Um estranho no ninho

Depois que se tem filhos, difícil guardar espaço para aquela antiga vida, de livre comum união a dois, de namoricos ainda que em casa, quando se tinha a (falsa?) sensação de que éramos donos do próprio nariz.

E, melhor, da própria cama.

Mas aí veio o primeiro filho.

Veio chegando, tomando seu espaço, tomando nosso tempo, nossa atenção, nosso fôlego, nosso sono. Quando começou a ficar mais crescidinho – e tolamente pensávamos que iríamos ter um pouco mais de volta a vida a dois – eis que começa a engatinhar, logo a andar, levantar à noite, ocupar o vão entre a Dona Patroa e eu, dormir agarradinho, dormir a noite toda. Mas, como tudo passa, ele foi crescendo, foi para o próprio quarto e vislumbramos uma luz no fim do túnel…

E então veio o segundo filho.

Disputando espaço, sendo amamentado, sendo trocado, sendo cuidado, também teve seus perrengues, também foi crescendo, mudamos de casa e, agora num apartamento, tudo menor, tudo mais fácil, tudo mais acessível – inclusive a nossa cama – já engatinhando, já andando, levantando à noite, ocupando o vão entre a Dona Patroa e eu, dormindo agarradinho, dormindo a noite toda. Já não tão certos de que tudo passa, fomos simplesmente gerenciando a situação, pois um dia ele e o irmão se ajustariam no próprio quarto.

Até que veio o terceiro filho.

Já chegou no meio da mudança, do apartamento para a casa, e casa vazia, com bastante espaço, com bastante quintal, não disputou espaço, tomou o seu próprio. Logo engatinhou, logo cresceu, logo andou. Levantou à noite, ocupou o vão entre a Dona Patroa e eu, dormiu agarradinho, dormiu a noite toda. Até que cresceu mais ainda. E cada um dos três foi para seu próprio quarto. E cada um deles não tinha mais necessidade de nós – exceto ele, o caçula, pois em qualquer casa caçula é caçula, e de quando em quando eu ainda perdia meu lugar (pois já passou a ficar difícil os três na cama), evento cada vez mais raro e aquela luz no fim do túnel voltou a brilhar!

Daí os filhotes arranjaram um gato.

Ou melhor, uma gata: a Yuki. Senhora absoluta deste nosso lar. Cujo ninho preferido, adivinhem onde é? Ninguém? Você, aí, da esquerda, que levantou a mão? Isso, isso mesmo! O malfadado vão entre a Dona Patroa e eu!!! Aliás, não só esse. Embaixo, em cima, do lado, empurrando, esfregando; passa pelas cobertas, passa pelos pés, passa pelas cabeças, passa pelo travesseiro, passa dos limites!

E a maior diferença, a GIGANTESCA diferença para com os filhotes é que caso nos mexêssemos no decorrer da noite, eles, quando muito, resmungavam.

ELA. METE. AS UNHAS!

Mas, olha, lhes digo uma coisa: de minha parte até que isso não tem me incomodado tanto. Chega um ponto na vida que a gente atinge a maturidade suficiente para compreender certos aspectos de nossa existência, certos padrões, que estão fadados a estar presentes em nosso viver, de modo a nos ensinar algum tipo de lição, para nos trazer algum tipo de aprendizado. É necessário agudeza de espírito e profunda percepção do mundo ao seu redor para, diante dos sinais, se tornar um ser humano melhor, um ser mais evoluído…

(…)

Quer saber? Mentira. Que se dane a evolução!

Sigo dormindo no sofá da sala.

De apenas dois lugares.


#sósifôdo   #marditagata   #querobeliche

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