Stanislaw Ponte Preta, pai do FEBEAPÁ

Talvez, se vivo fosse, e perguntassem-lhe acerca dessa atribuída paternidade com relação ao FEBEAPÁ, seria bem capaz de responder que pai seria somente em função do reconhecimento em cartório, mas a maternidade estaria muito bem distribuída entre as inúmeras donzelas de vida fácil (FÁCIL?) existentes por aí.

Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do jornalista Sérgio Porto, cunhou de maneira indelével no imaginário brasileiro o termo FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País. Em plena época da ditadura – e burlando de modo romancesco a censura que então reinava – ele conseguiu reunir em sua obra as mais variadas pérolas do jornalismo brasileiro.

Millôr Fernandes, amigo íntimo do autor, no prefácio de uma reedição de 2006 conta um pouco sobre essa figura ímpar, asseverando seu bom humor à toda prova: “Ele ria, saudável, e continuava recortando, no violento sol da praia, pedaços dos jornais que lia sem parar, aproveitando o tempo. Pois era, como quase todos os humoristas brasileiros, um terrível trabalhador braçal. (…) Tinha uma cultura surpreendente para a sua aparente leveza intelectual e os textos que assinava eram não só extraordinariamente bem escritos como humor, mas também tecnicamente, seu conhecimento formal da língua era bom, a ortografia precisa, até a datilografia era cuidada. De vez em quando, porém, a vida o solicitava demais e ele não tinha dúvida: mandava à merda a técnica, o cuidado, às vezes até a originalidade, porque o dia só tem 24 horas e a vida, como ficou provado, apenas 45 anos.”

De fato. Em 1968, com apenas 45 anos de idade, faleceu Sérgio Porto. Um sujeito que trabalhou duro, sob o lema de que o uísque de nossas noites é ganho com o suor de nossos dias…

Mas o FEBEAPÁ resiste bravamente. Sem sinal de esmorecer. Talvez já existisse desde as mais antigas garatujas ancestrais rabiscadas nas cavernas, revelando desde então a tosca capacidade do ser humano de cometer asneiras. Tanto faladas quanto escritas. Já nos dias de hoje, com o advento da Internet, essa capacidade assumiu proporções praticamente infinitas.

Mas a obra de Stanislaw (Santa Intimidade, Batman!), apesar dos mais de quarenta anos que nos separam dos eventos originais, permanece surpreendentemente atual. Vejam só:

Era o IV Centenário do Rio e, apesar da penúria, o Governo da Guanabara ia oferecer à plebe ignara o maior bolo do mundo. Sugestão do poeta Carlos Drummond de Andrade, quando soube que o bolo ia ter 5 metros de altura, 5 toneladas, 250 quilos de açúcar, 4 mil ovos e 12 litros de rum: “Bota mais rum”.

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Abril, mês que marcava o primeiro aniversário da “redentora”, marcou também uma bruta espinafração do Juiz Whitaker da Cunha no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, que enviara seis ofícios ao magistrado e, em todos os seis, chamava-o de “meretríssimo”. Na sua bronca o juiz dizia que “meretíssimo” vem de mérito e “meretríssimo” vem de uma coisa sem mérito nenhum.

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Quando se desenhou a perspectiva de uma seca no interior cearense, as autoridades dirigiram uma circular aos prefeitos, solicitando informações sobre a situação local depois da passagem do equinócio. Um prefeito enviou a seguinte resposta, à circular: “Doutor Equinócio ainda não passou por aqui. Se chegar será recebido como amigo, com foguetes, passeata e festas.”

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No nordeste de Minas a cidade de Itaboim, que fica à beira da estrada Rio-Bahia, viria para o noticiário depois que o prefeito local plantou lindas e tenras palmeiras para enfeitar a estrada, e a Oposição – com inveja – soltou 100 cabritos de madrugada, que jantaram as palmeiras.

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Até o DASP, repartição criada para cuidar dos quadro de servidores da Nação, consumindo para isso bilhões de cruzeiros anualmente, nomeava para a coletoria de São Bento do Sul dois funcionários que já tinham morrido havia anos. Em compensação, para chefiar seus próprios serviços em Santa Catarina, o DASP nomeava um coitado que estava aposentado há três anos, internado num hospício de Florianópolis.

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Foi então que estreou no Teatro Municipal de São Paulo a peça clássica “Electra”, tendo comparecido ao local alguns agentes do DOPS para prender Sófocles, autor da peça e acusado de subversão, mas já falecido em 406 a.C.

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Nas prefeituras municipais é que o Festival se espraiava com maior desembaraço: o prefeito Tassara Moreira, de Friburgo (RJ), inaugurava um bordel na cidade “para incentivar o turismo”.

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Julho começava com a adesão do Banco Central à burrice vigente, baixando uma circular, relativa ao registro de pessoas físicas, na qual explicava: “Os parentes consanguíneos de um dos cônjuges são parentes por afinidade do outro; os parentes por afinidade de um dos cônjuges não são parentes do outro cônjuge; são também parentes por afinidade da pessoa, além dos parentes consaguíneos de seu cônjuge, os cônjuges de seus próprios parentes consanguíneos”.

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Em  Campos  ocorria  um  fato  espantoso:  a  Associação  Comercial  da  cidade  organizou  um  júri  simbólico  de Adolph Hitler, sob o patrocínio do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito. Ao final do julgamento Hitler foi absolvido.

Só pra que não passe em branco: muito tempo atrás eu tinha uma das edições do FEBEAPÁ. Na minha recente viagem à Capital encontrei numa livraria a coletânea dos três primeiros livros, tudo numa única obra.

Não tive dúvidas ou remorso.

Comprei-o na mesma hora!

4 thoughts on “Stanislaw Ponte Preta, pai do FEBEAPÁ

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