30 nov 2007 - 12:00  

Organograma de um escritório de advocacia

E já que tiramos o dia pra falar dessa raça (na qual me incluo), segue mais uma:

O SÓCIO MAJORITÁRIO: Sempre de bom humor, o Sócio Majoritário ganha rios de dinheiro explorando o trabalho escravo dos outros componentes da pirâmide social do escritório. Graças à sua reputação de excelente jurista, o escritório conquistou inúmeros clientes trilhardários, que mal sabem que ele só assina as petições e fica lendo jornal e fazendo contatos na sua mega sala GLX. Passa o tempo viajando pelo mundo em “congressos” com a família e pendura todo diploma que ganhou em suas andanças pelas paredes do escritório para impressionar a moçada. Seu maior prazer é prometer a direção do escritório aos sócios minoritários.

O SÓCIO MINORITÁRIO: Misteriosamente, sempre trata o Sócio Majoritário de “Pai”, “Tio” ou “Benhê”. De sobrenome idêntico ao que dá nome ao escritório, o Sócio Minoritário pega todos os consultivos que o Majoritário não tem saco, nem tempo para entender e delega tudo aos Advogados Associados, que por sua vez passam tudo para os estagiários que: 1) claro, nunca tiveram aquela matéria; 2) nunca tiveram aquela matéria bem dada; 3) faltaram naquela aula; 4) como sabem a matéria, têm noção de que os advogados pretendem uma heresia jurídica. O Sócio Minoritário larga o escritório às 18:00h para fazer as aulas da pós, com o orientador arranjado pelo “Papi”. Seu maior prazer é prometer consultivos para os pobres Associados que nunca tiveram e nem vão ter contato físico com os clientes, e esperar a morte do Sócio Majoritário.

O ADVOGADO ASSOCIADO: Dá um duro danado no escritório: hora extra não remunerada, leva trabalho para o fim de semana, tem stress, estafa, início de calvície e impotência sexual. Leva o trabalho para os sócios analisarem e assinarem tudinho. Em troca, ganha muito bem e, como perdeu os amigos, a mulher e os filhos, sobra uma puta grana. Não tem a menor idéia do que fazer com toda a bufunfa no seu tempo livre: a hora do almoço. Sua maior diversão é prometer passar “umas coisas” para os recém efetivados e rir das piadas infames de todos os sócios.

A SECRETÁRIA: Essa funcionária dedicou os últimos 30 anos (entregando a sua saudosa juventude) em “servir” o Sócio Majoritário. É figura intocável no escritório, assim como as bibliotecárias boazudas que quando completam 26 anos são sumariamente demitidas. Seu maior prazer é puxar o saco dos sócios e tornar a vida de todos os outros um inferno.

O RECÉM EFETIVADO – O ESTAGIÁRIO COM OAB: Normalmente é o mais elegante do escritório e se acha “O” advogado, enchendo o saco dos amigos com as “causas” lá do escritório. Despreza os outros estagiários e, para mostrar seu enorme status, manda os pobrezinhos para os piores buracos possíveis: fóruns do interior, Justiça Federal, elevadores da Fazenda Pública Estadual, até busca e apreensão o filho da mãe manda. Tem certeza de que pode fazer muito melhor o trabalho dos Advogados Associados. Sua grande felicidade é dizer aos novatos, com ares de experiência, que “é assim mesmo” ou “antes era pior”.

O ESTAGIÁRIO NOVATO: A vida dele é tão miserável que nem precisava fazer turismo na cidade de Canas. Só pega serviços externos o dia inteiro, se ferra na faculdade. Seu conhecimento de pontos de ônibus é notável e é capaz de recitar na ordem todas as estações da linha “Corinthians-Itaquera”. Seu maior prazer é contar para os amigos que está “aprendendo muito”.




16 Comentários

  • Este post será devidamente divulgado! Bom demais!

  • Fique à vontade, Guilherme! Esses textos estão aqui para isso mesmo!

  • Tem também o sócio maiorotário, que é o sócio minoritário não parente. Tem a falsa sensação de que é dono, mas trabalha como empregado, sem direitos trabalhistas.

    Tem a EG (estagiária gostosa). Trata-se de ser do sexo feminino, desprovida de conhecimentos jurídicos e outras habilidades técnicas, defeito compensado pelo excesso de atributos físicos e estéticos. São normalmente utilizadas para despachar com juízes homens heterossexuais e juízas de gênero vacilante. Em um escritório de um colega, o apelido da garota que exerce essa função é LIMINAR. Ela sempre retorna com a liminar concedida, ainda que o objeto da ação seja a SEPARAÇÃO DOS PODERES.

  • Legal, André! E assim vamos completando esse quadro (nada fictício) de escritórios de advocacia…

  • [...] Seu maior prazer é contar para os amigos que está “aprendendo muito” e que seu chefe já o elogiou na frente de um Associado. Esta relação circula há vários anos na internet, sem autoria atribuída. O acréscimo referente ao “advogado maiorotário” é de autoria do advogado André Mansur, nos comentários de um post do blog Legal.adv.br. [...]

  • Oi André, o pior que é assim mesmo, sempre.
    E o Brasil continua desse jeito, por essas e outras…..

  • Lucilene, se pelo mundo afora já não é fácil, nessa área então, onde (INfelizmente, diga-se de passagem) a maioria dos doutÔres adEvogados vivem de aparência, chegamos ao cúmulo do ridículo!

  • Sou estudante de direito e tenho certeza de que é exatamente como foi descrito, o mundo de um escritorio de advocacia, mas mesmo sabendo de todas essas “dificuldades”, quero pertencer a essa classe de profissionais tão inteligentes e criativos.

  • Pois é, Alexandre. Sim, existem facetas tais como as descritas no post – o que acabam se tornando “verdades” para quem de fora vê os advogados. Mas acho que o maior mérito – e disso não podemos nos esquecer – é aprender a levar a vida com bom humor, sabendo, inclusive, rir de si mesmo! Pois, na minha opinião, isso denota a segurança de um profissional que não está nem aí para as críticas alheias…

  • No organograma ou no fluxograma, preciso da localização do estagiário nos determinados desenhos de estrutura de uma empresa.

    Por favor, se puder me mandem um modelo.
    Grata.

  • Carissima Renata: ?????????????????????????

  • [...] Seu maior prazer é contar para os amigos que está “aprendendo muito” e que seu chefe já o elogiou na frente de um Associado. Esta relação circula há vários anos na internet, sem autoria atribuída. O acréscimo referente ao “advogado maiorotário” é de autoria do advogado André Mansur, nos comentários de um post do blog Legal.adv.br. [...]

  • Ótimo texto, durante toda minha vida de advocacia, sempre notei extamente esta situação, e acrescento que alguns escritórios titulam o estagiário de semovente

  • Sérgio, boa essa! E, creio que além de semovente, fungível também…

  • Prezados,

    muito me espanta saber que o textículo apresentado seja de autoria de um advogado; espanta-me ainda mais saber que outro advogado o está disseminando, mesmo que com um “quê” de humorista sem graça; mas o que realmente me espanta são as declarações dos demais, pois se deveras conhecessem a realidade de um escritório de advocacia, principalmente no que tange a magna profissão de SER advogado e não do ESTAR advogado, se insurgiriam em contraponto. Observa-se que estamos mesmo no Brasil, país em que mais fácil rir da própria realidade do que se insurgir para melhorá-la.

    Condescendentemente,
    SC.

  • Caríssimo(a) colega… Esse textículo (e aí você já percebe uma quase tentativa de humor em seu próprio texto) é ótimo pelo simples fato de demonstrar que advogados podem, sim, descer de seus usuais pedestais de arrogância pelos quais são conhecidos.

    A “magna profissão” a qual avoca é tão magna quanto qualquer outra. Não somos melhores ou piores que um médico, um lixeiro, um físico nuclear ou uma recpcionista. Cada qual tem a sua própria magna profissão e deve exercê-la com zelo e afinco.

    E, cá entre nós, qual o problema de rir enquanto – paralelamente – insurgimo-nos para melhorar nossa realidade? Esta nossa vida é muito curta para ser totalmente levada a sério! Façamos cada qual nosso melhor e, no meio do caminho, tomemos umas quatro ou doze cervejas e contemos piadas politicamente incorretas nesse nosso país que cada vez mais procura instituir brigadas do “politicamente correto”!

    Deste condescendido escriba,

    AA

    :D

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