Cavaleiros do Apocalipse

Nelson Moraes

Os quatro cavaleiros do Apocalipse entram num bar.

– Sabe – diz a Morte, recostando-se ao balcão e pedindo aquela que matou o guarda – , acho que cansei.

– Cansou do quê? – pergunta a Guerra, pedindo um Silver Bullet. – Eu, que não tenho um minuto de paz, é que já devia pendurar as chuteiras.

– Muito engraçado vocês falarem isso – diz a Fome, jogando o cardápio longe porque nele só tem bebida. – Dou expediente integral nos quatro cantos do mundo e nunca foi cogitada sequer uma licença remunerada.

– Ai, que lindo – fala a Peste, pedindo uma Corona. – As três divas agora resolveram entrar em crise existencial conjunta? O que falta mais, assinar uma nota de repúdio?

– Você só fala isso – replica a Guerra – porque não trabalha igual a gente. E só aparece de tempos em tempos. Expediente de freelancer é outra história.

– É mesmo? – a Peste volta a dizer, acentuando o sarcasmo e virando a long neck.– Pois vocês reclamam de barriga cheia (inclusive você, Fome, sua poser). Não veem o drama que é ser freelancer, e viver sempre por conta própria.

– Como assim? – pergunta a Guerra.

– Simples – a Peste responde. – Vocês todas têm quem banque vocês, queridas. Onde vocês aparecerem sempre haverá alguém respondendo pelo feito. Guerra? Não falta quem assuma a responsabilidade. Fome? É só olhar os embargos internacionais ou governantes corruptos que desviam os recursos alimentares. Morte? Potencialmente cada habitante da Terra é um assassino. Agora pra Peste não tem refresco (falar nisso, desce outra Corona). Nunca aparece um responsável por ela. Quando ela surge é sempre subestimada, tratada como detalhe ínfimo, uma doencinha, ninguém liga a mínima, e quem registra a presença dela ainda é tachado de alarmista. Mas basta ela crescer e se mostrar em toda a sua pujança pra todo mundo imediatamente começar a tirar o corpo fora: ninguém tem culpa, as autoridades teoricamente competentes lavam as mãos (sem duplo sentido, por favor), acusações são trocadas por todos os lados mas ninguém assume o estrago. No final ela sai pela porta dos fundos, como a única vilã, e a Humanidade respira aliviada, como se não houvesse tido o menor envolvimento no acontecido. A Peste fica como uma fatalidade intercorrente na História, tipo um terremoto ou tsunami, ponto. – Aí a Peste seca outra long neck. – E aí?

– É – diz a Fome. – É mesmo de perder o apetite.

– Sim – confirma a Guerra. – Viver desse jeito é uma batalha.

– É de matar, mesmo – fala a Morte. – Não tem nada pior que isso.

– Tem sim – fala a Peste, já ligeiramente bêbada.

– O quê? – dizem todas.

– Aguentar esses trocadilhos óbvios de vocês.

As outras três se entreolham, trocando um “iiiiiiiiiiiiih” imaginário e lembrando que quanto mais bêbada mais rabugenta a Peste fica. Depois de um curto silêncio – e da Peste pedir a quarta long neck – a Morte vai à jukebox e coloca It’s the End of The World as We Know It, do R.E.M., pra ver se anima a colega.

– E tem mais – estende-se a Peste, já com a voz pastosa. – Se somos as quatro do gênero feminino, o nome não tinha que ser as quatro amazonas do Apocalipse?!?

É a deixa pra Morte arrastar a Fome e a Guerra pra mesa de sinuca.

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