos nos lábios, com um ou dois rápidos beijos como que para se certificar que tudo aquilo realmente está acontecendo. E vão se abraçar, terna e carinhosamente, sentindo o calor e a pulsação um do outro. E então terão a mais absoluta certeza: os filmes mentem, pois na vida real palavras são desnecessárias. É certo que o cavalheirismo ainda é necessário e indispensável, mas é humanamente impossível tentar buscar a formalidade para com aquilo que foi criado para ser informal.

Ou seja, sempre haverão situações propícias, surgidas ou planejadas, mas momentos – ah, os momentos! – estes são únicos!

E torço sinceramente para que você, que lê este texto, não seja nem ao menos a metade do romântico que já fui. Pois, francamente, apaixonar-se não é fácil e muito menos indolor. Mas, por outro lado, ser assim e ser correspondido é de um êxtase tal que se torna completamente impossível de descrever!

Pura felicidade em estado sólido.

E assim, com essa breve digressão, finalmente voltamos ao mote principal, que ensejou este texto…

Imagem e Ação

– Não tem o menor cabimento!

– Como não? Não é para compartilharmos tudo? Então?

– Meu amor (tom de paciência e resignação após respirar profundamente), entenda que MEU Facebook é MEU Facebook! Não faz o menor sentido você utilizá-lo para postar as suas coisas!

– Ah, é? Mas se eu não posso utilizar nem mesmo o meu, então isso significa dizer que eu posso utilizar o seu!

– Você que utilize o seu do jeito que quiser!

– Ah, mas agora eu até já apaguei ele.

– Nem me venha com essa. Você sabe que a qualquer tempo dá pra recuperar tudo. Você já fez isso muito mais de uma vez!

– Escuta: de que adianta eu ter o meu Facebook se eu não posso colocar aquilo que quero? Você não deixa!

– Não é que eu não deixo, mas toda vez que você muda sua senha e eu não consigo acessar o seu Face, acabo ficando desconfiada, né?

– Desconfiada de quê? Em todos esses meses que estamos juntos já lhe dei motivos pra não confiar em mim?

– Ah, você deve estar brincando, né? E aquelas sirigaitas que ficavam flertando com você no Inbox?

– Não, mas aquilo não tinha nada a ver…

– Ah, não? Tá bom. Faz de conta que eu acredito.

– Mas aquilo foi passado…

– Passado ou não, não interessa. Você tem o SEU Face e se quiser publicar alguma coisa que vá na timeline do SEU Face.

– Como se eu pudesse.

– Ah, não pode, é?

– Não. VOCÊ não deixa! Toda vez que eu coloco meu posicionamento político ou tento encorajar algum movimento social, você vem me dizer que aquilo vai te prejudicar de alguma forma!

– Acontece que você não pensa! Tudo o que você vê é a necessidade de escrever o que quer, de colocar sua posição! E eu, como fico? Seu “posicionamento político” é totalmente diferente do meu, não dá pra deixar, na minha própria timeline, que as pessoas pensem que eu concordo com aquilo que você escreve!

– Tá vendo? Tá vendo? É esse o problema: você me sufoca. Eu fico travado, não posso falar o que penso, não posso sequer discutir aquilo que acredito ser o certo. Que culpa eu tenho se o MEU certo é diferente do SEU certo?

– O problema não é esse. O problema é que você vende uma imagem de “salvador da pátria”, do lutador, do batalhador, de alguém que respira revolução. Como se na vida real você fosse assim! Acho que é esse realmente o problema: sua imagem na Internet é mais importante que nosso relacionamento! Desse jeito não é possível!

– Ah, imagem, é? Então vamos falar de imagem. E você, então? Você é a pessoa mais antissocial que eu conheço. Entre sair com meus amigos e ficar em casa vendo filmes e séries baixados da Internet, você não pensa duas vezes! Aquela moça cheia de sorrisos, cheia de energia, toda atleta e tudo mais que aparece nas fotos da sua timeline simplesmente não é a mesma pessoa que passa por essa porta todas as noites!

– (…)

– Ah, não acredito! Ficou sem resposta, né? A verdade dói, não é mesmo? E é por isso que, já que eu não posso fazer o que quero no meu Face, então vou usar o seu Face pra isso. Daí você vai ter o gostinho de sentir a mesma sensação que senti em todos esses meses: violado moralmente!

– Se tá tão ruim assim, então por que é que ainda estamos juntos?

– Eu gosto de você. Eu te amo! Mas não posso deixar minhas convicções de lado.

– Suas convicções… Sua imagem, isso sim!

– Que seja, mas é o que sou – e não vou mudar!

– Olha, se o problema é a Internet, então vamos fazer o seguinte: não deixe de ser quem você é. Vamos ficar fora disso. Por um tempo. Sei lá, vamos tentar… Por favor?

– Como é que é? E como vou pagar minhas contas? E os e-mails com meus contratos? E a publicidade pelo Face? E a política?

– Dá pra fazer tudo isso sem Internet…

– Meu amor, entenda: não existe vida sem Internet.

E assim terminou aquela discussão. Naquele momento. De modo fulminante. Não havia mais nenhum argumento. Nada mais a declarar. E naquela noite foram se deitar. Emburrados, enfezados, cada qual com um nó na garganta. E agora? Como continuar? Voltar atrás? Permanecer daquele jeito? Sem respostas, assim dormiram. Bunda com bunda.

Mas, por sorte ou por azar, quis o Destino se intrometer nessa briga, inserindo um inesperado capítulo nessa novela que estava longe de acabar. Em se falando do mundo da informática como vilã, eis que, exatamente por uma providencial confusão no processamento de dados nos computadores do banco, os débitos em conta não caíram no cartão de crédito. E assim, menos de um dia depois da desavença, viram-se eles chegando em casa tarde da noite enfrentando um breu sem saber o porquê. Sem energia. Sem telefone. Sem celular. E, obviamente, sem Internet.

No começo foi esquisito. Não tinham como se mover naquela escuridão. Lanternas? Quem tem isso nos dias de hoje? E, ainda que tivessem, as pilhas já teriam se esgotado. Velas? Nem de aniversário. Mas tinham aquelas aromáticas! O jeito era espalhar as poucas existentes pela casa.

E assim foram tomados por aquele novo e estranho ambiente de aconchegante e perfumada penumbra…

No dia seguinte, cada qual em seu canto, cada qual em seu trabalho, ambos ainda tentaram – sem sucesso – vencer a confusão que o computador lhes proporcionou. Continuavam desconectados do mundo. Nem mesmo os celulares permitiam acesso! Mas a vida continua e as contas vencem nos prazos de sempre. Com o cartão bloqueado a saída era pegar a fila no banco. Audácia! Imaginem, nos dias de hoje, serem submetidos a uma forma tão arcaica de atitude.

– E aí, sujeito!

– Hm? Ah, oi. E aí, moça, há quanto tempo, hein?

– Só se for pra você! Que acontece? Faz uns dois dias que não te vejo online…

– Ah, não. Só tô dando um tempinho, sabe? Internet demais, sabe como é…

– Ah, não sei não! Eu não consigo ficar um dia sem saber o que está acontecendo! Mas – nossa – não sabia que você estava assim com o cabelo grisalho. Sua foto lá está diferente…

– É… Tá meio velha, né?

– Não sei porque não atualiza. Ficou bem assim. Na verdade, se pensarmos bem, acho que já tem meses que nos vimos pessoalmente!

– É mesmo! Foi quando nasceu seu filhote! Como está o bebê?

– Já está andando, rapaz! Você realmente tá fora do mundo real, hein?

E foi assim, com aquela frase final na cabeça, que naquela noite ele voltou para casa começando a vislumbrar e perceber o quanto de razão poderia haver em tudo aquilo. E ambos conversaram sobre isso, conversaram muito mesmo, pra tentar se entender. E, agora já sob a luz de velas de verdade emolduradas num belo castiçal que ela havia encontrado num brechó durante o dia, jantaram animadamente – como há muito não o faziam – e brindaram com suas já não mais empoeiradas taças de vinho. Por um breve momento quase lamentaram a falta de um Instagram para registrar o momento – mas, afinal, isso serviria para quê? Só pra fazer inveja a quem quer que seja? Bobagem. A vida a dois era muito mais importante. E, desde que se conheceram – pela Internet, diga-se de passagem -, pela primeiríssima vez estavam tendo uma noite a dois, sem a presença da multidão onipresente que invariavelmente os cercava: e-mail, blogs, Facebook, Twitter, Instagram, Foursquare, WhatsApp, GTalk, e sabe-se lá quantas outras “ferramentas” inventadas para trazer a comodidade que eles simplesmente não precisavam.

Mas que também não sabiam inexistir.

Simplesmente por forças ocultas alheias – sim, o Universo conspira quando necessário – ambos se viram obrigados a viver uma vida desconectada. Por mais tempo que imaginavam e, o que no início era um desconforto, passou a ser uma cotidiana busca de opções. Nada de filmes ou seriados na portentosa TV de cinquenta polegadas – por não poder baixá-los e, muito menos, assisti-los. Compartilhar livros começou a tornar-se um hábito e discutir – no bom sentido da palavra – o posicionamento de cada qual com relação aos autores, mais ainda. Receber (e conhecer) amigos de um de outro, também. O que era a princípio estranho para as visitas, tornou-se um charme. Motivo de comentários nas redes sociais – dos quais eles sequer tomavam conhecimento. Sem energia o negócio era improvisar, de modo que sempre tinha alguém com um violão, uma flauta e – pasmem! – até mesmo um violino, numa memorável noite de foundue!

O problema tão digladiado na origem perdeu-se na memória, pois não havia – nem por parte de um nem por parte de outro – nenhuma necessidade de “passar uma imagem” de quem pretendiam ser. Pois, do ato ao fato, passaram efetivamente a sê-lo. Até mesmo a política, essa eterna controversa, passou a ser melhor compreendida entre ambos. Não que tenham mudado seu posicionamento – jamais! Entretanto, por pura falta de opção, se viram obrigados a entrar um na cabeça do outro e compreender o que cada um pensava e se forçar a rever suas próprias íntimas convicções, sem ninguém para “curtir” ou “comentar” algum eventual desabafo de momento. E, como sempre, respeito gera respeito.

Mas, como dizia o poeta, tudo que é bom um dia acaba.

E os computadores resolveram fazer as pazes e solucionaram os problemas de débitos e créditos pelo qual tanto tempo foram submetidos.

Numa bela noite de sábado, após um revigorante dia com amigos de ambos na piscina do condomínio (sim, lá havia uma piscina na qual jamais haviam sequer chegado perto), entre confusos e ofuscados entraram naquela estranha casa toda iluminada para só então descobrir que era a mesma em que moravam. E ela lhes pareceu apática e sem personalidade. Jantaram cabisbaixos e foram dormir em silêncio. E agora? Como continuar? Voltar atrás? Permanecer daquele jeito?

No dia seguinte resolveram tomar seu café da manhã fora, como também há muito não faziam. Aquela casa agora era estranha, cheia de sons silenciosos e zumbidos ocultos que lhes testavam a compreensão. E, mais uma vez, conversaram, conversaram muito pra tentar se entender.

E assim o foi. A televisão, venderam. Os computadores, também. Os tablets e notebooks viraram presentes para filhos de amigos.

Como sei de tudo isso? Encontrei-os há pouco, na usual “feira do rolo” de domingo, aqui perto de casa. Tinham acabado de fazer uma troca, com um atônito rapazinho, em que entregaram seus ultramodernos smartphones por aparelhos da década passada, somente de teclas e ainda com aquele visor verde. De quebra estavam levando também uma coruja de madeira e uma bomba de ar, daquelas antigas, para encher o pneu de suas bicicletas.

– Uai? Depois de tudo isso, celulares, é, moça?

– É. Não dá pra fugir de tudo, né? Mas somente daquilo que for possível…

– Tãotáintão. E no mais?

– No mais? A vida continua!

E foi assim, olhos nos olhos e sorrindo, que os vi desaparecer de mãos dadas no meio daquela multidão de pessoas reais.

Sobre casamentos

Em tempos de Internet sempre é salutar duvidar da autoria de determinados textos. Já cheguei ao cúmulo de encontrar um texto criado e assinado por Drummond em 2005. Detalhe: ele faleceu em 1987…

Aliás, acho que um dos papas em receber atribuições de textos deve ser o coitado do Luís Fernando Veríssimo. Como lhe atribuem palavras alheias! O bom é que, como sempre costumo dizer, todo texto tem sua “impressão digital”, de modo que para certos absurdos não precisamos sequer chegar ao final da leitura para ter a mais absoluta certeza de que NÃO é de determinado autor.

Assim também invariavelmente acontece com Arnaldo Jabor. O problema é que não conheço o suficiente do que ele realmente escreveu para poder identificar sua “marca”. Entretanto encontrei esse texto, compartilhado lá no Face pela amiga Marisa, e achei bastante interessante! Encontrei-o com sob os mais variados títulos, prevalecendo três: “Divórcio”, “Casamento Perfeito” e “Casar-se de novo”. Como gostei mais deste último – parece-me ter mais a ver com a mensagem da crônica – adotei-o como verdadeiro. Mas posso estar errado. Inclusive quanto ao autor. Paciência.

Bem, sendo ou não sendo, compartilho-o aqui para que meus quase quatro leitores possam também se deleitar com uma fórmula simples e tão óbvia quanto inusitada acerca das relações!

Casar-se de novo

Meus amigos separados não cansam de perguntar como consegui ficar casado 30 anos com a mesma mulher. As mulheres sempre mais maldosas que os homens, não perguntam à minha esposa como ela consegue ficar casada com o mesmo homem, mas como ela consegue ficar casada comigo.

Os jovens é que fazem as perguntas certas, ou seja, querem conhecer o segredo para manter um casamento por tanto tempo. Ninguém ensina isso nas escolas, pelo contrário. Não sou um especialista do ramo, como todos sabem, mas dito isso, minha resposta é mais ou menos a que segue:

Hoje em dia o divórcio é inevitável, não dá para escapar. Ninguém aguenta conviver com a mesma pessoa por uma eternidade. Eu, na realidade já estou em meu terceiro casamento – a única diferença é que casei três vezes com a mesma mulher. Minha esposa, se não me engano está em seu quinto, porque ela pensou em pegar as malas mais vezes que eu. O segredo do casamento não é a harmonia eterna. Depois dos inevitáveis arranca-rabos, a solução é ponderar, se acalmar e partir de novo com a mesma mulher.

O segredo no fundo é renovar o casamento e não procurar um casamento novo. Isso exige alguns cuidados e preocupações que são esquecidos no dia-a-dia do casal. De tempos em tempos, é preciso renovar a relação. De tempos em tempos é preciso voltar a namorar, voltar a cortejar, seduzir e ser seduzido.

– Há quanto tempo vocês não saem para dançar?

– Há quanto tempo você não tenta conquistá-la ou conquistá-lo como se seu par fosse um pretendente em potencial?

– Há quanto tempo não fazem uma lua-de-mel, sem os filhos eternamente brigando para ter a sua irrestrita atenção?

Sem falar dos inúmeros quilos que se acrescentaram a você depois do casamento. Mulher e marido que se separam perdem 10 kg em um único mês – por que vocês não podem conseguir o mesmo? Faça de conta que você está de caso novo. Se fosse um casamento novo, você certamente passaria a frequentar lugares novos e desconhecidos, mudaria de casa ou apartamento, trocaria seu guarda-roupa, os discos, o corte de cabelo, a maquiagem. Mas tudo isso pode ser feito sem que você se separe de seu cônjuge.

Vamos ser honestos: ninguém aguenta a mesma mulher ou o mesmo marido por trinta anos com a mesma roupa, o mesmo batom, com os mesmos amigos, com as mesmas piadas. Muitas vezes não é a sua esposa que está ficando chata e mofada, é você, são seus próprios móveis com a mesma desbotada decoração. Se você se divorciasse, certamente trocaria tudo, que é justamente um dos prazeres da separação. Quem se separa se encanta com a nova vida, a nova casa, um novo bairro, um novo circuito de amigos.

Não é preciso um divórcio litigioso para ter tudo isso. Basta mudar de lugares e interesses e não se deixar acomodar. Isso obviamente custa caro e muitas uniões se esfacelam porque o casal se recusa a pagar esses pequenos custos necessários para renovar um casamento. Mas se você se separar sua nova esposa vai querer novos filhos, novos móveis, novas roupas e você ainda terá a pensão dos filhos do casamento anterior.

Não existe essa tal “estabilidade do casamento” nem ela deveria ser almejada (muitas vezes é confundida com “acomodação”, o que é cruel…). O mundo muda, e você também, seu marido, sua esposa, seu bairro e seus amigos. A melhor estratégia para salvar um casamento não é manter uma “relação estável”, mas saber mudar junto .

Todo cônjuge precisa evoluir: estudar, aprimorar-se, interessar-se por coisas que jamais teria pensado em fazer no inicio do casamento. Isso é necessário também no trabalho, por que não na própria família? É o que seus filhos fazem desde que vieram ao mundo. Portanto descubra a nova mulher ou o novo homem que vive ao seu lado, em vez de sair por aí tentando descobrir um novo interessante par.

Tenho certeza que seus filhos os respeitarão pela decisão de se manterem juntos e aprenderão a importante lição de como crescer e evoluir unidos apesar das desavenças. Brigas e arranca-rabos sempre ocorrerão: por isso de vez em quando é necessário casar-se de novo, mas tente fazê-lo sempre com o mesmo par.