Brasil de 17 de abril de 2020: meu diário

Eliane Brum

Acordei hoje com um peso no peito, maior do que o habitual nestes dias. Essa pandemia é como o colapso climático. É tão grande que o nosso cérebro não abarca de uma vez. Mas a cada dia entendemos um pouco mais do que vivemos. E há alguns dias em que a lucidez nos invade como um excesso. No meu livro (Brasil Construtor de Ruínas) relacionei com a morte de alguém que amamos. No primeiro momento, quando acontece, o horror nos invade. E então nosso cérebro imediatamente vai acionando mecanismos para nos fazer viver apesar do horror. E então conseguimos converter o horror em luto e mais tarde superar o luto. Como todos os seres vivos, assim como esse vírus que se reproduz em nós, queremos viver.

Carregando dentro de mim um peso muito maior do que o meu, olhei no calendário para checar que dia era hoje: 17 de abril de 2020. Dezessete de abril sempre será um dia terrível para mim, e acho que isso já está incrustado no meu inconsciente. Acredito que foi um dia terrível para muitos de vocês. Foi o dia em que a Câmara votou o impeachment de Dilma Rousseff. Quem me acompanha sabe o quanto fui – e sou – crítica ao governo de Dilma. Foi um mau governo, em especial para os povos da Amazônia, Cerrado e outros biomas. E se é ruim para estes povo, é ruim para o Brasil. E também para o mundo em emergência climática. Quem me acompanha sabe também o quanto denunciei que o impeachment não tinha base legal, que era um abuso e um desrespeito ao voto e portanto à democracia. Mas não foi este o horror daquele momento.

O horror foi ver as vísceras daqueles deputados, a sua burrice, a sua pequenez, o que aquele amontoado de homens, em sua maioria, revelava sobre quem os havia carregado com seu voto ao parlamento, porque não tinham chegado lá apenas com suas pernas. A maioria deles era asqueroso, era difícil até mesmo escutar seus votos porque só a sua boçalidade era maior do que a sua burrice. E isso, independentemente de ser a favor ou contra o impeachment, os brasileiros que ainda são capazes de enxergar, naquele 17 de abril enxergaram.

Ainda não sabíamos, mas aquele também foi o dia do lançamento da campanha presidencial de Jair Bolsonaro. Ao votar pelo impeachment de Dilma homenageando o mais notório torturador e assassino da ditadura e não ser punido pelo crime de apologia à tortura, ele se tornou presidenciável. Ao votar homenageando o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um homem capaz de torturar até crianças pequenas, e não ser punido, descobriu que podia tudo. Como Bolsonaro declarou então, sempre orgulhoso de sua violência, “Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Dilma então foi torturada mais uma vez, agora no parlamento. E Bolsonaro começou a se tornar o pavor do Brasil.

E aqui estamos nós, quatro anos depois, com o vilão número um do mundo em pandemia na presidência. Um personagem real que nem o cinema-catástrofe de Hollywood foi capaz de imaginar, um antipresidente, um político profissional mandando a população para a rua, tocando nas pessoas, fazendo selfies, disseminando achismos e mentiras em meio à maior ameaça sanitária global em um século.

E aqui estamos nós, com o ministro de Saúde que enfrentou sua perversidade demitido, com um perverso no poder, com um maníaco, levado até lá pelo voto de milhões de brasileiros que hoje, pelas ações criminosas daquele que ousaram eleger, também podem morrer.

Estamos numa pandemia e temos um homem cuja maior realização foi planejar colocar bombas nos quartéis para pressionar por aumento salarial. Que país torto, que justiça nojenta, que instituições covardes tornaram possível um armador de bombas chegar à presidência. Bolsonaro pode matar muita gente, já está matando. Descobriu que seus dedos que fazem arminha, como um moleque de cinco anos, ao pegar a caneta, matam mais do que bala. E aqui estamos nós. Não adianta pensar positivo, vai ser preciso lutar para viver e fazer viver, porque o perverso que está no poder não tem limites.

Espero que um dia Bolsonaro responda pelos seus crimes no Tribunal Penal Internacional. Mas então muitos de nós já estaremos mortos.

Reproduzo aqui um trecho do capítulo do meu livro que conta do 17 de abril de 2016. Foi escrevendo este capítulo que também consegui dar nome ao livro:

O 17 de abril de 2016 tornou explícito que o Brasil não vivia apenas uma crise política e uma crise econômica. Vivia também uma crise de identidade e uma crise de palavra. De ética e de estética. Os holofotes lançados sobre a Câmara dos Deputados, em transmissão ao vivo pela TV, iluminaram o horror. E iluminaram o horror mesmo para aqueles que torciam pela aprovação da abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff. A imagem era grotesca. E a imagem era nossa.

Quem já perdeu alguém que ama sabe que existe um momento em que todas as proteções caem e enxergamos o horror absoluto da morte. Aquilo que não vira palavra. Ninguém consegue viver com esse excesso de lucidez. Mesmo que seja por um instante, ele já deixa uma marca inapagável. De imediato nosso cérebro aciona mecanismos que nos protegem. E dali em diante sabemos que o monstro respira dentro de nossos corpos. Fingimos que ele não está ali. Mas o gosto do seu hálito não sai de nós.

Para mim, assistir à sessão de votação da abertura do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados foi um momento comparável a esse. Não me é possível escrever sobre esse rasgo no espaço/tempo sem tornar essa narrativa mais pessoal. Pelo que vi e ouvi depois, ela foi pessoalíssima para muitos brasileiros. Não que qualquer outro acontecimento importante não seja, mas algo aconteceu ali.

Eu estava no estádio no famoso 7×1 da Copa de 2014. E não vi trauma. Apenas perplexidade. Era como o anúncio de algo que já se sabia. E que finalmente se confirmava. A vida seguia. Aqueles jogadores não eram nós. Há muito aquela seleção não era nossa. O que aquele futebol revelava era justamente que era nosso porque não era nosso.

O 7×1 foi vivido no 17 de abril de 2016, ao assistir pela TV os deputados com as tripas de fora. E balançando-as com orgulho. Defecando literalmente pela boca. E sem capacidade cognitiva para compreender que era merda que suas cordas vocais despejavam sobre o país. Por mais que eu acompanhasse os fatos e conhecesse o Congresso, assistir ao espetáculo da realidade era ser sujeitado ao absoluto do horror. Como no filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, obrigados a seguir olhando. Sem piscar.

O horror só diz do que não podemos dizer. Fechei as cortinas. Me escondi dentro de casa. Literalmente. Sentia uma vergonha profunda. Uma vergonha que era minha e que não era minha. Passei vários dias revendo os filmes de Glauber Rocha e revisitando o Tropicalismo. Precisava reencontrar as palavras naqueles que tentaram nomear o Brasil. Nos movimentos que buscaram inventar um país, naqueles momentos em que quase fomos. E então ruínas, de novo construímos ruínas. Como interpretou A tragédia e a comédia latino-americana, peça de Felipe Hirsch e do coletivo Ultralíricos que, para mim, é a que melhor expressa esse momento. O Brasil é um grande construtor de ruínas. O Brasil constrói ruínas em dimensões continentais.

Naqueles dias, só me senti próxima de mim quando assisti à Terra em Transe. Em transe a terra também era eu.

Idosos de todo o mundo, uni-vos!

Miguel Paiva

Como idoso me sinto ameaçado por este governo. Não que eu seja um idoso de grupo de risco. Aí já me sentiria condenado. Aparentemente sou saudável, faço exercícios, tomo meus suplementos fitoterápicos, faço meus exames regularmente e tirando meu joelho que reclama, me sinto muito bem. Quando era bem mais jovem me sentia ameaçado pela ditadura por ser estudante e depois jornalista. Fui preso por causa disso duas vezes, uma vez em cada categoria. Achava que esses tempos tinham acabado.

Agora, durante a pandemia bolsonariana, a ameaça volta. Como diz minha amiga Emília Silveira, parceira de trabalhos e de quarentena junto com a Angela aqui na serra, o velho de hoje é o judeu de antigamente (ou de sempre).

Alguns países e algumas tribos indígenas consideram o velho muito importante. Eles transmitem a experiência e a sabedoria. São tratados e respeitados como tesouro do grupo, riqueza a ser preservada para servir de exemplo aos mais jovens.

Aqui neste Brasil, os mais velhos viraram lenha de fogueira. Somos seres descartáveis prontos para o sacrifício em troca dos mais jovens, nem sempre merecedores de uma sobrevida. Mas os jovens são força de trabalho, votos de cabresto e elementos úteis nas manifestações animalescas contra a quarentena dentro de seus carros importados.

Os mais velhos, além de já terem vivido seu tempo, segundo o governo custam caro ao Estado. Logo esse Estado que eles querem acabar. A previdência pena para pagar essa grana que poderia estar sendo usada na criação de novas fábricas de armas ou em investimentos na bolsa de valores. Além de tudo, para eles, velhos são feios, não produzem e nem sexo mais fazem.

Mentira deslavada. Produzo como nunca produzi antes, acompanho e critico essa realidade de merda que somos obrigados a engolir. Me sinto bonito, magro e saudável e considero o sexo indispensável tanto como respirar.

Me pego fantasiando o pior. Ir para as ruas escondido, durante a noite para escapar das blitzes anti-idosos. Furgões carregados de velhinhos que teimam em sair levados para os abrigos de segurança máxima e sendo abandonados à própria sorte e a própria solidão.

Fico tão indignado com esse jeito tosco que o brasileiro trata o que já passou. Temos uma das mais belas histórias na MPB, no cinema, na literatura, no teatro, na arquitetura e na pintura. Somos criativos e convivemos com nossos idosos geniais o tempo todo. Agora mesmo perdemos vários deles que demonstram isso. Moraes Moreira com 72, Rubem Fonseca com 94, Garcia- Roza com 84, Rubinho do Zimbo Trio com 87 e por aí vai. Como diria Nelson Rodrigues no seu habitual exagero frasístico genial, “jovens, envelheçam!”

Nem tanto lá, nem tanto cá. Sempre fui a favor dos jovens. Sempre os respeitei e entendi porque sempre me senti jovem, apesar de não ser mais, na idade. Mas agora que os jovens estão sendo contrapostos aos idosos para promover essa escolha de Sofia cruel e que interessa a certos grupos, serei capaz de chefiar a revolta dos idosos contra essa perseguição nazista que se organiza. Segregar assim os mais velhos é determinar o fim da história para este país que já despreza tanto o seu passado.

Iremos para as trincheiras e defenderemos nosso direito de morrer quando a hora chegar e não quando interessar ao mercado. Como diria Moraes Moreira, “chegou a hora desta gente experiente mostrar seu valor”.

Aditamento à Inicial: para complementar leiam também o ótimo texto “Me chamem de velha“.

Não é mais possível fazer vista grossa à violência perversa de Bolsonaro

Jorge Coli

Em contabilidade sinistra, presidente se opõe à ciência e minimiza perigo de coronavírus

Churchill teria dito uma frase assim: “Ele é tão cretino que até a turma dele acabou percebendo”. Cai como uma luva para a atual situação de Bolsonaro, cada vez mais isolado no poder.

Porém, Bolsonaro não se caracteriza apenas por ser cretino. Além de pascácio, seu universo mental é pervertido. Bolsonaro tem as características dos piores ineptos: aqueles que são desumanos. A tal ponto que alguns políticos reles, pelo contraste, estão parecendo nem tão indecentes assim!

Começamos, no Brasil, a contar para além de 2.000 os mortos por coronavírus. Sabemos que esses números são inferiores à quantidade real de vítimas e não passam de indicadores: falta de testes; autópsias não podem ser feitas por risco de contaminação; hospitais não comunicam, ou não conseguem identificar, todas as causas mortis; entre outras razões.

Sem contar que, por esse Brasil afora, em lugares perdidos ou desfavorecidos, quantos não morreram e vão morrer sem que se saiba a causa. Portanto, o número de vítimas é alto, mais alto ainda do que dizem os indicadores tenebrosos.

Muitas dessas mortes foram causadas pelas afirmações absurdas, contrárias a tudo o que a ciência diz, e que Bolsonaro insistiu em proclamar, em divulgar até mesmo oficialmente, por meio de cadeia nacional, minimizando, em nome da economia, o perigo que o contágio representa.

Gripezinha, resfriadinho que não o abateria, um super-homem com passado de atleta (quando tantos verdadeiros atletas pelo mundo, e jovens, já se foram, vitimados pela Covid-19), exibindo falsas flexões em vídeo. E que não causaria danos à grande maioria das pessoas.

“Vai morrer gente, vai”, ele disse, mas apenas os velhos, os fracotes, gente que não conta para a produtividade do país. Sua sinistra contabilidade define quem tem ou não direito à vida.

Estou nesta triste lista, eu, com 72 anos, dentro do grupo de risco, como tantos outros frágeis e idosos, prontos para o forno crematório. Viva o país dos “young and healthy”!

“Não mata mais do que o surto da H1N1 no ano passado”, ele disse. Mal começou a epidemia do coronavírus entre nós e já ultrapassamos de bastante a soma dos mortos causados pela gripe de 2019.

Não importa. A anta maligna continuou saindo às ruas, reunindo pessoas em volta dele e proclamando, todo orgulhoso: “Eu tenho direito constitucional de ir e vir. Ninguém vai tolher minha liberdade de ir e vir”. Por causa dele, tanta gente deixou o cuidado elementar contra o vírus, seja porque cansou de ficar em casa, seja escudado pelo moralismo da produtividade, do “vou trabalhar porque não sou preguiçoso”.

Bolsonaro é culpado pelos mortos que desrespeitaram o confinamento pois foram encorajados por ele. É um genocida.

A violência perversa que se instalou desde o início de seu governo, com devastação de florestas, desmonte da educação e da pesquisa científica, abandono das populações indígenas aos predadores, e tantos outros crimes, podia passar despercebida a quem fazia vista grossa: tudo isso era longe, abstrato, e o importante mesmo era salvar a economia. Agora, com a peste na porta de cada um, não é mais possível deixar de ver que o pesadelo longínquo se tornou, de fato, realidade.

Mas, calma aí, Bolsonaro não é tão culpado assim. Há pior do que ele. Piores são os eleitores que o puseram lá, no alto do poleiro. Cada um que votou em Bolsonaro é cúmplice das mortes que ele está provocando. Cúmplices de genocídio e de assassinato.

E não é possível dizer: “Eu não sabia”. Não sabia, com a campanha baseada na celebração das armas, na vontade de metralhar os inimigos políticos? Campanha alimentada pela pulsão de morte? Como não sabia, cara pálida?

Você votou em Bolsonaro levado por ódio irracional, que o impediu de ver a abominação evidente. Que o fez isentar as manifestações de machismo, de racismo, de desprezos preconceituosos vomitados sem vergonha. Que levou você a acreditar nas manipulações oportunistas de uma justiça a serviço de fins eleitoreiros, perfeitamente bem-sucedidas, a ponto de porem o juiz responsável na poltrona de ministro. Seu ódio deixou você cego. Votos não poderiam ser conduzidos por ódios ou por amores.

Não creio que a mula sem cabeça tenha algum remorso, diante das mortes que aumentam. Mas é impossível que a decência tenha abandonado todos os seus eleitores.

Para estes, é hora de assumir a responsabilidade por todos os horrores desumanos causados pelo presidente. E de aprender a lição que, por infelicidade, tem custo tão alto.

Chomsky e a viabilidade da espécie humana

Srecko Horvat

Entrevista do filósofo e linguista americano Noam Chomsky. Hoje com 92 anos e tendo vivido como testemunha muitos dos grandes fatos que marcaram o século XX e o início do XXI, ele analisa o cenário da crise do coronavírus e traça um quadro nada animador para os próximos anos. No entanto, cita que o isolamento social destes tempos deve ser usado para fortalecer os laços sociais e desenvolver projetos de resistência. A entrevista foi concedida no fim de março de 2020, uma conversa com o filósofo e co-fundador do DiEM25, Srecko Horvat.

Srecko Horvat: Você nasceu em 1928 e escreveu seu primeiro ensaio quando tinha 10 anos de idade sobre a Guerra Civil Espanhola, após a queda de Barcelona em 1938, o que parece bem distante. Sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, testemunhou Hiroshima e muitos eventos históricos e políticos importantes, da Guerra do Vietnã, a crise do preço do petróleo, a queda do muro de Berlin, Chernobyl, testemunhou o momento histórico que levou ao 11 de setembro e o crash financeiro de 2007/2008. Com esse background e sendo um ator da maioria desses processos, como vê a atual crise do coronavírus, algo sem precedente histórico. Surpreende você? Como observa isso tudo?

Noam Chomsky: Devo dizer que as memórias mais tenras que me assombram agora são dos anos 1930, o artigo que você mencionou sobre a queda de Barcelona foi sobre, aparentemente, a inexorável propagação da praga fascista sobre a Europa e como chegou ao fim. Descobri muito mais tarde, quando os documentos internos vieram à publico que os analistas do governo americano, na época e nos anos seguintes esperavam que a guerra terminasse com mundo dividido entre regiões dominadas pelos EUA e uma região dominada pela Alemanha.

Meus medos infantis não estavam completamente errados. E essas memórias voltam agora. Quando era criança, posso lembrar, ouvindo comício de Hitler em Nuremberg no rádio, podia não compreender as palavras, mas podia facilmente entender o clima daquilo tudo, e tenho que dizer que quando escuto os discursos de Trump hoje, soa algo parecido. Não que ele seja fascista, não tem muito de uma ideologia, é apenas um sociopata, um indivíduo preocupado consigo mesmo, mas o clima e o medo é similar e a ideia de que o destino do país e do mundo está nas mãos de um sociopata bufão é chocante.

O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. De fato, há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exacerbada pela tensão dos regimes militares e claro pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas não há muito tempo e o coronavírus é terrível e pode ter péssimas consequências, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós não resolvermos isso, estaremos acabados. As memórias da infância continuam voltando para me assustar, mas em uma dimensão diferente. A ameaça de guerra nuclear não fazia sentido com o mundo onde está, mas olhando para o passado recente, em janeiro, o relógio do juízo final é ajustado a cada ano com os ponteiros dos minutos a uma certa distância da meia noite, que seria o fim. Desde que Trump foi eleito, o ponteiro tem se movido para mais perto da meia noite. Ano passado estava a dois minutos da meia noite. O mais próximo já alcançado. Esse ano os analistas retiraram os “minutos” e movem agora o ponteiro em segundos, 100 segundos para a meia noite, o mais próximo que já estivemos. Observando três questões: A ameaça da guerra nuclear, a ameaça do aquecimento global e a deterioração da democracia, essa última que não está tendo espaço aqui, mas é a única esperança que temos para a superação da crise. Para que as pessoas tenham controle sobre seu destino, se isso não acontecer, estamos condenados.

Se deixarmos nosso destino com sociopatas bufões, será o fim. E isso está próximo, Trump é o pior, por causa do poder dos EUA, que é esmagador. Estamos falando do declínio dos EUA, mas você olha para o mundo e não vê quando os EUA impõem sanções, assassinatos, sanções devastadoras, é o único país que pode fazer isso, mas todo mundo tem de segui-lo. A Europa pode não gostar das ações odiosas contra o Irã, mas tem que acompanhar, deve seguir o mestre, ou será chutada do sistema financeiro internacional. Não é uma lei da natureza, é uma decisão na Europa estar subordinada ao mestre em Washington, outros países não tem nem tem mesmo como escolher. Voltando ao coronavírus, um dos mais chocantes e severos aspectos disso, é o uso de sanções para maximizar a dor, intencionalmente, o Irã está em uma zona com enormes problemas internos pelo estrangulamento do arrocho das sanções, que são intencionalmente desenhadas, para fazer sofrer mais e mais agora. Cuba vem sofrendo, desde o momento em que ganhou sua independência, mas é surpreendente que tenha sobrevivido, mas ficaram resilientes e um dos elementos mais irônicos desta crise do vírus, é que Cuba está ajudando a Europa. Quero dizer, isso é tão chocante, que você não sabe como descrevê-lo. Que a Alemanha não pode ajudar a Grécia, mas Cuba pode ajudar a Europa. Se você parar pra pensar sobre o que significa isso, todas as palavras não servirão. Quando você vê milhares de pessoas morrendo no Mediterrâneo, fugindo de uma região que foi devastada por séculos e sendo enviadas para morrer ali, você não sabe que palavras usar. A crise civilizacional do ocidente neste ponto é devastadora, pensar nisso e trazer memórias de infância de ouvir Hitler no rádio enlouquecer as multidões, faz você pensar se esta espécie [humana] é mesmo viável.

Srecko Horvat: Você mencionou a crise da democracia. Atualmente acho que devemos nos encontrar em um momento sem precedentes no sentido de que cerca de 2 bilhões de pessoas estão de uma forma ou de outra confinadas em casa, em isolamento, auto-isolamento ou quarentena. Ao mesmo tempo o que nós podemos observar é que na Europa, mas também outros países perto de suas fronteiras, internas ou externas, há um estado de exceção em todos os países em que possamos pensar, em regressão em lugares como França, Servia, Espanha, Itália e outros, exército nas ruas… e quero perguntar a você como linguista. A linguagem que circula nesse momento: Ouvindo não apenas Trump, se você ouvir Macron ou alguns outros políticos europeus, constantemente escutará que eles falam sobre Guerra. Mesmo na mídia se fala sobre “frontliners” e o vírus sendo tratado como inimigo. O que me lembra também Victor Klemperer em “Lingua Tertii Imperii”, livro em que falou da linguagem do Terceiro Reich e como a linguagem e a ideologia foram impostas. Sob sua perspectiva , o que esse discurso sobre guerra representa, para legitimar um estado de exceção, ou algo mais profundo neste discurso?

Noam Chomsky: Eu penso que não é exagero. O significado é que se nós lidamos com a crise, estamos nos movendo para uma mobilização como as de tempos de guerra. Se você pensar, pegue um país rico, como os Estados Unidos que tem recursos para superar a questão econômica de imediato. A mobilização para a Segunda Guerra Mundial deixou o país com uma grande dívida que está completamente saldada hoje e a mobilização foi bem sucedida, praticamente quadruplicou a indústria dos Estados Unidos, acabou com a depressão e deixou o país com mais capacidade para crescer.

Isso é menos do que precisamos provavelmente, não naquela escala, isso não é uma guerra mundial, mas nós precisamos da mentalidade desse movimento, nessa crise que essa é severa aqui nós também podemos lembrar da epidemia da gripe suína em 2009, originada nos Estados Unidos. Centenas de milhares de pessoas se recuperaram do pior, mas tem que lidar com isso em um país rico como os Estados Unidos.

Agora dois bilhões de pessoas, a maioria está na Índia. O que acontece para os indianos, eles vivem “da mão para a boca”, estão isolados e morrem de fome. O que irá acontecer? Em um mundo civilizado os países ricos dariam assistência, aqueles que estivessem em necessidade ao invés de estrangulá-los, que é o que estamos fazendo particularmente na Índia e em muitos dos países no mundo.

Se a atual tendência persiste no sul da Ásia, se tornará inabitável em poucas décadas. A temperatura alcançou 50 graus no Rajastão, neste verão está aumentando. A questão das águas agora pode piorar, há dois núcleos de poder que irão lutar por recursos reduzidos de água. Eu digo que que o coronavírus é muito sério, nós não podemos subestimá-lo, mas nós temos que lembrar que isso é uma pequena fração da crise que está vindo. Pode talvez não ameaçar a vida o que o coronavírus faz hoje mas, (tais fatos) irão perturbar a vida ao ponto de tornar a espécie inviável em um futuro não muito distante.

Então nós temos que lidar com muitos problemas, problemas imediatos, o coronavírus é sério, como muitos outros maiores, vastamente maiores, e que são iminentes. Agora há uma crise civilizacional, temos que ver o lado bom do coronavírus, o que pode fazer as pessoas pensarem sobre que tipo de mundo nós queremos? Nós queremos um mundo que nos leva a isso? Devemos pensar sobre a origem desta crise, por que há uma crise do coronavírus? É uma falha colossal do mercado, leva direto a essência dos mercados exacerbados pelo neoliberalismo selvagem, a intensificação neoliberal, os problemas socioeconômicos. Isso era sabido há muito tempo, que a pandemia era muito provável, entendemos muito bem a probabilidade da pandemia do coronavírus, uma modificação da epidemia da SARS, que foi superada 15 anos atrás, o vírus foi identificado, sequenciado, vacinas estavam disponíveis, laboratórios ao redor do mundo poderiam trabalhar diretamente em desenvolver uma proteção para uma potencial pandemia do coronavírus.

Por que não fizeram isso? As companhias farmacêuticas. Nós temos entregado nosso destino a tiranias privadas, corporações, que são inexplicadas para o público, nesse caso, o Big Farma. Para eles fazer novos cremes corporais é mais lucrativo do que encontrar uma vacina que proteja as pessoas da destruição total. É possível para o governo entrar nisso, voltar às mobilizações dos tempos de guerra, foi o que o que aconteceu com a pólio naquele tempo, eu posso me lembrar muito bem, a terrível ameaça que foi extinta pela descoberta da vacina Salk, por uma instituição do governo, apoiada pela administração Roosevelt. Sem patentes, disponível a todos. Que pode ser feito agora, mas a praga neoliberal bloqueia isso. Estamos vivendo sob uma ideologia para a qual os economistas têm uma boa parte de responsabilidade, que vem do setor corporativo. Uma ideologia que é tipificada por aquilo que Ronald Reagan colocou no script, pelo seu mestres corporativos com seus sorrisos reluzentes, dizendo que o governo é o problema. Vamos nos livrar do governo, o que quer dizer “vamos deixar as decisões nas mãos das tiranias privadas que não tem responsabilidade com o público”. Do outro lado do Atlântico Margaret Thatcher nos mostrou que há uma sociedade, em que apenas indivíduos jogados dentro do mercado podem sobreviver de alguma forma e para além disso não há alternativa. O mundo tem sofrido sob o poder dos ricos por anos, e agora é o ponto onde as coisas podem estar acabadas. Com intervenção direta do governo no escopo da invenção da vacina Salk, mas que é bloqueado por razões ideológicas da praga neoliberal e o ponto é que essa epidemia de coronavírus poderia ter sido prevenida.

A informação que estava ali para ser lida era bem conhecida em outubro de 2019 logo antes do surto. Houve uma grande simulação em escala nos Estados Unidos para uma possível pandemia Mundial desse tipo. Nada foi feito, agora a crise ficou bem pior pela traição do sistema político. Nós não prestamos atenção na informação que estavam cientes em 31 de dezembro, a China informou à OMS sobre uma pneumonia com sintomas com etiologia desconhecida. Uma semana depois eles identificaram, alguns cientistas chineses, como um coronavírus, também sequenciaram e deram a informação ao mundo pelos seus virologistas, outros que ficaram incomodados em ler o relatório da OMS. Os países naquela área, China, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura começaram a fazer algo e contiveram o surgimento da crise. Na Europa o que aconteceu, Alemanha foi capaz de agir de maneira egoísta, não ajudando os outros. Outros países apenas ignoraram. Um dos piores deles o Reino Unido e o pior de todos, os Estados Unidos, que disseram um dia que não havia crise, diziam “ser apenas uma gripe”, e no dia seguinte era uma terrível crise, que sabiam de tudo. No dia seguinte: “nós temos que tratar de negócios, porque tenho que vencer a eleição…”

A ideia de que o mundo está nessas mãos é chocante, mas, o ponto é que começou com uma, novamente, colossal falha do mercado ao ponto fundamental da ordem econômico-social deixada muito pior pela praga neoliberal e ela continua por causa do colapso nas estruturas institucionais que poderiam lidar com isso, se estivessem funcionando.

Esses são os pontos que nós temos que pensar seriamente e pensando mais profundamente digo, em que tipo de mundo nós queremos viver? Se superarmos de qualquer forma haverá opções. O alcance das opções vão da instalação de Estados altamente autoritários por todas as partes até a reconstrução da sociedade em termos mais humanos, preocupados com as necessidades humanas ao invés do lucro privado. Isso é o que nós devemos ter em mente, que estados altamente autoritários e viciados são bastante compatíveis com o neoliberalismo, os teóricos do neoliberalismo como Hayek e o resto eram perfeitamente felizes com o estado massivo de violência apoiada pela economia. O neoliberalismo tem suas origens em 1920 em Viena no estado proto fascista austríaco que esmagou a união dos trabalhadores e a social-democracia austríaca e fez parte do governo proto fascista e louvou o fascismo e sua economia protecionista. Quando Pinochet instalou ditadura assassina brutal no Chile eles amaram, eles lutaram lá, auxiliando esse “milagre maravilhoso”, que que trouxe “solidez da economia”, grandes lucros, para uma pequena parte da população.

Não é errado pensar que sistema neoliberal selvagem pode ser reinstalado por auto-proclamados liberais por forte violência do Estado, um pesadelo que pode vir. mas é necessário a possibilidade de que as pessoas se organizem, se tornem engajadas para um mundo muito melhor, que também enfrentará os enormes problemas que estamos lidando… Problema da guerra nuclear que está mais próximo do que nunca esteve, o problema da catástrofe ambiental do qual pode não haver retorno uma vez que chegamos em tal estágio e não está em uma distância tão grande, a menos que nós arranjemos decisivamente. Então é um momento crítico da história humana não apenas por causa do coronavírus, mas deve nos trazer a consciência das profundas falhas, de forma mais profunda, as características disfuncionais de todo sistema sócio-econômico. Pode ser um sinal de alerta em uma lição para nos prevenir de uma explosão, mas pensando sobre isso e coisas como essas vai nos levar a mais crises piores que essas com um preço extra a se pagar.

Srecko Horvat: Como se dará a resistência em tempos de distanciamento social e o que se esperar de um futuro pós-coronavírus?

Noam Chomsky: Primeiro de tudo nós devemos ter em mente que há, desde poucos anos atrás, uma forma de isolamento social que é muito danosa. Você vai ao McDonald’s e vê adolescentes sentados ao redor da mesa comendo hambúrguer e o que você vê é uma conversa rasa de uns ou alguns outros mexendo no seu próprio celular com algum indivíduo remoto, isso tem atomizado e isolado as pessoas em uma extensão extraordinária. As redes sociais têm tornado as criaturas muito isoladas, especialmente os jovens. Atualmente, as universidades nos Estados Unidos onde os passeios tem placas dizendo “olhe para frente” porque cada jovem ali está grudado em si mesmo, essa é uma forma de isolamento social auto-induzido, o que é muito prejudicial.

Estamos agora em situação real de isolamento social. Que deve ser superada com recreação, laços sociais e tudo que puder ser feito. Qualquer coisa que puder ajudar as pessoas em necessidades, desenvolvendo organizações, expandindo análises… Fazendo planos para o futuro trazendo as pessoas para perto… Procurando soluções para os problemas que encaram e trabalhar neles. Estender e aprofundar atividades, pode não ser fácil, mas os humanos têm encarado seus problemas.

As enfermeiras

Drauzio Varella

A assistência médica no Brasil é centrada na figura do médico.

A epidemia que enfrentamos agora, provocada por um vírus contra o qual ainda não existem vacinas nem medicamentos específicos, ressalta o papel decisivo de enfermeiras, técnicas de enfermagem, fisioterapeutas, fonoaudiólogas e o pessoal de limpeza e desinfecção das enfermarias e UTIs, enquanto reserva aos médicos funções mais discretas nas equipes que atuam nas linhas de frente.

É voz corrente que as enfermeiras ajudam os médicos a cuidar dos pacientes, inversão de valores injusta –nós é que as ajudamos, quem cuida são elas. O padrão de atendimento de um hospital ou de um serviço ambulatorial de saúde é estabelecido pelo corpo de enfermagem, aos médicos cabe interpretar exames, definir as linhas gerais do tratamento e prescrever as medicações indicadas.

Diante de uma epidemia dessas, em que receitamos apenas drogas para aliviar sintomas e cuidados respiratórios que dependerão de fisioterapeutas para os exercícios necessários e do ajuste fino dos aparelhos de respiração mecânica, nossas prescrições têm impacto limitado na evolução dos infectados, especialmente daqueles em estado grave.

Amparar o doente enfraquecido no caminho até o banheiro, pegar veias invisíveis para administrar soro e os antibióticos, trocar o pijama e os lençóis da cama, recolher a urina, dar banho depois de um episódio de diarreia e tranquilizá-lo nos momentos de fragilidade psicológica na solidão das madrugadas não são tarefas realizadas por médicos.

Para alguém que se recupera de uma pneumonia, são fundamentais os exercícios respiratórios e os procedimentos que dependerão do contato direto com o doente e do empenho de fisioterapeutas. O médico se limita a anotar na prescrição “fisioterapia respiratória”.

Ciosos de nossa exclusividade dos assim chamados atos médicos, impedimos que outros profissionais exerçam atividades para as quais foram preparados, depois de frequentar quatro ou cinco anos de universidade, muitas vezes seguidos de cursos de pós-graduação. Não deixamos que se encarreguem nem sequer de alguns acompanhamentos ambulatoriais que não conseguimos fazer.

Entre outros exemplos, está o controle da pressão arterial de quem sofre de hipertensão, crucial para evitar complicações que encurtam a vida e aumentam os custos do SUS e da saúde suplementar.

Entregamos aos pacientes uma receita com os medicamentos que devem tomar, muitas vezes sem esclarecer com a devida ênfase a natureza crônica da doença e suas possíveis consequências nem reforçar a necessidade da aderência ao tratamento. O resultado é catastrófico. No fim do primeiro ano, perto da metade interrompeu a medicação. Entre os demais, estão os que o fazem de forma irregular e aqueles que mantêm níveis de pressão ainda elevados sem desconfiar.

Se os controles da hipertensão e de outras enfermidades crônicas ficassem a cargo da enfermagem e dos farmacêuticos que a legislação obriga a estar presentes na farmácia da esquina, em contato direto com os pacientes, não seria mais inteligente?

Não é ridículo obrigar estudantes a passar quatro anos nas faculdades de farmácia e bioquímica para deixá-los de plantão em funções burocráticas, nas drogarias?

É claro que não caberia a esses profissionais prescrever hipotensores, hipoglicemiantes, antibióticos e outros tratamentos que exigem formação especializada, mas explicar como os remédios devem ser tomados, quais os efeitos colaterais mais comuns, as possíveis interações medicamentosas e encaminhar ao médico aqueles com má resposta à medicação prescrita.

Pequenos municípios com grande dificuldade para atrair médicos podem estruturar as equipes do Estratégia Saúde da Família –considerado um dos melhores programas de saúde pública do mundo– sob o comando de enfermeiras que tenham acesso a unidades básicas de saúde de cidades mais próximas, para transferir os casos que não cabem a elas resolver.

Não se trata de deixar que os mais pobres recebam cuidados precários, mas de garantir acesso à assistência aos que não têm nenhuma. Basta criar protocolos com critérios rígidos, de modo que cada profissional conheça os limites de sua atuação e possa executar as funções para as quais foi preparado.

Que a epidemia sirva para criarmos novos modelos de atenção à saúde.

Das trincheiras da dor, brotou uma flor

James Deam Amaral Freitas

São tempos difíceis. Medo e morte estão impregnados no ar e, como se não bastasse, são contagiosos. O mundo padece de sua busca desenfreada pela própria aniquilação, já que as promessas ilusórias de sobrevivência rapidamente se traduziram em desigualdades, opressões, violência, destruição. Às custas de um micro-organismo ameaçador, a sociedade globalizada escancara suas mazelas e demarca ainda mais suas fronteiras.

O vírus inimigo, em cujo nome ostenta-se uma coroa, não briga por poder, nem por status, até porque seu tamanho é da ordem de nanômetros e sua visibilidade inacessível a olho nu. E justamente por não ter vocação alguma para a ostentação, ele expõe nossa mania de grandeza ao ridículo, desnudando nossa vulnerabilidade e nossa incapacidade de aceitar a mais letal de todas as ameaças: o ser (de)sumano.

Nessa batalha, à medida que o vírus ocupa os hospitais e as estatísticas de mortalidade, somos obrigados a desocupar as ruas, os espaços públicos; a diminuir o ritmo, o barulho, a poluição; a nos afastar para nos proteger de nós mesmos. Confinados e sem máscaras de proteção respiratória e social, demonstramos estar impregnados de uma dualidade cruel, que tanto cura quanto mata; tanto transcende quanto oprime; tanto aprende quanto limita.

Por um lado, os senhores da guerra, que nunca gostaram de crianças, mulheres, idosos e toda espécie de gente carente de dinheiro e poder, oferecem o sangue alheio em favor da economia, do mercado financeiro, dos lucros e da prescrição das vidas que não devem viver. Por outro, o mundo em pausa dá mostras dos benefícios da ausência humana: bosques, rios e mares limpos; espaços urbanos tranquilos; carros estacionados; ruídos sísmicos, vibrações causadas na crosta terrestre, diminuídos. E nessa batalha entre os gritos dos perversos e o silêncio dos que têm alma, a vida tem se transformado em questão de opinião.

Apesar de tudo, há juízo em meio a histeria; trégua diante da batalha. A esperança é capaz de atravessar as esquinas do mundo e se espalhar. Foi nessa travessia que ela veio encontrar as mãos habilidosas e solidárias de Bernarda Costa, uma mulher que, na grandeza dos seus 87 anos, decidiu dar sua contribuição no combate à pandemia, a partir da confecção e doação de máscaras de tecido. Seu universo de atuação era modesto, a pequena cidade de Santa Quitéria, no interior do Maranhão. Destinada a vizinhos e amigos, sua produção não tinha vaidade de larga escala. Todavia, o que faltava em proporção, sobrava em atitude, compromisso e inspiração. Sua iniciativa exemplar disseminou pela cidade e contagiou inúmeras voluntárias, que colaboraram com a costureira na produção de mais de 1000 máscaras de proteção.

Bernarda é, sem dúvida, uma entusiasta da vida. Representa a esperança encarnada no corpo de uma mulher nordestina, que aprendeu a cultivar sua força e coragem, na aridez do solo e da sociedade excludente. Ela é como a flor do mandacaru, capaz de suportar as intempéries do tempo, as quais podemos denominar quarentena, e ser reserva de vida na natureza, ou de afeto em períodos de horror.

Há uma guerra em curso. Incerta e cruel como todas as outras. Mas há Bernardas e mandacarus para dissipar a descrença e trazer à tona a debilidade dos senhores espinhos e a potência da cura em flor, que se abre a um universo capaz de, solidariamente, se reinventar.