Sobre a “arte contemporânea”

Podem chamar de falta de inspiração, de falta de criatividade ou seja lá o que for. Mas, muitas vezes, outro alguém já consegue descrever de uma maneira tão exata o que eu próprio sinto e penso, que nada mais resta senão transcrever suas palavras. Essa foi de autoria do do Mino Carta, sob o título “Caravaggio comenta a arte contemporânea”:

Desta vez liguei para Michelangelo Merisi, aquele moço ardido que todos chamam de Caravaggio. Há muito tempo vive em Roma, já foi protegido por cardeais e templários, hoje leva a vida com alguma dificuldade e muito orgulho, mora na igreja de San Carlo e furou o teto da casa alugada pra que a luz chova de cima para baixo em busca da iluminação ideal para o chiaroscuro. Parece que o senhorio vai processá-lo por causa do furo, mas isso é o de menos. Ligo para perguntar se ele viu no Estadão de ontem a foto de Edmar Cid Ferreira sentado graciosamente no braço do sofá de couro, pezinhos frivolamente calçados sobre a almofada, diante de Hannibal. Pergunta: “Que Hannibal?” Explico: o célebre quadro de Basquiat. “Que Basquiat?” Volto à carga, o pintor abstrato americano. Ou será pop? Não sei ao certo, contudo o quadro, uma tela, vale bastante, fala-se em 800 mil dólares, deve ser despiste. “Por menos, infinitamente menos – diz Caravaggio -, pintei as três telas da Capela Contarelli, em San Luigi dei Francesi, você sabe, a história de São Mateus, e ainda tive de repetir a tela central, o cardeal não gostou do pé do santo descalço, sujo de lama, e do anjo que lhe guiava a mão, como a indicar a incapacidade do santo de escrever o Evangelho sozinho.” Tudo bem, mas que acha do Basquiat? “Gostaria de ver.” Mandei pela internet, voltamos a conversar daí a pouco. “Chegou um borrão, acho bom mandar de novo”, diz Caravaggio. É um borrão mesmo, aí é que está a graça, a evocação de um discurso direto sem deixar de ser confuso, enigmático, a retratar a secreta essência… Ele me interrompe: “Pára, pára pelo amor de Deus, não entendo nada disso”. Tal é a arte contemporânea. “Arte? Que arte?” Pois é, você já viu Miró, Mondrian, De Kooning? “Não tenho tempo para ver os outros, tenho de cuidar do meu, mas um destes já passou diante dos olhos, talvez tenha sido em sonho, melhor, pesadelo, levei um susto daqueles”. Quer dizer que… “Deixa pra lá e me larga neste meu tempo remoto, não dispomos de torneiras e válvulas Hidra, no entanto, se o assunto é arte, nós é que sabemos onde ela mora, pobre mundo este seu, perdeu o senso”.

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