Cacos de vida

E eu aqui, mais uma vez pensando nas ironias que o destino teima em me impor… Letras de músicas, pedaços de filmes, trechos de livros, de estórias e de histórias que li ou vivi, bailam em minha mente, como sempre, num caleidoscópio alucinado que insiste em não manter uma imagem coesa de um futuro certo. Em momentos como esses – como de praxe – me sinto velho, clássico, antigo como as estrelas…

As idéias que a instantes se assenhoravam de minha mente, traçando uma linha reta e decisiva, agora já se tornam fugidias. Enevoadas. É como aquele sonho que tentamos resgatar nos primeiros momentos do despertar: por um milésimo de segundo até conseguimos ver o quadro inteiro, mas quanto mais nos esforçamos para enxergar seus detalhes, mais embaçado se torna, restando em seu lugar apenas uma densa, inexpugnável e avalonesca bruma.

Então saio.

Preciso andar, caminhar, expandir.

Meus pensamentos, meus sentimentos, meus devaneios começam a querer fugir do controle e é necessário espaço para que eles possam galopar em meu entorno. Nada que possa ser contido por quatro paredes…

Me perco sem me perder, trilhando por caminhos que sempre passo mas pelos quais jamais andei.

E penso.

Necessariamente penso.

Furiosamente penso.

Penso no quanto a fuga para a solidão é tão mais fácil de enfrentar. Penso em verdades ignorantes que repetimos tal qual mantra para que nos convençamos da importância de nossa pequenez. Penso no orgulho que permeia a nossa volta e do quanto verdadeiramente nos deixamos contaminar por ele. Damos força ao monstro e permitimos que ele se instale em nossas vidas da maneira que melhor lhe aprouver.

Penso em todo esse ouro de tolos, em sua exuberância, inconstância e falsidade. Penso em todos aqueles mineiros de nuvens que a ele se dedicam, espalhando suas vaidades, certezas, ignorâncias, conceitos e pré-conceitos…

E, pensando em tudo isso, tento formar uma imagem do que realmente seria relevante. Quais as pepitas desprezadas, que jazem ocultas, mas que seriam verdadeiramente capazes de levar seu portador rumo à felicidade?

Não aquela momentânea, nem tampouco a inconstante – mas sim àquela terna, calma e perene.

E, nas minhas andanças por lugar nenhum, do céu começa a cair uma chuva.

Abro-lhe os braços e ofereço-lhe o rosto para recebê-la, abençoada chuva.

Gélida, fina e cortante chuva.

E eis que, no meio das agulhadas que me despertam, uma imagem – mais uma vez e ainda que fragmentada – volta a se formar. E, de lugar algum, músicas antigas, impregnadas em alguma parede d’alma, per si tocam em meus ouvidos. E tudo isso me faz lembrar do imponderável sacrifício que custa para construir essa fortaleza que se chama “família”…

E percebo que todos esses fragmentos estão ali no meu caleidoscópio de vida. Por vezes estilhaçados, na maioria, por minhas próprias mãos. As mesmas mãos que precisam ter a coragem e a ousadia de manejá-lo até que se forme a imagem daquilo que precisa ser. Até que todos os cacos de vida de uma vida inteira assumam a configuração única que somente a mim pertence.

E é – será? – um trabalho árduo.

Garimpar o verdadeiro ouro.

Ainda que se corra o risco dos tolos.

Mas o que é a vida senão um risco?