“Kassab quer Vista nos telecentros”

Essa eu vi no Link de segunda-feira passada. Coisas como essas me deixam indignado e me fazem duvidar (AH, VÁ!) da seriedade dessa nossa política brasileira. Enquanto todo o mundo existente além das fronteiras da intelligentsia da Elite tenta caminhar pelas próprias pernas em busca de uma alternativa viável para informatização e integração digital da sociedade (tanto a mais quanto a menos favorecida), dá-se um gigantesco passo para trás. Já falei mais de uma vez aqui nesse cantinho que um dos grandes males dessa corrida armamentista digital é que as empresas lançam programas que demandam a atualização do software, que, por sua vez, necessitam de equipamento (hardware) mais potente, o que vai funcionar razoavelmente até o lançamento de um novo programa por essas mesmas empresas, quando, então, começa tudo de novo, num ciclo vicioso sem fim.

Dentre outros problemas isso gera um inconsequente lixo informático, que poderia, a priori, até ser reutilizado. Mas não o é. O quase-xará Dalton (conforme anunciado pelo sempre antenado Bicarato), da comunidade Metareciclagem, fez um estudo de peso a respeito desse lixo eletro-eletrônico, cujo arquivo PDF pode ser lido (e salvo) nesse link aqui.

O principal mérito do software livre, nas palavras de \Sérgio Amadeu, é que “com os programas livres há contato com vários softwares e aprende-se a ‘aprender’ qualquer outro”. Que o digam “minhas meninas” que, de um momento para outro viram-se na necessidade de utilizar o Linux (conforme já contei aqui). Sim, e vão indo muito bem, obrigado.

Mas, enfim, eis a notícia sobre a qual me referi no título:

Há polêmica à solta nos telecentros de São Paulo. Sem muito alarde, há duas semanas, a Prefeitura e a Microsoft assinaram um protocolo de intenções que prevê a instalação do sistema operacional Windows Vista nos PCs dos 178 atuais pontos municipais de acesso à internet, além dos 122 que devem ser inaugurados até 2008. Até agora, os micros só usavam programas de código aberto, que não exigem o pagamento de licenças.

Pelo acordo, confirmado ao Link pela Prefeitura e pela Microsoft, o Windows Vista seria doado aos telecentros, sem custos. Entretanto (nota: fui eu que grifei…), o município arcaria com a atualização dos equipamentos, já que o Vista exige PCs com configuração mais “robusta”. Segundo estimativa do Link com dados da Prefeitura, seria preciso um investimento de R$717,5 mil, o mesmo que serviria para a compra de micros e servidores para 35 telecentros.

A polêmica começa aí. Segundo o sociólogo Sérgio Amadeu, responsável pela implementação dos telecentros na cidade na gestão Marta Suplicy (PT), e um dos críticos do projeto, o valor seria melhor investido se colocado na ampliação dos telecentros ou na melhoria do serviço.

“Estão mexendo numa conquista, a independência, pois não é preciso pagar pelo software. No futuro, quando o Vista ficar obsoleto, o governo poderá ter de pagar pela atualização do Windows e, de novo, dos equipamentos”, diz ele. “Seria melhor gastar com treinamento de instrutores, para desenvolver atividades educativas.”

A principal justificativa da Prefeitura para o projeto é a inclusão de deficientes visuais. Segundo o coordenador de Inclusão Digital do município, Waldemar Ferreira Net, os deficientes não se acostumam ao Linux. “Não há softwares livres bons para eles.” Outro motivo, diz, é que, com o Linux, os jovens não se preparam para o mercado de trabalho. “As empresas usam Windows. Vamos dar cursos.”

Segundo o coordenador da Prefeitura, o software livre não será abandonado. “Vamos permitir ao usuário escolher se quer o Windows ou o Linux.”

A Microsoft faz coro com a Prefeitura. “Temos experiência na área de deficiência. E ter contato com os programas da Microsoft é importante para conseguir um emprego”, diz o diretor de Investimentos Sociais da empresa, Rodolfo Fucher.

O acordo, segundo a Microsoft, prevê também a doação de licenças do pacote Office. Para a Prefeitura, entretanto, isso não está claro. “O termo não diz isso explicitamente. Mas, se não for doado, cancelamos o projeto”, diz Ferreira Neto.

(Interlúdio: o Office é o pacote que contém, dentre outros, os programas de processador de textos e planilha eletrônica, ou seja, o principal “motivo” para “conseguir um emprego” nas empresas que usam Windows…)

Para poderem rodar o Vista, 60% dos servidores – que permitem aos 20 PCs de cada centro funcionar – precisarão ser trocados por um modelo com 2 gigabytes (GB) de memória RAM. Hoje, a maioria tem 1 GB. O custo para o município: R$267,5 mil. Também será instalado um micro com Vista e com software para deficientes visuais em cada telecentro. O custo: R$450 mil. “A verba já está prevista para 2008”, diz Ferreira Neto.

Para Amadeu, as alegações da Prefeitura e da Microsoft não fazem sentido. “A Prefeitura poderia contactar a comunidade de software livre para fazer programas para deficientes. Assim, poderia disponibilizá-los não em apenas um, mas em todos os micros de cada telecentro”.

Ele também não vê sentido nos cursos de Windows. “Com o Windows, você é treinado a usar um só tipo de software. Com os programas livres, há contato com vários softwares e aprende-se a ‘aprender’ qualquer outro”, diz. “Além disso, o Vista é mais suscetível a vírus e, por ser mais pesado, deixará a rede lenta.” A Microsoft diz ter desenvolvido uma solução para proteger os micros de vírus.

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