Veredas da Vida – V

Interlúdio

De novo, isso? Pedindo demissão outra vez? Não dava para sossegar num só lugar, não? Não. Concurseiro que era, acabei passando noutro concurso e dessa vez não tinha como continuar na Prefeitura, pois o salário era, de fato, bem melhor que aquele que eu recebia – mesmo estando num cargo em comissão.

Em 1º de setembro de 93 comecei a trabalhar como Auxiliar Administrativo II nas dependências da TELESP – Telecomunicações de São Paulo S/A. Naquele prédio que fica bem ali no Centro de São José, quase em frente ao antigo Hotel Eldorado.


Este aqui!

Meu trabalho principal constava em cuidar do estoque e do abastecimento de peças e equipamentos junto ao almoxarifado para as empreiteiras que prestavam serviços à Telesp. E só digo “meu trabalho principal” porque, não demorou muito, descobriram que aquele rapazinho novo que tinha acabado de entrar sabia “mexer” com o tal do microcomputador.

É que, naquela época (e talvez até hoje), todo o sistema informatizado da empresa estava vinculado a computadores de grande porte, cujo sistema operacional básico era o Unix. A microinformática estava começando a chegar na área e aquele pessoal da velha guarda não tinha nem ideia da poesia envolta em configurar um microcomputador – coisa que eu já vinha me aprimorando há algum tempo. Eu era craque em editar um autoexec.bat daqui, um config.sys dali, algumas mexidas na configuração do hardware, às vezes na placa de vídeo e rapidinho eu turbinava aqueles 386 de vários setores. Não entenderam nada? Tudo bem, mas acreditem: foi assim.

Graças a essa facilidade com os microcomputadores, não demorou muito e comecei a desenvolver um trabalho paralelo, em casa, de montar e vender esses equipamentos. Isso dava uma ajudinha boa na renda e me permitia, cada vez mais, me aprofundar no funcionamento dessas novas máquinas de fazer doidos…

Aliás, pela própria Telesp, em 1994, fiz um curso sobre o sistema Unix, o que me permitiu conhecer um pouco melhor o mais antigo sistema operacional estável em uso que se tem notícias. Linus Torvalds já havia lançado o Linux, mas eu somente o viria a conhecer anos depois. O Linux, não o Linus.

Por conta de tudo isso, ainda que continuasse trabalhando na Telesp, para viabilizar a empreitada com os equipamentos que vendia, no 26 de agosto de 94 inaugurei a minha própria empresa: Asa Informática e Sistemas. Mas, por conta dos compromissos que eu viria a assumir mais tarde, já na carreira de direito, sua duração foi de apenas uns dois anos, quando resolvi encerrá-la.


Asa Informática e Sistemas.

Foi também nesse ano, de agosto de 94 a novembro de 94, que desenvolvi mais um trabalho paralelo, também sem registro, desta vez na Vectra, como Instrutor de Informática. Usávamos as dependências de uma escola conveniada e eu ministrava noções de hardware, de software, sistema operacional e Windows 3.11 para algumas turmas de adolescentes. Foi quando aprendi um conceito cuja palavra somente descobriria anos depois: “ensinagem”. Basicamente é quando, ao se permitir o diálogo franco entre aluno e professor, aprendemos tanto quanto ensinamos…

Aqui cabe uma lembrança, um orgulho pessoal… Graças a esse meu conhecimento na área de informática acabei virando uma certa referência para muita gente. Dentre eles um rapazinho curioso, o Alexssandro (e que eu carinhosamente chamava de “Pequeno Gafanhoto”), a quem eu ensinei muita coisa e que mais tarde também viria a estudar direito. Quando de seu trabalho de graduação fui eu quem, informalmente, orientou-o. Até hoje guardo comigo esse trabalho, com sua dedicatória, e que teve como tema e título: “Dos Crimes de Informática: A necessidade do Direito Informático”.

Mas, apesar de tudo, o tempo estava passando, o ano era 1995, eu já estava no quarto ano de Direito e comecei a fazer o estágio obrigatório, todas as sextas, à tarde. E, pensando no futuro que me aguardava, foi quando disse para mim mesmo: “Mim mesmo, é preciso decidir o que você quer da sua vida!” E eu não via sentido em me formar bacharel em direito e continuar ali, naquele trabalho burocrático-administrativo. Sempre mudando de opinião no que dizia respeito ao meu futuro profissional, naquele momento minha cabeça me dizia que era indispensável, no mínimo, ao menos tentar advogar. Mas, ao mesmo tempo, ali na Telesp eu tinha um bom e garantido salário – desde a estabilidade da moeda, com o Plano Real, em julho de 94. Mas o golpe de misericórdia se deu quando, depois de uma entrevista com a dra. Sandra de Poli, Juíza no Terceiro Cartório do Tribunal Regional do Trabalho, fui aprovado como estagiário. Decidi conversar com meu chefe, Wilmon.

– Então. Você sabe que estou fazendo o curso de Direito, certo? Acontece que eu consegui uma oportunidade de estágio e resolvi investir na minha carreira. Existe alguma possibilidade de a Telesp me mandar embora sem justa causa, de modo que eu fique liberado para fazer o levantamento do Fundo de Garantia?

– Adauto, deixa eu lhe explicar uma coisa: a Telesp NÃO manda ninguém embora sem justa causa!

Eu já esperava essa resposta. E como o valor da verba rescisória seria exatamente o mesmo caso eu pedisse demissão ou fosse mandado embora por justa causa e na Carteira de Trabalho não teria nenhuma anotação nesse sentido, decidi pagar pra ver.

– Tãotáintão. Já que é assim, o negócio é o seguinte: a partir da próxima semana não virei mais trabalhar na parte da manhã, pois vou começar um estágio lá na Justiça do Trabalho. E na sexta, como já tenho estágio à tarde na universidade, não trabalharei o dia inteiro, ok?

– Mas assim você vai ser mandado embora!

– Touché!

Ele riu, mas me entendeu – até porque ele também havia se formado em Direito recentemente, mas como tinha muitos anos de casa e um cargo de chefia sequer cogitou em sair da Telesp.

Comecei como Estagiário na Justiça do Trabalho, no Terceiro Cartório do Tribunal Regional do Trabalho, em 19 de junho de 95, ajudando no cartório, atendendo advogados, reclamantes e reclamadas no balcão, auxiliando a juíza em sentenças mais simples – o que duraria até 19 de junho de 96. Na época o prédio ainda era ali no bairro São Dimas, próximo à Catedral, e o Diretor era o Paulinho – gente boa à toda prova!

Nesse meio tempo, dadas as minhas faltas, ao final de cada semana, meu chefe vinha, rindo, me entregar uma “carta de advertência”… Essa viadagem durou uns quinze dias! Chegou um momento em que fui convocado pelo Gerente Regional (acho que era esse o nome do cargo), que me encarou, sério, e disse:

– Muito bem, seu Adauto. O senhor conseguiu. Conversei com a Central e nós vamos mandar o senhor embora. Está bem assim?

Rimos um bocado, conversamos um pouco sobre o futuro e em 6 de julho de 95, antes mesmo de completar dois anos por lá, fui dispensado da Telesp sem justa causa.

E, mais uma vez, estava eu de volta à dureza, com um “salário” de estagiário para sustentar a casa e com um destino incerto pela frente…

Mas essa incerteza do destino já me era familiar e o que eu iria enfrentar a seguir é o que viria a definir meu futuro pelos próximos anos!

(Continua…)