Pequeno dicionário cínico das palavras da moda

Ademir Luiz

O jornalista, editor e escritor Ambrose Bierce compilou ao longo de 25 anos os verbetes e poemas que formariam o “Dicionário do Diabo”, um dos livros mais hilariantes de todos os tempos. Os primeiros verbetes apareceram em 1881, publicados esparsamente em diferentes jornais. Bierce não aprovava dicionários, definindo-os como um “maligno instrumento literário para limitar o crescimento de um idioma e torná-lo duro e inelástico”. Justamente por isso atribuiu esses escritos ao próprio Diabo, que estaria zombando das pretensões e hipocrisias humanas. Cinismo é a melhor palavra para definir verbetes como “crítico: pessoa que se vangloria de ser difícil de agradar porque ninguém tenta agradá-lo” ou “lixo: material sem valor, como religiões, filosofias, literaturas, artes e ciências das tribos que infestam as regiões ao sul do Polo Norte”. Ambrose Pierce teve um fim misterioso, desaparecendo em 1914 enquanto cobria as ações dos rebeldes liderados por Pancho Vila durante a Guerra Civil Mexicana. Mas, como ensinou Baudelaire, “o truque mais esperto do Diabo é convencer-nos de que ele não existe”. Alguém sempre assume a pena. Neste espírito endiabrado, preparei um breve compilado de palavras da moda que, provavelmente, Ambrose Bierce incluiria em seu possesso dicionário.

Action figures: hominhos para marmanjos com dinheiro para gastar.

Ambientalismo: nova religião secular.

Amor líquido: boa sacada de filósofo sério que queria ficar pop e vender livros. Autoajuda para intelectuais.

Anonymous: militantes ateus anarquistas quem usam como símbolo a máscara de um conspirador católico.

Apropriação cultural: prática enriquecedora que gerou magníficas trocas de experiências culturais entre diferentes grupos humanos, responsável por criações como o rock and roll, o futebol e o hábito de consumir sushi em praças de alimentação de shoppings centers mundo afora.

Arte contemporânea: arte moderna batida no liquidificador, mas sem aura.

Astrólogo: tratamento positivo se for Fernando Pessoa. Negativo se for Olavo de Carvalho.

Ativismo judicial: forma legal de tornar normas constitucionais ilegais.

Atrasados do ENEM: atração turística anual. Desculpa perfeita para parecer empático recriminando quem se diverte abertamente. Pessoas que perderam a desculpa do horário de verão.

Baixar: leituras futuras que nunca chegam. Vídeos consumidos instantaneamente.

Black Blocs: revolucionários que não arrumam o próprio quarto. Indivíduos que acreditam que entendem mais de Marx do que Engels, Fidel Castro, Mao Tsé-Tung, Stálin, Leandro Karnal, o namorado da Fátima Bernardes e o próprio Marx. Esperam que lançamento de latas de lixo à distância se torne esporte olímpico.

Bullying: darwinismo escolar.

Caetanear: fazer coisas muitooooo lindas e maravilhosas.

Cancelar: maneira mais fácil de achar que venceu uma discussão sem ter argumentos.

Censura nas redes: (conteúdo retirado por conter informações imprecisas, manipuladas ou que podem induzir ao erro.)

Cerveja artesanal: cerveja sem ISO 9001. A regra social exige que, em qualquer caso, seja considerada melhor que o produto industrializado.

Chef: cozinheiro com camisa xadrez, barba de lenhador e coque de samurai. Produz cerveja artesanal.

Ciclista: bicicleteiro com consciência social.

5G: espionagem. Pornografia que não trava.

Comuna: liberal conservador antes de ser assaltado.

Comunidade: favela em novelas do horário nobre e relatórios da ONU.

Coach: guru com roupa de moletom. Modelo socialmente aceitável de exercício ilegal de diversas profissões. Alguém que acredita ser um sábio porque possui a sabedoria e a humildade de se saber um sábio. Profissional que um dia vai escrever um livro ou, em casos extremos, um dia vai ler um livro.

Crossfiteiro: mercado futuro para consultórios de ortopedia.

Cult: filme, livro ou banda que apenas você e seu amigo esquisito conhecem.

Desconstrução: padrão ético autolimpante. Rebute automático de todas as postagens que poderiam ser usadas como provas contra você.

Discurso de ódio: qualquer coisa que eu não concorde.

Disruptivo: o que o vinil foi um dia.

Doutrinação: falar sobre algo no qual acredito e acho que deve ser difundido ao mesmo tempo em que nego terminantemente estar fazendo isso.

Easter egg: micro orgasmo nerd.

Edição especial comemorativa definitiva em capa dura: a mesma coisa de antes gourmetizada.

Educação a distância: estratégia pedagógica que visa o fomento da não aprendizagem caseira em detrimento da não aprendizagem em ambiente escolar.

Empatia: autopromoção embalada em pretensa responsabilidade social.

ENEM: todas as opções acima.

Esquerdomacho: esquerdista feministo que fuma, mas não traga.

Estado democrático de direito: fórmula mágica para começar e terminar discursos.

Esteticista: manicure que usa tesouras, lixas e alicates levados pelas clientes.

Fake news: antigamente era chamado de mentira ou boato. Algumas vezes são fatos que comprovam de maneira definitiva o que você considera discurso de ódio.

Fitness: quem faz exercícios físicos e dieta por vontade própria.

Gabarito do ENEM: tudo que parecia óbvio antes do candidato entrar na sala de provas.

Gatilho: cenas, temas e frases que pagam o aluguel de seu psicólogo.

Geeks: nerds que sabem formatar o computador.

Gênero: todas as letras do alfabeto sem ordem alfabética.

Genocidas: pessoas que visitam parentes e amigos, frequentam restaurantes, praias e praças, além de comemorar feriados.

Geração canguru: espectador de todas as temporadas de Malhação.

Geração floco de neve: pessoas que nasceram depois da transformação dos chinelos Havaianas em marca de sucesso.

Geração nem nem: jovens que não estudam e não trabalham. Esse verbete não contém ironia.

Glúten: substância contida em diversos alimentos que foram consumidos durante muito tempo sem apresentar maiores problemas, mas que agora podem te matar.

Gospel: Reforma Protestante gourmetizada.

Gourmetizar: maquiavélica tática capitalista para inflacionar preços.

Google assistente: sexo virtual consensual.

Google: biblioteca frequentada por jovens.

Gratidão: obrigado para pessoas com deficiência cognitiva.

Gratiluz: obrigado para pessoas com deficiência cognitiva severa.

Hacker: pessoa que vê seus nudes sem você enviar.

Hater: pessoa que você não adicionou em sua rede social. Variação: pessoa que você adicionou em sua rede social.

Influenciador: vítima preferencial do cancelamento. Desempregado. Efeito colateral da difusão das mídias sociais e facilitação de acesso à tecnologia celular.

Lacaniano: forma de ser freudiano sem ser freudiano e sem, necessariamente, ter entendido o texto.

Lockdown: vertente contemporânea da medicina medieval.

Mudanças climáticas: solução semântica encontrada pelos defensores da teoria do aquecimento global diante de evidências científicas ruins para os negócios.

Negacionismo: ver Discurso de Ódio.

Perfil fake: espionagem social.

Performance: qualquer coisa.

Piriguete: personagens de Shakespeare e Jane Austen adaptados para dramaturgia contemporânea.

Politicamente incorreto: tudo que passava na Sessão da Tarde na década de 1980.

Pronome neutro: alternativa ao necessário e exaustivo estudo dos pronomes pessoais na norma culta. Humor involuntário.

Rachadinha: equivalente ideológico ao desvio bilionário de recursos públicos.

Reaça: liberal conservador depois de ser assaltado.

Redes sociais: solidão compartilhada. Exercício de criação de universos ficcionais. Funil de vida.

Subcelebridade: alguém famoso apenas na internet.

Teoria da conspiração: interpretação criativa da realidade.

Terra plana: ideia antiga vendida como nova.

Tuitar: ver Tretar.

Tretar: revelar verdades inconvenientes.

Vegano: pessoas obrigadas a consumir fontes alternativas de proteína. Consideram os vegetarianos indivíduos cruéis com peixes e ladrões de leite. Os puros. Fonte de proteína se estiverem perdidos em uma savana africana.

O que sabemos sobre as vacinas… até agora.

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Edição especial: o que sabemos sobre as vacinas… até agora

Se o gerenciamento da vacinação contra a Covid-19 no Brasil está nos ensinando algo é que nada está garantido até que tenha acontecido. Uma das poucas certezas é que amanhã, dia 17, a diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vai se reunir para autorizar ou não o uso emergencial de duas vacinas, a CoronaVac, da chinesa SinoVac em parceria com o Instituto Butantan, e a da Universidade de Oxford/AstraZeneca com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na segunda-feira termina o prazo de dez dias estabelecido pela própria Anvisa para dar uma resposta aos pedidos de uso emergencial.

Passada a única certeza – a data limite da Anvisa –, começa um emaranhado de dúvidas que envolve até mesmo qual vacina estará disponível para os brasileiros. No momento em que este texto é escrito, a exportação para o Brasil de dois milhões de doses da vacina de Oxford fabricadas na Índia está vetada pelo governo indiano, e o Ministério da Saúde brasileiro requisitou todo o estoque da CoronaVac em poder do Butantan, seis milhões de doses.

Como não é possível responder às questões futuras, vamos procurar esclarecer as dúvidas presentes sobre as vacinas que estão sendo utilizadas e desenvolvidas para combater a mais grave pandemia a atingir a Humanidade, desde a Gripe Espanhola, há pouco mais de cem anos.

Quantas vacinas estão em desenvolvimento ou em uso hoje?

Segundo levantamento do New York Times68 vacinas estão sendo testadas em humanos, incluindo as que já estão em uso, e pelo menos outras 90 estão em fase de experimentos em animais.

Como são feitos os testes?

Primeiramente, os laboratórios realizam experiências com animais, verificando se a vacina tem efeitos colaterais e se, após injetarem o vírus, funcionam. Se tudo certo, começam as fases de testes em humanos. A primeira, com um pequeno grupo de adultos saudáveis, analisa se a vacina é segura. A segunda, com centenas de pessoas, incluindo integrantes de grupos de risco, aprofunda a análise da segurança e já começa a verificar a eficácia. Finalmente a fase três pega um universo de milhares de pessoas dos mais variados grupos para testar a eficácia em “condições” normais.

Somente após o sucesso da fase três uma vacina pode receber autorização de uso emergencial e registro definitivo. Há ainda a fase quatro, a análise do resultado de um amplo programa de vacinação ao longo dos anos. Só aí se pode saber, por exemplo, se a imunidade oferecida pela vacina é permanente ou não.

O desenvolvimento dessas vacinas foi apressado?

Apressado, não; acelerado, sim. Normalmente uma vacina leva anos para ser desenvolvida, com as fases acontecendo em sequência ao longo de mais tempo, e os trabalhos de infraestrutura e fabricação começando quase no momento da aprovação. Porém, a gravidade da pandemia exigiu adaptações nesses processos, com as fases um e dois acontecendo quase simultaneamente, a infraestrutura sendo montada desde os testes com animais e a fabricação acontecendo em plena fase três – se a vacina fosse um fracasso, bilhões de dólares seriam perdidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os protocolos de segurança foram obedecidos. Neste caso, rápido não é sinônimo de mal feito.

Como as vacinas funcionam?

Embora busquem o mesmo objetivo, fazer com que o organismo produza anticorpos contra a doença, as vacinas o fazem por métodos diferentes. As duas que estão em análise pela Anvisa, por exemplo, usam de forma diversa o mesmo princípio: injetar o vírus (ou bactéria, dependendo da doença) no corpo para que este desenvolva defesas. Mas quando se diz “injetar o vírus”, não se trata de pegar um Sars-Cov-2 em toda sua força e botá-lo no organismo do indivíduo.

A CoronaVac, por exemplo, usa o sistema mais comum, o chamado vírus inativo. O laboratório cultiva uma grande quantidade do vírus e depois, por meios físicos e químicos, o torna incapaz de transmitir a doença, o mata, por assim dizer. Mesmo assim, quando o vírus é injetado no corpo, nosso sistema imunológico o reconhece como uma ameaça e cria defesas. A mesma técnica é usada na vacina da indiana Bharat Biotech, que empresas brasileiras querem comprar.

As grandes vantagens dessa técnica são que ela já foi amplamente testada em outros imunizantes e é inofensiva para pacientes com problemas no sistema imunológico (imunocomprometidos). Por outro lado, são necessárias mais doses para garantir a imunidade.

Já a vacina de Oxford/AstraZeneca usa o vetor viral, o vírus vivo. No caso um adenovírus, que provoca, esse sim, uma gripezinha. O adenovírus recebe uma informação genética do Cov-Sars-2, geralmente da membrana que o envolve, e é injetado no organismo. Nosso corpo começa então a reagir à informação do coronavírus e desenvolve os anticorpos antes que ele possa agir. Para tornar o processo mais seguro a AstraZeneca usou adenovírus de macacos, dificultando ao vírus se adaptar ao novo hospedeiro.

Além de também já ser usada em dezenas de outras vacinas, essa técnica permite uma imunidade mais duradoura. Entretanto, pessoas imunocomprometidas correm o risco de não desenvolverem anticorpos a tempo e acabarem contaminadas por uma eventual reativação do vírus. O armazenamento desses dois tipos de vacinas requer temperaturas entre -2º e -8º C, obtidas com equipamentos convencionais.

Mas essas são as vacinas em análise no Brasil. Americanos e britânicos estão tomando imunizantes da Pfizer/BioNTech e da Moderna feitos com uma técnica recente e radicalmente diferente, a imunização gênica. Nela, os cientistas injetam em nosso organismo o código genético do vírus para que nosso RNA, a macromolécula que transmite as informações genéticas do DNA, o inclua em nossas células. Assim, o próprio organismo cria a proteína do Sars-Cov-2, sem o vírus, e aciona o sistema imunológico.

Por não requerer a cultura de grandes quantidades do vírus em laboratório e sua inativação ou atenuação, as vacinas gênicas têm um custo muito menor e podem ser produzidas mais rapidamente. Seu grande problema é que exigem temperaturas de -70ºC, o que cria um imenso problema logístico de transporte e armazenamento.

Como é uma técnica nova e está sendo usada pela primeira vez numa vacina para humanos, foi alvo dos mais disparatados boatos, inclusive que alteraria o DNA humano. Isso não é verdade.

Existem outros métodos, mas esses são os que estão predominando no combate à Covid-19.

O que é a eficácia?

Um dos termos menos compreendidos quando se fala de vacinas é “eficácia global”, interpretada pelo público em geral como “se a vacina funciona”. Não é isso. Primeiramente, é preciso entender como se calcula a eficácia de uma vacina. Durante os testes com pessoas, metade dos voluntários recebe a vacina de verdade e a outra metade um placebo, uma substância sem qualquer efeito – e espera-se para ver quem fica doente. É estabelecido um número x de infecções, e, quando ele é atingido, compara-se a quantidade de casos nos dois grupos. A eficácia global é a diferença percentual entre os casos nos que tomaram a vacina e nos que tomaram o placebo.

Para a OMS e a Anvisa, uma vacina funciona quando sua eficácia global fica acima de 50%. Mas isso não é tudo. É preciso avaliar a eficácia da vacina diante dos diversos níveis de gravidade da doença. Nesta semana, o anúncio de que a CoronaVac tinha eficácia global de 50,38% provocou surpresa e até deboche.

Para os leigos, parecia que só metade dos vacinados desenvolvia anticorpos. Não é isso. Todos desenvolvem, mas a eficácia varia. A vacina é 78% eficaz nos casos moderados da doença, quando é necessária internação, e 100% eficaz nos casos graves, nos quais o paciente precisa ser intubado.

Mas, se a vacina serve para evitar que se tenha a doença, como se chegou a esses números? Simples. De todos os voluntários que tomaram a CoronaVac, nenhum teve um caso grave (100% de eficácia), 22% tiveram casos médios (78% de eficiência) e 49,62% tiveram casos leves, tratáveis em casa (50,38% de eficiência). Ou seja, ela pode reduzir pela metade o número de novas infecções e impedir novas mortes. O que é muito bom.

O que os especialistas ressaltam é que, com a eficácia menor, torna-se mais importante a ampla cobertura, com a vacinação do maior número possível de pessoas, de forma a criar um cordão de imunidade.

Tomar apenas uma dose é eficiente?

Não. Todas as vacinas que já estão em uso requerem ao menos duas doses para garantia de imunidade. Entretanto, estamos em uma situação de calamidade global. Diversos países, incluindo Reino Unido, onde a vacinação já está em andamento, e Brasil, onde não sabemos quando começará, estudam atrasar a segunda dose de forma a aplicar a primeira no maior número possível de pessoas. A OMS admite que o intervalo entre as doses possa chegar a seis semanas em situações extremas, mas diz que o ideal é que a segunda seja aplicada entre três e quatro semanas após a primeira.

Quantos países já estão vacinando?

Até o momento, 52 países já iniciaram campanhas de vacinação, e a Oceania é o único continente onde ainda não houve imunizações. Em termos absolutos, Estados Unidos e China lideram, com 12,2 milhões e 10 milhões de vacinados. Já em termos percentuais, Israel já imunizou 25,34% da população.

Quando e como será a vacinação no Brasil?

“Quando” é a pergunta de um milhão de dólares. O Ministério da Saúde pretendia fazer uma cerimônia no dia 19 e iniciar a campanha no dia 20, mas o imbróglio com a Índia fez o evento ser adiado, mas não se sabe se a vacinação começará mesmo no dia 20 com os imunizantes requisitados ao Butantan.

Já o “como” é razoavelmente conhecido. As doses serão repassadas aos estados e municípios, responsáveis pela aplicação de acordo com o critério de prioridades. A fase 1 abrangerá profissionais de saúde, maiores de 75 anos e maiores de 60 que vivam em instituições de longa permanência. Na fase 2 serão imunizadas pessoas entre 60 e 74 anos. Na 3, portadores de comorbidades agravantes de Covid, como diabetes, hipertensão e obesidade. Finalmente, na 4, professores, profissionais das forças de segurança e salvamento, funcionários do sistema prisional e detentos. Só depois virá a população em geral. Confira a íntegra do plano nacional de vacinação.

Ainda há perguntas cujas respostas só virão durante e após a vacinação, mas o fundamental é ter em mente que a vacina é nossa melhor arma contra essa doença. Tome-a tão logo seja possível.

Por Leonardo Pimentel


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Só para complementar: obviamente este vídeo a seguir sobre “Rambo e a Vacina” não faz parte de nenhuma edição do Meio; recebi pelo Facebook e – sinceramente – ri litros! Até porque a dublagem ficou perfeita… Confiram! 😀

Bodas de Louça

Bodas de Louça. Vigésimo segundo ano de comemoração matrimonial. 22 anos de casados. E qual é o porquê da louça? É que com a louça, apesar de sua fragilidade, é possível fabricar vasilhames que tanto podem acomodar líquidos como sólidos, recebendo e amoldando as situações da vida em conformidade com o formato do próprio casal, demonstrando que já suportou e suporta muitas coisas juntos, mas com a ciência da necessidade de continuar cuidando da integridade da relação.

Nos conhecemos quando estudávamos na Faculdade de Direito. Ela já havia começado o curso, trancou a matrícula, foi para o Japão – onde trabalhou por quatro anos – e voltou no ponto onde havia parado, no terceiro ano, em 1994. E eu já estava por lá, seguindo normalmente os estudos…

Primeiro contato…

Apesar de nosso primeiro contato não ter sido promissor (pois ela me deu uma reprimenda porque eu nunca sabia se chamava ela de Elaine, Eliane ou Eliana…), e mesmo ela estando noiva e eu sendo casado, acabamos nos tornando bons amigos e como é comum em todo e qualquer curso de Direito volta e meia saíamos em turma para aproveitar os barzinhos da cidade.

Se não me falha a memória, lá no saudoso “O Caipira”…

Nessa época, para me sustentar, eu montava e vendia microcomputadores (bons tempos dos 386 DX 40 e o começo dos 486!) e acabei lhe vendendo e instalando seu primeiro computador. No último ano de faculdade, em 1996, ela já fazia estágio no departamento jurídico da Prefeitura e graças aos meus “conhecimentos técnicos” ela me indicou para uma entrevista e eu também passei fazer estágio na área jurídica enquanto, paralelamente, ajudava todo aquele pessoal a desvendar os segredos daquele novo ambiente gráfico que eles não tinham nem ideia de como funcionava: o Windows 3.11.

E também foi nesse ano que cada qual encerrou de vez com sua vida conjugal. Eu saí de um casamento de cerca de dez anos e ela saiu de um noivado de cerca de quatro anos. E naquele final de anos, ainda que sozinhos mas meio que juntos, esse fato veio a dar um novo sabor às últimas festas de formatura…

Acho que esse foi o último churrasco que fizemos – e olha o bonitão (o único sem camisa) sentadinho bem ali no meio!

Aliás, já que estávamos naquela “situação”, por que não nos acompanharmos um ao outro na própria formatura? Foi o que fizemos!

Eu, todo na estica e com pelo menos uma arroba a menos do que nos dias de hoje.
Já ela não mudou nadinha!

E foi dessa maneira, naturalmente, em decorrência de uma convergência de inúmeros fatores inesperados, que começamos nosso relacionamento. Que ainda assim ela tentou encerrar – mas quem me conhece sabe como eu posso ser persuasivo. Ou melhor, teimoso e turrão!

Bem que ela tentou…

E uma vez formados atravessamos o ano de 1997 trabalhando juntos no escritório de advocacia de nossos amigos, sendo que passávamos praticamente o tempo todo um com o outro, volta e meia visitávamos a irmã dela no litoral e normalmente eu também estava lá pelas bandas da casa dela…

Eu, na minha versão “Renato Russo”.

Abre o olho, Japonesa!
Fecha o olho, Gaijin!

Mieko sendo bonitinha como só ela sabe ser…

Mas não teve jeito. Estávamos fadados ao sucesso! E foi assim que no dia 12/12/1998, nas dependências do restaurante rural Coelho e Cabrito, que formalizamos nossa união perante os homens e perante Deus. Aliás, logo após a cerimônia civil e sem que tivesse chegado o pastor que faria um culto ecumênico (pois ele se perdeu no caminho), chamamos todos os convidados para que se sentassem e começassem a se servir. Então, quando todos já estavam acomodados, eis que o pastor chegou. Pediu desculpas aos presentes e falou suas palavras. O que rendeu o inesquecível comentário do Luisinho, nosso padrinho:

“O melhor casamento que eu já fui foi o da Mieko e do Adauto. Enquanto o padre falava a gente estava lá, sentadão, com o copo de cerveja na mão!”

Atrasado, mas em tempo!

Segundo uma senhorinha, mãe de um amigo meu, ao ver essa foto:
“A perfeita união da Máfia Italiana com a Yakuza Japonesa!”

E, dali, partimos para nossa Lua de Mel em Porto Seguro, uma viagem que foi o presente dos nossos amigos do escritório – apesar de a Mieko já conhecer o lugar, ainda assim fomos curtir e aprontar a dois naquelas distantes plagas da Bahia…

Mieko pedindo informação.

Adauto discordando.

E desde então a gente vem levando nossa vidinha… Ambos cometendo erros e acertos, alguns maiores e outros menores (fora os gigantescos), mas ainda assim vamos levando. Apesar de sempre lembrarmos da data de nosso aniversário de casamento, na realidade raramente “comemoramos”, então as fotos a seguir representam apenas um pequeno apanhado acerca do que estava acontecendo conosco no dia ou num dia bem próximo dessa data.

1999: eu e Kevin no apartamento do Jardim América.

2002: eu, Kevin e Erik na comemoração de final de ano da escolinha.

2003: churrasco na Prefeitura de Jacareí, Erik no colo, Kevin brincando com a Mieko e Jean na barriga.

2004: Erik e eu limpando a massa de bolo crua da tigela – que, segundo a Mieko, “faz mal”…

2005: Jean “seguindo meus passos”…

2007: sim, nesse ano comemoramos “formalmente” nosso aniversário de casamento.

2012: sim, nesse ano também.

2013: foi no mesmo dia da formatura do Kevin.

2016: bem próximo da formatura do Erik.

2017: em casa com Hideki, Júlio, Júlia, Elaine, Mieko e eu.

2018: também foi próximo do dia da formatura do Jean…

… mas foi no exato dia que o Titanic voltou às ruas!

E é isso. Bodas de Louça. Continuamos sempre procurando nos adequar às novas situações que a vida nos brinda – ainda mais nessa época maluca de pandemia e desvario presidencial – mas também não descuidando da fragilidade que é a manutenção de um casamento já tão longevo. O tempo vai passando, as crianças vão crescendo e, enquanto casal, temos nos descoberto cada vez mais parceiros no nosso dia a dia – apesar dos eventuais dedos em riste de ambos os lados, mas isso faz parte… O que importa é manter a família unida!

Cenas do dia a dia de um casal

Abertura: Cena de uma ponta da cozinha em uma grande angular. Percebe-se a longa mesa que atravessa o cômodo, uma parede toda tomada de armários de um lado e, do outro, uma mesinha alta com apenas duas cadeiras. Ao fundo uma também longa pia, sob a janela, ladeada pela porta de saída do lado esquerdo e pelo fogão no canto, do lado direito. No chão, próximo da pia, duas grandes sacolas de feira, ainda com produtos recém-comprados. Duas pessoas estão de costas para a câmera, lado a lado e de frente para a pia, fazendo algum serviço manual.

Corta: O enquadramento da cena agora é do ponto de vista da altura da pia de duas cubas, focado, mostrando nitidamente de baixo para cima o que o casal está fazendo bem como seus rostos e olhares absortos em sua ocupação. Ele, alto, está fatiando um queijo, olhar vago, pensando em alguma coisa. Ela, pequenina, está lavando folhas de couve, semblante ligeiramente franzido. De repente, do nada, apoiando-se sobre a beirada da pia, ela olha para ele e solta:

– Na boa? Você precisa mesmo é criar juízo!

Diz isso e volta-se para a frente, retomando seus afazeres.

– Cuméquié? Pô, tô quieto aqui cortando meu queijinho e você me vem com essa?

– Na verdade é simples: – diz, sem olhar – eu não estou a fim de ficar viúva!

– E você poderia ficar viúva porque eu não teria “juízo”. É isso?

Cerrando os olhos e agora ambos se encarando, ela responde:

– É.

Num gesto teatral e grandiloquente, com os olhos arregalados, cara de espanto e a mão espalmada no peito ele ainda pergunta:

– Falta de Juízo, EEEEEUUUUU???

Não sem um esgar de um sorriso, voltando novamente sua atenção para as folhas de couve, desta vez ela afirma:

– Pois é, amor, o problema é que você não tem juízo…

Também voltando a fatiar o restante que falta do queijo, quase que distraidamente, num tom tranquilo é a vez dele:

– Amor, na verdade quem não tem juízo é você.

– Como assim? Voltando a encará-lo. Por que eu?

Desta vez interrompendo seu fatiado, mas ainda assim sem se abalar, baixando a faca na pia e com um carinho no olhar ele calmamente responde:

– Amor, veja bem. Eu tenho muito juízo. Tenho juízo de sobra. Sabe o porquê? É porque eu me casei com você. Na verdade quem não tem juízo é justamente você, simplesmente pelo fato que casou comigo.

Novo corte: Bem de frente. Ângulo fechado somente na face dos dois. Sérios. De repente os lábios começam a tremer e sonoras gargalhadas dão lugar ao que quase poderia ter sido uma discussão. A câmera se afasta para vislumbrar o casal se abraçando, ainda rindo, olhos nos olhos, com um suave beijo para encerrar o assunto. Cai o pano.

(Flagrante do momento: “Falta de Juízo, eu?”…)

A vida é mais!!!

Quanto mais eu conheço dessa raça (humana), mais vergonha acabo sentindo…

Mas quando encontro sentenças como essa a seguir ainda tenho alguma esperança!

Trata-se de ação de indenização por danos morais e materiais por um suposto “erro médico” que tramitou no Juizado Especial Cível da comarca de Goioerê, Paraná, uma simpática cidadezinha com cerca de 30 mil habitantes encravada pro lado da região oeste do estado. Essa pitoresca sentença (a original pode ser visualizada aqui) foi prolatada nos autos do processo nº0003331-47.2019.8.16.0084 pela Juíza Fabiana Matie Sato.

SENTENÇA

1. Afasto o parecer, de seq. 44, nos termos do artigo 40 da lei 9.099/95.

2. Os autores pretendem ser indenizados, por dano material de R$ 4.987,00 mais dano moral de R$ 15.000,00, sob a alegação de que o médico, após realizar ultrassom, informou que o bebê era menino, mas no sétimo mês de gravidez, os autores vieram a descobrir que o requerido errou no diagnóstico, porque a mãe estava grávida de uma menina.

3. Adoto a fundamentação da rejeição das duas preliminares, pela desnecessidade de prova pericial, e a incompetência territorial, do parecer de seq. 44.

4. É de conhecimento popular e raso que, no início da gestação, qualquer informação sobre o sexo do bebê está sujeita à alteração, seja pela limitação do exame de ultrassom, seja pela posição da criança no ventre materno. Conforme seq. 1.4, tratava-se de exame com uma gravidez de 14 semanas.

O casal de autores informa a realização de Ultrassonografia Pélvico Endovaginal, em 28/02/2018, 07/03/2018, 29/03/2018 e 26/04/2018 e Ultrassonografia Obstétrica no dia 01/08/2018.

No exame Ultrassonografia Pelvico Endovaginal, de 26/04/2018, da gravidez de 14 semanas, o médico disse que era um menino.

E eles não se importaram em fazer novo exame para apurar o sexo do bebê, e apenas no 7º mês descobriram que era uma menina, mas tudo já estava comprado.

O casal comprou todo o enxoval da criança em coloração azul e roupas próprias para meninos, e gastaram cerca de R$ 4.987,00.

Pelo engano do médico, sustentam o dano moral, quantificado em R$ 15.000,00.

Nesta ação, os autores pretendem empurrar para o médico, a conta do chá de bebê e das roupas também.

Tenho dó desta menina, porque os pais queriam que ela fosse um menino, porque o médico disse que era menino, e a mãe não fez outro exame para confirmar o sexo do bebê, após o exame de ultrassom, de 14 semanas, e os pais compraram tudo, desde chá de bebê azul até roupas azuis, e só descobriram que era uma menina, no 7º mês.

Coitada. Veio ao mundo, recebida, com este clima, sem direito dos pais de serem reembolsados pelas despesas com enxoval e chá de bebê.

Meu Deus, quanta pequenez para celebrar a vida. Quanto despreparo para uma gravidez e para reconhecer a dádiva das belezas da vida.

A culpa foi dos pais, e ele pretendem colocar a culpa no médico, no exame, em todos, menos neles.

A vida é mais!!!

Os pedidos são totalmente improcedentes.

DISPOSITIVO

Ante o exposto, julgo IMPROCEDENTES os pedidos.

Sem custas ou honorários advocatícios.

Publique-se, registre-se e intime-se.

Goioerê, 27 de fevereiro de 2020.

Fabiana Matie Sato
Magistrada

Valorizando seu dinheiro – XI

Recapitulando
(As principais representantes da moeda em cada época…)

Moeda de Cerco – Doze Florins (1645)
 

Vintém – Vinte Réis (1695)
 

Meia Pataca – Cento e sessenta Réis (1695)
 

Dobrão – Vinte mil Réis (1724)
 

Escudo – Doze mil e oitocentos Réis (1727)
 

Tostão – Oitenta Réis (1727)
 

Cinco mil Réis (1833)
 

Dois mil Réis (1888)
 

Quinhentos Réis (1901)
 

Quinhentos mil Réis (1936)
 

Dez Cruzeiros (1950)
 

Dez Cruzeiros Novos (1967)
 

Cem Cruzeiros (1970)
 

Barão – Mil Cruzeiros (1978)
 

Quinhentos Cruzados (1986)
 

Cinquenta Cruzados Novos (1989)
 

Cinquenta mil Cruzeiros (1990)
 

Cinco mil Cruzeiros Reais (1993)
 

Cem Reais (1994)
 

E aqui concluímos esta nossa histórica história, tendo passado por todos os períodos do Brasil, desde a época colonial até os tempos atuais. Poderíamos também ter falado das recém-surgidas criptomoedas, um novo meio de troca que se utiliza das tecnologias de protocolos seguros e da criptografia para assegurar a validade das transações efetuadas através do computador – mas isso já é matéria para algum outro dia…


(Início da Saga)

Volta ao Mundo em 80 Horas – VIII

VIII – E quando você acha que tudo acabou…

(Para os desavisados de plantão: esta é a conclusão da narrativa de uma de minhas desventuras que comecei a contar no final de 2016 – já há quase quatro anos! – e que até agora ainda faltava um desfecho. Nada demais, apenas um pré-infarto pelo qual passei. Se quiserem saber como tudo isso começou ou rememorar o causo desde o princípio, desçam direto lá para o final deste texto e cliquem no link “Início da Saga”.)

(Mais um recadinho do coração para um avisado de plantão: o amigo Hideki me cobrou por mais de uma vez quando sairia a continuação desta “saga” e, brincando, lhe disse que seria antes do capítulo final da Caverna do Dragão (entendedores entenderão). Pois é, meu amigo. Falhei com você. Pois finalmente esse capítulo saiu (está disponível aqui) e eu ainda não tinha conseguido terminar estas mal traçadas linhas. Perdoe-me. Agora que já fiz a média com meu vasto público de uma pessoa, continuemos de onde paramos!)

E finalmente chegamos na manhã de sábado! Durante quatro incompletos dias estive internado, numa viagem em torno de mim mesmo que durou cerca de 80 horas (Júlio Verne que me perdoe o infame trocadilho) e agora estava eu ali, com a alta na mão, uma lista de remédios a comprar e exames a fazer e sem ter como ir pra casa (dramático, não?).

Sinceramente não me lembro mais o motivo pelo qual a Dona Patroa não poderia me buscar naquele horário matutino – com certeza alguma correria com a criançada – mas, como diz o ditado, “quem tem amigo, não morre pagão”. As mesmas amigas que vieram tripudiar de minha internação também estavam disponíveis para me dar uma carona para minha casa, na cidade vizinha de onde eu estava “hospedado”.

Mas antes mesmo de voltar para meu abençoado lar e para os braços de minha amada, idolatrada, salve, salve, Dona Patroa, ainda precisava comprar a batelada de medicamentos que teria que tomar por algum tempo. Passamos em uma farmácia próxima do hospital e fui encantadoramente apresentado ao Programa Farmácia Popular, uma iniciativa criada pelo Governo Federal para distribuição de medicamentos com custos reduzidos, ou mesmo de forma gratuita, e que visa a universalização do acesso aos serviços voltados à saúde – principalmente no que diz respeito aos medicamentos referentes à diabetes e hipertensão arterial – de modo que não haja interrupção no tratamento dos pacientes em decorrência de uma eventual falta de dinheiro.

E como sou usuário de carteirinha do SUS e aparentemente “hipertensão arterial” tinha tudo a ver com o que passei, é lógico que saí dali com toda uma farmacopeia digna de fazer inveja a qualquer indústria química…

Pois bem. Apesar de ter tido alta e ter perdido (desinchado) uns cinco quilos no processo, ainda existem mais duas intercorrências dignas de nota.

Como acabei de lhes dizer, além dos remédios em si, também saí com a missão de fazer alguns exames específicos. O primeiro deles foi um teste ergométrico, ou seja, enfrentar uma esteira de forma monitorada para ver a quantas andam as batidas do combalido e sempre apaixonado coração deste que vos tecla.

Agendamento feito, no horário marcado compareci na câmara de tortura no consultório onde iria fazer o teste. O atendente-enfermeiro, muito atencioso, me explicou detalhadamente como seria: começaria com uma caminhada tranquila na esteira e, aos poucos, ele iria aumentando o ritmo e monitorando os resultados até uma determinada velocidade específica (ou até que eu fosse atirado pela janela por não ter conseguido acompanhar essa velocidade). Simples, prático e aparentemente indolor. “Então vamo que vamo!” Ato contínuo ele pediu para que eu tirasse a camisa para colocar os eletrodos.

– Xiiiii…

Caráy! De novo? Lembram-se lá no começo da saga que eu lhes falei dos meus nada ralos pelos no peito? Então. Ele coçou a cabeça, fez alguns testes para tentar colar um ou outro eletrodo, deu um passo pra trás e sentenciou:

– É. Não tem jeito. Vai ter que raspar.

– CUMÉQUIÉ???

– Eu tenho mais de uma dezena de eletrodos que preciso espalhar em diversos pontos específicos de seu corpo para que o teste possa ser validado. Eles têm que ficar bem firmes. Só que com toda essa Mata Atlântica aí não vai ter jeito.

– (Suspiro resignado) Quer dizer que vou ter que virar um atleta da natação, com peito pelado e tudo mais?

– Não! Basta raspar somente nos pontos que vou colocar os eletrodos, não precisa ser tudo não. E isso cresce rapidinho, você vai ver só!

Bem, como diz outro ditado, “já que está no inferno, abrace o capeta”. E lá foi ele dar uma “raspadinha” nos tais dos pontos específicos. Nem quis olhar. Depois de tudo colado e eu me sentindo uma daquelas marionetes do Cirque du Soleil de tanto fio que saía de mim, começamos o teste. Não vou entrar em detalhes de quanto tempo durou ou como foi minha (nada) atlética performance sedentária perante uma esteira que, eu nem sabia, podia chegar à velocidade de uns oitenta quilômetros por hora. Ao menos foi isso que me pareceu.

Concluído o teste e eu, com algumas pontadas nas costelas e com o coração parecendo que tinha acabado de participar de uma competição de taikô (aqueles tambores japoneses), ainda estava tentando recuperar o fôlego enquanto pontinhos prateados bruxuleavam à minha frente, e o atendente-enfermeiro-demônio-torturador já começou a arrancar todas as centenas de eletrodos que havia espalhado pelo meu corpo (provavelmente tendo colado com SuperBonder). Assim, sem cerimônia nenhuma. Já foi puxando e descolando na raça um por um. Sem um chamego. Sem um carinho. Sem um “vem cá meu bem”… Que puxa.

Só então tive coragem de dar uma olhada para baixo e ver o que sobrou do meu estofamento.

Lembram daqueles antigos filmes de guerra, com crateras gigantescas das explosões dos campos minados? Ou uma mata que tenha sido bombardeada e foram abertas clareiras nos locais mais inusitados? Ou um avião com horrendos buracos na fuselagem? Então. Foi mais ou menos essa a impressão que tive quando olhei para minha pobre caixa torácica.

Resultado disso tudo? “Arritmia não constante nos picos de esforço.” Ou seja, NADA. Normal. Segundo ele, qualquer pessoa que coleciona anos de sedentarismo e se submete a um teste de esforço como aquele vai ter esse mesmo diagnóstico. E, no mais, até que eu tinha aguentado bem, já que ele tinha dado um gás a mais no final só para ver se eu aguentava. Foi assim que, enquanto me despedia, olhos nos olhos, sorri carinhosamente enquanto pensava “fiadaputa!”

Ainda cansado, o fôlego irregular, fui para o carro pensando em mil coisas e no próximo exame que ainda teria que fazer. Ao colocar o cinto de segurança senti uma violentíssima fisgada, assim, bem aqui do ladinho, abaixo das costelas. Fiquei lívido. Num átimo de segundo inúmeras situações se descortinaram à minha frente. Será que eu tinha me esforçado demais? Será que prejudiquei algum órgão interno? Afinal de contas o que é mesmo que a gente tem aqui do lado? Não entendo bulhufas de anatomia! Soltei o cinto e enquanto levantava a camisa para apalpar onde doía fiquei imaginando o que seria. Será o baço? Será o rim? Será o fígado?

ERA UM ELETRODO!!!

O desinfeliz do Torquemada 2.0 havia esquecido um eletrodo na minha carroceria e quando ajustei o cinto fui espetado de uma maneira espetaculosa que eu nem sabia que era possível!

Arranquei o eletrodo e a pele que o forrava, joguei no lixo e, praguejando, fui pra casa.

Mas ainda faltava mais um exame.

O derradeiro exame seria o de cateterismo. Basicamente trata-se de enfiar uma mangueira (e vamos parando com esse pensamento pecaminoso aí!) em uma artéria até alcançar as vizinhanças do coração e soltar um líquido especial – o tal de “contraste” – para verificar se há algum entupimento no encanamento.

Me foi esclarecido que, basicamente, seriam quatro as hipóteses acerca da minha situação: normal; veias com paredes finas; com entupimento leve (até uns 20%); ou com entupimento pesado (70% ou mais de obstrução). Nesse último caso é considerado pra lá de preocupante e seria um forte candidato a algum tipo de cirurgia de desobstrução.

Apesar de ser um procedimento relativamente simples, essa “mangueira” – ou melhor, “cateter” – deve ser introduzida (sem gracejos, você aí do fundo) pela artéria da coxa ou do braço. Na maioria dos casos a probabilidade maior é que seja mesmo através da artéria femural, na coxa, o que implica em algumas restrições pós-procedimento: três dias sem esforço nenhum, sete dias sem esportes, e oito dias torcendo para que a Dona Patroa não expulse aquele vagabundo do sofá.

Mas não deixa de ser um “procedimento”. E com isso sempre há alguma preocupação. Amigos e família ficaram sabendo pelo que eu iria passar e não deixaram de me encaminhar diversas mensagens de ânimo:

– Vai dar tudo certo.

– Tenha fé em Deus.

– A gente confia na ciência, mas, ainda assim, boa sorte!

– Deixa o cesto de roupa suja pra fora quando for tomar banho.

E no dia marcado lá estou eu na clínica, de novo com a porra do avental de bunda de fora – mas ao menos agora com direito a touquinha e sapatinhos… Uma graça que vocês nem imaginam…

A enfermeira veio me posicionar no equipamento e avaliar por onde seria a introdução (óóóiii…). Concluiu que eu tinha uma veia boa, com uma pressão boa (“de menino!”, ela disse) e poderíamos fazer pelo braço mesmo. Vou lhes contar: não é uma dor, é uma espécie de desconforto. É como se uma longa minhoca viesse se esgueirando braço acima, parece que se aproxima da garganta e então, de repente, mergulha em direção ao coração. Muito esquisito. Na sequência é baixada aproximadamente meia tonelada de equipamento sobre o peito e tudo que lhe resta é ficar ali, quietinho e imóvel, com mais de um metro de mangueira enfiada pelo seu braço e torcendo para que a) o resultado do exame seja benéfico, b) que o braço mecânico que segura aquela parafernália não desmonte sobre você, e c) será que vai dar tempo de passar no boteco e tomar uma breja antes de ir embora?

Bão, enfim, pouquíssimo tempo depois, uma vez que injetado o contraste e feitas as chapas, o exame já estava concluído e enquanto eu me vestia o médico me veio com os resultados.

– Parabéns!

– Pelo quê, messs? Vou ganhar uma ponte de safena ou algo do gênero?

– Não, nada disso, muito pelo contrário. Seu exame foi excelente. Suas veias estão limpas e saudáveis. Lisas como um bumbum de bebê!

– Não!

– Sério!

– Doutor, eu tenho, hoje, 47 anos. Disso, quase uns 35 de esbórnia. O que o senhor está me dizendo é que estou garantido para mais uns 35 anos de farra?

– NÃO, não foi isso que eu disse, eu só comentei que…

Mas eu já não estava mais ouvindo. Para o desespero Dona Patroa, que estava na expectativa que minhas veias estivessem equiparadas a um cano de esgoto pantanoso após tantos anos de patuscadas, não teria mais como ela implicar com minhas eventuais cervejinhas. Não que ela vá deixar de implicar com minhas (nada) eventuais cervejinhas!

Mas com esse último exame concluímos toda essa desventura que me deu um belo susto, me fez passar três dias na UTI e me fez chegar a conclusões, no mínimo, interessantes.

Ora, minhas veias estavam perfeitas, sem entupimentos (apesar da ferrugem de Opaleiro que por ali circula). Meu coração continuava batendo forte (fraco somente para as paixões que a vida nos apresenta). Meus pulmões estavam em dia e com a respiração normal (exceto para tudo aquilo que me tira o fôlego). Ou seja, então por que catzo eu passei tão mal e fui parar no hospital?

Olhando pra trás creio que a resposta seja uma só: ansiedade.

O que muito provavelmente eu tive foi uma GIGANTESCA crise de ansiedade, ainda que não tenha percebido. Isso porque quem sinalizou foi meu corpo, pois na minha cabeça tudo estava normal. Vejam só: após longos 16 anos trabalhando na Prefeitura, 8 cuidando de todas as licitações do Município e outros 8 como Secretário de Assuntos Jurídicos, eu meio que me acostumei a trabalhar sob pressão. Pressão absoluta. Tudo é pra agora e não há como delegar. E no final de 2016 o nosso partido perdeu na cidade, o que significava que no dia 31 de dezembro cada qual tomaria seu rumo. Mas nesse meio tempo era minha obrigação ajudar a preparar tudo para a transição, disponibilizando todas as informações necessárias para o novo governo. E pensar no que fazer a partir de 1º de janeiro. E como pagar as dívidas que ainda estavam em aberto. E como dar o melhor encaminhamento para a parte de minha equipe que também estava saindo (servidores comissionados). E como lidar com a arrogância e despeito da parte da minha equipe que ficou na Prefeitura (servidores de carreira). E mil e uma outras pequeninas coisas com que eu teria que lidar antes do final do ano e depois que ele acabasse.

Como eu disse, na minha cabeça estava tudo normal, pois trabalhar sob pressão já era o meu padrão no dia a dia. Mas meu corpo abriu o bico. Não aguentou. E me obrigou a desacelerar mais que bruscamente antes que entrasse em colapso total. Pura ansiedade.

Desde então não tenho mais levado a vida tão a sério. Não que eu fuja de minhas responsabilidades, mas sempre procuro fazer avaliações acerca daquilo que me compete. Isso é realmente urgente? Isso é realmente necessário? Eu preciso mesmo disso? Tenho aprendido a viver mais tranquilo, com menos esforço, ganhando o que me é suficiente, compartilhando mais, convivendo mais com outras pessoas…

Acho que ainda estou longe da qualidade de vida que eu consideraria ideal, mas, cá entre nós: o que é “ideal”? Pois é, eu também não sei. Mas enquanto não descubro, só sei que vou levando. Me preocupando e cuidando com aquilo que está ao meu alcance, sem sofrência por aquilo que não me compete.

E com isso encerramos nossa volta ao meu próprio mundo e que resultou nessa bagunça toda que vocês tiveram a pachorra de acompanhar, sendo que, em verdade, em verdade vos digo: nem doente eu estava!

E só sei que foi assim!… 😉

(Início da Saga)                        (…acabou!)

Caverna do Dragão: o tão esperado final

Caverna do Dragão – ou, no original, Dungeons & Dragons – foi um desenho animado baseado no homônimo RPG (Role-Playing Game – um gênero de jogo no qual os jogadores assumem o papel de personagens imaginários em um mundo fictício) e que foi ao ar aqui no Brasil em meados da década de oitenta.

Trata-se da estória de seis jovens que, num parque de diversões, embarcam em uma montanha russa chamada Dungeons & Dragons. Entretanto, durante o passeio, um portal se abre e os transporta para um outro mundo, chamado simplesmente de Reino, no qual o grupo já aparece trajando outras roupas e recebendo logo em seguida armas mágicas — as Armas do Poder — de um baixinho de cara simpática que se autodenomina “Mestre dos Magos” (e que sempre desaparece misteriosamente, num piscar de olhos, quando menos se espera).

Assim temos Hank, O Guarda, que recebeu um arco mágico capaz de criar flechas energéticas que podem ser esticadas, dobradas ou até mesmo utilizadas como corda; Eric, O Cavaleiro, que recebeu um escudo que protege contra ataques mágicos ou físicos; Diana, A Acrobata, que recebeu um bastão tão flexível quanto as flechas de Hank e que se regenera quando quebrado; Sheila, A Ladra, que recebeu uma capa com capuz que lhe dá invisibilidade; Presto, O Mago, que recebeu um chapéu de feiticeiro do qual podem ser retirados objetos e magias aleatórias; e Bobby, O Bárbaro, que recebeu um tacape cujo golpe fortíssimo é capaz de quebrar pedras e criar pequenos abalos sísmicos.

A partir daí, os jovens passam por diversas aventuras buscando voltar para casa, durante as quais o Vingador, um mago maléfico, tenta a todo custo tomar as armas do poder dos jovens com a intenção de derrotar tanto o Mestre dos Magos quanto Tiamat, uma deusa-dragoa de cinco cabeças, para assim dominar o Reino.

Olhando agora, os desenhos até que eram meio toscos, sem aquela vivacidade garantida pelas películas produzidas em ambiente gráfico com supercomputadores e artistas de primeira linha. Mas dane-se! As estórias eram ótimas, às vezes até mesmo sombrias (novidade para aquela época), os roteiros inteligentes, a trilha sonora impactante, as características de cada um dos personagens em algum momento foram exploradas e não raro você se pegava torcendo por este ou aquele no decorrer de suas aventuras…

Foi um desenho que deixou saudades. E justamente por isso que, mais de trinta anos após seu encerramento, a Peugeot deu um solavanco nos combalidos corações dos antigos fãs ao lançar um comercial que explorava o universo desse desenho. Garanto que todos aqueles que acompanhavam a série ficaram maravilhados ante a expectativa de que eventualmente fosse produzido um “filme de verdade” com os personagens!

 
Voltando à década de oitenta, infelizmente, após três temporadas e 27 episódios a série foi cancelada, deixando uma legião de fãs órfãos, pois não houve um encerramento, uma conclusão. Acabou acabando e sem nos dizer se nossos heróis teriam conseguido voltar para casa e que fim levou o Vingador. Apesar de já existir um rascunho de um roteiro para o capítulo final, escrito pelo roteirista Michael Reaves e com o nome de Requiem, este nunca saiu oficialmente do papel.

Até agora!

Há anos esse roteiro final já circulava na Internet, já tendo sido feita, com base nele, uma versão adaptada para os quadrinhos, bem como um áudio drama. Mas foi somente agora neste pandêmico ano de 2020 que alguns fãs arregaçaram as mangas e verdadeiramente produziram um episódio completo com o tão esperado capítulo final de A Caverna do Dragão.

Divirtam-se!

Minha inguinorância é pobrema meu!

Rosana Hermann

Minha Santa Gramática das Últimas Concordâncias! Meu Santo Aurélio da Ordem Alfabética! Herrar é Umano, ninguém é per-feito, cultura não é inteligência, ninguém tem culpa de não ter formação cultural num país que só tem Juiz Lalau mas… o que é essa santa inguinorância da Solange do Big Brother Brasil de Quatro??? Gente, eu temo pela vida dessa moça! Se ela entrar no Zoológico de São Paulo, corre o risco de ser envenenada! De onde ela veio? Do Poço das Antas? Sai Capeta!!!

Não vou nem entrar em detalhes da edição de ontem que mostrou a grande final da 1a. Mar-anta-tona de Asneiras Estratosféricas, com Cida e Solange competindo de pau a pau nos quesitos “brócos” e “personal trem”. A gente sabemos (!) que elas têm origem humilde e que se tivessem tido oportunidade tudo seria diferente. Mas assim como o pior cego é aquele que não quer ver o pior burro é aquele que não quer aprender! Solange QUER ficar na santa inguinorânça, quer ser grossa, faz questã (!) de se manter porquinha!

A Solange é o tipo de pessoa que vai no aeroporto pra dar milho pra avião. Ela acredita piamente que quando sobe, o avião degola e quando desce, aterroriza! Pra ela, prédio moderno é aquele que tem garagem mediterrânea, luz de spock, sistema de esquecimento central e playboy pra criança brincar. Tenho certeza que ela não gosta de casa germinada onde as paredes estão cheias de humildade e nem aceita dormir em cama boliche!

Ela é do tipo que mata dois coelhos com uma caixa d’água e não põe a mãe no fogo por ninguém! E tem mais: garanto que ela nunca aprendeu português porque acha que a matéria é um bife de sete cabeças! Um dia eu posso até fazer uma meia-culpa por falar tudo isso da moça, já que a ignorância é uma questão de forno íntimo, mas eu acho que ela está indo com muita sede ao poste!!! De qualquer forma, ela não me respira confiança!

A ignorância da moça é tão genuína que deveria ser tombada pelo patrimônio histórico! (Já a Marcela deveria ser tombada pelo patrimônio… histérico!)

Aliás, nesta edição que está fadada (pra não dizer mordida…) a ter uma mulher como vencedora, estamos totalmente mal representadas. Além da turma das superpobrinhas de espírito, há várias suspeitas sobre a conduta das moças mais bem afortunadas. Várias matérias já insinuaram que se uma delas for morar na Índia, vai ser considerada uma criatura sagrada! Pegou? Pegou? Então larga que tá doendo!

Mas a vida é como circuito elétrico, sempre tem um lado positivo. E neste caso, o lado positivo é que um dia o programa acaba, a Solange ladra, as caravanas passam e a gente nunca mais vai ter que assistir em horário nobre alguém dizer ‘Jack o Estuprador’ sem saber que está num programa de humor!!

Agora, com licença, que eu tenho que me recompor, de tanto rir desta participante que tem mais sorte do que juiz! Já ri tanto que depilei o fígado!

Um beijo, um browse, um aperto de mouse, da
Rosana Hermann

Na boca do povo

Claudemir Beneli

As expressões populares que colocam a comida na “ponta da língua” dos brasileiros

Quando comecei com essa coluna, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem ideias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa. E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas.

Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.

Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.

Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese… etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou.

O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco.

A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.

Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata, engorda.

Acompanhamentos

Como vimos, além de rica em cores e sabores a culinária brasileira também oferece ótimos eufemismos e deliciosas metáforas. Desempenhando uma função social que vai muito além da nutrição, a comida, no Brasil, está relacionada a diversas manifestações da cultura popular, entre elas a linguagem.

Dessa interação nasceram várias expressões famosas e corriqueiras, verdadeiras “pérolas” do colóquio nacional. Saber a origem de algumas delas pode ser tão prazeroso quanto provar um bom prato. O difícil é conseguir provar a tal origem, pois quando se trata de expressões populares cada um tem sua própria versão.

As descritas abaixo são as minhas versões, às vezes, inspiradas na de outros, já que andei pesquisando um pouco. Não acredite em tudo. Mas, por mais estapafúrdias que pareçam, certas origens podem muito bem ser verdadeiras.

A carne é fraca – Essa expressão retirada da Bíblia representa a dificuldade de se resistir a certas tentações. A gula (pecado ou não) está sempre nos mostrando isso, porque a carne pode até ser fraca, mas grelhadinha no molho de mostarda… hum! Fica divina. “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”. (Mt. 26:41)

Apressado come cru – Como o micro-ondas e o fast food são invenções recentes, até certo tempo atrás era preciso esperar um pouco mais para a comida ficar pronta, ou então comê-la crua. Nessa época a culinária japonesa ainda não estava na moda, logo comida crua era vista com maus olhos, e a expressão passou a ser usada para significar afobamento, precipitação… etc.

Arroz de festa – Assim são chamadas aquelas pessoas que não perdem uma festa por nada, tendo ou não sido convidadas pra mesma. A origem dessa expressão talvez advenha do costume de se jogar arroz em recém casados. Mas o mais provável é que ela tenha surgido devido a uma antiga tradição portuguesa. Nas festas e comemorações das tradicionais famílias portuguesas nunca faltava uma sobremesa feita com arroz, leite, açúcar e algumas especiarias (arroz doce) e que era conhecida, na época, como “arroz de festa”.

Chorar as pitangas – Pitangas são deliciosas frutinhas vermelhas cultivadas e apreciadas em todo o país, principalmente nas regiões norte e nordeste. A palavra pitanga deriva de pyrang, que em tupi guarani significa vermelho. Sendo assim a provável relação da fruta com o pranto vem do fato de os olhos ficarem vermelhos, parecendo duas pitangas, quando se chora muito.

Comer o pão que o diabo amassou – Significa passar por uma situação difícil, um sofrimento. Imagino que a origem dessa expressão venha do fato de que deve ser, realmente, indigesto engolir um pão amassado (amassar é o mesmo que fazer a massa) pelo capeta. Além da procedência, nada confiável, do produto (se vem do coisa ruim, boa coisa não pode ser) tem grandes chances desse pão vir queimado, já que foi assado no fogo do inferno.

Dar uma banana – É das poucas expressões que são acompanhadas por um gesto. Aliás, neste caso, o mais provável é que o gesto tenha inspirado a expressão, já que ele existe em vários países como Portugal, Espanha, Itália e Brasil. Em todos esses lugares o gesto significa a mesma coisa: um desabafo ou uma ofensa. Já a alusão à banana é exclusividade tupiniquim e fica por conta da criatividade, tão peculiar ao brasileiro.

Farinha do mesmo saco“Homines sunt ejusdem farinae” esta frase em latim (homens da mesma farinha) é a origem dessa expressão, utilizada para generalizar um comportamento reprovável. Como a farinha boa é posta em sacos diferentes da farinha ruim, faz-se essa comparação para insinuar que os bons andam com os bons enquanto os maus preferem os maus.

Pagar o pato – A expressão deriva de um antigo jogo praticado em Portugal. Amarrava-se um pato a um poste e o jogador (em um cavalo) deveria passar rapidamente e arrancá-lo de uma só vez do poste. Quem perdia era que pagava pelo animal sacrificado, sendo assim passou-se a empregar a expressão para representar situações onde se paga por algo sem obter um benefício em troca.

Ser de meia tigela – Na época da monarquia portuguesa muitos jovens habitavam os castelos, eles prestavam serviços domésticos à corte e recebiam alimentação e moradia por isso. Entre estes jovens, haviam vários vindos do interior, que pela pouca experiência e origem humilde, eram desprezados pelos veteranos, sendo ironicamente tratados por “fidalgos de meia tigela”, já que embora habitassem o palácio não participavam de rituais importantes da corte. Como em alguns desses ritos quebravam-se tigelas, dizia-se que eles eram de meia tigela porque nunca quebrariam a tigela, privilégio reservado aos nobres.

Bom, essas são algumas das histórias mais interessantes, mas se você se interessou pelo assunto e quer continuar a desvendar a origem das expressões, pode recorrer a sua própria criatividade, a sua avó e as amigas dela do jogo de biriba ou então aos seguintes livros:

– De onde vêm as palavras, Deonísio da Silva (Editora A Girafa, 2004). – Neste livro se encontram milhares de verbetes explicando a origem etimológica de várias palavras e expressões. Mais do que desvendar a origem, Deonísio explica, em alguns casos, a história das palavras e como elas se modificaram desde o seu surgimento.

– Mas será o Benedito?, Mario Prata (Editora Globo, 1996) – Várias histórias criadas pelo autor para explicar a origem de algumas expressões populares faladas por nós estão presentes neste livro. Privilegiando mais o humor que o rigor científico, Mario Prata assume que inventou a maioria dos verbetes sem se preocupar com a verdade histórica.

Meus secretos amigos

Paulo Sant’Ana

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer…

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

“A gente não faz amigos, reconhece-os.”