Cinta-liga e chicotinho

Este post foi originalmente ao ar em AGO/2005, no finado blog Respira pela Barriga – “Reflexões, aventuras e desventuras de alguém que come com os olhos, fala pelos cotovelos, pensa com o coração e tenta, honestamente, respirar pela barriga”.

Sou a típica moradora low-profile. Quase não transito pelo térreo do meu prédio. Quando passo, estou invariavelmente com pressa. Geralmente saio pela garagem, quase sempre cantando pneu. Nas poucas ocasiões em que cruzo com o porteiro, meus diálogos se limitam a “bom dia” e “obrigada”. Como gosto muito de receber amigos em casa, de vez em quando desço à noite para receber uma pizza, mas mesmo nesses dias é “boa noite e obrigada”. Nada mais. Achava, na minha santa ingenuidade, que era intocável. Errei.

Personagem 1: Marcondes, o porteiro brejeiro. Marcondes é um mulato jeitoso, sorridente e educado. Sempre perfumado e engravatado, tem 5 filhos reconhecidos: 3 meninas e 1 menino com a esposa e outro menino, quase da mesma idade, com a namorada preferida. De dia, dedica-se a seduzir as empregadas do prédio e a dar uma olhada na portaria nas horas vagas.

Personagem 2: a síndica. Uma solteirona taciturna e aposentada de meia idade, que parece ter encontrado um novo sentido na vida: criar burocracias impossíveis e uma muralha de “firewalls” para um simples prédio de classe média, sem qualquer glamour.

Personagem 3: essa que vos escreve. Separada, 2 filhos, 35 anos, pacata, condomínio pago em dia.

Coadjuvantes: os demais porteiros (principalmente os da noite), o zelador (que está no prédio há uns 20 anos), as babás e as empregadas.

Aí, a síndica recém empossada, inebriada pelos eflúvios do poder, resolve aumentar a “segurança” do prédio e “otimizar” o consumo de energia elétrica.

Medida: sensor de presença em todos os andares, na garagem e na portaria. A luz só acende quando o sensor detecta movimento.
Conseqüência: no térreo, os fios do sensor foram ligados na caixa da TV a cabo. De dia, tudo bem. De noite, quando alguém entrava na portaria, a luz acendia e os canais a cabo funcionavam. Quando a pessoa saía, a luz apagava e a TV saía do ar. Levou 10 dias para o técnico entender o que estava acontecendo. E eu perdi um capítulo decisivo de ER!
Outro dia, o sensor da garagem quebrou e todo mundo teve que manobrar “por instrumentos” por dias e dias.

Medida: todo e qualquer prestador de serviço deve ser acompanhado por um morador nas dependências do prédio.
Conseqüência: aí, eu chamo o técnico do fogão e tenho que ir buscar o cara no térreo e trazê-lo até a minha casa. Mesmo que diga, que jure por Deus e por todos os santos para o Marcondes que, sim, eu pedi, efetivamente, um técnico para o fogão. Mesmo que o técnico esteja uniformizado e que porte a carteira funcional da assistência técnica. “Por segurança”, diz a síndica. “Ah, então tá.” Se o técnico do fogão que “eu” chamei for um assaltante, vai se inibir com a minha imponente presença e não assaltará nada. A propósito, quando terminam o serviço, todos os prestadores de serviço descem desacompanhados porque morador nenhum tem saco para acompanhá-los até o térreo.

Medida: todos os funcionários do prédio e funcionários de moradores devem ser devidamente registrados.
Conseqüência: eu e o resto da galera do Mengão tivemos que submeter à Dona Síndica cópias “autenticadas” do RG, CPF e Carteira de Trabalho dos empregados domésticos, inclusive da minha babá, que está comigo há mais de dez anos, bem mais tempo do que a síndica, que se mudou para o prédio há uns dois, no máximo.

Medida: todo visitante deve ser identificado na portaria e apresentar o documento de identidade para cadastramento. Ah, os horários de sua entrada “e” saída são anotados em uma planilha.
Conseqüência: de manhã, quando o Marcondes chega, tem, para seu deleite, um relatório completo do movimento noturno do prédio, que faz questão de partilhar com quem estiver por perto. A coisa funciona mais ou menos assim:

_ Ooooolha, ontem vieram “dois” pro apartamento da Dona Ju. E saíram depois da uma da manhã!

_ Era o barbudo da semana passada? _ pergunta uma empregada, de passagem.

_ Nããããão, Cleuzineide. Eram dois “meninos”. Olha só a data de nascimento. Beeem mais novos que ela! E eles pediram pizza, viu? Olha aqui, o registro do entregador. Quase onze da noite!

_ Ah, essa Dona Ju, depois que se separou… _ emenda o zelador, meneando a cabeça.

_ Justo ela, que parecia tão séria… _ completa a viúva portuguesa do 32.

Detalhe: (informado posteriormente pela minha amiga, Gi) de mulher, eles não pedem qualquer identificação, nem anotam entrada, nem saída.

Dica para assaltar meu prédio: mandem uma mulher.

Meninos, eu vivi:

Aí, uns meses atrás, meu ex-namorado estava em casa e, juntos, esperávamos um amigo, diretor de arte, para discutir um freela meu. Íamos comer uma pizza, os três.

Toca o interfone.

_ Dona Ju…

_ Sim, “porteiro da noite”. Pois não.

_ É… é que tem um rapaz aqui para a senhora…

_ Sim. Quem é?

_ É o “seu” Sérgio.

_ Ok. Pode mandar subir.

_ Mas… mas… é que… o namorado da senhora não está aí?

_ Como assim? COMO ASSIM? COOOOOMMMMOOO ASSSIIIIIMMMMM?
(Quando a vontade era responder:
“_ Está. Vamos fazer uma orgia. Ah, e quando as cabras de cinta-liga, o rapaz de máscara de couro, o travesti de lamê dourado e o meu entregador de ecstasy chegarem, pode mandar subir direto, viu? Nem precisa interfonar.”)

Meu mentor intelectual sugeriu corrompê-los com comida. Disse:

_ Esses porteiros ficam babando com todas aquelas pizzas, sanduíches, comidas chinesas e outras coisas entregues todas as noites nos apartamentos. De vez em quando, compre uma pizza e mande entregar a eles. Você vai ganhar um aliado para toda a vida.

_ O QUÊÊÊÊ? Você está me sugerindo “comprar” o silêncio deles? Como se eu fosse uma criminosa? Como se estivesse fazendo algo errado? Como se devesse satisfações??? Ora, faça-me o favor!!!!

Mas fiquei pensando e acho que tive uma idéia: poderia combinar com “os homens” de deixarem o carro uma quadra antes da minha casa. Aí, eles me ligariam, eu iria buscá-los de carro e os colocaria no porta-malas. Na garagem, só precisaria passá-los para um saco ou mala, para evitar a câmera no elevador. Na saída, faria o mesmo, ao contrário.

Difícil vai ser esconder as cabras de cinta-liga…

Êta mundinho machista, coronelista, chauvinista, de cocô, xixi e meleca! Pronto. Disse.

Nota: Post (re)publicado com o consentimento (até agora) da autora…

3 thoughts on “Cinta-liga e chicotinho

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *