Organograma de um escritório de advocacia

E já que tiramos o dia pra falar dessa raça (na qual me incluo), segue mais uma:

O SÓCIO MAJORITÁRIO: Sempre de bom humor, o Sócio Majoritário ganha rios de dinheiro explorando o trabalho escravo dos outros componentes da pirâmide social do escritório. Graças à sua reputação de excelente jurista, o escritório conquistou inúmeros clientes trilhardários, que mal sabem que ele só assina as petições e fica lendo jornal e fazendo contatos na sua mega sala GLX. Passa o tempo viajando pelo mundo em “congressos” com a família e pendura todo diploma que ganhou em suas andanças pelas paredes do escritório para impressionar a moçada. Seu maior prazer é prometer a direção do escritório aos sócios minoritários.

O SÓCIO MINORITÁRIO: Misteriosamente, sempre trata o Sócio Majoritário de “Pai”, “Tio” ou “Benhê”. De sobrenome idêntico ao que dá nome ao escritório, o Sócio Minoritário pega todos os consultivos que o Majoritário não tem saco, nem tempo para entender e delega tudo aos Advogados Associados, que por sua vez passam tudo para os estagiários que: 1) claro, nunca tiveram aquela matéria; 2) nunca tiveram aquela matéria bem dada; 3) faltaram naquela aula; 4) como sabem a matéria, têm noção de que os advogados pretendem uma heresia jurídica. O Sócio Minoritário larga o escritório às 18:00h para fazer as aulas da pós, com o orientador arranjado pelo “Papi”. Seu maior prazer é prometer consultivos para os pobres Associados que nunca tiveram e nem vão ter contato físico com os clientes, e esperar a morte do Sócio Majoritário.

O ADVOGADO ASSOCIADO: Dá um duro danado no escritório: hora extra não remunerada, leva trabalho para o fim de semana, tem stress, estafa, início de calvície e impotência sexual. Leva o trabalho para os sócios analisarem e assinarem tudinho. Em troca, ganha muito bem e, como perdeu os amigos, a mulher e os filhos, sobra uma puta grana. Não tem a menor idéia do que fazer com toda a bufunfa no seu tempo livre: a hora do almoço. Sua maior diversão é prometer passar “umas coisas” para os recém efetivados e rir das piadas infames de todos os sócios.

A SECRETÁRIA: Essa funcionária dedicou os últimos 30 anos (entregando a sua saudosa juventude) em “servir” o Sócio Majoritário. É figura intocável no escritório, assim como as bibliotecárias boazudas que quando completam 26 anos são sumariamente demitidas. Seu maior prazer é puxar o saco dos sócios e tornar a vida de todos os outros um inferno.

O RECÉM EFETIVADO – O ESTAGIÁRIO COM OAB: Normalmente é o mais elegante do escritório e se acha “O” advogado, enchendo o saco dos amigos com as “causas” lá do escritório. Despreza os outros estagiários e, para mostrar seu enorme status, manda os pobrezinhos para os piores buracos possíveis: fóruns do interior, Justiça Federal, elevadores da Fazenda Pública Estadual, até busca e apreensão o filho da mãe manda. Tem certeza de que pode fazer muito melhor o trabalho dos Advogados Associados. Sua grande felicidade é dizer aos novatos, com ares de experiência, que “é assim mesmo” ou “antes era pior”.

O ESTAGIÁRIO NOVATO: A vida dele é tão miserável que nem precisava fazer turismo na cidade de Canas. Só pega serviços externos o dia inteiro, se ferra na faculdade. Seu conhecimento de pontos de ônibus é notável e é capaz de recitar na ordem todas as estações da linha “Corinthians-Itaquera”. Seu maior prazer é contar para os amigos que está “aprendendo muito”.

16 thoughts on “Organograma de um escritório de advocacia

  1. Tem também o sócio maiorotário, que é o sócio minoritário não parente. Tem a falsa sensação de que é dono, mas trabalha como empregado, sem direitos trabalhistas.

    Tem a EG (estagiária gostosa). Trata-se de ser do sexo feminino, desprovida de conhecimentos jurídicos e outras habilidades técnicas, defeito compensado pelo excesso de atributos físicos e estéticos. São normalmente utilizadas para despachar com juízes homens heterossexuais e juízas de gênero vacilante. Em um escritório de um colega, o apelido da garota que exerce essa função é LIMINAR. Ela sempre retorna com a liminar concedida, ainda que o objeto da ação seja a SEPARAÇÃO DOS PODERES.

  2. Lucilene, se pelo mundo afora já não é fácil, nessa área então, onde (INfelizmente, diga-se de passagem) a maioria dos doutÔres adEvogados vivem de aparência, chegamos ao cúmulo do ridículo!

  3. Sou estudante de direito e tenho certeza de que é exatamente como foi descrito, o mundo de um escritorio de advocacia, mas mesmo sabendo de todas essas “dificuldades”, quero pertencer a essa classe de profissionais tão inteligentes e criativos.

  4. Pois é, Alexandre. Sim, existem facetas tais como as descritas no post – o que acabam se tornando “verdades” para quem de fora vê os advogados. Mas acho que o maior mérito – e disso não podemos nos esquecer – é aprender a levar a vida com bom humor, sabendo, inclusive, rir de si mesmo! Pois, na minha opinião, isso denota a segurança de um profissional que não está nem aí para as críticas alheias…

  5. No organograma ou no fluxograma, preciso da localização do estagiário nos determinados desenhos de estrutura de uma empresa.

    Por favor, se puder me mandem um modelo.
    Grata.

  6. […] Seu maior prazer é contar para os amigos que está “aprendendo muito” e que seu chefe já o elogiou na frente de um Associado. Esta relação circula há vários anos na internet, sem autoria atribuída. O acréscimo referente ao “advogado maiorotário” é de autoria do advogado André Mansur, nos comentários de um post do blog Legal.adv.br. […]

  7. Ótimo texto, durante toda minha vida de advocacia, sempre notei extamente esta situação, e acrescento que alguns escritórios titulam o estagiário de semovente

  8. Prezados,

    muito me espanta saber que o textículo apresentado seja de autoria de um advogado; espanta-me ainda mais saber que outro advogado o está disseminando, mesmo que com um “quê” de humorista sem graça; mas o que realmente me espanta são as declarações dos demais, pois se deveras conhecessem a realidade de um escritório de advocacia, principalmente no que tange a magna profissão de SER advogado e não do ESTAR advogado, se insurgiriam em contraponto. Observa-se que estamos mesmo no Brasil, país em que mais fácil rir da própria realidade do que se insurgir para melhorá-la.

    Condescendentemente,
    SC.

  9. Caríssimo(a) colega… Esse textículo (e aí você já percebe uma quase tentativa de humor em seu próprio texto) é ótimo pelo simples fato de demonstrar que advogados podem, sim, descer de seus usuais pedestais de arrogância pelos quais são conhecidos.

    A “magna profissão” a qual avoca é tão magna quanto qualquer outra. Não somos melhores ou piores que um médico, um lixeiro, um físico nuclear ou uma recpcionista. Cada qual tem a sua própria magna profissão e deve exercê-la com zelo e afinco.

    E, cá entre nós, qual o problema de rir enquanto – paralelamente – insurgimo-nos para melhorar nossa realidade? Esta nossa vida é muito curta para ser totalmente levada a sério! Façamos cada qual nosso melhor e, no meio do caminho, tomemos umas quatro ou doze cervejas e contemos piadas politicamente incorretas nesse nosso país que cada vez mais procura instituir brigadas do “politicamente correto”!

    Deste condescendido escriba,

    AA

    😀

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