Anti-Serranas

Estratégia de campanha de Serra deu ‘100%’ errado

Josias de Souza

Todos os planos que José Serra traçara para sucessão de 2010 deram errado. Em consequência, o presidenciável tucano chega à fase do horário eleitoral gratuito, último estágio da campanha, em situação de absoluta desvantagem.

No pior cenário esboçado pelo tucanato, previa-se que Serra iria à propaganda de televisão empatado nas pesquisas com Dilma Rousseff. Deu-se algo mais dramático.

Todos os institutos acomodam Serra atrás de sua principal antagonista. No Datafolha, o fosso é de oito pontos. Vai abaixo um inventário dos equívocos que distanciaram a prancheta do comitê de Serra dos fatos:

1. Chapa puro-sangue: Serra estava convicto de que Aécio Neves aceitaria compor com ele uma chapa só de tucanos. Em privado, dizia que as negativas de Aécio não sobreviveriam a abril. Aceitaria a vice quando deixasse o governo de Minas. Erro.

2. PMDB: O tucanato tentou atrair o PMDB para a coligação de Serra. Nos subterrâneos, chegou-se a levar à mesa a posição de vice. Desde o início, a chance de acordo era vista como remota. Mas o PSDB fizera uma aposta: dividido, o PMDB não entregaria o seu tempo de TV a Dilma. Equívoco.

3. Ciro Gomes: O QG de Serra achava que Ciro levaria sua candidatura presidencial às últimas consequências. Numa fase em que Serra ainda frequentava as pesquisas com dianteira de cerca de 30 pontos, o tucanato idealizou um cenário de sonho.

Candidato, Ciro polarizaria com Dilma a disputa pelo segundo lugar, dividindo o eleitorado simpático ao governo. Mais um malogro.

4. Marina Silva: Serra empenhou-se para pôr de pé, no Rio, a aliança de seus apoiadores (PSDB, DEM e PPS) com o PV de Fernando Gabeira. Imaginou-se que, tonificado, Gabeira iria à disputa pelo governo fluminense com chances de êxito. E o palanque dele roubaria votos de Dilma para Serra e Marina.

Deu chabu. Empurrado por Lula, Cabral é, hoje, candidato a um triunfo de primeiro turno. A vantagem de Dilma cresce no Estado. E Marina subtrai votos de Serra.

5. Sul e Sudeste: O miolo da tática de Serra consistia em abrir boa frente sobre Dilma nessas duas regiões. Sob reserva, Luiz Gonzales, o marqueteiro de Serra, dizia: O Nordeste é importante, mas nossas cidadelas são o Sul e o Sudeste.

Acrescentava: Não podemos perder de muito no Nordeste. E temos de ganhar muito bem no Sul e Sudeste. As duas premissas fizeram água. Ampliou-se a vantagem de Dilma no Nordeste. E ela já prevalece sobre Serra também no Sudeste.

Há 20 dias, Serra batia Dilma em São Paulo e era batido por ela no Rio. Em Minas, a situação era de equilíbrio. Hoje, informa o Datafolha, a vantagem de Dilma (41%) ampliou-se em dez pontos no Rio. Serra (25%) enxerga Marina (15%) no retrovisor.

Em Minas, Dilma saltou de 35% para 41%. E Serra deslizou de 38% para 34%. Em São Paulo, o tucano ainda lidera, mas sua vantagem sofreu uma erosão de sete pontos. Resta, por ora, a “cidadela” do Sul, insuficiente para compensar o Nordeste. Pior: Dilma fareja os calcanhares de Serra também nesse pedaço do mapa.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, a vantagem de Serra caiu, em 20 dias, de 12 pontos para oito. No Paraná, encurtou-se de 15 pontos para sete.

6. Plebiscito: Lula urdira uma eleição baseada na comparação do governo dele com a era FHC. Serra e seu time de marketing deram de ombros. Como antídoto, decidiram promover um confronto de biografias: a de Serra contra a de Dilma.

Entre todos os equívocos, esse talvez tenha sido o mais crasso. Ignorou-se uma evidência. Do alto de sua popularidade lunar, Lula tornou-se o eixo da campanha. Tudo gira ao redor dele.

Lula transferiu votos para Dilma em proporção nunca antes vista na história desse país.

7. Debates e entrevistas: Em sua penúltima aposta, o grão-tucanato previra que Serra, por experiente, daria um baile em Dilma nos confrontos diretos. Não deu.

Reza a cartilha dos marqueteiros que, nesse tipo de embate, o candidato que vai bem não ganha votos. Porém, o contendor que dá vexame sujeita-se à perda de eleitores. Para o PSDB, o vexame de Dilma era certo como o nascer do Sol a cada manhã.

No primeiro debate, promovido pela TV Bandeirantes, o escorregão não veio. Na entrevista ao “Jornal Nacional”, também não. Serra houve-se bem nos dois eventos. Porém, ao esquivar-se do desastre, Dilma como que ombreou-se com ele.

8. Propaganda eletrônica: Começa nesta terça (17) a publicidade eleitoral no rádio e na TV. O comitê tucano vai à sua última aposta. No vídeo, insistir na exposição da biografia do candidato. Serra será vendido como gestor experiente.

Vai-se esgrimir a tese de que Serra –ex-secretário de Estado, ex-deputado, ex-senador, ministros duas vezes, ex-prefeito e ex-governador— está mais apto do que Dilma para continuar o que Lula fez de bom e avançar no que resta por fazer.

Até aqui, o discurso não colou. Na propaganda adversária, o próprio Lula se encarregará de dizer que a herdeira dele é Dilma, não Serra. A julgar pelas pesquisas, o eleitor parece mais propenso a dar crédito ao dono do testamento.

Serra, o anti-social

Luiz Nassif

Bico Veteranos, sobretudo no Senado, reclamam que até hoje a campanha de Serra não convocou nenhuma reunião para engajar as bancadas tucanas. Também é verdade, porém, que o único senador do PSDB a demonstrar no Twitter empenho pela candidatura presidencial do partido é Alvaro Dias (PR).

Silêncio 1 Desabafo de um candidato a governador alinhado à campanha nacional da oposição e bem posto nas pesquisas em seu Estado: “Consigo falar com todo mundo, menos com o meu candidato à Presidência”.

Silêncio 2 O candidato ouviu o conselho de um tucano acostumado com o fuso horário de Serra: “Por que você não experimenta ligar para ele de madrugada?”.

Comentário

Como Ministro da Saúde, Serra mantinha as portas do gabinete fechadas a qualquer reunião. Não recebia Secretários de Saúde, gestores, políticos. No Palácio Bandeirantes, nenhum prefeito conseguiu ser recebido por Serra. Era refratário a reuniões de secretariado, a despachar individualmente com secretários, a receber representantes de qualquer entidade – seja de trabalhadores, empresários ou movimentos sociais. Da Prefeitura, não tenho muitas informações, mas duvido que tenha se reunido uma vez sequer com os sub-prefeitos.

Na campanha, jamais se reuniu para valer com aliados, conselheiros externos, lideranças do PSDB e de partidos aliados. Nunca acatou uma sugestão sequer.

Seu mundo se resume a algumas poucas pessoas do seu círculo íntimo. E vem sua campanha martelar essa questão da experiência política? Será que se esqueceram da definição de política, do papel político da mediação?

Se eleito, como administraria uma sociedade civil que ganhou musculatura e aprendeu a ser ouvida, que passou a se organizar em torno de conferências nacionais (processo que vem desde os anos 90 e ganhou impulso nos últimos anos) ou a participar da elaboração de programas, como em Minha Casa, Minha Vida? Como administraria demandas do agrobusiness e da agricultura familiar, dos estados e municípios, da economia real e da financeira, dos movimentos sociais? Como aprenderia com as críticas, se qualquer arremedo de crítica oxida seus nervos de aço e provoca ou reações infantis (como nas pressões sobre jornalistas) ou travamento de suas ações (como na greve da Polícia Civil e nas enchentes de São Paulo).

Conto urbano

Esse “causo” aconteceu mesmo.

Isso se deu aproximadamente em agosto de 2000. Curiosamente encontrei-o hoje, exatos dez anos depois, nas catacumbas de meu computador, enquanto procurava outros textos antigos…

Será que ainda reflete nossa realidade?

Será que o mundo lá fora mudou?

Ou não?

Concluam por si mesmos…

Após a mais prosaica das atividades – compras de supermercado – estava eu dirigindo por uma larga e iluminada avenida rumo a minha casa, ouvindo uma música antiga no rádio que me levou a um ligeiro devaneio acerca da solidão do ser humano, quando um determinado movimento me chamou a atenção. Duas motos, uma mais potente e outra menor, estavam paradas, à minha direita. O condutor da de trás – uma “lambretinha” – deu um empurrão no rapaz que estava parado a seu lado, com um capacete na mão, e saíram em disparada.

Num desses arroubos em que a gente age primeiro e pensa depois, virei na primeira esquina, voltei, e parei numa rua próxima. Lá vinha o rapaz que havia caído, pálido, olhar triste, e capacete na mão.

– Está tudo bem?

– Tudo bem, fora a moto só levaram dinheiro e documentos.

– Eu vi mesmo que havia algo errado quando aquele rapaz te deu um empurrão e te deixou para trás, segurando o capacete. Que moto era?

– Uma Bis. O cara tinha uma arma, não teve jeito. Foram por ali…

– Opa, espere um pouco, eu não sou herói não. Só vim ver o que é que estava acontecendo. Vamos deixar esse trabalho a quem compete.

Ato contínuo, com o celular na mão, disquei 190. Chama, chama – será que liguei o número certo? – chama, chama – polícia é 190, mesmo não é? – chama, chama – acho que é feriado hoje e não estou sabendo… – chama, chama… desisto.

– Pois é rapaz, parece que está meio difícil. Você mora longe? Não? Vamos, eu te levo.

Deixei o jovem perto de sua casa, não sem antes dar uma verificada se havia alguma viatura próxima a um evento que estava tendo pelo caminho, com trânsito impedido, e tudo mais. Humpf. Somente o pessoal do trânsito (vulgos “marronzinhos”). Estes não resolveriam nada, a não ser que os assaltantes estivessem estacionados em local proibido.

Enquanto descarregava as compras, lamentei pela má sorte do rapaz. Provavelmente os assaltantes, em sua moto mais potente, ficaram lado a lado e apontaram a arma. Como diz o ditado, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Comeu. Depois disso, pelo sim, pelo não, chequei novamente os cadeados do portão, e se as portas da cozinha e da sala estavam bem fechadas.

Essa pequena história – que aconteceu mesmo, na última quinta-feira, não é apenas mais um conto do Pantaleão – corresponde a uma pequena faceta de nossa sociedade atual, faceta essa que podemos decompor nas mais variadas conclusões.

Uma delas diz respeito à inevitável conclusão de que, cada vez mais, estamos ficando aprisionados, levantando muros e reforçando grades, atrás das quais ficamos trancafiados, enquanto que as “feras” de nossa selva dominam as ruas, soltas, imbatíveis, impuníveis…

Já noutro aspecto desse prisma distorcido temos a patética constatação de que, quando ousamos colocar os pés fora de nossos “bunkers”, estamos entregues à própria sorte, sem poder contar com policiamento que nos proteja ou, ainda, que nos socorra mesmo após passado o perigo.

Por fim, mas não por último, quando esse jovem desconhecido, juntamente com seu capacete – que é o que lhe sobrou – fizer seu boletim de ocorrência (se é que já não saiu com parentes e amigos para uma perigosa caçada), passará a fazer parte das estatísticas policiais, políticas, administrativas e governamentais, onde vivem constatando o aumento da criminalidade, do índice de furtos, roubos e assaltos, ou outra coisa óbvia qualquer, e, certamente, concluirão que é necessário investir mais em viaturas (que não chegam), em aparelhos (que não funcionam), em armamento (retrógrado), ou coisa que o valha.

Portanto, parabéns rapaz, onde quer que você esteja!

A partir de agora, de mero jovem desconhecido, você conquistou seus 15 minutos de fama – provavelmente menos – e fez jus ao direito de integrar as grossas fileiras das estatísticas brasileiras.

E de capacete na mão.

Fado Tropical

Então vocês devem estranhar este velho metaleiro que vos tecla falando de coisas tão musicalmente singelas quanto um “fado”.

Pois é.

Mas sou assim mesmo…

O que me encanta é a musicalidade e a genialidade da canção, não importa onde quer que se encontrem. Tenho alguns pré-conceitos acerca de alguns gêneros musicais específicos – mas se, de repente, surgir alguma coisa interessante e cativante, por que não?

Neste caso a “brincadeira” do Chico Buarque fica por conta da mistura muito bem feita e rimada de elementos nacionais com elementos lusitanos (fora o eventual sarcasmo…), construindo toda uma pátria única e fictícia que atenderia ambas as nações. E é esse, na minha opinião, o maior encanto dessa música Fado Tropical.

Basta clicar no “play” aí embaixo, executar a música e acompanhar a letra. Divirtam-se!

 
Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro Abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Além-Tejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

“Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa”

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial